República da Abecásia, mais um dos países que não existem?

Depois de uma rápida passagem por Tbilisi, capital da Geórgia, pegamos outro trem noturno, até Zugdidi, no oeste do país. Mais uma viagem longa em um trem lento. Chegamos o dia ainda não havia amanhecido e buscamos transporte até a fronteira. Bem, fronteira na pratica, pois na teoria a Geórgia considera a Abecásia como parte do seu território. É um país de facto independente, mas com reconhecimento limitado, mais um dos “Países que não existem”.

A região passou por diversos domínios, existiam principados menores fazendo parte de reinos maiores. Politicamente a Georgia sempre teve uma influência muito grande na região, mas etnicamente e linguisticamente o povo de lá é mais ligado aos seus vizinhos do norte, no Cáucaso russo. Como colapso da URSS a Abecásia quis ser um país, e não somente um território da Georgia.

Chegando próximo do rio Igur, um pequeno posto de controle da Georgia. Quase passamos despercebidos mas nos chamaram e anotaram o número do nosso passaporte. Carroças faziam o transporte até o outro lado, mas fomos caminhando pela pequena estrada e depois por uma longa ponte, onde lá no fundo já era possível avistar uma bandeira da República da Abecásia e barreiras do exército.

Ponte Georgia x Abecásia

Ponte Georgia x Abecásia

Meia dúzia de pessoas formavam uma fila, uns se encostavam na pequena guarita, ao lado de uma cancela fechada. A fronteira ainda não tinha aberto,  esperamos um tempo por ali, só fantasiando como seria do outro lado. Quando liberados, andamos pelos corredores de grade e arame farpado até o controle de passaporte em si. Na nossa vez, o oficial perguntava em um inglês sofrível detalhes da nossa viagem. Ele falava alto, quase que gritando, como que se desta forma fossemos entender melhor. Eu tinha anotado uns nomes de hotéis, mas o que falei não ficava bem no centro da cidade e ele ficava fazendo mais perguntas pois a resposta não tinha sido muito precisa.

Fronteira

Amanhecer na fronteira

fronteira

Primeiro controle Abecásia

Imigração feita, fomos negociar um transporte. Existem duas opções: Um táxi direto ou lotação até Gali não muito longe dali, e outra até Sukhumi, capital da Abecásia. Negociamos o valor com um taxista, conseguimos outros passageiros para dividir, e desta forma o preço não ficou muito mais alto do que se fizéssemos em etapas. Já tínhamos um pouco de Rublos russos, moeda utilizada lá, o que facilitou bastante, pois se não existe nenhum comercio na fronteira, imagine uma casa de cambio. A Abecásia tem sua própria moeda, o Apsar, mas é basicamente figurativo, o Rublo que é a moeda corrente.

Fomos percorrendo a estrada, parecia que entravamos em um filme pós-guerra. Tudo abandonado, casas destruídas, já sendo tomadas pela vegetação. Marcas fortes de destruição, como se o cheiro de morte e do ódio ainda estivessem no ar. Fora estas ruínas ao longo da estrada, pouco lembrava que alguém já viveu ali. Por outro lado, o cinza dos destroços quase que desaparecia com tanto verde ao redor, isto para não falar das belas montanhas no horizonte. Muito poucas pessoas, uma região rural quase que esquecida no tempo. Vacas, muitas delas. Pastando e passeando no meio da estrada, que quase não tem movimento. Uma ou outra vila, mas o lugar é desolado. Esta é a região onde a maioria dos georgianos moravam, sendo expulsos em diversas guerras, até serem massacrados numa tentativa de limpeza étnica. Os que sobreviveram fugiram para a o outro lado do rio Ingur, ou atravessaram as montanhas.

Estradas vazias

Estradas vazias próximo a Gali

Até Sukhumi tudo abandonado, depois tudo  bem cuidado

Até Sukhumi tudo abandonado, depois tudo bem cuidado

Quando o cristianismo chegou na região, os abcasos se converteram. Séculos mais tarde, já sob o domínio Otomano, alguns se converteram ao islamismo. No século 19, quanto a Russia invadiu a região, estes abcasos  muçulmanos lutaram pelos otomanos. Com a conquista russa, tiveram que fugir para onde hoje é a Turquia, dentre outras regiões do Oriente Médio. Como a região ficou esparsamente povoada, os russos incentivaram e forçaram a imigração de Georgianos, armênios dentre outros povos. Quem diria que no futuro os Russos apoiariam os Obcasos contra os Georgianos…

Entramos em Sukhumi, e depois de deixar um passageiro, pedimos para nos levar direto na imigração. Tínhamos uma autorização de entrada, com datas específicas inclusive, mas precisa ir até o Ministério de Relações Estrangeiras para tirar o visto propriamente dito. Quando o motorista entendeu onde queríamos ir, exitou um pouco. Fez uns telefonemas, perguntou na rua e nos levou em um prédio do governo. Gesticulava e dizia “Niet, Niet (Não)”. Depois fomos saber que era feriado regional. Estávamos numa região bem central e decidimos ir caminhando mesmo. Passamos por parques e praças, muito arborizados mas sem uma viva alma. Logo chegamos ao State Drama Theatre e na parte principal do calçadão.

State

State Drama Theatre

Cafés descolados, hotéis, lojas com camisetas e bonés com bandeira da Abecásia, além de quinquilharias que turistas gostam. Era como se existisse um universo paralelo. Claro que tínhamos passado por um ou outro prédio com buracos de bala, mas a realidade ali é outra. Um lugar preparado e acostumado a receber turistas. Antes que imaginem turistas de diferentes nacionalidades, deixa eu ser mais específico: Turistas Russos! A fronteira com a Russia não é muito longe dali, seguindo por uma estrada litorânea,  são 140 km ao norte, bem pertinho de Sochi, famosa pelos jogos olímpicos de inverno.

Tinham me indicado algumas “goztinitza”, pequenas pousadas ou casas que alugam quartos. Para nossa surpresa, estavam todas lotadas. Uma disponível queria alugar só para longos períodos. Muito solícitos, tentavam ligar para conhecidos tentando achar uma vaga para nós. Foi quando um turco-abecaso, que falava um pouco de inglês se aproximou para ajudar. Nos recomendou um antigo hotel soviético. Disse que estavam reformando, ainda era de péssimo estado, mas o preço era bom. Fomos caminhando e batendo papo na direção deste hotel. Nos despedimos quando ele chegou perto da sua casa, e meio que por acaso, achamos uma pousada muito boa, ainda em construção também. O preço não era dos melhores, mas negociamos um pouco e nos deixamos ser convencidos pelo proprietário, gente finíssima. Ele falava inglês, seria uma ótima fonte de informações, o lugar era incrível, com um super café da manhã. Nosso cansaço e pouco tempo que teríamos lá com certeza ajudou na decisão também.

Atravessamos a cidade até o pátio onde ficam os ônibus e lotações, bem perto da velha estação de trem. Tivemos que esperar um tempo mas logo saímos sentido norte, primeiro subindo uma montanha e depois beirando a praia.

Estação de trem

Estação de trem

Bem fácil de pegar ônibus, só ler a placa

Bem fácil de pegar ônibus, só ler a placa

Litoral da Abecásia

Litoral da Abecásia

Avisávamos constantemente os passageiros onde queríamos descer, para ter certeza que não esqueceriam da gente e nos déssemos conta só próximo da Russia. Paramos em Novy Afon, um lugar movimentado perto da calmaria que estava Sukhumi. Cheio de turistas russos, seja indo para as paias com boias, nos restaurantes ou buscando os passeios da região.

Cavernas, lagos, cachoeira e cânion,  o antigo forte Anacopia em uma montanha e o Monastério Novi Afon entre as arvores. Região muito bonita, onde os moradores tentam aproveitar o fluxo de turistas e peregrinos. Muitas barraquinhas no caminho que leva até o belo monastério. As montanhas verdes atrás e os jardins floridos na frente deixavam o lugar ainda mais bonito. Já tínhamos ouvido falar bem, mas mesmo assim nos surpreendeu bastante pela beleza (interior e exterior) e grandiosidade do lugar. Na entrada distribuíam lenços para as mulheres cobrirem a cabeça e aventais caso alguém tivesse de bermuda.

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A praia mais famosa, Gagra, não fica muito longe, mas depois de passar por um parque e um memorial, resolvemos parar na praia ali na frente mesmo. Tanto os locais quanto as centenas de turistas pareciam pouco se importar se a República da Abecásia tem ou não reconhecimento internacional. Dentre os membros da ONU, Venezuela, Nicarágua, Nauru e Russia reconhecem (Vanuatu e Tuvalu reconheceram mas voltaram atrás). Outros países não membros como Transnístria, Ossétia do Sul e Nagorno-Karabakh também reconhecem, mas no final das contas isto muda muito pouco a vida local.

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Perguntando sobre transporte, e cansados de esperar um ônibus de volta, ficamos muito contentes quando um micro-ônibus de excursão russa nos deu carona. O motorista não parava de falar, provavelmente contando histórias do lugar e fazendo piadas, pois o pessoal não parava de dar risada.

Também pudemos aproveitar Sukhumi. Caminhamos pelo longo calçadão na beira do mar, conhecemos o jardim botânico, exploramos praças e mercadinhos e até fizemos degustação de vinhos. Num lugar cheio de russos, não foi novidade termos problemas para pedir comida. Cansados de tentar que nos entendessem, depois de falar inglês, português e até imitar galinha, a solução foi olhar para as mesas ao lado, escolher o prato mais bonito e apontar dizendo, quero este! Até que dava certo.

Calçadão em Sukhumi

Calçadão em Sukhumi

Jardin Botânico

Jardin Botânico

Conversei longamente com o dono do hotel que ficamos. Perguntava sobre o não reconhecimento internacional da Abecásia, e ele dava de ombros. Na verdade nós só precisamos da Russia, discursava. “O Ocidente acha que precisamos do reconhecimento deles, mas não precisamos, não estamos nem aí. Nossa vida não mudaria nada (…) o império americano e europeu esta em declínio, esta crise mundial só confirma isto (…) enquanto a Russia só se fortalece…” A exaltação russa era grande, assim como é a dependência da Abecásia do vizinho do norte. Sou meio provocativo e questionei porque a Russia não anexava a Abecásia de uma vez. Ele disse que a soberania era respeitada. Mais tarde fui saber que todos os abecasos puderam tirar passaporte russos, bastava mostrar os passaportes soviéticos. Alias, puderam usar os passaportes da URSS até 2011! Praticamente todos tem dois passaportes, e alguns dupla cidadania. Mesmo os que não tem o passaporte russo, podem viajar tranquilamente para a Russia com o passaporte abcáso, só não podem ir para outros países que não reconheçam a Abecásia como país.

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Tínhamos notado alguns carros modernos e caros nas ruas, muitos deles em alta velocidade e cantando pneu. Nosso amigo turco-abecaso dizia que algumas famílias controlavam tudo por ali. Talvez por causa disto que tiveram tantos protestos nas ruas meses antes (Abril 2014). Quando fomos tentar tirar o visto ficamos sabendo que o escritório havia mudado de lugar. Conseguimos as direções e faltava perguntar na rua para saber se estávamos no caminho certo. Na nossa primeira tentativa um senhor nos colocou no carro e foi até a porta do Ministério de Assuntos Exteriores. Entramos, sem fila e já fomos atendidos. Um senhor falou brincando “não, não é permitido voltar para a Geórgia”, mas riu antes de nos assustarmos. Pagamos pelo nosso visto e fomos embora. simples assim.

Visto

Autorização para entrar, Visto para sair.

Abecásia não é só Lada

Não são só Ladas que circulam por Sukhumi

Fizemos a volta em etapas, usando as lotações. Fila na fronteira, eu passei e o Marcelo foi chamado para entrevista. Queriam saber onde tínhamos ido, o que fomos fazer lá mas nada de mais. Tenso mesmo foi quando já tínhamos saído da ultima barreira e resolvemos tirar uma foto. Poxa, um banco de carro jogado num canto para as pessoas esperarem a cancela abrir parecia fotogênico. O guarda não gostou! Chamou outro soldado e recolheram nossos passaportes. Até achei que teríamos que pagar alguma coisa para sermos liberados, mas não. Quiseram ver as fotos da maquina que estávamos usando e pediram para apagarmos umas. Falavam “you jornalist?!” e nós no “niet, sorry, toutrist”. Imploramos perdão por uns minutos e eles nos liberaram provavelmente pensando “turistas estúpidos, por que tirar foto na fronteira!”

Seguimos pela ponte, passamos um posto de controle até a imigração da a Geórgia. O oficial só verificou o nosso passaporte (provavelmente para ver se não vinhamos da Russia, o que é proibido) e nos liberou. Pegamos outra lotação e logo me despedi do Marcelo. Ele iria para a capital, Tbilisi, se encontrar com dois amigos e eu seguiria para as montanhas, com a certeza de que a Abecásia existe!

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República da Transnístria!

Lenin

Lenin

Com o colapso da União soviética, a Transnístria proclamou independência da então República Socialista Soviética da Moldávia (para um maior entendimento da região, ler sobre a Bessarábia também). A própria Moldávia, apesar de ter autonomia sobre a região, só conseguiu independência da URSS mais tarde. Foi quando se estabilizou como republica e aderiu às Nações Unidas que tentou reanexar a Transnístria. Uma guerra que se estendeu por mais alguns anos. A Transnístria, de maior parte da população eslava e língua russa, não se identificava tanto com os romenos da Moldávia. Com o apoio da Rússia, venceram a guerra e conseguiram se manter De facto independentes, apesar de não ter o reconhecimento internacional de nenhum país membro da ONU.

Não lembro ao certo quando escutei a primeira vez sobre esta república, só sei que passei a sonhar com um país congelado no tempo, um pedacinho da União Soviética que tinha sobrevivido. Depois de tanto viajar este era um destino que dava o famoso frio na barriga, muitas duvidas e poucas informações sobre o lugar.

No hostel em Chisinau-Moldávia me perguntaram se eu tinha certeza que iria para lá sozinho. Um conhecido, de um clube de viagens, alertou para eu ter cuidado com os guardas na Transnístria, famosos pela corrupção. Costumo ser um pouco cético quanto aos comentários das pessoas que nunca foram para um lugar, mas tem fortes opiniões sobre o destino. Confesso que me preparei psicologicamente para o pior, deixei até um dinheiro separado em um bolso para uma ultima tentativa de liberdade caso fosse necessário.

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Brasão da Transnístria

 

Existem microonibus saindo com bastante frequência de Chisinau para Tiraspol, capital da Transnístria. A viagem é rápida e me surpreendi quando o controle de imigração foi antes do rio. Teoricamente Transnístria significa “Depois do (Rio) Dnester”, mas parece que o exército deles teve sucesso em conquistar lugares estratégicos. Um grande brasão com a foice e o martelo mostravam a entrada deste país que não existe. Na imigração, o oficial tentava me explicar em russo, que eu teria que me registrar caso ficasse mais que dez horas lá. Peguei o documento e respondi um “Sem problemas!” em português mesmo, pois percebi que ele não entendia nada de inglês. Soldados na beira da estrada e tanques camuflados protegiam a ponte que dava acesso para Tiraspol. Uma larga avenida passava por prédios alinhados, diversas propagandas em outdoors e bandeiras nas cores da Transnístria e da Rússia. Alguns monumentos e parques depois e começamos nos afastar da cidade novamente, até chegar no ponto final, em frente da velha estação de trem.

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Cartão da imigração – Valido por 10 horas sem registro

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Propaganda da independência

Estação de trem

Estação de trem

 

Logo fui em um guichê para trocar dinheiro, lá só aceitam o Rubro da Transnístria. Peguei o pequeno mapa, tentando não mostrar para ninguém, me localizei mais ou menos e parti para a caminhada. As ruas estavam desertas e uma vez ou outra passava um ônibus caindo aos pedaços. Entrei em um parque para fotografar uma igreja e ficava olhando para os lados com medo que alguém visse. Mesmo sem querer, acabei pegando a “neura” de pessoas que nunca tinham ido para lá.  Tentei me controlar, mas veio a lembrança um artigo sensacionalista que havia lido, que falava sobre a economia local ser basicamente contrabando de armas e trafico de mulheres. Duas quadras para frente, paro antes de atravessar a rua e vejo um Porsche vindo na outra direção. Me aproximando do centro noto que a quantidade de Mercedes é maior que dos antigos Lada. A cidade fica mais movimentada, não chega a ser viva, mas tem um dia a dia mais intenso. Ok, pode ter mafia-russa, afinal até uma base do exercito russo tem lá, mas com certeza as histórias da região são bastante aumentadas, e algumas viram “lendas-urbanas”. Passo por ruas com nome “Karl Marxa”, “25 de Outubro”e “Lenina”. Estatuas do Lenin também não são difíceis de serem observadas. Existe um grande culto ao passado, mas o presente não aponta nada para o comunismo.

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Banco

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Igreja ortodoxa

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Parque Kirov

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Ônibus velhos contrastando com Mercedes e Porche

Mal tinha iniciado meu tour pela região e me deparo com uma agencia dos correios. Não tive duvidas e entrei para ver se tinha algum cartão postal ou coisa do tipo. Na pior das hipóteses seria divertido explicar o que queria. E foi! Peguei fila e quando chegou a minha vez a senhora me olhou com cara de impaciente por não me entender – e eu não entender ela. Uma outra senhora sentada em uma mesa veio na minha direção e me atendeu em outro local. Conseguiu uns cartões postais e me ajudou a preencher, de forma que eles entendessem. Enviei dois cartões postais, que não tinha certeza se chegariam. Lembrei que nunca recebi os cartões que mandei do Iraque e do Turcomenistão, mas não custava tentar.

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Cartões postais no correio da Transnístria

Poucas quadras dali tinha um pequeno museu que contava a história dos conflitos da Transnístria. Poderia ser um ótimo lugar para entender a história, mas todos os documentos estavam em russo, a simpática senhora que atendia ficava me acompanhando, apontava para um lado e para outro, mas a comunicação era zero. No final rimos muito, ela me abraçou e meu deu um tapinha nas costas me mostrando o caminho da saída.

Logo me deparei com a primeira loja, depois a fábrica da Kvint, antiga produtora (1897) de destilados, orgulho nacional, presente até numa nota do Rublo da Transnístria! Mais ou menos como se a Caninha 51 fosse estampada em uma nota de Real! Estranho para nós, mas não para um país onde o primeiro presidente  (governou por 10 anos) se chamava Igor Smirnov! Brincadeiras a parte, nenhuma relação com a Smirnoff.

 

Os produtos Kvint também podem ser encontrados nos supermercados Sheriff. A estrela, simbolo do “Sheriff” é facilmente visualizada. Só não se confunda, Sheriff também é marca de posto de gasolina, de hotel e até de clube de futebol!! Por mais que criem muitas histórias sobre o lugar, da para entender da onde tiraram a “ideia” que uma mafia controla tudo em Tiraspol. O clube de futebol Sheriff tem uma arena super moderna, alem de um centro esportivo bem completo, definitivamente “padrão Fifa”.

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Estadio do Sheriff

Avenidas largas e arborizadas , muita propaganda nacional, algumas igrejas e um mercado de rua improvisado onde vendiam de tudo. Comi alguma coisa na rua mesmo e quando percebi já tinha “desencanado” bastante do lugar. Passei por mais alguns prédios soviéticos, palácio presidencial e cheguei até o cemitério dos heróis, um memorial dos mortos na guerra, com as devidas homenagens e chama eterna. Já estava fotografando tanque de guerra sem olhar (muito) para os lados.

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Catedral da Natividade vista de longe

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Senhora vendendo roupas com a estatua do General Suvorov atrás

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Palácio presidencial

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1792 – ano da vitória sobre os Otomanos

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Memorial de guerra

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Chama eterna em homenagem aos mortos

Deu tempo de me perder, andar sem destino, explorando a cidade. Aleatoriamente acabei passando na frente das embaixadas da Ossétia do Sul e da Abkhazia, países (que não existem) que reconhecem a República da Transnístria como país. Funciona quase como um clube dos excluídos, onde um apoia o outro (a República de Nagorno-Karabakh também reconhece).

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Embaixada da Abkhazia e Ossétia do Sul

Presenciei também um casamento movimentado, jovens tomando sorvete, amigos bebendo, pessoas fazendo compras, crianças brincando, um casal brigando dentre tantas cenas comum do dia a dia. Por mais que se fantasie um país que não existe como algo do outro mundo, no final das contas as pessoas acabam tendo uma vida bem normal. Cada um com seus problemas.

A Europa pouco visitada

Quando se pensa em uma viagem para a Europa, poucos brasileiros lembram da Moldávia como destino. Uma região que ainda não foi descoberta pelos nossos conterrâneos. Junto com a Bielorrússia, é um dos últimos dois países europeus que ainda exigem visto para brasileiros (se contar Cáucasos como Europa aina tem outros dois). Esmagada entre a Romênia e a Ucrânia, acaba tendo influencia dos dois. Era o limite de Império Romano, que chegava até o rio Dniestre, trocou de mãos diversas vezes, nas guerras entre os Otomanos e Russos, até fazer parte da União Soviética.  A população fala tanto o russo como o Romeno, língua latina que acaba tendo palavras próximas ao português. Na capital Chisinau, é possível observar diversas bandeiras da União Européia, mas ainda parece ser um sonho bem distante, pois é um dos países mais pobres de toda a Europa. As influencias russas e heranças soviéticas também são fáceis de se observar, caminhando por esta agradável e pacata capital.

Um microonibus do aeroporto até o centro, cerca de meia hora, custa menos de 50 centavos de Real! É o Leste Europeu do imaginário, como já foram destinos que hoje são invadidos pelo turismo em massa. Avenidas largas, arborizadas, construções históricas e grandes parques formam o visual da cidade.  Não é o tipo de destino que você vai ter uma lista de atrações imperdíveis para ver, mas não deixa de ser uma cidade bem gostosa e barata para curtir o dia a dia. Como meu anfitrião do couchsurfing acabou cancelando em cima da hora, fui para um hostel, onde uma cama (em quarto para quatro pessoas) custava pouco mais de cinco euros.

Chisinau

Chisinau

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Teatrul Nacional

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Museu nacional

Dei uma passada em alguns monumentos, memoriais e museus, perambulei para ver o Holly Gates, o Parlamento, Palácio Presidencial, alem de uma ou outra das construções históricas que sobreviveram ao bombardeio da segunda guerra. Mas com o verão, tava gostoso mesmo de curtir a vida ao ar livre. Mercados de quinquilharias, os parques Central e Gradina, mercado de flores, concerto com a orquestra juvenil na frente da catedral e cafés lotados davam vida para a cidade. Algumas igrejas ortodoxas coloridas muito bonitas contrastavam com os prédios cinza em forma de bloco ao lado. Dentro das igrejas muita devoção,  as mulheres sempre com as cabeças cobertas, pediam a benção ao padre.

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Igrejas lindas

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Igrejas com os blocos de apartamentos ao fundo

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Holly Gates e Catedral

Catedral

Música numa noite de verão cai bem!

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Estatua do Stefan Cel Mare (o mais famoso Príncipe da Moldávia) na entrada do parque Gradina

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Torre da catedral com o palácio do governo ao fundo

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Pinturas no teto do monastério

 

Para os amantes de vinho é indispensável uma visita à adega da Cricova. São mais de 120 km de corredores numa antiga mina de cal, que hoje guarda mais de um milhão de garrafas de vinho. Parece ser a maior do mundo, mas foi sua concorrente, Melestii Mici que consegui provar ao Guiness, ter mais de 2 milhões de garrafas estocadas.

Como não sou muito fã de “maior do mundo”, “mais isto””mais aquilo”, me contentei com jantares gostosos, com meio litro de vinho  e sobremesa que dificilmente passavam dos 5 euros. Existem outros programas que podem ser feitos no esquema bate e volta, como os monastérios  em cavernas Orheiul Vechi, do seculo 13, na beira do rio Raut ou o Tipova , numa região também muito bonita.  Para quem gosta de cultura, pode dar uma esticada até Soroki. Fica beem puxado para ir e voltar no mesmo dia, mas pode ser uma boa pedida para quem está indo para a Ucrânia. Cidade em que a maioria da população é de ciganos, tem uma arquitetura toda peculiar e uma cultura riquíssima. Infelizmente por ficar mais longe não pude ir desta vez, mas tinha outros planos para o interior.

Eu queria conhecer a Gagauzia, região autônoma da Moldávia. Ao contrario da Transnístria (conto da minha viagem para lá em outro post) a região da Gagauzia fez acordos (depois de algumas guerras) com a Moldávia e após conquistar certas autonomias, desistiu de se separar.

Fui em um ônibus velho de Chisinau até Comrat, capital desta região autônoma. No caminho uma paisagem rural, com tratores andando lentamente nas estradas e agricultores e pastores no campo. Plantações de gira sol, infelizmente murchos, completavam o visual. Não tive muita sorte pois começou a chover intensamente. Comrat é uma pequena cidade de interior, de onde se governa toda a região. Me falavam que era um lugar empoeirado, mas com tanta chuva estava era enlameado, isto sim!. Historicamente os Gagauzos eram búlgaros-turcos muçulmanos. Para poder permanecer nestas terras foram obrigados a se converter ao cristianismo. Tem uma cultura toda peculiar, um idioma próprio e até uma universidade onde  tentam preservar os suas tradições/cultura/língua.

Comrat Gaugazia

Comrat Gagauzia

Com a chuva não pude conhecer as vilas ao redor, que eram meu maior foco, mas não posso dizer que não me diverti em Comrat. A iniciar pela comunicação! O gagauzo é impossível de compreender e ninguém falava inglês, sendo muito difícil pedir comida ou até entender os preços. Já tinha imitado galinha, pedido preço mostrando a calculadora quando incrivelmente encontrei um restaurante a quilo! Na verdade o sistema era um pouco diferente, cada porção tinha um valor, mas foi um alivio saber o que iria comer.

Uma das regiões mais pobres de um dos países mais pobres da Europa. Ai que você percebe como não se pode generalizar nada. Quando alguém fala que “na Europa isto, que na Europa aquilo”, não está se referindo à Gagáuzia, com certeza. A cidade de Comrat é tão Europa quanto Londres, a não ser que não se use mais a conotação geográfica.

Me olhavam com curiosidade. Algumas pessoas tentavam interagir, outras chegaram a se irritar quando eu não entendia o que diziam. Deviam se perguntar: o que este maluco estava fazendo aqui?

A catedral de São João (1820), dois ou três museus de história e cultura Gagauzia, Universidade, biblioteca, centro cultural e meia duzia de memoriais me mantiveram ocupados enquanto a chuva não passava. Como o tempo não se firmou, voltei para Chisinau. Se antes eu tinha achado a capital da Moldávia pequena e pacata, agora consegui ver até um pouco de caos próximo da estação de microonibus. Tudo uma questão de referencia.

Universidade

Universidade

Centro Cultural

Centro Cultural

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gaugázia

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gagauzia

Já estava me sentindo em casa em Chisinau. Havia andado a pé por tudo, circulado de ônibus, até repetido cafés e restaurantes. Me orientava como se já estivesse lá a semanas, mas chegava a hora de partir. Fui para o aeroporto com medo de perder minha conexão em Istambul – e perdi. Não por poucos minutos, mais por horas,devido ao atraso do voo. Com isto tive que dormir mais uma noite no aeroporto. Se Chisinau parecia familiar, o aeroporto de Istambul parecia meu quarto, depois de dormir três noites lá em poucas semanas!

 

Turquistão!

Se olhássemos mapas antigos, estaríamos viajando pelo Turquistão. Mas o que é antigo? A pouco tempo acabei de ler os Livros do Marco Polo e do Ibn Batuta (viajante marroquino que percorreu metade do mundo). Comparava impressões de lugares que eles tinham com as nossas. Alguns lugares já eram antigos quando eles passaram ha 700 anos atras, outros foram se formar bem depois deles, mas já são antigos para nos. De qualquer maneira são vestígios de civilizações  historia, acontecimentos e pessoas. É como se existisse um ciclo. E se tem o ciclo de acontecimentos, existe também o ciclo de curiosos, e estávamos felizes por fazer parte destes.

Depois de 22 horas em um trem sem ar condicionado, e com altas temperaturas, chegamos em Tashkent. Como era uma sexta feira, aproveitamos para ir direto na embaixada da China, que estava aberta neste dia. Não e que deu certo! Acabamos conseguindo o visto no mesmo dia. Ficamos na casa de uma família que recebe bastante estrangeiros. Os quartos super bons, mas da pena da família, que não tem espaço nenhum na sua própria casa. Como tínhamos acesso a cozinha, aproveitamos para fazer arroz, batata, e logo curar nosso problema. A guest house era um ponte de encontro com as pessoas que viajam pela Asia Central, encontramos algumas pessoas fazendo o trajeto bem parecido com o nosso, alem de algumas delas terem encontrado com pessoas que também conhecemos na estrada. O mundo parece muito pequeno para quem viaja por aqui!

A grande piada dos viajantes era que a maior atracão de Tashkent era a estacão de trem. Todo mundo ficava feliz de ir embora. Mas como tínhamos que pegar o visto para a India, resolvemos aproveitar como podíamos  A temporada de opera estava suspensa devido o inicio do verão  mas mesmo assim fomos no teatro. Ao tentarmos entender que peca estava estava em cartas, e qual eram os preços, acabamos ganhando um convite para a primeira fileira!!!

Foi um programa bem interessante, teatro completamente lotado, mas confesso que depois da primeira meia hora sem entender nada ficou um pouco cansativo, mas valeu super a pena. Ainda demos uma esticada depois num barzinho.

teatro

Passeando pelo meio dos prédios soviéticos, aproveitamos para dar uma esticada no gramado de uma sombra em um parque. Logo um policial veio nos falar que não podia. Estranhamos que tinham pessoas pulando de uma ponte e nadando no rio que passava ao lado do parque, alem de um avo com seu neto tomando banho no chafariz… mas ficar na grama nao podia. Vai entender?!

Vistos encaminhados, pegamos o metro ate a estacão de trem, onde seguiríamos viagem. Normalmente tento seguir uma logística na viagem, mas com a questão dos vistos, tivemos que antecipar a ida para Tashkent e agora voltar um pouco no trajeto, quebrando a logística  Nada demais, e os trens são relativamente bons. Como o destino não era longe, nada de cabines, e sim poltronas estilo avião  com filmes passando nas televisões  Samarkand é o destino mais famoso do Uzbequistão  Eu brincava com a Gi em Londres que o Uzbequistão era super turístico, e Samarkand era o que faltava para assinarmos embaixo da minha afirmação.

rua para os carros eletricos

Para cada mochileiro, tinha um ônibus de velhinhos visitando o lugar. Ao lado dos maravilhosos monumentos, uma rua basicamente só para um carro elétrico que levava os aposentados para cima e para baixo. Jardins, parques, tudo certinho. Monumentos todos reformados, ou sendo reconstruído  Uma pena que em um dos lugares mais interessantes para ver os monumentos – a praça Registan, estava com um palco montado para uma apresentação que vai acontecer daqui a três meses. Um guarda tentou oferecer para subirmos em um dos minaretes em troca de um dinheirinho, mas com cuidado negamos. Madrassas, mesquitas e muitos mausóleos  Um lugar que parece uma rua de mausóleos  um do lado/frente para o outro. O lugar onde o Timur esta enterrado também é aqui, e muitas pessoas veem rezar por ele.

Conhecemos um Uzbek que falava bem inglês e deu para encher ele de perguntas, e bater um longo papo. Num dia, ao procurarmos algo para comer achamos um mercado muito colorido. Grande parte do povo daqui e Tajik (o mesmo do Tajikistao). E uma etnia diferente, que fala uma língua parecida com o Farsi. Alem das roupas coloridas e chapéus, os dentes de ouro também fazem sucesso aqui.

O país e lindo, e toda hora nos questionávamos qual a cidade mais bonita, quais os monumentos mais impressionantes. Mas definitivamente tivemos uma overdose de monumentos. Precisávamos mudar um pouco. Taxi comunitário para Jiza, transporte para a cidadezinha de Yangiqislov, ate chegar na região de Florish. São algumas pequenas vilas na beira das montanhas Nurata, entrada para um parque nacional.

Nada de estrutura de hotéis  pousadas, somente algumas famílias cadastradas para receber turistas. Tínhamos um quarto só para nos, dormindo no chão  é claro, mas com colchoes bem confortáveis  As refeições eram uma atracão a parte, sempre muita comida, e era só se espichar para pegar frutas nas diversas arvores ao redor (pêssegos, amoras, peras, ameixas, etc). De um lado um planalto sem fim, onde dava para ver que tinha água la longe, do outro as montanhas belíssimas  Não imaginávamos quão longe era, e decidimos ir tomar banho no lago. Demorou uma hora e meia, mas compensou para dar um mergulho. Bandos de cabras e ovelhas dava um clima para o lugar, e a noite era espetacular com o céu todo estrelado.

Divertido foi o dia que resolvemos pegar cavalos para andar pela região  Os cavalos da Asia Central sao super famosos, como nao podia ser diferente, pois era uma terra de nômades  Já na saída o cavalo da Bibi disparou, e eu tive que cavalgar atras para conseguir fazer ele parar. A Bibi falava “para, para, help me, pleease”!! Ate agora não sei quem ela achava que iria entender, o cavalo quem sabe!!haha

Por segurança eu fui na frente puxando o cavalo dela com uma corda. O pior é que quando eles ficavam muito perto insistiam em se morder e brigar. Foi um super passeio, passando pelos planaltos, montanhas e vales. Difícil de esquecer, não só pela beleza, mas pela dor física que ficamos depois também…hehe

Muitos quilos de frutas depois, e horas de leitura debaixo das arvores, estávamos voltando para Tashkent para buscar o visto da India e nos despedir do Uzbequistão  Voltamos a mesma guest house, encontramos amigos de viagem e encontramos novos. Andamos diversas vezes pelas estacoes de metro, que apesar de ser só o nosso caminho, eram uma atracão por seus candelabros e painéis  Chato era ter que ficar mostrando o passaporte e registro toda a vez, alem de revistar a mochila. O Uzbequistão é uma ditadura, e você é obrigado a fazer um registro todo lugar que vai. Na verdade o hotel faz para você  mas quando ficamos em Nurata não tivemos este registro, por exemplo. Conversamos um pouco com as pessoas, sobre a dura vida daqui. Todos reclamaram, e teve um couchsurfer que ate mudou de assunto com medo que alguém escutasse.

Os vistos para a Asia Central tem data de entrada e saída  e já chegava a hora de partir. Ate e possível prorrogar, mas isto significaria menos tempo em outro lugar. A unica região que sentíamos por não ter ido era o Vale Fergana. Mas este vale se estende ate o Quirguistão  e passaríamos por lá, então não tínhamos com o que se preocupar. Achamos que como viemos do Irã para o Uzbequistão  acabamos comparando demais os dois países, parecia que o melhor teria sido ter ido primeiro para o Uzbequistão e depois para o Irã. Mas mesmo assim, antes de sair do pais, a caminho da fronteira, já batia aquela saudades…

Vegas, Dubai, Ashgabat!!!

Quando falam em grandes desertos com construções modernas (e de mau gosto), normalmente pensamos em Las Vegas ou Dubai. Quando pensamos em uma ditadura duríssima,  um verdadeiro estado militar, uma das primeiras lembranças sera da Coreia do Norte. Não fomos para nenhum destes lugares, mas uma mistura deles, com um grande toque de Asia Central!

No Turcomenistão, jornalistas não são bem vindos, existe um controle quase que total da mídia.  Estrangeiros também não são bem vindos, acho que não querem suas opiniões.  Para se conseguir um visto, alem da carta convite, precisa de um guia te acompanhando o tempo todo, tornando tua viagem nem um pouco independente. Desta forma conseguem orientar o tipo de informação que você vai ter do lugar. A salvação são os vistos de transito. Tentamos o de três dias, e acabamos (depois de alguns problemas no consulado), ganhando 5 dias. Alteração rápida no roteiro, e poderíamos passar pela capital, Ashgabat.

O caminho de Mashhad até a fronteira não foi tão fácil  Nada de ônibus VIP, só tinha um caindo aos pedaços  sem ar condicionado num baita calor. Os últimos 100 km tivemos que percorrer de táxi  pois nada de transporte publico. Passamos por uma região montanhosa muito bonita, até chegar em mais uma fronteira lotada de caminhões  Procedimentos normais, uma pequena consulta medica (tinha um cartaz contra tatuagens muito legal) e logo estávamos na imigração do Turcomenistão.  Soldados sérios  fotos do presidente  e achávamos que sabíamos o que vinha pela frente. Aproveitamos que duas tiazinhas estavam indo na mesma direção  e fomos dividindo taxi nas conexões ate Ashgabat, não muito longe da fronteira.

Chegamos pela parte sul da cidade, e de repente, depois de uma paisagem de deserto, inicia-se um sequencia de prédios altos, novos, chafarizes  jardins com flores. Mulheres limpando com paninho o poste do sinaleiro. A primeira estatua dourada do ex-presidente Niyazov também não demorou para aparecer. Palácios de mármore  esculturas e praças.  Muitos soldados nas ruas, uns 2 de cada lado de uma quadra. O ponto de ônibus com loja de conveniência e ar condicionado chamou a atenção  A Bibi até elogiou, mas a reação da tiazinha mostrava que era só fachada mesmo.

Estatuas douradas- estilo eu me amo

Moradia para os amigos

O Niyazov tomou o poder com a queda da URSS, e se tornou um ditador com todo o sentido que a palavra pode trazer. Espalhou suas estatuas douradas por tudo, e reprimiu violentamente qualquer tipo de oposição  Destruiu apartamentos antigos onde pessoas moravam, sem pagar indenização  para construir estes novos. Quem trabalha para o governo tem regalias, como o subsidio de 50% do valor do apartamento chique que ele construiu em cima das antigas residencias, e financiamento em 30 anos. Ele era um louco, e em um momento da sua vida, escreveu um livro chamado “Livro da Alma”. Neste livro ele reescreveu a historia,costumes e espiritualidade do Turcomenistão. Questionários sobre o livro foram impostos para quem quisesse trabalhar num cargo publico ou ate fazer um exame de auto-escola. A “boa noticia” e que ele alegava era de quem lesse o livro 100 vezes iria para o Céu!!!

Com a morte do Niyazov, um dos seus ministros (e provável filho bastardo), assumiu o poder. Não existem estatuas de ouro dele, mas os posteres, outdoors e calendários dele sorridente estão por todos o lados.

Ao nos aproximarmos mais do centro, vimos que os ônibus do povão não eram nem um pouco sofisticados, e nada de ar-condicionado por qui. Nosso hotel era daqueles antigos blocos soviéticos  A recepção até que era reformada, mas os elevadores, corredores com tapetes se desfazendo e a mesinha da recepção do nosso andar (tem uma segunda recepção em cada andar!), nos assustavam um pouco. Tivemos uma grata surpresa ao ver que os quartos tinham sido totalmente reformados, pintados, alto padrão!

Moradia para quem nao e amigo

Caminhamos pela cidade, para olhar os monumentos bizarros, palácios e teatros de mármore e outras coisas bem peculiares daqui. A quantidade de policiais e soldados não deixa o clima nem um pouco agradável  Um deles nos pediu cigarro e ao falarmos que não tínhamos  pediu dinheiro na cara dura! Para tirar foto aquela tensão  pois se alguém não gostasse, com certeza teríamos que deixar uma grana para não levarem nossa maquina. Alem dos taxis comuns, quase qualquer carro funciona como um taxi não oficial. Aproveitamos para ir a lugares mais longe desta forma. Você esta andando na rua e é só olhar que eles param. Uma corrida na cidade não vai te custar mais que 35 centavos de dólar  Parece barato, mas se pensar que o litro de combustível custa menos de 25 centavos de dólar da pra ver que eles ganha dinheiro com isto.

No Turcomenistão tem tanto petróleo e gaz natural, que o gaz já foi gratuito. A população deixava o fogão aceso dia e noite, para não ter que gastar com fósforos, que não era gratuito, acreditam? Grandes contratos com a Russia fazem com que a eletricidade (trocada por petróleo), também seja muito barata. O que com certeza não é barato, mas é desperdiçada por todo o lado nas intermináveis fontes, é a água. Aqui está o maior canal artificial do mundo, e passamos por diversos outros menores desviados para a produção de algodão  Em épocas soviéticas, este foi um dos motivos de um dos maiores desastres naturais de todos os tempos, que resultou na quase destruição do mar Aral.

Nada de economia de agua

Rodamos bastante, exploramos o que pudemos nos poucos dias que tivemos. Vimos mesquitas ultra modernas e outras estilo Blue Mosque de Istambul. O povo daqui, os Turcomen, são “primos”dos Turcos, assim como muitos povos da Asia Central. Antes tudo aqui ara chamado Turquistão, e eles foram conquistando tudo até chegar na Turquia. Existe também muita influencia da Russia, como a língua russa (como segunda língua  e o gosto pela Vodka. Eu acabei ficando só na cervejinha, num biergardem bem tipico, lotado de bêbados!

Monumentos

Blue Mosque

Fomos no Tolkuchka Bazar, no subúrbio da cidade. Um conjunto interminável de barracões novos, brancos, com tudo o que e tipo de coisas para vender. Comida, roupas, chales, coisas para casa, pecas de carro e ate camelos. O mais legal foi poder ver mais do povo, mulheres com seus vestidos coloridos e dentes (muitas vezes a dentadura completa!) de ouro.

Fotos do novo presidente

Tolkuchka Bazar

Pegamos um taxi coletivo para Mary, já a caminho do Uzbequistão  Nosso motorista não era muito simpático  corria mais que o necessário  e não deixava baixar o vidro, mesmo estando mais de 40 graus. Nossos companheiros de transporte também não ajudavam, e fumavam na cara dura, com tudo fechado. A viagem foi um inferno, e ao chegarmos num hotel, a Bibi não parava de rir da péssima qualidade do quarto. Tudo que é informação que tínhamos do país não servia mais. Hotéis fecharam, ruas mudaram de nome, até a disposição das cidades era outra. Acabamos achando um hotel bom, só um pouco mais caro que o caindo aos pedaços (literalmente, tinha até buraco no chão do banheiro!).

Mary tem algumas atracões  monumentos, parques e ate uma Igreja Ortodoxa bonita, mas ela serve mesmo de base para as ruínas de Merv, uma das mais importantes cidades da Rota da Seda. Nesta região Alexandre o Grande estabeleceu uma cidade, para facilitar sua conquista do Oriente.

Nosso visto estava vencendo, e tínhamos que ir para a fronteira. Precisávamos ir ate o ponto dos taxis comunitários  e paramos o primeiro carro que apareceu, um “camaro”. Coloquei as mochilas no banco de trás e dei espaço para a Bibi entrar. Nisto, o motorista sai arrancando enlouquecidamente, tocando o carro em cima de mim com a porta aberta, e foge com as mochilas. Tentei correr atras, mas não deu nem para ver a placa. Atravessei a rua ate o canteiro, para ver se ele vinha na outra direção  mas nada… Deu aquele pensamento “fudeu”! Mas logo depois eu já pensava, pelo menos estamos com o passaporte, dinheiro e coisas de valor.

A Bibi tava indignada, inconformada. Voltamos para o hotel para contar do ocorrido, chamar a policia? Sera que adiantaria? Não sabíamos nem a placa do carro… Eu já pensava em pegar o primeiro taxi e sair dali, ir direto para o Uzbequistão  quando de repente o motorista voltou!! E nos chamou, acreditam?!!. Não entendi o porque, e nem quis entender. Não sei se ele se arrependeu, ficou com medo, ou se queria roubar nossas coisas de valor, que estavam com a gente. Também não fiquei la para descobrir. Peguei as mochilas, e mandei ele a merda. O pessoal do hotel tentou amenizar, dizendo que talvez ele não fosse ladrão  só  louco”. Mas não importa, só sei que o susto foi grande.

Queríamos ter saído bem cedo, mas isto acabou nos atrasando. Atravessamos o restante do deserto, e chegamos na fronteira pouco depois do meio dia. Fronteira fechada para o almoço  e a solução foi tentar se proteger nos 40 centímetros de sombra que fazia de um trailer. A temperatura no Turcomenistão passa dos 50 graus no verão, mas para nossa sorte tava “só” uns 45!