Zimbábue, a grande casa de pedra

Zim-Ba-Bwe : "A Grande Casa de Pedra"

Zim-Ba-Bwe : “A Grande Casa de Pedra”

A antiga Rodésia conquistou sua independência em 1980, quando passou a ser chamada de Zimbábue. O herói da independência, Robert Mugabe, poderia ter entrado para os livros de história como um “mocinho”, mas gostou tanto do poder que se mantem como líder do país até hoje.

Em 2009, quando eu viajava pela África, tinha grandes expectativas de visitar o país. Infelizmente, devido ao colapso econômico que aconteceu anos antes (o que resultou na dolarização da economia), a epidemia de cólera que se alastrava e a falta de combustível, acabei não indo para lá. Cheguei pertinho, do outro lado do Rio Zambezi, na Zâmbia. Muitos anos se passaram e eu estava empolgado em finalmente poder conhecer o Zimbábue. Interessante que minha impressão do país com certeza foi bem diferente do que eu teria naquela vez. Não são só os lugares que mudam, as pessoas e percepções também.

A Park Station em Joanesburgo (África do Sul) não é o lugar ideal para você ficar de bobeira, mas tive que gastar um tempo lá até a saída do meu ônibus rumo o Zimbábue. Não que seja algo muito assustador para um brasileiro, mas principalmente nos seus arredores, está cheio de malandros e potenciais assaltantes. Tive que dar um chega pra lá em um cara bastante agressivo, mas nada de mais.  Dentro, a estação é ampla e bem estruturada, tem até wi-fi gratuito. O Curioso é que não existem tomadas disponíveis, portanto se quiser carregar o celular precisa pagar em um restaurante ou usar umas maquinas de recarga.

Meu ônibus não era dos mais confortáveis, mas custou praticamente metade do que um de luxo da Greyhound. No final das contas acho que valeu a pena o custo beneficio. A imigração é feita na Beit Bridge, único posto de controle entre os dois países, portanto movimentadíssimo. O processo pode parecer simples, mas demorou algumas horas. No inicio estava aflito, pois tinha que preencher a papelada e esperar meu visto ficar pronto, antes do ônibus partir. Mal eu sabia que os oficiais ainda iriam revistar grande parte das bagagens e seguir uma grande burocracia sobre importação de mercadorias. O grande numero de caminhões também não ajuda na velocidade do tramite.

Estrada do interior

Estrada do interior

Já estava no meio da madrugada, eu deveria estar cansado, mas a excitação de chegar em um novo país não me deixava dormir. Os outros passageiros e até os vendedores indicavam que a experiência seria boa. Educados, comunicativos, sem serem invasivos.

Com o amanhecer, foi fácil de observar as diferenças de infraestrutura entre os dois países. Em outros lugares do Zimbábue até encontrei boas estradas, mas logo depois da fronteira é gritante a diferença com a África do Sul. Todo o sul da África tem sofrido bastante com a falta de chuva nos últimos anos. A paisagem tem se transformado bastante e a seca castiga a população local e os animais. Apesar da África do Sul também passar por esta dificuldade, é possível notar que o Zimbábue sofre mais com esta situação.

Cheguei a Masvingo ainda bem cedo. O ônibus não para numa rodoviária ou em um pátio de transporte, é em um (bom) posto de gasolina ao lado da estrada mesmo. Parada rápida onde os passageiros podem ir ao banheiro ou comprar comida. Para mim estava excelente, seguiria viagem dali. Ao me verem, alguns taxistas ofereceram para me levar até Great Zimbabwe. Era obvio que um estrangeiro iria para lá. Apesar de não ser longe, ficaria caro, pois eu estava sozinho. O jeito foi pegar um táxi coletivo para o centro da cidade e de lá pegar uma lotação (onde colocaram galinhas amarradas no meu colo!) para Great Zimbabwe . Você ainda precisa caminhar uns 800 metros, mas vale a pena, vai gastar um décimo do valor do táxi direto.

Os hotéis na região não são dos mais baratos, principalmente se você estiver sozinho. Optei por ficar na hospedagem dentro do parque. Teria a vantagem de estar a poucos metros da entrada das ruínas.

O que eu não contava era com a qualidade do lugar. Eu não sou de reclamar, já dormi em lugares muito simples quando não tinha outra opção, mas aquele dormitório me pegou. Não sei se eu estava cansado da noite mal dormida no ônibus ou se os beliches com colchões rasgados me assustaram.  Fezes sabe lá do que espalhadas pelo quarto não me animavam muito. Eu cheguei a falar que ficaria lá. Deixei minha mochila e fiquei pensando como que faria, já que não forneciam lençol nem mosquiteiro, e desta vez eu não estava preparado. Fui tomar um banho para raciocinar melhor e decidi ir para um dos quartos privados, mesmo tendo que pagar o dobro.  Não foi o banho relaxante que me fez torar a decisão, mas babuínos sedentos que entraram no banheiro (sem portas), para tomar água. Assim como com os malandros da estação Park Station, tive que me impor, mas somente usando um jogo psicológico, sem dar um passo a mais para o conflito.

Depois de estar a salvo, bem alimentado e ter descansado bem, já podia conhecer as famosas ruínas. Uma pequena trilha levava até lá, da onde eu estava era como se fosse o quintal de casa. Foi incrível caminhar pela região, explorando cada cantinho deste que foi um importantíssimo centro politico e comercial do Sul da África.

O inicio da construção da capital deste reinado  é controverso, mas foi e entre os séculos 13 e 15 que teve o seu apogeu, quando comercializavam com chineses, persas, árabes e europeus.

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As ruínas estão divididas em 3 regiões, Complexo da colina (onde aconteciam os rituais) , Complexo do vale e a Grande área cercada. Só a parede do “Great Enclosure” tem 11 metros de altura e até 5 de espessura! Dizem ser a maior ruína da África subsaariana.  Merecidamente listada como patrimônio da Unesco desde 1986, era surpreendente eu ser o único visitante em todo aquele dia. É um misto de decepção pelas pessoas não visitaram um lugar tão impressionante com um egoísmo de se sentir “dono” do lugar por ter ele só para você.

Um pequeno museu com diversos artefatos e informações complementaram as informações do guia que eu havia contratado. Uma bela coleção de pássaros de pedra, que simbolizavam os diversos reis que passaram por ali e no passado ficavam exibidos no topo de colunas de pedra. Hoje o desenho de um deles faz parte da bandeira nacional do Zimbábue. Alias, o nome do país também foi em homenagem a esta civilização, e significa “A Grande Casa de Pedra”.

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A noite seria de lua cheia, uma daquelas “super luas” anunciadas. Já tinha me programado para percorrer novamente as ruínas somente com a luz do luar, mas uma forte neblina acabou com meus planos. Não pude reclamar de ter uma noite bem dormida.

Muitos estudiosos apontam a superpopulação e a falta de recursos naturais, aliados a questões ambientais ocasionaram o declínio deste grande império. O que se sabe com certeza é que com o declínio de Great Zimbabwe, floresceu outro reinado, o Khami, que seria a minha próxima parada.

Depois de uma caminhada e dificuldade de achar transporte de volta para Masvingo, peguei carona com uma pick-up mesmo. No centro não foi difícil encontrar um ônibus que iria até Bulawayo. Era um transporte lento, parecia um ônibus municipal, mas era o que tinha. Bananas e marmitas com batata e frango eram oferecidas em cada uma das dezenas de paradas, portanto o almoço estava garantido. Foram horas para percorrer os 300 quilômetros de estrada, mas ainda tive tempo de perambular pela agradável Bulawayo quando cheguei.

Em Bulawayo vi os primeiros brancos no Zimbábue. Um grupo bem eclético de turistas, daqueles que viajam nas empresas de “Overland tour”, ocupavam cafés e lojas de um centro comercial onde fui fazer compras num mercado. Pareciam mais a vontade com os muros e seguranças armados. No supermercado alguns brancos do Zimbábue mesmo, mostrando que nem todos abandonaram a Nação depois das politicas (desapropriação de terras) do Mugabe.

Hospedei-me numa pousada muito gostosa, um casarão num bairro bem tranquilo. Todos os quartos vazios, para desespero da proprietária, que no passado pagou todos os estudos dos filhos com a renda vinda do turismo.

livro de presente para as criançada da pousada

Livro de presente para as criançada da pousada

Nada de internet, falta de luz e água com certa frequência mostram que o Zimbábue continua com problemas. As moedas de dólar cunhadas pelo governo já não são aceitas em todos os lugares. Com a falta de troco os preços sobem e as notas de 1 USD estão por todos os lados. Muitas delas se desfazendo de tanto circularem. Existe falta de dinheiro (papel moeda mesmo) também. Poucos caixas eletrônicos estavam fornecendo dólares e todos com um valor bem restrito por saque. Eu tinha lido sobre isto e levei o suficiente para minha estadia (evitando pagar IOF também).  O governo aponta que logo deve entrar com nova moeda, o que para parte da população, causa temor de uma nova hiperinflação.

As ruínas de Khami (também Patrimônio da Unesco) não são longe de Bulawayo, estão a uns 25 km de distância. Depois da grandiosidade de Great Zimbabwe, temia que Khami não me impressionasse muito. No final das contas foi bom eu não ter grandes expectativas, pois fiquei encantado com as ruínas da capital do antigos Reino de Butua. Tanto a arquitetura como a forma de construção é diferente de Great Zimbabwe. Gostei bastante da composição arquitetônica dos “tijolos”, dando um estilo para a decoração, além da disposição da cidade ao longo do rio.

Corredores

Corredores

Ruinas de Khami

Ruinas de Khami

Estilo arquitetonico

Estilo arquitetonico

Construção

Cidade perdida

Outro lugar muito legal perto de Bulawayo é o Parque Nacional Matobo, popularmente chamado de Matopos Hills. Deixei os animais de lado desta vez e me foquei nas formações rochosas, cavernas e pinturas rupestres. O povo San deixou mais de 3000 pinturas na região. Como são nômades era a forma de registrar a sua passagem deixando informações para quando voltassem ou para outro grupo que viesse depois deles. As pinturas (algumas com 2000 anos) são muito bonitas, de diferentes estilos, e é uma delicia ficar subindo e descendo as colinas e entrando nas cavernas em busca delas.

Pinturas rupestres

Pinturas rupestres

Cavernas em Matobo

Cavernas em Matobo

Matopos Hills

Matopos Hills

Rochas

Rochas

Do topo das colinas existem vistas incríveis e os blocos de granito se equilibrando um nos outros é algo impressionante! Foi outro ótimo programa que me surpreendeu bastante. As colinas de Matobo também estão listadas no patrimônio da Unesco, mas não parece atrair tantos turistas assim. Alias, no Zimbábue acho que atualmente eles estão se concentrando nas Cataratas Victória mesmo, uma pena.

Tentei pegar o trem de Bulawayo para Harare, capital do país, mas não deu muito certo. O trem faz o trajeto três vezes por semana, mas quebrou e não tinha nem uma estimativa de hora (ou data!) para chegar. Acabei pegando um ônibus mesmo. A estrada era boa e o ônibus era excelente, então foi uma viagem bem tranquila. Tinha a esperança de na chegada conseguir achar um transporte para o Lago Kariba, no noroeste do país, divisa com a Zâmbia. Infelizmente toda a minha correria para atravessar Harare de uma rodoviária para outra foi em vão. Não havia nenhum transporte direto para Kariba, e passar a noite em outra cidade no meio do caminho não daria certo para mim, pois o meu retorno para o Brasil se aproximava.

Faltou tempo para o Lake Kariba e sobrou para Harare. Uma cidade grande, mas bem pouco agressiva. Peguei lotações para cima e para baixo e me pareceu bastante segura, contrariando o imaginário de um país com tantos problemas. Não existem grandes atrações, mas sempre da para inventar alguma coisa.

Na parada “Copacabana”, é só atravessar o Township de Mabare e subir até o topo da colina de Kopje. Antigamente o chefe Zezuru observava as manadas de búfalos lá de cima. Hoje só é possível avistar a selva de pedras que Harare se transformou.

Harare

Vista de Kopje – Selva de pedras

Fui ao Mukuvisi Woodlands, um parque urbano onde se pode ver diversos animais “selvagens”, caminhei por todos os cantos da cidade, presenciei um culto de uma igreja africana numa praça e pude variar um pouco a comida, já que vinha comendo Sadza quase todas as refeições (uma espécie de “polenta”, chamada de Ugali no Leste da África).

culto local

culto local

chega de

Chega de Sadza

Gostei de viajar pelo Zimbábue. Viagem tranquila, sem muitos desafios, atrações bastante interessantes e pessoas prestativas. Tinha tudo para estar lotado de turistas (como já foi no passado), mas a situação politica e econômica não ajudam muito. Uma pena.

Suazilândia, a última monarquia absolutista da África.

Nas regiões rurais do continente africano ainda existem centenas, talvez milhares de pequenos reinados. Apesar da população local se submeter às decisões dos monarcas, as leis oficiais dos países são regidas por governos centrais. A “realeza” em muitos destes lugares é somente um titulo. Não que não exista um status financeiro e político gigantesco comparado com a população em geral, mas não existe abundancia como em um reinado imaginário.

São poucos os reinados absolutistas no mundo todo, mas existe uma pequena nação no sul da África que funciona desta maneira. A Suazilândia, um dos menores países da África, está espremida entre a África do Sul e o Moçambique. Lá o Rei Mswati III é literalmente “Rei”, tendo o direito de escolher o primeiro ministro, mudar leis e fazer o que bem entender do seu reinado. Não que estas ações não sejam feitas por ditaduras em outros países, mas neste caso isto é oficial, a forma de governo escolhida.

Todos os anos, no Festival Umhlanga (que dura 8 dias), também chamado de Swazi Reed Dance, o rei pode escolher uma nova noiva. O rei tira seu terno e se veste com roupas tradicionais para ver milhares de mulheres virgens dançando de top-less. Para muitas meninas é a forma de mudar completamente o seu futuro. Assim ele escolhe uma nova esposa para fazer parte do seu harém. Ele só se casa depois que elas engravidam, provando a sua fertilidade.  Hoje são quinze esposas e pelo menos trinta filhos. Após a cerimonia ele pendura as roupas tradicionais e vai para casa brincar com sua coleção de carros de luxo e cuidar da sua fortuna de mais de 200 milhões de dólares (segundo a Forbes).

Para chegar na Suazilândia eu pequei uma “Kombi” em Durban. Impressionante como o transporte publico é subestimado na África do Sul. Estrangeiros pagam fortunas por serviços como o Baz buz, micro-onibus que te levam de hostel em hostel em dias marcados, quando existem lotações muito mais baratas. As vezes parece difícil para as pessoas saírem da bolha…

A estação YMCA em Durban não é muito movimentada, e tem até uma ou outra barraquinha vendendo sanduíches de ovo enquanto você aguarda a van sair. A que ia para a Suazilândia era uma Sprinter novinha, bastante confortável. As estradas nesta parte da África do Sul são perfeitas, pistas largas nos dois sentidos, com asfalto de qualidade. Infraestrutura muito melhor do que no Brasil.

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No controle de passaporte da saída da África do Sul tive um problema com meu passaporte. Eu tinha carimbado a entrada do país, mas o oficial não havia lançado no sistema. Acabou demorando um pouco, mas nada demais. Isto chamou a atenção de outro estrangeiro que estava na van e começamos a conversar.  Inicialmente em inglês mas depois rimos quando descobrimos que os dois éramos brasileiros. O Jaime mora nos EUA faz muito tempo, e estava iniciando sua viagem de dois meses pela região sul da África. Inicialmente iria somente atravessar a Suazilândia a caminho do Moçambique, mas resolveu seguir comigo para conhecer um pouco do país.

S

Vales da Suazilândia

A Suazilândia fica perto do Kruger, safari mais famoso da África do Sul. Isto faz com que o país receba uma quantidade razoável de turistas, pelo menos os que tem uns dias a mais. Desde a época do Apartheid, quando o turismo na África do Sul era boicotado, a Suazilândia já vinha se desenvolvendo nesta área. Estava meio sem saber para onde ir quando cheguei na pequena Manzini, cidade que é o centro econômico da Suazilândia. O Vale Ezulwini pode ter boas caminhadas, mas sabia que me irritaria demais com todos os casinos e spas que tem na região. Acabamos indo para o Vale Malkerns, onde nos hospedamos no Sondzela Backpackers. Um casarão colonial,antigo dentro da reserva particular Mlilwane Wildlife Sanctuary.

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Mlilwane wildlife Sanctuary

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Faltou o calor, mas tinha até uma piscina

Café da manhâ

Café da manhã

Existem algumas trilhas para caminhadas tranquilas na companhia de antílopes, zebras, gnus e javalis, tudo isto com jacarandás floridas e belas colinas ao fundo. Os macacos ficam ali perto da casa mesmo, nos arredores da piscina, talvez buscando algum resto do jantar que é servido ao redor da fogueira. Por falar em jantar, os próprios animais da reserva são abatidos e antílope foi o prato da primeira noite.

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Zebras

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África

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Jacarandá

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Visual

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Wild Beast

Existiam outros hospedes, dentre eles o Thomas e sua família. Ele é belga, mas se criou na França. Trabalha para o Medico sem Fronteiras e morou em diversos países, como Afeganistão, Burkina Faso e Haiti. Ficou fascinado pelas minhas viagens e pelo meu ultimo livro, “Uma Viagem pelos Países que não existem”.  Sua esposa é taiwanesa, e pedia para que ele traduzisse o que estava escrito. Ele lê português, então deixei um livro de presente. Segundo eles, seus filhos estão bem adaptados à vida na Suazilândia. A sogra veio de Taiwan para ajudar com o recém-nascido, que tem 3 meses.  Ao jogar pingue-pongue com eles falaram que eu segurava a raquete como os chineses. Não sei bem o que isto quis dizer.

Pose para a foto com os livros

Pose para a foto com os livros

Na Suazilândia existem diversas “Vilas Tradicionais”, locais montados para os turistas irem tirar fotos com swazis com suas roupas típicas e quem sabe tentar dançar musica folclórica. Já fui a lugares parecidos com estes em outros países, mas agora normalmente passo este tipo de “experiência”.

Numa noite, após o jantar, me avisaram que uma van nos aguardava para levar a um Lodge que fica dentro do mesmo parque. Teria uma apresentação de musica e dança típica. Eu e o Jaime nos juntamos à família belga-taiwanesa e outros turistas (sul-africanos e europeus) que vinham de uma excursão da África do Sul. O motorista colocou uma musica eletrônica, psy-trance a todo o volume. No caminho deu carona para sua irmã e outros dois rapazes, que caminhavam pelas ruas de terra que davam acesso ao Lodge. Eles eram os dançarinos que se apresentariam naquela noite. Vestidos com roupas comuns, levavam as “Roupas tradicionais” numa mochila da Adidas, provavelmente fabricada na China. Viva a globalização.

Sentamos nos troncos ao redor da fogueira e esperávamos os hospedes do Lodge terminarem seus jantares a luz de vela para a apresentação começar. Iniciou uma ventania forte e o tempo mudou completamente. Nuvens chegaram rápido e cobriram as estrelas e a lua que estava quase cheia. Acabou a luz. Torcemos para a van chegar antes da chuva, e foi o que aconteceu. Voltamos para nosso dormitório e a musica mais tradicional que escutamos foi a do (provável) Dj israelense, que fez a trilha sonora daquela noite, combinando com os raios e trovoadas.

No domingo, antes do Jaime seguir para o Moçambique e eu para o Zimbábue (via Joanesburgo), decidimos passar na igreja. Segundo o Thomas, nada mais típico na Suazilândia que um domingo na igreja. Já no transporte publico podíamos observar mulheres com seus melhores vestidos e pastores (os de pessoas, não de animais) com seus cajados. Queríamos ir a uma missa da Igreja de Zion, mas acabamos em uma Igreja Anglicana mesmo. Igreja lotada e o coral muito bonito. Os hinos africanos em geral são muito bonitos. Foi uma boa despedida da Suazilândia. Pegar transporte foi fácil, o pátio parecia que tinham mais “Kombis” que pessoas.

Igreja

Igreja

trans

Patio dos transportes

Na ultima parada antes da imigração fui num quiosque gastar meus últimos Emalangeni. Ele tem o valor equiparado ao Rand (que também é aceito na Suazilândia), mas não é aceito fora do país. Comprei dois bolinhos e a moça me deu um terceiro, o ultimo (que já estava meio quebrado). O seu irmão apareceu nesta hora. “Você não vai tomar café?” Expliquei que só estava gastando o restante de dinheiro antes de entrar na África do Sul. Eu te pago, disse ele antes de me servir. Ele tinha acabado de voltar de uma temporada de trabalhos no Canada. Juntou dinheiro e voltou para a Suazilândia para empreender. Me conte, como é viajar com a mochila nas costas, insistia. A conversa não se prorrogou muito, pois o meu transporte estava para sair. Trocamos os contatos de facebook e parti.

Lesoto, o reino das montanhas.

A antiga Basutolândia foi uma colônia africana do Reino Unido, após a independência passou a se chamar Lesoto. Olhando no mapa é difícil de acreditar que não foi incorporado à África do Sul, pois está dentro deste país. Um fato interessante é que praticamente toda a população é Basoto, diferente dos outros países africanos, que são constituídos por diversos grupos etno-linguísticos.

Eu estive muito próximo de visitar o Lesoto em 2009, quando iniciava minha viagem pela África. Faria sentido visitar o país, já que estava explorando as fantásticas montanhas de Drakensberg, bem próximo da fronteira do Lesoto. Mas existia um problema, o Lesoto exige visto para turistas brasileiros e não pode ser feito na fronteira. É preciso ir até uma embaixada (Durban) e aguardar alguns dias. Na época eu fiquei muito bravo, tinha conseguido carona para ir para a Namíbia e tinha que encontrar com eles em Joanesburgo em poucos dias, portanto não daria tempo. Cheguei a ironizar o Lesoto no meu livro “De cape Town a Muscat: Uma aventura pela África”, onde chamei o país de “Poderoso reino do Lesoto”.  Peço desculpas publicamente. Não era para eu ter ido. A maioria dos turistas parte da África do Sul e vão até o Sani Pass, o belo passe nas montanhas que divide os dois países. No máximo fazem uma caminhada ou tomam uma cerveja no “Bar mais alto da África”. Teria sido pouco, hoje eu reconheço. O mais justo seria eu ter mencionado o país como “O belo reino do Lesoto”!

Quase oito anos se passaram e eu estava aterrissando em Maseru, a pequena capital do Lesoto. O aeroporto fica um pouco afastado, região rural eu diria, e não tem movimento algum. Algumas vans privadas faziam o transfer até o centro da cidade, mas a preços exorbitantes (pelo menos para um mochileiro). Nada de táxi ali na frente ou ônibus. O jeito foi caminhar até a rodovia e esperar algum transporte. Achei que conseguiria uma carona, mas acabei saltando na primeira van que apareceu. Era um táxi coletivo e eu era o primeiro cliente. Passaram por diversos vilarejos, dando voltas e buzinando para recolher passageiros, até chegar a hora de seguir para Maseru. Tudo isto após uma viagem de avião Curitiba-São Paulo- Joanesburgo-Maseru, com as devidas conexões e esperas nos aeroportos. Confesso que a buzina incomodou, mas não me impediu de metralhar o cobrador com perguntas sobre o país e dia a dia dele. Estava cansado, mas feliz por estar de volta à estrada.

Maseru é pequena e com poucas atrações, fácil de caminhar pela região central, mas não queria perder tempo, pois ainda tinha uma etapa da viagem para cumprir. Fui até o estacionamento das lotações e não demorei muito para achar um “táxi” que iria até Semonkong. Interessante que no Lesoto chamam tanto táxi como lotações de “táxi”, o que gera certo problema de comunicação, pois as vezes acham que você quer um carro só para você.

A lotação estava quase cheia, então não demorou para sair. Uma estrada simples, de asfalto novo, sem nenhum buraco na pista. Já nos arredores de Maseru um visual de chapadas, com montanhas em forma de mesa, mas logo foram ficando mais altas e em outros formatos. Passamos por Roma, onde está a universidade do país e por alguns passes de montanha. A velocidade não era alta, devido às curvas, subidas, pedras que rolaram para a pista e algumas ovelhas que insistiam em atravessar a estrada, para desespero dos pastores. Até poucos anos o final do trajeto era em estrada de terra, mas agora todos os 120 km são asfaltados.

Semonkong é minúscula. O centrinho é basicamente formado pelo pátio de transporte, onde esporadicamente tem um ônibus, uma ou outra lotação, uma ou outra caminhonete e mais de uma dezena de cavalos. Fácil de ver que o transporte oficial da região são os cavalos e burricos.

Fui caminhando até o hotel que ficava  já nos arredores do vilarejo. Praticamente todos os homens estavam vestidos da mesma maneira. Enrolados em um cobertor (preso por um grampo), bota, e um gorro onde só fica o rosto (ou os olhos) aparente.

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Apesar de o verão estar se aproximando, na recepção do hotel me deram todas as instruções para ascender à lareira caso esfriasse muito a noite. Um quarto coletivo limpo, banheiro com água quente e tudo, num chalé estilo refugio de montanha.

Adorei caminhar pela região, observar o dia a dia dos pastores, não só no vilarejo, mas principalmente nos arredores, onde é possível ver também diversos pássaros, entre eles águias e Íbis carecas. Casas de pedra redondas se misturam com outras de telhado de zinco, completando a paisagem.

Mais próximo do hotel, uma ou outra pessoa pode se aproximar de você para se oferecer como guia ou para alugar um cavalo, mas muito longe de ser um assedio. Fácil de se localizar pela região, inclusive de encontrar o caminho para a Cachoeira Maletsuyane. A trilha é relativamente bem marcada, mas na duvida sempre existem pastores dispostos a apontar o caminho. Ao cruzar com os pastores o mais comum é escutar “Lumela…”, forma que se cumprimentam por lá. Muitas vezes entediados, ao serem abordados adoram conversar, ou pelo menos tentar, já que ao contrario das cidades, poucos falam inglês. Garantia de boas risadas.

Pastores com seus cobertores

Pastores com seus cobertores

Tinha acordado cedo para fazer a caminhada até a Cahoeira Maletsuyane, pensando que poderia fugir da chuva que muitas vezes vem no final de tarde, mas não tive sorte. O tempo ficou fechado quase todo o dia, chegou a cair uns pingos até, mas nada disto tirou a beleza da região.

Semongkong

204 metros de queda

Semongkong Semongkong

A cachoeira parece desenhada, com seus 204 metros de queda, onde o rio segue pelo cânion. Um silencio quase absoluto, somente quebrado pelo vento, passaros e pelas ovelhas. Poderia ter sido um passeio relativamente rápido, mas acabei me empolgando e seguindo pelo cânion, buscando as melhores vistas da região e gastando longos minutos sentado, somente contemplando.

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Cachoeira Maletsuyane

O Lesoto é todo montanhoso, não existem muitas estradas, portanto muitas vezes é necessário dar grandes voltas para chegar ao seu próximo destino. O transporte não é frequente e muitas vezes é melhor voltar até a capital, Maseru, do que ficar na beira da estrada, pois já passam lotados. Foi o que eu fiz. Não sabia muito bem qual caminho seguir, mas a falta de transporte ajudou. Peguei o que tinha, uma estrada secundária, atravessando o país pelo meio, num trajeto que diziam ser o mais bonito. Desta vez a lotação estava superlotada. Alem dos passageiros, malas e sacolas ocupavam qualquer espaço que pudesse estar vazio. O motorista parou para comprar um jogo de pneus, que foram devidamente acomodados dentro da van também. Caixas de pintinhos e sacos com mantimentos não poderiam faltar. Uma criança no braço de sua mãe não parava de me encarar. Tentei fazer caretas, mas a expressão dela não mudava. Um olhar fixo, que só desviava quando tentava mamar. Os seios murchos provavelmente não forneciam mais leite, mas acalmavam o bebe na longa viagem. Vez ou outra a mãe dava uma colherada de iogurte, rapidamente aceita, antes de grudar novamente no seio castigado.

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Vilarejos nas montanhas

Paisagem exuberante, muitas curvas e um sobe e desce sem parar. Passei pela represa em Mohale, onde estão construindo um grande complexo turístico. Segui em frente, atravessando o passe Mokhoabong até chegar em Thaba-Tseka. Nada de hotéis para turistas, mas sempre tem opções onde trabalhadores locais e do governo se hospedam. Para minha sorte, o café da manhã reforçado estava incluso(ovos, bacon, salsichas, batata, feijão). Mal eu sabia que passaria o dia inteiro na estrada. No mapa parecia fácil ir de Taba-Tseka até Mokhotlong, mas não é bem assim. As estradas pelas montanhas são traiçoeiras, ainda mais quando termina o asfalto. Acordei cedo e fui para o pátio de transporte. Somente uma caminhonete e um ônibus velho que iria de volta até a Capital, Maseru. Chegaram a me recomendar que eu viajasse todo o caminho de volta para pegar a estrada principal até Mokhotlong, o que duraria dois dias de viagem. Insisti se não havia nenhuma alternativa. Tentei carona na beira da estrada por uma hora, mas nem pensar em algum veículo indo naquela direção. Um senhor me confortou, dizendo que existia uma van que iria até Linakaneng, uns 50 quilômetros dali, e de lá eu poderia seguir viagem. Fiquei batendo papo e para minha surpresa chegou a tal lotação. Eu era o primeiro passageiro e temi ter que esperar horas para lotar. Mas não foi o caso. O preço da passagem é mais alto, mas saem antes de encher. Deram umas voltas pela região recolhendo pouco mais de meia dúzia de pessoas e eu pude “passear” por belas paisagens nos vilarejos entre as montanhas.

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Visual da estrada

A viagem iniciou e eu nunca iria imaginar que poderia demorar tanto. Com o final do asfalto, as diversas subidas e paradas para pegar passageiros no caminho (que lotaram a van) a viagem acabou demorando mais de três horas.  Nessas horas que vejo como a viagem depende muito da forma que sua mente esta preparada. Se você quer chegar, para fazer uma atividade ou ver algo, isto pode te irritar muito. Mas se esta tranquilo, curtindo a musica tradicional tocando no radio, batendo papo com o motorista e curtindo o visual incrível ao lado, a sensação do tempo é diferente.

Linakaneng é um amontoado de casas no meio da montanha. Destaque para a escola e o grande campo de futebol. Algumas “lojas” que vendem mantimentos e tudo que alguém pode precisar, de bota a corda. Uma van com duas pessoas dentro estava parada no patio. O motorista tinha feito contato com eles por telefone falando que eu gostaria de seguir viagem, parecia que estavam só me esperando. Deixei minha mochila para guardar lugar e pedi para esperarem para eu comprar algo para comer. O bolinho de banha, uma espécie de sonho sem recheio é a opção mais barata e fácil de encontrar. Pães caseiros também estão disponíveis, assim como salsichas.

Linakaneng

Linakaneng

Pastores em Linakaneng

Pastores em Linakaneng

Logo descobri que a lotação esperaria passageiros para sair. Incrível como em um vilarejo no meio das montanhas, o transporte só sai quando os passageiros decidem. Não tem um horário marcado, no estilo quem não estiver lá perde o único transporte do dia. Para valer a pena para o motorista, só com lotação máxima. Demorou algumas horas. Deu tempo de ver as crianças da escola cantando o hino, depois diversas musicas antes de correrem brincando para suas casas. Pastores atravessarem a cidade com seus rebanhos e cachorros. Amigos apostarem corrida a cavalo e outras cenas no dia a dia de um vilarejo de montanha. Tudo com um visual incrível atrás.

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Finalmente seguimos pela montanhas e a vantagem da van estar cheia é que não parava tanto para pegar passageiros. As curvas e subidas não deixavam a viagem fluir, mas em certo momento chegamos no asfalto novamente.

Placas para cuidar com o gelo e o perigo da neve mostravam que o Lesoto esta longe da África do imaginário coletivo. Para completar a quebra dos estereótipos, diversas placas apontando para as estações de esqui da região. Como era verão, nada de neve, mas usam as pistas para atividades como mountain bike por exemplo.

No ultimo trajeto, excelente estrada até Mokhotlong. Nem tive como escolher o hotel, pois uma chuva torrencial iniciou e peguei o primeiro que apareceu. Região muito bonita onde o turismo tem se desenvolvido rapidamente. A proximidade da fronteira com a África do sul com certeza ajuda. Diversas opções de caminhada pelas montanhas mais altas do sul da África ( Thabana Ntlenyana tem 3482 metros).

Com a chuva e altitude a temperatura despencou a noite. O único transporte até o Sani Pass é o que segue para a África do sul. Devido ao mau tempo, desisti de ficar em Sani. Caminhadas com chuva e neblina não seriam tão proveitosas. A estrada que era perfeita até a fronteira, virou de terra quando entrei na África do Sul. Um zigue-zague, onde muitas vezes tínhamos que esperar caminhonetes que traziam turistas para passar o dia no Lesoto passar para podermos fazer a curva.

Sani Pass

Sani Pass

Imigração da África do Sul feita, o transporte não segue até Underberg, a primeira cidade. Ele para num quiosque onde se espera outra van (com preço alto para a pequena distancia). Com chuva e nada de interessante acontecendo, aproveitei uma oportunidade e peguei carona com um alemão que deixava um estrangeiro por ali. Uma carona até Underberg me ajudaria bastante, mas nem acreditei quando descobri que ele estava inda para Durbam, minha próxima parada. Me deixou na porta do Hostel, dei um livro de presente para ele e fui tomar uma cerveja.

 

Guiné-Bissau e o Arquipélago dos Bijagós!

A comunidade Lusófona mundial não é grande. Restringe-se a poucos países, sendo eles Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Acho muito legal de viajar para outros países e falar português, ainda mais como Brasileiro. Não que eu não goste de falar outras línguas ou até me comunicar por mímica, mas gera uma curiosidade você dominar o “idioma deles”.

Língua portuguesaunida

Língua portuguesa unida

Guiné Bissau não é muito frequentada por turistas. Existem os estrangeiros que trabalham em ONGs, os turistas endinheirados que vão de avião fretado pescar em uma ou outra ilha, mas não são tantos viajantes independentes por lá. Alias nos últimos anos tem figurado na lista dos dez países menos visitados do mundo. Só isto já me soava tentador e descobrir o que tinha por lá, mas as surpresas sempre são maiores.

 

O visto não parecia algo simples, pelo menos não na Embaixada no Brasil. Pediam carta de convite ou termo de responsabilidade de algum morador (ou empresa) de Guiné Bissau, dentre outras burocracias. Como tudo na estrada é mais fácil, após alguma pesquisa deixei para tirar no Consulado de Ziguinchor, cidade senegalesa que não fica muito longe da fronteira. Cheguei minutos antes da embaixada abrir. Quando o cônsul e seu assistente chegaram soltei um “ Bom dia” bem sonoro, orgulhoso do meu português. Recebi uma resposta meio seca, “ nem tão bom…”! Mas não deu tempo nem de me preocupar se receberia o visto. O cônsul inclusive preencheu meu formulário, só precisei assinar. Entreguei uma copia do passaporte e fotos 3×4, mas ele nem pegou as fotos. Paguei e sai com um visto de duas entradas, tudo isto em menos de 5 minutos. Poderia ter inclusive ter ido direto para a fronteira, mas fiquei uns dias pela região de Casamance, Senegal.

No dia da minha partida, fui cedo para o pátio dos transportes. Quem tem o visto no passaporte consegue pegar um carro (Sept Place) direto de Ziguinchor até Bissau, capital de Guiné Bissau, sem precisar fazer a viagem em etapas. Isto agiliza bastante, mas mesmo assim os 140 km vão demorar perto de 4 horas de viagem com os tramites da imigração.

A estrada do lado senegalês é simples, mas boa, a fronteira é tranquila, sem muitos comentários. Atravessei a pé a “terra de ninguém” e o carro atravessa sozinho para continuar a viagem. Fiquei amigo de um jovem de Freetown, Serra Leoa, que voltava para casa depois de um período de trabalho em Dakar, Senegal. Ele pararia no caminho caso achasse trabalho. Muito interessante estas migrações que acontecem com tanta frequência pelo Oeste da África. A facilidade de poder viajar somente com a carteira de identidade ajuda muito eles neste aspecto. Um alemão que estava indo visitar sua irmã em Bissau também estava no carro, assim como homens de negocio e senhoras voltando para casa.

Amigos da estrada

Amigos da estrada

Cidade

Cacheu

A estrada do lado de Guiné-Bissau é visivelmente de pior qualidade. O país tem um dos piores IDH do mundo. Se a infraestrutura não ajuda o turismo, a não possibilidade de sacar dinheiro em caixas eletrônicos assusta muita gente. Ser vizinha de Guiné (Conracri), onde teve surto de Ebola, e possuir uma instabilidade política, só piora as coisas. Mas posso dizer que foi uma viagem super tranquila e agradável, alem de uma ótima receptividade.

Ebola

Campanha contra a Ebola

Logo após Santo Domingo, a primeira cidade, uma nova ponte, pedagiada, liga até a pacata Cacheu. A pequena cidade, na beira do rio de mesmo nome, foi um importante entreposto e dão um clima histórico para o lugar.

A estrada que vai até Bissau passa por poucas cidades e vilarejos, mas sempre que tem algum sinal de vida, muitos vendedores de castanha de caju, o carro chefe das exportações do país. O país produz 200 mil toneladas do produto, carro chefe da exportação, ajudando a economia a crescer 5% no ultimo ano.

Ao me aproximar da Bissau, aquele movimento dos subúrbios, com mercados e pessoas, porem bem calmo comparado com outras capitais do oeste africano. Nosso ponto final era por ali, onde eu negociei um taxi para ir até o centro. Somente 500 CFA, menos de um dólar para alguns quilômetros de corrida. Foi uma das poucas coisas baratas por ali. Se engana quem pensa que só porque um país é pobre tudo será barato. A baixa infraestrutura, e poucas opções de hospedagem por exemplo, fazem os preços dispararem. A pousada que tinham me recomendado era pequena e estava lotada. Me indicaram um outro local. Razoavelmente bom, mas com um péssimo custo beneficio.

Eu teria tempo para explorar a cidade, mas minha prioridade era saber quando sairia o ferry para a Ilha de Bubaque, já que só tem um por semana. Caminhei até o porto e encontrei um cartaz indicando a maré e o horário. Pesquisei um pouco sobre canoas, mas elas são bem esporádicas e a viagem é bastante longa.

Informativo

Informativo

O Bairro de Bissau Velho fica ali ao lado do porto. É pequeno, talvez umas 4 quadras por 2 ou 3. Ruas estreitas, casas com sacadas de madeira e alguns casarões históricos nos arredores. O problema é que alguns dos casarões funcionam órgãos do governo, assim como o grande forte (Fortaleza são José de Amura) que hoje é base militar, portanto nada de fotos, infelizmente. De qualquer forma muito gostoso andar sem destino por ali, explorando cada cantinho.

Predios mal conservados perto do porto

Predios mal conservados perto do porto

Ruas calmas na parte velha da cidade

Ruas calmas na parte velha da cidade

Sacadas em muitas construções

Sacadas em muitas construções

Entrada de Bissau Velha

Entrada de Bissau Velha

Casarões

Casarões

A cidade parecia parada, talvez devido ao calor, poucas pessoas nas ruas. Passei pela Igreja católica, pelo palácio presidencial, mas acabei me refugiando na sombra de uma arvore em  um bar em frente à praça Che Guevara. O partido africano para a independência de Guiné e Cabo Verde (sim eram só um país no passado) eram de inspiração marxista, e por isto alguns monumentos e ruas recebem nomes de figuras revolucionarias. O grande líder da independência, Amilcar Cabral, é lembrado nos livros, muros e corações de toda a população.

Catedral de Bissau

Catedral de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Cabral

Amílcar Cabral, sempre lembrado.

Apesar da dificuldade do país, não encontrei nenhum pedinte durante minha viagem. Me senti bastante seguro, cheguei a sair a pé mesmo a noite para  jantar. Para pegar meu ferry, antes do sol nascer não foi diferente. Se bem que as poucas quadras até o porto facilitava. Deu tempo de tomar um café e comer um sanduíche enquanto a embarcação não saia. Não tinha encontrado muitas opções de comida de rua em Bissau, mas num lugar movimentado como o porto sempre tem algumas possibilidades. Comi um bolo tão gostoso que guardei algumas fatias para a viagem.

Sol nascendo no porto

Sol nascendo no porto

Aguardando a partida

Aguardando a partida

A embarcação é velha e lenta, tornando o trajeto longo, mas golfinhos quebram a monotonia e sempre tem alguém disposto a bater papo . Assim que se afasta do continente já da para avistar as primeiras ilhas. O Arquipélago dos Bijagós possui 88 ilhas, de todos os tamanhos e estilos. Pena que existe esta dificuldade tão grande de se locomover entre elas. Um ferry semanal para as principais, uma ou outra canoa superlotada de pessoas e mantimentos entre as ilhas, faz com que seja impossível conhecer mais de meia dúzia de ilhas em um mês se você não tiver um barco próprio. A ilha de Bolama tem a antiga capital, cheia de prédios coloniais abandonados, Orango tem os hipopótamos de água salgada, a João Vieira tartarugas e ótima vida marinha para mergulhos, Uracane cheia de flamingos, algumas são inabitadas, com praias paradisíacas, outras possuem populações com vida super tradicional, onde o rei ainda é quem manda. Falaram que Canhabaque é a mais tradicional de todas, cheia de lugares sagrados e lendas.

Ultima vista de Bissau

Ultima vista de Bissau

Arquipélago dos Bijagos

Arquipélago dos Bijagos

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

Algumas ilhas desertas

Algumas ilhas desertas

 

A hospitalidade dos Bijagós é conhecida, mas sempre vale lembrar que lá são eles que mandam, então suas terras, suas leis. O navegador português Nuno Tristão foi o primeiro europeu a chegar nas ilhas, em 1447. A receptividade naquela época não foi tão boa, e já que ele foi morto pelos guerreiros Bijagós.

Eu desci na ilha de Bubaque, depois de umas 8 horas de viagem. Já tinha feito alguns amigos que me recomendaram uma pousada não tão distante do centrinho. Outro amigo me recomendou o restaurante da irmã dele. Porções simples e honestas. Um prato com arroz e peixe com molho de amendoim pelo equivalente a um euro. Os pratos mais baratos dos restaurantes simples de Bissau e até os dos hotéis de Bubaque eram de pelo menos (o equivalente a) 5 a 7 Euros, então foi um alivio. Não preciso nem dizer que virei freguês, e ainda era um ponto de encontro de pescadores da região, então historias não faltavam…

Aterra a vista!

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Chegando em Bubaque

O centrinho de Bubaque é relativamente “desenvolvido”, a iluminação publica é com energia solar, e alguns botecos mostram jogos de futebol europeu, devido às antenas parabólicas. Alguns casarões abandonados, ruas de terra, e um ou outro carro passa com o intervalo de algumas horas.

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Não tem tantas coisas para fazer, a não ser brincar com a criançada, explorar os vilarejos mais típicos e bater papo com o pessoal. Dizem que em Guiné-Bissau se fala português, mas não é bem assim. Na verdade somente 15% da população fala português como língua corrente. A língua mais falada é o crioulo (Krioul), usada por mais de 70% da população. Existem diversas outras línguas nativas também, faladas por pequenas comunidades. O Crioulo de Guiné Bissau é uma língua que se originou da mistura do Português com línguas locais. Apesar de ser uma língua independente, tem um grande percentual de palavras portuguesas. Quando falam rápido é difícil de entender. Para descontrair, às vezes eu falava um português bem rápido e cheio de gírias, era risada na certa.

Brincadeir de criança

Brincadeira de criança

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

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Na ilha não tem transporte publico. Os poucos carros são de funcionários da ONU, ONGs, ou para transporte de mercadorias e de hotéis mais caros. Mas não é difícil de encontrar uma bicicleta para alugar. O problema é que todas que encontrei estavam em péssimo estado de conservação (esqueça freios e marcha), mas facilita bastante para distancias mais longas.

Presença da ONU e ONGs

Presença da ONU e ONGs

A Praia do Bruce, fica a 18 quilômetros de distancia, no extremo oposto da ilha. É um dia longo, pois precisa sair cedo, antes que o sol torne a pedalada proibitiva. Mochila carregada com frutas mangas, sanduíches e água, muita água. Não tem muito como se perder. É só achar a “ estrada branca” principal “ estrada” da ilha. Era uma estrada feita com conchas, daí veio o nome, mas são tantos os buracos que já é de terra mesmo. Muitos cajueiros, todos carregados com frutas. Eu tentava pedalar rápido mas a bicicleta e a estrada não me deixavam. A leve brisa me entorpecia com o cheiro de caju maduro, que aguçava mais um sentido naquele momento. A trilha sonora era de facões dos trabalhadores limpando a área e coletando coquinhos de palmeiras. Nas pequenas vilas que passava (alguns amontoados de casas) crianças vinham correndo para acenar, e as pessoas paravam para ver o estrangeiro passar. Gritavam “Branco, Branco”. Se surpreendiam quando eu respondia em português e vez ou outra alguém me acompanhava por alguns minutos de bicicleta. Depois de um longo trajeto, valorizamos ainda mais a praia e um refrescante banho de mar. As coisas devem mudar no futuro. Estão construindo um ou outro hotel, mas a praia ainda é deserta. Uma ou outra canoa, onde um porquinho buscava sombra para dormir da areia. Eu já preferi a sombra das arvores, um pouco mais para trás.

Estrada inicia bem

Estrada inicia bem

...mas logo fica assim!

…mas logo fica assim!

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Minha magrela!

Minha magrela!

Todos buscando uma sombra

Todos buscando uma sombra

Um dia longo e relaxante na praia cai bem, mas precisa programar bem a volta. Muito cedo o sol esta fortíssimo, por outro lado anoitece cedo, e é preciso considerar a possibilidade de furar um pneu ou acontecer alguma coisa com a bicicleta no caminho. Na volta crianças, mulheres, adultos e velhos estavam voltando do trabalho. Com seus facões com ponta reta, cestos cheios dos coquinhos vermelhos e cara de exaustos. Um senhor me pediu água, a dele tinha acabado fazia tempo. Era final de semana, um dia quente de verão, mas eu fui o único que pude aproveitar a praia. No dia a dia é preciso trabalhar, é a sobrevivência, mesmo num final de semana com sol.

Algumas pessoas pedalavam no sentido de Bubaque. Todas com sacos pesados amarrados nas bicicletas. Foi bom para puxar meu ritmo, pois não podia ficar para trás.

Em Bubaque logo já conhecia muita gente. Busquei um chip de celular nas diversas vendas, até finalmente encontrar. Havia ficado dias sem dar noticias, e a Bibi estava bastante preocupada. Com o chip em mãos, descobri que era preciso se registrar, mas só lá no continente. Parecia um caso perdido quando um dos meus amigos ligou para o irmão dele em Bissau. Ele pegou a moto e foi até uma agencia telefônica para cadastrar o meu numero no nome dele, e assim pude dar noticias.

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Quando chegou o dia de partir, uma pequena feira de rua se formou em frente ao barco. A cidadezinha estava viva e até apareceu um grupo cantando enquanto o ferry partia. Horas de viagem e cheguei em Bissau já estava escuro. Mas já me sentia em casa, caminhei até o mesmo hotel, sai para comer, parecei que já entendia bem como as coisa funcionavam na pequena capital.

Dia de feira em Bubaque

Dia de feira em Bubaque

Barco sempre lotado

Barco sempre lotado

Azulejos de Bissau

Azulejos em Bissau

Azulejo de Bissau

Azulejo em Bissau

Já estava quase na hora de me despedir de Guiné-Bissau, mas não sem antes experimentar as famosas ostras de Quinhamel. Uns 30 quilômetros a noroeste de Bissau, na beira da praia, um programa imperdível para quem gosta de comer bem. Dizem que final de semana fica cheio, mas dia de semana é muito tranquilo.

Um lugar que eu queria ter conhecido é a vila de pescadores de Varela, no extremo norte do país. A estrada de Santo Domingo para lá não é das melhores, e o transporte não é frequente. Eu tinha planejado de passar uma noite lá, mas rumores diziam que as fronteiras do Senegal com a Gâmbia tinham fechado novamente. Se isto fosse verdade (acabou não acontecendo) eu teria que contornar toda a Gâmbia (o que daria mais de 24 hs de viagem) para poder chegar em Dakar e pegar meu voo para o Brasil. Resolvi não arriscar.

No controle de passaporte de saída, esboçaram uma revista na mochila. Guiné Bissau esta na rota do tráfico de drogas internacional. Com tantas ilhas e uma marinha que só tem um ou outro barco, tornou-se a porta de entrada da cocaína que vai para a Europa. Encontraram meia dúzia de roupas sujas e algumas histórias. Deviam estar entediados, pois adoraram minhas historias de lá e de outros lugares que identificaram nos vistos estampados no passaporte. O papo estava bom, mas tinha que seguir viagem. Abriram um sorriso quando disse que recomendaria o país para meus amigos. “Obrigado, são sempre bem vindos…” acenava o oficial da imigração com um sorriso no rosto. E eu segui no meio de mulheres com vestidos coloridos, homens com sacos pesados nas costas e contrabandistas pela terra de ninguém até chegar no Senegal.

 

No país ao longo de um rio

A Gâmbia estava ligara à rota comercial trans-saariana e fez farte de alguns dos maiores impérios africanos, como o de Ghana, Mali e do Songhai. Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar na região mas logo venderam seus direitos para os ingleses. A disputa colonial pela África fez com que diversas regiões trocassem constantemente de controle, até a conferencia de Berlin, que fez a partilha oficial do continente africano entre os europeus. Maios ou menos nesta época a França tinha influencia na maior parte do Oeste da Africa (no que viria a se chamar Africa Ocidental Francesa) mas a disputa sobre província chamada Senegambia ainda era grande. Os ingleses tinham um entreposto militar em Banjul (hoje capital da Gambia) e controlavam o já proibido trafico de escravos pelo Rio Gambia. Não foi difícil para os inglese conquistarem o território ao longo do rio (hoje Gâmbia), mas os franceses ficaram como toda o restante (hoje Senegal).

O mapa da africa , que já é um absurdo pelas fronteiras determinadas por linhas retas ficou ainda mais esquisito com um país que existe somente ao longo de um rio.

Me aproximando da Gâmbia, vindo da porção norte do Senegal, a estrada N4 (também chamada de Trans-Gambia) praticamente terminou. Viajei muitos quilômetros num carro velho (sept place) por uma estrada bastante empoeirada e quente. Já se aproximava do final de tarde e cheguei a cogitar a possibilidade de dormir nos últimos vilarejos do Senegal. Estando tão perto não custava atravessar a fronteira. Mas não seria tão rápido assim. No posto de controle do Senegal, passaporte carimbado, tranquilo. Já no da Gambia, o oficial veio me perguntar se eu queria que carimbasse meu passaporte. Claro que queria, como faria para explicar na saída do país ou em um possível controle de passaporte? Tentaram me cobrar 2000 CFA, algo como 3 euros. Eu viajava com meu passaporte italiano, pois brasileiros precisam de visto para lá (e não dá para tirar na fronteira) e sabia que não precisava pagar nada. Tentei argumentar, insisti, mas não teve conversa. Sempre me orgulho de dizer que sempre arranjei uma forma de fugir de oficiais corruptos mas ali eu cedi. Estava cansado demais para esperar. Da fronteira contratei um moto-taxi para me levar alguns quilômetros até a próxima cidade, a pequena Farafeni.

Cuidados com a ebola

Cuidados com a ebola

Estava trocando dinheiro, lá eles usam o Dalasi da Gambia e não o CFA, quando percebi que tinha uma van sendo carregada. Já tinha anoitecido, mas não custava ver se ela não iria para meu próximo destino, Janjanbureh. Estava com sorte, era o único transporte que tinha no patio e ia para lá. Quer dizer, sorte mais ou menos. Um cara, daqueles bem malandros veio tentar me vender a passagem. Cobrando bem mais caro. Isto é bem raro nesta região da África, normalmente levam bem a serio os preços e não cobram extra de estrangeiros. Percebi a armadilha e fui comprar direto com o motorista. Ele me garantiu que já estavam quase saindo. Eu sabia que o tempo passa de maneira diferente por ali, então comprei uns baguetes de um vendedor, ovos cozidos de outro e fiz meu sanduíche.

Quando finalmente saímos, a minivan estava lotada, de passageiros e de carga. Os pouco mais de 100 quilômetros foram muito lentos, com paradas para descarregar mercadorias, sair passageiros e subir novos. Quando finalmente chegamos no destino final já era mais de 10:30 da noite.

Peguei minha mochila sem sabem muito bem para onde ir. Na minha frente um rio, Janjanbureh ficava no outro lado. O motorista me falou que tinham hotéis deste lado da margem do rio também, e logo apareceram uns malandros se oferecendo para me levar lá. Estava muito escuro, nenhuma iluminação publica, então não me senti muito seguro de perambular sem conhecer a região. Conversava com quatro senegaleses que estavam vindo a trabalho quando um barqueiro ofereceu para nos levar por 100 Dalasi. O senegalês se ofendeu, ficou irritadíssimo. Segundo ele o preço correto era de 5 Dalasi. Quase brigou com o barqueiro. Eu tentei negociar mas ele disse que não teria passageiros de volta naquele horário e que não poderia nos levar por menos. Os senegaleses discutiram mais um pouco com o barqueiro, falaram alguma coisa que eu não entendi, e ele saiu furioso.

Sentamos na margem do rio, com uma noite quente e muito estrelada. Sem muitos mosquitos mas eu reforçava o repelente, pois esta é uma das áreas com maior incidência de malária de toda a Africa. Os senegaleses ligaram para alguém e garantiam que logo um barco viria nos buscar. Vendo a demora sugeri de eu pagar 60 e cada um 10 Dalasi. Eles não acetaram. Eu morto de cansado da longa viagem resolvi achar o barqueiro e pagar o preço. Quando me dei conta, resolvi fazer a conversão da nova moeda e cai na risada. Os 100 Dalasi são pouco mais de 2 Euros! Eu acabei demorando mais de meia hora para atravessar o rio por este valor. Os senegaleses tinham ficado tão revoltados com o valor que (cansado e não raciocinando) nem me dei ao trabalho de fazer a conversão. Só pensava que pagaria 4 vezes mais que o justo. O raciocínio deles era correto, mas paguei os 100 Dalasi com gosto. O primeiro hotel que fui olhar estava mais de que bom para aquele momento. Ainda tive energia para tomar duas cervejas no bar que ficava num deck ao lado do hotel, e fui dormir, sem banho, o balde poderia esperar a manhã seguinte.

Janjanbureh ( antiga Georgetown) fica na histórica Ilha MacCarthy. Um dos locais mais a dentro do Rio Gâmbia que os ingleses se estabeleceram. Foi um lugar onde muitos escravos libertos vieram morar também. Hoje é um pequeno vilarejo, com certo apelo turístico. Possui diversos armazéns antigos e algumas ruínas o que dá um ar de lugar esquecido. Alguns vendedores ambulantes perto do “porto”, onde 7 entre 10 vendem mangas. O forte café Touba também é muito popular. Alem da cultura e historia local, dizem ser um lugar incrível para observar pássaros. Acabei não encontrando nenhum outro estrangeiro por ali, ninguém para dividir uma canoa ou barco para conhecer os parques nacionais ali por perto. Sozinho os preços eram extremamente proibitivos, então fiquei perambulando pela região. Sempre aparecia alguém para conversar comigo. Eu dou papo, mas infelizmente sempre era com segundas intenções, normalmente oferecendo um serviço de guia.

Pintura em um antigo armazém

                                                                 Pintura em um antigo armazém

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" Porto"

                                                                                     ” Porto”

"Avenida" principal

“Avenida” principal

Peguei um barco para a outra margem do rio e fui explorar os famosos círculos de pedra da região. Os mais conhecidos são os de Wassu, poucos quilômetros dali, listados como Patrimônio da Unesco. Grandes (alguns com 2 metros), bonitos, mas naquele esquema pago, guia, blablabla. Não é uma experiencia em si, tampouco um Stonehenge.

travessia

Travessia

 

Wassu

Entre o Senegal e Gâmbia existem mais de 2000 destes círculos, que foram construídos entre os seculos 3 A.C. e 16 D.C. , nos rituais de sepultamento. A forma de extração das rochas e capacidade de organização mostra o desenvolvimento das sociedades que viveram por ali.

Resolvi estender o passeio e procurar também alguns círculos perto dos vilarejos. Sozinho eu não encontraria, então contratei uns meninos para me levar. Eles ficaram felizes da vida. Uma delicia caminhar entre as casas tipicas, as baobás e escutar as histórias e sonhos da piazada. Os círculos que encontramos, bem mais modestos, tinham um ar de vitória. As crianças discutiam qual era o melhor caminho, qual círculos deveríamos ir e nos divertíamos. Só o sol que castigava, pois estava muito quente.

Círculos de pedra

Círculos de pedra

Meus guias

Meus guias

Casas tipicas

Casas tipicas

Paisagem entre os vilareijos

Paisagem entre os vilareijos

Quando chegou o dia de ir embora, atravessei a ilha e segui pela margem sul. Não tinham ônibus diretos, então tive que fazer diversas conexões até voltar para o Senegal, agora na porção sul, Casamance. Antes disso eu tive que passar pela imigração, que também queria que eu pagasse pelo carimbo. Não eram agressivos, na verdade se faziam de meus amigos. Mas desta vez era de dia, e eu estava com tempo. Coloquei minha arte de negociação para funcionar, dizia que ia voltar por aquela fronteira e até anotei o telefone do guarda. Não fugi da mordida, mas pelo menos paguei só um Euro.

Viajei pelo sul do Senegal e para Guiné Bissau, mas tinha que atravessar a Gambia novamente para pegar meu voo em Dakar, Senegal.

Desta vez fui pela costa da Gâmbia. Dias antes as fronteiras Gâmbia-Senegal tinham sido fechadas novamente. Os dois países vivem brigando por causa da cobrança de impostos. Para a economia do Senegal, atravessar a Gambia, cerca de 40 quilômetros, é bem mais fácil que contornar, que seria uns 600 ou 700 quilômetros. Eu perderia um dia de viagem caso tivesse que dar a volta na Gâmbia. Resolvi arriscar e pude passar, para surpresa minha, sem cobrança para carimbarem o passaporte!

Mototáxi até a primeira cidade pós fronteira e um Peugeot velho (Sept Place) até Serekunda e estava na costa da Gâmbia. Tinham me alertado para evitar o litoral, mas não custava passar um dia na praia. Passei por Kotu e Bakau, até achar uma pequena pousada. Ia sair para comer, mas pensei em ver o mar antes. Fui me decepcionando e entendi exatamente porque haviam me falado para evitar o litoral. As praias da Gâmbia são famosas e muitos turistas vão para lá. Mas é o tipo de gente que fica só nos resorts, só fala com os locais que são seus empregados. Isto gera um clima de segregação muito forte. As pessoas passam a olhar o estrangeiro como uma forma de ganhar dinheiro, e os turistas se escondem atras dos muros, seguranças e vidros dos carros fechados para ter o menos contato possível com as pessoas. Vão para a África sem querer viver a África. Resorts de luxo com bairros inteiros para dar apoio, muitos com casebres com telhado de zinco. O preço de drinks caríssimos são o equivalente a mais de uma semana de trabalho de quem os serve. Não durou muito. Olhei chocado tudo aquilo, voltei para pousada, pedi desculpas e peguei a minha mochila. Me irritei tanto que não consegui nem esperar o ônibus. A demora me fez pegar um táxi mesmo, afinal seriam só 12 Km. Porem mais surpresas estavam por vir. Nos pararam numa barreira policial. O guarda pediu meu passaporte e ficou puxando papo. Resolveu revistar minha mochila. Falou brincando se eu não tinha um “presente” para ele. Me fiz de bobo e ele nos liberou. Não muito tempo depois nos pararam novamente. Desta vez um soldado sorridente me contava como estavam deixando tudo ótimo e seguro para os turistas. Eu olhei com uma cara de “não to te entendendo”. Ele deu uns tapinhas nas insignias do seu ombro e pediu uma colaboração. Fala serio! Disse que estava sem nada no momento, talvez outro dia. Ele manteve o sorriso, agora bem forçado e me dispensou.

Praias e restaurantes só para estrangeiros

Praias e restaurantes só para estrangeiros

Foi um alivio chegar a Banjul. Uma cidade calma e sem grandes atrações. Fiquei em um hotel quase ao lado do Arco 22, um monumento em homenagem ao golpe de estado dado em um presidente democraticamente eleito. Andei pela cidade, explorei mercados, prédios históricos, conheci a mesquita principal e peguei informações sobre o ferry que teria que pegar no dia seguinte. Por alguns momentos me senti anonimo, mas as vezes apareciam malandros com um papo bem manjado. Sempre super simpáticos, mas com interesse estampado na cara. Uma pena, mas parece que a barreira entre o estrangeiro e a população local está bem definida.

Arco 22 no final de tarde

Arco 22 no final de tarde

Num restaurante, um aglomerado de pessoas se espremia na frente de uma televisão. Pensei que era um jogo de futebol, muito popular por ali, mas não. Na Gâmbia, assim como no Senegal e grande parte do Oeste da Africa, além do futebol, o esporte nacional é a Luta Tradicional. Parecida com a Luta Greco-Romana, mas embalada por tambores e ritos tradicionais. Ao contrario dos países vizinhos, na Gâmbia e no Senegal, os lutadores podem dar tapas antes de derrubar os oponentes, se tornando muito mais violenta. O esporte lota as arenas e sempre esta presente na televisão.

Luta tradicional

Luta tradicional

O ferry de Banjul para Barra é o caminho mais próximo para ligar as capitais da Gâmbia e Senegal. Cheguei cedo para pegar o primeiro mas tive que esperar um bom tempo. Ferry lotado e colorido, onde finalmente pude bater papo com pessoas comuns. Uma travessia lenta mas agradável e com bela vista de Banjul na saída. Em Barra taxistas diziam que não tinha ônibus, que a fronteira com o Senegal estava para fechar, mas eu já tinha me acostumado com a malandragem local. Ignorei o assedio e fui até o patio do transporte. Deu tempo de comer alguma coisa para gastar minhas ultimas notas da moeda local e partir para o Senegal, onde entraria sem pagar pelo carimbo.

Banjul

Banjul

Ferry Banjul-Barra

Ferry Banjul-Barra

Chegada em barra

Chegada em barra