Minha primeira viagem para a Ásia (2004)

Já escrevi bastante sobre a Tailândia, mas como na primeira vez que fui para lá, quase 10 anos atrás, fiz um roteiro diferente das outras viagens, resolvi postar aqui.

A viagem foi via Frankfurt, Alemanha, onde passei o dia e foi bom para quebrar a longa viagem.

Pit stop na Alemanha

Pit stop na Alemanha

Chegando em Bangkok, fui direto para Chiang Mai, no norte do país, onde fiquei um tempo treinando Muay Thai. Eu já treinava há muito tempo e fui para lutar. Mas recomendo para todos que gostam de esportes, mesmo quem nunca treinou.  Não só o treino, mas o dia a dia dos campos de treinamento são fantásticos. Quem passa esta sugestão, mas gosta de coisas culturais dos países, pode optar por fazer cursos de massagem tailandesa ou culinária. Um curso de mergulho nas ilhas pode não ser cultural, mas não é nada mal também.

Treinamento

Treinamento

Como escrevi em outros posts, Chiang Mai é uma cidade super bacana, fácil de se encantar, cheia de templos, mercados de rua nos finais de semana com ótima comida a preços ridículos! Peguei um trem para Bangkok mas saltei antes, em Ayutthaya, antiga capital do país. Ruínas e monumentos fantásticos, que podem ser percorridos de bicicleta sem pressa. A cidade fica ao lado de um rio e pescadores fazem pratos típico inacreditáveis! Nada sofisticado como as feirinhas de Chiang Mai, mas num destes lugares, estilo pé sujo ( ok, baixa gastronomia) que eu comi a melhor comida tailandesa de todos os tempos!!

Templos

Templos

Buda

Buda

Acabei mudando minha logística e em vez de ir até BKK resolvi me aventurar fora da rota principal, para evitar ir e voltar pela mesma estrada. Para chegar em Kachanabury, normalmente acessada de BKK, tive que fazer 2 conexões de ônibus, por cidades que nem o nosso alfabeto utilizavam, imagine falar inglês. Viajar pela rota principal da Tailandia é muito fácil, devido a boa infraestrutura e estarem preparados para receber turistas. Mas saindo desta rota as coisas mudam um pouquinho. Levei um papel escrito em tailandês, com o nome da cidade que eu queria ir, e as principais cidades do caminho. Eu torcia para que a tailandesa que me ajudou escrevendo as informações soubesse o que estava fazendo. Não preciso dizer que foi muito divertido.

Qual onibus?

Qual ônibus?

menu: Prato mais caro 4 USD

menu: Prato mais caro 3 USD

Kachanabury foi palco de batalhas importantes na segunda guerra mundial, imortalizada no filma “A ponte do rio Cay”. A ponte esta lá, ou a reconstrução dela, pelo menos. Existem barcos casas e uma região rural que pode ser explorada. O Tiger Temple, onde monges cuidam de tigres e você pode tirar fotos com eles. Hoje existem outras opções no país, mas inicialmente era só lá para brincar com os gatinhos. Tem um monte de passeios turísticos, uns bem legais, outros nem tanto. Andar de barco de bambu, de elefante ou até dar banho nos elefantes no rio. Tem um parque nacional bem bacana lá também, com caminhadas, cachoeiras e piscinas naturais. Alias os parques nacionais na Tailândia são super bem estruturados.

parque

parque

Monge com tigre

Monge com tigre

Indo para BKK passei rapidamente no mercado flutuante que é extremamente turístico, mas pode te render boas fotos. Depois de tantas cidadezinhas pequenas foi um choque chegar no caos barulhento e poluído de Bangkok. É uma cidade gigante, mas muito autentica!

Fiquei num quarto que era um pulgueiro, nos arredores de Kao san Road, recanto mochileiro da cidade (pelo menos era, já mudou bastante). Não acreditei quando encontrei quartos ainda mais baratos perto de china town (eu estava pagando 100 bath). Mas a região onde eu estava cumpriu bem o papel. Não é a melhor localização, mas também não é tão ruim assim. Fiz a peregrinação pelos principais templos da cidade, visitei o fantástico palácio real, fui assistir lutas de MT no principal estádio do país, oLumpine, algumas vezes, me aventurei do outro lado do rio onde dizem estar “bairros sem interesse” mas que achei bem interessante. Existem diversas coisas pare se fazer na cidade, de dia e de noite. Me diverti muito no “Ping Pong Show” que esta mais para circo que para show erótico. Alem de lançar bolas de ping pongue, soprar sarabatana em balões, soprar velas (…) as mulheres fumam charuto,e não, não é com a boca. Uma delas ofereceu para um sueco, magico profissional, que estava viajando comigo fazia uns dias. Houve aquele minuto de silencio para saber o que faria, quando ele conferiu o charuto, deu uma cheirada e fumou. Haha

Palacio Real

Palacio Real

Outro dia divertidíssimo foi num karaokê gigantesco, com apresentações de danças coreografadas e tudo mais. Lotado de tailandeses, todos muito empolgados dançando e cantando. Como não tinham muitos turistas, éramos alvo para as prostitutas e ladyboys. Na verdade era muito difícil de distinguir se era um ou outro!

Brigas de besouros em um mercado. Adoram apostar.

Brigas de besouros em um mercado. Adoram apostar.

Com uma noitada destas acabei até acordando tarde para pegar o ônibus para o Camboja. Estava meses sem beber, treinando e me preparando para a luta, e depois acabei “colocando o pé na jaca”.

Na volta do Camboja ainda passei per BKK antes de seguir para o sul, para a simpática Krabi, de onde fui para Railay. Duas pequenas praias, com rochas gigantes saindo do mar. Lugar meio resort, mas achei um chalé bacaninha, disparado a melhor pousada da viagem (também pagando 6 vezes mais que a média). Preço? vinte dólares.

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Railay

Railay

Escalar pedra para curtir o visual, pegar praia, mas foi o único lugar que não fiz amigos rápido, talvez pelo estilo das pessoas que vão para lá. Acabei alugando um caiaque para ir para outras praias e ilhas, e conheci dois canadenses e um inglês que estavam viajando de caiaque entre as ilhas, dormindo nas praias. A lua cheia se aproximava e acabei combinando com eles de ir para a ilha de KO Pha-Ngan, do outro lado da península, onde tem a famosa, “Full Moon Party”. Ônibus até Suratani, barco estiloso, super carregado com bugigangas e até porcos em gaiolas. Um grande tatame onde todos dormiam um ao lado do outro.

barco

barco

Dividimos chalés e curtimos a ilha, de dia rodando de scooter ou jogando vôlei, e de noite na balada. Chegou o dia a grande Full Moon. Milhares de jovens na praia, bêbados, drogados ou simplesmente felizes por terem a liberdade ali que não teriam nos seus países europeus. Musica, malabares com fogo, mas eu já tava meio cansado para ser bem sincero. A pré festa tinha sido suficiente para mim. Estava mesmo é sentindo falta das pequenas cidades, da paz dos templos e longas reflexões. Foi bom conhecer, saber que existe, me divertir, mas nunca mais inclui este tipo de programa nas minhas viagens.

Full Moon

Full Moon

scooter de dia

scooter de dia

 

Nesta viagem descobri que pessoas “malucas” paravam suas carreiras e saiam para viajar por longos períodos. A semente estava plantada…

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Em terras Khemer (2004)

Fui para o Camboja em 2004, atravessando a fronteira com a Tailândia.

Chegada no reino do Camboja

Chegada no reino do Camboja

Não foi munto difícil achar um ônibus até a cidade de Siem Reap (referencia a uma vitória sobre o reino do Sião-Tailândia), mas a estrada era esburacada e longa. Paisagens de campos de plantação de arroz pela janela e pessoas interessantes.

Estrada da fronteira até Siam Reap

Estrada da fronteira até Siem Reap

Posto de gazolina

Posto de gasolina

Plantações de arroz

Plantações de arroz

Siam Reap tem crescido desordenadamente. Ainda sobrou uma influência francesa, já que fazia parte da indo-china, que tinha domínio francês. Turistas do mundo inteiro utilizam como base para visitar o fantástico complexo de templos de Angkor. Consegui achar acomodação barata bem fácil. Existem varias formas de visitar Angkor. Pode ir em um transfer, tour,  alugar um tuk-tuk ou até mesmo de bicicleta. O lugar é gigantesco, e o ideal é de passar alguns dias lá para ver com calma.

Angkor Wat

Angkor Wat – Wat significa templo

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Painéis contando histórias do reino e de Buda

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Angkor Wat, sempre cheio de pessoas

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Cercado de florestas, muitos templos tem macacos perambulando.

A vantagem de tirar alguns dias para conhecer o lugar é que não o dia não fica tão corrido, dá para fugir do calor e dos bandos de turistas.  Achei um cantinho e fiquei curtindo o lugar sozinho, pensando na vida. Acabei até tauando o lugar anos depois.

rostos

rostos

Bayon

Bayon (seculo 12 e 13)

Cada parte do complexo de templos é de uma época e tem uma característica . Existiram reis budistas e hindus, e eles iam modificando culturalmente o lugar. Nos templos Bayon, existem mais de 200 rostos. O rei fez sua imagem parecer com a de Buda, tentando passar a imagem de um semi Deus. Fantástico o lugar!

Natureza retomando território

Natureza retomando território dos templos

Buda

Buda

estatuas

estatuas

No Camboja é fácil se deparar com pessoas mutiladas pela terrível guerra, ou pela herança delas, as minas terrestres. Não vou dizer que não incomoda olhar. O Khemer Rouge promoveu um genocídio ao tentar introduzir uma sociedade comunista. O mais estranho é que em um conflito com o Vietnã, este regime recebeu apoio dos EUA, mostrando que as alianças políticas iam bem além do Comunismo x Capitalismo. Como tinha somente um mês para viajar pela Tailândia e Camboja, acabei deixando para conhecer o sul do país em uma outra viagem.

Era hora de voltar para Bangkok, encarando a terrível estrada novamente. O retorno foi pior, pois o ônibus quebrou trêss vezes, e tive que pegar carona para chegar na fronteira. Muitas imagens, pessoas e lembranças. Só temo pelo crescimento desordenado do turismo na região.

Crianças

olhares

Bicicleta

Bicicleta, meio de transporte oficial da região

carona? ok, mas tem espaço?

Carona? ok, mas tem espaço?

Plantações

O dia está para peixe?

chegando na fronteira

chegando na fronteira, crianças pediam para serem fotografadas

Caminho das índias (2005)

Quando estava indo para o Nepal fiz escala no antigo aeroporto de Delhi (hoje bem moderno), onde tive meu primeiro contato com a Índia: dezenas de pessoas dormindo no chão, outras comendo… eu sabia que a experiencia seria intensa. Tinha tido um aperitivo de caos nos festivais do Nepal, mas tudo havia se tranquilizado bastante nas montanhas do Tibet.

Agora chegava na Índia em um dos lugares mais intensos, Varanasi. A cidade é um dos lugares mais sagrados da Índia, onde tudo acontece ao longo do rio Ganges. Uma confusão de sensações, cheiros de tempero se misturavam com o fedor de bosta. Muita gente, animais, autorickshas… Não foi um choque cultural porque eu amei desde o início, estava mais para um sonho. Olhava tudo aquilo e não conseguia esconder o sorriso do meu rosto. Com o lábio rachado dos ventos gelados do himalaias, muitas pessoas sabiam que eu vinha das montanhas, e o bate papo fluía nos gaths (escadarias) na beira do Ganges. Muitas pessoas se banhando, cerimonias, pessoas lavando até a boca na água onde passavam restos de corpos. A lenha é cara, e nem todas as famílias conseguem garantir uma cremação completa. Entrei timidamente no rio, me joguei água, mas não tive coragem de mergulhar. Talvez fosse demais para um primeiro dia.

Na beira do Ganges

Na beira do Ganges

Cores da India

Cores da India

Conheci a cidade, rodei aleatoriamente, visitei os crematórios, o bairro muçulmano e diversos templos hindus. Passeei de barco pelo Ganges para ver o sol nascer. Fui até Darnath, local onde Buda deu o seu primeiro sermão. Sentei embaixo da mesma arvore, mas num país com 1 bilhão de pessoas não tinha ninguém para conversar comigo. Bom, pois precisava de um tempo. Aproveitei para curtir o silencio, que foi muito bem vindo, já tinha até esquecido como que era. Crianças se aproximaram vendendo pequenas estatuetas de barro de Buda por poucos paise (centavos de Rupia). A miséria na Índia é algo chocante, e incomoda. Comprei uma estatueta, mas me peguei virando o rosto tantas vezes para não ver coisas que me “incomodavam” que passei a ter um conflito interno.

Crianças muçulmanas

Crianças muçulmanas

Darnath

Darnath

Horas mais tarde conheci um senhor, que me apresentou um templo jainista. Seu fundador, Mahavira, foi um contemporâneo de Buda. Dizem que Buda sempre o desafiou para embates filosóficos, mas ele sempre evitou o confronto. As figuras das estatuas até que são parecidas e existem outras semelhanças entre estas religiões. Praticantes da não violência  os mais “radicais” andam com uma vassoura para limpara o caminho, evitando pisar em algum inseto. Foi muito bacana e proveitoso o bate papo

Arrisquei comprar uma passagem de trem na última hora pois sempre sobram uns lugares. Vagão sleeper simples, facilitava a interação, e eu estava conhecendo um dos programas que mais gosto de fazer quando vou para a Índia, andar de trem! Viajei a noite toda e cheguei em Agra antes do sol nascer.

Rostos da India

Rostos da India

Esperando o Trem

Esperando o Trem

Agra não é uma cidade muito agradável. O fato de milhares de turistas visitarem o Taj Mahal faz com que ao caminhar por lá te olhem como um caixa eletrônico ambulante. Mas estava com muito bom humor, e levei tudo na brincadeira. Conheci um casal de ingleses e um australiano no trem, e decidimos só passar o dia por ali. Corremos para ver o dia nascer atrás do Taj Mahal, único lugar calmo que encontramos em Agra, com o visual do rio. Depois encaramos o empurra-empurra para comprar os bilhetes inflacionados, com grande diferença para indianos e turistas. Lembro que paguei cerca de 15 usd, bem mais do que vinha gastando por dia com todas as atividades, incluindo hotel, comida e transporte.

Taj

Taj

O local é fantástico, e fui apresentado para a arquitetura Mughal que passei a admirar tanto. Não se tem paz lá dendro, lotado de turistas estrangeiros e e indianos. O calor também estava pegando, mas deu para passear e sentar em uma sombra para admirar a grandeza do Taj e das mesquitas ao lado. Ainda passamos no Agra Fort, outro magnífico monumento da lista da Unesco, antes de pegar outro trem noturno, desta vez para Jairpur no Rajastão.

Dividi um quarto de hotel com o casal de ingleses e me assustei com a dor de barriga que ele teve de noite. Se retorcia e teve que ir até o hospital. Eu tinha tido desarranjo no Tibet, e parecia que meu corpo já estava “vacinado”. Acabaram indo para Delhi, e voltei a ficar sozinho.

Desafiando a teoria de que indianos eram dinheiristas, peguei muitas caronas e circulei por varias atrações só na “amizade”. Claro que surgiram aquelas armadilhas para turistas. Um dia fui no cinema, parecia um teatro, com cortinas abrindo e intervalo. Na saída dois jovens se aproximaram e pediram para praticar o inglês. Eu que adoro uma interação fiquei batendo papo. Perguntaram onde estava indo e falei de lugares que queria conhecer. Se ofereceram para me levar, e como já tinha conseguido algumas caronas fui na boa. No meio do caminho falou de um tio que tinha lojas de pedras, que poderia ser um bom presente, ou até negócio. Eu educadamente disse que não queria, mas insistiram. Eu neguei mais firme e depois de uma insistência, pararam o carro, esconderam o sorriso e cordialidade, e me mandaram sair na hora. Eu sai me fazendo de bobo e segui conhecendo a bonita cidade rosa. O palácio da cidade, o palácio dos ventos, o Amber Fort e o incrível observatório astrológico/astronômico Jantar Mantar. Legal andar nas ruas e ver encantadores de cobras, mesmo que seja para ganhar uns trocados dos turistas. Muitos macacos e charretes de camelos carregando tijolos faziam parte das cenas do dia a dia nas partes menos turísticas da cidade. Não pretendia fazer muitas compras, mais os mercados também são bem bacana de se passear.

Mais cores

Mais cores

Pelas ruas

Pelas ruas

Filme com intervalo e cortinas

Filme com intervalo e cortinas

A viagem se aproximava do final e peguei outro trem, desta vez para a capital, Delhi. Fiquei num quarto escuro no camelódromo Pahaganj, em frente a estação de trem. Como tinha poucos dias comecei pelas atrações mais manjadas, antes de me “perder” pela cidade. O magnífico Red Fort, ofereceu sombra nos seus jardins. O caos do Chandni Chowk me apresentou para tantas novas comidas de rua. A imponente mesquita Jama Masjid me apresentou para o islamismo, religião que passei a admirar muito. Conversei por horas com curiosos fiéis. Também fui ao templo Bahai, conhecer mais uma religião (além do Budismo, Jainismo, Hinduísmo, Islamismo…).  Existem alguns lugares para “ver” como o Qtab Minar, minarete que representa a chegada do islamismo na Índia e o Gandhi Smriti, onde o Gandhi foi assassinado. Gostei muito de passear pelo Humayun Tomb, com arquitetura fantástica, belos e silenciosos jardins. Troquei uns livros e passeei por Connaught Place na minha última noite.

Templo Bahai

Templo Bahai

Minarete Q

Minarete Qtab

Tomb

Humayum Tomb

Me despedi da Índia sabendo que iria voltar. O país mais diverso que eu já havia conhecido até ali. De quebra, qual o país que é possível se hospedar na capital por 3 usd?

Quato de 150 Rupia em Delhi

Quarto de 150 Rupia em Delhi

PS-  Voltaria para a Índia mais duas vezes, onde passaria mais de 4 meses.

Entre templos e montanhas (2005)

Quando eu visitei o Nepal, em 2005, o país ainda era um reinado. Alias o único reino hindu do mundo. Mas a situação já estava ficando complicada. Muitos diziam que o rei tinha assassinado seus familiares para chegar ao poder, e a guerrilha maoista estava tomando grande parte do país. Lembro de ver os protestos na televisão e pensar se deveria mesmo ir para lá.

Foi um voo longo. Curitiba-São Paulo- Londres (onde deu tempo de ir até um pub)- Delhi (ainda no aeroporto velho, cheio de pessoas dormindo no chão) e finalmente estava sobrevoando Katmandu. Se a palavra Katmandu já soava “exótica”, lembrava a famosa trilha hippie, ao sobrevoar a cidade com o topo de seus templos em destaque, deu aquele friozinho gostoso na barriga. Respirei fundo, e peguei um transporte até o bairro mochileiro de Thamel.

Chegando no Thamel

Chegando no Thamel

Ruas estreitas, cheio de comercio e hotéis  Lojas de equipamentos para montanhistas, pessoas vendendo haxixe em todas as esquinas. Fui andando sem destino pelos labirintos. Encontrei um hotel bacana, com um patio/jardim gostoso na entrada. Nem parecia que tinha aquele caos logo na frente. Achei o preço de 4 dólares o quarto com banheiro bom. Me surpreendi que ao não negociar, acabaram baixando para 2,70 sem eu pedir. Não entendi se ficaram com medo que eu descobrisse o preço que os outros dois hospedes estavam pagando, os se queriam que eu recomendasse o lugar. O que era certo é que com os problemas com os guerrilheiros maoistas, o turismo tinha despencado, e os preços de tudo também.

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Durbar Square

Durbar Square


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A praça principal, a Durbar Square, estava a poucas quadras da onde eu estava. Fui algumas vezes lá. Um templo ao lado do outro, adorava subir as escadas e curtir o lugar como um todo. Sempre parava alguém para bater papo. Também não estava longe do ” Kumari Ghar” ( Hanumandhoka palace) de onde esta a ” Kumari”, uma deusa viva para o Hinduísmo e alguns ramos do budismo.

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Para identificar a Deusa, utilizam o “horoscopo”, que aponta 32 atributos a uma criança. Ela é colocada em um quarto escuro para confrontar seus medos em rituais aterrorizantes, e se encontra com divindades. A verdadeira Kumari devi não vai se assustar, e após uma cerimonia para receber o espírito divino, vai ser venerada por todos. Quando ela entra na puberdade, seus dias de Deusa estão contados. Ao menstruar pela primeira vez, ela estará se tornando humana novamente.  A relação com o sangue e humanidade é muito forte, portanto nada de se cortar. Um simples sangramento também acabaria com a divindade dela, e buscariam uma nova Kumari.

Era setembro, e tive a oportunidade de participar do festival Indra Jatra, onde existe uma procissão, e a Kumari abençoa a todos os milhares de participantes, inclusive o rei.

Festa

Festival

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Lembro de ter sentido bastante o Jetlag, acordado no meio da noite e ter bagunçado bastante o fuso horário  Acordei cedo na marra, e  de ir caminhar de manha antes do comércio ter aberto.

Swayambunath, também chamado de Monkey Temple, é um complexo com uma grande estupa no topo de uma colina.  Esta estupa tem pintada os olhos de Buda, é é muito sagrada (um dos mais antigos do Nepal). Existem macacos que são considerados sagrados por ali também, por isto o nome de Monkey temple.

O domo simboliza o mundo, e os olhos o “despertar”, sabedoria e compaixão. Os 13  degraus da “torre” no topo mostram os estágios da vida espiritual, até atingir a iluminação. Subi os 365 degraus até chegar no topo da colina, onde esta o domo, conversei com muitos monges e curti o lugar.

Monkey temple

Monkey temple

Monges

Monges

vista

vista

Stupas

Stupas

Ainda no vale de Katmandu, estão outras cidades históricas, como Patan. Linda arquitetura, templos e também muito famosa por seu artesanato.

Patan Durbar

Patan Durbar

O tempo Pashupatinath esta na beira do rio Bagmati e é o principal local de adoração do Deus Shiva. Pashupatinath é a encarnação de Shiva em um Servo, portanto atua como um protetor dos animais, como o São Francisco para os cristãos.

Na verdade parece um grande parque, com vários templos e Ghats. Estes Ghats, escadarias com acesso ao rio onde fazem os rituais de cremação. Existem as escadarias onde as mulheres frequentam, outras que só a realeza, e assim vão se dividindo. Muitos Sadhus, Homens-santos hindus que abandonaram o mundo perambulam por ali.

Shadu

Shadu

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É incrível ver o Budismo e Hinduísmo lado a lado. Os Hindus acreditam que Buda é uma manifestação de Vishnu, mas não é o que os budistas pensam no bairro Boudanath. Um dos lugares mais sagrados para os budistas. Outra grande estupa com os olhos de Buda, que podem ser vista de longe, e diversas gompas (monastérios) ao redor. Muitos refugiados tibetanos moram na região, e ao caminhar pela região, era convidado para entrar nas pequenas casas e bater papo.

Boudanath

Boudanath

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Rodas de orações/Vendedores na rua

A grande altitude das montanhas formam rápidas corredeiras por todo o país, e eu decidi fazer rafting. Peguei um ônibus que ia parando na entrada e saída de cada cidade para ser revistado pelo exercito, até chegar no ponto de saída. Foi um dia inteiro encarando as corredeiras, água gelada e verdadeiras ondas que se formavam quando a corredeira batia nas pedras. Por sorte não virou nenhuma vez, foi muito divertido mas passamos um sufoco!

Rafting

Rafting

Mais um onibus pelas belas paisagens e até me acostumei com os controles do exercito. Todos deciam para apresentar os documentos muitas vezes eu só acenava para os soldados da janela. Acho que eu não tenho cara de maoista, pois muitas vezes não pediram para eu decer.

Estradas

Estradas

Cheguei em Pokhara já de noite, uma bonita cidade na beira do lago Phewa. Uma cidade relativamente estruturada para o turismo, mas novamente sem estrangeiros, o que fazia os preços despencarem. Ali é a saída para um dos trekings mais famosos do Nepal, até o acampamento base do Annapurna. Como eu pretendia ir até o Tibet, deixei para fazer um trekking em uma próxima visita ao Nepal.

Conversei com algumas pessoas, peguei uma canoa até a pequena ilha onde está o Templo Barahi. De lá consegui ir até outra margem do lago, onde segui trilhas ( e me perdi um pouco) até a Peace Pagoda, no topo da montanha.   Uma grande estupa branca, com estatua de Buda dourado, erguida para promover a paz mundial. A vista do lugar é muito bonita, pena que as nuvens cobriam as maiores montanhas ( 3 das 10 maiores montanhas do mundo estão na região).

Lago

Lago Phewa

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Templo

Peace Pagoda

Simpatia

Simpatia

Também não tive sorte quando fui até a vila de Sarankot para ver o sol nascer. Tudo estava nublado novamente. De qualquer forma não deixou de ser um passeio para conhecer melhor os arredores da cidade. Não muito longe dali está o campo refugiado de tibetanos Tashi Palkhiel, ótimo lugar para se desenvolver um sentimento anti-chines, devido ao absurdo que se vê lá. Anti-ocidente também, por se envolver em tantas gerras econômicas e se calar para outros absurdos que acontecem.

Tempo encoberto

Tempo encoberto

Curti bastante a região mas tinha que voltar para Katmandu. Novo ônibus  belas paisagens e controles do exercito e estava de volta. Consegui acertar minha viagem ao Tibet e ainda fui visitar Backtapur, uma das mais bela cidade do vale de Katmandu. A ” cidade dos devotos” é mais uma da região listada na lista da unesco, e é fácil de entender porque. Portais, templos, palácio e pagodas fazem do ambiente um lugar fantástico.

Backtapur

Backtapur

Potes

Potes

Muitos outros lugares interessantes como Changu Nayaram, os artesãos de potes em Thimi, e tantas outras coisas que acontecem entre todos estes lugares, aleatoriamente, fizeram eu adorar o país, seu povo e cultura. Mas era hora de me despedir, e já com o visto especial do Tibet no passaporte, seguia pelas estradas rumo ao norte.

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Oito dias no Tibet (2005)

Em 1950, o exército chines marchou sobre o Tibet, e não teve muitas dificuldades em anexar seu território. Os tibetanos ainda tentaram uma resistência,  mas seu destino estava traçado. Foram obrigados a assinar um acordo com a China para não serem aniquilados. Na década seguinte, quando a ocupação foi aumentando milhares de tibetanos se aventuraram pelos Himalaias, buscando refúgio nos países vizinhos. Mas não se tratava de uma simples cadeia de montanha, e a maior parte acabou morrendo pelo caminho. Os que conseguiram atravessar as fronteiras, muitas vezes tinham partes do corpo gangrenadas pelo frio e estavam muito debilitados. Dentre eles estava o jovem  que nasceu como Lhamo Thandoup, hoje sua santidade o  14 Dalai Lama, que após consultar o oráculo, também fugiu. Se organizaram, e criaram o governo do Tibet no exílio em Dharamsala-India.

Era o aniversário de 55 anos da “Libertação Tibetana” e os chineses não pareciam muito interessados em ter turistas por lá. Ainda em Katmandu-Nepal, eu tentava conseguir um visto para a região, mas não parecia algo simples. Nenhum grupo tinha sido liberado naquele ano. Depois de muita insistência  acabei conseguindo. Nada de viagem independente. Para conseguir o visto tinha que fazer parte de um grupo, e não pensei duas vezes antes de me inscrever em um tour que me levaria de Katmandu até Lhasa, capital do Tibet, atravessando a cordilheira dos himalaias por terra.

Estávamos em duas Land Cruisers, e viajamos pelas magníficas paisagens do Nepal, por curvas e mais curvas contornando montanhas, passando por vilas e pontes suspensas, com corredeiras lá em baixo. Bem mais tarde chegamos a ponte da amizade, na divisa Nepal-Tibet. Pequena burocracia e logo estávamos do outro lado, em Zhangmu. Depois seguimos para Nyalan, onde passaríamos a noite.

Tomamos uma cerveja quente em um bar de karaoke e já deu para conhecer melhor o grupo. Como em qualquer grupo, tem pessoas bacanas e outras não tão legais assim. Pelo menos estávamos em dois carros, e dava para ter uma divisão física durante o dia todo. Se na minha viagem do ano anterior tinha conhecido pessoas que estavam dando a volta ao mundo, dessa vez o contato era com pessoas que tinham até morado no Sudão, Sri Lanka, Gambia…  Se naquela época ainda existia uma barreira imaginária dos lugares que eu poderia viajar, depois dessa viagem elas desapareceram.

De Nyalan até Tingri são uns 250 km, mas claro que não é uma linha reta. Muitas curvas e sobe e desce. Passamos pelo Passe Nyalamu  ( 3800 mts) e já nos impressionamos. Não muito tempo depois chegamos ao Passe Lalung La (5050 mts). A emoção era tão grande que a dor de cabeça pela rápida acensão pouco incomodava  A vista é indescritível  com pequenas estupas de pedra no topo e bandeirinhas de orações tibetanas dando um clima para o lugar. Ainda antes de chegar em Tingri, passamos por diversos iaques  – bois peludos do Himalaia, ao lado da estrada pedregosa. Para completar no caminho ainda é possível ver o Monte Everest (8848mts), maior montanha do mundo.

Bandeiras de orações e os Himalaias

Bandeiras de orações e os Himalaias

Stupas de pedra

Stupas de pedra

As viagens são duras, carros andavam bem devagar e chacoalhavam bastante. Tínhamos mais uns 250 km para percorrer até Xigatse, passando por Latse, portanto tínhamos que sair bem cedo. Isto não era ruim, pois nos dava a flexibilidade de ir parando no caminho, visitando pequenas vilas, onde eramos convidados para tomar chá de manteiga (feito de leite de yak). Também experimentei comer tsampa, comida nacional. É uma farinha misturada com manteiga de yak, pó de queijo e chá. Altamente energético, para aguentar longas horas de trabalho naquela altitude. Lembrava das histórias do escritor Lobsang Rampa, mas a imaginação humana as vezes não tem recursos para criar situações próximas de uma realidade não vivida. Por isto é que amo as experiências!

Yak

Yak

Chá de manteiga sendo preparado

Loja de conveniências ao lado da estrada

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Acho que não chove por aqui

vilas

vilas

Shigatse é um lugar especial. Lá está o belíssimo  Monastério Tashilumpo, do Panchen Lama, com seus corredores escuros e pinturas nas paredes. O Panchen Lama é uma figura importantíssima no budismo tibetano, ele que ajuda a identificar as encarnações do Dalai Lama, e tem grande papel no ensinamento deste. Poucos dias após o novo Panchen Lama ser identificado, dez anos antes da minha visita ao local, as autoridades chinesas sequestraram ele, que tinha apenas seis anos. Instituíram uma outra pessoa no lugar, mas claro que os tibetanos não o reconheceram. Se trata do mais jovem preso político do mundo, se é que ainda está vivo.

Apesar de ser a segunda maior cidade do Tibet, tem um aspecto bem rural. O principal mercado é um ótimo lugar para ver as pessoas e os costumes em geral.

A próxima viagem até Giantse seria mais curta, cerca de 100 km. Lá está o Monastério Phalkor e a estupa Khumbum. As paisagens continuavam esplendidas, com pequenas vilas e bastante interação no caminho. Bandeiras chinesas estendidas mostravam o controle da região, controle também em postos do exercito espalhados pela estrada.

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Avenida principal

Avenida principal

Monastério

Monastério

A viagem de Gyantse até Lhasa, passando por Nagarze e Quxu e outras diversas vilas foi fantástica. Arquitetura típica e sempre com esterco secando para alimentar o fogo. Me irritei um pouco com um inglês que além de distribuir canetas, tinha levado duas bonecas barbis para dar de presente para crianças por lá. Não falei nada, mas por sorte um francês deu um sermão nele. Visão bem ocidental de achar que está ajudando, mas no fundo só quer se sentir bem. Mais dois passes incríveis  Karola (5010 m) e Kamba La (4794 m). Isto para não falar nos glaciais e no lago Yamdrok So, com suas águas verdes/azuladas de desgelo.

Glaciais

Glaciais

Lagos formados pelo desgelo

Lagos formados pelo desgelo

Casa tipica

Casa tipica

Em Lhasa  a atração mais obvia é o Potala, palácio do Dalai Lama. Belíssimo, mas transformaram em um grande museu. Segundo a norma dos chineses agora só é possível visitar no sentido contrário que os devotos costumavam peregrinar, para cortar a relação com a religião. Ainda possui as diversas salas, escadarias, mas me pareceu muito artificial, pois não há mais vida ali, parece um museu.

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Caminhando pelas ruas de Lhasa

Caminhando pelas ruas de Lhasa

Gostei muito mais de caminhar pelo mercado Barkhor ao lado do templo Jokhang. Este sim muito ativo, cheio de peregrinos. É o centro da cultura tibetana, e por isto é todo vigiado por câmeras de segurança. Os chineses sabem que lá foi palco de grandes protestos, e se novos fossem ocorrer provavelmente iniciariam ali. É emocionante ver a devoção de pessoas que viajaram dias e ficam deitando e levantando continuamente como forma de saudação. Muitos peregrinos pediam para tirar fotos comigo, queriam saber de onde eu era, isto sem saberem uma palavra em inglês!

Devoção

Devoção

Praça

Praça em frente ao Jokhang

O Monastério Sera, famoso pelos estudos filosóficos é um ótimo lugar para ver as discussões sobre budismo e desafios filosóficos. Um monge faz uma pergunta e bate palma bem forte, fazendo todo um movimento, aguardando a resposta do seu desafiado. Ali funciona universidades/internato, centro pensante, onde houve muitos monges mortos durante a ocupação chinesa.

Drepung é um monastério-universidade muito bonito, que fica nos arredores de Lhasa. Caminhava por ele refletindo sobre a minha viagem: as famílias simples que nos acolheram para um chá de manteiga, e a destruição cultural que a China estava fazendo com o Tibet. O “ainda intocado” tão perto da rápida globalização e de câmeras de segurança. O dinheiro vencendo a cultura e a tradição. Isto que ainda não tinham inaugurado a linha de trem que ligaria Lhasa ao restante da China (foi inaugurada no ano seguinte).

Desafios filosóficos

Desafios filosóficos

Monastério-Universidade

Monastério-Universidade

Quando peguei o avião para Katmandu, sobrevoando a cordilheira dos Himalaias, continuava com o mesmo pensamento. Eu tinha que conhecer o mundo antes dele se padronizar.  Se a semente da minha volta ao mundo já estava plantada, agora foi adubada e estava pronta para brotar. Mas depois dessa viagem, o roteiro seria bem diferente. Queria ir para lugares que a minha imaginação ainda não pudesse alcançar.