Oito dias no Tibet (2005)

Em 1950, o exército chines marchou sobre o Tibet, e não teve muitas dificuldades em anexar seu território. Os tibetanos ainda tentaram uma resistência,  mas seu destino estava traçado. Foram obrigados a assinar um acordo com a China para não serem aniquilados. Na década seguinte, quando a ocupação foi aumentando milhares de tibetanos se aventuraram pelos Himalaias, buscando refúgio nos países vizinhos. Mas não se tratava de uma simples cadeia de montanha, e a maior parte acabou morrendo pelo caminho. Os que conseguiram atravessar as fronteiras, muitas vezes tinham partes do corpo gangrenadas pelo frio e estavam muito debilitados. Dentre eles estava o jovem  que nasceu como Lhamo Thandoup, hoje sua santidade o  14 Dalai Lama, que após consultar o oráculo, também fugiu. Se organizaram, e criaram o governo do Tibet no exílio em Dharamsala-India.

Era o aniversário de 55 anos da “Libertação Tibetana” e os chineses não pareciam muito interessados em ter turistas por lá. Ainda em Katmandu-Nepal, eu tentava conseguir um visto para a região, mas não parecia algo simples. Nenhum grupo tinha sido liberado naquele ano. Depois de muita insistência  acabei conseguindo. Nada de viagem independente. Para conseguir o visto tinha que fazer parte de um grupo, e não pensei duas vezes antes de me inscrever em um tour que me levaria de Katmandu até Lhasa, capital do Tibet, atravessando a cordilheira dos himalaias por terra.

Estávamos em duas Land Cruisers, e viajamos pelas magníficas paisagens do Nepal, por curvas e mais curvas contornando montanhas, passando por vilas e pontes suspensas, com corredeiras lá em baixo. Bem mais tarde chegamos a ponte da amizade, na divisa Nepal-Tibet. Pequena burocracia e logo estávamos do outro lado, em Zhangmu. Depois seguimos para Nyalan, onde passaríamos a noite.

Tomamos uma cerveja quente em um bar de karaoke e já deu para conhecer melhor o grupo. Como em qualquer grupo, tem pessoas bacanas e outras não tão legais assim. Pelo menos estávamos em dois carros, e dava para ter uma divisão física durante o dia todo. Se na minha viagem do ano anterior tinha conhecido pessoas que estavam dando a volta ao mundo, dessa vez o contato era com pessoas que tinham até morado no Sudão, Sri Lanka, Gambia…  Se naquela época ainda existia uma barreira imaginária dos lugares que eu poderia viajar, depois dessa viagem elas desapareceram.

De Nyalan até Tingri são uns 250 km, mas claro que não é uma linha reta. Muitas curvas e sobe e desce. Passamos pelo Passe Nyalamu  ( 3800 mts) e já nos impressionamos. Não muito tempo depois chegamos ao Passe Lalung La (5050 mts). A emoção era tão grande que a dor de cabeça pela rápida acensão pouco incomodava  A vista é indescritível  com pequenas estupas de pedra no topo e bandeirinhas de orações tibetanas dando um clima para o lugar. Ainda antes de chegar em Tingri, passamos por diversos iaques  – bois peludos do Himalaia, ao lado da estrada pedregosa. Para completar no caminho ainda é possível ver o Monte Everest (8848mts), maior montanha do mundo.

Bandeiras de orações e os Himalaias

Bandeiras de orações e os Himalaias

Stupas de pedra

Stupas de pedra

As viagens são duras, carros andavam bem devagar e chacoalhavam bastante. Tínhamos mais uns 250 km para percorrer até Xigatse, passando por Latse, portanto tínhamos que sair bem cedo. Isto não era ruim, pois nos dava a flexibilidade de ir parando no caminho, visitando pequenas vilas, onde eramos convidados para tomar chá de manteiga (feito de leite de yak). Também experimentei comer tsampa, comida nacional. É uma farinha misturada com manteiga de yak, pó de queijo e chá. Altamente energético, para aguentar longas horas de trabalho naquela altitude. Lembrava das histórias do escritor Lobsang Rampa, mas a imaginação humana as vezes não tem recursos para criar situações próximas de uma realidade não vivida. Por isto é que amo as experiências!

Yak

Yak

Chá de manteiga sendo preparado

Loja de conveniências ao lado da estrada

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Acho que não chove por aqui

vilas

vilas

Shigatse é um lugar especial. Lá está o belíssimo  Monastério Tashilumpo, do Panchen Lama, com seus corredores escuros e pinturas nas paredes. O Panchen Lama é uma figura importantíssima no budismo tibetano, ele que ajuda a identificar as encarnações do Dalai Lama, e tem grande papel no ensinamento deste. Poucos dias após o novo Panchen Lama ser identificado, dez anos antes da minha visita ao local, as autoridades chinesas sequestraram ele, que tinha apenas seis anos. Instituíram uma outra pessoa no lugar, mas claro que os tibetanos não o reconheceram. Se trata do mais jovem preso político do mundo, se é que ainda está vivo.

Apesar de ser a segunda maior cidade do Tibet, tem um aspecto bem rural. O principal mercado é um ótimo lugar para ver as pessoas e os costumes em geral.

A próxima viagem até Giantse seria mais curta, cerca de 100 km. Lá está o Monastério Phalkor e a estupa Khumbum. As paisagens continuavam esplendidas, com pequenas vilas e bastante interação no caminho. Bandeiras chinesas estendidas mostravam o controle da região, controle também em postos do exercito espalhados pela estrada.

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Avenida principal

Avenida principal

Monastério

Monastério

A viagem de Gyantse até Lhasa, passando por Nagarze e Quxu e outras diversas vilas foi fantástica. Arquitetura típica e sempre com esterco secando para alimentar o fogo. Me irritei um pouco com um inglês que além de distribuir canetas, tinha levado duas bonecas barbis para dar de presente para crianças por lá. Não falei nada, mas por sorte um francês deu um sermão nele. Visão bem ocidental de achar que está ajudando, mas no fundo só quer se sentir bem. Mais dois passes incríveis  Karola (5010 m) e Kamba La (4794 m). Isto para não falar nos glaciais e no lago Yamdrok So, com suas águas verdes/azuladas de desgelo.

Glaciais

Glaciais

Lagos formados pelo desgelo

Lagos formados pelo desgelo

Casa tipica

Casa tipica

Em Lhasa  a atração mais obvia é o Potala, palácio do Dalai Lama. Belíssimo, mas transformaram em um grande museu. Segundo a norma dos chineses agora só é possível visitar no sentido contrário que os devotos costumavam peregrinar, para cortar a relação com a religião. Ainda possui as diversas salas, escadarias, mas me pareceu muito artificial, pois não há mais vida ali, parece um museu.

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Caminhando pelas ruas de Lhasa

Caminhando pelas ruas de Lhasa

Gostei muito mais de caminhar pelo mercado Barkhor ao lado do templo Jokhang. Este sim muito ativo, cheio de peregrinos. É o centro da cultura tibetana, e por isto é todo vigiado por câmeras de segurança. Os chineses sabem que lá foi palco de grandes protestos, e se novos fossem ocorrer provavelmente iniciariam ali. É emocionante ver a devoção de pessoas que viajaram dias e ficam deitando e levantando continuamente como forma de saudação. Muitos peregrinos pediam para tirar fotos comigo, queriam saber de onde eu era, isto sem saberem uma palavra em inglês!

Devoção

Devoção

Praça

Praça em frente ao Jokhang

O Monastério Sera, famoso pelos estudos filosóficos é um ótimo lugar para ver as discussões sobre budismo e desafios filosóficos. Um monge faz uma pergunta e bate palma bem forte, fazendo todo um movimento, aguardando a resposta do seu desafiado. Ali funciona universidades/internato, centro pensante, onde houve muitos monges mortos durante a ocupação chinesa.

Drepung é um monastério-universidade muito bonito, que fica nos arredores de Lhasa. Caminhava por ele refletindo sobre a minha viagem: as famílias simples que nos acolheram para um chá de manteiga, e a destruição cultural que a China estava fazendo com o Tibet. O “ainda intocado” tão perto da rápida globalização e de câmeras de segurança. O dinheiro vencendo a cultura e a tradição. Isto que ainda não tinham inaugurado a linha de trem que ligaria Lhasa ao restante da China (foi inaugurada no ano seguinte).

Desafios filosóficos

Desafios filosóficos

Monastério-Universidade

Monastério-Universidade

Quando peguei o avião para Katmandu, sobrevoando a cordilheira dos Himalaias, continuava com o mesmo pensamento. Eu tinha que conhecer o mundo antes dele se padronizar.  Se a semente da minha volta ao mundo já estava plantada, agora foi adubada e estava pronta para brotar. Mas depois dessa viagem, o roteiro seria bem diferente. Queria ir para lugares que a minha imaginação ainda não pudesse alcançar.

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Comidas e viagens

Viagens e comidas tem tudo a ver. Eu particularmente adoro experimentar coisas novas durante as viagens.

Existem comidas diferentes e outras MUITO diferentes. A Lista é grande, insetos, cachorro, crocodilo, pombo, camelo, porquinho da índia, cérebro de bode e por ai vai…

O Beto Madalosso, Chef dos restaurantes Madalosso, Famiglia Fadanelli e Forneria Copacabana, também gosta muito de viagens.  Não o conheço pessoalmente, mas sei que já fez várias viagens legais, sendo algumas de bicicleta e até já foi para o Alaska de moto.

Ele está lançando uma revista chamada Tutano, e tem uma matéria  nossa na a primeira edição.

Revista Tutano

matéria sobre comidas de Kashgar

O lançamento oficial é semana que vem, mas como estarei viajando achei legal já dividir com vocês. A viagem foi cancelada, então vou no lançamento.

O fim da rota da seda

Pois é, chegamos em Delhi, e assim terminava a nossa rota da seda. Na verdade nunca existiu uma única rota da seda. A rota da seda eram diversas rotas comerciais utilizadas entre o ocidente e o oriente. Muitos desses caminhos são utilizados ha muito, mas muito tempo, e as próprias condições geográficas e climáticas foram moldando eles.

O período áureo destas rotas comerciais aconteceu na época do império mongol. O maior império de toda a historia, tinha controle sobre toda a região que passava a rota, tornando segura a viagem da Europa para China e/ou India, e vice-versa. Constantinopla era ligada a Xian (China) por uma destas rotas e a Delhi (Índia) pela outra. Não por acaso, depois de viajarem metade do mundo, Marco Polo ficou trabalhando na China, e Ibn Batuta na Índia.

Os europeus levavam ouro, marfim, joias, figos e buscavam porcelana, chá  laranja, pêssego  pólvora  especiarias (muito utilizadas para preservar os alimentos) e seda, e claro.

A rota da seda alem de produtos, passou a levar ideias, cultura e arte, em ambas as direções  O papel moeda foi inventado na China, por exemplo.

Ao contrario do que se imagina, os europeus não eram mais sofisticados que estes povos, muito pelo contrario. Os europeus sempre tiveram concorrentes a altura, que possuíam conhecimentos mais refinados de ciências  tecnologia, dentre outras coisas. Só após a revolução industrial é que os europeus passaram a avançar mais rapidamente.

O declínio da rota da seda aconteceu por diversas rasões  O colapso do império mongol, a chegada do islamismo na região  e principalmente, a descoberta da rota marítima ate a India pelos portugueses. A rota da seda não era mais importante comercialmente, mas sempre teriam os que prefeririam viajar pelas diversas culturas remanescentes em vez de ver mar por todos os lados (ou ar, no caso dos aviões agora). E nos eramos uns destes!

Xinjiang nao e China!

Kashgaria sempre fez parte da Asia Central. Seu povo e língua são parentes dos seus vizinhos, não tendo nenhuma ligação com a China. Ha uns 60 anos atras a região foi anexada pelos chineses, mais ou menos na mesma época que a China invadiu o Tibet. Mais recentemente o governo passou a criar incentivos para que os chineses se mudassem para la e abrissem negócios (o mesmo que foi feito com o Tibet), visando assim acabar com a identidade do povo de Kashgar, os Uygurs. Urunqui, a capital da região  teve toda sua cidade velha destruida. Dezenas de mesquitas foram demolidas, mas os Uygures nao aceitaram esta invasão tao facilmente. Enquanto os chineses queriam seu vasto território desértico, mas cheio de petróleo  eles só queriam sua identidade, e vida tranquila que sempre tiveram.

Chegando na imigração chinesa novamente problemas com meu passaporte velho (sem chipe e foto 5×7 tosca), e para terminar, queriam olhar minhas fotos na maquina e por fim abriram meu computador. Ainda não sei se acharam que eu era jornalista ou terrorista. Ao sair da fronteira, negociamos um carro que levava trocentos galoes e mercadorias. Ao comprar agua agradeci em mandarim, para a revolta (com toda a razão !) do dono do estabelecimento. Eu sabia da questão dos Uygurs x Chineses, mas como arrisquei uns comprimentos em mandarim na imigração  acabei me confundindo. A estrada, para nossa surpresa, nao era nem um pouco boa. Para ajudar o nosso motorista começou a dar aquelas pescadas. Tentei puxar papo para ele não dormir, mas ele ano aguentou, encostou a caminhonete e deitou na direção  Eu me ofereci para dirigir e ele aceitou na hora, indo para o banco traseiro roncar. Dirigi não mais de uma hora e o pneu furou. Depois de trocarmos o pneu, o motorista voltou para o comando. A estrada era longa, e apesar de bonita, nem se comparava com a etapa final do Quirguistão  Os últimos quilômetros foram beem cansativos, e depois de algumas paradas, chegamos a uma autopista, e logo a ex- pequena cidade Kashgar.

Todos ficaram muito contentes com o hotel, que era bom, barato e super bem localizado. Outra coisa que foi suuper bem vinda foi a comida!! Nossa, que delicia. Estávamos precisando mudar o cardápio depois da Asia Central!! O pessoal só levou um baita susto com a pimenta, que achávamos que era tomate ao ver o prato.

Estávamos a uma quadra da cidade velha e na nossa primeira caminhada, aquela boa surpresa, lojas de antiguidade, temperos, frutas, alem de cobras e lagartos secos para vender dando todo um clima. Os uygurs super simpáticos  puxavam papo e logo chegamos na praça onde tem a antiga mesquita Kha. Logo percebemos uma movimentação de exercito e tropa de choque, que nos assustou um pouco. Depois entendemos a situação, e ate nos acostumamos com as tropas e carros camuflados.

Mesquita Kha

algumas coisas estranhas

acho que nao viram a placa

Tínhamos alguns dias ate o final de semana, quando teria o famoso mercado de domingo e o de animais. Kashgar ‘e uma cidade comercial a muuito tempo, uma das principais da rota da seda. Aqui a rota se dividia, e seguia mais a leste para Xiang ou para o sul, sentido India. Rodamos a cidade velha varias vezes. Final de tarde ficava caótica  cheia de barraquinhas de comida. Muitas comidas boas, e outras bem diferentes. Mas tudo por uns poucos trocados. Como ‘e Ramadan, as pessoas estavam loucas para pegar comida e fazer sua refeição assim que o sol se por. Muiitas opções de comida, entre fornos fazendo pão na hora e carnes penduradas sem nenhuma refrigeração. Sweet caos!!

Ramadan

Parte da cidade velha esta caindo aos pedaços  e parte esta totalmente reconstruída (não reformada). Existem cidades em que toda a cidade velha foi colocada ao chão pelos chineses. Visitamos a parte leste da cidade velha, ainda residencial. Muitas casas tradicionais, corredores estreitos, mas se olhássemos para cima já enxergávamos ruas e prédios modernos ao lado. A forca da China esta chegando com tudo. Poucos locais tradicionais se mantem em pé, mas felizmente mantiveram alguns deles, como a bonita tumba do Abakh Hoja.

cidade velha

velho x novo

A cultura Uygur esta diminuindo cada vez mais, apesar da resistência deles. Eles se recusam a aprender Mandarim, e se rebelam como podem. A dois anos atras teve um inicio de revolução  mas que foi duramente esmagado pelos chineses. Muitas perseguições, execuções e mesquitas implodidas.

Interessante como a mídia reage a estes novos protestos que aconteceram poucos dias antes de chegarmos. A maioria das agencia de noticias colocava os Uygurs como extremistas islâmicos  treinados no Paquistão e Afeganistão  Não estou defendendo a forma que estao protestando, pois houveram mortes e queimaram estabelecimentos, mas sua causa ‘e nobre. Não e fácil conversar com um vendedor na rua e ver seus olhos se encherem de lagrimas ao falar sobre o que sua vida se transformou depois da ocupação chinesa. A China esta colonizando e fazendo as mesmas coisas que os países europeus fizeram nos últimos seculos. Os países ocidentais dizem “amem” para a China por diversos motivos. Pela potencia econômica que e, que empresta dinheiro para o pais mais rico do mundo quando este entra em crise, e para combater o Islamismo, como se este fosse inimigo do ocidente. Vendo tanto exercito, detectores de metal sendo colocados nas portas da mesquita, e áreas sendo isoladas, claro que tentamos encontrar o maior numero de informações  Da vontade de rir ao ver o que esta acontecendo e o que a mídia fala. Me surpreendi ao ver uma matéria no Brasil não tendenciosa como as outras. (Clique aqui)

Uygur observando movimentação das tropas de choque

mendigos olhando o noticiário na praca

O gigantesco mercado de domingo e um caos. Tem de tudo, mas acabamos não achando coisas que tínhamos visto durante a semana. Nos divertimos negociando, e nos arredores do mercado, numa região não tao turísticas  juntou uma pequena multidão para ver a Bibi barganhando uma camisa-vestido,davam opinião na cor, estilo, preço, estava demais.

Mulheres uygures no marcado de domingo

Pegamos um táxi ate o mercado de animais, mas acabaram nos deixando no lugar errado. Pegamos um trator de volta. Isto, um trator. Kashgar pode estar se modernizando, mas ainda e muuito comum ver pessoas andando de trator nas avenidas, de carroça e de burros. Muitas vezes na contramão  sem causar nenhuma estranheza. Chegamos no mercado de animais na metade do dia, e estava quente, muito quente. Já na entrada um caminhão saindo com Yaques (aqueles bois peludos dos Himalaias) se debatendo dentro de caminhões  Pessoas colocando ovelhas no porta malas ou amarrando na sua moto. Uns levavam no colo, outros davam chutes nos bichos. Vacas, cavalos, cabras, ovelhas, camelos, yaques, tudo num patio empoeirado, mas bota empoeirado nisto. O lugar parecia congelado no tempo. As pessoas, deitadas na sombra e sem tomar água por causa do Ramadam eram uma atração a parte. Só não imaginávamos demorar tanto para pegar um transporte dali. Ficamos um tempão buscando carona, táxi  carroça ou ate um trator. Tudo passava lotado, mas depois de muita insistência deu tudo certo.

Sopranas no taxi

mercado de animais

Tomamos nossas ultimas cervejinhas, pois sabíamos que teríamos semanas de seca pela frente. Organizamos um transporte e ja cedo pegamos estrada rumo ao sul. Não demorou muito para recebermos a noticia que não poderíamos passar de um check point sem autorização  Demos meia volta com menos de uma hora de viagem. Nova informação chegou que poderíamos passar, se falássemos que estávamos indo direto para o Paquistão  sem dormir em território chines. Comemoramos e seguimos em frente. Não demorou muito para a Karakoran Highway mostrar a sua cara. O asfalto foi terminando, apesar de muitos operários e maquinas na beira da pista, e as montanhas foram ficando cada vez mais impressionantes.

ainda com asfalto

Ao chegarmos no lago Kara Kul, já sabíamos que iriamos passar a noite la, mesmo contra a vontade das autoridades chinesas, que nestas alturas nem tinham mais controle sobre nos. Procuramos yurts ao norte do lago, e achamos uma família muito simpática  Eram Kyrgs, mesmo sua família nunca tendo tido nenhum contato com o Quirguistao. Kyrg ‘e etnia, não nacionalidade! Para nossa surpresa nosso amigo japones Koich, que conhecemos no Quirguistao, tambem estava acampando la. Camelos na beira do lago e montanhas com mais de 7 mil metros davam o clima. Yurt nada turístico  dormimos todos juntos, e acordamos cedo com nosso anfitrião rezando e comendo antes do sol nascer (lembram que e ramadan?). Aproveitamos e saímos cedo, por paisagens tao fantásticas quando no dia anterior. Chegamos em Tashkurgan, terra de Tagics e fomos direto ate a imigração  onde aguardamos o único ônibus diário por um bom tempo. Fizemos todos os procedimentos de saída do pais, embarcamos no ônibus acompanhados por soldados chineses, que viajaram com a gente por mais algumas horas, teoricamente passando por terra de ninguém  mas que esqueceram de avisar os pastores e seus yaques. Os soldados chineses desceram do ônibus e estávamos no Khunjerab pass, a quase 5 mil metros de altitude. Avistamos a primeira bandeira paquistanesa, mas ainda levaria algumas horas (e centenas de curvas) ate chegarmos na imigração do pais.

pela janela

Rumo ao norte!!

Eu e a Pati sembre discutimos (no bom sentido) qual e a India verdadeira. A India tradicional, espiritual, historica, que vem na nossa imaginacao e que tenho mostrado aqui ou a “nova India”, a India rica. Abro o jornal e vejo que uma empresa indiana acaba de comprar a Zain telefonica, se tornando uma das cinco maiores do mundo.. Muitos podem falar, ta e daí?! A Zain e uma compania telefonica com atuacao em mais de 15 paises africanos, muito boa por sinal (dava para passar de pais para pais com o mesmo chip, sempre como se o numero fosse local). A Land Rover e Indiana, assim como a Jaguar. Nao preciso comentar que os salarios de Bollywood sao mais altos que os da Globo, nem que os jogadores de cricket ganham mais que os de futebol no Brasil, ne?! Poderia citar outras empresas, e pesquisando um pouco mostrar numeros astronomicos.

A India ta crescendo muito. Ok, tem muito para crescer, pode se comparar com o crescimento que o Brasil teve nos anos 70, quando tinha muito para crescer tambem (claro que ainda tem, mas era o inicio da caminhada). Mas o Brasil desandou por um bom periodo, teve altas inflacoes e estagnou. A India aparenta ter uma economia solida, planejada, e a sequencia de crescimento pode ser diferente da que tivemos (sera que pelos excelentes economistas indianos que lecionam no mundo todo?). A nova India existe, são milhoes e milhoes de pessoas, mas proporcionalmente a populacao ainda e muito, mas muito pequena.

No Brasil as coisas não são muito diferentes. Qual o percentual da populacao brasileira que tem curso superior? 10%? Tudo bem, esta aumentando com a popularizacao de cursos superiores, mas ainda demora para recuperar. Saneamento? Habitacao? Mortalidade infantil? Corrupcao? Infraestrutura? O BRIC fica todo se achando, as novas economias bambambam. Pensem o tamanho das populacoes de Brasil, Russia, India e China, agora no tamanho da area destes paises. Como paises, estao se tornando nacoes poderosas, pois decisoes politicas internacionais contam como um todo, mas se pensarmos bem, estao muito abaixo do potencial. Peguem estes PIBs e dividam pela populacao para ver o PIB per capta, ou ate mesmo pela area dos paises, criando uma nova forma de avaliacao (os paises do BRIC sao top 10 em area e populacao). Piada!  A India, assim como Brasil, Russia e China ainda tem que comer muito feijao ou chapati, arroz, batata, seja la o que for…

Normalmente temos muito poucos planos, e mesmo assim estao sempre mudando, mas desta vez nos superamos. De Tirunavamalai pegamos um onibus comum ate Bangalore, e so la decidimos para onde iamos. Inicialmente seguiriamos para Mysore, onde tem um magnifico palacio, a Bibi ficou seduzida por historias de uma linda e tranquila praia com cultura indiana, chamada Gokarna, e poderiamos seguir tambem direto para Hampi, destino que passariamos com certeza.

Ao nos aproximarmos de Bangalore, já podiamos ver que se tratava de uma grande cidade. Talvez seja a maior representante da “nova India”. Claro que não tem o glamour de Mumbai, mas ali e onde esta o maior custo de vida do pais, inpulssionado pelos altos salarios dos capacitados profissionais de TI. Meu companheiro de viagem na africa, Guru, contava que muitos dos seus amigos estavam largando seus empregos no Vale do Silicio na California para ganhar salarios superiores em Bangalore, com um custo de vida bem mais baixo que o americano.

Quase que passamos pela nossa parada, já que o onibus não ia ate a rodoviaria. Nos avisaram em cima da hora, pulamos do onibus meio desageitados e pegamos um outro onibus urbano ate a rodoviaria. Para evitar um zigue zague, mais mudancas de lugares e para fugir do calor, resolvemos ir direto para Hampi mesmo. O ultimo onibus já estava para sair, mas era um onibus comum e a viagem seria longa. Optamos por pegar um onibus noturno com camas e passar o dia na cidade. Compramos as passagens, largamos as mochilas e fomos ate um “shopping” ali perto que o pessoal que vendeu a passagem recomendou. Estava mais para galeria de centro, nada a ver com a nova India. Acabamos descobrindo qual era um dos shopping descolado da cidade e fomos la. O grande motivo era ter um lugar com ar condicionado para não ficar no calor infernal que estava la fora, mas acabou tendo a desculpa que estariamos vendo um pouco da outra India…

Mesmas lojas, mesmo padrao, para ser sincero não me atrai muito. Ate tem um ou outro estilo diferente, coisas interessantes para se ver da “cultura pop”, mas fiquei entediado muito rapido. Pelos menos matamos o tempo. Ao pegar o onibus a Bibi cometeu uma grande gafe. Um “piazinho” nos guiava ate onde o onibus estava estacionado, e ela estava encantada com a desenvoltura e firmesa da crianca. Na hora de embarcarmos ela perguntou qual era a idade dele, mostrando com os dedos 5 ou 6 anos. Ele respondeu 22. Ficamos achando que ele não sabia falar ingles direito, que tava tentando falar 12 anos (mesmo parecendo a metade desta idade). O “piazinho” que não era um piazinho e sim um “Cara” que não cresceu, falou irritado que tinha nascido em 88′, so que não tinha crescido. Demoramos um tempo ate acreditar na historia, e o cara saiu bravo…

Chegamos em Hospet pouco antes do inicio da manha, e Hampi fica a um pulo dali. Olhamos umas 3 pousadas ate nos dar conta que os precos e qualidade mudavam muito pouco. A regiao fica no meio de um “bazar” baguncado, com ruas estreitas, pequenas lojas improvisadas, restaurantes e pousadas. A torre do principal templo pode ser vista de toda a regiao. Muitos dos restaurantes estao nos terracos, para proporcionar uma melhor vista.

Bem cedo alugamos uma moto para rodar. Apesar das distancias não serem tao longas, o calor estava muito grande para fazer o percurso de bicicleta. Hampi foi a capital de um imperio que dominou todo o sul da India, e existem incontaveis ruinas desta civilizacao, em diversos estados de conservacao. Alem das obras do homem, a paisagem chama muito a atencao. Uma regiao seca, apesar de algumas “ilhas” verdes de plantacoes de banana e arrozais, com milhares de pedras de diferentes formatos e tamanhos. Muitas destas pedras estao empilhadas, estranhamente equilibradas, como se tivessem sido colocadas desta forma propositalmente. O conjunto da obra do homem e de Deus e realmente espetacular.

Bem no inicio da nossa estadia, fomos num destes restaurantes turisticos pois a Bibi queria mudar o gosto da comida. Resultado, acabou pegando uma infeccao intestinal. Não adianta, restaurante local ta sempre cheio, o giro de pessoas e muito maior, pois obviamente tem mais indianos que turistas, e a comida sempre vai ser mais fresca. Resolvemos esperar passar naturalmente, sem remedio, pois não tinhamos pressa para sair dali. No inicio fiquei cuidando mais dela, pois so podia comer sopa e torradas. Ficou internada no quarto e nas leituras, e com o passar dos dias arriscou umas saidas para ver o por de sol num lugar não muito longe. Sentindo a melhora dela, passei a arriscar passeios mais longos, por mais ruinas, enquanto ela continuava mergulhada nos seus estudos. Com a melhora passamos a gastar horas nos restaurantes a beira do rio, so aproveitando a sombra e agua fresca. Mais passeios pelas interminaveis ruinas, e ate uma volta num “barco cesto”.

Quando se passa bastante tempo num lugar pequeno assim, fica amigo do dono da pousada, pendura a conta no restaurante que vai todo dia, os vendedores nem insistem mais pois sabem que voce não vai comprar, se sente em casa mesmo. Um dia antes da nossa despedida do local, voltando de uma caminhada, descobrimos meio que por acaso um lugar incrivel onde o sol estava se pondo. Na hora certa e no lugar certo!! Foi so deitar na pedra quente e curtir ate a noite cair por completa…

A India e grande, e qualquer viagenzinha demora um bom tempo. Nossa proxima parada, Jalgaon, era a maior distancia que percorreriamos ate agora. Autorickshaw ate Hospet, trem ate Guntakal onde esperariamos por duas horas o trem ate Jalgaon. O compartimento sleeper e simples mas bom por causa da interacao, já que não existem cabines fechadas, mas neste trecho da viagem incomodou um pouco pois praticamente so tinham homens. Linha muito utilizada por pessoas que viajam a trabalho. Nos dois trens estavamos cercados por engenheiros civis, profissao que esta em alta com o grande investimento em infra estrutura no pais. Já se aproximava da metade da tarde e a temperatura so parecia aumentar. A Bibi comparou o vento que vinha da janela do trem como um secador de cabelos, e acreditem, ela não estava exagerando.

Pulamos do trem na rapida parada na estacao de Jalgaon, e já tinham pessoas perguntando se queriamos dividir um carro para os passeios a Ajanta e Ellora, que tambem tinham acabado de chegar e tal. Eram 3 refugiados tibetanos, que moram aqui na India e estavam em perigrinacao para as “cavernas” Budistas da regiao. Eles foram com a gente ate o hotel que escolhemos e acabamos combinando de fazer o passeio, ou parte dele juntos, pois o aluguel de um carro seria praticamente o mesmo preco que as diversas passagens de onibus somadas.

A distancia ate Ajanta não era grande, mas a viagem não e tao rapida assim. O nosso amigo tibetano foi recitando mantras boa parte da viagem, e logo notamos que seria uma experiencia muito interessante. As cavernas de Ajanta foram esculpidas na rocha por monges, que la fizeram seu local de estudos e devocao. Pilares para a sustentacao foram deixados, alem de algumas esculturas e muitas pinturas. Na epoca que era ativa, no chao existia uma fina camada de agua, que funcionava como um espelho natural para iluminar as impressionantes pinturas. Diz a lenda que os monges daqui estudavam magia e eram capazes de coisas incriveis. Levitacao era uma das praticas mais simples…

As fotos de Ajanta desapareceram do cartao de memoria, junto com a maioria das fotos de Ellora. Espero conseguir recuperar!

A cada caverna nossos amigos seguiam o script do ritual tibetano, com gestos, mantras e muita paixao. O lugar que e mais visitado por sua beleza, teve um extra pela devocao não muito comum nem esperada por aqui.

Mais uma esticada ate Ellora, onde pretendiamos ficar e so visitar as cavernas no dia seguinte. De ultima hora acabamos decidindo visitar com os tibetanos e aproveitar a volta ate Jalgaon. Se em Ajanta, fora a construcao das cavernas, eram as pinturas que impressionavam, em Ellora eram as esculturas. As cavernas eram ainda muito mais impressionantes que as de Ajanta. Aqui as cavernas não são so budistas, mas existem janeistas e hinduistas tambem. Algumas partes das rochas foram totalmente esculpidas, deixando de ser cavernas, e passando a ser um templo solido, feito so de uma rocha, sem encaixes. Lembram das igrejas de Lalibela na Etiopia? Mesmo estilo (a cidade de Petra na Jordania tambem e assim). A principal delas e magnifica, inacreditavel como conseguiram esculpir aquela beleza, daquele tamanho, na rocha. Tiraram 250000 metros cubicos de rocha. Para se ter uma base de comparacao, um container que eu exportava carregava 50 metros cubicos de madeira. Seriam o o equivalente a 5000 destes containeres que vcs veem na estrada indo para os portos, tudo feito na mao. Vimos os templos janeistas juntos com os tibetanos, mas depois eles foram direto para os budistas enquanto nos gastamos tempo nos hinduistas.

Pilares esculpidos

Templo inteiro escavado na pedra

Esculturas

No inicio eu e a Bibi ficavamos falando um para o outro, olha isto, olha aquilo, inacreditavel, mas depois de um tempo o silencio nos tomou. Circulavamos de boca aberta, observando cada detalhe. A luz do final de tarde batia de frente e tudo ficou ainda mais bonito. Ate esquecemos de tirar fotos, que com certeza ficaram faltando, mas o momento e que vale, não e?! De qualquer forma a beleza do lugar não caberia numa foto… Terminamos nas cavernas budistas, e mesmo o horario de visitas já tendo terminado nos deixaram ficar mais, pois estavamos com os devotos. Saimos de la já era noite, e alem dos segurancas, so haviam macacos e nos. Muito gostoso das 6 as 7, quando ainda estava claro, e o lugar vazio, todo so para nos.

Na volta para Jalgaon, o tibetano pediu para sua esposa traduzir que tinhamos muita sorte de ter estado ali com eles, que o lugar e incomum e Buda nos traria muita felicidade. Eu apenas sorri, e pensava: sera que e possivel ser mais feliz do que sou? E segui a viagem em silencio, escutando o motorista cantar suas musicas indianas favoritas e o tibetano recitar seus interminaveis mantras no banco de tras…