Carnaval em (El) Salvador!

Com a terrível guerra civil em El Salvador, muitos salvadorenhos emigraram para os EUA, principalmente para o estado da Califórnia.  Nos bairros de baixa renda, não foram tão bem recebidos, pois o grande número de pessoas chegando representava uma ameaça aos empregos de outros imigrantes. Marginalizados agruparam-se em uma gangue que foi crescendo e se organizando. Os Mara Salvatrucha, MS-13, passaram a ser respeitados e foram ampliando seu território, e dominando o tráfico de drogas em algumas regiões. Nisto acontece  uma dissidência e surge os Mara-18, que passam a ser rivais dos seus compatriotas. Ambas as gangues recebem também ex-guerrilheiros, e se tornam ainda mais violentas. Como última alternativa, os EUA passaram a deportar os chefes dessas organizações, mas o problema só aumentou. Em El Salvador as organizações cresceram rapidamente e com o dinheiro do tráfico nos EUA se profissionalizaram ainda mais.  Passaram a atuar como milícias, recebendo dinheiro em troca de proteção e exercendo poderes e influência politica cada vez maior.

A situação estava se tornando insustentável, quando no ano passado os líderes do MS 13 e Mara 18, sentaram para conversar dentro do presídio de segurança máxima em San Salvador. O governo deu algumas regalias para esses presos, e com o novo acordo, a violência despencou. Homicídios caíram 32% e sequestros 50%. Escutamos que jovens deixaram de ser recrutados, ou pelo menos criaram uma mínima idade para isto.

Exite um documentário chamado La Vida Loca  muito interessante sobre este assunto.

Ainda na Nicarágua  quando voltei da Costa do Mosquito para encontrar a Bibi em Santo Tomas, pedi a um senhor numa loja ligar para o mesmo taxista que tinha levado ela até o monastério. Seguimos pelas bonitas estradas rurais, e demorou uns 40 minutos até chegar lá. É um mosteiro trapista feminino, aquela ordem do filme “Sobre homens e deuses”. Tinha um padre italiano muito gente boa e outras hospedes, freiras franciscanas missionárias muito divertidas. Fiquei um dia com a Bibi e gostei muito do lugar. Antes de pegarmos a estrada para Leon, antiga capital e reduto dos Liberais no passado (Granada era onde prevaleciam os Conservadores).

Bibi com as missionárias e o padre

Bibi com as missionárias e o padre

Apesar de bonita, a arquitetura de Leon não chega a ser uma Granada, mas é muito mais “viva”. Cheio de estudantes nas ruas, pessoas praticando esportes nas quadras, movimentada. Os painéis pintados nas paredes e muros fazem a revolução parecer ainda mais viva.

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Painéis revulucionários pela cidadew

Painéis revulucionários pela cidadew

No nosso planejamento inicial, não iriamos para El Salvador. Ao longo da viagem fomos amadurecendo esaa ideia  Em Leon descobrimos que o ônibus que vai direto até lá não tem horário fixo, pois vem desde a Costa Rica. Resolvemos pegar os “chiken buses”, afinal em quilômetros não era tão longe. Mas isto quase custou a minha vida, não pelo perigo, mas porque a Bibi queria me esganar!!rsrs

Uma lotação de Leon até Chinandega, outra que já estava saindo até a fronteira em Casaule. Paga uma taxa de 3 USD para sair da Nicarágua e outra de 2 usd para entrar em Honduras (onde foram muito atenciosos). A Bibi quis comer e sem querer acabamos perdendo o ônibus que estava para sair (aí eu que quase a matei!rs). Foram horas pelas estradas abandonadas do sul de Honduras, onde crianças tapavam buracos em troca de moedas jogadas pelo motoristas, e lagartos eram oferecidos como uma nutritiva refeição de proteínas.

Lotação em Honduras

Lotação em Honduras

Chegamos em Somotilo/Guasaule onde fizemos nova imigração agora para El Salvador. Estranhamente não carimbam o passaporte, tem só um controle eletronico. Pegamos um ônibus até San Miguel onde conseguimos pegar outro até San Salvador, capital do país. Ônibus animado, com vendedores de tudo que é tipo de comida. Os saquinhos com bebidas também fazem sucesso por aqui. Saquinhos de água gelada são infinitamente mais baratos que água mineral. Os de água-de-coco gelado, com pedaços de coco dentro, são artesanais (com um nó na ponta), e são uma deliciosa pedida. Al[em dos vendedores ambulantes de tudo, há os cantantes que animavam o belo trajeto.

Chegando em El Salvador, já estava escurecendo. Muitas pessoas se ofereceram para nos ajudar a chegar aonde queríamos ir. Acabamos pegando um táxi até uma estação de onde saem micro-ônibus direto para a praia. A Bibi tava meio tensa com a história dos “Mara”, mas o pessoal falava que o maior problema era a violência entre eles, além da extorsão (o famoso pagar por proteção). Esperando o micro-ônibus na estação particular, vigiada com câmeras e seguranças fortemente armados, torcíamos para que o pagamento para os Maras tivesse em dia, pois se não estivesse seria uma guerra…rs

Mais quarenta minutos de viagem, agora num confortável ônibus com filme e musica, e nos deixaram na entrada da praia de El Tunco, logo após o porto de La Liberdad. Treze horas de viagem para percorrer menos de 500 km. El Tunco é uma praia famosa pelo surf, cheia de pousadas, portanto não foi difícil achar um lugar bom e barato para ficar. Centro pequeno, com meia duzia de restaurantes e outra meia dúzia de lojinhas. Como é voltado para o turista, os preços eram um pouco acima do que estávamos pagando na viagem, mas nada exorbitante. Apesar de ser considerado um destino onde rolam algumas noitadas, até que não estava muito movimentado fora do final de semana. Mas no sábado a balada era pesada, com muito ragaton e pessoal se esfregando estilo funk. Apesar de ser carnaval, não entramos no embalo. Estávamos em outro ritmo então relaxamos por uns dias, curtindo o final da viagem. Acordava cedo todo dia, para surfar quando o mar ainda não estava lotado. Encontramos o Igor, brasileiro que também estava viajando pela America Central, pela oitava vez, apesar de ter feito um trajeto totalmente diferente do nosso. Ele estava com outra brasileira, Ana, que conheceu em Honduras. Curtimos um clima de praia, comida e cervejinha. Férias da viagem, antes de irmos para San Salvador.

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El Tunco

El Tunco

Segundo aquela ironia, mais uma capital com uma catedral, palácio do governo, teatro, mercado de rua… e nada de mais. Mas queríamos conhecer a catedral para visitar o túmulo do Monseñor Romero, padre conservador, amigo da elite do país, mas que se comoveu com a causa camponesa, e acabou lutando e morrendo por eles e foi assassinado. A guerra civil foi brutal, e enquanto os camponeses estavam lutando, o governo (ditadura) contrarrevolucionário invadia as vilas e matava todas as mulheres e crianças, para abalar os guerrilheiros. Assim como tantos outros lugares que passamos, vimos que a guerra-fria não tinha nada de fria. Se EUA e Russia não tinham coragem de se enfrentar, patrocinavam pessoas para fazer isso por eles, testando seus equipamentos e lucrando com isto. Conseguimos comprar um livro a seu respeito e conversar com algumas pessoas que dizem ter sido curadas por milagres dele. O Padre Oscar Romero foi indicado para o premio Nobel da Paz em 1979, mas perdeu para Madre Tereza de Calcutá  Há quem diga que ele só foi não foi o vencedor por interferência direta dos EUA e da própria Igreja Católica. Nunca vamos saber. Gosto muito de uma frase dele, “o verdadeiro pecado é a injustiça”.

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San Salvador

San Salvador

Ainda tínhamos uma viagem até Tegucigalpa, capital de Honduras. Honduras é o país mais desigual das Amáricas (seguido de Guatemala e Brasil). Pegamos pela primeira vez o ônibus de alto padrão TICA bus, que circula por todas as capitais da América Central. Confortável,  mais rápido, mas sem graça. Uma viagem passa a ser somente um deslocamento, sem nenhum aspecto cultural. O turismo em Honduras se concentra no norte, basicamente nas ilhas Rotam e nas ruínas mayas Copan. Desta vez não teríamos tempo para visitar, mas numa próxima  viagem pelos países mais ao norte, com certeza estarão no nosso roteiro. De qualquer maneira, andando pelas estradas de Honduras,  nos deu vontade de viajar pelo interior do país, aleatoriamente descobrindo seus “segredos”. Tegucigalpa está no topo da lista das cidades mais violentas do mundo, onde grande parte dessa lista são cidades latino-americanas. Se alguém tem medo de ir para lá, vale lembrar que Maceió também está no topo de qualquer lista. Varias outras cidades brasileiras figuram as listas de mais perigosas do mundo, inclusive Curitiba.

A cidade não tem atrações em si. Se o Rio de Janeiro tem o Cristo redentor, Tegucigalpa tem o Cristo del Picacho. Se bem que este é bem menor e vistoso. O que não são menores são as favelas, que se espalham por toda a cidade, sendo difícil identificar onde termina um bairro e onde inicia uma favela. Talvez tudo seja uma mistura dos dois, sem contar com a pequena e milionária elite. Na frente do aeroporto um shopping moderno contrastava com o cenário. O pequeno aeroporto (maior aeroporto não fica na capital, e sim próximo as áreas turísticas) cobra uma taxa de saída caríssima, o que me deixou revoltado.

Colinas de Tegucigalpa

Colinas de Tegucigalpa

Tanto tempo de viagem pela América Central e agora um curto voo de volta para a Cidade do Panamá, onde dormiríamos uma noite antes de voltar para o Brasil.

A Costa do Mosquito

O filme “A Costa do Mosquito” estreou na metade dos anos oitenta. Tinha como elenco Harrison Ford, chegou a ter indicação para o Globo de Ouro, e mesmo assim caiu no esquecimento. Hoje não se encontra um DVD do filme. A história original do livro “A Costa do Mosquito” do Paul Teuroux (que escreveu “O safári da estrela negra”, dentre outros ótimos livros de viagens) pode ser encontrado facilmente. Na história, o personagem principal, Allie Fox, tenta fugir do consumo e sedentarismo dos EUA, se mudando para a Costa do Mosquito, onde pretende criar uma sociedade perfeita, auto sustentável e longe dos vícios. Mas no final, tudo se arruína, devido a diversos problemas. A Cosa do Mosquito tem este nome não por causa dos insetos, mas por causa dos seus habitantes, os índios Misquitos. Ela engloba todo o sul da costa atlântica de Honduras e quase toda a costa atlântica da Nicarágua. Não reconhece fronteiras. Seus diferentes povos, línguas e costumes tem mais a ver entre si do que com o resto dos respectivos países. Foi colônia britânica durante muito tempo, além das línguas indígenas, falam inglês (na verdade um creole) e não espanhol. Não é incomum que se refiram ao resto dos nicaraguenses como “espanhóis”. Se Allie Fox, personagem do livro/filme fracassou na sua busca, eu não poderia dizer o mesmo, tendo encontrado o lugar mais interessante da América Central, pelo menos até agora.

Devido a obras na estrada, ao sairmos de Ometepe/Rivas, tivemos que passar em Masaya antes de ir para Granada. Masaya é famosa pelo seu artesanato, vulcão (com mesmo nome da cidade), mas principalmente pela bela cratera de vulcão com um lago dentro, chamado Apoyo. Existem algumas pousadas na região, mas nosso destino era Granada, somente uns 15 Km dali.

Cidade gostosa, com diversas pousadas e restaurantes, arquitetura colonial por todos os lados, além de belas igrejas e museus interessantes. O calor estava fortíssimo, então procurávamos fugir do sol nos horários de pico e passear cedo e final de tarde. Se a comida da Nicarágua já vinha nos agradando, encontramos nesta estilosa cidade um excelente custo-benefício.

Catedral de Granada

Catedral de Granada

Antiga ferroviária

Antiga ferroviária

Deuses de pedra dos antigos abitantes da região

Deuses de pedra dos antigos habitantes da região

De Granada uma rápida passada em Manágua, onde pegamos um ônibus para Santo Tomé, cidadezinha pouco depois de Juigalpa (para que possam encontrar no mapa), já a caminho da Costa do Mosquito. O estilo do ônibus  carregado até com camas no bagageiro, superlotado até mesmo nos corredores, davam todo um estilo para a viagem. Dezenas de vendedores subiam e desciam nas incontáveis paradas, vendiam remédio, escovas, música, chocolate além de diversos tipos de comidinhas. Uma espécie de queijo qualho, servido num saco plástico junto com um caldinho, era um dos mais populares e decidimos acompanhar o pessoal. Na hora da fome mesmo, sacolinhas com pedaços de frango, repolho e banana verde frita estavam a disposição. Sobremesa manga verde com sal e pimenta, dente outras diversas possibilidades.

ônibus parecido com o nosso

ônibus parecido com o nosso

Região meio velho oeste, bem estilo country. Pequenas lojas vendendo selas para cavalo feitas artesanalmente, e muitos chapéus. Minha parada foi relativamente rápida, somente para deixar a Bibi no monastério que ela ficaria nos próximos dias, numa pequena cidade nas montanhas, há uns quarenta minutos dali. Horas depois eu estaria em outro ônibus  interagindo com o pessoal, sentido El Rama, ponto final da estrada. Cheguei já de noite, e fui me informar sobre os horários dos barcos. Os lentos barcos de carga, saem somente algumas vezes por semana. O rapaz do “porto” disse que eu teria que pegar uma “panga”, uma canoa motorizada. Tinha visto diversas opções de pousadas, todas muito simples. Aproveitei para pedir uma indicação de lugar para ficar. Ele falou que o lugar que estava era barato e limpo, bem o que eu precisava. Pertinho do trapiche, me facilitaria na manha seguinte quando teria que madrugar. A rua era toda esburacada e com poças d’água. Ao lado corria um pequeno esgoto a céu aberto. Cheguei no hotel pensando que não ficaria, mas os quartos eram bem limpos, lençóis novíssimos, e o preço inferior a três dólares. Resolvi ficar, larguei a mochila e fui procurar um lugar para comer. Cidadezinha escura, meio decadente, mas com um certo charme. Barraquinhas de comida na rua principal, e quando eu me aproximei de uma delas para ver o que tinha para comer, um soldado com sua turma me cumprimenta e pergunta da onde sou. Na hora pensei, ferrou, já me preparei para uma longa negociação e corrupção. Mas eu havia me enganado, e acabamos conversando um bom tempo, quis até me pagar cerveja. Cachorros esqueléticos deitados no meio da rua, mal se levantavam para pegar os ossos que jogávamos nas suas direções, davam um clima de fim do mundo para aquela noite úmida. Logo inicia um vento forte e trovoadas, me despeço dos meus amigos e me recolho no pequeno quarto. Uma chuva fortíssima inicia. As telhas eram de metal e faziam um barulho ensurdecedor. Achei que não conseguiria dormir, mas depois das longas horas de viagem desconfortável e da cervejinha, capotei.

Rua escuras de El Rama

Rua escuras de El Rama

Hotel mais barato da viagem, menos de 3 USD

Hotel mais barato da viagem, menos de 3 USD

Acordei com o despertador, os galos ainda nem começavam a cantar. Tomei um banho frio e fui com minha lanterna procurar um lugar para tomar um café. Encontrei uma banca de nicaraguense/americano com quem fiquei conversando enquanto tomava e comia algo. Na hora de pegar a “panga” fiquei feliz ao ver que era um pequeno barco de alumínio  e não uma canoa motorizada, afinal seriam algumas horas, acompanhando as curvas do Rio Escondido, até chegar em Bluefilds.

O trajeto é muito bonito, mas não confortável. O rio vai se abrindo até se tornar uma lagoa, onde está Bluefilds. A cidade-porto é o centro da região, e pode ser avistada de longe, com uma igreja morava se destacando. Labirinto de ruelas perto do deck até chegar na rua principal. Além de muitos jamaicanos que migraram para cá, muitos escravos fugiram de países vizinhos no passado e encontraram  proteção nesta região isolada. O clima de reggae, alegria do povo, pessoas falando creole (um dialeto de inglês  falado muito rápido) dão um charme pra o lugar. Mas nem tudo são flores, muito pelo contrário. O fato de ser uma cidade portuária  muita prostituição, violência e trafego de drogas. Alias um dos grandes corredores de drogas para chegar no México/EUA.

Bluefilds

Bluefilds

Alguma pessoas vem até aqui para pegar um barco até Corn Island, ilhas paradisíacas da Nicarágua, mas a maioria prefere voar de Manágua  o que encurta a viagem em alguns dias. Apesar de ser um paraíso, minha intenção não era de ir para Corn Island, mesmo com o navio cargueiro saindo para lá no dia seguinte. Se a Bibi tivesse comigo este provavelmente seria nosso destino, bem casal, mas sozinho buscava algo mais cultural.

Peguei uma “panga” até uma pequena cidade, Lagoa das Perolas, uns 50 km ao norte dali. Viagem também muito bonita, por canais que se formam paralelos ao mar. Uma rápida parada numa vila até chegarmos num pequeno pier, onde pessoas esperavam encomendas. Uma cidadezinha astral, com duas ruas paralelas e meia duzia de hospedarias. Lugar gostoso, logo me acostumei com os “Gude-gude” ( good day, good day), “haia” (hey you) dentre as poucas coisas que conseguia identificar do creole. Curtir a região com calma, até juntar pessoas para dividir um barco para ir até Pearl keys, conjunto de ilhotas ao longo da costa norte dali.

Igreja morava

Igreja morava

Vista da Lagoa das Perolas

Vista da Lagoa das Perolas

Conheci um casal de espanhóis( na verdade catalães) que az trabalhos voluntários ali perto (na verdade umas 10 horas de barco ao sul), e fomos juntos até as vilas Misquitias de Ratipura e Awas, onde tomamos banho na lagoa, e curtimos o lugar.

Garoto creole em Awas

Garoto creole em Awas

Me surpreendeu que logo chegaram outros estrangeiros na pousada e assim pudemos alugar um barco. O dia amanheceu cinzento, não parecendo que o programa daria certo. Como a maioria tinha pouco tempo, encaramos mesmo assim. Fomos pela lagoa, passando por pequenos barcos a vela, até chegar no outro lado da lagoa, onde tem passagem para o mar. Um posto do exercito nos surprendeu, onde fizeram até controle de passaporte. Depois foi só lutar contra o vento e ondas, seguindo ao norte. No momento que nos afastamos do continente o tempo abriu e o mar acalmou. As primeira ilhotas começaram a aparecer. Algumas minusculas, outras habitadas por pequenas famílias, outras com construções abandonadas. minha ideia era de dormir nas ilhas, mas sem transporte regular, poderia ficar dias ali antes que um pescador passasse sentido Lagoa das Perolas, então achei melhor não ariscar.

Ilhas paradisíacas, algumas já tiveram estrutura para o turismo, mas existe uma grande disputa para saber quem são os donos das ilhas. As ilhas ao norte são todas habitadas por Misquitos, mas as ao sul dependem de “caseiros” para cuidar. Aproveitamos a praia, mergulhamos e tomamos água de coco, retiradas dos muitos coqueiros que tem por ali. Pique-nique no almoço e mais praia em outras ilhas. Aproveitei para conversar bastante com o Mr Taylor, nosso barqueiro, muito gente fina. Outras pessoas bastante bacanas no nosso grupo também. O tempo mudou bruscamente e uma tempestade iniciou. Nos protegemos na pequena barraca de lona e outros foram para o mar mesmo. Parecia que duraria para sempre, quando meia hora depois o céu limpou. Tempo imprevisível por aqui.

Pearl Keys

Pearl Keys

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Precisa de legenda?

Precisa de legenda?

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Banheiro

Banheiro

Depois da tempestade

Depois da tempestade

Tempo muda rápido

Tempo muda rápido

Na volta tivemos que improvisar velas para aproveitar o vento, pois a gasolina estava acabando. no final deu tudo certo, e chegamos a salvo na Lagoa das Perolas. Quase todos do grupo se foram, mas eu queria explorar mais a região. Um pouco mais ao sul está Haulover, vila de pescadores misquitos e creoles. Batendo papo com uma senhora ela me apontou para baixo de uma casa. De longe parecia que tinha vários sacos de cimento, mas quando me aproximei vi que eram tartarugas. São pescadores de tartarugas, tem até licença para isto. Apesar de pescarem para a subsistência, com barcos e técnicas rudimentares, da pena dos bichinhos. Para a carne não estragar, eles mantem os animais vivos, de casco para baixo, com a nadadeira amarradas, e vão matando de acordo com a necessidade.

Mais de 15 tartarugas gigantes

Mais de 15 tartarugas gigantes

A vila de Cacabila fica uns 50 km ao norte, onde existem misquitos bem mais tradicionais. Mesmo assim utilizam pequenos barcos, onde a vela é feita de lona plastica. Mais para cima está Orinoco, onde o povo é Garifuna. Cada um dos povos tem língua  musicas dentre outros aspectos culturais.

Habitação local das comunidades ribeirinhas

Habitação local das comunidades ribeirinhas

Embarcações utilizadas no local

Embarcações utilizadas no local

Detalhe para as velas de lona plastica

Detalhe para as velas de lona plastica

Depois de uns dias na Lagoa das Perolas já conhecia bastante gente. De dia alternava entre os poucos restaurantes, e acabei experimentando o prato tipico da região, tartaruga. Fazem caldo até com a carne que fica no casco, aproveitando tudo de suas pescas. De noite não tinham muitas opções para jantar, portanto fui todas as vezes no mesmo bar/restaurante, onde depois da janta tomava uma cerveja e escutava um reggae com os rastafaris. Alias, em terra de velhos rastafaris, os jovens revoltados são do hip-hop. Eles se reuniam na quadra de basquete, perto da igreja Moravia da cidade.

Preparando o prato típico da região

Preparando o prato típico da região

Aproveitando toda a carne

Aproveitando toda a carne

Chegava a hora de eu ir buscar a Bibi no monastério. Para evitar todas as conexões e longas horas de barco, resolvi encarar a pequena estrada que anteriormente eu nem sabia que existia. Um ônibus por dia parte antes do sol nascer, e viaja a manhã toda para percorrer uma distância não muito longa até El Rama. Não eram oito e meia da manhã quando paramos numa das pequenas vilas que cruzamos. Um “restaurante” servia arroz, feijão, frango… para o café da manhã. Como o dia seria longo, não pensei duas vezes antes de pedir um prato fundo para mim.

Parada para abastecer

Parada para abastecer

Meus três novos amigos pastores nicaraguenses-americanos e salvadorenho-americano tentaram me convencer  a me tornar missionários da igreja deles na África. No início levei na boa, mas depois encheram o saco. Acho que eles também não gostaram muito das minhas contestações diretas sobre coisas que falavam, muito menos de eu defender Judeus e Muçulmanos. Pelo menos a viagem passou rápido. Em El Rama, eles já desacostumados com transportes duros por morarem nos EUA, resolveram seguir de taxi. Eu me despedi da Costa do Mosquito, saltando no primeiro ônibus que vi. Paguei uns trocados (o ônibus custa menos de um dólar por hora de viagem)  e ao contrário de outras viagens, não conversei com ninguém. Mesmo assim a viagem foi tranquila. Horas mais tarde eu chegava em Santo Tomé, para buscar a Bibi. Trazia comigo um grande sorriso estampado no rosto.

Sandinista!

A Nicarágua é um dos países que mais vezes foi invadido pelos EUA. É também um dos poucos países onde os EUA admitem que perderam uma guerra. Uma das primeiras invasões foi pelo Mercenário americano Willian Walker. Com a proibição da escravidão nos EUA, ali a prática poderia ser rentável. Com a corrida do ouro, muito americanos navegavam pelo rio San Juan até o lago Nicarágua, atravessavam os poucos quilômetros de terra até o porto, onde pegavam um navio até a Califórnia. Era muito mais rápido, fácil e menos perigoso que atravessar os EUA por terra. Primeiramente ali pensaram em construir um canal transoceânico, mas depois de verem a atividade dos vulcões ao redor, acabaram transferindo para o Panamá.

A figura histórica mais importante do país é o Augusto C. Sandino, guerrilheiro nacionalista que lutou contra as interversões americanas e ditaduras instaladas. Acabou sendo assassinado após ter assinado um tratado de paz, pelo então ditador Somoza. A dinastia Somoza dominou o país com mãos de ferro por décadas e possuíam mais da metade das terras da Nicarágua. Como se o fantasma do Sandino tivesse voltado para prestar conta com os Somozas, surge a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Em épocas de guerra fria, não era mais uma guerrilha somente nacionalista, mas também comunista (quem negaria o apoio da URSS tendo um inimigo em comum?). Para o povo sofrido com tantos anos de ditadura isto pouco importava, queriam era mudanças. Estudantes e camponeses aderiram a luta da FSLN, e finalmente acabaram com a ditadura. Parecia tudo terminado, mas o então presidente americano Reagan, decide apoiar a antiga guarda nacional do Samoza, e cria os “Contras”. Uma brutal guerra civil por mais quase dez anos, até que  assinam uma tratado de paz. Finalmente uma democracia. A FSLN perde a eleição, e existe uma sequencia de governos extremamente corruptos. Uma coalizão da FSLN com o ex-lider dos Contra assume o poder anos mais tarde, mas a corrupção não muda.

Toda a instabilidade do passado e dificuldades do presente, fez com que o turismo não tenha se desenvolvido tanto na Nicarágua. Com isto a região nos pareceu muito mais autentica, povo simpático e cultura melhor preservada. Mas tudo isto tende a mudar, o NY Times recomendou o país como um dos destinos para ser visitado em 2013: (Clique aqui).

Na movimentada fronteira de Peñas Blancas, pagamos a taxa de 13 usd (não precisa de visto, mas tem que pagar esta taxa) e pegamos um táxi junto com duas holandesas. De ônibus teríamos que fazer algumas conexões, seguir ao norte até Rivas para depois voltar. Fui batendo papo com o motorista que era muito gente boa, e os preços também eram bem convidativos. Não demoramos muito para chegar a San Juan del Sur, um balneário movimentado para o padrão das praias nicaraguenses, com sua praia em forma de ferradura e diversos barcos ancorados. Os preços eram menos da metade que os da Costa Rica.

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Por do sol em San Juan del Sur

Por do sol em San Juan del Sur

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De lá aproveitamos para visitar as outras praias da região. Para chegar na Playa Hermoza, não existe transporte publico, mas algumas vezes ao dia sai um caminhão pau-de-arara para levar o pessoal. Depois de trafegar por estradas de terra e passar por diversos portões de fazenda, chega-se à praia. Longa, boa para o surf, com petras para quebrar a monotonia do horizonte. Somente uma pequena pousada e um restaurantezinho.  Água gelada do pacifico para refrescar os sol que estava fortíssimo, e ainda tivemos a surpresa de ver pequenas tartarugas dando seus primeiros passos sentido ao mar.

Tartaruga

Tartaruga

Já a praia de Maderas já é mais da “galera”. Pequena, boas ondas, musica e publico jovem. A Bibi acabou fazendo aulas de surf e nos divertimos bastante. Ela surfando e eu vendo ela levar uns tombos!rs Ficamos amigos de umas norueguesas que também estavam fazendo aula de surf, e acabamos saindo em San Juan para comemorar o aniversário de uma delas. A balada é pesada por ali. Toca algumas musicas tradicionais e internacionais, mas o foco mesmo é o regatone. Antes de sair demos uma passada no desfile da miss Nicaragua, que estava acontecendo em um palco montado na praia. Super simples, mas tava divertido de ver, principalmente pela reação do publico.

Bibi surfando

Bibi surfando

Mas apesar da vida noturna movimentada, de dia o lugar parecia uma pequena vila. Ficamos numa pequena pousada bem gostosa e aproveitamos bastante a região. No mercado tinha uma seleção de frutas diferentes para experimentar, mas nem por isto abandonei os galo-pinto (feijão com arroz) feito com tanto carinho pela dona da pousada para o café da manhã.

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As distâncias enganam um pouco por aqui, em quilometragem tudo é perto, mas em tempo de viagem demorado. Pegamos um ônibus (estilo “onibus-galinha”, antigos ônibus escolares dos EUA) até Rivas, outro até o pequeno porto, de onde pegamos um barco. Carregaram o barco com tudo que era possível, e fomos no topo, para curtir o visual. O lago é gigante, se perde no horizonte, mas a ilha de Ometepe, em forma de oito, com seus dois vulcões se destaca.

Vulcão Concepcion

Vulcão Concepcion

Com o vento o lago estava agitado, balançou bastante, mas não demorou tanto assim para chegarmos no porto de Moygalpa. Deu tempo de se esticar um pouco, comer alguma coisa e pegar o último ultra-lotado ônibus até Santa Cruz, do outro lado da ilha. De lá ainda queríamos ir até a pequena vila de Balque, região bem rural. Não tinha mais transporte e seria uma longa caminhada. Fomos andando para ver se encontrávamos algum outro lugar para ficar quando passou um furgão antigo. Conseguimos pegar carona, e por sorte, eles estavam indo para a mesma fazenda que nós. Um casal de americanos que estava viajando com dois cachorros, pretendendo ir dos EUA até a argentina. O dia tinha se passado, mas deu tempo de ver o por de sol da varanda da antiga casa da fazenda de café, com o lago e vulcões para dar o clima.

Vista da varanda

Vista da varanda

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A ilha proporciona diversas atividades. A mais óbvia é subir um dos vulcões, claro. Existem cachoeiras, gravuras rupestres, trilhas e o próprio lago. Um dia alugamos uma scooter para dar uma circulada mais longe, mas outros dias a própria bicicleta quebrou o galho. Nosso quarto na fazenda de café parecia um galpão onde tinham colocado uma cama. De manhã bem cedo já acordávamos com os barulhos dos pássaros e dos macacos que gritavam nas arvores ali ao lado.

em algum lugar da ilha

em algum lugar da ilha

Antes de ir embora decidimos ficar na praia de Santo Domingo, de onde seria mais fácil para pegar transporte. Fomos tomar banho nas piscinas naturais , rodamos, curtimos o visual do lago com bois tomando água e se banhando com o vulcão ao fundo e no final do dia fui caminhar pelo Sendero Peña Inculta. Já na chegada um grupo de macacos me recepcionou. Foram me acompanhando não de muito longe. Ao caminhar no meio do mato se espera silencio, mas não ali. Com a chegada do final de tarde, pássaros cantavam alto, macacos berravam, arvores chacoalhavam com o vento, dentre diversos outros sons que eu não conseguia identificar. Sentei, fechei os olhos e fiquei curtindo o lugar.

animais tomando agua e vulcão Madero ao fundo

animais tomando água e vulcão Madero ao fundo

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Tem varias coisas para se fazer na ilha Ometepe, mas o mais legal é o lugar em si, o clima rural da região, a simpatia do povo, as fazendas de café e seus casarões com os vulcões ao fundo. O tempo passa devagar por ali. Existe um barco que atravessa o lago Nicarágua de ponta a ponta, onde poderíamos ir diretamente para a cidade de Granada. Mas como ele só passa duas vezes por semana, tivemos que pegar um barco para Rivas e de lá uma ônibus “escolar” para Granada, uma das cidades mais antigas de toda a América.

De volta a escola?

De volta a escola?

Ps- “Sandinista!” também é o nome de um disco (ou seriam três?) de uma das maiores bandas de todos os tempos, The Clash.