Precos altos, temperatura ainda mais alta.

Tive diferentes sensações e sentimentos no Djibuti, mas o calor foi com certeza a mais forte…hehe Êta país quente. Pra voçês terem uma ideia, os bancos trabalham das 7 as 10;30 e das 16:30 as 18. Impossivel fazer alguma coisa de tarde. As ruas ficam vazias, e as sombras cheias de gente deitada, mascando chat.

Da fronteira ate o centro da cidade foi relativamente fácil. Difícil foi ficar respondendo todas as perguntas em francês do oficial da imigração, isto que da passar por estas fronteiras não muito utilizadas. No caminho ate a cidade, três check point, onde tínhamos que descer do ônibus, apresentar passaporte a as vezes responder algumas perguntas. Toda esta segurança e porque existe uma grande base americana aqui. O Djibuti e um pequeno pais, e sua capital se chama Djibuti também. Existe um grande e importante porto. Com a base militar, e estrangeiros com salários americanos e europeus consumindo aqui, os preços dispararam. Por isto não foi difícil procurar hotel, já tínhamos a indicação do mais barato e fomos direto para lá.

A cidade tem seu charme, na arquitetura, no estilo. Os franceses capricham neste aspecto. Por outro lado, na nossa primeira saída para jantar, já vimos grupos de gringos bêbados, fazendo bagunça na rua, além de outros entrando em quartos com prostitutas. Dava para ver que o lugar já tinha recebido muita (ma) influencia. Tentamos achar algum restaurante mais barato, mas foi dificil. Então pelo menos arranjamos um com terraço e brisa, para aliviar o calor.

Foram dias muito devagar aqui. Logo nos adaptamos ao ritmo. Rápido mesmo foi tirar o visto para o Iêmen. Em 2 horas ele tava na mão, sem precisar de carta de embaixada nem nada. No mais foi ir ate o porto, descobrir de onde saia o barco para o Iêmen e voltar todos os dias para ver quando teria o próximo barco.

Eu e o Michael saímos para fazer 2 mergulhos. Junto foram 2 oficiais da Marinha Belga, que estão combatendo os Piratas. Alias está cheio de navio de guerra e até submarino para combater os piratas. Eles contaram que tem até um navio russo onde milionários pagam para atirar nos piratas! Vai saber se é verdade…

Navios anti-piratas

Navios anti-piratas

Mergulhamos num super naufrágio. Um navio alemão de 135 metros de comprimento, com mastros e tudo. Tá partido no meio e pudemos atravessar por este local. Muitos peixes e uma boa visibilidade. Agora sim!! Isto que eu esperava do Mar Vermelho!! E água temperatura de banheira, mais de 30 graus…

Equipe!

Equipe!

O outro mergulho foi em corais, com moreias e muitos peixes. Muito bom também. Com certeza foi o ponto alto de Djibuti. E o barco para o Iêmen parecia que não vinha. Perdemos um no primeiro dia, mas tínhamos que conhecer aqui antes. Resolvemos ir no Hotel Palace Kempinski, um super hotel !! Tomamos um caríssimo milk shake, mas com direito a ficar largados na beira da piscina por horas, só batendo papo e lendo.

Estilo...

Estilo…

Um dia fomos jantar com um Somali que estava no nosso hotel. Alias esta cheio de Etíopes e Somalis. Os Somalis são fáceis de reconhecer pois tem a pele bem escura e os olhos bem azuis. Notamos que no final do jantar ele discretamente colou seu nome, numero do quarto e hotel num pedaço de papel. A garçonete recolheu de forma ainda mais discreta. Cidade portuária e isto aí…

Com o passar dos dias fomos aprendendo onde estavam os lugares mais baratos, desta forma não ficou tao pesada a estadia por aqui. Trocar frutas por uma refeição até que foi bom num calor destes.

Mesquitas

Mesquitas

Centao de Djibouti

Centrão de Djibuti

Finalmente um lugar que nao pode!!

Finalmente um lugar que não pode!!

Logo entramos no esquema de dormir de tarde, quando esta quente demais para fazer outra coisa. Foi tudo devagar, mas ótimo para eu organizar as ideias, pensar sobre a viagem até aqui. Afinal de contas, foram mais de 6 meses, muitos lugares, muitas pessoas, muitas emoções. Também comecei a planejar as próximas etapas, e tinha que ver como e onde encontraria a Bibi.  O Michael partiu de trem de volta para a Etiópia, e o Guru segue comigo para o Iêmen, quando o barco chegar… Inshallah como dizem por aqui.

Free Somaliland!!

Berbera era tudo o que precisávamos, um pouco de tranquilidade. Fomos ate o hotel indicado. Um hotel  muçulmano, com sua sala de orações bem no meio e ala separada para homens e mulheres. Hotel simples, mas impecavelmente limpo, a um preço de 2,5 usd por dia. Quando perguntamos se tinha banho quente o recepcionista respondeu que sim, mas meio sem jeito. Depois fomos descobrir que a água é temperatura ambiente, ou seja, a água fria mais quente do mundo. Mesmo de manha já está quente.

Já estava escurecendo, mas aqui não tivemos nem um problema em sair de noite. Pessoas nos cumprimentavam, eram simpáticas. Passei numa farmácia pois tava com um pouco de febre e fui super bem atendido por um Dr que fez questão de passar todo seu histórico escolar na Europa. Mesmo eu tomando 5 litros de água por dia eu estava um pouco desidratado. Pegamos a dica de um bom restaurante e saímos para procurar. Não encontrávamos e ao pedir informação, um moleque nos levou umas 10 quadras até o restaurante. Oferecemos um refrigerante e ele não aceitou,  disse que não precisava. Ainda perguntou se queríamos que ele fosse nos buscar. Me digam aonde existe algo assim? Inacreditável!!

O restaurante era na beira do mar, no Golfo do Aden, mas na parte do porto. Tinha um peixe gostoso mas as porcões eram pequenas. Bem, a coca-cola e a água estavam bem geladas! De lá caminhamos pelas ruas pouco iluminadas perto do porto. Passamos por pelo menos umas 15 mesquitas. Ao chegar na rua principal, vimos alguns camelos descansando tranquilamente debaixo de um poste de luz. Que astral este lugar!!

Cha e bate papo

Chá e bate papo

Acucar Brasileiro

Açúcar Brasileiro

Faz tanto calor aqui, que acordei cedo e não conseguia mais dormir. Tomei meu banho quente e saímos. Não demoramos muito para achar um lugar que servia chá. O chá aqui e com bastante leite, e poem outras coisas junto. Juntou bastante gente, e o lugar virou uma grande sala de reuniões, ou de entrevista. No canto tinha uma tv a cabo, com diversos canais. Ficamos conversando por um bom tempo, e as 9 da manha já estávamos pingando de suor. Interessante que chegavam, deixavam a sandália de lado para lavarem e sentavam. Andamos até perto do porto para descobrir mais informações sobre a viagem para o Djibuti. Não consegui meu visto para o Iêmen, então teria que ir para o Djibuti antes. A embaixada do Iêmen na Etiópia solicitou uma carta da Embaixada brasileira, coisa que o Embaixador Renato Xavier providenciou rapidamente (além de me dar dicas de viagem no Yemen). Acontece que quando voltei na embaixada depois do circuito histórico, estava fechada por uma semana devido ao final do Ramadã. Bem, procuramos caminhões, tentamos entrar no porto para ver se tinham barcos e nada. Tava cada vez mais abafado, insuportável. Resolvemos ir para uma praia logo no final da cidade, onde estão construindo um hotel resort. Nossa, que diferença. Lá tinha ate uma brisa, que apesar de quente refrescava. Fomos tomar o nosso merecido banho de mar. A praia inteira só para nós. Fiquei curtindo sozinho, afastado do Guru e Michael. Olhava aquela praia, as montanhas inclinadas ao fundo, e passava imagens tipo slide show dos últimos 6 meses. Fiquei mais de 2 horas na água, que estava com uma temperatura de 32 graus. Ainda apareceu um pessoal que começou a jogar bola. Um cara com seu traje tipico muçulmano veio falar com a gente. Ele falou que a Somalilândia não gostava de turistas e blablabla. Pior que sabia nosso hotel, e parecia estar hospedado lá. Bem, como não tinha muito o que fazer fomos conversando. Perguntamos se lia o Corão, e ele disse que sim, além de orar 5 vezes ao dia. Perguntamos sobre as passagens sobre o Rei Cristão de Axum ( Vejam este vídeo sobre esta estória), sobre o profeta Maomé falar que estrangeiros em terras islâmicas deveriam ser tratados bem, como um presente de Deus… Ele sabia tudo e nos contava empolgado. Acho que ele foi lembrando das palavras de Maomé e foi amolecendo. No final ate jogamos bola juntos, sob um sol de 42 graus.

Mar Vermelho com uma praia para mim

Mar Vermelho/Golfo do Aden com uma praia só para mim

Fomos até o hotel “resort” e chegou o Steve, Inglês que divide seu tempo entre a Inglaterra e a Somalilândia. É o único estrangeiro que vive aqui. Está ensinando a guarda costeira a mergulhar e montou sua base de mergulho no hotel para algum turista que aparecer. Ele mesmo confirmou que não ganha dinheiro com o turismo, que é mais hobby. Cobra 20 usd, o que deve ser um dos mergulhos mais barato do mundo. Marcamos para mergulhar no dia seguinte.

Conversamos bastante sobre a situação do pais, sobre o passado, perspectivas. Ele escreve para diversos jornais e revistas da Europa e USA sobre a situação politica da região. Conhece todo mundo do governo, e já sabia que estávamos em Berbera pois a inteligencia da policia ligou para ele perguntando se sabia quem eramos. Pelo jeito estávamos sendo observados de perto. O Ministro das relações Exteriores da Etiópia se hospedou neste hotel, e quando voltávamos para a cidade vimos uma cena de filme. Ele sentado tomando um refrigerante e vários soldados sentados em cadeiras de plastico virados de costas para o ministro. Ele veio intermediar os problemas ocorridos a 10 dias atrás (possível golpe de estado ou protesto resultando em mortes). Demos mais umas voltas na cidade antes de voltar para o hotel. De dia as ruas ficam vazias pois e muito quente, então ficam mascando qat na sombra. De noite saem, mas já não se entendem muito bem…hehe

Berbera

Berbera

Depois de um rápido chá e algumas frutas, fomos encontrar com o Steve para mergulhar. Como o Guru não tem certificação, o lugar foi bem básico então ficou devendo um pouco, afinal de contas estava no Mar Vermelho! O fato de um pequeno peixe leão vir para cima de mim, tentando me intimidar já valeu! Tinha uns restos de naufrágio também.

Depois de curtir a praia voltamos para a cidade para tentar agilizar a viagem para o Djibuti. Todos aconselhavam voar ou retornar a Hargeisa e de la ir para a fronteira, mas nos queríamos ir de Berbera para a Fronteira. Perguntávamos para varias pessoas na rua, e conhecemos um jornalista que nos ajudou um monte, além de nos entrevistar. Ele acha que ta cedo para publicar algo sobre turismo, mas pelo menos já tem alguma informação. Conhecemos um senhor no hotel que trabalhava no governo e tinha bastante contatos. Fomos até a policia de circulação, para ver se tinha alguém indo pela “estrada” que queríamos. Ficaram de retornar. Passamos na quadra esportiva que estava lotada, cheia de atividades. Logo encontramos aquele cara que tentou nos intimidar na praia. Ele estava todo simpático, e nos levou na rápida internet e depois para tomar leite de camela (bem ruinzinho). Quando souberam que voltaríamos para o hotel para jantar com o Steve fizeram questão em nos levar. Fomos escutando o corão em árabe. Ele falou que era para nos informarmos sobre o Islamismo e prometeu ler sobre outras religiões depois dos nossos bate papo. A criatura mudou da água para o vinho!

Jantamos com o Steave e 3 Chineses que moram em Adis-Abeba e voaram para o final de semana aqui. Adoraram nossas historias de viagens. O Jornalista ligou confirmando que seu amigo aceitou a contraproposta que fizemos para uma pick up nos levar pelo deserto. Passaram para nos buscar e acertar detalhes do dia seguinte.

Seguiríamos pela costa, por uma “estrada” pouco utilizada, atravessando o deserto. Passaram para nos buscar bem cedo e o carro era uma Land Cruiser descente. Tínhamos solicitado um guarda pois já tínhamos aprendido que era um super custo beneficio. Ao sair da cidade, o motorista errou o caminho e foi sentido ao final do porto. Quando vi estava o soldado abanando sua boina desesperadamente pala janela e alguém apontando um lança foguete para nos. Ops, acho que era área militar!!

A estrada era um verdadeiro areião, deserto para os dois lados e aquela vista para o mar. Sempre passávamos por cabras e camelos e seus devidos donos. Quando tínhamos rodado uns 60 km encalhamos pela primeira vez. Foi quando descobri que não tínhamos nenhum equipamento, nem os mais básicos como pá, corrente… Tivemos que cavar na mão, sob um sol de 40 graus. Tentávamos de tudo mas não adiantava. Depois de umas 3 horas finalmente conseguimos. Já estava claro que não faríamos a viagem num só dia, nem perto das 15 horas que estimamos. O carro encalhou mais algumas vezes, parecia Camel Trophy, mas fomos nos virando. Depois de um tempo encalhou de novo, desta vez nem se mexia. Tentamos um pouco mas já nos largamos exaustos embaixo de alguns arbustos. Agora era torcer que alguém passasse. Demoraram algumas horas, mas passou um caminhão no sentido contrario que nos ajudou, claro que sem cobrar nada, só para praticar o bem. No meio de toda esta história ainda acabou furando um pneu, portanto sem estepe dali para frente!

Deserto entre Somalilandia e Djibouti

Deserto entre Somalilândia e Djibuti

Buscávamos não usar a trilha, mas a parte de pedra ao lado. Até que funcionava, mas a atenção por buracos e relevo tinha que ser redobrada. Paramos para almoçar num pequeno vilarejo e nem preciso comentar o espanto do pessoal ao nos ver. Aqui o açúcar brasileiro e mais famoso que o futebol e um saco era utilizado para fechar a janela. Em Berbera já tinha visto que para eles açúcar e sinônimo de Brasil.

Mais um pneu que se foi...

Mais um pneu que se foi…

Mais quilômetros rodados, de lugares intocados, mais vezes encalhamos, mas sempre conseguindo nos virar, até que no final da tarde, com uma lua cheia saindo, foi mais uma “daquelas vezes”. Nem tentamos nada. Simplesmente tiramos algumas esteiras de palha, e nos largamos ao lado do carro mesmo. Como não tinha o que fazer, resolvemos descansar. Um tempo depois apareceu uma pessoa de uma vila não muito distante. Ele carregava uma pá e trouxe chá para nos. Trabalhou duro, tentando tirar o carro, mas foi em vão. Eu queria dormir mas quando via a situação, com aquele guarda dormindo abracado com a metralhadora só conseguia era rir.

Boa Noite!

Boa Noite!

Algumas horas depois passa outro caminhão para nos salvar. Conseguimos ir até a vila (meia dizia de casas) e tivemos que insistir muito para pagar o jantar para o cara que trabalhou por horas cavando. Ele dizia que era um prazer… Eu torcia que fosse churrasco de camelo, mas era de bode. Andamos mais um pouco depois do jantar e dormimos no meio do deserto. Dia seguinte de muita viagem, mas um pouco mais tranquilo, mesmo com mais pneus furados. Curtimos a paisagem e os lugares, até finalmente chegarmos na fronteira. Tivemos que esperar um tempo, pois estava fechada e só abriria as 4 da tarde.

Na imigração foram super gente boa. Ficava me questionando como o povo ocidental é ignorante quanto aos muçulmanos. Quando se fala em muçulmano muitas pessoas confundem religião com raça e com política.

Árabe não é sinônimo de muçulmano, pois existem árabes cristãos. O maior pais muçulmano do mundo é a Indonésia, que não é árabe. Muitos costumes atribuídos ao Islamismo são regionais, tribais e não religiosos. O Irã também é muçulmano, mas e Persa e não árabe. O Irã e uma republica Islâmica e não reconhece Israel como estado. Ao mesmo tempo existem judeus que vivem no Irã, em paz indo nas suas sinagogas, sem serem incomodados. Religião, ou o próprio Deus, é sempre bom, que estraga são os humanos…

FREE SOMALILAND!!!

Não conte para minha mãe… (Estou na Somalilândia!!!)

“Viajar é descobrir que todo mundo está errado sobre os outros países.” (Aldous Huxley)

Desde 1991, com a gerra civil na Somália, não existe mais só o país Somália, mais 3 países. Somália (onde vemos a guerra na TV), Puntland (onde estão os piratas) e Somaliland (onde há paz). Antes da independência , eram colonias distintas, a Somalilândia dominada pela Inglaterra e as outras pela Itália. Para conquistar a independência (anos 60) se uniram num só país. A capital  da Somalilândia, Hargeisa, foi severamente bombardeada pelos somalis (anos 90), mas conseguiram a independência e veem se desenvolvendo com o passar dos anos. Parece uma super historia de sucesso não? Um pais que do caos hoje tem eleições presidenciais populares com 3 partidos (raridade para a Africa), 4 empresas aéreas privadas (o Brasil com todo seu tamanho tem quantas?), diversas empresas de celular (Etiópia só tem uma) . Segurança? Uma das cidades mais seguras da África. Não existe crime contra o cidadão comum, não existe roubo, assalto, etc. Um país destes tinha que entrar no meu roteiro. Mas existia um grande problema. Não é reconhecido por nenhum país, então na verdade é uma terra de ninguém. Como não tinha nada planejado quando sai, e ficava “lá em cima”, deixei para ver pelo caminho como estaria a situação.  Nestes quase 6 meses encontrei um Inglês e um Polonês que tinham ido para lá e só falaram coisas boas. Pronto, estava confirmado. Em Madagascar soube através dos japoneses que um amigo deles foi do porto de Berbera (Somalilândia) para o Iêmen num navio que transportava gado. Era um plano inicial. Quando falei para o Guru que iria ele topou na hora. O Michael, que também passou a viajar com a gente, achou que seria uma oportunidade única, pois ele nunca iria para la sozinho, ainda mais com passaporte americano. O visto tirei logo que cheguei na Etiópia. Como não é um país reconhecido eles não tem embaixada e sim um Liaison Office. Um escritório de relacionamento. O visto ficou pronto em 5 minutos. Mas como ainda íamos viajar pela Etiópia, e o visto tinha validade de um mês daquele dia, tivemos que falar com o “cônsul” que nos ajudou prontamente, deu varias dicas e conversamos muito tempo. Pegamos o cartão dele com contatos de amigos na Somalilândia. Quando voltamos do circuito histórico, corremos para la para o Michael tirar o visto dele. Era uma sexta, tava fechado, e queríamos pegar o ônibus de domingo para Harar e depois seguir para Somalilândia. A solução foi pedir para o segurança ligar para o “Consul” que 15 minutos depois chegou, abriu o escritório e emitiu o visto. Ainda brincou que se soubesse que eramos nos teria vindo antes. Muito gente boa! A fronteira e feia, muito suja, cheia de plastico.  Chegando no lado da Somalilândia foram super atenciosos. O oficial da imigração ficou doente quando viu que eu era brasileiro. Falou de todas as ultimas copas, era fã de carteirinha. Falou que eu sou o primeiro brasileiro a passar por esta fronteira. Acho que ele se empolgou um pouco, mas não devem ter muitos. Passaporte carimbado, agora era só achar transporte ate Hargeisa. Ônibus? Não, nenhum. O transporte aqui são carros tipo perua, socados de gente. Preço em dólar, o dobro da Etiópia para a mesma quilometragem. Tivemos que trocar de carro porque queriam cobrar a bagagem no primeiro. Vimos que nem todos eram simpáticos quando um cara jogou a mochila do Michael para fora do carro. No segundo carro foi tudo certo e uma senhora retribuiu gentilmente a bolacha que recebeu com uma goiaba. Chegamos em Hargeisa e confesso que achei um caos por tudo que falavam. Claro que evoluíram um monte nestes quase 20 anos, mas a bagunça impera. Uma das primeiras cenas que vi foi um caminhão descarregando madeira. Quando prestei atenção era da chilena Arauco. Não podia ser! A Arauco era a principal concorrente da empresa que trabalhava, e cheguei até a ir para o Chile para fazer uma pesquisa dos produtos deles, distribuição, mercados… Muita gente na rua, barracas tipo camelô por todos os lados e muita areia cobria o fino asfalto da avenida principal. Para fugir do choque inicial pegamos um bom hotel, o terceiro melhor da capital. La teríamos boas informações, e depois descobrimos que nos 12 usd tinha até café da manha e internet não achamos mais tão caro como no inicio. Deu tempo de largar as coisas e sair pelo centro. Antes tínhamos que trocar dinheiro. Era só escolher uma das caixas de arame espalhadas pela rua ou pilhas de Somaliland Shilings em cima de esteiras. Um usd são 6500 SS, portanto treze notas de 500, que e a maior que circula. O negocio era trocar 10 USD por dia, ou carregar uma mala com dinheiro…haha

Trocando dinheiro

Trocando dinheiro

Fomos ate o Memorial de Guerra, praca em que exibem um avião Mig da forca aérea Somali, que e exibido com orgulho. Lá juntou gente, muita gente. Todos já estavam vindo falar conosco antes, mas lá eram dezenas de pessoas. Soldados tiveram que dispersar a multidão. Sempre perguntavam o nome, da onde eramos, e se eramos jornalistas!!! Se surpreendiam quando falávamos que eramos turistas e ficavam ainda mais curiosos. Notamos que uma minoria (1 em 20) não gostavam muito e resmungavam para quem nos dava “moral”. O Michael também teve que trocar sua resposta de nacionalidade de americano para canadense rapidinho, pois teve gente que chiou. Em geral uma simpatia nunca vista, nós eramos atração turística. Para comprar o chip para o cel praticamente paramos o escritório do lugar. Resolvi comprar um jornal local. Algumas das publicações são em inglês. Me surpreendi quando me deparei com a notícia do assassinato de três pessoas 10 dias antes. O jornal (oposição) falava que era um protesto, mas depois descobrimos por fontes neutras que foi uma tentativa de golpe de estado. Se o cidadão comum não sofre nenhum perigo de violência, a violência política ainda faz parte da realidade do pais. Teríamos que redobrar a atenção, mas como em Madagascar, era só ficar longe de manifestações publicas (estas foram fora da cidade). Depois de um primeiro dia destes, comemos um pouco antes de escurecer e decidimos nem sair a noite. Conhecemos muitos somalilanders que estudam na Inglaterra, país que tem voo direto para cá (assim como Dubai, Iêmen, Quênia, Etiópia, e logo USA).

Memorial de guerra

Memorial de guerra

Banco!

Banco!

Avenida principal

Avenida principal

Bem cedo eu já estava acordando com o chamado das mesquitas. Fiquei só na janela, depois na sacada vendo o dia amanhecer e a cidade movimentar.Todos seguem a risca a regra de rezar 5 vezes ao dia. País 100 por cento muçulmano. Não pode bebida alcoólica, se tiver só transportando é cadeia! Homens e mulheres sentam em lugares diferentes nos restaurantes, cheio de regras. Queríamos visitar umas pinturas rupestres muito antigas, em excelente estado de conservação. Para isto teríamos que arrumar um carro, pois os táxis comunitários só vão de cidade em cidade, e este lugar ficava fora da estrada. No hotel estavam cobrando caro demais e decidimos arranjar um carro na rua. No memorial de guerra tava cheio de táxis e voltamos para lá, depois de ter visitado alguns mercados, dentre eles o mercado do ouro. Não demorou muito até encher de gente para ver nossa negociação. Para aliviar entramos dentro do táxi e chegamos num acordo. Tinha uma situação que não estava clara ainda. Algumas pessoas falavam que para circular pelo interior do pais precisaríamos de escolta armada. Fomos até a “secretaria de segurança” e nos foi passado que sim. Quiseram até encrespar sobre nossa viagem pelo interior, quando o cartão do “cônsul” com telefones escritos a mão fez efeito. Ainda passamos no ministério do turismo, que fica numa pequena sala dentro do ministério da pesca (hilário!!). Lá nos contaram que existe uma super proteção com estrangeiros. Já não conseguem reconhecimento, se algo acontecer tudo ficaria ainda pior. A alguns anos alguns somalis entraram escondidos na Somalilândia e assassinaram 3 turistas, e foi um grande problema de relações internacionais. Não tínhamos escolha a não ser pagar os 10 dólares para o soldado que nos acompanharia.

Hargeisa

Mesquita em Hargeisa

Partimos pela estrada Hargeisa-Berbera, e teríamos que pegar uma estrada secundaria para Las Geel. Uma reta só e a paisagem não mudava, era deserto dos dois lados. Passamos por um ou outro aglomerados de casas, que nem podemos chamar de cidades. Paramos numa delas para almoçar. Só tinha macarrão, e só 3 pratos, então tivemos que dividir. Nem foi difícil pois aqui não usam talher, então os pratos ficavam no meio e nos íamos  pegando com a mão. Depois deste lugar pegamos uma “estrada” secundaria, na verdade nem tem estrada, é só seguir a trilha feita por outro carro. Víamos pequenas formações rochosas e algumas cabanas. Muitas cabras e camelôs por toda a estrada. Chegamos num check-point onde pediram a papelada que tínhamos acertado no Ministério do Turismo. Uma pessoa seguiu com a gente para mostrar o lugar. Paramos numa casa, que possuía alguns cartazes com informações das pinturas, que só foram descobertas em 2003. Caminhamos montanha acima e o lugar e fantástico. São muitas e muitas pinturas, muio vivas, parecem que foram pintadas a pouco tempo e tem mais de 5000 anos. Se fosse em outro pais receberia milhares de visitas, e nós ali, sozinhos, explorando, curtindo o lugar e a bela vista. Valeu muito a pena!

Pinturas Rupestras

Pinturas Rupestres

Isto tem que virar um Parque Nacional

Isto tem que virar um Parque Nacional

Vista da caverna

Vista da caverna

Em vez de retornar para Hargeisa, seguimos a estrada, sentido Barbera, pois tínhamos combinado desta forma. O soldado já mascava chat a horas e provavelmente não estaria apto para nos defender. De qualquer forma sua presença foi de grande importância pois não pediram o nosso passaporte nem uma vez, bem diferente de quando estávamos sozinhos, que era toda hora.

Nao e treinamento Taliban, e so escolta armada pela Somalilandia!

Não e treinamento Taliban, é só escolta armada pela Somalilândia!

Tava quente, muito quente e só parecia que piorava. Tinham nos falado que Berbera era insuportavelmente quente e tudo ia se confirmando. A paisagem mudou um pouco, com a presença de umas montanhas. Pudemos até ver um ou outro animal selvagem. A qualidade do asfalto foi piorando, e buracos ficaram mais frequentes. Chegamos em Berbera no final de tarde. Como e a segunda maior cidade imaginávamos um grande movimento, mas ao contrario de Hargeisa a cidade tava calma, quase parada, com poucas pessoas na rua. De cara nos identificamos mais com este lugar.

O Feriado Cristão e a Cidade Sagrada Muçulmana

De volta a Addis, ainda tínhamos que fazer algumas coisas, antes de ir para Harar. Visitamos o Museu Nacional e o Museu Etnológico. Deu para aprender m pouco mais sobre as diversas tribos do pais (são 80 línguas e 200 dialetos diferentes), ver varias pinturas ortodoxas com Jesus negro, mas o ponto alto para mim foi a parte dos fosseis dos “Homídeos”. Para quem não sabe, eu quando tinha 6 ou 7 anos não queria ser jogador de futebol nem bombeiro, queria ser paleontólogo, e isto foi muito antes da geração parque dos dinossauros.

Existe uma seção que explica toda a evolução da especie humana, com vários fosseis de nossos ancestrais que foram achados aqui. Lembram da Lucy, nossa tatatatataravo? Ela era etíope. Os fosseis da Etiópia são os mais antigos e em excelente estado de conservação.

Já que estávamos por aqui resolvemos estender um pouco mais para ver a comemoração do Meskel, que e o dia que acharam a Cruz. Se o ano novo foi uma comemoração discreta, esta foi uma grande manifestação popular. Todas as ruas perto do centro estavam bloqueadas, milhares de pessoas caminhavam com seus trajes típicos em direção a Meskel Square, no centro da cidade. Quando chegamos, depois de muita dificuldade para arranjar transporte, as arquibancadas já estavam lotadas. Diversos desfiles de escolas, alegorias celebrando Cruz sagrada e a Etiópia. Discurso do Papa da Igreja Ortodoxa Etíope, devidamente protegido por atiradores de elite em cima dos prédios. População super comportada, sentada e ordeira. Eram milhares e milhares de pessoas, difícil estimar, mas acho que devia ter mais de 100000. Todas elas com velas em punho, numa cena bonita, durante a queima de uma fogueira de palha e de fogos de artificio.

Praca Meskel

Praça Meskel

Comemorando Meskel

Comemorando Meskel

Todo mundo curtindo, com branco e as cores da Etiopia

Todo mundo curtindo, com branco e as cores da Etiópia

O Samuel escolheu para se mudar para outra casa bem neste dia, então depois das celebrações fomos para a casa nova, depois de ter jantado num restaurante tipico de uma das tribos. Cardápio? Ingera (para variar) com carne moída crua picante (novidade!). Muito bom, comi um monte.

Já estávamos prontos para seguir viagem, então bem cedo pegamos um ônibus para Harar. Viagem longa, mas com um asfalto de excelente qualidade. A temperatura ia aumentando a medida que nos aproximávamos de Harar. A paisagem também foi se modificando, o verde foi desaparecendo gradativamente, e a areia aumentando na mesma proporção. Chegamos na cidade e depois de uma longa discussão sobe preço ficamos no primeiro hotel que visitamos. Quarto com duas camas e um colchão no chão.

Harar e a quarta cidade mais sagrada para os muçulmanos, depois de Meca, Medina e Jerusalém. E uma antiga cidade murada, com um quilometro quadrado e praticamente 100 Mesquitas.

Existem 100, aqui estao 2

Existem 100, aqui estão 2

Mesmo sendo final de tarde o calor era insuportável. Ficamos largados num restaurante, e demos uma volta na cidade velha. Nós estávamos na cidade nova, para fora dos muros, e que tem maioria crista. Ao caminhar na cidade murada, dentre tantas mesquitas, no centro da cidade uma Igreja Ortodoxa. Aqui a paz prospera…

Ruas da cidade velha

Ruas da cidade velha

Cores Vivas

Cores Vivas

Indo para a escola

Indo para a escola

A cidade é pequena, e no outro dia andamos pelas centenas de ruelas estreitas, surpreendentemente com portões de casas pintados com cores fortes. Visitamos pequenos museus, conversamos com pessoas, passamos no mercado de carne de camelo, e encontramos um antigo amigo. Sim, no meio da rua encontrei um cara que conversei durante horas na viagem de Nairóbi para Moyale, e que ate ficou no mesmo hotel que a gente. Que coincidência. Muito gente boa, nos levou para a casa dele para apresentar a família. Sua esposa ofereceu a cerimonia do cafe, tostando os grãos e servindo junto com pipoca. Ficamos brincando com a comunicativa filha de 4 anos ate a hora de sairmos. Combinamos de ver alimentarem as hienas mais tarde e fomos tomar um sorvete no final e tarde.

Amigos!!

Amigos!!

Existe uma tradição em Harar em que todo anoitecer alimentam hienas logo na saída de um dos portões da cidade. Dizem que faziam isto em épocas de fartura, para que em épocas de seca as hienas não atacassem os homens e seus rebanhos de cabras e ovelhas. Parece que funcionou, pois hoje as hienas circulam livremente durante a noite sem causar problemas. Hoje este “evento” já se tornou turístico, e pedem uma contribuição para pagar as “pelancas”. De qualquer forma fomos conferir, e os animais são bonzinhos(hehe). Pensar que já morri de medo daquelas hienas circulando pelas nossas barracas na Botsuana, e aqui estava eu dando de comer na boca dos bichinhos. Primeiro com a mão, depois com a boca!! Foi divertido.

Depois de muito tempo de Africa os animais passam a te respeitar...hehe

Depois de muito tempo de Africa os animais passam a te respeitar…hehe

Uma delicia de cidade, onde o tempo não passa. O pessoal leva o Chat a serio aqui e masca durante o dia inteiro. No final da tarde parecem Zumbis, mortos vivos perambulando. Estava enganado quando falei que era que nem Red Bull. Bem, não sei o que aconteceria se alguém tomasse Red Bull por 8 horas seguidas…

Harar

Harar

Portao principal

Portão principal

Tivemos uma grande discussão no hotel, pois estávamos usando outro quarto para tomar banho. Nosso chuveiro não funcionava direito e ninguém deu atenção a nossas reclamações. Resolveram implicar com o preço, pois estávamos pagando a tabela que era para 2 e não para 3. Como tínhamos combinado não cedemos, e ameaçaram tirar o lençol do colchão do chão. Eu que tava dormindo ali e virei um bicho. Briguei, ameacei colocar na internet e blalala e no final das contas deu certo.

Cedo seguimos para jijiga. No ônibus fiquei conversando com um Sr que tinha bastante informações sobre o Brasil, mas queria saber ainda mais. Queria saber minha opinião de como melhorar a Etiópia dentre outras coisas. Sempre encontro pessoas curiosas, mas algumas fazem perguntas difíceis, e o assunto se torna profundo. Muito legal, mas de muita responsabilidade para responder. Fizemos uma rápida conexão para Wajjale. A temperatura aumentava ainda mais, e agora era só deserto mesmo. Passamos por uma área onde estavam tirando minas terrestres ao lado da estrada, fruto de uma guerra já de algum tempo  entre Etiópia e Somália.

Logo nos aproximamos da fonteira da Somália. Pera ai, aqui não e Somália já faz muito tempo…

Obeliscos, lendas, igrejas de pedra e mais verde

Antes do sol nascer já estávamos chegando no caminhão. Fora o ajudante, tinha outro figura. Reclamamos, pois não era o combinado. Falaram que ia só ate ali na frente, mas acabou indo a viagem toda. Pouco depois de Gonder começou o sobe e desce. Curvas passando por precipícios. Vista impressionante das montanhas. Logo deu para avistar as Simien Montains, longa cadeia de montanhas que se estende por toda esta região. Muitas destas montanhas parecem com dedos apontando para cima.

Precipicio

Precipício

Siemen Mountains

Siemen Mountains

Paramos em algumas vilas para tomar cafe, almoçar. Uma delas, muito pequena, chamava a atenção pela quantidade de mesas de pebolim espalhadas pela rua. Pessoal gente boa, vista maravilhosa, cabine apertada, e viagem longa, pois o caminhão ia muito devagar com tanta curva. Final de tarde chegamos a Shire, e falaram que era o ponto final, que ficariam ali. Peraí, não era o combinado. Já falamos que íamos na delegacia, que queríamos que alguém nos acompanhasse, fizemos pressão. No final das contas pagaram a passagem de uma van que estava saindo para Axum. Bastante correria, mas chegamos em Axum no mesmo dia. No caminho passamos por carcaças de tanques, resultado das guerras que ocorreram por aqui.

Axum foi um dos maiores impérios do mundo. Muito respeitado pelo império romano. Dizem que foi criado pelo Tataraneto do Noe, ou algo assim. A Etiópia tem muitas, mas muitas citações no velho testamento. A Bíblica Rainha Sheba saiu desta região para visitar o Rei Salomão em Jerusalém e voltou gravida. O filho foi chamado de Davi e posteriormente de Menelik, e voltou para Jerusalém para aprender as leis de Moises. Ele teria voltado com a Arca que contem os dez mandamentos.

O império de Axum durou centenas de anos, e deve ter terminado devido a duas razoes. A perda do controle do Mar vermelho para os Árabes e por terem cortados muitas arvores. Parece que não aprendemos, a historia se repete…

Axum, mesmo sendo cristão, ofereceu proteção aos muçulmanos, que estavam sendo perseguidos na época. Muitos se refugiaram nesta região, inclusive uma das esposas de Maomé. Ele inclusive cita Axum como um lugar de paz. Já houveram sangrentos conflitos entre os cristãos ortodoxos e muçulmanos, mas em geral sempre conviveram pacificamente. Ate hoje se dão super bem, e se respeitam bastante, desde que levem a religião a serio, independente de qual seja.

Axum é hoje uma pequena cidade, difícil acreditar que foi um dos maiores impérios do mundo. Conhecemos um americano, Michael, que passou a viajar com a gente. Ele voou para Jerusalém, rodou ate o Egito e voou ate aqui. Tentamos ver o que dava andando, mas algumas coisas tivemos que pegar tuk-tuk. Existem gigantescos obeliscos de pedra, todos tralhados, desenhados. Muito bacana. Junto existe um bom museu, que passa bastante informação da região. Lembram que um dos reis magos era negro? De onde vocês acham que ele era? Sim, Baltasar era o Rei de Axum, e foi visitar Cristo no seu nascimento.

Axum, pequena cidade hoje, grande imperio no passado

Axum, pequena cidade hoje, grande império no passado

Logo na frente dos obeliscos esta a Igreja St Mary Zion. Na verdade tem uma nova construção da igreja e as ruínas da antiga. Tem um local onde juram que está a Arca com os Dez mandamentos. Esta historia é mais difícil de acreditar, mas já houve ate guerra com os judeus por causa desta historia. Se pensarmos que a Igreja Católica afirma que possui tantas relíquias como pedaços da Cruz, o manto que cobriu Jesus apos ter sido retirado da cruz, por que a Igreja Ortodoxa etíope não pode ter a sua?

Obelisco

Obelisco

Igreja St Mary Zion

Igreja St Mary Zion

Mais obeliscos

Mais obeliscos

Seguimos estrada sentido Wukro. Voltou a ter asfalto (entre Gonder e Axum foi estrada de terra), mas muito sobe e desce e curvas, portanto viagem demorada. Ou o pessoal não ta acostumado a viajar, ou o cafe da manha foi reforçado, pois todo mundo passou mal. Foi um tal de vomitar e distribuir sacolas de supermercado. Uma mulher sentou com uma criança do meu lado, e quando percebi que a coisa tava feia dei um pulo e me safei por pouco. Nojento. Nesta região do Tigre, existem mais de 100 igrejas de pedra, mas já descobri faz tempo que não da para ver tudo. Ficam muito longe, e o ideal e ter um transporte particular. Como o Guru e o Michael não tavam nem um pouco dispostos a alugar um carro, visitamos 2 igrejas. Uma bem perto da cidade e outra que foi um empenho.

Igreja de pedra em Wukro

Igreja de pedra em Wukro

Ficamos esperando transporte publico por um tempo e nada. Daí acabou passando uma caminhonete e pegamos carona. Rodamos vários KM ate uma pequena vila onde ficava a outra igreja. Visitamos e tal, mas é para voltar. Nem sinal de transporte ou carros. Ficamos um bom tempo la, ate que apareceu um ônibus empanturrado de gente. Entramos e voltamos para Wukro. No ônibus passaram uma bandeja com Ingera, tipo comunitária, e deu para matar a fome.

Igreja na regiao de Tigre

Igreja na regiao de Tigre

Em Wukro conseguimos pegar transporte ate Mekele, capital da região. La tentamos achar uma forma de ir para  Danakil, região que fica abaixo do nível do mar cheia de vulcões, com lagos de larva permanentes. A temperatura chega a 50 graus. Sabíamos que seria caro, pois preciasa de um carro de apoio para garantir a segurança, mas mão conseguimos pois não é a época. Bem, negocio era ir para Lalibela então.

Bem cedo pegamos um ônibus ate Woldia. Todos falavam que teríamos que dormir la, e ir para Lalibela no dia seguinte, mas conseguimos uma van até Gashema e pegamos carona ate Lalibela. Lalibela fica nas montanhas, uma pequena vila, onde tudo acontece bem devagar. La estão as principais igrejas de pedra. Algumas das igrejas foram totalmente esculpidas, não sobrando rocha, só a construção. E fantástico. Existem 11 principais, separadas em 3 grupos. Algumas delas são interligadas por tuneis, o que da um charme ainda maior.

Igrejas de pedra de Lalibela

Igrejas de pedra de Lalibela

Mais Lalibela

Mais Lalibela

Muita tranquilidade em Lalibela

Muita tranquilidade em Lalibela

Definitivamente Lalibela e a principal atracão da Etiópia. O estado de conservação das igrejas é incrível. A maioria delas foi construída com um só bloco de pedra, sem encaixes.

Igreja de Sao Jorge

Igreja de São Jorge

Outro angulo

Outro angulo

Na nossa estadia pela região reencontramos o Servio e o Polonês rastafaris. Conheci um Brasileiro/Holandês que ta trabalhando na Etiópia. Ha, também conheci um figura que esta viajando a 22 anos, e já visitou 170 países. Depois falam que eu que sou maluco…hhehe

Para voltar para Addis, novamente tivemos que madrugar. Não era nem 4:30h e já estávamos indo para a rodoviária. Chegamos la e tava fechada ainda, mas estavam vendendo as passagens. Compramos, guardei o troco no “money belt” e a passagem no bolso. Ficamos esperando para entrar no portão quando me empurraram. Me empurraram de novo e eu ate peguei a mochila e passei para a frente (to viajando com a mochila pequena, a grande ficou e Addis) pois podiam ta querendo pegar alguma coisa. Quando vi,tinham levado a minha passagem. Estatística, um dia ia acontecer. Pelo menos o cara lembrava de mim e pude viajar. Ele tentou cobrar mais (uma senhora apareceu com minha passagem), mas acabou dando tudo certo. Só a raiva de ter sido roubado. Eles são muito rápidos.

Chegamos em Desie onde também falavam que tínhamos que passar a noite. uma cidade super sem graça, com a avenida principal toda esburacada. Solução? Depois da almoçarmos fomos procurar um caminhão. Não demoramos muito para achar um que já estava saindo.

Veerde!!

Veerde!!

O motorista era super divertido, cantava e dançava enquanto mascava Qat. O ajudante não cabia na cabine, pois agora eramos 3, e foi na caçamba, junto com os sacos de feijão, embaixo da lona. Não demorou muito e o caminhão quebrou. Ficamos um tempo na estrada e depois conseguimos ir ate uma cidade para terminar de arrumar. Demorou mais um bom tempo. Finalmente seguimos estrada. Era para chegarmos as 11 da noite, mas já estávamos madrugada a dentro devido aos contratempos. O motorista passou a falar menos e andar mais devagar. Percebi que ele tava com sono, mesmo depois de mascar tanto Qat. Como tava do lado dele, primeiro puxei papo, depois passei a dar uns ” pedala” e uns “se liga” nele. Falei que se tivesse cansado era para parar. Ele parou diversas vezes para tirar uma soneca. Resultado, chegamos só de manha, e eu não dormi nada para ficar cuidando para o infeliz não dormir. Pelo menos chegamos sãos e salvos em Addis.