Terra Santa, terra de disputas e guerras.

Israel/Palestina, estão sempre nas noticias sobre disputas religiosas e territoriais. A terra santa e disputada a seculos. Algumas cidades da região são habitadas a 6,8 mil anos, onde muita historia se passou. Muitos povos e religiões diferentes alternaram o domínio da região, dependendo do período histórico. Ate houveram alguns períodos onde se viviam lado a lado sem problemas, mas o mais comum foram as disputas. Jerusalém e sagrada para Judeus (terra prometida, onde foi erguido o templo de Salomão, do qual resta o muro das lamentações), Cristãos (onde Cristo foi crucificado e ressuscitou) e Muçulmanos (terceira cidade mais sagrada para os muçulmanos, depois de Mecca e Medina. Foi aqui que Maomé subiu aos céus para falar com Alah num sonho).

Pegamos um táxi para a fronteira com Israel/Palestina com aquela apreensão, e a certeza de que se tudo desse certo, teríamos que no minimo ficar algumas horas ali. Acabamos tendo que esperar mais tempo do lado da Jordânia que em Israel/Palestina. Chegamos junto com dezenas de palestinos, e fomos nos posicionando para despachar a bagagem que seria vistoriada, passamos por raios-x e tivemos o passaporte verificado algumas vezes. Quando toda a previsão parecia se concretizar pegamos uma fila de não mais que 3, 4 pessoas e nos apresentamos na imigração. Foi rapidíssimo! Não se importaram quando respondi que não tinha hotel reservado nem passagem de volta. Comentei que iriamos ate a Turquia passando pela Síria (a Bibi ainda lembrou do Líbano, sem causar nem uma mudança no tratamento) e a simpaticíssima agente da imigração ofereceu para carimbar a entrada num papel separado. Eu e a Bibi só nos olhamos tipo: “ta bom, tão fácil assim!?!” Dali até Jerusalém foi rapidinho, passando pelas auto-estradas que cruzam o território da Cisjordânia (mas que palestinos não podem usar).
O primeiro contato com a cidade também nos surpreendeu. A estrutura física da cidade antiga e bem mais legal que eu imaginava, porem a banalização e comercio turístico muito pior. Jerusalém era quase uma unanimidade entre as pessoas que encontrava na estrada. Só um amigo meu brasileiro que não gostou muito, todos amavam, falavam que era um lugar único e da forte energia do lugar…
Os preços também assustaram, mesmo sabendo que seriam caros. Opção barata só dormindo em colchoes nos terraços. Quarto com banheiro uma fortuna, e a qualidade ainda não era boa. Deu saudades dos hotéis da Índia!!! Os primeiros dias foram calmos, para reconhecer o lugar mesmo. Nada de ir ate alguma atracão especifica. Circulávamos meio que sem destino e elas iam aparecendo. Se bem que as ruas estreitas, portões, arquitetura desta cidade já são uma grande atracão. Pena estar poluída com camisetas da coca-cola escrito em hebreu, alem de outras quinquilharias que turista gosta. Fico imaginando se fossem só lojas de frutas e legumes, artigos religiosos, temperos…
Teve um dia que fomos tomar café da manha cedo e conhecemos um novaiorquino que esta fazendo um filme independente. Iniciamos assunto de religiões (ele e de origem judia, mas hoje ateu), e logo surgiu um alemão louco. Não ele não era louco, era doido varrido! Aplicava suas teses matemáticas para explicar tudo, mas tinha um bom conhecimento geral. Passamos por diversos tópicos, mas quando o assunto se voltou para família, o choro do novaiorquino frustrado foi grande. Sei que quando fomos ver já eram umas três e meia da tarde!!! Como sabíamos que iriamos voltar para Jerusalém, fomos bem com calma, experienciando o local. Claro que fomos na igreja do Santo Sepulcro, no muro das lamentações e outros pontos famosos, mas gastamos muito tempo andando para cima e para baixo e conversando com o pessoal.

Bairro Judeu

 

Ruas da cidade velha

 

mercados

Depois de um certa chantagem emocional de que não ia mais voltar para o Brasil, consegui que a mãe e o Clau viessem me visitar novamente!! Claro que eles adoram viajar, mas em cima da hora não e tão fácil. Tinha falado para nos encontrarmos na Síria, mas o feriado de corpus cristi emendado foi a solução que acharam. Desta vez deu certo da Mara, minha sogra vir junto! Não, não achei ruim tá!!! Minha sogra e gente boa!!
Israel/Palestina é pequeno, então para chegar a Tel Aviv foi rapidinho. Ficamos num hostel na Bem Yehuda, a duas quadras da praia. Curtimos o sol e o mar mediterrâneo um dia, mas depois o tempo virou e deu uma esfriada. Demos uma rodada pela cidade, que nada tem a ver com Jerusalém. Ela e moderna, descolada, tá mais para americana com influencia europeia que para oriente médio. Isto pode ser um elogio ou uma critica, dependendo do gosto de cada um. Uma cidade nova, mas com muitos prédios com cara de não cuidados. Na parte yemenita da cidade (lembram do post que contei sobre os judeus yemenitas?), perto do carmel market, é a unica região onde de longe lembra o oriente médio. Muito mais fácil e encontrar clubes tocando musica eletrônica, cafés descolados e lojas de decoração. Na praia que seria longa e reta, criaram molhes paralelos a areia, o que fez com que se criassem diversas praias. Muitos jovens, pessoal praticando esportes. Em uma parte cercada, no canto da praia, esta marcado numa placa os dias que homens e os dias que mulheres podem frequentar, contradizendo tudo que esta ao redor. No período do Shabbat (por de sol de sexta até por de sol de sábado), dia sagrado para os judeus, tem muita gente festando e bebendo em Tel Aviv. Não estou falando como errado, apenas apontando a diferença entre Tel Aviv e Jerusalém (e não que o inverso não aconteça, mas são proporções muito menores). No Brasil se festa e se bebe em qualquer feriado sagrado, mas o Brasil não e parâmetro…

Beira mar em Tel Aviv

Com a chegada da mãe, Clau e Mara, o estilo da viagem mudou um pouco. Eles tinham 9 dias para aproveitar ao máximo. Demos umas caminhadas, matamos a saudades, atualizamos um pouco os assuntos no dia que chegaram e já no dia seguinte alugamos um carro para sair por ai. Passamos pelo bairro bíblico de Jope, e depois pelo museu de design, que estava fechado, mas o prédio em si já valeu. As estradas são excelentes, e logo estávamos em Cesareia, ruínas de uma cidade romana que já foi a capital de controle nas terras palestinas. Dentre as ruínas, chamou a atenção o hipódromo bem de frente para o mar. Que vidinha que eles tinham! Passamos pelas colinas de Carmel até chegar em Haifa, onde tem um bonito jardim Bahari (religião persa). Estava tudo fechado por causa do Shabbat, mas dizem ser a cidade com melhor convivência entre os povos/religiões. Um pouco mais para o norte esta Akko, também na beira do Mar Mediterrâneo. A parte velha da cidade e muçulmana, e estava aquela bagunça, cheia de vida. Mercados, mesquitas, igreja, ruas medievais. Tinham muitas bandeiras do Brasil por todos os lados, mas uma casa se destacava. Fomos ver se não era nenhum brasileiro que morava la, mas eram só os locais se preparando para a Copa!!! Aposto que esta região ta mais enfeitada que muitos lugares do Brasil. De la uma esticada ate Tiberíades, onde ficamos numa pousada muito gostosa, afastada da cidade.

Joppe

 

Cesaria

 

Haifa

 

Akko

 

O Brasil em alta por aqui!!

Tiberíades fica na região da Galileia, e usamos de base para explorar vários locais bíblicos. Alias, não precisávamos de guia, já que em cada lugar que íamos abríamos a Bíblia e liamos a passagem que ocorreu na região. Para se seguir os caminhos bíblicos, tem que se ter consciência que nem todos os pontos indicados são originais, mas isto pouco importa, importa o que se passou e a mensagem que ficou. Porem, isto não parece ser percebido pela maioria (inclusive muuuitos grupos brasileiros que vimos), pois descem do ônibus, tiram trocentas fotos no pouco tempo que ficam no local e vão embora. Pouco importa se a igreja construída na região esta no exato local ou algumas dezenas de metros do ponto onde realmente ocorreu algo importante. Sendo cristão ou não, e impossível negar o Jesus histórico, que viveu nesta região. Depois de tanto tempo viajando por islamismo, budismo, janeísmo, sikhismo, hinduísmo, e tantas outras, foi bom chegar no berço do cristianismo.
Foram muitos locais como Igreja do Primado; Cafarnaum; Migdal; Monte das Bem Aventuranças; Nazaré e a Igreja da Anunciação; Canaã; Monte Tabor e a Igreja da Transfiguração; Rio Jordão…
Aproveitamos também para conhecer Tsafat, cidade judaica ortodoxa, conhecida pela parte do misticismo judaico, como a Cabala, por exemplo. Passeamos pela rua principal, que fica em cima das colinas (com ótima vista), e ficamos vendo as roupas, cabelos e estilo dos moradores. Nos chamou a atenção a quantidade de crianças/bebes, se confirmando o que meu amigo israelense secular havia falado sobre a taxa de natalidade entre os judeus ortodoxos.

\”Mar\” da Galileia

 

Barco da epoca de Cristo encontrado

 

Cidade Ortodoxa, centro do misticismo judaico

Bibi no rio Jordao

Comemos muito bem na pousada e o casal proprietário fazia questão de cuidar de detalhes. Antes de sairmos sempre perguntavam se tínhamos passado protetor, se tínhamos boné e avisavam para tomar muita água!!! Nos alertaram que Nazaré era “meio complicado”, para deixarmos carro em estacionamento (não vimos nada de mais), e para que não nos preocupássemos ao seguir sentido sul pela Cisjordânia, pois a auto-estrada era só para Israelenses Judeus (carros com placa amarela) e que os postos de gasolina eram de Judeus e não de palestinos (que preconceituosa!).
Atravessamos a Cisjordânia sem ver muito da região, pois os check-points e barreiras são colocados em lugares estratégicos para isto. Durante quilômetros viajamos ao lado de cercas elétricas. Voltamos a território Israelense perto do Mar Morto e seguimos ao sul ate chegar em Massada. E uma região bem desértica, com cânions e ruínas de uma grande fortaleza no topo. Na revolta dos Judeus no seculo I, eles tomaram a fortaleza dos Romanos e se defenderam como puderam. Quando viram que estavam sem saída, e que a fortaleza seria invadida, cometeram suicídio em massa. Cerca de mil pessoas morreram. No final eram 10 judeus matando o pequeno numero remanescente, e o ultimo matando os nove colegas antes de se suicidar. O local foi declarado patrimônio da Unesco e e de grande importância para os Judeus. La encontramos um simpático israelense fã de Formula 1 (Senna e Piquet) e futebol. Sabia detalhar ultrapassagens, detalhes de GP de F1, alem da escalação do time brasileiro de 70. Ficamos brincando que ele era parente da jovem oficial da imigração. Esta piada virou muito comum. Sempre que achávamos um israelense simpático falávamos que eram parentes dela, que deveriam ser da mesma família. Esta piada foi porque, na nossa experiencia, normalmente não são nem um pouco simpáticos.
De Masada ate uma praia no Mar Morto foi rapidinho. Tentamos um resort particular mas achamos que não valia a pena. Achamos uma publica que tinha toda a estrutura de chuveiros e ate vestiários, que cumpriu super bem o papel. Enquanto o pessoal foi se trocar eu já fui nadar, ops, boiar. O Mar Morto e o local mais baixo da terra, a 416 metros abaixo do nível do mar. Ele e tao salgado que o empuxo faz você boiar. Muito divertido!! Da para ver pedaços de pedras de sal. O gosto da água e horrível, e se for nos olhos você terá problemas.

Boiando no mar morto

Ficamos até o final da tarde, e quando estávamos quase saindo sentido Jerusalém, 4 jatos de guerra passaram voando super baixo, fazendo aquele barulho, e nos lembrando que estávamos em área onde a segurança pode mudar de uma hora para a outra. Poucos dias antes um navio de ajuda humanitária a Gaza tinha sido interceptado em águas internacionais, e os israelenses mataram alguns dos tripulantes.
Os dias em Jerusalém foram muito proveitosos, apesar de corridos. Fomos no Monte das Oliveiras onde tem a Igreja da Acensão (onde Jesus subiu aos céus); Igreja do Pai Nosso (com a oração escrita em 234 línguas); Basílica da Agonia; tumba da Virgem Maria, Igreja onde Jesus chorou (sempre lendo os trechos da bíblia referentes ao local).
No monte Sião, a Igreja da Negação; Igreja da Dominação, tumba do rei Davi, e o local da Santa Ceia. Levamos o pessoal pelas ruas da cidade velha, e já tínhamos ate os caminhos na cabeça de tanto que rodamos por ali. Fomos novamente ao Muro das Lamentações, e andamos pelos bairros Judeu, Cristão, Armênio e Muçulmano. Nosso hotel e antigo, mas muito bacana. Bati altos papos com o dono que fazia questão de sempre vir me cumprimentar.

Pai Nosso em Kiswahili


Cidade armada

Muro das lamentacoes

Fomos a Belém, que fica na Cisjordânia, e pudemos ver a realidade do povo palestino mais de perto. Sabíamos do muro que Israel esta quase terminando, mas de perto foi chocante. Passamos pelos corredores de grades, controles de passaporte, arames farpados ate estar em território palestino. Do outro lado do muro não tem as flores plantadas para mascarar a situação, e sim protestos em grafites na parede. Foi chocante, muito mais que imaginávamos.
Visitamos um Monastério Cristão Ortodoxo mais afastado e deu para conhecer a parte fora da cidade, que é um deserto. Muito bonito, no meio de um cânion. Tentava conversar com o motorista para entender um pouco mais a situação, mas não consegui tanta informação quanto queria. Fomos no campo dos pastores perto de Bet Sahur, onde anjos avisaram sobre o nascimento de Jesus (Lucas 2:8-21). Em Belém estivemos na Basílica da Natividade, local onde Jesus teria nascido. Igreja bem grande, e com todos os tipos de fieis, sendo que grande parte era de russos.
A cidade árabe crista-muçulmana é acolhedora, e conseguimos um pouco mais de informações sobre a palestina antes de retornarmos. Mais uma passagem pelo vergonhoso muro, corredores de grade até pegar a lotação do outro lado e voltar para Jerusalém. Tínhamos visto controles de documentos em um dos portões da cidade velha, que agora com o muro, entendemos a comparação que fazem com o Apartaid sul-africano.
Vergonha!

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Em Jerusalém fizemos a procissão com os freis franciscanos pela via crucis, passando pelas diversas estacoes. Chamou atenção a estacão 4, onde diz na Bíblia, Jesus encontrou sua mãe. Neste local a procissão encontrou um grupo de jovens soldados altamente armados, e ao mesmo tempo ocorria o chamado das mesquitas. Dava para sentir a diversidade da cidade. A procissão terminou na Igreja do Santo Sepulcro, onde Jesus foi crucificado e ressuscitou. A igreja e meio sombria, e seu controle e disputado entre Católicos Apostólicos Romanos, Gregos Ortodoxos, Ortodoxos Etíopes, Armênios, Ortodoxos Sírios e Maronitas.

ortodoxos

Fomos também ao Monte Moria, onde andamos pela gigantesca plataforma de pedra onde já esteve erguido o templo de Salomão. Não consegui entrar na Mesquita do Domo da Rocha, que e só para muçulmanos. Depois que a mãe, Clau, Bibi e Mara saíram ainda tentei insistir com segurança, falar com pessoas, mas não teve jeito. Dentro da mesquita tem a rocha onde Abraão ia sacrificar seu filho Isaac, a pedido de Deus. Foi ali também que Maomé teria subido aos céus para encontrar com Alah em um sonho. Para os Judeus esta é a pedra fundamental do mundo, e tudo teria acontecido a partir dali.

Vista panoramica de Jerusalem

 

foto daqui, foto dali

 

Domo da Rocha

Eu e a Bibi fomos convidados para jantar na casa de uma família ortodoxa judia através do couchsurfing. Foi muito bom para ver a cultura de dentro, e obter mais informações alem de tirar duvidas. A Bibi e meio azarada com o couchsurfing, e apesar dos 3 amigos convidados do casal serem gente boa, o anfitrião era pra la de esquisito. Se bem que ela não pode reclamar, pois ela e um para raio de loucos durante a viagem. Aparece cada um…Loucuras a parte, foi bom ver todo o ritual do Shabbat, ler o Torah, escutar os cantos e descobrir mais sobre esta complicada e regrada religião.
Ainda fomos em museus, como o Israel Museum para ver os pergaminhos do mar morto, museu do holocausto e teve ate dia para descansar, rodar a cidade e ir a restaurantes gostosos. Da para acreditar? Falei que o ritmo tinha mudado com a chegada deles!! Mas quando saíram ficamos meio de ressaca de saudades. Tiramos um dia para descansar e nos outros dias fomos para mais alguns lugares que ficaram faltando, como o museu das terras bíblicas, nova Jerusalém (onde pudemos conviver mais um pouco com a antipatia de muitos) e Jerusalém Oriental, parte palestina da cidade.
Fiquei surpreso e feliz quando fui pagar o hotel. Já tinha negociado um desconto, e o dono palestino deu um outro desconto ainda maior que eu pedi. No caminho para a fronteira da Jordânia pararam para revistar o carro. Perguntaram até se estávamos armados, mas só era rotina. A saída foi super rápida, e carimbaram em outro papel separado. Estávamos entrando na Jordânia, mas a cabeça já estava na Síria.

soldado israelense observando o muro das lamentacoes

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O Feriado Cristão e a Cidade Sagrada Muçulmana

De volta a Addis, ainda tínhamos que fazer algumas coisas, antes de ir para Harar. Visitamos o Museu Nacional e o Museu Etnológico. Deu para aprender m pouco mais sobre as diversas tribos do pais (são 80 línguas e 200 dialetos diferentes), ver varias pinturas ortodoxas com Jesus negro, mas o ponto alto para mim foi a parte dos fosseis dos “Homídeos”. Para quem não sabe, eu quando tinha 6 ou 7 anos não queria ser jogador de futebol nem bombeiro, queria ser paleontólogo, e isto foi muito antes da geração parque dos dinossauros.

Existe uma seção que explica toda a evolução da especie humana, com vários fosseis de nossos ancestrais que foram achados aqui. Lembram da Lucy, nossa tatatatataravo? Ela era etíope. Os fosseis da Etiópia são os mais antigos e em excelente estado de conservação.

Já que estávamos por aqui resolvemos estender um pouco mais para ver a comemoração do Meskel, que e o dia que acharam a Cruz. Se o ano novo foi uma comemoração discreta, esta foi uma grande manifestação popular. Todas as ruas perto do centro estavam bloqueadas, milhares de pessoas caminhavam com seus trajes típicos em direção a Meskel Square, no centro da cidade. Quando chegamos, depois de muita dificuldade para arranjar transporte, as arquibancadas já estavam lotadas. Diversos desfiles de escolas, alegorias celebrando Cruz sagrada e a Etiópia. Discurso do Papa da Igreja Ortodoxa Etíope, devidamente protegido por atiradores de elite em cima dos prédios. População super comportada, sentada e ordeira. Eram milhares e milhares de pessoas, difícil estimar, mas acho que devia ter mais de 100000. Todas elas com velas em punho, numa cena bonita, durante a queima de uma fogueira de palha e de fogos de artificio.

Praca Meskel

Praça Meskel

Comemorando Meskel

Comemorando Meskel

Todo mundo curtindo, com branco e as cores da Etiopia

Todo mundo curtindo, com branco e as cores da Etiópia

O Samuel escolheu para se mudar para outra casa bem neste dia, então depois das celebrações fomos para a casa nova, depois de ter jantado num restaurante tipico de uma das tribos. Cardápio? Ingera (para variar) com carne moída crua picante (novidade!). Muito bom, comi um monte.

Já estávamos prontos para seguir viagem, então bem cedo pegamos um ônibus para Harar. Viagem longa, mas com um asfalto de excelente qualidade. A temperatura ia aumentando a medida que nos aproximávamos de Harar. A paisagem também foi se modificando, o verde foi desaparecendo gradativamente, e a areia aumentando na mesma proporção. Chegamos na cidade e depois de uma longa discussão sobe preço ficamos no primeiro hotel que visitamos. Quarto com duas camas e um colchão no chão.

Harar e a quarta cidade mais sagrada para os muçulmanos, depois de Meca, Medina e Jerusalém. E uma antiga cidade murada, com um quilometro quadrado e praticamente 100 Mesquitas.

Existem 100, aqui estao 2

Existem 100, aqui estão 2

Mesmo sendo final de tarde o calor era insuportável. Ficamos largados num restaurante, e demos uma volta na cidade velha. Nós estávamos na cidade nova, para fora dos muros, e que tem maioria crista. Ao caminhar na cidade murada, dentre tantas mesquitas, no centro da cidade uma Igreja Ortodoxa. Aqui a paz prospera…

Ruas da cidade velha

Ruas da cidade velha

Cores Vivas

Cores Vivas

Indo para a escola

Indo para a escola

A cidade é pequena, e no outro dia andamos pelas centenas de ruelas estreitas, surpreendentemente com portões de casas pintados com cores fortes. Visitamos pequenos museus, conversamos com pessoas, passamos no mercado de carne de camelo, e encontramos um antigo amigo. Sim, no meio da rua encontrei um cara que conversei durante horas na viagem de Nairóbi para Moyale, e que ate ficou no mesmo hotel que a gente. Que coincidência. Muito gente boa, nos levou para a casa dele para apresentar a família. Sua esposa ofereceu a cerimonia do cafe, tostando os grãos e servindo junto com pipoca. Ficamos brincando com a comunicativa filha de 4 anos ate a hora de sairmos. Combinamos de ver alimentarem as hienas mais tarde e fomos tomar um sorvete no final e tarde.

Amigos!!

Amigos!!

Existe uma tradição em Harar em que todo anoitecer alimentam hienas logo na saída de um dos portões da cidade. Dizem que faziam isto em épocas de fartura, para que em épocas de seca as hienas não atacassem os homens e seus rebanhos de cabras e ovelhas. Parece que funcionou, pois hoje as hienas circulam livremente durante a noite sem causar problemas. Hoje este “evento” já se tornou turístico, e pedem uma contribuição para pagar as “pelancas”. De qualquer forma fomos conferir, e os animais são bonzinhos(hehe). Pensar que já morri de medo daquelas hienas circulando pelas nossas barracas na Botsuana, e aqui estava eu dando de comer na boca dos bichinhos. Primeiro com a mão, depois com a boca!! Foi divertido.

Depois de muito tempo de Africa os animais passam a te respeitar...hehe

Depois de muito tempo de Africa os animais passam a te respeitar…hehe

Uma delicia de cidade, onde o tempo não passa. O pessoal leva o Chat a serio aqui e masca durante o dia inteiro. No final da tarde parecem Zumbis, mortos vivos perambulando. Estava enganado quando falei que era que nem Red Bull. Bem, não sei o que aconteceria se alguém tomasse Red Bull por 8 horas seguidas…

Harar

Harar

Portao principal

Portão principal

Tivemos uma grande discussão no hotel, pois estávamos usando outro quarto para tomar banho. Nosso chuveiro não funcionava direito e ninguém deu atenção a nossas reclamações. Resolveram implicar com o preço, pois estávamos pagando a tabela que era para 2 e não para 3. Como tínhamos combinado não cedemos, e ameaçaram tirar o lençol do colchão do chão. Eu que tava dormindo ali e virei um bicho. Briguei, ameacei colocar na internet e blalala e no final das contas deu certo.

Cedo seguimos para jijiga. No ônibus fiquei conversando com um Sr que tinha bastante informações sobre o Brasil, mas queria saber ainda mais. Queria saber minha opinião de como melhorar a Etiópia dentre outras coisas. Sempre encontro pessoas curiosas, mas algumas fazem perguntas difíceis, e o assunto se torna profundo. Muito legal, mas de muita responsabilidade para responder. Fizemos uma rápida conexão para Wajjale. A temperatura aumentava ainda mais, e agora era só deserto mesmo. Passamos por uma área onde estavam tirando minas terrestres ao lado da estrada, fruto de uma guerra já de algum tempo  entre Etiópia e Somália.

Logo nos aproximamos da fonteira da Somália. Pera ai, aqui não e Somália já faz muito tempo…

Obeliscos, lendas, igrejas de pedra e mais verde

Antes do sol nascer já estávamos chegando no caminhão. Fora o ajudante, tinha outro figura. Reclamamos, pois não era o combinado. Falaram que ia só ate ali na frente, mas acabou indo a viagem toda. Pouco depois de Gonder começou o sobe e desce. Curvas passando por precipícios. Vista impressionante das montanhas. Logo deu para avistar as Simien Montains, longa cadeia de montanhas que se estende por toda esta região. Muitas destas montanhas parecem com dedos apontando para cima.

Precipicio

Precipício

Siemen Mountains

Siemen Mountains

Paramos em algumas vilas para tomar cafe, almoçar. Uma delas, muito pequena, chamava a atenção pela quantidade de mesas de pebolim espalhadas pela rua. Pessoal gente boa, vista maravilhosa, cabine apertada, e viagem longa, pois o caminhão ia muito devagar com tanta curva. Final de tarde chegamos a Shire, e falaram que era o ponto final, que ficariam ali. Peraí, não era o combinado. Já falamos que íamos na delegacia, que queríamos que alguém nos acompanhasse, fizemos pressão. No final das contas pagaram a passagem de uma van que estava saindo para Axum. Bastante correria, mas chegamos em Axum no mesmo dia. No caminho passamos por carcaças de tanques, resultado das guerras que ocorreram por aqui.

Axum foi um dos maiores impérios do mundo. Muito respeitado pelo império romano. Dizem que foi criado pelo Tataraneto do Noe, ou algo assim. A Etiópia tem muitas, mas muitas citações no velho testamento. A Bíblica Rainha Sheba saiu desta região para visitar o Rei Salomão em Jerusalém e voltou gravida. O filho foi chamado de Davi e posteriormente de Menelik, e voltou para Jerusalém para aprender as leis de Moises. Ele teria voltado com a Arca que contem os dez mandamentos.

O império de Axum durou centenas de anos, e deve ter terminado devido a duas razoes. A perda do controle do Mar vermelho para os Árabes e por terem cortados muitas arvores. Parece que não aprendemos, a historia se repete…

Axum, mesmo sendo cristão, ofereceu proteção aos muçulmanos, que estavam sendo perseguidos na época. Muitos se refugiaram nesta região, inclusive uma das esposas de Maomé. Ele inclusive cita Axum como um lugar de paz. Já houveram sangrentos conflitos entre os cristãos ortodoxos e muçulmanos, mas em geral sempre conviveram pacificamente. Ate hoje se dão super bem, e se respeitam bastante, desde que levem a religião a serio, independente de qual seja.

Axum é hoje uma pequena cidade, difícil acreditar que foi um dos maiores impérios do mundo. Conhecemos um americano, Michael, que passou a viajar com a gente. Ele voou para Jerusalém, rodou ate o Egito e voou ate aqui. Tentamos ver o que dava andando, mas algumas coisas tivemos que pegar tuk-tuk. Existem gigantescos obeliscos de pedra, todos tralhados, desenhados. Muito bacana. Junto existe um bom museu, que passa bastante informação da região. Lembram que um dos reis magos era negro? De onde vocês acham que ele era? Sim, Baltasar era o Rei de Axum, e foi visitar Cristo no seu nascimento.

Axum, pequena cidade hoje, grande imperio no passado

Axum, pequena cidade hoje, grande império no passado

Logo na frente dos obeliscos esta a Igreja St Mary Zion. Na verdade tem uma nova construção da igreja e as ruínas da antiga. Tem um local onde juram que está a Arca com os Dez mandamentos. Esta historia é mais difícil de acreditar, mas já houve ate guerra com os judeus por causa desta historia. Se pensarmos que a Igreja Católica afirma que possui tantas relíquias como pedaços da Cruz, o manto que cobriu Jesus apos ter sido retirado da cruz, por que a Igreja Ortodoxa etíope não pode ter a sua?

Obelisco

Obelisco

Igreja St Mary Zion

Igreja St Mary Zion

Mais obeliscos

Mais obeliscos

Seguimos estrada sentido Wukro. Voltou a ter asfalto (entre Gonder e Axum foi estrada de terra), mas muito sobe e desce e curvas, portanto viagem demorada. Ou o pessoal não ta acostumado a viajar, ou o cafe da manha foi reforçado, pois todo mundo passou mal. Foi um tal de vomitar e distribuir sacolas de supermercado. Uma mulher sentou com uma criança do meu lado, e quando percebi que a coisa tava feia dei um pulo e me safei por pouco. Nojento. Nesta região do Tigre, existem mais de 100 igrejas de pedra, mas já descobri faz tempo que não da para ver tudo. Ficam muito longe, e o ideal e ter um transporte particular. Como o Guru e o Michael não tavam nem um pouco dispostos a alugar um carro, visitamos 2 igrejas. Uma bem perto da cidade e outra que foi um empenho.

Igreja de pedra em Wukro

Igreja de pedra em Wukro

Ficamos esperando transporte publico por um tempo e nada. Daí acabou passando uma caminhonete e pegamos carona. Rodamos vários KM ate uma pequena vila onde ficava a outra igreja. Visitamos e tal, mas é para voltar. Nem sinal de transporte ou carros. Ficamos um bom tempo la, ate que apareceu um ônibus empanturrado de gente. Entramos e voltamos para Wukro. No ônibus passaram uma bandeja com Ingera, tipo comunitária, e deu para matar a fome.

Igreja na regiao de Tigre

Igreja na regiao de Tigre

Em Wukro conseguimos pegar transporte ate Mekele, capital da região. La tentamos achar uma forma de ir para  Danakil, região que fica abaixo do nível do mar cheia de vulcões, com lagos de larva permanentes. A temperatura chega a 50 graus. Sabíamos que seria caro, pois preciasa de um carro de apoio para garantir a segurança, mas mão conseguimos pois não é a época. Bem, negocio era ir para Lalibela então.

Bem cedo pegamos um ônibus ate Woldia. Todos falavam que teríamos que dormir la, e ir para Lalibela no dia seguinte, mas conseguimos uma van até Gashema e pegamos carona ate Lalibela. Lalibela fica nas montanhas, uma pequena vila, onde tudo acontece bem devagar. La estão as principais igrejas de pedra. Algumas das igrejas foram totalmente esculpidas, não sobrando rocha, só a construção. E fantástico. Existem 11 principais, separadas em 3 grupos. Algumas delas são interligadas por tuneis, o que da um charme ainda maior.

Igrejas de pedra de Lalibela

Igrejas de pedra de Lalibela

Mais Lalibela

Mais Lalibela

Muita tranquilidade em Lalibela

Muita tranquilidade em Lalibela

Definitivamente Lalibela e a principal atracão da Etiópia. O estado de conservação das igrejas é incrível. A maioria delas foi construída com um só bloco de pedra, sem encaixes.

Igreja de Sao Jorge

Igreja de São Jorge

Outro angulo

Outro angulo

Na nossa estadia pela região reencontramos o Servio e o Polonês rastafaris. Conheci um Brasileiro/Holandês que ta trabalhando na Etiópia. Ha, também conheci um figura que esta viajando a 22 anos, e já visitou 170 países. Depois falam que eu que sou maluco…hhehe

Para voltar para Addis, novamente tivemos que madrugar. Não era nem 4:30h e já estávamos indo para a rodoviária. Chegamos la e tava fechada ainda, mas estavam vendendo as passagens. Compramos, guardei o troco no “money belt” e a passagem no bolso. Ficamos esperando para entrar no portão quando me empurraram. Me empurraram de novo e eu ate peguei a mochila e passei para a frente (to viajando com a mochila pequena, a grande ficou e Addis) pois podiam ta querendo pegar alguma coisa. Quando vi,tinham levado a minha passagem. Estatística, um dia ia acontecer. Pelo menos o cara lembrava de mim e pude viajar. Ele tentou cobrar mais (uma senhora apareceu com minha passagem), mas acabou dando tudo certo. Só a raiva de ter sido roubado. Eles são muito rápidos.

Chegamos em Desie onde também falavam que tínhamos que passar a noite. uma cidade super sem graça, com a avenida principal toda esburacada. Solução? Depois da almoçarmos fomos procurar um caminhão. Não demoramos muito para achar um que já estava saindo.

Veerde!!

Veerde!!

O motorista era super divertido, cantava e dançava enquanto mascava Qat. O ajudante não cabia na cabine, pois agora eramos 3, e foi na caçamba, junto com os sacos de feijão, embaixo da lona. Não demorou muito e o caminhão quebrou. Ficamos um tempo na estrada e depois conseguimos ir ate uma cidade para terminar de arrumar. Demorou mais um bom tempo. Finalmente seguimos estrada. Era para chegarmos as 11 da noite, mas já estávamos madrugada a dentro devido aos contratempos. O motorista passou a falar menos e andar mais devagar. Percebi que ele tava com sono, mesmo depois de mascar tanto Qat. Como tava do lado dele, primeiro puxei papo, depois passei a dar uns ” pedala” e uns “se liga” nele. Falei que se tivesse cansado era para parar. Ele parou diversas vezes para tirar uma soneca. Resultado, chegamos só de manha, e eu não dormi nada para ficar cuidando para o infeliz não dormir. Pelo menos chegamos sãos e salvos em Addis.