Música, dança e palácios!

O folclore letoniano, também chamado de Dainas, foi uma das mais importantes formadas de manter a cultura e identidade do povo que viveu nesta região. São mais de 1,2 milhões de textos e 30 mil melodias, alguns com mais de mil anos.  Assim como na Estônia, muita mitologia envolvida, e é muito interessante como povos com identidades próprias, demoraram tanto tempo para constituir um país.

Entramos na Letônia atravessando uma pequena ponte de madeira, vindo do interior da Estônia. Estávamos bem perto da fronteira da Rússia, portanto teríamos que praticamente atravessar o país para chegar na capital, Riga. A chuva tinha voltado, e a estrada A2 não era tão boa quanto imaginávamos. Longe de ser “padrão União Europeia”. Muitos reflorestamentos ao longo da estrada e os caminhões carregados com toras tornavam o transito mais lento. Torcíamos para que o tempo melhorasse quando chegássemos a Singula, cidadezinha na beira do Parque Nacional Gauja. Infelizmente o tempo só piorou. Chovia forte, e só paramos mesmo para tomar uma café e comprar fraldas para o Gabriel, pois já estavam acabando nestas alturas. Até tentamos procurar alguns dos castelos, mas mal dava para enxergar. Achamos que as trilhas, cavernas  e visual ficaria para outro dia, mas acabou ficando para outra viagem.

Já que o tempo não ajudava, fomos para Riga, uns 50 quilômetros dali. Transito bastante congestionado, mas sobrevivemos e chegamos no AirB&B que havíamos alugado no centro antigo da cidade. Era um ático bem charmoso, todo reformado, por um bom preço. Só não tinha cortinas e blackout, o que atrapalha no meio do verão, onde anoitece depois das onze da noite. Improvisando penduramos cobertores e toalhas para escurecer o ambiente e garantir o sono do Gabriel. A anfitriã, muito simpática, nos deu muitas dicas e ficou conversando bastante quando nos recebeu.

Gabriel feliz no nosso quarto

Gabriel feliz no nosso quarto

Interessante como nos referimos aos “Bálticos” como se fossem países parecidos. Ali a língua era outra, e Riga completamente diferente de Tallinn (o mesmo aconteceria com Vilnius).

Old Riga

Old Riga

Aproveitei uma trégua da chuva, e os dias longos, para me localizar na cidade velha. Estávamos hospedados em um lugar super central, o que facilitou bastante conhecer tudo, e até voltar para casa quando achássemos necessário.

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Nos dias seguintes nos surpreendemos com a melhora do tempo. Pudemos aproveitar até dias de sol. Muito melhor, ainda mais com as feiras de rua, musica e danças típicas que estavam por todos os cantos. O Gabriel continuava adorando passear de carrinho. Quando ele dormia aproveitávamos para comer em algum restaurante ou aproveitar alguns dos muitos cafés.

Danças tipicas

Danças tipicas

Folclore

Folclore

Apesar de não ter a aparecia medieval de Tallinn, gostei muito do estilo de Riga. A arquitetura dos prédios, as belas igrejas e até mesmo o astral me pareceu um pouco mais autentico. Também estava cheio de turistas, mas as apresentações folclóricas, as musicas e danças davam um astral para o lugar. Experimentamos algumas comidas típicas num restaurante, e nos abastecemos nas feirinhas para os piqueniques que estavam por vir.

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Depois de dois dias na capital, fomos para o interior, conhecer alguns dos mais bonitos palácios do país. Primeiro foi o Mezotne Pils, um dos melhores representantes do classicismo letoniano.  O Gabriel continuou sendo um ótimo companheiro de viagem, mas aproveitou mesmo o passeio pelos jardins do palácio. Parte do palácio foi transformada em hotel, e o restante em museu para visitação.

Pils

Mezotne Pils

Pils

Jardins do Mezotne Pils

 

Paisagem rural e estradas de terra até chegar a Pilsrundale, onde está o palácio mais bonito do país.

Interior da Letônia

Interior da Letônia

Rundale impressiona já de fora, com seus imponentes portões.  Antes de entrar aproveitamos para fazer um piquenique gostoso com as guloseimas que havíamos comprado, e complementamos com morangos e cerejas locais. No palácio não pode circular com o carrinho de bebe, e as escadas também não ajudam. A Bibi foi conhecer alguns dos quase 150 cômodos, e eu fiquei com o Gabriel pelos jardins. Se no Mezotne Pils os jardins tinham aquele clima de fazenda, com arvores altas e muita sombra, no Rundale era todo florido, planejado, com chafarizes, tuneis e paisagismo caprichado.

Piquenique

Piquenique

Portões do Pilsrundale

Portões do Pilsrundale

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Esta região dos palácios fica no extremo sul da Letônia, já bem perto da fronteira com a Lituânia, então com uma curta viagem já estávamos no ultimo país que conheceríamos nesta viagem.

Estônia, terra de pagãos!

A Estônia só se estabeleceu como país após a primeira Guerra Mundial, e mesmo assim logo foi ocupada. Antes disto eram povos,  sempre tentando uma  identidade como nação. Foram dominados por finlandeses, suecos, dinamarqueses, alemães e russos, cada um deixando suas marcas. O cristianismo foi imposto aos então pagãos que moravam lá. Primeiro os católicos, depois os luteranos e por fim os ortodoxos. As belas construções ficaram, mas a religião não. Menos de 15% dos estonianos se dizem religiosos, sendo apontando como o país menos religioso do mundo. Por outro lado, existem novas ondas de espiritualidade neo-pagãs.  A adoração da natureza remete ao inicio da identidade e ao folclore estoniano. Existe uma rica mitologia que tem sido resgatada como forma de identidade nacional e negação dos invasores do passado. Num país coberto por florestas não é difícil de “adorar” uma arvore. O feriado mais importante do país é o Jaanipaev, onde dançam e cantam ao redor de fogueiras, no dia que chamam de “metade do verão” (solstício-noite mais longa do ano). Dizem que teve origem na queda de um meteoro a mais de 4 mil anos atrás. Assim como o dia 25 de dezembro (solstício de inverno, noite mais curta) foi incorporado pelo cristianismo, o Jaanipaev também foi. Chamam de São João, e tem muita gente no Brasil comemorando a data mesmo sendo no inverno, cantando e dançando nas fogueiras de festa Junina, sem nem imaginar que estão praticando “paganismo estoniano”.

Chegamos à capital da Estônia, Talin, de ferry. O porto fica próximo do centro antigo, onde iriamos nos hospedar. Com uma bagagem a mais do que estamos acostumados, mais um bebe e um carrinho, achamos melhor aceitar a oferta dos donos do AirB&B em nos buscar. Cobrariam somente 5 Euros e nos levariam até o nosso apartamento.

Ficamos hospedados a uma quadra de um dos portões de entrada da cidade velha, numa rua secundária, bem calma. Uma localização excelente, mas uma pena que a rua que dava acesso até a praça central estava em reforma.

A cidade murada de Talin é linda. Num estilo medieval, faz jus a fama de ser uma das mais bem preservadas da Europa. Quem diz que parece que ela saiu de um conto de fadas também não está mentindo. As ruas de pedra, a arquitetura e as torres das igrejas (a igreja de São Olavo foi a construção mais alta do mundo na Idade Média)  encantam qualquer um. Patrimônio da Unesco, as construções de pedra sobreviveram ao tempo, e a cidade também contou com a sorte de não ter sido bombardeada na Segunda Gerra.

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Chegamos num domingo e tinha até uma feirinha na praça central. Estava tudo movimentado, bem movimentado. Verão na Europa tem destas coisas, tinha turistas para todos os lados. Talvez o fato da cidade ser pequena dê um aspecto de cheia mais facilmente.

Junto com os turistas vem as pessoas tentando vender algo ou te convencer a entrar nos restaurantes. Nada de muito insistente, mas com certeza quebrou um pouco o clima, assim como algumas pessoas posando para fotos com armaduras para ganhar uns trocados.

Ma isto foi mais a primeira impressão, nos outros dias nos acostumamos e acho que as coisas ficaram mais calmas também.  Colocamos à prova o carrinho guarda-chuva que compramos para a viagem. Foi o menor e mais barato que encontramos na internet, e compramos no site de um supermercado. Ele aguentou bem as ruas de pedras da cidade. Trepidava bastante, e o Gabriel achando que era embalo acabava dormindo.

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Mesmo anoitecendo muito tarde, respeitamos o horário de dormir do Gabriel. Também comprávamos coisas no supermercado e fazíamos comida para ele. Podia comer em casa ou a marmita que levávamos e esquentávamos nos restaurantes. Não foi desta vez que ele experimentou a comida estoniana. Eu também fiquei adiando para comer a sopa de rena e acabei esquecendo. Fica para uma próxima.

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Quando íamos em lugares mais longe, ou que precisaria subir escadas, eu levava o Gabriel no “Canguru”. Quando queria chegar rápido em um lugar também, sempre com o carrinho dobrado na mão.

Adoramos caminhar pela cidade, esperar os grupos de turistas passarem para curtir um pouco os lugares sozinhos. O ritmo da viagem foi mais lento, sentávamos para comer, tomar uma cerveja ou café e ver a vida passar com ainda mais frequência que em outras viagens. O Gabriel adorava tudo. Estava super animado e sorridente todas as horas. Já se mostrava um grande companheiro de viagem, só tínhamos que respeitar seu ritmo e suas necessidades.

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Inicialmente o nosso plano era de viajar pela costa da Estônia até a Letônia, beirando o Mar Báltico. De ultima hora decidimos fugir do fluxo de turistas e explorar um pouco o interior. Sabíamos que não tinham grandes atrações, mas quem sabe encontraríamos belas paisagens e vilarejos na região rural.

Não foi uma decisão acertada. Tivemos azar com o tempo e pegamos muita chuva. O país inteiro é plano (ponto mais alto tem 300 metros!), então a paisagem muda pouco. A estrada até Tartu é praticamente uma reta. Pouco pudemos conhecer da cidade, que é a mais antiga do país. Uma cidade universitária, com um belo centro antigo, mas vamos mesmo é lembrar da chuva torrencial que caía. No trecho até Voru melhorou um pouco, saiu um sol e céu azul, dando até para curtir um pouco mais a viagem.

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É uma região com cultura e línguas próprias, com casarões de madeira antigos e prédios soviéticos.  Ali perto está Rouge, a cidadezinha que estávamos buscando. Muitas colinas com uma serie de  lagos, com vendedores de morangos na beira da estrada. A região mais bonita que encontramos no interior da Estônia. Depois disto foi uma aventura, por estradas de terra que nem pareciam estar dentro da União Europeia. Uma pequena ponte de madeira e uma placa indicavam que estávamos entrando na Latvia (Letônia) onde pegaríamos um pouco mais de chuva, pelo menos no primeiro dia.

Novo Livro: Países que não Existem

O novo livro está quase pronto! Faltam somente mais alguns detalhes e o novo livro vai para a gráfica. Um tema bastante atual e grandes aventuras por países que muitos nem imaginariam que existem: ” Uma viagem pelos Países que não Existem”.

Com prefacio do jornalista Guga Chacra (GloboNews/Estadão), um livro que não pode faltar na coleção dos amantes de viagem.

Países que não Existem

Uma viagem pelos Países que não Existem

Pré-venda com valores promocionais até 011/08. Garanta seu exemplar clicando aqui, e receba seu livro em casa.

Livro a venda nas principais livrarias do Brasil, na Like store da Pulp Edições ou direto comigo.

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Finlândia, a primeira viagem com bebê

Nunca imaginaria que a nossa primeira viagem com o Gabriel seria para Helsinque, a capital da Finlândia. Ele tinha acabado de completar 7 meses, e precisava conhecer terras mais distantes. Sonhamos com Ilhas Mauricios, mas não apareceu nenhuma promoção. Dai fomos mudando de destinos até que surgiu uma ótima oportunidade para os Países Bálticos, antigo sonho de viagem. De quebra a melhor passagem era para Helsinque, de onde pegaríamos um ferry para seguir viagem.

Viajar com bebê é bem diferente, mas depois de ver tantos pais com crianças na estrada, confesso que já não assustava tanto. Aquela história de que é preciso viajar antes de ter filhos já não fazia sentido há muito tempo.

Minha irmã, expert em viagem com filhos ( Viajo com filhos), sempre conta a história de quando o pediatra falou para ela que existem crianças no mundo todo, então não tem o que temer. A Finlândia, país com uma das melhores qualidades de vida do mundo, com certeza é um destino para se viajar de olhos fechados.

Na nossa primeira viagem internacional (o Gabriel tinha feito um voo nacional com 2 meses) desrespeitamos uma regra mencionada em diversos blogs de viagem, a de fazer voos curtos ou sem escala. Foi justamente o único problema que tivemos em toda a viagem. Se bem que não sei se o problema foi o tempo de voo, pois ele chorou no inicio da viagem. Moramos em uma chácara e ele dorme em um silencio absoluto, apenas com musica de fundo. No avião com tantas pessoas, luzes e televisões, existiam estímulos demais para que pegasse no sono. Por sorte a KLM nos forneceu o assento na primeira fila, com direito a bercinho e tudo (reservei gratuitamente antes).

O berço no avião ajuda muito!

O berço no avião ajuda muito!

Chegamos em Helsinque depois de uma longa viagem, e optamos por pegar um Uber em vez de trem ou ônibus. Logo estávamos no nosso apartamento, reservado pelo AirB&B. A Bibi começou a ver vantagens em viajar com bebê.

Não tenho muita pratica com reservas, normalmente escolhemos hotéis na estrada mesmo, e esta foi uma das grandes mudanças desta viagem, tudo reservado (ok, Europa Ocidental reservamos antes). O apartamento era minusculo, mas tinha uma pequena cozinha, então dava para preparar comida para o Gabriel. Era só levar e pedir para alguém esquentar em um restaurante ou café.

Ficamos no bairro de Kallio, antigo bairro industrial, hoje foi tomado por estudantes buscando preços mais baixos. Dezenas de pubs e pequenos restaurantes. Não é um lugar tão família, é bem jovem, mas bem localizado e com bons preços.

Kallio

Kallio

O transporte publico é super eficiente, mas é caro para bilhetes individuais. A saída é comprar os passes mais longos (24hs) se for usar bastante o metrô. Para bilhete simples, fica mais barato pegar um Uber se estiver em duas pessoas.

Não existem catracas no metro

Não existem catracas no metro

Tivemos azar com o tempo. A temperatura estava variando entre 10 e 15 graus, o que não é ruim, mas o problema foi a chuva, que não deu trégua. Caminhamos um pouco, mas acabamos mais é revezando entre cafés e restaurantes. Helsinque não é uma cidade cheia de atrações, quando eu pensava em viagens para a Finlândia, sempre sonhava com o norte do país, mas não deixou de ser um ótimo lugar pára nos adaptarmos.

Pinturas imitando pinturas rupestres em uma estação de metrô

Pinturas imitando pinturas rupestres em uma estação de metrô

Dois cafés e uma agua para a mamadeira

Dois cafés e uma água para a mamadeira, por favor…

Criança se adapta muito melhor que adultos. No segundo dia o Gabriel já dormiu a noite toda, enquanto nós estávamos acordados sentindo a diferença de fuso horário (6 horas). Para complicar, o verão na região tem noites muito curtas. O sol se punha as 22:50 e amanhecia às 3:50.

A Finlândia é famosa pela sua politica de bem estar social. Cobra altos impostos, o que reflete diretamente nos preços, mas possui os serviços básicos de saúde e educação de excelente qualidade. Isto acaba atraindo imigrantes, e nos divertimos e surpreendemos pessoas de Gana, Irã e Somália quando contamos de nossas viagens por lá. Ao perguntar sobre a vida na Finlândia todos tiveram a mesma resposta. Não da para ficar rico, mas pelo menos temos uma boa vida, trabalho e sabemos que sempre teremos o que comer!

Helsinque

Helsinque

Catedral Uspenski

Catedral Uspenski

Catedral Luterana

Catedral Luterana

Numa tregua da chuva

Numa trégua da chuva

Uma coisa que nos chamou atenção nas nossas visitas aos supermercados é que na nota vem discriminado separado o valor de um suco/água da embalagem. Tipo suco 80 centavos, lata 10 centavos. Uma maquina recolhe embalagens vazias e dá credito para gastar no estabelecimento.

Com a chuva deixamos o piquenique em Soumenlinna para uma próxima vez, e pegamos o ferry para Talim, capital de Estônia. Umas três horas de viagem, mas o Gabriel pouco se importava, estava mesmo é gostando de ter a atenção dos pais 24 horas por dia!

Partida do ferry

Partida do ferry

 

Espaço para crianças brincarem no ferry

Espaço para crianças brincarem no ferry

Encontramos um microondas para esquentar a comida que tínhamos preparado

Encontramos um microondas para esquentar a comida que tínhamos preparado

 

Guiné-Bissau e o Arquipélago dos Bijagós!

A comunidade Lusófona mundial não é grande. Restringe-se a poucos países, sendo eles Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Acho muito legal de viajar para outros países e falar português, ainda mais como Brasileiro. Não que eu não goste de falar outras línguas ou até me comunicar por mímica, mas gera uma curiosidade você dominar o “idioma deles”.

Língua portuguesaunida

Língua portuguesa unida

Guiné Bissau não é muito frequentada por turistas. Existem os estrangeiros que trabalham em ONGs, os turistas endinheirados que vão de avião fretado pescar em uma ou outra ilha, mas não são tantos viajantes independentes por lá. Alias nos últimos anos tem figurado na lista dos dez países menos visitados do mundo. Só isto já me soava tentador e descobrir o que tinha por lá, mas as surpresas sempre são maiores.

 

O visto não parecia algo simples, pelo menos não na Embaixada no Brasil. Pediam carta de convite ou termo de responsabilidade de algum morador (ou empresa) de Guiné Bissau, dentre outras burocracias. Como tudo na estrada é mais fácil, após alguma pesquisa deixei para tirar no Consulado de Ziguinchor, cidade senegalesa que não fica muito longe da fronteira. Cheguei minutos antes da embaixada abrir. Quando o cônsul e seu assistente chegaram soltei um “ Bom dia” bem sonoro, orgulhoso do meu português. Recebi uma resposta meio seca, “ nem tão bom…”! Mas não deu tempo nem de me preocupar se receberia o visto. O cônsul inclusive preencheu meu formulário, só precisei assinar. Entreguei uma copia do passaporte e fotos 3×4, mas ele nem pegou as fotos. Paguei e sai com um visto de duas entradas, tudo isto em menos de 5 minutos. Poderia ter inclusive ter ido direto para a fronteira, mas fiquei uns dias pela região de Casamance, Senegal.

No dia da minha partida, fui cedo para o pátio dos transportes. Quem tem o visto no passaporte consegue pegar um carro (Sept Place) direto de Ziguinchor até Bissau, capital de Guiné Bissau, sem precisar fazer a viagem em etapas. Isto agiliza bastante, mas mesmo assim os 140 km vão demorar perto de 4 horas de viagem com os tramites da imigração.

A estrada do lado senegalês é simples, mas boa, a fronteira é tranquila, sem muitos comentários. Atravessei a pé a “terra de ninguém” e o carro atravessa sozinho para continuar a viagem. Fiquei amigo de um jovem de Freetown, Serra Leoa, que voltava para casa depois de um período de trabalho em Dakar, Senegal. Ele pararia no caminho caso achasse trabalho. Muito interessante estas migrações que acontecem com tanta frequência pelo Oeste da África. A facilidade de poder viajar somente com a carteira de identidade ajuda muito eles neste aspecto. Um alemão que estava indo visitar sua irmã em Bissau também estava no carro, assim como homens de negocio e senhoras voltando para casa.

Amigos da estrada

Amigos da estrada

Cidade

Cacheu

A estrada do lado de Guiné-Bissau é visivelmente de pior qualidade. O país tem um dos piores IDH do mundo. Se a infraestrutura não ajuda o turismo, a não possibilidade de sacar dinheiro em caixas eletrônicos assusta muita gente. Ser vizinha de Guiné (Conracri), onde teve surto de Ebola, e possuir uma instabilidade política, só piora as coisas. Mas posso dizer que foi uma viagem super tranquila e agradável, alem de uma ótima receptividade.

Ebola

Campanha contra a Ebola

Logo após Santo Domingo, a primeira cidade, uma nova ponte, pedagiada, liga até a pacata Cacheu. A pequena cidade, na beira do rio de mesmo nome, foi um importante entreposto e dão um clima histórico para o lugar.

A estrada que vai até Bissau passa por poucas cidades e vilarejos, mas sempre que tem algum sinal de vida, muitos vendedores de castanha de caju, o carro chefe das exportações do país. O país produz 200 mil toneladas do produto, carro chefe da exportação, ajudando a economia a crescer 5% no ultimo ano.

Ao me aproximar da Bissau, aquele movimento dos subúrbios, com mercados e pessoas, porem bem calmo comparado com outras capitais do oeste africano. Nosso ponto final era por ali, onde eu negociei um taxi para ir até o centro. Somente 500 CFA, menos de um dólar para alguns quilômetros de corrida. Foi uma das poucas coisas baratas por ali. Se engana quem pensa que só porque um país é pobre tudo será barato. A baixa infraestrutura, e poucas opções de hospedagem por exemplo, fazem os preços dispararem. A pousada que tinham me recomendado era pequena e estava lotada. Me indicaram um outro local. Razoavelmente bom, mas com um péssimo custo beneficio.

Eu teria tempo para explorar a cidade, mas minha prioridade era saber quando sairia o ferry para a Ilha de Bubaque, já que só tem um por semana. Caminhei até o porto e encontrei um cartaz indicando a maré e o horário. Pesquisei um pouco sobre canoas, mas elas são bem esporádicas e a viagem é bastante longa.

Informativo

Informativo

O Bairro de Bissau Velho fica ali ao lado do porto. É pequeno, talvez umas 4 quadras por 2 ou 3. Ruas estreitas, casas com sacadas de madeira e alguns casarões históricos nos arredores. O problema é que alguns dos casarões funcionam órgãos do governo, assim como o grande forte (Fortaleza são José de Amura) que hoje é base militar, portanto nada de fotos, infelizmente. De qualquer forma muito gostoso andar sem destino por ali, explorando cada cantinho.

Predios mal conservados perto do porto

Predios mal conservados perto do porto

Ruas calmas na parte velha da cidade

Ruas calmas na parte velha da cidade

Sacadas em muitas construções

Sacadas em muitas construções

Entrada de Bissau Velha

Entrada de Bissau Velha

Casarões

Casarões

A cidade parecia parada, talvez devido ao calor, poucas pessoas nas ruas. Passei pela Igreja católica, pelo palácio presidencial, mas acabei me refugiando na sombra de uma arvore em  um bar em frente à praça Che Guevara. O partido africano para a independência de Guiné e Cabo Verde (sim eram só um país no passado) eram de inspiração marxista, e por isto alguns monumentos e ruas recebem nomes de figuras revolucionarias. O grande líder da independência, Amilcar Cabral, é lembrado nos livros, muros e corações de toda a população.

Catedral de Bissau

Catedral de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Cabral

Amílcar Cabral, sempre lembrado.

Apesar da dificuldade do país, não encontrei nenhum pedinte durante minha viagem. Me senti bastante seguro, cheguei a sair a pé mesmo a noite para  jantar. Para pegar meu ferry, antes do sol nascer não foi diferente. Se bem que as poucas quadras até o porto facilitava. Deu tempo de tomar um café e comer um sanduíche enquanto a embarcação não saia. Não tinha encontrado muitas opções de comida de rua em Bissau, mas num lugar movimentado como o porto sempre tem algumas possibilidades. Comi um bolo tão gostoso que guardei algumas fatias para a viagem.

Sol nascendo no porto

Sol nascendo no porto

Aguardando a partida

Aguardando a partida

A embarcação é velha e lenta, tornando o trajeto longo, mas golfinhos quebram a monotonia e sempre tem alguém disposto a bater papo . Assim que se afasta do continente já da para avistar as primeiras ilhas. O Arquipélago dos Bijagós possui 88 ilhas, de todos os tamanhos e estilos. Pena que existe esta dificuldade tão grande de se locomover entre elas. Um ferry semanal para as principais, uma ou outra canoa superlotada de pessoas e mantimentos entre as ilhas, faz com que seja impossível conhecer mais de meia dúzia de ilhas em um mês se você não tiver um barco próprio. A ilha de Bolama tem a antiga capital, cheia de prédios coloniais abandonados, Orango tem os hipopótamos de água salgada, a João Vieira tartarugas e ótima vida marinha para mergulhos, Uracane cheia de flamingos, algumas são inabitadas, com praias paradisíacas, outras possuem populações com vida super tradicional, onde o rei ainda é quem manda. Falaram que Canhabaque é a mais tradicional de todas, cheia de lugares sagrados e lendas.

Ultima vista de Bissau

Ultima vista de Bissau

Arquipélago dos Bijagos

Arquipélago dos Bijagos

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

Algumas ilhas desertas

Algumas ilhas desertas

 

A hospitalidade dos Bijagós é conhecida, mas sempre vale lembrar que lá são eles que mandam, então suas terras, suas leis. O navegador português Nuno Tristão foi o primeiro europeu a chegar nas ilhas, em 1447. A receptividade naquela época não foi tão boa, e já que ele foi morto pelos guerreiros Bijagós.

Eu desci na ilha de Bubaque, depois de umas 8 horas de viagem. Já tinha feito alguns amigos que me recomendaram uma pousada não tão distante do centrinho. Outro amigo me recomendou o restaurante da irmã dele. Porções simples e honestas. Um prato com arroz e peixe com molho de amendoim pelo equivalente a um euro. Os pratos mais baratos dos restaurantes simples de Bissau e até os dos hotéis de Bubaque eram de pelo menos (o equivalente a) 5 a 7 Euros, então foi um alivio. Não preciso nem dizer que virei freguês, e ainda era um ponto de encontro de pescadores da região, então historias não faltavam…

Aterra a vista!

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Chegando em Bubaque

O centrinho de Bubaque é relativamente “desenvolvido”, a iluminação publica é com energia solar, e alguns botecos mostram jogos de futebol europeu, devido às antenas parabólicas. Alguns casarões abandonados, ruas de terra, e um ou outro carro passa com o intervalo de algumas horas.

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Não tem tantas coisas para fazer, a não ser brincar com a criançada, explorar os vilarejos mais típicos e bater papo com o pessoal. Dizem que em Guiné-Bissau se fala português, mas não é bem assim. Na verdade somente 15% da população fala português como língua corrente. A língua mais falada é o crioulo (Krioul), usada por mais de 70% da população. Existem diversas outras línguas nativas também, faladas por pequenas comunidades. O Crioulo de Guiné Bissau é uma língua que se originou da mistura do Português com línguas locais. Apesar de ser uma língua independente, tem um grande percentual de palavras portuguesas. Quando falam rápido é difícil de entender. Para descontrair, às vezes eu falava um português bem rápido e cheio de gírias, era risada na certa.

Brincadeir de criança

Brincadeira de criança

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

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Na ilha não tem transporte publico. Os poucos carros são de funcionários da ONU, ONGs, ou para transporte de mercadorias e de hotéis mais caros. Mas não é difícil de encontrar uma bicicleta para alugar. O problema é que todas que encontrei estavam em péssimo estado de conservação (esqueça freios e marcha), mas facilita bastante para distancias mais longas.

Presença da ONU e ONGs

Presença da ONU e ONGs

A Praia do Bruce, fica a 18 quilômetros de distancia, no extremo oposto da ilha. É um dia longo, pois precisa sair cedo, antes que o sol torne a pedalada proibitiva. Mochila carregada com frutas mangas, sanduíches e água, muita água. Não tem muito como se perder. É só achar a “ estrada branca” principal “ estrada” da ilha. Era uma estrada feita com conchas, daí veio o nome, mas são tantos os buracos que já é de terra mesmo. Muitos cajueiros, todos carregados com frutas. Eu tentava pedalar rápido mas a bicicleta e a estrada não me deixavam. A leve brisa me entorpecia com o cheiro de caju maduro, que aguçava mais um sentido naquele momento. A trilha sonora era de facões dos trabalhadores limpando a área e coletando coquinhos de palmeiras. Nas pequenas vilas que passava (alguns amontoados de casas) crianças vinham correndo para acenar, e as pessoas paravam para ver o estrangeiro passar. Gritavam “Branco, Branco”. Se surpreendiam quando eu respondia em português e vez ou outra alguém me acompanhava por alguns minutos de bicicleta. Depois de um longo trajeto, valorizamos ainda mais a praia e um refrescante banho de mar. As coisas devem mudar no futuro. Estão construindo um ou outro hotel, mas a praia ainda é deserta. Uma ou outra canoa, onde um porquinho buscava sombra para dormir da areia. Eu já preferi a sombra das arvores, um pouco mais para trás.

Estrada inicia bem

Estrada inicia bem

...mas logo fica assim!

…mas logo fica assim!

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Minha magrela!

Minha magrela!

Todos buscando uma sombra

Todos buscando uma sombra

Um dia longo e relaxante na praia cai bem, mas precisa programar bem a volta. Muito cedo o sol esta fortíssimo, por outro lado anoitece cedo, e é preciso considerar a possibilidade de furar um pneu ou acontecer alguma coisa com a bicicleta no caminho. Na volta crianças, mulheres, adultos e velhos estavam voltando do trabalho. Com seus facões com ponta reta, cestos cheios dos coquinhos vermelhos e cara de exaustos. Um senhor me pediu água, a dele tinha acabado fazia tempo. Era final de semana, um dia quente de verão, mas eu fui o único que pude aproveitar a praia. No dia a dia é preciso trabalhar, é a sobrevivência, mesmo num final de semana com sol.

Algumas pessoas pedalavam no sentido de Bubaque. Todas com sacos pesados amarrados nas bicicletas. Foi bom para puxar meu ritmo, pois não podia ficar para trás.

Em Bubaque logo já conhecia muita gente. Busquei um chip de celular nas diversas vendas, até finalmente encontrar. Havia ficado dias sem dar noticias, e a Bibi estava bastante preocupada. Com o chip em mãos, descobri que era preciso se registrar, mas só lá no continente. Parecia um caso perdido quando um dos meus amigos ligou para o irmão dele em Bissau. Ele pegou a moto e foi até uma agencia telefônica para cadastrar o meu numero no nome dele, e assim pude dar noticias.

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Quando chegou o dia de partir, uma pequena feira de rua se formou em frente ao barco. A cidadezinha estava viva e até apareceu um grupo cantando enquanto o ferry partia. Horas de viagem e cheguei em Bissau já estava escuro. Mas já me sentia em casa, caminhei até o mesmo hotel, sai para comer, parecei que já entendia bem como as coisa funcionavam na pequena capital.

Dia de feira em Bubaque

Dia de feira em Bubaque

Barco sempre lotado

Barco sempre lotado

Azulejos de Bissau

Azulejos em Bissau

Azulejo de Bissau

Azulejo em Bissau

Já estava quase na hora de me despedir de Guiné-Bissau, mas não sem antes experimentar as famosas ostras de Quinhamel. Uns 30 quilômetros a noroeste de Bissau, na beira da praia, um programa imperdível para quem gosta de comer bem. Dizem que final de semana fica cheio, mas dia de semana é muito tranquilo.

Um lugar que eu queria ter conhecido é a vila de pescadores de Varela, no extremo norte do país. A estrada de Santo Domingo para lá não é das melhores, e o transporte não é frequente. Eu tinha planejado de passar uma noite lá, mas rumores diziam que as fronteiras do Senegal com a Gâmbia tinham fechado novamente. Se isto fosse verdade (acabou não acontecendo) eu teria que contornar toda a Gâmbia (o que daria mais de 24 hs de viagem) para poder chegar em Dakar e pegar meu voo para o Brasil. Resolvi não arriscar.

No controle de passaporte de saída, esboçaram uma revista na mochila. Guiné Bissau esta na rota do tráfico de drogas internacional. Com tantas ilhas e uma marinha que só tem um ou outro barco, tornou-se a porta de entrada da cocaína que vai para a Europa. Encontraram meia dúzia de roupas sujas e algumas histórias. Deviam estar entediados, pois adoraram minhas historias de lá e de outros lugares que identificaram nos vistos estampados no passaporte. O papo estava bom, mas tinha que seguir viagem. Abriram um sorriso quando disse que recomendaria o país para meus amigos. “Obrigado, são sempre bem vindos…” acenava o oficial da imigração com um sorriso no rosto. E eu segui no meio de mulheres com vestidos coloridos, homens com sacos pesados nas costas e contrabandistas pela terra de ninguém até chegar no Senegal.