Suazilândia, a última monarquia absolutista da África.

Nas regiões rurais do continente africano ainda existem centenas, talvez milhares de pequenos reinados. Apesar da população local se submeter às decisões dos monarcas, as leis oficiais dos países são regidas por governos centrais. A “realeza” em muitos destes lugares é somente um titulo. Não que não exista um status financeiro e político gigantesco comparado com a população em geral, mas não existe abundancia como em um reinado imaginário.

São poucos os reinados absolutistas no mundo todo, mas existe uma pequena nação no sul da África que funciona desta maneira. A Suazilândia, um dos menores países da África, está espremida entre a África do Sul e o Moçambique. Lá o Rei Mswati III é literalmente “Rei”, tendo o direito de escolher o primeiro ministro, mudar leis e fazer o que bem entender do seu reinado. Não que estas ações não sejam feitas por ditaduras em outros países, mas neste caso isto é oficial, a forma de governo escolhida.

Todos os anos, no Festival Umhlanga (que dura 8 dias), também chamado de Swazi Reed Dance, o rei pode escolher uma nova noiva. O rei tira seu terno e se veste com roupas tradicionais para ver milhares de mulheres virgens dançando de top-less. Para muitas meninas é a forma de mudar completamente o seu futuro. Assim ele escolhe uma nova esposa para fazer parte do seu harém. Ele só se casa depois que elas engravidam, provando a sua fertilidade.  Hoje são quinze esposas e pelo menos trinta filhos. Após a cerimonia ele pendura as roupas tradicionais e vai para casa brincar com sua coleção de carros de luxo e cuidar da sua fortuna de mais de 200 milhões de dólares (segundo a Forbes).

Para chegar na Suazilândia eu pequei uma “Kombi” em Durban. Impressionante como o transporte publico é subestimado na África do Sul. Estrangeiros pagam fortunas por serviços como o Baz buz, micro-onibus que te levam de hostel em hostel em dias marcados, quando existem lotações muito mais baratas. As vezes parece difícil para as pessoas saírem da bolha…

A estação YMCA em Durban não é muito movimentada, e tem até uma ou outra barraquinha vendendo sanduíches de ovo enquanto você aguarda a van sair. A que ia para a Suazilândia era uma Sprinter novinha, bastante confortável. As estradas nesta parte da África do Sul são perfeitas, pistas largas nos dois sentidos, com asfalto de qualidade. Infraestrutura muito melhor do que no Brasil.

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No controle de passaporte da saída da África do Sul tive um problema com meu passaporte. Eu tinha carimbado a entrada do país, mas o oficial não havia lançado no sistema. Acabou demorando um pouco, mas nada demais. Isto chamou a atenção de outro estrangeiro que estava na van e começamos a conversar.  Inicialmente em inglês mas depois rimos quando descobrimos que os dois éramos brasileiros. O Jaime mora nos EUA faz muito tempo, e estava iniciando sua viagem de dois meses pela região sul da África. Inicialmente iria somente atravessar a Suazilândia a caminho do Moçambique, mas resolveu seguir comigo para conhecer um pouco do país.

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Vales da Suazilândia

A Suazilândia fica perto do Kruger, safari mais famoso da África do Sul. Isto faz com que o país receba uma quantidade razoável de turistas, pelo menos os que tem uns dias a mais. Desde a época do Apartheid, quando o turismo na África do Sul era boicotado, a Suazilândia já vinha se desenvolvendo nesta área. Estava meio sem saber para onde ir quando cheguei na pequena Manzini, cidade que é o centro econômico da Suazilândia. O Vale Ezulwini pode ter boas caminhadas, mas sabia que me irritaria demais com todos os casinos e spas que tem na região. Acabamos indo para o Vale Malkerns, onde nos hospedamos no Sondzela Backpackers. Um casarão colonial,antigo dentro da reserva particular Mlilwane Wildlife Sanctuary.

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Mlilwane wildlife Sanctuary

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Faltou o calor, mas tinha até uma piscina

Café da manhâ

Café da manhã

Existem algumas trilhas para caminhadas tranquilas na companhia de antílopes, zebras, gnus e javalis, tudo isto com jacarandás floridas e belas colinas ao fundo. Os macacos ficam ali perto da casa mesmo, nos arredores da piscina, talvez buscando algum resto do jantar que é servido ao redor da fogueira. Por falar em jantar, os próprios animais da reserva são abatidos e antílope foi o prato da primeira noite.

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Zebras

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África

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Jacarandá

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Visual

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Wild Beast

Existiam outros hospedes, dentre eles o Thomas e sua família. Ele é belga, mas se criou na França. Trabalha para o Medico sem Fronteiras e morou em diversos países, como Afeganistão, Burkina Faso e Haiti. Ficou fascinado pelas minhas viagens e pelo meu ultimo livro, “Uma Viagem pelos Países que não existem”.  Sua esposa é taiwanesa, e pedia para que ele traduzisse o que estava escrito. Ele lê português, então deixei um livro de presente. Segundo eles, seus filhos estão bem adaptados à vida na Suazilândia. A sogra veio de Taiwan para ajudar com o recém-nascido, que tem 3 meses.  Ao jogar pingue-pongue com eles falaram que eu segurava a raquete como os chineses. Não sei bem o que isto quis dizer.

Pose para a foto com os livros

Pose para a foto com os livros

Na Suazilândia existem diversas “Vilas Tradicionais”, locais montados para os turistas irem tirar fotos com swazis com suas roupas típicas e quem sabe tentar dançar musica folclórica. Já fui a lugares parecidos com estes em outros países, mas agora normalmente passo este tipo de “experiência”.

Numa noite, após o jantar, me avisaram que uma van nos aguardava para levar a um Lodge que fica dentro do mesmo parque. Teria uma apresentação de musica e dança típica. Eu e o Jaime nos juntamos à família belga-taiwanesa e outros turistas (sul-africanos e europeus) que vinham de uma excursão da África do Sul. O motorista colocou uma musica eletrônica, psy-trance a todo o volume. No caminho deu carona para sua irmã e outros dois rapazes, que caminhavam pelas ruas de terra que davam acesso ao Lodge. Eles eram os dançarinos que se apresentariam naquela noite. Vestidos com roupas comuns, levavam as “Roupas tradicionais” numa mochila da Adidas, provavelmente fabricada na China. Viva a globalização.

Sentamos nos troncos ao redor da fogueira e esperávamos os hospedes do Lodge terminarem seus jantares a luz de vela para a apresentação começar. Iniciou uma ventania forte e o tempo mudou completamente. Nuvens chegaram rápido e cobriram as estrelas e a lua que estava quase cheia. Acabou a luz. Torcemos para a van chegar antes da chuva, e foi o que aconteceu. Voltamos para nosso dormitório e a musica mais tradicional que escutamos foi a do (provável) Dj israelense, que fez a trilha sonora daquela noite, combinando com os raios e trovoadas.

No domingo, antes do Jaime seguir para o Moçambique e eu para o Zimbábue (via Joanesburgo), decidimos passar na igreja. Segundo o Thomas, nada mais típico na Suazilândia que um domingo na igreja. Já no transporte publico podíamos observar mulheres com seus melhores vestidos e pastores (os de pessoas, não de animais) com seus cajados. Queríamos ir a uma missa da Igreja de Zion, mas acabamos em uma Igreja Anglicana mesmo. Igreja lotada e o coral muito bonito. Os hinos africanos em geral são muito bonitos. Foi uma boa despedida da Suazilândia. Pegar transporte foi fácil, o pátio parecia que tinham mais “Kombis” que pessoas.

Igreja

Igreja

trans

Patio dos transportes

Na ultima parada antes da imigração fui num quiosque gastar meus últimos Emalangeni. Ele tem o valor equiparado ao Rand (que também é aceito na Suazilândia), mas não é aceito fora do país. Comprei dois bolinhos e a moça me deu um terceiro, o ultimo (que já estava meio quebrado). O seu irmão apareceu nesta hora. “Você não vai tomar café?” Expliquei que só estava gastando o restante de dinheiro antes de entrar na África do Sul. Eu te pago, disse ele antes de me servir. Ele tinha acabado de voltar de uma temporada de trabalhos no Canada. Juntou dinheiro e voltou para a Suazilândia para empreender. Me conte, como é viajar com a mochila nas costas, insistia. A conversa não se prorrogou muito, pois o meu transporte estava para sair. Trocamos os contatos de facebook e parti.

Lesoto, o reino das montanhas.

A antiga Basutolândia foi uma colônia africana do Reino Unido, após a independência passou a se chamar Lesoto. Olhando no mapa é difícil de acreditar que não foi incorporado à África do Sul, pois está dentro deste país. Um fato interessante é que praticamente toda a população é Basoto, diferente dos outros países africanos, que são constituídos por diversos grupos etno-linguísticos.

Eu estive muito próximo de visitar o Lesoto em 2009, quando iniciava minha viagem pela África. Faria sentido visitar o país, já que estava explorando as fantásticas montanhas de Drakensberg, bem próximo da fronteira do Lesoto. Mas existia um problema, o Lesoto exige visto para turistas brasileiros e não pode ser feito na fronteira. É preciso ir até uma embaixada (Durban) e aguardar alguns dias. Na época eu fiquei muito bravo, tinha conseguido carona para ir para a Namíbia e tinha que encontrar com eles em Joanesburgo em poucos dias, portanto não daria tempo. Cheguei a ironizar o Lesoto no meu livro “De cape Town a Muscat: Uma aventura pela África”, onde chamei o país de “Poderoso reino do Lesoto”.  Peço desculpas publicamente. Não era para eu ter ido. A maioria dos turistas parte da África do Sul e vão até o Sani Pass, o belo passe nas montanhas que divide os dois países. No máximo fazem uma caminhada ou tomam uma cerveja no “Bar mais alto da África”. Teria sido pouco, hoje eu reconheço. O mais justo seria eu ter mencionado o país como “O belo reino do Lesoto”!

Quase oito anos se passaram e eu estava aterrissando em Maseru, a pequena capital do Lesoto. O aeroporto fica um pouco afastado, região rural eu diria, e não tem movimento algum. Algumas vans privadas faziam o transfer até o centro da cidade, mas a preços exorbitantes (pelo menos para um mochileiro). Nada de táxi ali na frente ou ônibus. O jeito foi caminhar até a rodovia e esperar algum transporte. Achei que conseguiria uma carona, mas acabei saltando na primeira van que apareceu. Era um táxi coletivo e eu era o primeiro cliente. Passaram por diversos vilarejos, dando voltas e buzinando para recolher passageiros, até chegar a hora de seguir para Maseru. Tudo isto após uma viagem de avião Curitiba-São Paulo- Joanesburgo-Maseru, com as devidas conexões e esperas nos aeroportos. Confesso que a buzina incomodou, mas não me impediu de metralhar o cobrador com perguntas sobre o país e dia a dia dele. Estava cansado, mas feliz por estar de volta à estrada.

Maseru é pequena e com poucas atrações, fácil de caminhar pela região central, mas não queria perder tempo, pois ainda tinha uma etapa da viagem para cumprir. Fui até o estacionamento das lotações e não demorei muito para achar um “táxi” que iria até Semonkong. Interessante que no Lesoto chamam tanto táxi como lotações de “táxi”, o que gera certo problema de comunicação, pois as vezes acham que você quer um carro só para você.

A lotação estava quase cheia, então não demorou para sair. Uma estrada simples, de asfalto novo, sem nenhum buraco na pista. Já nos arredores de Maseru um visual de chapadas, com montanhas em forma de mesa, mas logo foram ficando mais altas e em outros formatos. Passamos por Roma, onde está a universidade do país e por alguns passes de montanha. A velocidade não era alta, devido às curvas, subidas, pedras que rolaram para a pista e algumas ovelhas que insistiam em atravessar a estrada, para desespero dos pastores. Até poucos anos o final do trajeto era em estrada de terra, mas agora todos os 120 km são asfaltados.

Semonkong é minúscula. O centrinho é basicamente formado pelo pátio de transporte, onde esporadicamente tem um ônibus, uma ou outra lotação, uma ou outra caminhonete e mais de uma dezena de cavalos. Fácil de ver que o transporte oficial da região são os cavalos e burricos.

Fui caminhando até o hotel que ficava  já nos arredores do vilarejo. Praticamente todos os homens estavam vestidos da mesma maneira. Enrolados em um cobertor (preso por um grampo), bota, e um gorro onde só fica o rosto (ou os olhos) aparente.

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Apesar de o verão estar se aproximando, na recepção do hotel me deram todas as instruções para ascender à lareira caso esfriasse muito a noite. Um quarto coletivo limpo, banheiro com água quente e tudo, num chalé estilo refugio de montanha.

Adorei caminhar pela região, observar o dia a dia dos pastores, não só no vilarejo, mas principalmente nos arredores, onde é possível ver também diversos pássaros, entre eles águias e Íbis carecas. Casas de pedra redondas se misturam com outras de telhado de zinco, completando a paisagem.

Mais próximo do hotel, uma ou outra pessoa pode se aproximar de você para se oferecer como guia ou para alugar um cavalo, mas muito longe de ser um assedio. Fácil de se localizar pela região, inclusive de encontrar o caminho para a Cachoeira Maletsuyane. A trilha é relativamente bem marcada, mas na duvida sempre existem pastores dispostos a apontar o caminho. Ao cruzar com os pastores o mais comum é escutar “Lumela…”, forma que se cumprimentam por lá. Muitas vezes entediados, ao serem abordados adoram conversar, ou pelo menos tentar, já que ao contrario das cidades, poucos falam inglês. Garantia de boas risadas.

Pastores com seus cobertores

Pastores com seus cobertores

Tinha acordado cedo para fazer a caminhada até a Cahoeira Maletsuyane, pensando que poderia fugir da chuva que muitas vezes vem no final de tarde, mas não tive sorte. O tempo ficou fechado quase todo o dia, chegou a cair uns pingos até, mas nada disto tirou a beleza da região.

Semongkong

204 metros de queda

Semongkong Semongkong

A cachoeira parece desenhada, com seus 204 metros de queda, onde o rio segue pelo cânion. Um silencio quase absoluto, somente quebrado pelo vento, passaros e pelas ovelhas. Poderia ter sido um passeio relativamente rápido, mas acabei me empolgando e seguindo pelo cânion, buscando as melhores vistas da região e gastando longos minutos sentado, somente contemplando.

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Cachoeira Maletsuyane

O Lesoto é todo montanhoso, não existem muitas estradas, portanto muitas vezes é necessário dar grandes voltas para chegar ao seu próximo destino. O transporte não é frequente e muitas vezes é melhor voltar até a capital, Maseru, do que ficar na beira da estrada, pois já passam lotados. Foi o que eu fiz. Não sabia muito bem qual caminho seguir, mas a falta de transporte ajudou. Peguei o que tinha, uma estrada secundária, atravessando o país pelo meio, num trajeto que diziam ser o mais bonito. Desta vez a lotação estava superlotada. Alem dos passageiros, malas e sacolas ocupavam qualquer espaço que pudesse estar vazio. O motorista parou para comprar um jogo de pneus, que foram devidamente acomodados dentro da van também. Caixas de pintinhos e sacos com mantimentos não poderiam faltar. Uma criança no braço de sua mãe não parava de me encarar. Tentei fazer caretas, mas a expressão dela não mudava. Um olhar fixo, que só desviava quando tentava mamar. Os seios murchos provavelmente não forneciam mais leite, mas acalmavam o bebe na longa viagem. Vez ou outra a mãe dava uma colherada de iogurte, rapidamente aceita, antes de grudar novamente no seio castigado.

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Vilarejos nas montanhas

Paisagem exuberante, muitas curvas e um sobe e desce sem parar. Passei pela represa em Mohale, onde estão construindo um grande complexo turístico. Segui em frente, atravessando o passe Mokhoabong até chegar em Thaba-Tseka. Nada de hotéis para turistas, mas sempre tem opções onde trabalhadores locais e do governo se hospedam. Para minha sorte, o café da manhã reforçado estava incluso(ovos, bacon, salsichas, batata, feijão). Mal eu sabia que passaria o dia inteiro na estrada. No mapa parecia fácil ir de Taba-Tseka até Mokhotlong, mas não é bem assim. As estradas pelas montanhas são traiçoeiras, ainda mais quando termina o asfalto. Acordei cedo e fui para o pátio de transporte. Somente uma caminhonete e um ônibus velho que iria de volta até a Capital, Maseru. Chegaram a me recomendar que eu viajasse todo o caminho de volta para pegar a estrada principal até Mokhotlong, o que duraria dois dias de viagem. Insisti se não havia nenhuma alternativa. Tentei carona na beira da estrada por uma hora, mas nem pensar em algum veículo indo naquela direção. Um senhor me confortou, dizendo que existia uma van que iria até Linakaneng, uns 50 quilômetros dali, e de lá eu poderia seguir viagem. Fiquei batendo papo e para minha surpresa chegou a tal lotação. Eu era o primeiro passageiro e temi ter que esperar horas para lotar. Mas não foi o caso. O preço da passagem é mais alto, mas saem antes de encher. Deram umas voltas pela região recolhendo pouco mais de meia dúzia de pessoas e eu pude “passear” por belas paisagens nos vilarejos entre as montanhas.

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Visual da estrada

A viagem iniciou e eu nunca iria imaginar que poderia demorar tanto. Com o final do asfalto, as diversas subidas e paradas para pegar passageiros no caminho (que lotaram a van) a viagem acabou demorando mais de três horas.  Nessas horas que vejo como a viagem depende muito da forma que sua mente esta preparada. Se você quer chegar, para fazer uma atividade ou ver algo, isto pode te irritar muito. Mas se esta tranquilo, curtindo a musica tradicional tocando no radio, batendo papo com o motorista e curtindo o visual incrível ao lado, a sensação do tempo é diferente.

Linakaneng é um amontoado de casas no meio da montanha. Destaque para a escola e o grande campo de futebol. Algumas “lojas” que vendem mantimentos e tudo que alguém pode precisar, de bota a corda. Uma van com duas pessoas dentro estava parada no patio. O motorista tinha feito contato com eles por telefone falando que eu gostaria de seguir viagem, parecia que estavam só me esperando. Deixei minha mochila para guardar lugar e pedi para esperarem para eu comprar algo para comer. O bolinho de banha, uma espécie de sonho sem recheio é a opção mais barata e fácil de encontrar. Pães caseiros também estão disponíveis, assim como salsichas.

Linakaneng

Linakaneng

Pastores em Linakaneng

Pastores em Linakaneng

Logo descobri que a lotação esperaria passageiros para sair. Incrível como em um vilarejo no meio das montanhas, o transporte só sai quando os passageiros decidem. Não tem um horário marcado, no estilo quem não estiver lá perde o único transporte do dia. Para valer a pena para o motorista, só com lotação máxima. Demorou algumas horas. Deu tempo de ver as crianças da escola cantando o hino, depois diversas musicas antes de correrem brincando para suas casas. Pastores atravessarem a cidade com seus rebanhos e cachorros. Amigos apostarem corrida a cavalo e outras cenas no dia a dia de um vilarejo de montanha. Tudo com um visual incrível atrás.

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Finalmente seguimos pela montanhas e a vantagem da van estar cheia é que não parava tanto para pegar passageiros. As curvas e subidas não deixavam a viagem fluir, mas em certo momento chegamos no asfalto novamente.

Placas para cuidar com o gelo e o perigo da neve mostravam que o Lesoto esta longe da África do imaginário coletivo. Para completar a quebra dos estereótipos, diversas placas apontando para as estações de esqui da região. Como era verão, nada de neve, mas usam as pistas para atividades como mountain bike por exemplo.

No ultimo trajeto, excelente estrada até Mokhotlong. Nem tive como escolher o hotel, pois uma chuva torrencial iniciou e peguei o primeiro que apareceu. Região muito bonita onde o turismo tem se desenvolvido rapidamente. A proximidade da fronteira com a África do sul com certeza ajuda. Diversas opções de caminhada pelas montanhas mais altas do sul da África ( Thabana Ntlenyana tem 3482 metros).

Com a chuva e altitude a temperatura despencou a noite. O único transporte até o Sani Pass é o que segue para a África do sul. Devido ao mau tempo, desisti de ficar em Sani. Caminhadas com chuva e neblina não seriam tão proveitosas. A estrada que era perfeita até a fronteira, virou de terra quando entrei na África do Sul. Um zigue-zague, onde muitas vezes tínhamos que esperar caminhonetes que traziam turistas para passar o dia no Lesoto passar para podermos fazer a curva.

Sani Pass

Sani Pass

Imigração da África do Sul feita, o transporte não segue até Underberg, a primeira cidade. Ele para num quiosque onde se espera outra van (com preço alto para a pequena distancia). Com chuva e nada de interessante acontecendo, aproveitei uma oportunidade e peguei carona com um alemão que deixava um estrangeiro por ali. Uma carona até Underberg me ajudaria bastante, mas nem acreditei quando descobri que ele estava inda para Durbam, minha próxima parada. Me deixou na porta do Hostel, dei um livro de presente para ele e fui tomar uma cerveja.

 

Lituânia, a primeira Ex-república Soviética

A Lituânia foi a primeira das 15 republicas soviéticas a proclamar independência, ainda no início dos anos 90. Junto com Estônia e Letônia, é onde se encontra um dos maiores sentimento antissoviético até hoje.  Enquanto a maioria das antigas repúblicas soviéticas formou a CEI, Comunidade dos Estados Independentes, onde se apoiavam entre si, os países Bálticos acabaram fazendo parte da OTAN, Organização do Tratado Norte, ficando em lados opostos no tabuleiro do jogo geopolítico mundial.

Interessante que foi justamente um dos últimos países da antiga URSS que conheci, pois já havia passado pelo Turcomenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Azerbaijão, Geórgia, Rússia, Armênia, Estônia e Letônia.

Nossa primeira parada no país não ficava muito longe da fronteira com a Letônia. Nos arredores de Siauliai, está localizada a “Colina das Cruzes” (Kryziu Kalnas) um dos maiores símbolos de resistência antissoviética do país. As cruzes começaram a ser colocadas lá ainda no inicio do século 19, após uma rebelião contra o Império Russo, mas foi nos tempos Soviéticos que o numero de cruzes passou a aumentar. Quanto mais os soldados retiravam, mais cruzes eram colocadas, justamente como uma forma de mostrar a sua identidade e religião. Interessante que originalmente os lituanos eram pagãos, inclusive sendo apontados como o ultimo local da Europa onde se converteram ao Cristianismo, mas o nacionalismo acabou sendo associado ao catolicismo. Hoje já são mais de 200 mil cruzes.

Mais de 200 mil cruzes

Mais de 200 mil cruzes

Colina das Cruzes

Colina das Cruzes

No estacionamento oposto à colina, lojas vendem crucifixos e suvenires, além de um restaurante bem equipado para atender os turistas. Carros e ônibus de excursões trazem peregrinos de diferentes nacionalidades. Muitos italianos, e foi justamente um deles que falou uma das frases mais marcantes da viagem. Indo até a colina com o Gabriel no carrinho, ele ia cantarolando e emitindo sons muito engraçados. Um senhor olhou para ele e falou: “ Que bambino contento!” Não existia outra frase para definir o Gabriel nesta viagem. Ele sorria para todos, adorava passear com o carrinho e estar 24 horas com os pais. Mesmo somente com seus sete meses, aproveitou muito a viagem, a sua maneira.

Gabriel também colocou uma

Gabriel também colocou uma

Estávamos em contatos com um casal de amigos lituanos que conhecemos no Laos, uns 6 anos antes. Tentamos nos encontrar, mas como era verão, tinham ido viajar. Ofereceram sua casa para ficarmos na capital do país, Vilnius. Agradecemos mas resolvemos conhecer outra cidade do interior antes, Trakai, que ficava algumas horas de viagem de onde estávamos, cortando o interior da Lituânia.

Trakai fica num cenário de filme. São dezenas de lagos, casinhas coloridas, e uma ilha com um castelo no meio.  Maravilho! Era de onde o Grand Duque comandava seu reinado no século 14, e hoje virou um disputado balneário de final de semana, devido à proximidade de Vilnius.

Castelo de Trakai

Castelo de Trakai

Dezenas de lagos em Trakai

Dezenas de lagos em Trakai

Lá também está uma das ultimas comunidades Caraítas do mundo, um ramo do judaísmo que rejeita as tradições orais e autoridades, baseando-se basicamente na Torá.

Os preços da Lituânia nos surpreenderam bastante, sendo muito mais barato que os outros países da região. Aproveitando o tempo bom que estava fazendo (o final da viagem deve ter influenciado também), demos inicio a uma etapa da viagem onde não levamos mais o Gabriel para dormir cedo. Anoitecia tarde, e queríamos aproveitar um pouco mais.  Ele não teve dificuldades em dormir no carrinho, tanto de tarde como a “noite”.

Gabriel se preparando para dormir

Gabriel se preparando para dormir. Ainda bem que o carrinho deitava.

Vilnius foi outra agradável surpresa. Estava vazia, pudemos aproveitar com calma. Ficamos hospedados num ótimo AirB&B bem na cidade velha. Caminhamos pelas ruazinhas entre os belos prédios e diversas igrejas, muitas no estilo barroco. Sempre parando para um sorvete ou cerveja para refrescar o calor que tinha chegado. O Gabriel acompanhava no leite e frutas. Passamos a não cozinhar mais para ele, e arriscamos batatas amassadas, verduras e frango dos restaurantes. Ele aprovou.

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Eu também adorei experimentar os diversos pratos típicos da região, e não me intimidei nem para o ” Bulviniai Vêdarai”. Intestino de porco recheado com batatas!

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Existe um bairro chamado Uzupis, que significa “do outro lado do rio” (Vilna).  Popular entre artistas, proclamou sua independência no dia primeiro de abril de 1997, formando a República Uzupis. Confesso que achava que era algo mais sério, como tantos bairros anarquistas que travam batalhas judiciais com as prefeituras em diversas cidades europeias.  Mas não deixa de ser divertido.  Criaram uma constituição com 39 artigos, escritos em diversas línguas, exposto na rua principal. Galerias, cafés e bandeiras da República Uzupis dão um clima para o bairro, que tem até uma estatua do Frank Zappa.

República Uzupis

República Uzupis

Coração da "República"

Coração da “República”

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Dentre os artigos da constituição estão os curiosos, ” O Homem tem direito a ser feliz” e “O Homem tem direito a ser infeliz”.

Já na parte nova da cidade, está o Museu da KGB, no próprio prédio onde funciona a organização. Dezenas de fotos, documentos e filmes mostrando a ocupação Soviética, Nazista e a luta pela independência. Não deu para ler muito, o Gabriel queria movimento, mas muito interessante. Já as celas da prisão e câmaras de execução não eram o lugar mais recomendados para ele. Escuras e apertadas, e não dava para circular de carrinho por causa das escadas.  Fomos para as praças e parques, onde ele voltava a cantarolar, e ser o “Bambino contento” de toda a viagem. Era só atender às necessidades, e o sorriso a a musica vinham juntos…

Prédio da antiga KGB

Prédio da antiga KGB

A KLM ofereceu o bercinho gratuito nas viagens de ida e volta, o que ajudou muito!!

KLM berth

Com certeza a ultima vez que usou o bercinho do avião, foi na medida!

Música, dança e palácios!

O folclore letoniano, também chamado de Dainas, foi uma das mais importantes formadas de manter a cultura e identidade do povo que viveu nesta região. São mais de 1,2 milhões de textos e 30 mil melodias, alguns com mais de mil anos.  Assim como na Estônia, muita mitologia envolvida, e é muito interessante como povos com identidades próprias, demoraram tanto tempo para constituir um país.

Entramos na Letônia atravessando uma pequena ponte de madeira, vindo do interior da Estônia. Estávamos bem perto da fronteira da Rússia, portanto teríamos que praticamente atravessar o país para chegar na capital, Riga. A chuva tinha voltado, e a estrada A2 não era tão boa quanto imaginávamos. Longe de ser “padrão União Europeia”. Muitos reflorestamentos ao longo da estrada e os caminhões carregados com toras tornavam o transito mais lento. Torcíamos para que o tempo melhorasse quando chegássemos a Singula, cidadezinha na beira do Parque Nacional Gauja. Infelizmente o tempo só piorou. Chovia forte, e só paramos mesmo para tomar uma café e comprar fraldas para o Gabriel, pois já estavam acabando nestas alturas. Até tentamos procurar alguns dos castelos, mas mal dava para enxergar. Achamos que as trilhas, cavernas  e visual ficaria para outro dia, mas acabou ficando para outra viagem.

Já que o tempo não ajudava, fomos para Riga, uns 50 quilômetros dali. Transito bastante congestionado, mas sobrevivemos e chegamos no AirB&B que havíamos alugado no centro antigo da cidade. Era um ático bem charmoso, todo reformado, por um bom preço. Só não tinha cortinas e blackout, o que atrapalha no meio do verão, onde anoitece depois das onze da noite. Improvisando penduramos cobertores e toalhas para escurecer o ambiente e garantir o sono do Gabriel. A anfitriã, muito simpática, nos deu muitas dicas e ficou conversando bastante quando nos recebeu.

Gabriel feliz no nosso quarto

Gabriel feliz no nosso quarto

Interessante como nos referimos aos “Bálticos” como se fossem países parecidos. Ali a língua era outra, e Riga completamente diferente de Tallinn (o mesmo aconteceria com Vilnius).

Old Riga

Old Riga

Aproveitei uma trégua da chuva, e os dias longos, para me localizar na cidade velha. Estávamos hospedados em um lugar super central, o que facilitou bastante conhecer tudo, e até voltar para casa quando achássemos necessário.

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Nos dias seguintes nos surpreendemos com a melhora do tempo. Pudemos aproveitar até dias de sol. Muito melhor, ainda mais com as feiras de rua, musica e danças típicas que estavam por todos os cantos. O Gabriel continuava adorando passear de carrinho. Quando ele dormia aproveitávamos para comer em algum restaurante ou aproveitar alguns dos muitos cafés.

Danças tipicas

Danças tipicas

Folclore

Folclore

Apesar de não ter a aparecia medieval de Tallinn, gostei muito do estilo de Riga. A arquitetura dos prédios, as belas igrejas e até mesmo o astral me pareceu um pouco mais autentico. Também estava cheio de turistas, mas as apresentações folclóricas, as musicas e danças davam um astral para o lugar. Experimentamos algumas comidas típicas num restaurante, e nos abastecemos nas feirinhas para os piqueniques que estavam por vir.

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Depois de dois dias na capital, fomos para o interior, conhecer alguns dos mais bonitos palácios do país. Primeiro foi o Mezotne Pils, um dos melhores representantes do classicismo letoniano.  O Gabriel continuou sendo um ótimo companheiro de viagem, mas aproveitou mesmo o passeio pelos jardins do palácio. Parte do palácio foi transformada em hotel, e o restante em museu para visitação.

Pils

Mezotne Pils

Pils

Jardins do Mezotne Pils

 

Paisagem rural e estradas de terra até chegar a Pilsrundale, onde está o palácio mais bonito do país.

Interior da Letônia

Interior da Letônia

Rundale impressiona já de fora, com seus imponentes portões.  Antes de entrar aproveitamos para fazer um piquenique gostoso com as guloseimas que havíamos comprado, e complementamos com morangos e cerejas locais. No palácio não pode circular com o carrinho de bebe, e as escadas também não ajudam. A Bibi foi conhecer alguns dos quase 150 cômodos, e eu fiquei com o Gabriel pelos jardins. Se no Mezotne Pils os jardins tinham aquele clima de fazenda, com arvores altas e muita sombra, no Rundale era todo florido, planejado, com chafarizes, tuneis e paisagismo caprichado.

Piquenique

Piquenique

Portões do Pilsrundale

Portões do Pilsrundale

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Esta região dos palácios fica no extremo sul da Letônia, já bem perto da fronteira com a Lituânia, então com uma curta viagem já estávamos no ultimo país que conheceríamos nesta viagem.

Estônia, terra de pagãos!

A Estônia só se estabeleceu como país após a primeira Guerra Mundial, e mesmo assim logo foi ocupada. Antes disto eram povos,  sempre tentando uma  identidade como nação. Foram dominados por finlandeses, suecos, dinamarqueses, alemães e russos, cada um deixando suas marcas. O cristianismo foi imposto aos então pagãos que moravam lá. Primeiro os católicos, depois os luteranos e por fim os ortodoxos. As belas construções ficaram, mas a religião não. Menos de 15% dos estonianos se dizem religiosos, sendo apontando como o país menos religioso do mundo. Por outro lado, existem novas ondas de espiritualidade neo-pagãs.  A adoração da natureza remete ao inicio da identidade e ao folclore estoniano. Existe uma rica mitologia que tem sido resgatada como forma de identidade nacional e negação dos invasores do passado. Num país coberto por florestas não é difícil de “adorar” uma arvore. O feriado mais importante do país é o Jaanipaev, onde dançam e cantam ao redor de fogueiras, no dia que chamam de “metade do verão” (solstício-noite mais longa do ano). Dizem que teve origem na queda de um meteoro a mais de 4 mil anos atrás. Assim como o dia 25 de dezembro (solstício de inverno, noite mais curta) foi incorporado pelo cristianismo, o Jaanipaev também foi. Chamam de São João, e tem muita gente no Brasil comemorando a data mesmo sendo no inverno, cantando e dançando nas fogueiras de festa Junina, sem nem imaginar que estão praticando “paganismo estoniano”.

Chegamos à capital da Estônia, Talin, de ferry. O porto fica próximo do centro antigo, onde iriamos nos hospedar. Com uma bagagem a mais do que estamos acostumados, mais um bebe e um carrinho, achamos melhor aceitar a oferta dos donos do AirB&B em nos buscar. Cobrariam somente 5 Euros e nos levariam até o nosso apartamento.

Ficamos hospedados a uma quadra de um dos portões de entrada da cidade velha, numa rua secundária, bem calma. Uma localização excelente, mas uma pena que a rua que dava acesso até a praça central estava em reforma.

A cidade murada de Talin é linda. Num estilo medieval, faz jus a fama de ser uma das mais bem preservadas da Europa. Quem diz que parece que ela saiu de um conto de fadas também não está mentindo. As ruas de pedra, a arquitetura e as torres das igrejas (a igreja de São Olavo foi a construção mais alta do mundo na Idade Média)  encantam qualquer um. Patrimônio da Unesco, as construções de pedra sobreviveram ao tempo, e a cidade também contou com a sorte de não ter sido bombardeada na Segunda Gerra.

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Chegamos num domingo e tinha até uma feirinha na praça central. Estava tudo movimentado, bem movimentado. Verão na Europa tem destas coisas, tinha turistas para todos os lados. Talvez o fato da cidade ser pequena dê um aspecto de cheia mais facilmente.

Junto com os turistas vem as pessoas tentando vender algo ou te convencer a entrar nos restaurantes. Nada de muito insistente, mas com certeza quebrou um pouco o clima, assim como algumas pessoas posando para fotos com armaduras para ganhar uns trocados.

Ma isto foi mais a primeira impressão, nos outros dias nos acostumamos e acho que as coisas ficaram mais calmas também.  Colocamos à prova o carrinho guarda-chuva que compramos para a viagem. Foi o menor e mais barato que encontramos na internet, e compramos no site de um supermercado. Ele aguentou bem as ruas de pedras da cidade. Trepidava bastante, e o Gabriel achando que era embalo acabava dormindo.

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Mesmo anoitecendo muito tarde, respeitamos o horário de dormir do Gabriel. Também comprávamos coisas no supermercado e fazíamos comida para ele. Podia comer em casa ou a marmita que levávamos e esquentávamos nos restaurantes. Não foi desta vez que ele experimentou a comida estoniana. Eu também fiquei adiando para comer a sopa de rena e acabei esquecendo. Fica para uma próxima.

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Quando íamos em lugares mais longe, ou que precisaria subir escadas, eu levava o Gabriel no “Canguru”. Quando queria chegar rápido em um lugar também, sempre com o carrinho dobrado na mão.

Adoramos caminhar pela cidade, esperar os grupos de turistas passarem para curtir um pouco os lugares sozinhos. O ritmo da viagem foi mais lento, sentávamos para comer, tomar uma cerveja ou café e ver a vida passar com ainda mais frequência que em outras viagens. O Gabriel adorava tudo. Estava super animado e sorridente todas as horas. Já se mostrava um grande companheiro de viagem, só tínhamos que respeitar seu ritmo e suas necessidades.

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Inicialmente o nosso plano era de viajar pela costa da Estônia até a Letônia, beirando o Mar Báltico. De ultima hora decidimos fugir do fluxo de turistas e explorar um pouco o interior. Sabíamos que não tinham grandes atrações, mas quem sabe encontraríamos belas paisagens e vilarejos na região rural.

Não foi uma decisão acertada. Tivemos azar com o tempo e pegamos muita chuva. O país inteiro é plano (ponto mais alto tem 300 metros!), então a paisagem muda pouco. A estrada até Tartu é praticamente uma reta. Pouco pudemos conhecer da cidade, que é a mais antiga do país. Uma cidade universitária, com um belo centro antigo, mas vamos mesmo é lembrar da chuva torrencial que caía. No trecho até Voru melhorou um pouco, saiu um sol e céu azul, dando até para curtir um pouco mais a viagem.

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É uma região com cultura e línguas próprias, com casarões de madeira antigos e prédios soviéticos.  Ali perto está Rouge, a cidadezinha que estávamos buscando. Muitas colinas com uma serie de  lagos, com vendedores de morangos na beira da estrada. A região mais bonita que encontramos no interior da Estônia. Depois disto foi uma aventura, por estradas de terra que nem pareciam estar dentro da União Europeia. Uma pequena ponte de madeira e uma placa indicavam que estávamos entrando na Latvia (Letônia) onde pegaríamos um pouco mais de chuva, pelo menos no primeiro dia.