A caixa, os vasos chineses e os temperos.

Algumas vezes, quando não tínhamos como mandar por alguém, enviávamos pacotes para o Brasil via marítima. O pessoal sempre se assustava, nos alertava que poderia demorar até seis meses, mas não tínhamos pressa (além de ser muuito mais barato). Pacotes chegaram da Índia e do Irã.

Quando estávamos em Xinjiang, a Bibi cismou que queria comprar uns vasos chineses. Não lembro se contei no blog, mas ficamos cuidando da loja do tiozinho enquanto ele providenciava uma caixa. Depois de pelo menos meia hora ele voltou com uma caixa metálica, com alça e tudo, onde pudemos colocar os vasos. Tínhamos que sair cedo para o lago KaraKul e não tivemos como despachar pelo correio. Lá fomos nós com nossas mochilas e a tal maletinha de metal por toda a Karakoram Highway do Paquistão. Os irmãos da Bibi, que nesta época estavam com a gente, poderiam levar para o Brasil, mas como acabamos enviando outras coisas,  não tinha mais espaço para a tal maletinha.

A caixa metálica era motivo de piada. Falávamos que estava cheia de dinheiro, e um amigo Tcheco dizia que era para dizermos que era o coração do Bin Ladem. Encontramos com uns franceses que tinham conhecido o nosso amigo Tcheco. O Tcheco tinha contado para eles de uns brasileiros que viajavam com uma caixa metálica suspeita!! haha Já tínhamos virado lenda urbana!

Chegando em Gilguit, finalmente despachamos a caixa (junto com alguns temperos), imaginando que deveria demorar os 4 a 6 meses tradicionais. Já de volta ao Brasil, tentamos rastrear com o código que tínhamos, mas nada de saber onde estava a maldita encomenda. Depois de um tempo, apelamos para amigos paquistaneses, que foram no correio, mas não tiveram nenhuma novidade. Eles diziam, “Inshallah vai chegar!!”

Era a primeira encomenda que não chegava, como os simples cartões postais do Iraque e Uzbequistão também nunca chegaram, já havíamos perdido as esperanças, quando esta semana, OITO meses depois chegaram os vasos e os temperos, tudo devidamente dentro da tão famosa caixa!!

O coração do Bin não veio!

Para comemorar, hoje teve comida paquistanesa!!! Hum, alguém quer a receita?

 

Hum!

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Jeevay, Jeevay, Pakistan!!

Rawalpindi fica ao lado da moderna capital Islamabad. Rawalpindi é a parte movimentada, viva da cidade. Rodamos os bazares  tentamos visitar o local onde pintam os caminhões  mas estava tudo fechado. Era o ultimo dia de Ramadan. Se todos iam festejar, nos também fomos. Pegamos um autoricksha ate Islamabad. Cidade planejada, com avenidas largas e rápidas  Bem estilo Brasilia. Alguns bairros com muitos casarões mostravam a parte rica do Paquistão  que ainda não tínhamos conhecido. Demoramos um pouco para achar a casa de carnes que procurávamos  mas valeu a pena. Estava muito bom!!! Demos uma volta pelo shopping, que era todo no térreo  todo espalhado. Na volta passamos para ver a mesquita Sha Faisal toda iluminada e pegamos um engarrafamento interminável  Tava todo mundo na rua, tinha iniciado o Eid al-Fitr, feriado depois do Ramadan, onde se come durante dias!

Cabine do caminhao

Mesquita sha Faisal

Ficamos receosos de não conseguir transporte para Lahore neste período  mas acabou dando tudo certo. Não foi com a melhor companhia de ônibus  mas na beira da estrada conseguimos parar para comer alguma coisa. A estrada não era boa, era excelente, mas o calor estava infernal. Para ajudar, nada de ar condicionado nem das janelas abrirem. Chegamos fácil no hotel que pretendíamos ficar, mas era um pulgueiro. A segunda opção estava fechada e depois de bater bastante a cabeça  acabamos apelando para o “eu mereço . Pegamos um hotel bom, numa região mais tranquila, e que acabou nem saindo tao caro. Ok, para os preços que estávamos pagando era caro, mas em reais ainda era bem barato. Se para mim o “eu mereço”  não cola, o “paguei para minha tranquilidade” me consola haha!!! Acabou sendo um refugio. Tava muito quente, e com o feriado, as ruas estavam lotadas. Fomos no belo forte da cidade, na imponente mesquita Badshahi. Falamos com muitas pessoas, e tiraram bastante fotos de nos. Chegamos perto da mesquita Wazir Khan, no meio de uma confusão com autorickshas, carros, cavalo, camelo e crianças brincando e muitos vendedores. Musica alta, buzinas, um verdadeiro caos. Todos queriam correr para o hotel, mas ainda me acompanharam para ver a decadente, mas muito bonita mesquita. Também nos surpreendeu o numero de igrejas em Lahore. Muitos cristãos vieram farar com a gente e dizem ter uma vida super tranquila. O conflito entre Sunistas e Xiitas e bem maior que o de Muçulmanos e Cristãos   Em Lahore tem o bairro descolado de Gulberg, que no fim das contas acabamos não indo, mas quem quer um restaurante tipico simples mas muito bom, recomendamos o Tabaq, que passou no teste com louvor!!!

Forte de Lahore

Mesquita Badshahi

mesquita Wazir Khan

Um programa que nao podia faltar era ver a retirada da bandeira na fronteira com a India. Eu e o Marco compramos camisetas da seleção de cricket especialmente para a ocasião  A fronteira não fica longe, mas com o feriado tava todo muno na rua, então demorou bastante. Chegamos e as arquibancadas estavam lotadas. Homens para a direita, mulheres para a esquerda. Como estrangeiros teríamos acesso a tribuna de honra. Entramos pela rua, entre as arquibancadas, como se fosse uma passarela. Quando fomos notados a multidão foi se levantando, todos com sorrisos no rosto, gritavam aleatoriamente e tiravam fotos. Quase simultaneamente o Marco tascou um beijo na camiseta do Paquistão e eu acenei para a galera levantar. O barulho foi ensurdecedor, parecia um gol na final de campeonato. AaaAAAAAHHHHH!!!! Com o braco para cima e punhos cerrados, puxamos um Pakistan, Pakistan que ecoou por minutos. Os indianos do outro lado do portão não entendiam o que estava acontecendo, pois o show ainda não tinha começado  Logo vieram os “Pakistan, zindabad!” (vida longa ao Paquistão).

Torcida masculina

Torcida feminina

Logo iniciou o desfile, os gritos e provocações. Ano passado tinha visto do lado indiano da fronteira (Clique aqui), e comentei que estava chateado de não seguir por terra para o Paquistão e Ira. Mal eu imaginava que faria o caminho contrario (na verdade um pouco mais longo) e colocaria estes dois países na lista dos meus favoritos. Se na India achei o show um pouco longo, este participamos como verdadeiros paquistaneses. As diferenças do show em si são bem pequenas. Basicamente do lado indiano tem danças  e no paquistanês animadores de torcida e tambores. Com o final da cerimonia, filas de pessoas se formaram para falar conosco e tirar fotos. Fomos celebridades muito simpáticas e atenciosas, atendendo a cada pedido. Só os pedidos de homens tirarem fotos com a Bibi eram negados. Eu sempre falava rindo, vocês deixariam eu tirar fotos com a tua mulher, irma ou mãe haha?! O guarda teve que pedir para sairmos, pois só estávamos nos e nossos “fãs”. No caminho ate o carro a cena se  repetiu dezenas de vezes, e famílias inteiras pediam para tirar fotos. Com o feriado muitas pessoas de pequenas vilas ou cidades distantes estavam ali. Encontramos com os franceses e acabamos indo jantar juntos. Tivemos discussões calorosas sobre o respeito a cultura local e diferenças entre ocidente e oriente.

Pakistan!

Volta para Lahore

posamos para fotos e mais fotos

Na manha seguinte acordamos cedo e fomos para a mesma fronteira. Desta vez não para ver nada, mas para atravessar para a India. Não tinha uma alma, estava completamente vazia. Isto não fez com que o processo fosse agilizado. No balcão um jornal dizia que três soldados paquistaneses tinham sido mortos sem motivo em uma das fronteiras com a India. A relação entre os dois países realmente não e nada amigável  Caminhamos entre as arquibancadas vazias, nos despedimos de soldados que participaram da cerimonia no dia anterior, mas que estavam cumprindo o dever naquele dia. Do outro lado já não foi mais rápido   Não que tenha demorado um monte, mas não tinha ninguém, poderia ter sido mais rápido  Saindo da imigração ofereceram uma cerveja e o Marco aceitou, pois estava ha um mês sem beber nada . Na verdade em Lahore um senhor deu alguns copos de wiskey (ilegal, portanto caríssimo  para ele depois de um papo rápido na rua. O rapaz da cerveja voltou, e cobrou três vezes o preço oficial marcado na garrafa. Caiu a ficha, estávamos na India!

O vale Kalash e o (quase) encontro com os Talibans.

Ninguém sabe ao certo de onde vem o povo Kalash. Uns falam que são descendentes do Alexandre o Grande e de seus soldados, devido a sua aparência “europeia”. Na verdade sempre habitaram os vales do Afeganistão e Paquistão  Toda região ate a India e abitada pelos hindo-europeus, portanto de mesma origem. Os olhos azuis sao muito mais comuns pelo sul da asia do que se imagina.

Todo mundo sabe muito bem de onde surgiram os Talibans. Estudantes de escolas islâmicas  que foram treinados e equipados pelos EUA para atacar a URSS, que na época tinha invadido o Afeganistão  A guerra fria acabou, os Talibas tomaram o poder, mas nao eram mais interessantes para os EUA. Fizeram alianças com a Al Queda, e se tornaram o inimigo numero um do ocidente.

Acordamos cedo para pegar o ônibus Natco. Era confortável (para os padrões paquistaneses), e cada um tinha sua poltrona. A viagem prometia ser longa, e acabou demorando mais que o planejado. Muitas paradas para registro do passaporte, e ate uma rapida parada para almoçar  Nos surpreendemos  pois estávamos em pleno Ramadan e tinham muitos muçulmanos ismailis (que não jejuam) e também xiitas, que em viagens longas quebram o jejum, adicionando dias a mais no Ramadan ao seu final. Apenas os sunitas seguem rigorosamente as quatro semanas.

Aquela paisagem fantástica que estávamos acostumados continuava, com um destaque para o passe Shandur. Chegamos em Mastuj já tarde, e foi só buscar um lugar para dormir e capotar. O Koich veio com a gente, e mais um outro japonês que ele encontrou também veio junto.

Madrugamos novamente e fomos ate a rua principal procurar um jipe que fosse ate Chitral. Conseguimos o banco da frente, mas nao foi menos sofrido. Logo entendemos porque os ônibus não vão a partir dali. Algumas partes da “estrada” era praticamente off road. Barrancos de barro, trechos super estreitos entre pedras e precipícios e por ai vai. Chegamos em Chitral e estava muito quente.

A cidade e bem empoeirada, cheia de gente e as buzinas pareciam ecoar na nossa cabeça  Depois de arranjar um lugar para ficar, fomos fazer o registro na policia local. Super simpáticos  ficamos conversando e vendo as estatísticas das pessoas que visitaram o município nos últimos 10 anos. Foram menos de 400 pessoas, sendo que 3 brasileiros. Nos explicaram que só poderíamos ir ate o vale Kalash com escolta, devido a proximidade do Afeganistão  Estrangeiro e tratado que nem rei por aqui, pois eles não podem correr o risco que alguma coisa aconteça e piore ainda mais a reputação do pais. Eu sou contrario as escoltas, pois acredito que viajando sozinho não se chama atenção  já com uma escolta, caso exista um problema, ele sera grande. Os únicos dois casos de problemas nos últimos 10 anos foram com estrangeiros que trabalhavam em ONGs, e moravam na região durante anos.

Encontramos um casal de franceses que havíamos conhecido em Karimabad, e eles reclamaram bastante da escolta. Mas eles não eram parâmetro  pois tinham uma interação com as pessoas meio conturbada, e pensavam de uma maneira bem unilateral, pareciam que tinham começado a viajar ontem. Demos mais uma volta pela cidade, e com o final da tarde chegando, as barraquinhas de comida ficaram lotadas. Chitral parecia um formigueiro! Estávamos quebrados de tanta viagem, e fomos descançar e bater papo numa ótima varanda.

Centro de Chitran no final da tarde

Ao acordarmos, na frente da nossa porta ja estavam os dois policiais que nos escoltariam. Super simpáticos  sorridentes, mais não falavam inglês  Eram meio novatos, e não pareciam poder nos ajudar muito, mas de qualquer forma, encaramos como uma forma de interação  Caminhamos ate o local onde pegaríamos transporte, e desta vez sob vários olhares das pessoas. Eu estava certo, sozinhos eramos bem mais invisíveis na multidão  Nada de ônibus  e no terreno baldio estava o Koich, o outro japonês e mais dois policiais aguardando acharar mais pessoas para fechar um transporte.

O Vale Kalash na verdade são três pequenos vales. Escolhemos ficar no ultimo deles, Rumbur, mais isolado e tipico. Nos outros ja tem muito kalash que se converteu para o islamismo, e a vila cresceu muito, perdendo suas caracteristicas proprias. Umas tres horas depois estávamos no vale escolhido. Pequeno, bonito, com casas agrupadas em diversas partes das montanhas. Ficamos na casa de uma família Kalash, o que ja foi facilitando para aprender sobre seus costumes e tradições.

Um fato curioso e que todas as mulheres “impuras” tem que ficar numa casa especifica, ate estarem puras. Impura significa menstruada, e quando vai ter filhos. Perguntei o porque e ri muito com a resposta. Segundo nosso anfitrião, as mulheres quando entram no período  ficam estressadas, nervosas e causam problemas na família  Uma casa só para elas e a solução  Ele ainda complementou que neste período  elas também não tem muito “uso” hahah. Os homens todos concordaram que uma casa desta poderia ser introduzida em outros lugares com grande sucesso!!!!

Os franceses tinham comentado que a escolta ficava grudada o tempo todo, mas não foi bem assim. Estavam todos descansando e aproveitei para sair com um dos filhos do casal. Andamos pela vila, conheci o improvisado campo de criket, mas não pudemos jogar por falta de bola. Fui na casa de um primo deles que tinha casado na noite anterior. Conheci algumas pessoas e descobri que e muito comum meninas casarem com 13 ou 14 anos. Andei praticamente a vila toda, passei pela parte muçulmana  e fiz o controle de documentos sozinho. Depois de horas vi um dos soldados da nossa escolta num posto de controle no topo de uma montanha. Só abanei e ele tranquilamente abanou de volta. O lugar e único  isolado do mundo, com características bem peculiares. O lugar era tao calmo, que horas pareciam dias. Novamente tínhamos uma varanda, com vista para a parte sul do vale, onde fazíamos nossas refeições.

Caminhando pela vila

Parte da vila Rumbur

Os outros dias, como saímos todos juntos, acabamos não escapando da escolta. Os Kalashs ficavam revoltados com a escolta, e tinham razão  Fomos na escola, e as crianças tinham que ficar olhando para soldados com metralhadoras enquanto interagiam conosco. No inicio estavam tímidas  mas como só tinha um professor para quatro salas, tomamos conta de uma delas. Incentivamos e logo elas estavam cantando, fizemos a maior bagunça. Depois das musicas tipicas, os meninos nos acompanharam em gritos de Brasil, Brasil; Pakistan, Pakistan e e claro, de Coxa, Coxa!!

Escolta e crianca nao combinam!

Caminhamos entre as casas, fomos convidados para tomar chá  e bater papo. Muitos Kalashs são bem tímidos  mas outros adoram uma foto e interagir. Caminhando pela vila, muitas vezes acharam que eu era paquistanês  por causa da roupa tipica. Rimos muito com isto. Apesar da vila ser pequena, ela é espalhada, então podíamos dividir as caminhadas por regiões.

Fomos no topo de uma das vilas, lugar sagrado para eles, onde tem uma ótima vista, inclusive do Afeganistão  que fica a dois dias de caminhada. Crianças vieram interagir, e outras pessoas contar sobre a tradição do povo Kalash (que e politeísta . Sei que acabamos em outra casa, e quando vi já tinham colocado toda a roupa tradicional na Bibi. Nos ofereceram bastante vinho, bebida bem comum por aqui, o que e bem atípico para o Paquistão, onde e proibido bebida alcoólica.

Se tem uva tem vinho…

Bibi Kalash

Uma noite acordamos com a pousada tremendo. Saímos do quarto e vimos que foi um curto, mas intenso terremoto. Voltamos e um tempo depois tremeu novamente. Dias depois vimos que chegou a 5.4 graus, e com epicentro não longe dali. Foi um susto, mas não foi o único.

Na manha seguinte eu e o Jonny queríamos ir para Bumburet, a principal vila. O Jonny queria mandar noticias e eu visitar o pequeno museu que conta das tradições locais. Foi aquela dificuldade para arranjar transporte, já que nenhum carro passava. Já pensava em ir a pé, ou substituir o programa por alguma parte da vila nas montanhas aos arredores, quando vi um clima de tensão entre os soldados da nossa escolta. Eles conversavam entre si e pareciam não saber muito bem o que fazer. Vieram me explicar que Talibans atacaram um posto de fronteira do Paquistão  matando dezenas de soldados. Outras dezenas de Talibans também foram mortos. Tudo isto a 60 km de onde estávamos  Tínhamos que evacuar a área o mais rápido possível, pois ali não teríamos proteção se comparado com Chitral, a cidade ao lado que chegamos, que contava com uma forca militar que esmagaria os talibans em um minuto. Mas já tínhamos perdido um bom tempo buscando transporte sem sucesso, e agora não seria diferente. Tentamos mais um pouco e seguimos a pé mesmo, com os soldados nos escoltando. Depois de um tempo apareceu uma caminhonete, e pegamos carona. Estávamos nas intermináveis curvas com precipício  quando de trás de uma curva cega, vem um senhor correndo e gritando. O pessoal da caçamba traduziu para nos, mas a Bibi e Jonny estavam na boleia, e não sabiam o que estava acontecendo. Logo depois seguiram três explosões. Os dois quase morreram de medo, achando que os talibans estavam ali na frente!!! Na verdade estavam só dinamitando umas pedras para aumentar a pista. Cômico, mas acho que eles se borraram…

Taliban?

Cacadores de Taliban!!!

Chegando em Chitral, fomos na policia entender sobre a segurança  Nos tranquilizaram, e foi algo bem pontual na fronteira. O exercito era o alvo. Muitos paquistaneses nos contavam historias que não era o Taliban e sim a OTAN. Segundo eles a OTAN quer sempre culpar o Taliban para justificar uma invasão  Mesmo com a garantia dos policiais de que a estrada era segura, fomos dar uma olhada nos voos. Não são voos comerciais, e sim um pequeno avião do correio, mas vendem espaço se sobrar acentos. Eu não estava muito satisfeito com a decisão do grupo, mas ate que seria uma boa experiencia voar entre as montanhas. No final das contas o escritório estava fechado, e acabamos indo de ônibus mesmo. Os soldados já estavam nossos amigos, e apesar de em Chitral andarmos sozinhos, depois do incidente eles nos acompanharam ate o ônibus de manha. Sabíamos que era uma viagem longa, mas não imaginávamos o que vinha pela frente…

No inicio foi tudo igual, aquela paisagem fantástica  e ate uma estrada relativamente boa. Depois a estrada piorou, iniciamos uma subida sem parar ate o passe Lawari. A temperatura caiu, e o friozinho foi bem vindo. A paisagem ia mudando e logo fomos interceptados por uma caminhonete.  Soldados entraram no ônibus  e achamos que era só mais um controle. Desta vez não pediram nossos passaportes e sim os documentos de todos os passageiros que nos acompanhavam. Nos explicaram que estávamos entrando no município de Dir e que nos escoltariam a partir dali.

Onibus escoltado

furando fila!

La fomos nos com uma escolta, na frente do ônibus  Iniciei um papo com o motorista, que não estava gostando nada da situação  A escolta não estava deixando ninguém entrar no ônibus  o que daria um grande prejuízo  Passamos por vilas, muitas delas cinematográficas  Mulheres de burcas azuis, mercados movimentadíssimos  e ate um engarrafamento de carros e animais misturados. Para meu desespero e vergonha, nossa escolta ate ligou a sirene. Agora sim poderíamos ser um alvo. O motorista virou para mim e disse. “Ali do outro lado moram muitos talibans”. Eu sabia que passaríamos bem perto da fronteira com o Afeganistão  e concordei, falando: “Ah, do outro lado das montanhas já e o Afeganistão ” Ele disse: “ não, do outro lado do rio.” Era um rio pequeno, praticamente seco, cheio de pontes, e comecei a odiar ainda mais a sirene. O motorista comentou que todo mundo sabe, mas ninguém consegue controlar. Imaginei que deve ser uma situação parecida com o trafego na favelas do Brasil. Ele continuou com um discurso pro-taliban. Afirmou que a explosão da mesquita que ocorrera semanas antes nunca seria ação do Taliban, pois estes eram religiosos, e não atacariam uma mesquita, numa sexta-feira, em pleno mês sagrado do Ramadan. No passado ate guerras eram interrompidas neste período  portanto mesmo os paquistaneses que adoram uma teoria da conspiração (tipo que o Bin Laden ja morreu ha quatro anos), mostra que tem alguma coisa estranha.

Mudávamos de distrito, e as escoltas mudavam. Iniciou uma serie de revezamentos, foram sete no total. Nos aproximávamos de uma caminhonete parada, nossa escolta parava, e a nova entrava na frente do ônibus  Os passageiros estavam se divertindo, se achando super importantes. Um deles falou ao Joao e Marco que foi uma das viagens mais legais que ele já fez haha. Quando cruzamos cidades maiores, ganhamos algum tempo escapando do congestionamento. E assim seguimos  adiantar horas d viagem, com paradas so para rezar, ja que comer não era possível por causa do jejum. Comíamos nossos mantimentos discretamente, e ninguém reclamou.

Chegamos perto da moderna auto estrada e nossa escolta parou. Só abanamos e seguimos pela estrada de três pistas cada lado, de dar inveja as estradas brasileiras. Com o por do sol paramos para a oração e desjejum. O motorista e os passageiros estenderam um tapete em frente ao ônibus  comeram frutas e sucos e rezaram. Algumas filas de carro pararam atras fazendo o mesmo. Todos riam do dia que passou e nos ofereciam insistentemente comida. Chegamos tarde em Rawalpindi, pagamos um pouco mais para diminuir o prejuízo do motorista e fomos buscar um lugar para descansar!

fim do Jejum

O Vale de Hunza, o Pequeno-Tibet e o maior paredão do mundo!!

Karimabad e o mais próximo de um destino turístico no norte do Paquistão  e e fácil entender porque. A vila tem uma super vista para gigantescas montanhas (com destaque para Rakaposhi), ótimas caminhadas, uma forte cultura do hospitaleiro povo Hunza, deliciosa comida, e ainda muita historia.

A região tem muitos hotéis  mas quase todos vazios. Todos reclamaram muito que depois do 11/09 o turismo no Paquistão despencou. Os hotéis baratos (2 usd por pessoa) não estavam lotados, mas tinha bastante mochileiros. Encontramos algumas pessoas que estavam no ônibus que veio da China, como o excêntrico  figura rara, tcheco de 72 anos (e que já viajou para 155 países!!!), alem do nosso amigo japonês Koich, que encontramos pela terceira vez desde o Quirguistão  Como ficamos alguns dias, fizemos novas amizades, encontramos couchsurfer e nos sentimos em casa!

Já que estávamos bem no meio da montanha, tudo era subida ou descida. Não demoramos muito para visitar o antigo forte-palácio da região. Fica no topo da vila, e ficou ativo durante 800 anos, ate que com a chegada da KKH, caíram as monarquias. Os antigos reis receberam títulos simbólicos, mas ate hoje são idolatrados por muitas pessoas. Muita gente não se sente paquistanes por aqui, e sim hunzo. O forte-palácio e muito bonito, e com influencias tibetanas claras. Fácil de associar sua fachada com o palácio Potala de Lhasa. Isto ocorreu porque um príncipe de Hunza se casou com uma princesa de Skardu, região hoje a leste do Paquistão  e que antes fazia parte do império tibetano.

Hunza Fort

Em outras vilas vizinhas existem ainda outros palácios menores, e do outro lado do vale, atravessando o rio, ficava outro reinado, o rival Nagir, oponente de tantas guerras. Verão e época de diversas frutas, mas a especialidade da região são as ameixas amarelas. Misturam na comida, secam, fazem diversos pratos. Aproveitamos para nos abastecer destas frutas para fazer uma das caminhadas mais longas que encaramos na região. Subimos ate o Ultar Meadow, uma pastagem verde la no topo da montanha, atravessando cachoeira, penhascos e muita subida com pedra solta. Já estávamos relativamente alto, portanto num ar rarefeito. O Jonny teve que mostrar bastante superação  parecia um filme, mas encarou ate o fim. O visual inacreditável, o caminho desafiador, mas valeu cada uma das 7 horas. Teve gente que descobriu que tem medo de altura ao caminhar pelas “passarelas” na beira do abismo…haha

passarelas

unico caminho

no topo de Ultar Meadow

Tempo mudou rapido

A Bibi aproveitou para ler, na cama de chá especialmente virada para as montanhas. Passamos bastante tempo largados ali também  e as refeições com todo mundo junto era um momento a parte. Nosso prato favorito era o Chiken Karay, que intercalávamos com outros pratos para não enjoar.

esta vista custa dois dolares!

Numa de nossas caminhadas o Marco fez um amigo, que deu uma roupa de muçulmano para ele. Já estávamos pensando em comprar, mas como o Ramadan aqui é mega relax, nada de lenço na cabeça para a Bibi, dava ate para sair de bermuda, estávamos adiando. Esta parte de Hunza e de maioria Ismailis também, mas nem todo o vale e assim. Nos horários de reza, e principalmente no horário da ultima (ainda bem de madrugada), e primeira refeições (ao por de sol), as mesquitas cantavam alto, e de forma bem longa. Paralisávamos olhando para o horizonte como se estivéssemos hipnotizados, era de arrepiar!!

Um dia decidimos descer montanha ate a vila de Ganish, na beira da KKH. E uma cidadezinha mega antiga, com casas tradicionais, mesquitas todas trabalhadas em madeira e um lago como “praça” principal. Alguns antigos caravansarais ainda estão la, e a madeira onde os cavalos (ou camelos) eram amarrados continua ali, gasta de tanto ser usada. Fiquei pensando se o Ibn Batuta ou o Marco Polo amarraram seus cavalos ali. Existe um interessante sistema de refrigeração para alimentos, utilizando água gelada da montanha canalizada. Foi o primeiro lugar onde mulheres chamaram a atencao da Bibi por causa da roupa. Ali eles eram sunitas, e o mês sagrado do Ramadan deveria ser respeitado.

Caravansarai em Ganish

Em um outro dia, em vez de descermos, resolvemos acompanhar os canais, andando horizontalmente pela montanha. Passamos por casas de pedra, crianças jogando criket com pá, trabalhadoras no campo com roupas suuper coloridas. Muitas pessoas paravam para conversar, nos convidavam para entrar. Era final de tarde, e o lugar tinha uma magia no ar. A Bibi virou e disse: “sera que não poderíamos vir morar aqui, ou pelo menos passar uns meses?” Eu respondi com um ar de vitorioso: “ue, você não tinha medo de vir para o Paquistão? Não era um lugar perigoso?” Voltamos já estava escuro, andando pelas pequenas vilas e seus simpáticos moradores.

interacao nas vilas

Hunza faces

Chegou o dia de partir, mas como nos que comandamos, resolvemos ficar um dia extra, só aproveitando o lugar. Conversando com o Koich, decidimos fazer parte da viagem juntos, já que nos demos bem e nos encontrávamos toda hora mesmo.

De Karimabad fomos para Aliabad e de la para Gilgit, maior cidade da região norte do Paquistão  Gilgit funciona como uma capital, alem de ser barulhenta, movimentada e empoeirada. Ah, também havíamos descido bastante, portanto estava beem quente.

mais caminhões decorados pelo caminho

Comprei meu novo modelito, e eu com barba já estava passando por paquistanes. Gilgit ja e bem maior, principalmente comparado com as vilas que passamos, mas também não dava para ser chamada de cidade grande. Ainda e um mundo a parte do Paquistao. O esporte favorito no norte do pais e o polo. Mas não e um polo de playboy não, e um polo vale-tudo, onde a porrada come solta. Os campos de polo passaram a ser referencia nos mapas das cidades maiores que passamos ainda na região norte. A bravura não esta só nos esportes. No topo da montanha uma homenagem aos Gilgit Scouts. Formados pelos ingleses, foram os heróis da resistência e luta contra os indianos na disputa da Kashimira. Mesmo em menor numero, conseguiram garantir 30% da Kashimira para o Paquistão  mas este assunto eu comento mais para a frente.

Nos arredores de Gilgit ja tem muitas ruínas budistas, mas a maioria dos sítios budistas estão perto de Skardu, no estado de Baltistan, que significa Pequeno-Tibet. Na verdade o budismo chegou na China, e até mesmo no Tibet, passando pelo norte do Paquistão  Na região passa o sagrado rio Indus. A Viagem ate Skardu foi bela (como sempre), perigosa devido os desfiladeiros, mas especialmente dolorosa pelo micro-ônibus lotado e horas de duração.

Alem dos lugares de interesse de Skardu, a cidade seria ponto de partida para os Deosais Plains. Juntos com o Koich poderíamos alugar um jipe só para nos, já que não existe transporte publico para la. Depois de muitas discussões (saudáveis) com outros viajantes durante o jantar e uma noite bem dormida, estávamos prontos para negociarmos o transporte. Logo arranjamos um jipe e fomos para o mercado comprar comida para os próximos dias. A Bibi e o Jony compravam frutas enquanto eu fui cercado por locais, onde tivemos altas conversas. A maioria da região e de muçulmanos shiitas, e quando contei que tinha ido a Mashaad e falei sobre os Imams foram ao delírio. Não acreditavam como eu podia saber a historia da religião deles. Foi muito divertido!

paquistaneses em Skardu

Andamos pelas ruas caóticas  descolamos as barracas e sacos de dormir e estávamos prontos para partir. Nosso motorista colocou sua musica favorita, que repetia “Ali, Ali, Ali…” e cantamos empolgados. Mal sabíamos que ele ia repetir a musica umas 50 vezes, ate enjoarmos. Passamos por lago, mais postos de controle e subíamos sem parar. De repente, parecia ser mais um passe, aonde depois de uma subida viria uma descida, tudo mudou. Chegamos nos Deossais, estávamos a 4 mil metros de altitude, mas em vez de um descida, um planalto! Andamos por pequenas trilhas, atravessamos rios ate chegar em um rio com uma ponte suspensa. Era o lugar onde acamparíamos.

Infelizmente estavam construindo uma ponte de concreto ao lado, o que fazia o lugar perder um pouco do estilo. Sem contar que estava cheio de acampamentos dos operários  Mas de qualquer maneira o lugar era super calmo, bonito, e quando veio a noite, um céu espetacular!!!

A quatro mil metros de altitude a temperatura despencou rapidamente. Tínhamos sacos de dormir bons, mas as barracas emprestadas eram furadas, e tivemos que colocar grampos de roupa e fita para fechar os buracos. Quando chegou a hora de partir o jipe não funcionou. Tivemos que esperar mais algumas horas, ate a temperatura subir o suficiente. Se Deosai já estava bonito, depois de passarmos por mais rios, e outros lagos ainda mais bonitos, iniciamos uma descida com um suuper visual. Passamos por vilas e mais vilas. Estávamos sem mapa, mas nosso motorista foi pedindo informação e conseguiu chegar onde queríamos, Tarashin.

 

Estávamos muito na duvida se vinhamos para cá ou se íamos para os Fary Meadows. Ambos sao na base do pico Nanga Parbat, o oitavo maior do mundo. No Fary M., face norte, alem de alugar outro jipe, teríamos que caminhar três horas ate o local onde dormiríamos  Diziam ser mais bonito, ou pelo menos mais verde. A maioria das pessoas vão para la. Mas a face sul, a Rupal face, tinha um apelo maior (literalmente). Era o maior paredão de um campo base ate o cume, com mais de 4500 metros.

Não nos arrependemos. A vila tinha só duas pousadas, sem energia elétrica e claro. Já tinha um baita paredão bem de frente para os nossos quartos, mas sabíamos que não era o cume que estávamos avistando. Teríamos que contornar a montanha. Acordamos cedo, e logo estávamos atravessando nosso primeiro glacial, rumo a vila de Rupal. Só um amontoado de casas, muitas plantações e mulheres com roupas coloridas. As mulheres não conversavam conosco, nem deixavam tirar fotos. Já os homens eram super simpáticos, nos convidavam para chá, e teve um Sr. que ate colheu umas verdura para nós.

Rupal Faces

O Sr que colheu verduras para nos

A caminhada apesar de longa, não era difícil, pois era quase totalmente no plano. A Bibi nos acompanhou desta vez e adorou. Teve toda esta questão cultural antes de chegarmos ao acampamento base. O paredão nem parecia tao alto, mas tínhamos perdido a referencia. Tentando calcular com proporções e analisando melhor, vimos que grandes construções eram migalhas ao lado da montanha. Fizemos piquenique olhando aquela pequena pastagem com yakes, escutando os estalos seguidos de avalanche. Ainda sob o efeito da perda de perspectiva, decidi andar sozinho ate um glacial. Parecia perto, mas demorou um bom tempo. As flores, a neve branca e o barulho da montanha davam uma sensação fenomenal. Logo vi que poucos metros dali tinha outro glacial, que escorria da montanha e passava bem atras de onde estava o pessoal.

Nanga Parbat!

Na volta, passando pelas vilas, a Bibi ficou um pouco mais para trás  para ver se melhorava a interação com as mulheres. Deu certo!! Foi cercada, perguntavam mil coisas, cantaram, pediram para ela cantar. Eu tentei tirar fotos de longe, mas era um momento para ser curtido, não fotografado. Depois de muita insistência para ficar, ela partiu. Crianças foram seguindo ela ate nos encontrarmos. O entardecer ja chegava, e paramos no glacial para pegar gelo. Pratica comum. As pessoas vem com uma sacola, limpam a parte de cima do gelo, quebram pedaços para levar para casa. Quem precisa de geladeira?

so para mulheres

aprendendo a levitar

Depois de 13 horas estávamos de volta, tomando uma coca gelada com gelo do glacial. Durante a noite não dormimos, fomos desligados! Recuperados, estávamos prontos para seguir viagem. Lá estávamos nos, cedo para pegar o jipe comunitário ate Astor.

com nosso amigo Koich

Caminho pelo vale de Astor e muito bonito e chegando lá tivemos uma surpresa. Sempre estavam sendo super honestos a respeito dos preços, não tínhamos nem que nos preocupar. Desta vez o motorista resolveu cobrar o famoso “preço para turista” (primeira e unica vez no Paquistão, 10 vezes o combinado). Acabei com ele! Iniciei com um “vc vai cobrar mas caro de nos por sermos estrangeiros? Este não foi o preço combinado  então e roubo. Vc vai nos roubar em pleno mês sagrado do Ramadan???” Nisso ja juntou varias pessoas, todos dando opiniões  Terminei apontando para o céu e dizendo “ Alah esta vendo. Será que somos diferentes de vc ou somos todos iguais?” A multidão que tinha se formado me apoiava e pressionou ate o motorista ceder todo envergonhado.

Mais um ônibus  desta vez bom, ate com ar condicionado (ok, não funcionava direito) e voltamos para Gilgit, onde encontramos amigos suíços que não víamos desde o Uzbequistão.

Seguir pela KKH ou sair do caminho novamente? Tínhamos uma decisão a tomar.

KARAKORAM HIGHWAY (KKH)

Karakoram Highway e um daqueles lugares que merecem ser escritos com letras maiúsculas  São 1200 km, ligando Kashgar ate quase Islamabad. O inicio da construção da estrada começou no final dos anos 60, mas a estrada só ficou pronta 20 anos depois. Pronta? Na verdade ela nunca vai ficar completamente pronta. Assim como na transamazônica  a natureza busca recuperar o território perdido, e se não fizer grandes manutenções anuais, a estrada desaparece.

A Karakoran passa entre algumas das maiores cadeias de montanha do mundo. Montanhas de 7 mil metros tem por todos os lados e com mais de 8 mil, não são raras. Foram construídas mais de uma centena de pontes, e a obra custou a vida de outras centenas de pessoas. A estrada só fica aberta pouco mais de quatro meses por ano. Devido a sua altitude, grande parte dos passes ficam totalmente cobertos de neve. No verão não existe garantia de poder viajar por ela dentro de um horário programado. Os deslizamentos de pedra são muito comuns, e numa estrada entre as montanhas e penhascos, não existe uma segunda alternativa…

KKH

Após avistarmos a primeira bandeira do Paquistão  no passe Khunjerab, a quase 5 mil metros de altitude, iniciou uma descida espetacular em zigue-zague. Nem dava para notar que tínhamos entrado na mão-inglesa, pois a estreita pista (teoricamente de duas mãos) era ocupada completamente pelo ônibus  Para fazer as curvas, não foram poucas vezes que tiveram que dar a re. Ao longo do caminho, alguns trabalhadores tentando recuperar a estrada, mas com picaretas e pás… Parecia obvio quem seria o vencedor da batalha homem x natureza. Algumas vezes tivemos que parar o ônibus para retirar pedras que rolaram no meio da pista. Para viajar por aqui, deve-se esquecer o numero de km que se vai percorrer. A contagem deve ser em horas, não em Km. Mas em plena Karakoram, eu não tinha nenhuma pressa em chegar! Passávamos por montanhas incríveis, penhascos assustadores, e por dezenas de glaciais.

Glaciais na beira da estrada

tinha uma pedra no meio do caminho…

Já estávamos enturmados no ônibus. Um senhor de Peshawar (carinhosamente apelidado por nos de Osama) me adotou, e ficamos conversando um tempão  Me convidou para ir a sua casa, deu o telefone e pediu para tirarmos fotos juntos. Numa parada na entrada de um parque nacional, aproveitamos para esticar um pouco as pernas, e o motorista para trocar o pneu furado. Chegamos na pequena, mas movimentada, Sost. Já viajávamos há muitas horas no Paquistão  mas só agora a imigração seria feita. Oficiais mega simpáticos  tiramos nossos vistos no meio de muito bate papo e declarações de “ Sejam bem vindos ao Paquistão”.

Jonny no meio da confusão de quem não pagou o 

ônibus

Eu, “osama” e amigos

A cidadezinha em si não tem nada de mais. Só a rua principal, com hotéis simples e restaurantes. Cidade de fronteira, né. Mas foi nosso primeiro contato com os caminhões do Paquistão  São todos decorados, tunados, muito estilosos!! Procuramos um hotel por ali, mas descobrimos que tinha uma parte antiga da cidade, ha poucos quilômetros da onde estávamos  Não pensamos duas vezes antes de fugir do barulho. Lugar simples, mas com uma vista sensacional!! Um casal de espanhóis nos acompanhou. Acabei nem comentando, mas no nosso ônibus tinha cerca de 10 estrangeiros. No caminho para Sost velha conhecemos um Sr. Tcheco (que era uma figura) que também foi junto com agente.

Vista de Sost velha

Quem quer viajar pela KKH tem que acordar cedo, ou se não, arcar com os custos de um transporte particular, comprando todos os lugares. Depois de uma longa viagem não acordamos cedo o suficiente, mas como não eramos poucos, conseguimos arranjar um transporte ate nosso próximo destino, Passu.

Passu e outra vila cortada pela KKH. Para chegar ate la, mais montanhas, pontes, precipícios  glaciais. Nosso hotel ficava bem de frente para montanhas pontiagudas. Queríamos sair para fazer umas caminhadas curtas pela região  mas o tempo fechou e tivemos que ficar no hotel mesmo. Restaurante bom, o pessoal comeu, e aprovou, carne de yak pela primeira vez. Eu já tinha comido no Tibet, e sabia o que esperar. Alguns paquistaneses e uma inglesa estavam no mesmo hotel, e ficamos conversando bastante, trocando informações e pegando dicas. Não sabíamos se o tempo ia melhorar, então acabamos seguindo com eles mais para leste, nos afastando da KKH. Há poucos km de Passu um posto de controle, onde tivemos que deixar todos nossos dados num livro. Rotina que foi muito comum pelo Paquistão. Trocava de município, novo registro era feito.

A estrada ate Shimshal tem só 50 km, mas demorou 18 anos para ficar pronta. Tiveram que cortar a rocha das montanhas para poder passar um jipe. Algumas horas de viagem, por curvas e precipícios de dar um frio na espinha. Alguns dos glaciais que passamos tinham mais de 60 km de comprimento! Muita poeira, e outros glaciais ficavam totalmente negros. Atravessamos pontes suspensas, rios, e chegamos na vila, que parecia um verdadeiro oásis no meio das montanhas.

estradas para Shimshal

Toda a região norte do Paquistão era completamente isolada antes da construcão da KKH. Claro que existiam caminhos antigos, onde os viajantes passavam de camelo, burro e cavalo, mas eram viagens muito longas. Era o braco da rota da seda que ligava a India. Em toda esta regiao existiam diversos reinados independentes, ate 40 anos atras. E possível verificar as diferenças ate hoje. Língua  etnia, costumes e tradição mudam de um vale para outro. Shimshal e toda de pedra. Os muros para proteger as plantações de verão dos animais estao fortes e firmes há não sei quanto tempo. E uma viagem no tempo. O povo e Gojal, muito simpóticos, descendentes de Tajiks.

Gojal faces

Ficamos numa casa tradicional de um Sr muito gente boa. Nesta região eles são muçulmanos ismailis (uma ramificação dos Shiitas), e não jejuam no Ramadan. Pedimos logo um prato tipico. Veio uma gororoba que não foi muito bem aceita. O tiozinho ficou meio assim com quem não comeu, e virou meu melhor amigo depois de eu limpar três pratos. Depois, nas outras refeições fui sempre o primeiro a ser servido.

Caminhamos pela vila, subimos em pequenas montanhas entre o bem feito processo de irrigação  para ter uma vista melhor do lugar. Fantástico  A noite caiu, e num lugar sem energia elétrica não preciso nem descrever como estava o céu, né?!

Shimshal

Muita conversa, mais informações  historia, comida (as próximas foram apreciadas por todos), caminhadas e estávamos madrugando para pegar o transporte de volta para Sost. O jipe de comunidade sai lotado, e nos enfiaram no meio. Horas chacoalhando, esmagados, com descida somente para atravessar rios gelados, quase arrebentaram com os joelhos dos Sopranas.

Ventava muito em Sost, e cancelamos a caminhada entre os dois grandes glaciais da região  Mas como eles não eram longe, são na beira da estrada, almoçamos na frente de um deles. Depois nos dividimos, Jonny e Bibi voltaram para o hotel, e eu e o Marco decidimos enfrentar o tempo ruim, e caminhar ate a ponte suspensa. Não e muito longe, mas o vento era forte, e a probabilidade de chover grande. Contornamos montanhas, por caminhos bem estreitos, quase sempre ao lado do rio (muitos metros acima, e claro). Já nos questionávamos se estávamos no caminho certo quando vimos alguma coisa. Parecia só uma corda indo de um lado ao outro do rio, mas alguém atravessava, com comida para os animais nas costas, então tínhamos certeza que estávamos perto.

Passu

A ponte foi carinhosamente apelidada de “ponte do Indiana Jones”. Existia um espaçamento bem considerável entre uma tabua e outra, e balançava muuuito. Ficamos nos divertindo um bom tempo, atravessando de um lado ao outro, parados no meio sem as mãos, tirando fotos, ate que a chuva veio. Chuva fina, quase não atrapalhou. Voltamos tranquilos, vendo as montanhas por outro ângulo, descobrindo novos glaciais. Fizemos uma parada na vila para pegar informação sobre o transporte e tivemos noticia sobre uma greve. Há dois anos houve um grande deslizamento, praticamente uma montanha desabou bloqueando o rio, e formando um grande lago, interrompendo a KKH. O governo não tem tomado atitudes sobre o caso. Muitas pessoas perderam suas casas, e milhares ficaram isoladas. Houve um protesto violento (ok, não tanto quanto o de Londres), mas queimaram um ou outro prédio publico e duas pessoas morreram. Depois do episodio a policia fugiu e os barcos pararam de funcionar no lago, unica ligação até o outro lado da KKH.

Fizemos diversas “ reuniões”, e decidimos que deveríamos atravessar o lago assim que pudéssemos  mesmo que para isto tivéssemos que pular o Lago Borit e a vila de Gulmit. Não poderíamos correr o risco de ficar isolados em Passu, mas também não poderíamos seguir caso os protestos continuassem. Era esperar para ver.

Ao acordar deixamos as mochilas prontas, e ficamos só esperando a informação chegar. Estávamos na beira da estrada, então seria fácil de ver o movimento caso estivesse liberado. Recebemos informação de que liberou, depois outra dizendo que não. Mudamos os planos umas cinco vezes, ate que um carro veio do sentido contrario. Tinham acabado de passar, e confirmaram que os protestos acabaram. Era a informação que precisávamos  de alguém que esteve por la. Os transportes passavam lotados, e quando digo lotados, ‘e com algumas pessoas no teto. Encontramos um amigo nosso que nos levou ate o barco por um preço local.

La chegando tinha uma família que estava fretando um barco,  fomos juntos navegando entre as montanhas. Pena que o tempo estava fechado. Dava para ver que a agua era transparente, e se tivesse sol estaria tudo azul. Um Sr. foi apontando onde estavam as vilas, hoje submersas, e listando o numero de casas e vidas que foram perdidas. Muito triste, e fácil de entender os protestos pelo descaso do governo.

parte onda a KKH foi interrompida pelo lago

Depois de um bom tempo, chegamos a terra firme, no exato lugar onde o rio foi bloqueado. Pegamos um jipe, que mesmo com 4×4 parecia não vencer as ladeiras de barro na beira dos precipícios  Preciso descrever como era a estrada a partir dali? Logo chegamos no Vale Hunza. Não ficamos na beira da estrada desta vez, mas bem para cima, com uma super vista, em Karimabab.