Haiti, existe futuro?!

Batendo papo com o Marcelo, um amigo meu do Rio,  conheci através desse blog e falamos sobre possibilidades de viagens através de programa de milhagens, que nos dois tínhamos. Eu falei sobre viajar pela Transamazônica, ou ir ate o Peru para descer o Rio Amazonas de barco. Ele estava mais propenso a uma viagem internacional e sugeriu Republica Dominicana, que estava com milhas reduzidas. Eu falei que não tinha grandes interesses na Rep Dominicana, mas se desse para atravessar para o Haiti, toparia. Fiz umas pesquisas sobre necessidade de visto para brasileiros, além de ler um ou outro relato de viajantes que foram para la. Retornei o telefonema e ele aceitou a viagem na hora! A Bibi não poderia ir dessa vez, então iríamos eu e o Marcelo (também já experiente com viagens).

Ao chegar em Santo Domingo ainda deu tempo de rodar a parte antiga da cidade, onde existe um festival de ” títulos”. A primeira rua das Américas, a igreja em atividade a mais tempo nas Américas, o forte mais antigo das Américas e por ai vai… A cidade velha tem seu charme, ruas de pedra com  iluminarias nas paredes das casas coloniais, além de varias Igrejas. Ate casas onde morou o Cristovão Colombo.  Não sei se foi porque viajei por dois meses na América Central no início do ano, ou pelas minhas viagens pela A. do Sul, só sei que o lugar não me cativou. Bonito, ponto. Legal, ponto. Sem superlativos.

a

St Domingo

Pode ser que a minha ansiedade tenha atrapalhado um pouco, sei que no dia seguinte quando pegamos o ônibus para Porto Príncipe-Haiti, dai sim sentia que a viagem estava começando. Um ônibus de luxo, da empresa brasileira Marcopolo, já mostrava os dois mundos que iríamos presenciar. O valor da passagem, 40 USD, era quase o valor do salário mínimo no Haiti, mas pouquíssimas pessoas tem acesso a este salário.

A viagem é relativamente longa, e com o passar das horas a paisagem vai se modificando. Verde, seco, lagos, mas o que impactou mesmo foi a aproximação da fronteira. Dezenas de containers na beira da estrada, vendendo vários tipos de mercadorias. Muitas pessoas, um mercado improvisado e um pequeno posto de imigração. Carimbo de saída da Rep Dominicana, carimbo de entrada, e estávamos em outro país, depois de ver a cara de espanto do oficial da imigração ao dizermos que estávamos indo a turismo, é claro.

Paisagem

Paisagem

Imigração Haiti

Imigração Haiti

ONU

Passamos por acampamentos provisorios-definitivos, por pequenas vilas e com o tempo a zona urbana foi se aproximando. Pessoas vendendo de tudo ao lado da estrada, blocos gigantescos de gelo no meio de serragem chamavam a nossa atenção. Moradias simples e ruas movimentadas. Alguns quartéis de “ajuda” internacional e ao fundo avistamos montanhas, quando nos informaram que já estávamos nas redondezas de Porto Príncipe. Ninguém sabe ao certo onde inicia a cidade, já que ela cresceu tanto que engloba algumas cidades vizinhas. Com a destruição de parte da cidade pelo terremoto em 2010, as pessoas tiveram que se espalhar ainda mais.
O ônibus parou em um “terminal privado”, um terreno cercado, que fica ao lado da embaixada americana. Imaginava que a parada seria numa área boa devido a embaixada estar ali, mas estava enganado e deu até aquele friozinho na barriga, tipo´,^ tá, e agora^?! Logo apareceu um taxista, o único autorizado a estar ali dentro e nos ofereceu de levar até o hotel por 60 USD. Inicialmente ignorei e fomos tentar outra alternativa. O Marcelo conseguiu moto-taxis enquanto eu tentava negociar com o taxista, que deve estar acostumado com trabalhadores de ONGs. No final das contas ele xingou as motos que entraram ali sem autorização, cobriu o preço oferecido por eles, mas levando outros passageiros junto. Entramos na caminhonete achando uma fortuna os quinze dólares por pessoa que acertamos, mas logo mudamos de opinião. Primeiro porque era longe e segundo porque não se pode levar em conta somente o custo do combustível. As ruas completamente esburacadas e cheias de poças de agua, um transito caótico, onde vence o mais forte. E o nosso motorista achava que era o mais forte. Buzinava, tirava lascas milimétricas de outros carros, contornava por dentro de postos de gasolina para ganhar alguns metros no engarrafamento. Em alguns momentos comboios de caminhonetes da ONU e de ONGs, com expatriados sérios curtindo um ar condicionado. Mas a realidade fora da bolha deles era outra. A senhora com o bebe de colo teve que se espremer perto do muro quando nosso motorista invadiu a calçada. Nem reclamou, deve ser comum. Quem escutava muita reclamação eram os carros que não davam passagem, se não “colava” no carro da frente para deixar atravessar quem estava perpendicular ‘a rua principal. Eu pensava, “pelo menos estamos indo devagar” quando nosso carro disputa – e vence – um lugar com um  trator com sua pá erguida. Ainda tive a oportunidade de ver um carro da polícia levar bronca por não dirigir de acordo com as ” leis” locais e caminhonetes com soldados da ONU, com seus capacetes azuis, coletes a prova de bala e cara de mau. A ida até o hotel demorou cerca de uma hora e meia e no final já estávamos achando que tínhamos feito um bom negocio! Imagine pegar uma moto por aquele trajeto?!!

Nosso hotel foi um achado. Num bairro tranquilo, ruas de terra ladeira acima, mas uma ótima qualidade. Devido ao grande fluxo de estrangeiros, os hotéis são super inflacionados, se paga muito para receber bem pouco. Foi o hotel mais barato que encontrei, por isto surpreendeu. Agora nós que estávamos numa bolha, totalmente separados do mundo ali fora, mas não por muito tempo. Largamos as coisas e já saímos para explorar o bairro. Crianças se aproximaram e com o reconhecimento da região fomos ganhando confiança, aprendendo um pouco como que as coisas funcionavam por ali.

Nosso bairro

Nosso bairro

Nossos vizinhos

Nossos vizinhos

O recepcionista falou que ia nos levar para jantar, tinha entendido que seria um restaurante de algum familiar. Fomos passando por barraquinhas iluminadas a vela (não existe iluminação publica em grande parte de Porto Príncipe), quando chegamos num hotel. Era de alto padrão, mas os pratos estavam em torno de 7 USD, então resolvemos ficar. Em outra mesa tinha um grupo de missionários americanos junto com haitianos. Um dos haitianos veio conversar com a gente e contou que conseguiu um emprego em Michigan- EUA, onde mora como asilado desde o terremoto. Disse que tem uma vida boa, mas que morre de saudades do seu país, dos familiares e amigos, do seu canto. Foi a primeira de muitas outras demonstrações de amor ao Haiti que escutamos.

Caminhamos ladeira abaixo até a rua principal do bairro. A única com asfalto, ou pelo menos com um pouco de asfalto. Fomos num mercado e na hora de pagar a conta levamos um susto. Tínhamos estranhado que os preços indicados estavam muito baratos. Um dólar americano é o equivalente a quase 45 Gouldes, moeda nacional. Mas eles indicam e falam preços em “Dóla” ou “Hatien” (pronunciam “reichiens”), moeda imaginaria que vale 5 Gouldes.

Café da manhã tomado, fomos negociar com os Tap-Tap, sistema de transporte por aqui. São minivans, caminhonetes ou até micro-ônibus todos enfeitados, muitos deles com musica alta. Para quem acompanha o Blog ou leu meu livro vai se lembrar dos Matatus do Quênia. São a versão haitiana dos Matatus!! Muitas pinturas de santos, que são entidades do voodoo, além de jogadores de futebol! Se no Quênia tinha muitos times ingleses em evidencia, no Haiti os brasileiros que fazem sucesso, ao lado do Messi, é claro. O mais legal foi ver uma pintura antiga do Neymar com a camisa do Barcelona, bem na semana que anunciaram a sua transferência para o time catalão.

Num primeiro contato nos sentimos viajando invisíveis, ninguém nos notava e esboçava uma reação com nossa presença, boa ou ruim. Imagino que seja pelo grande numero de estrangeiros vivendo no país (sentimos isto no norte do Iraque também). Mas ao cumprimentarmos alguém, ou simplesmente trocar um sorriso tudo mudava. Já se abriam todos e rolava uma boa inteiração.

Passamos por ruas imundas  e ao nos aproximarmos do centro da cidade o caos só aumentava. A desordem do transito era grande e mesmo gostando dos Tap-Tap confesso que foi bom caminhar pelas ruas. O centro da cidade é deprimente. Esgotos a céu aberto, lixo por todos os lados. Na calçada vendiam de tudo, parecia um grande brechó. Alguns vendedores mais cuidadosos colocavam as roupas em cabides e plásticos para não se sujarem com a poeira que levantava. Uma região chamou atenção, onde vendiam carvão, que é a forma utilizada por eles para cozinhar, já que existe falta de gás.

Carvão

Carvão

Lixo e ruinas

Lixo e ruínas

A arte não está só nos tap-tap, vimos diversos pintores, artistas de rua, além da musica fazer parte do dia a dia. Percebemos que o lugar ainda esta em ruínas, mas a vida continua. Dois anos e meio se passaram desde o terremoto e os escombros ainda fazem parte da paisagem urbana. O palácio do governo não esta mais lá, assim como a catedral. Ao lado das ruins da catedral postes de iluminação solar contrastavam com famílias que armaram barracas e vivem por ali.

Nas ruas, vendedores de caranguejos numa esquina, um senhor com sua maquina de escrever na outra, esperando que alguém o contratasse para escrever uma carta. As ruas, ou quadras, pareciam ser separadas por setores, e tinham restos de equipamento eletrônico (sucata na maior parte do mundo), produtos chineses, roupas, qualquer coisa que possa ser vendida. Serviços também, passamos por uma região onde era um salão de beleza a céu aberto. Mulheres faziam as unhas e montavam o ultimo penteado. Alias, capricham no estilo dos cabelos por aqui. Tranças do tudo que é tipo, dreads, raspado, chuquinha, todos estilosos e chamando atenção. O sol estava forte quando chegamos na região das comidas. Caixas e camelôs eram afastados quando um carro tentava atravessar a “feira”. Hortaliças, peixes, comidas empacotadas e outras provenientes de doação estavam disponíveis. Poucos metros dali, atrás dos vendedores, um esgoto corria sem que espantassem os clientes. Os prédios destruídos pelo terremoto, também não causam estranheza para quem esta ralando no dia a dia de Porto Príncipe. Dizem que no Haiti ninguém tem emprego, mas todo mundo trabalha. È uma grande verdade. Povo trabalhador, muito guerreiro, sem futuro, mas de cabeça erguida. Já viajei por regiões muito pobres, já vi situações de vida muito duras, mas estava difícil de controlar as emoções ali. A cabeça fica a mil por uns dias e se dormir é fácil pelo cansaço, o descanso não é simples, pois a mente não para, nem o coração.

feira

feira perto do mercado

vendedores

vendedores no centro

Antigo Palácio

Antigo Palácio

O grande mercado coberto é uma atração. Além de toda a vida do dia a dia, fomos direto na sessão do Voodoo. Quem relaciona a pratica a magia negra esta enganado. É claro que tem a parte “maligna”, é possível até comprar bonequinhos que estão em saquinhos para serem vendidos. Mas é uma “religião” que tem laços com o Candomblé e Umbanda (sou meio leigo), além da Santeria cubana. Os escravos trouxeram suas crenças do Benin e Togo, ao escutarem sobre o catolicismo e praticas indígenas, associaram com suas crenças e mesclaram tudo. Muitas entidades tem relação com santos católicos, outras são entidades negras e indígenas. Encontramos um “pai de santo” que nos mostrava orgulhoso suas fotos. Bandeiras utilizadas nos rituais, bonecos, velas e mais um monte de coisas estavam a venda. Dizem que no Haiti 2/3 da população é católica, 1/3 protestante e 100% pratica o voodoo. Além da questão religiosa, tem muito a ver com a identidade do povo, estando até diretamente relacionada com a independência do país, alias, o primeiro país independente das Américas.

Voodoo!

Voodoo!

voodoo

mercado

Na parte de comidas tinha tartarugas e pombos. Lembrei que já tinha experimentado os dois, em países diferentes. Mas fiquei meio assim de perguntar porque tantos gatos estavam amarrados com uma corda no pescoço. Preferi imaginar que era para caçar ratos…

Também fomos para a parte rica da cidade, Pettionville. Imaginava um bairro mais organizado, mais ainda era bem sujo. De qualquer maneira as SUVs nas ruas, até dois Porsches Cayenne mostravam que tinha algo diferente por ali. Uma ou outra loja cara, mas a parte rica mesmo fica nas montanhas, nas mansões atrás dos grandes muros.

Assim como escutei de muitos africanos, os haitianos odeiam os organizações internacionais. Difícil para alguém que se mata de trabalhar ver um jovem estrangeiro enriquecendo com altos salários, bônus, super casas e carrões. Mal eles sabem que o dinheiro por trás disto tudo ainda é bem maior, uma verdadeira indústria. Um belga que trabalhou como conselheiro da presidência do Haiti disse que apenas 2% das doações internacionais é aplicado no país. Uma “maquina” cara, não? Não precisa ser um expert para ver que tem algo de muito errado. O pior é que estes 2% são muito importantes para o país.

Quem acompanhou minhas viagens já leu o que meus amigos etíopes achavam disto tudo, e como a falta de conhecimento fez com que muitas vezes uma “ajuda” destruísse uma indústria local, por exemplo. Poderia citar alguns casos que escutamos, mas aqui o foco é outro. Quem se interessar pelo assunto, leia Dead Aid, um livro que aborda este tema. Para ser justo, gostaria de comentar que a organização brasileira Viva Rio foi elogiada, falaram que tem uma aproximação e um foco diferente. Ficamos muito felizes em escutar isto!

Algumas pessoas podem estranhar eu passar férias no Haiti. Acredito que a beleza da vida não está somente nos jardins floridos, mas também naquela planta que nasce nas adversidades do deserto ou no meio do asfalto rachado. A luta e orgulho dos haitianos é algo inspirador, e a capacidade de adaptação do ser humano inacreditável.

Mal eu sabia que, além do seu povo e cultura, o Haiti oferece grandes atrações para quem quer fazer turismo no país. Fomos até uma região de onde saem ônibus e vans lotados para o norte e seguimos viagem…

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O vale Kalash e o (quase) encontro com os Talibans.

Ninguém sabe ao certo de onde vem o povo Kalash. Uns falam que são descendentes do Alexandre o Grande e de seus soldados, devido a sua aparência “europeia”. Na verdade sempre habitaram os vales do Afeganistão e Paquistão  Toda região ate a India e abitada pelos hindo-europeus, portanto de mesma origem. Os olhos azuis sao muito mais comuns pelo sul da asia do que se imagina.

Todo mundo sabe muito bem de onde surgiram os Talibans. Estudantes de escolas islâmicas  que foram treinados e equipados pelos EUA para atacar a URSS, que na época tinha invadido o Afeganistão  A guerra fria acabou, os Talibas tomaram o poder, mas nao eram mais interessantes para os EUA. Fizeram alianças com a Al Queda, e se tornaram o inimigo numero um do ocidente.

Acordamos cedo para pegar o ônibus Natco. Era confortável (para os padrões paquistaneses), e cada um tinha sua poltrona. A viagem prometia ser longa, e acabou demorando mais que o planejado. Muitas paradas para registro do passaporte, e ate uma rapida parada para almoçar  Nos surpreendemos  pois estávamos em pleno Ramadan e tinham muitos muçulmanos ismailis (que não jejuam) e também xiitas, que em viagens longas quebram o jejum, adicionando dias a mais no Ramadan ao seu final. Apenas os sunitas seguem rigorosamente as quatro semanas.

Aquela paisagem fantástica que estávamos acostumados continuava, com um destaque para o passe Shandur. Chegamos em Mastuj já tarde, e foi só buscar um lugar para dormir e capotar. O Koich veio com a gente, e mais um outro japonês que ele encontrou também veio junto.

Madrugamos novamente e fomos ate a rua principal procurar um jipe que fosse ate Chitral. Conseguimos o banco da frente, mas nao foi menos sofrido. Logo entendemos porque os ônibus não vão a partir dali. Algumas partes da “estrada” era praticamente off road. Barrancos de barro, trechos super estreitos entre pedras e precipícios e por ai vai. Chegamos em Chitral e estava muito quente.

A cidade e bem empoeirada, cheia de gente e as buzinas pareciam ecoar na nossa cabeça  Depois de arranjar um lugar para ficar, fomos fazer o registro na policia local. Super simpáticos  ficamos conversando e vendo as estatísticas das pessoas que visitaram o município nos últimos 10 anos. Foram menos de 400 pessoas, sendo que 3 brasileiros. Nos explicaram que só poderíamos ir ate o vale Kalash com escolta, devido a proximidade do Afeganistão  Estrangeiro e tratado que nem rei por aqui, pois eles não podem correr o risco que alguma coisa aconteça e piore ainda mais a reputação do pais. Eu sou contrario as escoltas, pois acredito que viajando sozinho não se chama atenção  já com uma escolta, caso exista um problema, ele sera grande. Os únicos dois casos de problemas nos últimos 10 anos foram com estrangeiros que trabalhavam em ONGs, e moravam na região durante anos.

Encontramos um casal de franceses que havíamos conhecido em Karimabad, e eles reclamaram bastante da escolta. Mas eles não eram parâmetro  pois tinham uma interação com as pessoas meio conturbada, e pensavam de uma maneira bem unilateral, pareciam que tinham começado a viajar ontem. Demos mais uma volta pela cidade, e com o final da tarde chegando, as barraquinhas de comida ficaram lotadas. Chitral parecia um formigueiro! Estávamos quebrados de tanta viagem, e fomos descançar e bater papo numa ótima varanda.

Centro de Chitran no final da tarde

Ao acordarmos, na frente da nossa porta ja estavam os dois policiais que nos escoltariam. Super simpáticos  sorridentes, mais não falavam inglês  Eram meio novatos, e não pareciam poder nos ajudar muito, mas de qualquer forma, encaramos como uma forma de interação  Caminhamos ate o local onde pegaríamos transporte, e desta vez sob vários olhares das pessoas. Eu estava certo, sozinhos eramos bem mais invisíveis na multidão  Nada de ônibus  e no terreno baldio estava o Koich, o outro japonês e mais dois policiais aguardando acharar mais pessoas para fechar um transporte.

O Vale Kalash na verdade são três pequenos vales. Escolhemos ficar no ultimo deles, Rumbur, mais isolado e tipico. Nos outros ja tem muito kalash que se converteu para o islamismo, e a vila cresceu muito, perdendo suas caracteristicas proprias. Umas tres horas depois estávamos no vale escolhido. Pequeno, bonito, com casas agrupadas em diversas partes das montanhas. Ficamos na casa de uma família Kalash, o que ja foi facilitando para aprender sobre seus costumes e tradições.

Um fato curioso e que todas as mulheres “impuras” tem que ficar numa casa especifica, ate estarem puras. Impura significa menstruada, e quando vai ter filhos. Perguntei o porque e ri muito com a resposta. Segundo nosso anfitrião, as mulheres quando entram no período  ficam estressadas, nervosas e causam problemas na família  Uma casa só para elas e a solução  Ele ainda complementou que neste período  elas também não tem muito “uso” hahah. Os homens todos concordaram que uma casa desta poderia ser introduzida em outros lugares com grande sucesso!!!!

Os franceses tinham comentado que a escolta ficava grudada o tempo todo, mas não foi bem assim. Estavam todos descansando e aproveitei para sair com um dos filhos do casal. Andamos pela vila, conheci o improvisado campo de criket, mas não pudemos jogar por falta de bola. Fui na casa de um primo deles que tinha casado na noite anterior. Conheci algumas pessoas e descobri que e muito comum meninas casarem com 13 ou 14 anos. Andei praticamente a vila toda, passei pela parte muçulmana  e fiz o controle de documentos sozinho. Depois de horas vi um dos soldados da nossa escolta num posto de controle no topo de uma montanha. Só abanei e ele tranquilamente abanou de volta. O lugar e único  isolado do mundo, com características bem peculiares. O lugar era tao calmo, que horas pareciam dias. Novamente tínhamos uma varanda, com vista para a parte sul do vale, onde fazíamos nossas refeições.

Caminhando pela vila

Parte da vila Rumbur

Os outros dias, como saímos todos juntos, acabamos não escapando da escolta. Os Kalashs ficavam revoltados com a escolta, e tinham razão  Fomos na escola, e as crianças tinham que ficar olhando para soldados com metralhadoras enquanto interagiam conosco. No inicio estavam tímidas  mas como só tinha um professor para quatro salas, tomamos conta de uma delas. Incentivamos e logo elas estavam cantando, fizemos a maior bagunça. Depois das musicas tipicas, os meninos nos acompanharam em gritos de Brasil, Brasil; Pakistan, Pakistan e e claro, de Coxa, Coxa!!

Escolta e crianca nao combinam!

Caminhamos entre as casas, fomos convidados para tomar chá  e bater papo. Muitos Kalashs são bem tímidos  mas outros adoram uma foto e interagir. Caminhando pela vila, muitas vezes acharam que eu era paquistanês  por causa da roupa tipica. Rimos muito com isto. Apesar da vila ser pequena, ela é espalhada, então podíamos dividir as caminhadas por regiões.

Fomos no topo de uma das vilas, lugar sagrado para eles, onde tem uma ótima vista, inclusive do Afeganistão  que fica a dois dias de caminhada. Crianças vieram interagir, e outras pessoas contar sobre a tradição do povo Kalash (que e politeísta . Sei que acabamos em outra casa, e quando vi já tinham colocado toda a roupa tradicional na Bibi. Nos ofereceram bastante vinho, bebida bem comum por aqui, o que e bem atípico para o Paquistão, onde e proibido bebida alcoólica.

Se tem uva tem vinho…

Bibi Kalash

Uma noite acordamos com a pousada tremendo. Saímos do quarto e vimos que foi um curto, mas intenso terremoto. Voltamos e um tempo depois tremeu novamente. Dias depois vimos que chegou a 5.4 graus, e com epicentro não longe dali. Foi um susto, mas não foi o único.

Na manha seguinte eu e o Jonny queríamos ir para Bumburet, a principal vila. O Jonny queria mandar noticias e eu visitar o pequeno museu que conta das tradições locais. Foi aquela dificuldade para arranjar transporte, já que nenhum carro passava. Já pensava em ir a pé, ou substituir o programa por alguma parte da vila nas montanhas aos arredores, quando vi um clima de tensão entre os soldados da nossa escolta. Eles conversavam entre si e pareciam não saber muito bem o que fazer. Vieram me explicar que Talibans atacaram um posto de fronteira do Paquistão  matando dezenas de soldados. Outras dezenas de Talibans também foram mortos. Tudo isto a 60 km de onde estávamos  Tínhamos que evacuar a área o mais rápido possível, pois ali não teríamos proteção se comparado com Chitral, a cidade ao lado que chegamos, que contava com uma forca militar que esmagaria os talibans em um minuto. Mas já tínhamos perdido um bom tempo buscando transporte sem sucesso, e agora não seria diferente. Tentamos mais um pouco e seguimos a pé mesmo, com os soldados nos escoltando. Depois de um tempo apareceu uma caminhonete, e pegamos carona. Estávamos nas intermináveis curvas com precipício  quando de trás de uma curva cega, vem um senhor correndo e gritando. O pessoal da caçamba traduziu para nos, mas a Bibi e Jonny estavam na boleia, e não sabiam o que estava acontecendo. Logo depois seguiram três explosões. Os dois quase morreram de medo, achando que os talibans estavam ali na frente!!! Na verdade estavam só dinamitando umas pedras para aumentar a pista. Cômico, mas acho que eles se borraram…

Taliban?

Cacadores de Taliban!!!

Chegando em Chitral, fomos na policia entender sobre a segurança  Nos tranquilizaram, e foi algo bem pontual na fronteira. O exercito era o alvo. Muitos paquistaneses nos contavam historias que não era o Taliban e sim a OTAN. Segundo eles a OTAN quer sempre culpar o Taliban para justificar uma invasão  Mesmo com a garantia dos policiais de que a estrada era segura, fomos dar uma olhada nos voos. Não são voos comerciais, e sim um pequeno avião do correio, mas vendem espaço se sobrar acentos. Eu não estava muito satisfeito com a decisão do grupo, mas ate que seria uma boa experiencia voar entre as montanhas. No final das contas o escritório estava fechado, e acabamos indo de ônibus mesmo. Os soldados já estavam nossos amigos, e apesar de em Chitral andarmos sozinhos, depois do incidente eles nos acompanharam ate o ônibus de manha. Sabíamos que era uma viagem longa, mas não imaginávamos o que vinha pela frente…

No inicio foi tudo igual, aquela paisagem fantástica  e ate uma estrada relativamente boa. Depois a estrada piorou, iniciamos uma subida sem parar ate o passe Lawari. A temperatura caiu, e o friozinho foi bem vindo. A paisagem ia mudando e logo fomos interceptados por uma caminhonete.  Soldados entraram no ônibus  e achamos que era só mais um controle. Desta vez não pediram nossos passaportes e sim os documentos de todos os passageiros que nos acompanhavam. Nos explicaram que estávamos entrando no município de Dir e que nos escoltariam a partir dali.

Onibus escoltado

furando fila!

La fomos nos com uma escolta, na frente do ônibus  Iniciei um papo com o motorista, que não estava gostando nada da situação  A escolta não estava deixando ninguém entrar no ônibus  o que daria um grande prejuízo  Passamos por vilas, muitas delas cinematográficas  Mulheres de burcas azuis, mercados movimentadíssimos  e ate um engarrafamento de carros e animais misturados. Para meu desespero e vergonha, nossa escolta ate ligou a sirene. Agora sim poderíamos ser um alvo. O motorista virou para mim e disse. “Ali do outro lado moram muitos talibans”. Eu sabia que passaríamos bem perto da fronteira com o Afeganistão  e concordei, falando: “Ah, do outro lado das montanhas já e o Afeganistão ” Ele disse: “ não, do outro lado do rio.” Era um rio pequeno, praticamente seco, cheio de pontes, e comecei a odiar ainda mais a sirene. O motorista comentou que todo mundo sabe, mas ninguém consegue controlar. Imaginei que deve ser uma situação parecida com o trafego na favelas do Brasil. Ele continuou com um discurso pro-taliban. Afirmou que a explosão da mesquita que ocorrera semanas antes nunca seria ação do Taliban, pois estes eram religiosos, e não atacariam uma mesquita, numa sexta-feira, em pleno mês sagrado do Ramadan. No passado ate guerras eram interrompidas neste período  portanto mesmo os paquistaneses que adoram uma teoria da conspiração (tipo que o Bin Laden ja morreu ha quatro anos), mostra que tem alguma coisa estranha.

Mudávamos de distrito, e as escoltas mudavam. Iniciou uma serie de revezamentos, foram sete no total. Nos aproximávamos de uma caminhonete parada, nossa escolta parava, e a nova entrava na frente do ônibus  Os passageiros estavam se divertindo, se achando super importantes. Um deles falou ao Joao e Marco que foi uma das viagens mais legais que ele já fez haha. Quando cruzamos cidades maiores, ganhamos algum tempo escapando do congestionamento. E assim seguimos  adiantar horas d viagem, com paradas so para rezar, ja que comer não era possível por causa do jejum. Comíamos nossos mantimentos discretamente, e ninguém reclamou.

Chegamos perto da moderna auto estrada e nossa escolta parou. Só abanamos e seguimos pela estrada de três pistas cada lado, de dar inveja as estradas brasileiras. Com o por do sol paramos para a oração e desjejum. O motorista e os passageiros estenderam um tapete em frente ao ônibus  comeram frutas e sucos e rezaram. Algumas filas de carro pararam atras fazendo o mesmo. Todos riam do dia que passou e nos ofereciam insistentemente comida. Chegamos tarde em Rawalpindi, pagamos um pouco mais para diminuir o prejuízo do motorista e fomos buscar um lugar para descansar!

fim do Jejum