Praias, montanhas e mais Marrakesh

A viagem podia ser longa, mas tinha um bom livro para ler, amigos novos para fazer e muita coisa para pensar. Chegando em Goulimine fomos comer antes de arranjar transporte para a praia, e o deem uma olhada no nome da avenida:

Um dos maiores viajantes de todos os tempos!

Pegamos um granda taxi pelas curvas até o litoral, onde chegamos na simpática Sidi Ifni. Uma pequena cidade que na época que foi dominada pelos espanhois se chamava  “Santa Cruz dele mar pequena”. Uma mistura de arquitetura espanhola com marroquina, até igreja tem. Definitivamente uma cidade árabe, porem com um ar mediterrâneo. A primavera árabe se iniciou por aqui (e foi esmagada) e depois se espalhou pelos seus vizinhos.

Mas tinhamos recebido uma indicação de uma praia mais ao norte, e lá fomos nós tentar encontrar. Quando nosso grand taxi nos deixou no meio da estrada e apontou na direção do mar, achavamos que estariamos ferrados. Caminhamos descendo as falesias e chegamos na pequena Legzira. Achavamos que teria uma vilazinha tipica, mas era um “resort”, só uma meia duzia de hoteis simples. Praia de parapeint e surf, que em algumas épocas do ano é bem procurada, mas estava bem vazia. Ficamos bem instalados com vista para mar.

Não tinha onda, mas fizemos ótimas caminhadas, aproveitando todo aquele visual de falezias. Não lembro se comentei antes, mas estavámos curtindo bastante a comida no Marrocos. Além do obvio cuscus, os tajines de frango, carne, carneiro, bode, verduras. O nosso preferido foi de pombo! Sim, comem pombo aqui, até misturado com torta doce. Mas comemos o tal pombo com verduras e foi aprovado. Comemos também sanduiche de coração de boi, mas quando chegamos na praia, trocamos pelos frutos do mar. Alem dos grelhados, claro que tinha Tajine de peixe!

Legzira

Recuperados e bem alimentados,  subimos as falezias para tentar pegar carona na estrada. Já estavamos pensando em voltar para Sidi Ifni, de onde conseguiriamos um transporte mais facilmente quando parou uma vam. Até este momento não sabiamos se iriamos direto para Tiznit, e depois para as montanhas, ou se parariamos em Mirleft, no caminho. Seguimos pelas curvas e visual do alto das falésias até chegar na antiga cidadezinha dos hippies, hoje do surf, que todos se vangloriavam que Jimi hendix ia passar umas férias.

Procurando por um hotelzinho, acabamos achando um apartamento bem bacana. Como era fora de temporada, pagamos 200 Dirham (menos de 20 Eur) por um Apto de 3 quartos, banheiro, sala e cozinha. Caminhando pela região, ainda vimos varias “Vilas”, casas de veraneio de franceses e espanhois, bem no topo das falésias, com super vistas. Um padrão bem mais alto, mas os preços não estavam muito caro também.

Mirleft

Vilas

Quem fica comendo fora toda hora valoriza uma cozinha e uma geladeira. No jantar fizemos um polvo maravilhoso. Rimos muito com nosso amigo Berbere Lahcen. Ele foi o primeiro marroquino (até então) que conhecemos que detonou o Rei Muhamed VI. Ele contou bastante da Intifada, primavera árabe e do seu irmão, que foi da guarda real. Contou que o irmão dele estava na represão da Intifada de Smara (Saara Ocidental), quando um jogaram lideres da Polisario de cima de um  helicóptero, e atiravam em mulheres e crianças que não quisessem embarcar em ônibus do governo. Mas tiveram muitos assuntos lights também, e em época de Eurocopa, nosso polvo quase queimou por causa da emoção de um jogo.

Nhamnham…

De Mirleft foi um pulo até Tiznit, com sua cidade murada e bonitos portais. Podiamos ter ficado mais na praia, mas a Bibi não encontrou a vila pé na areia que queria, então fomos para a montanha novamente. Curvas e mais curvas subindo o novamente o Anti Atlas, passando por Kashbas até chegar na simpática Tafraut. Olhamos um para o outro e quase que lendo o pensamento do outro falamos: Gostei daqui! Cidadezinha pequena, poucas quadras, toda ajeitadinha (um pouco demais para mim, mas perfeita para a Bibi), cercada por montanhas, oasis e formações rochosas. Ficamos no hotel Salama, talvez o único em toda a viagem que possui um website (http://hotelsalama.com/pages/en_morocco_hotel_salama_index3.htm).

Portal em Tiznit

Não adiantava estarmos na montanha, o calor estava insuportável. Como muitos dos passeios que queriamos fazer eram de bicicleta, acordavamos bem cedo, para voltar antes do meio dia. Fugiamos do sol forte e depois rodavamos a cidade no final da tarde, andando pelo mercado ou vendo a vida passar na praça.

No primeiro dia era para rodarmos uns 15 km de bike, mas acabei entrando numa trilha errada e acabamos rodando bem mais que isto. Muito legal passar pelos oasis, pequenas vilas e depois andar pelas formações rochosas. Inventão umas coisas tipo, você tem que passar no “Chapeu do Napoleão”, teve até um artista belga que pintou umas pedras para mudar o tom do deserto. Mas o mais legal é passear mesmo, e ver a mudança dos tons de vermelho com a alteração da luz.

Tafraut

Praça

Oasis

pedras pintadas

No segundo dia a maior parte do caminho era por asfalto, o que perdia um pouco o charme, mas em compensação, as vilas eram muito bonitas e tinham casas tradicionais. Ironia do destino, no dia que rodamos menos por estradas de terra foi o dia que o pneu furou. Já estavamos pensando em colocar em cima da primeira caminhonete que passasse quando o dono de uma venda numa vila maiorzinha nos ajudou.

De Tafrout pegamos um onibus super moderno para Marrakesh, bem diferente dos que estávamos viajando. Novinho em folha, com ar condicionado no máximo e paradas para rezar e almoçar. Muito estranho a relação do marrocos com a religião. Dizem ser super rigorosos com a reza, Ramadam, não nos deixam entrar nas mesquitas, mas por outro lado são bem hipócritas em outras regras como bebidas alcoólicas e não enganar/roubar o próximo.

Chegando em Marrakesh, um destes hipócritas, no caso um taxista, ficou brabo porque eu não queria pagar cinco vezes mais a tarifa para ir para Djemaa El-Fna. Mandava eu seguir a pé, e eu ia sorrindo e ironicamente agradecendo pela informação da direção. Duas quadras depois pegamos um taxi pelo preço correto. A diferença pode ser de poucos dólares, mas você pagaria dez reais por uma lata de refrigerante que vale dois reais?

Nosso hotel da primeira passagem pela cidade não era muito bom (o pior que ficamos no Marrocos) então seguimos a sugestão do nosso amigo Dale, que alias estaria lá. Chegamos num “BBB”, bom bonito e barato. Perto da praça, mas não barulhento, com estilo, patio intérno e impecavelmente limpo. Encontramos o Dale na entrada e não demoramos muito para sair para a praça. Já escurecia e o movimento começava. Como o Dale é musico, queria gravar e escutar muitos dos artistas e o acompanhamos.

Jantamos cérebro de bode junto com outras comidas mais comuns, tomamos um suco das dezenas de barracas de suco de laranja natural e fomos capotar!

Scargot, claro que também comemos.

Conhecemos Marrakesh mais a fundo, caminhando pelas centenas de quilometros de ruelas da cidade velha. A Bibi ficou louca com as lojas, que quando passavamos já sabiam que eramos brasileiros e só faltava nos chamarem pelo nome. Fomos em alguns palácios e Madrassas. Mas fomos também para a outra Marrakesh, a cidade nova.

Meu amigo Riad, do Couchsurfing morava num bairro bem longe da cidade velha. Uma vida bem diferente do imaginário que o ocidente tem do Marrocos. Ele procura emprego numa multinacional, sai para dançar, bebe (segundo ele moderadamente), não tá nem ai para o rei e nem sonha em rezar cinco vezes ao dia. O interessante de ver estas misturas da tradição com a modernidade, é que mesmo ele tendo uma vida moderna, eles ainda comem com as mãos por exemplo. Alias a mãe dele fez um banquete, com vária opções de comida, e deu até para matar saudades de comer um feijão.

Couchsurfing

Bateu aquela tristeza na hora de voltar. Mesmo sendo uma viagem curta, tínhamos tido uma imersão, e aquele se transformado no nosso dia a dia. Pegamos o voo para Madri, onde ainda passaríamos uma noite antes de voltar para o Brasil.

No avião, olhando para um mapa na revista pensava: Onde será a próxima viagem?

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O sul do Marrocos e o Sahara Ocidental

“The fact that few people go there is one of the most compelling reasons for travelling to a place.” -Paul Theroux

Para alguns o sul do Marrocos e o Sahara Ocidental são a mesma coisa, mas não é o que mais de 80 países acham. Mas a história se repete, e é mais um dos “países que não existem” (Lembram da Somalilândia?).

Países que apóiam o direito dos Sarauís de se governarem

O Saaara Ocidental foi colônia espanhola, enquanto o Marrocos era francesa, até meados da década de 7o. Desde os anos 60 as nações unidas já tinha indicado para a Espanha abandonar o território. Mas foi através de um grupo chamado de Polisario, que guerreava pela independência, que a Espanha acabou abandonando o território.  Mas a sonhada República Democrática Árabe Sarauí não seria formada tão facilmente. O Marrocos invadiu o norte e a Mauritânia o sul, ambos tentando anexar o território.

O Marrocos utilizou de uma tática proibida pelas Nações Unidas, de utilizar civis para assentamentos e tomar posse de um território (Israel também adotou esta tática em assentamentos na Palestina). A “Marcha verde” foi orquestrada e 350 mil marroquinos rumaram ao sul para tomar conta do território. O exército do Marrocos tentava tomar todo o território, mas o Polisario (com apoio da Argélia) se defendia bravamente. Com a desistência da Mauritânia, e a construção de um muro (lembram do muro construído na Palestina?), tudo passou a mudar.

O Marrocos construiu o Bern, um muro de quase 3 mil quilômentros de comprimento, com defesas, minas terrestres e equipamentos de segurança. Depois disto o Polisario teve dificuldades de guerrear, e a grande parte da população original do Saaara Ocidental passou a viver em campos de refugiados no meio do deserto. Marrocos passou então a controlar com linha dura a região, e criar incentivos para que marroquinos se mudassem para lá (Lembram dos isentivos para chineses irem para Xinjiang?). Violou os direitos humanos de diversas formas, jogando até bombas Napalm nos campos de refugiados (lembram dos ataques químicos no Curdistão?).

A ONU determinou que um plebiscito fosse feito, mas teoricamente só quem estava no local antes da Marcha Verde poderia votar (Lembram do plebiscito da Caxemira?). Porém, isto seria muito difícil de determinar hoje, já houveram casamentos entre os dois povos e o problema parece ser cada vez mais difícil de resolver. O Marrocos se alinha cada vez mais com o Ocidente, e ganha mais força política. Todo mundo sabe que está errado, mas nada é feito para resolver.

Ainda em território marroquino, fomos descendo o Anti Atlas e vendo o deserto do Saaara se aproximar. A temperatura obviamente aumentava rapidamente. Muitos oásis até chegarmos numa cidadezinha chamada Tata. A pequena cidade, era o máximo. Toda num tom rosa alaranjado, com as janelas pintadas de azul. Ninguém nas ruas, quase uma cidade fantasma. Arranjamos um hotel bem gostoso e fomos procurar um lugar para comer. Poucas pessoas se aventuravam no sol forte, que ja passava dos 40 graus. Praticamente todo o comércio estava fechado, mas encontramos um restaurante que tinha um resto de frango grelhado e o rapaz se propôs a fazer um Tajine (comida típica do Marrocos, feita numa panela de barro).  A Bibi foi se proteger na sombra do hotel, e eu fui reconhecer o lugar, descobrir onde poderíamos pegar um ônibus, que hora ou que dia, e quem sabe encontrar algum lugar para comprar frutas.

Tata – tudo fechado com o calor. Detalhe para as cores.

Nunca é tempo perdido, consegui interagir bastante, mas a cidade começa a ganhar vida somente a partir das sete da noite. As oito já tem um movimento considerável, comercio aberto, feiras, e as nove, com o por do sol, é que tudo acontece. Tudo fica mega movimentado, fomos comer, tomar sucos e chá. O chá no Marrocos tem folhas de menta que ocupam mais da metade do copo. As mulheres da região usam saris super coloridos. É uma cidadezinha que teoricamente se pode conhecer em 5 minutos, mas para ser aproveitada tem que ser vivida, observar as pessoa e as mudanças de movimento com os horários.

A simpática praça é chamada de Marcha Verde, em homenagem ao movimento de ocupação.

Toda esta região do anti atlas tem lugares muito interessantes, vilas pequenas, oásis, e sentimos falta de um carro para poder explorar melhor. Passamos pela simpática cidadezinha de Akka, e tinhamos a idéia de parar em Amboudi, mas acabamos indo direto para Goulimine. Depois de muito calor e uma longa viagem Bibi queria ficar ali, mas eu sabia que o lugar já tinha deixado de ser uma pequena cidade faz tempo, e como teria uma estrada boa a partir de agora, pegamos um taxi comunitário até Tan Tan, já bem próxima ao Sahara Ocidental. Tan Tan não é uma cidade bonita, mas tem um ar especial,  estilo e até um charme próprio.  Toda branca e azul, com uma avenida principal larga, gostamos de perambular por lá, tomar chá enquanto a vida passava em nossa frente. A presença militar aumentava visivelmente, inclusive com grandes bases militares. Rimos muito com uma placa no hotel que dizia “Restauration” e apontava para o restaurante. haha

Tan-Tan

Esperando o ônibus, a Bibi se sentiu meio enjoada depois do almoço, e fomos procurar uma farmácia para ela tomar um Eno. Estava fechada, e ao pedir informação, nos colocaram num carro, rodaram uma duzia de farmácias (fechadas) antes de nos levar de volta para a rodoviária. Bem que nos falavam que quanto mais para o sul, mais legais e hospitaleiros os marroquinos ficam.

Seguimos sentido sul, onde a Europa estaria atrás de nós, e se fossemos em frente chegaríamos na Cidade do Cabo  (viagem que ainda quero fazer), mas numa encruzilhada em “T”, viramos sentido deserto. A estrada foi diminuindo, a paisagem foi ficando monotonica. Por muito tempo o céu azul, e a linha do horizonte  eram as únicas coisas que dava para ver. Alguns rebanhos de camelos, ou até caminhões transportando camelos nos chamavam a atenção. Postos de controle pegavam nossos dados do passaporte e nos perguntavam a profissão, quase que esperando que falássemos: jornalistas. A maior parte do deserto do Sahara não é de areia como muitos imaginam, é um deserto de pedra.

Atravessando o deserto do Saara, o sol estava quente…

Não eramos os únicos indo para o Saara Ocidental!

De repente aparace mais vegetação e pequenos oásis. Estavamos chegando em Es-Smara, antigo oasis e parada obrigatória de diversas rotas comerciais que cruzavam o deserto do Sahara. Atravessamos grandes bases militares marroquinas até chegarmos num pátio que era a rodoviaria. Tinhamos a indicação de um hotel descente, já que provavelmente os outros seriam de péssima qualidade. Definitivamente não é um lugar preparado para o turismo.

Os Sarauí são primos dos Tuaregs e usam toda uma vestimenta azul, com turbante negro. Em Tan Tan, e até outras regiões mais para o norte, no sul do marrocos, já tinha observado que aumentava consideravelmente os homens de azul. Me decepcionai um pouco por não ser todo mundo assim aqui. Acho que tinha criado uma expectativa em cima disto. Com o tempo fomos entendendo melhor as coisas. Teve jogo de futebol do Marrocos, e vimos que parte da população torcia para eles. Eram os marroquinos verdes, nos contava  um amigo Sarauí. Sem muito o que fazer no horario de sol no meio do deserto, os cafes ficavam lotados para que pudessem ver os jogos da Eurocopa. Só homens, então a Bibi preferia a leitura na sombra do hotel. Ela tambem não gostou quando fomos perseguidos por crianças (de uns 10 anos) com varas na mão nos azucrinando, e de um senhor que nos chamou simpaticamente, mas só queria nos mostrar os artezanatos na “lojinha” dele.

Sarauí

Dia a dia de Es-Smara

Fui ver o que sobrou da pequena cidade velha e da antiga mesquita, e encontrei algumas mulheres fazendo um piquenique com seus filhos. Interagi com a molecada, fui convidado para um chá, mas se recusaram a tirar uma foto. Existe uma outra parte de Smara que tem uma mesquita antiga que está sendo reformada, mas assim como Tata, o mais interessante de ir para lá não é para ver as coisas, mas aproveitar e entender o lugar.

Cidade velha

Paz

Foram menos horas de caminhadas e mais horas sentado num café olhando o que acontecia ao redor. A presença militar, carros blindados com grades nas janelas, e principalmente barulho de helicóptero a noite incomodavam a Bibi, e acabei desistindo de ir para Laayune, maior cidade da região, lá perto da costa. Tinha bons contatos lá, que renderiam ótimas conversas, mas a interação seria por internet  mesmo.

Bases militares por todos os lados

Não tínhamos comprado as passagens de onibus com antecedência, e quando aparecemos lá para embarcar estava lotado. O jeito era esperar chegar pessoas para um taxi comunitário. Fiquei aprendendo a jogar Sig, um jogo de palitinhos coloridos, que quem tira “vaca”, “Cabra”(…) ganha, e quem tira burro perde.

Foi uma longa viagem pelo deserto, de volta para Tan Tan e depois para Goulimine, para só depois descansar na praia.

Ps- Já que falei de Tuaregs e “países que não existem”, em 2012 os tuaregs conseguiram a independência do Azawad, no norte de Mali.

As Cidades Imperiais e o High Atlas

Interessante como que se desenvolveu a escolha da nossa viagem.  Minha irmã ia casar nas terras de Robing Hood, no interior da Inglaterra (aliás, um dos dois melhores casamentos que já fui, o outro foi o dela no Brasil). Aí pensamos, já que vamos para lá, vamos aproveitar para viajar. Primeira coisa que veio veio na cabeça foi uma viagem rápida pela Escócia e Irlanda do norte. Mas pelo mesmo valor poderia fazer uma mais longa para República Tcheca, Polônia e Ucrânia.  Já dando uma olhada no roteiro descubro que teria Eurocopa na Polônia e Ucrânia. Como estaria tudo a maior bagunça, caro e lotado, tínhamos que pensar em algum outro lugar.

Olhando as passagens de baixo custo, vi que um voos para o Marrocos estavam bem baratos, e lá poderíamos viajar até por mais tempo. Uma viagem de uma semana acabou se transformando em três, isto sem contar os dias que passamos na Inglaterra, mas que não vão virar post desta vez.

Depois de um voo não muito longo, chegamos a Casablanca, a cidade mais moderna do Marrocos. Não tínhamos muitos interesses lá, então do aeroporto já pegamos um trem para a estação central, e de lá outro para Fes. Compramos lugar da segunda classe, e passamos o maior calor. Não sabíamos que tínhamos direito as cabines com ar condicionado. No nosso vagão tinha um casal de estudantes americanos, que iriam fazer intercambio para aprender árabe. Eles nunca tinham saído dos EUA, e era muito legal de ver a reação deles para tudo, uma mistura de encantamento e receio.

Havíamos escutado coisas muito ruins de como os marroquinos tratavam os turistas, mas chegamos sem preconceito, para tirar as nossas próprias conclusões. Na estação e durante a viagem várias pessoas se aproximaram para conversar. Algumas para ajudar, outras para oferecer hotel de um parente no final da conversa, e algumas por simples curiosidade.

Na chegada em Fes, passamos batido por uma dezena de taxistas que nos ofereciam transporte para a Medina (Fes El-Bali) e fomos comer num restaurante do outro lado da rua. Comemos e já batemos um papo com o garçom para entender como que tudo funcionava por ali. Pegamos um taxi até um dos portoes da cidade murada e fomos em busca de algum lugar para ficar. A cada passo se aproximava alguem disposto a ajudar (em troca de uma comissão), mas falavamos que ja tinhamos reserva e iam nos deixando. Na verdade contrariamos todas a dicas de guias de que é dificil de chegar lá sem hotel reservado, mas foi tranquilo, e depois de dar uma olhada e comparar uns tres lugares achamos um Riad para ficarmos. Pessoal super gente boa, o patio interno não era daqueles gigantescos, mas era todo decorado.

Ruas Fes

Já rodamos bastante o mundo árabe e muçulmano, passamos por dezenas de cidades muradas e medievais. Neste sentido Fes não era uma grande novidade, mas o que impressionou foi o tamanho da cidade murada de Fez. É gigantesca, talvez a maior de todas que ja fomos. Labirintos intermináveis, e muita vida. Metada da população de Fes vive na cidade velha, onde não passam carros. Pelas ruas estreitas todo mundo a pé, para transportar alguma coisa só burricos e pequenos carrinhos de puxar.

A arquitetura tambem se diferencia do que tinhamos visto, o estilo das portas, e o uso de madeira. Infelizmente no Marrocos não se pode entrar na maioria das mesquitas. Isso gerou algumas discussões saudáveis, pois eles estavam contrariando a palavra do profeta Maomé, e eu fazia questão de lembrar-los disto. Perto das mesquitas tinham muitos senegaleses, com suas vestimentas todas originais. Eles estavam em peregrinação, já que um grande santo muçulmano da região do Senegal está enterrado ali.

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Em Fes tem muito artesanato. Existem regiões que trabalham só com madeira, outras com um barulho ensurdecedor de pessoas trabalhando/martelando cobre. Tem a parte das roupas e dos incensos naturais. Mas Fes é conhecida pelos trabalhos em couro, trabalhados de forma manual da mesma maneira há centenas de anos. São os famosos Tanneries, onde tingem o couro de diversos tipos de animais com tintas feitas de óleos, gorduras e até urina de vaca e cocô de pombo. Os artesões prometem que você pode visitar de graça, mas se depois de olhar a loja deles não comprar nada, são bem agressivos. Aliás, tivemos problema um dia quando procuravamos um restaurante. Estavamos indo num indicado, e um cara acabou literalmente apontando outro. Quando estavamos saindo do restaurante estava lá ele nos esperando para ganhar um dinheiro por ter nos apontado. Acabei batendo boca depois dele ficar me xingando. Ficamos de cara, morrendo de raiva!

Tanneries

Depois de algumas refeições descobrimos que é possível barganhar até o preço do cardápio! Conhecemos um músico australiano, Dale, que nos acompanhou em algumas das nossas andanças pela cidade. Foi ver conosco o visual da cidade em cima do morro, com toda a vista para a cidade velha e a incrível chamada das mesquitas, e explorar o Mellah, antigo bairro judeu. Nos perdemos pelos corredores, fomos numa antiga sinagoga, e só depois fomos descobrir que nosso amigo era judeu. Mesmo existindo até hoje judeus marroquinos, ele tinha um certo receio. Interessante que as Mellahs estão espalhadas por todo o país. Estão geralmente próximas dos palácios (pois os sultões davam proteção a eles) mas tambem existem em pequenas vilas. Há milhares de anos, quando os judeus foram expulsos da palestina, alguns vieram parar aqui, mas o grande fluxo de judeus para o Marrocos se deu a bem menos tempo, foi quando estes foram expulsos do então reino cristão da Espanha.

Sinagoga

Nos despedimos do Dale depois de um longo almoço com direito a muitas risadas e discussões com um garçom sobre o que era Haram na vida (pecados), e pegamos um trem para Marrakesh. Mais algumas horas de viagem, desta vez em uma cabine climatizada.

Ficamos num hotel mais simples para compensar o preço do Riad de Fez, e acabou não sendo uma boa escolha. Não procuramos muito pois seria uma rapida passagem pela cidade, pois gastaríamos mais tempo no final da viagem, pois teriamos que voltar para lá para pegar o vôo. De qualquer maneira, era bem pertinho da praça Djemaa El- Fna, o coração da cidade velha.

Tudo bem que Marrakesh é um nome enigmático, mas muito do que se carrega com o nome é referente a esta praça. Num primeiro momento pode parecer turístico, mas acredite, não foi montado para você. Esta praça está ali há seculos, era um grande centro comercial e parada das caravanas que vinham da Africa Sub Saariana. O barulho das flautas dos encantadores de cobras, os acrobatas, contadores de histórias, feiticeiros, curandeiros, músicos, barracas de comida, mulheres fazendo hena, até os homens com macacos fazem parte deste lugar desde sempre. Claro que muitas coisas mudaram, e no meio de tudo isto tem pescaria de garrafas pet, shows de rua, minigolf e brinquedinhos chineses fluorecentes voando pelo céu. Mas é uma atmosfera muito legal, mesmo que os músicos parem de tocar com muita frequência para recolher moedas e que macacos pulem no teu ombro mesmo que você não queira tirar fotos.

Praça Djemma El-Fna começando a encher

De Marrakesh pegamos um “grand taxi” (taxi comunitário) até Asni e seguimos para Imlil já no topo do High Atlas. Se engana quem acha que o Marrocos é feito só de desertos. Existem algumas cadeias de montanha (com muita neve no inverno) e, na região onde estávamos a maior montanha passava dos quatro mil metros de altitude.

Foi uma delícia. Aquele clima de montanha que adoramos, quando a estrada termina e é preciso caminhar para chegar até as vilas. Fizemos treking e passamos por diversas vilas berberes. Vilas  pelas montanhas, onde algumas famílias oferecem quartos para você dormir.  Um super visual, com regioes verdes ao longo dos córregos que escorrem do desgelo, só poluido pelas antenas parabólicas existentes nas mais distantes das vilas. Mas a vida continua tendo um outro ritmo por lá.

Vilas Berberes

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Os Berberes são os habitantes originais do marrocos, pelo menos era quem estava lá antes da chegada dos árabes. Não se sabe bem certo a origem deles, uns dizem que são descendentes dos fenícios, que dominaram a região há milhares de anos, mas quem sabe não são uma evolução direta dos fósseis dos homo erectus de 200 mil anos encontrados no Marrocos. Eles são bem integrados com os árabes, existem um sentimento de unidade nacional, se sentem marroquinos, pelo menos para cima do Anti-Atlas.

Jebel Toubkal – Ponto mais alto do Marrocos, 4167 metros

Nosso roteiro pelo Marrocos não era dos mais convencionais. Deixamos de lado alguns lugares turísticos mega explorados para buscar outros mais autenticos. Teriamos que atravessar a cadeia de montanhas pelo passe Tizi n Test, passando por estradas incríveis, fazendo uma combinação de grand taxi e onibus pela rota Ijokak e Ouland Berhil para chegar em mais uma cidade imperial, Taroudant.

Pela estrada

Taroudant é chamada de pequena Marrakesh, pela cor avermelhada e suas muralhas e kasbah (forte). Cidade que teve pouca influencia dos franceses, e a população tinha todo um estilo próprio. Ficamos num Riad muito legal, que a Bibi se realizou pois tinha uma fonte no patio (ela sempre reclamava que os que ficamos antes não eram Riads de verdade pois não tinham fonte).

Me culpava por ter deixado a cidadezinha de Taliouline, centro da produção de assafrão do país para traz. Mas tínhamos mudado o nosso roteiro por uma questão de logística e tempo (a Bibi queria incluir um pouco mais de praia na nossa viagem). Então partimos para mais uma viagem pelas montanhas, agora atravessando o Anti Atlas,  cadeia de montanhas que isola o sul do Marrocos. A pequena cidade de Igherm já nos mostrava que estavámos saindo da rota mais viajada e não preciso nem comentar o visual que é sair das intermináveis curvas e chegar no Saara, passando por pequenos oásis e vilas.