O que restou dos Jasmins?

Para muitos a chamada “revolução dos Jasmins” foi o estopim do movimento que chacoalharia o mundo árabe, a “Primavera Árabe”. Quem acompanha a região, sabe que protestos violentos em Sidi Ifni no Marrocos e também no Saara Ocidental, antecederam a Revolução dos Jasmins, mas não tiveram a capacidade de “exportar” a Revolução como aconteceu no caso tunisiano.

A “Primavera Árabe” trouxe diversas consequências para o mundo árabe, reformas, guerras civis, conflitos e derrubada de governos, mas em nenhum outro país a transição foi tão fácil e tranquila como na Tunísia. Em menos de um mês o Governo já havia sido deposto e o ditador Bem Ali fugido para o exílio.

Além de questões estruturais e governamentais, uma das grandes mudanças sentidas no país foi a queda do turismo. Nada muito animador já que grande parte dos protestos tinham foco em questões sociais e econômicas, além de liberdade, é claro.

Em 2015 os atentados no (excelente) Museu do Bardo (21 turistas mortos) e meses depois num resort em Sousse (39 mortos) praticamente decretaram o fim do antigo turismo em massa de europeus. Por outro lado, houve um aumento significativo de turistas russos e chineses, que junto com turistas de países vizinhos, mantem o perfil turístico do país. Atualmente a Tunísia, pouco maior que o estado do Ceará, recebe um numero de turistas bem parecido com o do Brasil.

Acredito que de todo o continente africano, provavelmente a Tunísia seja o país mais fácil de viajar. Um país pequeno, com boa infraestrutura e grande facilidade de transporte. O paraíso para quem busca tranquilidade na beira do Mar Mediterrâneo.  Claro que o país oferece, e eu buscava, muito mais do que isto.

Cheguei de táxi coletivo vindo da Argélia. Não teria muito tempo no país, mas como comentei, não foi difícil percorrer grande parte do território. Inicialmente eu viajaria para o extremo sul do Saara argelino, mas devido às dificuldades que tive, acabei optando por conhecer a Tunísia, país que nem exige visto para brasileiros.

Meu primeiro contato com Tunis foi só na Medina e seu Souk (mercado), a parte pulsante da cidade. Como votaria deixei outros lugares para depois. Apesar dos excelentes Louages, lotações com guichês próprios, lugares marcados e preços fixos te levarem para qualquer lugar, eu optei por viajar de trem quando possível.  Foi assim que fui de Túnis até Gabes, o final da linha, já bem ao sul do país.

Fiquei hospedado num hotel decadente a excelentes preços, e foi bom explorar uma cidade não turística. Impressionante ver bares lotados de tunisianos bebendo (muito!) e escutando musica alta não muito longe das mesquitas.

Muitas pessoas usam a cidade como base para conhecer a Ilha de Jerba, com suas praias tranquilas e lugares interessantes como o bairro judeu e a comunidade Ibadi. Eu fui ainda mais ao sul, até Tataouine, explorar alguns belos Ksares Berberes. Apesar do nome, mundialmente conhecido pelo filme Guerra nas Estrelas, a maioria das filmagens do filme aconteceu em Matamata, não tão longe dali. Sob um calor absurdo, visitei diversos Ksares menores além dos impressionantes, Douiret, Chenini e Ouled Soltane. Construídos no século 15, situados no topo das colinas, são fortificações incríveis, onde havia verdadeiras cidades berberes autossuficientes. Região desértica, não muito longe da fronteira com a Líbia, parecia abandonada, jogada às moscas. Devi do à proximidade, pelas estradas, algumas pessoas vendiam galões de gasolina contrabandados da Líbia e caminhões do exercito faziam patrulhamento.

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Nunca imaginaria que teria dificuldade para sair de Tataouine. Devido às férias escolares o transporte estava escasso. Tive que pegar um ônibus de linha até Medenine, aliás, um ônibus articulado que muito lembrava o transporte publico de Curitiba. Em Medenine acabou acontecendo uma situação muito curiosa. Na chegada, estava conversando com o motorista para entender como chegaria até o ponto de ônibus que me levaria até Gabes quando fui abordado por um jovem tunisiano. Me tratava como um velho conhecido. Mencionou que eu era brasileiro, o que achei estranho. Seria um daqueles golpes com turistas? Como sempre, dei conversa, mas sempre atento e me questionando como podia saber sobre mim. Quando tentou pronunciar meu nome e mencionou minha viagem pela Argélia, fiquei sem reação. Tudo se esclareceu quando descobri que ele havia se hospedado na casa de um amigo meu da Argélia. Havia chegado poucos dias depois de mim, e meu anfitrião acabou mostrando algumas fotos minhas e contando da minha aventura por lá. Coincidência é pouco! Acabamos indo tomar um chá e logo veio o convite para ir dormir na casa dele. Nesta região também tem muitos Ksares espalhados, e ele me prometeu mostrar cada um deles. Amizade se formou rapidamente, e quando chegou a hora de me despedir recebi dois quilos de saborosos doces locais para levar na viagem.

Encontros improváveis

Nova parada em Gabes onde conheci a Corniche e outros lugares, mas gostei mesmo de repetir a sequencia de restaurantes, bares e sacada do velho hotel para ver o movimento do final de tarde.

Voltando para o norte, a cidade histórica de Sfax está a um pulo dali. Alias fora as viagens pelo deserto, tudo é muito perto (principalmente para quem acabara de chegar da Argélia, maior país da África).  Uma medina, muito bonita e gostosa de passear e sentar para ver a vida passar.  A estrada para seguir viagem pelos vilarejos do litoral era tentadora, mas pela manhã optei por pegar o trem novamente até Sousse, com parada estratégica de algumas horas em El Jem (Unesco), onde tem um incrivelmente bem preservado anfiteatro romano. A antiga cidade de Tisdro possuía três anfiteatros, e este que se mantem em pé foi construído no século III, e comportava um publico de 30 mil pessoas. Para os fãs de mosaicos, uma parada no Museu Arqueológico de El Fen é obrigatória.

Sfax

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A experiência em Sousse (também patrimônio da Unesco), não foi tão marcante. Caminhar entre os barcos de pescadores é legal, mas os chamados dos vendedores em diversas línguas (tentando adivinhar sua nacionalidade) no Souk quebra um pouco o clima. As excursões de turistas russos (que também estavam em El Jem) tampouco ajudaram.  Acabei pegando um Louage antes do que imaginava com destino a Kairouan (Al-Qayrawan), a cidade mais sagrada do país.

Guichê dos Louages

 

Também patrimônio da Unesco, fundada em 670, sempre foi um importante centro de estudos religiosos, onde existem diversas Madrassas (escolas corânicas). Belas mesquitas, portas azuis e tapetes completam a alegria de quem gosta de se perder pelas ruelas estreitas. Final de tarde a Medida fica lotada de mulheres passeando e fazendo compras enquanto os homens sentam na frente do portão principal para tomar chá e bater papo.

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Quase hora de voltar para casa, retorno à Túnis para os seus arredores. Um trem urbano (TGM) leva até a histórica Cartago(Unesco). Uma dos pontos comerciais mais importantes da antiguidade, cidade Fenícia/Púnica que liderou tantas batalhas contra o Império Romano.  As ruínas não estão centralizadas e exigem boas caminhadas entre elas. Parada obrigatória para qualquer amante de história!! Ficam no topo das colinas Byrsa, subúrbio da elite econômica tunisiana, inclusive não muito longe do palácio presidencial. Um pouco mais ao norte está o bairro mais descolado do país, Sidi Bou Said.

Cartago

Ruínas com a Catedral de São Luis de Cartago ao fundo

Carros e cabelos da moda lotam cafés e restaurantes da região. No calçadão que leva até o topo da colina, eles se misturam com os turistas que também não são poucos, principalmente próximo do horário do por do sol. Um ponto onde se pode observar a costa mediterrânea com uma marina é muito disputado para fotografias. Não menos disputadas são as dezenas de portas e janelas azuis e brancas, que apesar do movimento, dão um ar especial para o lugar.

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Andando por uma região tão privilegiada dá quase para esquecer algumas das principais reivindicações dos jovens tunisianos quase sete anos antes. Mas talvez seja justamente este privilégio de alguns que contraste com o desemprego de jovens com bom nível de educação que acenda a faísca inicial. Janeiros de 2018 novos protestos aconteceram, e se tornaram violentos. Resta saber se vão continuar e até se intensificar.

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