Que país é este?! – Índice dos países com reconhecimento limitado

São 193 os Estados Membros da ONU, porem existem outras nações “de facto” independentes mas com reconhecimento limitado. Alguns são bem acessíveis para viajar, outros nem tanto. Sempre importante lembrar que países onde o Brasil não tem relações diplomáticas você não tem assistência nenhuma em caso de dificuldades.

1- República da Transnístria

Lenin

Lenin

Reconhecimento: 3 estados não membros da ONU

Capital: Tiraspol

Moeda: Rublo da Transnístria

Visto: Emitido na fronteira, necessita de registro caso fique mais de 12 horas

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

2- Kosovo

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Reconhecimento: 109 estados membros da ONU

Capital: Pristina

Moeda: Euro

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

3- República da Abecásia

Novi Afon

Novi Afon

Reconhecimento: 4 Estados da ONU e 3 não membros

Capital: Sukhumi

Moeda: Rublo e Aspar da Abecásia (não muito utilizado)

Visto: Autorização de entrada pode ser solicitada por e-mail, visto necessário para a saída emitido no Ministério das Relações Exteriores

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4- Chipre do Norte

Porto

Porto Girne

Reconhecimento: 1 estado membro da ONU

Capital: Nicósia

Moeda: Lira turca, Euro e Libra esterlina

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

5- República de Nagorno-Karabakh

Mesquita

Mesquita em Agdam

Reconhecimento: 3 estados não membros da ONU

Capital: Stepanakert

Moeda: Dram armênio

Visto: Emitido no Ministério das relações exteriores e necessário para sair do país (para entrar não precisa)

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6- República da Somalilândia

Memorial de guerra

Memorial de guerra

Reconhecimento: Sem reconhecimento internacional

Capital: Hargesia

Moeda: Shilling da Somalilândia

Visto: Emitido na fronteira ou com antecedência em uma das ” Embaixadas”

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7- Palestina

Free Palestine

Free Palestine

Reconhecimento: 138 estados membros da ONU

Capital: Jerusalem Oriental (ocupada), Ramallah (provisória)

Moeda: Shekel

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

8- Saara Ocidental (República Árabe Sarauí)

Bases militares por todos os lados

Bases militares por todos os lados

Reconhecimento: 84 estados membros da ONU

Capital:  Laayoune (ocupada), Bir Lehlou (provisória)

Moeda: Dirham

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

9- República da Ossétia do Sul

RSO- República da Ossétia do Sul

RSO- República da Ossétia do Sul

Reconhecimento: 4 estados da ONU e 3 não membros

Capital: Tskhinval

Moeda: Rublo

Visto: Autorização de entrada pode ser solicitada por e-mail com um mês de antecedência, visto necessário para a saída emitido no Ministério das Relações Exteriores

Relato: Devido a uma queda de barreira na estrada não pude visitar

Dos países “de facto” independentes ainda tem Taiwan, reconhecido somente por 21 estados membros da ONU, mas que eu ainda não visitei.

Existem muitas outras regiões que já foram ou gostariam de ser independentes, mas hoje fazem parte de outros países, portanto não sendo “de facto” independentes. Algumas foram transformadas em regiões autônomas (ou semi-autônomas) e Repúblicas, outras mantém governo no exílio.

Algumas destas regiões por onde eu já viajei:

Tibet

Relato: (Clique aqui)

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Curdistão

Relato: (Clique aqui)

no centro da cidade

Citatel de Erbil

República da Chechênia

Relato: (Clique aqui)

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República de Karakalpak

Relato: (Clique aqui)

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República da Ossétia do Norte

Relato: (Clique aqui)

Dargavs

Dargavs

Caxemira

Relato: (clique aqui)

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Xinjiang (Turquestão Oriental)

Relato: (Clique aqui)

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República da Inguchétia

Relato: (Clique aqui)

Torres Inguches

Torres Inguches

"O fato de que poucas pessoas vão,
é uma das razões mais fortes para viajar para um lugar"
- Paul Theroux
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Oito dias no Tibet (2005)

Em 1950, o exército chines marchou sobre o Tibet, e não teve muitas dificuldades em anexar seu território. Os tibetanos ainda tentaram uma resistência,  mas seu destino estava traçado. Foram obrigados a assinar um acordo com a China para não serem aniquilados. Na década seguinte, quando a ocupação foi aumentando milhares de tibetanos se aventuraram pelos Himalaias, buscando refúgio nos países vizinhos. Mas não se tratava de uma simples cadeia de montanha, e a maior parte acabou morrendo pelo caminho. Os que conseguiram atravessar as fronteiras, muitas vezes tinham partes do corpo gangrenadas pelo frio e estavam muito debilitados. Dentre eles estava o jovem  que nasceu como Lhamo Thandoup, hoje sua santidade o  14 Dalai Lama, que após consultar o oráculo, também fugiu. Se organizaram, e criaram o governo do Tibet no exílio em Dharamsala-India.

Era o aniversário de 55 anos da “Libertação Tibetana” e os chineses não pareciam muito interessados em ter turistas por lá. Ainda em Katmandu-Nepal, eu tentava conseguir um visto para a região, mas não parecia algo simples. Nenhum grupo tinha sido liberado naquele ano. Depois de muita insistência  acabei conseguindo. Nada de viagem independente. Para conseguir o visto tinha que fazer parte de um grupo, e não pensei duas vezes antes de me inscrever em um tour que me levaria de Katmandu até Lhasa, capital do Tibet, atravessando a cordilheira dos himalaias por terra.

Estávamos em duas Land Cruisers, e viajamos pelas magníficas paisagens do Nepal, por curvas e mais curvas contornando montanhas, passando por vilas e pontes suspensas, com corredeiras lá em baixo. Bem mais tarde chegamos a ponte da amizade, na divisa Nepal-Tibet. Pequena burocracia e logo estávamos do outro lado, em Zhangmu. Depois seguimos para Nyalan, onde passaríamos a noite.

Tomamos uma cerveja quente em um bar de karaoke e já deu para conhecer melhor o grupo. Como em qualquer grupo, tem pessoas bacanas e outras não tão legais assim. Pelo menos estávamos em dois carros, e dava para ter uma divisão física durante o dia todo. Se na minha viagem do ano anterior tinha conhecido pessoas que estavam dando a volta ao mundo, dessa vez o contato era com pessoas que tinham até morado no Sudão, Sri Lanka, Gambia…  Se naquela época ainda existia uma barreira imaginária dos lugares que eu poderia viajar, depois dessa viagem elas desapareceram.

De Nyalan até Tingri são uns 250 km, mas claro que não é uma linha reta. Muitas curvas e sobe e desce. Passamos pelo Passe Nyalamu  ( 3800 mts) e já nos impressionamos. Não muito tempo depois chegamos ao Passe Lalung La (5050 mts). A emoção era tão grande que a dor de cabeça pela rápida acensão pouco incomodava  A vista é indescritível  com pequenas estupas de pedra no topo e bandeirinhas de orações tibetanas dando um clima para o lugar. Ainda antes de chegar em Tingri, passamos por diversos iaques  – bois peludos do Himalaia, ao lado da estrada pedregosa. Para completar no caminho ainda é possível ver o Monte Everest (8848mts), maior montanha do mundo.

Bandeiras de orações e os Himalaias

Bandeiras de orações e os Himalaias

Stupas de pedra

Stupas de pedra

As viagens são duras, carros andavam bem devagar e chacoalhavam bastante. Tínhamos mais uns 250 km para percorrer até Xigatse, passando por Latse, portanto tínhamos que sair bem cedo. Isto não era ruim, pois nos dava a flexibilidade de ir parando no caminho, visitando pequenas vilas, onde eramos convidados para tomar chá de manteiga (feito de leite de yak). Também experimentei comer tsampa, comida nacional. É uma farinha misturada com manteiga de yak, pó de queijo e chá. Altamente energético, para aguentar longas horas de trabalho naquela altitude. Lembrava das histórias do escritor Lobsang Rampa, mas a imaginação humana as vezes não tem recursos para criar situações próximas de uma realidade não vivida. Por isto é que amo as experiências!

Yak

Yak

Chá de manteiga sendo preparado

Loja de conveniências ao lado da estrada

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Acho que não chove por aqui

vilas

vilas

Shigatse é um lugar especial. Lá está o belíssimo  Monastério Tashilumpo, do Panchen Lama, com seus corredores escuros e pinturas nas paredes. O Panchen Lama é uma figura importantíssima no budismo tibetano, ele que ajuda a identificar as encarnações do Dalai Lama, e tem grande papel no ensinamento deste. Poucos dias após o novo Panchen Lama ser identificado, dez anos antes da minha visita ao local, as autoridades chinesas sequestraram ele, que tinha apenas seis anos. Instituíram uma outra pessoa no lugar, mas claro que os tibetanos não o reconheceram. Se trata do mais jovem preso político do mundo, se é que ainda está vivo.

Apesar de ser a segunda maior cidade do Tibet, tem um aspecto bem rural. O principal mercado é um ótimo lugar para ver as pessoas e os costumes em geral.

A próxima viagem até Giantse seria mais curta, cerca de 100 km. Lá está o Monastério Phalkor e a estupa Khumbum. As paisagens continuavam esplendidas, com pequenas vilas e bastante interação no caminho. Bandeiras chinesas estendidas mostravam o controle da região, controle também em postos do exercito espalhados pela estrada.

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Avenida principal

Avenida principal

Monastério

Monastério

A viagem de Gyantse até Lhasa, passando por Nagarze e Quxu e outras diversas vilas foi fantástica. Arquitetura típica e sempre com esterco secando para alimentar o fogo. Me irritei um pouco com um inglês que além de distribuir canetas, tinha levado duas bonecas barbis para dar de presente para crianças por lá. Não falei nada, mas por sorte um francês deu um sermão nele. Visão bem ocidental de achar que está ajudando, mas no fundo só quer se sentir bem. Mais dois passes incríveis  Karola (5010 m) e Kamba La (4794 m). Isto para não falar nos glaciais e no lago Yamdrok So, com suas águas verdes/azuladas de desgelo.

Glaciais

Glaciais

Lagos formados pelo desgelo

Lagos formados pelo desgelo

Casa tipica

Casa tipica

Em Lhasa  a atração mais obvia é o Potala, palácio do Dalai Lama. Belíssimo, mas transformaram em um grande museu. Segundo a norma dos chineses agora só é possível visitar no sentido contrário que os devotos costumavam peregrinar, para cortar a relação com a religião. Ainda possui as diversas salas, escadarias, mas me pareceu muito artificial, pois não há mais vida ali, parece um museu.

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Caminhando pelas ruas de Lhasa

Caminhando pelas ruas de Lhasa

Gostei muito mais de caminhar pelo mercado Barkhor ao lado do templo Jokhang. Este sim muito ativo, cheio de peregrinos. É o centro da cultura tibetana, e por isto é todo vigiado por câmeras de segurança. Os chineses sabem que lá foi palco de grandes protestos, e se novos fossem ocorrer provavelmente iniciariam ali. É emocionante ver a devoção de pessoas que viajaram dias e ficam deitando e levantando continuamente como forma de saudação. Muitos peregrinos pediam para tirar fotos comigo, queriam saber de onde eu era, isto sem saberem uma palavra em inglês!

Devoção

Devoção

Praça

Praça em frente ao Jokhang

O Monastério Sera, famoso pelos estudos filosóficos é um ótimo lugar para ver as discussões sobre budismo e desafios filosóficos. Um monge faz uma pergunta e bate palma bem forte, fazendo todo um movimento, aguardando a resposta do seu desafiado. Ali funciona universidades/internato, centro pensante, onde houve muitos monges mortos durante a ocupação chinesa.

Drepung é um monastério-universidade muito bonito, que fica nos arredores de Lhasa. Caminhava por ele refletindo sobre a minha viagem: as famílias simples que nos acolheram para um chá de manteiga, e a destruição cultural que a China estava fazendo com o Tibet. O “ainda intocado” tão perto da rápida globalização e de câmeras de segurança. O dinheiro vencendo a cultura e a tradição. Isto que ainda não tinham inaugurado a linha de trem que ligaria Lhasa ao restante da China (foi inaugurada no ano seguinte).

Desafios filosóficos

Desafios filosóficos

Monastério-Universidade

Monastério-Universidade

Quando peguei o avião para Katmandu, sobrevoando a cordilheira dos Himalaias, continuava com o mesmo pensamento. Eu tinha que conhecer o mundo antes dele se padronizar.  Se a semente da minha volta ao mundo já estava plantada, agora foi adubada e estava pronta para brotar. Mas depois dessa viagem, o roteiro seria bem diferente. Queria ir para lugares que a minha imaginação ainda não pudesse alcançar.

O Vale de Hunza, o Pequeno-Tibet e o maior paredão do mundo!!

Karimabad e o mais próximo de um destino turístico no norte do Paquistão  e e fácil entender porque. A vila tem uma super vista para gigantescas montanhas (com destaque para Rakaposhi), ótimas caminhadas, uma forte cultura do hospitaleiro povo Hunza, deliciosa comida, e ainda muita historia.

A região tem muitos hotéis  mas quase todos vazios. Todos reclamaram muito que depois do 11/09 o turismo no Paquistão despencou. Os hotéis baratos (2 usd por pessoa) não estavam lotados, mas tinha bastante mochileiros. Encontramos algumas pessoas que estavam no ônibus que veio da China, como o excêntrico  figura rara, tcheco de 72 anos (e que já viajou para 155 países!!!), alem do nosso amigo japonês Koich, que encontramos pela terceira vez desde o Quirguistão  Como ficamos alguns dias, fizemos novas amizades, encontramos couchsurfer e nos sentimos em casa!

Já que estávamos bem no meio da montanha, tudo era subida ou descida. Não demoramos muito para visitar o antigo forte-palácio da região. Fica no topo da vila, e ficou ativo durante 800 anos, ate que com a chegada da KKH, caíram as monarquias. Os antigos reis receberam títulos simbólicos, mas ate hoje são idolatrados por muitas pessoas. Muita gente não se sente paquistanes por aqui, e sim hunzo. O forte-palácio e muito bonito, e com influencias tibetanas claras. Fácil de associar sua fachada com o palácio Potala de Lhasa. Isto ocorreu porque um príncipe de Hunza se casou com uma princesa de Skardu, região hoje a leste do Paquistão  e que antes fazia parte do império tibetano.

Hunza Fort

Em outras vilas vizinhas existem ainda outros palácios menores, e do outro lado do vale, atravessando o rio, ficava outro reinado, o rival Nagir, oponente de tantas guerras. Verão e época de diversas frutas, mas a especialidade da região são as ameixas amarelas. Misturam na comida, secam, fazem diversos pratos. Aproveitamos para nos abastecer destas frutas para fazer uma das caminhadas mais longas que encaramos na região. Subimos ate o Ultar Meadow, uma pastagem verde la no topo da montanha, atravessando cachoeira, penhascos e muita subida com pedra solta. Já estávamos relativamente alto, portanto num ar rarefeito. O Jonny teve que mostrar bastante superação  parecia um filme, mas encarou ate o fim. O visual inacreditável, o caminho desafiador, mas valeu cada uma das 7 horas. Teve gente que descobriu que tem medo de altura ao caminhar pelas “passarelas” na beira do abismo…haha

passarelas

unico caminho

no topo de Ultar Meadow

Tempo mudou rapido

A Bibi aproveitou para ler, na cama de chá especialmente virada para as montanhas. Passamos bastante tempo largados ali também  e as refeições com todo mundo junto era um momento a parte. Nosso prato favorito era o Chiken Karay, que intercalávamos com outros pratos para não enjoar.

esta vista custa dois dolares!

Numa de nossas caminhadas o Marco fez um amigo, que deu uma roupa de muçulmano para ele. Já estávamos pensando em comprar, mas como o Ramadan aqui é mega relax, nada de lenço na cabeça para a Bibi, dava ate para sair de bermuda, estávamos adiando. Esta parte de Hunza e de maioria Ismailis também, mas nem todo o vale e assim. Nos horários de reza, e principalmente no horário da ultima (ainda bem de madrugada), e primeira refeições (ao por de sol), as mesquitas cantavam alto, e de forma bem longa. Paralisávamos olhando para o horizonte como se estivéssemos hipnotizados, era de arrepiar!!

Um dia decidimos descer montanha ate a vila de Ganish, na beira da KKH. E uma cidadezinha mega antiga, com casas tradicionais, mesquitas todas trabalhadas em madeira e um lago como “praça” principal. Alguns antigos caravansarais ainda estão la, e a madeira onde os cavalos (ou camelos) eram amarrados continua ali, gasta de tanto ser usada. Fiquei pensando se o Ibn Batuta ou o Marco Polo amarraram seus cavalos ali. Existe um interessante sistema de refrigeração para alimentos, utilizando água gelada da montanha canalizada. Foi o primeiro lugar onde mulheres chamaram a atencao da Bibi por causa da roupa. Ali eles eram sunitas, e o mês sagrado do Ramadan deveria ser respeitado.

Caravansarai em Ganish

Em um outro dia, em vez de descermos, resolvemos acompanhar os canais, andando horizontalmente pela montanha. Passamos por casas de pedra, crianças jogando criket com pá, trabalhadoras no campo com roupas suuper coloridas. Muitas pessoas paravam para conversar, nos convidavam para entrar. Era final de tarde, e o lugar tinha uma magia no ar. A Bibi virou e disse: “sera que não poderíamos vir morar aqui, ou pelo menos passar uns meses?” Eu respondi com um ar de vitorioso: “ue, você não tinha medo de vir para o Paquistão? Não era um lugar perigoso?” Voltamos já estava escuro, andando pelas pequenas vilas e seus simpáticos moradores.

interacao nas vilas

Hunza faces

Chegou o dia de partir, mas como nos que comandamos, resolvemos ficar um dia extra, só aproveitando o lugar. Conversando com o Koich, decidimos fazer parte da viagem juntos, já que nos demos bem e nos encontrávamos toda hora mesmo.

De Karimabad fomos para Aliabad e de la para Gilgit, maior cidade da região norte do Paquistão  Gilgit funciona como uma capital, alem de ser barulhenta, movimentada e empoeirada. Ah, também havíamos descido bastante, portanto estava beem quente.

mais caminhões decorados pelo caminho

Comprei meu novo modelito, e eu com barba já estava passando por paquistanes. Gilgit ja e bem maior, principalmente comparado com as vilas que passamos, mas também não dava para ser chamada de cidade grande. Ainda e um mundo a parte do Paquistao. O esporte favorito no norte do pais e o polo. Mas não e um polo de playboy não, e um polo vale-tudo, onde a porrada come solta. Os campos de polo passaram a ser referencia nos mapas das cidades maiores que passamos ainda na região norte. A bravura não esta só nos esportes. No topo da montanha uma homenagem aos Gilgit Scouts. Formados pelos ingleses, foram os heróis da resistência e luta contra os indianos na disputa da Kashimira. Mesmo em menor numero, conseguiram garantir 30% da Kashimira para o Paquistão  mas este assunto eu comento mais para a frente.

Nos arredores de Gilgit ja tem muitas ruínas budistas, mas a maioria dos sítios budistas estão perto de Skardu, no estado de Baltistan, que significa Pequeno-Tibet. Na verdade o budismo chegou na China, e até mesmo no Tibet, passando pelo norte do Paquistão  Na região passa o sagrado rio Indus. A Viagem ate Skardu foi bela (como sempre), perigosa devido os desfiladeiros, mas especialmente dolorosa pelo micro-ônibus lotado e horas de duração.

Alem dos lugares de interesse de Skardu, a cidade seria ponto de partida para os Deosais Plains. Juntos com o Koich poderíamos alugar um jipe só para nos, já que não existe transporte publico para la. Depois de muitas discussões (saudáveis) com outros viajantes durante o jantar e uma noite bem dormida, estávamos prontos para negociarmos o transporte. Logo arranjamos um jipe e fomos para o mercado comprar comida para os próximos dias. A Bibi e o Jony compravam frutas enquanto eu fui cercado por locais, onde tivemos altas conversas. A maioria da região e de muçulmanos shiitas, e quando contei que tinha ido a Mashaad e falei sobre os Imams foram ao delírio. Não acreditavam como eu podia saber a historia da religião deles. Foi muito divertido!

paquistaneses em Skardu

Andamos pelas ruas caóticas  descolamos as barracas e sacos de dormir e estávamos prontos para partir. Nosso motorista colocou sua musica favorita, que repetia “Ali, Ali, Ali…” e cantamos empolgados. Mal sabíamos que ele ia repetir a musica umas 50 vezes, ate enjoarmos. Passamos por lago, mais postos de controle e subíamos sem parar. De repente, parecia ser mais um passe, aonde depois de uma subida viria uma descida, tudo mudou. Chegamos nos Deossais, estávamos a 4 mil metros de altitude, mas em vez de um descida, um planalto! Andamos por pequenas trilhas, atravessamos rios ate chegar em um rio com uma ponte suspensa. Era o lugar onde acamparíamos.

Infelizmente estavam construindo uma ponte de concreto ao lado, o que fazia o lugar perder um pouco do estilo. Sem contar que estava cheio de acampamentos dos operários  Mas de qualquer maneira o lugar era super calmo, bonito, e quando veio a noite, um céu espetacular!!!

A quatro mil metros de altitude a temperatura despencou rapidamente. Tínhamos sacos de dormir bons, mas as barracas emprestadas eram furadas, e tivemos que colocar grampos de roupa e fita para fechar os buracos. Quando chegou a hora de partir o jipe não funcionou. Tivemos que esperar mais algumas horas, ate a temperatura subir o suficiente. Se Deosai já estava bonito, depois de passarmos por mais rios, e outros lagos ainda mais bonitos, iniciamos uma descida com um suuper visual. Passamos por vilas e mais vilas. Estávamos sem mapa, mas nosso motorista foi pedindo informação e conseguiu chegar onde queríamos, Tarashin.

 

Estávamos muito na duvida se vinhamos para cá ou se íamos para os Fary Meadows. Ambos sao na base do pico Nanga Parbat, o oitavo maior do mundo. No Fary M., face norte, alem de alugar outro jipe, teríamos que caminhar três horas ate o local onde dormiríamos  Diziam ser mais bonito, ou pelo menos mais verde. A maioria das pessoas vão para la. Mas a face sul, a Rupal face, tinha um apelo maior (literalmente). Era o maior paredão de um campo base ate o cume, com mais de 4500 metros.

Não nos arrependemos. A vila tinha só duas pousadas, sem energia elétrica e claro. Já tinha um baita paredão bem de frente para os nossos quartos, mas sabíamos que não era o cume que estávamos avistando. Teríamos que contornar a montanha. Acordamos cedo, e logo estávamos atravessando nosso primeiro glacial, rumo a vila de Rupal. Só um amontoado de casas, muitas plantações e mulheres com roupas coloridas. As mulheres não conversavam conosco, nem deixavam tirar fotos. Já os homens eram super simpáticos, nos convidavam para chá, e teve um Sr. que ate colheu umas verdura para nós.

Rupal Faces

O Sr que colheu verduras para nos

A caminhada apesar de longa, não era difícil, pois era quase totalmente no plano. A Bibi nos acompanhou desta vez e adorou. Teve toda esta questão cultural antes de chegarmos ao acampamento base. O paredão nem parecia tao alto, mas tínhamos perdido a referencia. Tentando calcular com proporções e analisando melhor, vimos que grandes construções eram migalhas ao lado da montanha. Fizemos piquenique olhando aquela pequena pastagem com yakes, escutando os estalos seguidos de avalanche. Ainda sob o efeito da perda de perspectiva, decidi andar sozinho ate um glacial. Parecia perto, mas demorou um bom tempo. As flores, a neve branca e o barulho da montanha davam uma sensação fenomenal. Logo vi que poucos metros dali tinha outro glacial, que escorria da montanha e passava bem atras de onde estava o pessoal.

Nanga Parbat!

Na volta, passando pelas vilas, a Bibi ficou um pouco mais para trás  para ver se melhorava a interação com as mulheres. Deu certo!! Foi cercada, perguntavam mil coisas, cantaram, pediram para ela cantar. Eu tentei tirar fotos de longe, mas era um momento para ser curtido, não fotografado. Depois de muita insistência para ficar, ela partiu. Crianças foram seguindo ela ate nos encontrarmos. O entardecer ja chegava, e paramos no glacial para pegar gelo. Pratica comum. As pessoas vem com uma sacola, limpam a parte de cima do gelo, quebram pedaços para levar para casa. Quem precisa de geladeira?

so para mulheres

aprendendo a levitar

Depois de 13 horas estávamos de volta, tomando uma coca gelada com gelo do glacial. Durante a noite não dormimos, fomos desligados! Recuperados, estávamos prontos para seguir viagem. Lá estávamos nos, cedo para pegar o jipe comunitário ate Astor.

com nosso amigo Koich

Caminho pelo vale de Astor e muito bonito e chegando lá tivemos uma surpresa. Sempre estavam sendo super honestos a respeito dos preços, não tínhamos nem que nos preocupar. Desta vez o motorista resolveu cobrar o famoso “preço para turista” (primeira e unica vez no Paquistão, 10 vezes o combinado). Acabei com ele! Iniciei com um “vc vai cobrar mas caro de nos por sermos estrangeiros? Este não foi o preço combinado  então e roubo. Vc vai nos roubar em pleno mês sagrado do Ramadan???” Nisso ja juntou varias pessoas, todos dando opiniões  Terminei apontando para o céu e dizendo “ Alah esta vendo. Será que somos diferentes de vc ou somos todos iguais?” A multidão que tinha se formado me apoiava e pressionou ate o motorista ceder todo envergonhado.

Mais um ônibus  desta vez bom, ate com ar condicionado (ok, não funcionava direito) e voltamos para Gilgit, onde encontramos amigos suíços que não víamos desde o Uzbequistão.

Seguir pela KKH ou sair do caminho novamente? Tínhamos uma decisão a tomar.

O magnetismo da Índia.

Já estava tudo decidido, passagem comprada para nossa próxima etapa da viagem. Mas paresiamos não estar prontos. Já fazíamos planos de retorno para cá, e as viagens que imaginávamos não eram curtas, teriam pelo menos 2 meses, sem repetir os lugares que mais gostávamos. Estávamos cansados, física e mentalmente, mas deixar a Índia não era fácil. A Bibi levantou a possibilidade de adiarmos a passagem e eu topei na hora, afinal parecia fácil só trocar a data. Comprar uma passagem na internet é fácil, se já tiver pesquisado preços não demora mais que dois minutos. Fiquei surpreso ao saber que a troca não poderia ser feita pela internet, somente pessoalmente em um dos escritórios. Verifiquei a lista de escritórios mais próximos, e decidi ir pra Chandigarth, que já seria meu caminho para Daransala. A Bibi voltou para o Ashram. Na saída do hotel tentaram cobrar uma noite a mais. Como existe todo um controle de segurança, e preciso preencher varias papeladas. O recepcionista preencheu tudo, e só assinamos, com a data errada. Quase caímos no golpe deles, mas não parecia logico. Recorri ao meu diário para verificar as datas, mas estava desatualizado. Depois de muita conversa, lembrei que no ultimo dia do Ashram tínhamos tirado varias fotos, e estas tinham datas. Mostrei para o gerente do hotel, e quando este disse que minha maquina devia estar errada vi que era golpe mesmo. Mais uma longa discussão e falaram que poderíamos ficar mais uma noite mas que não devolveriam o dinheiro. Mais empenho e conseguimos os trocados do valor que tinham cobrado a mais. O hotel era muito barato (e bom!!) mas não era uma questão do dinheiro, e sim do mérito.
Umas cinco horas depois (viagem curta para padrões indianos) eu estava chegando em Chandigarth. Falavam muito desta cidade, já que foi toda planejada por um arquiteto francês, alem de ser muito verde. Teoricamente uma digna representante da “nova Índia” toda descolada. Acabei não podendo conhecer muito da cidade, pois logo descobri que o escritório listado no site não existia mais. Liguei para o escritório de Nova Delhi, e me recomendaram ir para Jallander. Achei que era ali perto, mas la se foram mais umas quatro horas. Não cheguei a tempo de ir no escritório, e ficou para o dia seguinte. Foi muito difícil de achar hotel, cidade comercial, estava ou muito caro ou lotado. Acabei arrumando um quarto não muito agradável atras de um estacionamento de bicicletas e triclishaws. Desespero deu ao saber que o escritório não abria aos sábados, e que fiquei esperando la na frente de bobeira!!!. Pelo menos estava perto de Amritsar, cidade que estava nos meus planos, então teria só que inverter meu roteiro. Desci da rodoviária e atravessei a rua para almoçar no primeiro restaurante que vi. Comi um delicioso Punjab Thali, comida da região. Segui ate o Golden Temple onde pretendia me hospedar. Como era aniversario do Guru Arjan Dev, um dos principais gurus dos Sikhs (religião do local, onde o Templo Dourado e o principal local de peregrinacao), tava muito lotado, e não consegui quarto no primeiro dormitório que busquei. Em volta do templo existem vários dormitorios para os perigrinos e tentei outro (Guru Ram Das Sarai), onde consegui um colchão no chão para a primeira noite, mas me prometeram cama para as demais. Queria ficar entre os indianos, mas para manter a ordem e a reputação, fui colocado junto com outros estrangeiros em um grande quarto.
O Sikhismo e uma religião derivada do Hinduismo, mas com diferenças bem marcantes, como o culto a somente um Deus e ser totalmente contra o sistema de castas. Na verdade o Guru Nanak, fundador da religião era um grande pensador, viajou por toda a India, Tibet, Ceilao (atual Sri Lanka) passando pela Pérsia (Iran) e visitando inclusive Meca, na Arabia. Depois de mais de 40 anos ele retornou e fundou a religião, que contem vários aspectos e influencias do Islamismo também. Há quem considere a religião uma especie de filosofia, já que qualquer Deus pode ser louvado em um templo Shikh. Inclusive grandes lideres Sikhs no passado construíram mesquitas, para que a população islâmica da região pudesse seguir sua devoção. Religião bem tolerante e com um aspecto interessantíssimo. Segundo ele, uma pessoa não consegue pensar em Deus se tiver com a barriga vazia, com isto criou as Langars, cozinhas comunitárias, que fornecem alimento gratuito nos templos. O prédio onde ficava meu dormitório era bem perto da gigantesca cozinha/refeitório, e de uma das entradas. Caminhei pelo templo mais de uma duzia de vezes. Bati papo com o pessoal, tomei banho no lago de noite, quando tudo estava mais calmo. Sim de noite, pois fica aberto 24 hs. O bom da proximidade e que já sai descalço, sem ter que se preocupar em deixar o chinelo nos guarda sapatos, ou enfrentar fila.

Golden temple!!

 

Olha o estilo

Ao entrar no templo tem que lavar os pés, e já providenciam uma área transversal ao caminho com água. Homens e mulheres tem que cobrir a cabeça. O templo propriamente dito fica no meio de um lago, onde filas se formam para a visita. Mas ao redor existem outros lugares sagrados e a vista e fantástica, principalmente final de tarde quando o sol esta se pondo e o céu fica dourado, como se o templo estivesse refletido; e a noite, quando fica tudo iluminado. Em alguns horários do dia existe uma procissão com o livro sagrado, e a limpeza do local, um mutirão com todos os devotos ajudando e muito interessante.

Templo dourado com céu dourado!!

 

Todo mundo ajudando a lavar o chao

Para mim a cozinha e algo a parte. Funciona 24 hs por dia, servindo milhares e milhares de refeições. Eu calculei algo entre 50 e 100 mil refeiçoes diárias neste final de semana movimentado. Tudo na base do mutirão, fieis ajudam a lavar as bandejas, cortar cebola e por ai vai. Filas se formam para entrar nos gigantescos salões, onde as pessoas vão se acomodando no chão em estreitas fileiras. De tempo em tempo fecham a porta para uma limpeza geral, para só depois liberar a entrada de novas pessoas.

Fila para o rango!!

 

Milhares de refeições gratuitas

Existe uma área separada só para o chai. Fantástica a logística, organização, limpeza. Ótimo lugar para conhecer pessoas interessantíssimas e aprender mais sobre a cultura deles. Alguns aspectos interessantes, como que para os olhos de Deus, tanto um eremita na caverna como um príncipe no palácio estão em igualdade, pois tem funções diferentes (não estimulando a renuncia e desapego por exemplo). Coloca o principal aspecto de Deus no homem e não nos livros e leis.
Punjab, estado desta região, almejou durante muito tempo ser independente. Tentou algumas vezes, mas nunca obteve sucesso. A ultima delas foi em 1984, quando os separatistas foram encurralados no templo dourado, onde foram massacrados e bombardeados. A Indira Gandhi, que ordenou a invasão pagou caro por isto pouco tempo depois, ao ser assassinada pelos 2 seguranças particulares Sikhs.
A região tem uma cultura muito forte, musica, comida, os turbantes, espadas e lanças, que fazem parte da tradição. Povo muito acolhedor e simpático, fez com que me sentisse muito a vontade. Como os dormitórios estavam lotados, centenas de pessoas dormiram no chão, seja no patio dos prédios, na rua ou nos templos. Alguns dos quartos são cobrados, apesar de preços baixíssimos, mas em geral e tudo na base da doação.


Attari, a fronteira com o Paquistão não fica muito longe dali, e fui dar uma olhada na cerimonia de recolhimento da bandeira no final da tarde. E algo bem turístico, um show montado, mas muito divertido. Na verdade e para turista indiano, que e a maioria esmagadora, não para estrangeiros. Como estamos na Índia, filas e milhares de pessoas se aproximavam das arquibancadas perto da divisa dos países (sim arquibancadas!!!). La inicia uma cerimonia, com gritos, danças, provocações com bandeiras e marchas dos enfeitados soldados. Tudo devidamente ensaiado acontecia da mesma forma do lado do Paquistão. Ironicamente uma grande rivalidade e ameaças de guerras, e transformada num show, rentável para ambos os lados. Sim, rentável financeiramente, pois existem lojas de suvenires onde se pode comprar camisetas, canecas, DVDs, etc. Todos com sorriso na cara, jovens dançando no maior estilo Bollywood no meio da rua. Bizarro!!! Apesar de um pouco longo, foi muito divertido. Triste foi ver aquela que e a unica forma de passar de um pais para o outro ao longo da enorme fronteira, e não ir para la. Eu realmente queria fazer Paquistão e Irã, mas fica para uma próxima vez…

Pequena fila para ver a bandeira ser recolhida

 

Dançando para provocar, boa forma de rivalidade!!


De volta a Amstar, como meu óculos de camelô havia quebrado, e resolvi fazer o teste da honestidade entre os estrangeiros. Deixei ele largado no dormitório enquanto fui ao banheiro. Não demorou 5 minutos para ele desaparecer. Interessante como e possivel viajar pelo mundo, lugares paupérrimos sem ter problemas e ser roubado por um ocidental. Mas que ele deve ter ficado de cara ao ver que correu um risco por um óculos que não vai poder usar, deve…

Povo de Punjab e muito gente boa!!

 

Pessoal se virando para dormir em qualquer canto. Este era o patio interno do dormitório!!

Voltei para Jallander de trem (3 classe para sentir o clima!), e desta vez deu tudo certo com a troca de passagens. Este contra tempo fez com que alem de ter que inverter meu roteiro, o que não tem problema nenhum, eu tivesse que encurtar minha estadia em Amstar, o que doeu, pois adorei o lugar. Peguei um ônibus para Daransala, mas no caminho conheci um estudante, que depois de muita conversa e perceber meu interesse pela cultura e religião deles, me convidou para almoçar na sua casa. Descemos em Hashpuir, pegamos outro ônibus até sua vila. Morava numa casa boa, com um pequeno jardim onde tinham dois búfalos! La chegando me apresentou para o pai e o avo, e se retirou da sala. O pai falava pouco inglês, e o avo bem. A dificuldade e que o avo tinha um problema e sua voz saia pela garganta, o que dificultou um pouco a comunicação…haha Foi proveitoso e divertido, alem de ganhar um delicioso almoço. Consegui diversas informações, e me levaram para conhecer a região rapidamente.

anfitriões

Mas tinha que voltar para estrada, que logo ficou cheia de curvas, ate chegar em Daransala. Já era tarde, e peguei o ultimo ônibus ate Mc Leonganj, um pouco mais para cima da montanha.
Daransala e onde funciona o governo do Tibet no exílio, e também residencia da vossa santidade Dalai Lama. Houvia maravilhas do lugar, que era mais parecido com o Tibet do que o próprio Tibet e blabla bla. Confesso que isto fez com que me decepcionasse um pouco. Nada de cultura tibetana explicita, e sim muito misturada com indiana e principalmente com a ocidental. Parecia que todos os viajantes que estavam na Índia fugiam do calor e estavam ali. Se no sudeste asiático o padrão dos mochileiros era jovem inglês, com cabelos cuidadosamente despenteados, roupas de marcas falsificadas e óculos coloridos, aqui era diferente. Um pouco mais velhos, estilo bixo-grilo ou mamãe quero ser hippie. Muitos dread locks, e muita falsa espiritualidade também. Em vez de bêbados ficavam chapados. Assim como no sudeste asiático, era difícil distinguir um do outro, pois pareciam estar de uniforme. Incrível esta falta de personalidade, necessidade de fazer parte de um grupo. De qualquer forma o lugar e muito bonito, rodeado com montanhas com seus picos nevados, que podiam ser vistos quando não chovia ou estava nublado, o que era comum. Ótimo lugar para caminhadas, um pequeno mas muito bem montado museu sobre o Tibet e invasão chinesa, e templos onde tentam manter e ensinar as tradições tibetanas.

Bandeiras de orações

Um dia me sentei na internet e ao lado estava o casal de russos/americanos que conhecemos em Tirunavamalai, no inicio da viagem pela Índia. Jantamos juntos um dia, e batemos papo tomando um chá em um outro. Encontrei novamente também Andy e Sylvia, o casal alemão que ficou ainda mais próximos da gente. Com eles também sai para jantar, ver filmes sobre o Tibet e conversar bastante. O clima frio diminuiu meu ritmo, e aproveitei para terminar de ler Seeing (Ensaio sobre a Lucidez, pois o Saramago é Português!!), meio que continuação de Ensaio sobre a Cegueira, que virou filme estes tempos atras.

Aqui a bandeira do Tibet e livre, longe da repressão chinesa

Ônibus para Delhi, onde peguei um hotel na área de Pahaganj, o bazar na frente da estacão de Nova Delhi, onde encontraria com a Bibi no dia seguinte. Tava muuuito quente, e com a chegada dela deu só para dar mais uma perambulada, comprar mais umas coisinhas para vender no Brasil e descansar, pois tínhamos que ir para o aeroporto em plena madrugada. Nossa saída foi surreal, com dezenas de vacas dormindo na frente do táxi, em plena capital do pais. Com certeza sentiríamos saudades, mas dois meses e meio haviam se passado, mas tínhamos que partir…

Para pensar:

Nós temos casas maiores mas famílias mais pequenas;
mais confortos, mas menos tempo;
Nós temos mais cursos, mas menos senso;
mais conhecimento, mas menos julgamento;
mais peritos, mas mais problemas;
mais remédios, mas menos saúde;
Nós fizemos o caminho até à lua e de volta,
mas temos problemas em atravessar a rua para conhecer um novo vizinho;
Nós contruimos mais computadores para suportarem mais informação
para produzir mais exemplares que nunca,
mas temos menos comunicação;
Nós tornámo-nos grandes em quantidade,
mas curtos em qualidade.
Estes são tempos de “fast-foods”,
mas de digestão lenta;
Homens altos mas de personalidade “curta”;
Lucros íngremes mas relações superficiais;
É uma época onde se vê muito à janela,
mas nada dentro do quarto.
[The Paradox Of Our Age, by His Holiness the 14th Dalai Lama]