Zimbábue, a grande casa de pedra

Zim-Ba-Bwe : "A Grande Casa de Pedra"

Zim-Ba-Bwe : “A Grande Casa de Pedra”

A antiga Rodésia conquistou sua independência em 1980, quando passou a ser chamada de Zimbábue. O herói da independência, Robert Mugabe, poderia ter entrado para os livros de história como um “mocinho”, mas gostou tanto do poder que se mantem como líder do país até hoje.

Em 2009, quando eu viajava pela África, tinha grandes expectativas de visitar o país. Infelizmente, devido ao colapso econômico que aconteceu anos antes (o que resultou na dolarização da economia), a epidemia de cólera que se alastrava e a falta de combustível, acabei não indo para lá. Cheguei pertinho, do outro lado do Rio Zambezi, na Zâmbia. Muitos anos se passaram e eu estava empolgado em finalmente poder conhecer o Zimbábue. Interessante que minha impressão do país com certeza foi bem diferente do que eu teria naquela vez. Não são só os lugares que mudam, as pessoas e percepções também.

A Park Station em Joanesburgo (África do Sul) não é o lugar ideal para você ficar de bobeira, mas tive que gastar um tempo lá até a saída do meu ônibus rumo o Zimbábue. Não que seja algo muito assustador para um brasileiro, mas principalmente nos seus arredores, está cheio de malandros e potenciais assaltantes. Tive que dar um chega pra lá em um cara bastante agressivo, mas nada de mais.  Dentro, a estação é ampla e bem estruturada, tem até wi-fi gratuito. O Curioso é que não existem tomadas disponíveis, portanto se quiser carregar o celular precisa pagar em um restaurante ou usar umas maquinas de recarga.

Meu ônibus não era dos mais confortáveis, mas custou praticamente metade do que um de luxo da Greyhound. No final das contas acho que valeu a pena o custo beneficio. A imigração é feita na Beit Bridge, único posto de controle entre os dois países, portanto movimentadíssimo. O processo pode parecer simples, mas demorou algumas horas. No inicio estava aflito, pois tinha que preencher a papelada e esperar meu visto ficar pronto, antes do ônibus partir. Mal eu sabia que os oficiais ainda iriam revistar grande parte das bagagens e seguir uma grande burocracia sobre importação de mercadorias. O grande numero de caminhões também não ajuda na velocidade do tramite.

Estrada do interior

Estrada do interior

Já estava no meio da madrugada, eu deveria estar cansado, mas a excitação de chegar em um novo país não me deixava dormir. Os outros passageiros e até os vendedores indicavam que a experiência seria boa. Educados, comunicativos, sem serem invasivos.

Com o amanhecer, foi fácil de observar as diferenças de infraestrutura entre os dois países. Em outros lugares do Zimbábue até encontrei boas estradas, mas logo depois da fronteira é gritante a diferença com a África do Sul. Todo o sul da África tem sofrido bastante com a falta de chuva nos últimos anos. A paisagem tem se transformado bastante e a seca castiga a população local e os animais. Apesar da África do Sul também passar por esta dificuldade, é possível notar que o Zimbábue sofre mais com esta situação.

Cheguei a Masvingo ainda bem cedo. O ônibus não para numa rodoviária ou em um pátio de transporte, é em um (bom) posto de gasolina ao lado da estrada mesmo. Parada rápida onde os passageiros podem ir ao banheiro ou comprar comida. Para mim estava excelente, seguiria viagem dali. Ao me verem, alguns taxistas ofereceram para me levar até Great Zimbabwe. Era obvio que um estrangeiro iria para lá. Apesar de não ser longe, ficaria caro, pois eu estava sozinho. O jeito foi pegar um táxi coletivo para o centro da cidade e de lá pegar uma lotação (onde colocaram galinhas amarradas no meu colo!) para Great Zimbabwe . Você ainda precisa caminhar uns 800 metros, mas vale a pena, vai gastar um décimo do valor do táxi direto.

Os hotéis na região não são dos mais baratos, principalmente se você estiver sozinho. Optei por ficar na hospedagem dentro do parque. Teria a vantagem de estar a poucos metros da entrada das ruínas.

O que eu não contava era com a qualidade do lugar. Eu não sou de reclamar, já dormi em lugares muito simples quando não tinha outra opção, mas aquele dormitório me pegou. Não sei se eu estava cansado da noite mal dormida no ônibus ou se os beliches com colchões rasgados me assustaram.  Fezes sabe lá do que espalhadas pelo quarto não me animavam muito. Eu cheguei a falar que ficaria lá. Deixei minha mochila e fiquei pensando como que faria, já que não forneciam lençol nem mosquiteiro, e desta vez eu não estava preparado. Fui tomar um banho para raciocinar melhor e decidi ir para um dos quartos privados, mesmo tendo que pagar o dobro.  Não foi o banho relaxante que me fez torar a decisão, mas babuínos sedentos que entraram no banheiro (sem portas), para tomar água. Assim como com os malandros da estação Park Station, tive que me impor, mas somente usando um jogo psicológico, sem dar um passo a mais para o conflito.

Depois de estar a salvo, bem alimentado e ter descansado bem, já podia conhecer as famosas ruínas. Uma pequena trilha levava até lá, da onde eu estava era como se fosse o quintal de casa. Foi incrível caminhar pela região, explorando cada cantinho deste que foi um importantíssimo centro politico e comercial do Sul da África.

O inicio da construção da capital deste reinado  é controverso, mas foi e entre os séculos 13 e 15 que teve o seu apogeu, quando comercializavam com chineses, persas, árabes e europeus.

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As ruínas estão divididas em 3 regiões, Complexo da colina (onde aconteciam os rituais) , Complexo do vale e a Grande área cercada. Só a parede do “Great Enclosure” tem 11 metros de altura e até 5 de espessura! Dizem ser a maior ruína da África subsaariana.  Merecidamente listada como patrimônio da Unesco desde 1986, era surpreendente eu ser o único visitante em todo aquele dia. É um misto de decepção pelas pessoas não visitaram um lugar tão impressionante com um egoísmo de se sentir “dono” do lugar por ter ele só para você.

Um pequeno museu com diversos artefatos e informações complementaram as informações do guia que eu havia contratado. Uma bela coleção de pássaros de pedra, que simbolizavam os diversos reis que passaram por ali e no passado ficavam exibidos no topo de colunas de pedra. Hoje o desenho de um deles faz parte da bandeira nacional do Zimbábue. Alias, o nome do país também foi em homenagem a esta civilização, e significa “A Grande Casa de Pedra”.

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A noite seria de lua cheia, uma daquelas “super luas” anunciadas. Já tinha me programado para percorrer novamente as ruínas somente com a luz do luar, mas uma forte neblina acabou com meus planos. Não pude reclamar de ter uma noite bem dormida.

Muitos estudiosos apontam a superpopulação e a falta de recursos naturais, aliados a questões ambientais ocasionaram o declínio deste grande império. O que se sabe com certeza é que com o declínio de Great Zimbabwe, floresceu outro reinado, o Khami, que seria a minha próxima parada.

Depois de uma caminhada e dificuldade de achar transporte de volta para Masvingo, peguei carona com uma pick-up mesmo. No centro não foi difícil encontrar um ônibus que iria até Bulawayo. Era um transporte lento, parecia um ônibus municipal, mas era o que tinha. Bananas e marmitas com batata e frango eram oferecidas em cada uma das dezenas de paradas, portanto o almoço estava garantido. Foram horas para percorrer os 300 quilômetros de estrada, mas ainda tive tempo de perambular pela agradável Bulawayo quando cheguei.

Em Bulawayo vi os primeiros brancos no Zimbábue. Um grupo bem eclético de turistas, daqueles que viajam nas empresas de “Overland tour”, ocupavam cafés e lojas de um centro comercial onde fui fazer compras num mercado. Pareciam mais a vontade com os muros e seguranças armados. No supermercado alguns brancos do Zimbábue mesmo, mostrando que nem todos abandonaram a Nação depois das politicas (desapropriação de terras) do Mugabe.

Hospedei-me numa pousada muito gostosa, um casarão num bairro bem tranquilo. Todos os quartos vazios, para desespero da proprietária, que no passado pagou todos os estudos dos filhos com a renda vinda do turismo.

livro de presente para as criançada da pousada

Livro de presente para as criançada da pousada

Nada de internet, falta de luz e água com certa frequência mostram que o Zimbábue continua com problemas. As moedas de dólar cunhadas pelo governo já não são aceitas em todos os lugares. Com a falta de troco os preços sobem e as notas de 1 USD estão por todos os lados. Muitas delas se desfazendo de tanto circularem. Existe falta de dinheiro (papel moeda mesmo) também. Poucos caixas eletrônicos estavam fornecendo dólares e todos com um valor bem restrito por saque. Eu tinha lido sobre isto e levei o suficiente para minha estadia (evitando pagar IOF também).  O governo aponta que logo deve entrar com nova moeda, o que para parte da população, causa temor de uma nova hiperinflação.

As ruínas de Khami (também Patrimônio da Unesco) não são longe de Bulawayo, estão a uns 25 km de distância. Depois da grandiosidade de Great Zimbabwe, temia que Khami não me impressionasse muito. No final das contas foi bom eu não ter grandes expectativas, pois fiquei encantado com as ruínas da capital do antigos Reino de Butua. Tanto a arquitetura como a forma de construção é diferente de Great Zimbabwe. Gostei bastante da composição arquitetônica dos “tijolos”, dando um estilo para a decoração, além da disposição da cidade ao longo do rio.

Corredores

Corredores

Ruinas de Khami

Ruinas de Khami

Estilo arquitetonico

Estilo arquitetonico

Construção

Cidade perdida

Outro lugar muito legal perto de Bulawayo é o Parque Nacional Matobo, popularmente chamado de Matopos Hills. Deixei os animais de lado desta vez e me foquei nas formações rochosas, cavernas e pinturas rupestres. O povo San deixou mais de 3000 pinturas na região. Como são nômades era a forma de registrar a sua passagem deixando informações para quando voltassem ou para outro grupo que viesse depois deles. As pinturas (algumas com 2000 anos) são muito bonitas, de diferentes estilos, e é uma delicia ficar subindo e descendo as colinas e entrando nas cavernas em busca delas.

Pinturas rupestres

Pinturas rupestres

Cavernas em Matobo

Cavernas em Matobo

Matopos Hills

Matopos Hills

Rochas

Rochas

Do topo das colinas existem vistas incríveis e os blocos de granito se equilibrando um nos outros é algo impressionante! Foi outro ótimo programa que me surpreendeu bastante. As colinas de Matobo também estão listadas no patrimônio da Unesco, mas não parece atrair tantos turistas assim. Alias, no Zimbábue acho que atualmente eles estão se concentrando nas Cataratas Victória mesmo, uma pena.

Tentei pegar o trem de Bulawayo para Harare, capital do país, mas não deu muito certo. O trem faz o trajeto três vezes por semana, mas quebrou e não tinha nem uma estimativa de hora (ou data!) para chegar. Acabei pegando um ônibus mesmo. A estrada era boa e o ônibus era excelente, então foi uma viagem bem tranquila. Tinha a esperança de na chegada conseguir achar um transporte para o Lago Kariba, no noroeste do país, divisa com a Zâmbia. Infelizmente toda a minha correria para atravessar Harare de uma rodoviária para outra foi em vão. Não havia nenhum transporte direto para Kariba, e passar a noite em outra cidade no meio do caminho não daria certo para mim, pois o meu retorno para o Brasil se aproximava.

Faltou tempo para o Lake Kariba e sobrou para Harare. Uma cidade grande, mas bem pouco agressiva. Peguei lotações para cima e para baixo e me pareceu bastante segura, contrariando o imaginário de um país com tantos problemas. Não existem grandes atrações, mas sempre da para inventar alguma coisa.

Na parada “Copacabana”, é só atravessar o Township de Mabare e subir até o topo da colina de Kopje. Antigamente o chefe Zezuru observava as manadas de búfalos lá de cima. Hoje só é possível avistar a selva de pedras que Harare se transformou.

Harare

Vista de Kopje – Selva de pedras

Fui ao Mukuvisi Woodlands, um parque urbano onde se pode ver diversos animais “selvagens”, caminhei por todos os cantos da cidade, presenciei um culto de uma igreja africana numa praça e pude variar um pouco a comida, já que vinha comendo Sadza quase todas as refeições (uma espécie de “polenta”, chamada de Ugali no Leste da África).

culto local

culto local

chega de

Chega de Sadza

Gostei de viajar pelo Zimbábue. Viagem tranquila, sem muitos desafios, atrações bastante interessantes e pessoas prestativas. Tinha tudo para estar lotado de turistas (como já foi no passado), mas a situação politica e econômica não ajudam muito. Uma pena.

Guiné-Bissau e o Arquipélago dos Bijagós!

A comunidade Lusófona mundial não é grande. Restringe-se a poucos países, sendo eles Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Acho muito legal de viajar para outros países e falar português, ainda mais como Brasileiro. Não que eu não goste de falar outras línguas ou até me comunicar por mímica, mas gera uma curiosidade você dominar o “idioma deles”.

Língua portuguesaunida

Língua portuguesa unida

Guiné Bissau não é muito frequentada por turistas. Existem os estrangeiros que trabalham em ONGs, os turistas endinheirados que vão de avião fretado pescar em uma ou outra ilha, mas não são tantos viajantes independentes por lá. Alias nos últimos anos tem figurado na lista dos dez países menos visitados do mundo. Só isto já me soava tentador e descobrir o que tinha por lá, mas as surpresas sempre são maiores.

 

O visto não parecia algo simples, pelo menos não na Embaixada no Brasil. Pediam carta de convite ou termo de responsabilidade de algum morador (ou empresa) de Guiné Bissau, dentre outras burocracias. Como tudo na estrada é mais fácil, após alguma pesquisa deixei para tirar no Consulado de Ziguinchor, cidade senegalesa que não fica muito longe da fronteira. Cheguei minutos antes da embaixada abrir. Quando o cônsul e seu assistente chegaram soltei um “ Bom dia” bem sonoro, orgulhoso do meu português. Recebi uma resposta meio seca, “ nem tão bom…”! Mas não deu tempo nem de me preocupar se receberia o visto. O cônsul inclusive preencheu meu formulário, só precisei assinar. Entreguei uma copia do passaporte e fotos 3×4, mas ele nem pegou as fotos. Paguei e sai com um visto de duas entradas, tudo isto em menos de 5 minutos. Poderia ter inclusive ter ido direto para a fronteira, mas fiquei uns dias pela região de Casamance, Senegal.

No dia da minha partida, fui cedo para o pátio dos transportes. Quem tem o visto no passaporte consegue pegar um carro (Sept Place) direto de Ziguinchor até Bissau, capital de Guiné Bissau, sem precisar fazer a viagem em etapas. Isto agiliza bastante, mas mesmo assim os 140 km vão demorar perto de 4 horas de viagem com os tramites da imigração.

A estrada do lado senegalês é simples, mas boa, a fronteira é tranquila, sem muitos comentários. Atravessei a pé a “terra de ninguém” e o carro atravessa sozinho para continuar a viagem. Fiquei amigo de um jovem de Freetown, Serra Leoa, que voltava para casa depois de um período de trabalho em Dakar, Senegal. Ele pararia no caminho caso achasse trabalho. Muito interessante estas migrações que acontecem com tanta frequência pelo Oeste da África. A facilidade de poder viajar somente com a carteira de identidade ajuda muito eles neste aspecto. Um alemão que estava indo visitar sua irmã em Bissau também estava no carro, assim como homens de negocio e senhoras voltando para casa.

Amigos da estrada

Amigos da estrada

Cidade

Cacheu

A estrada do lado de Guiné-Bissau é visivelmente de pior qualidade. O país tem um dos piores IDH do mundo. Se a infraestrutura não ajuda o turismo, a não possibilidade de sacar dinheiro em caixas eletrônicos assusta muita gente. Ser vizinha de Guiné (Conracri), onde teve surto de Ebola, e possuir uma instabilidade política, só piora as coisas. Mas posso dizer que foi uma viagem super tranquila e agradável, alem de uma ótima receptividade.

Ebola

Campanha contra a Ebola

Logo após Santo Domingo, a primeira cidade, uma nova ponte, pedagiada, liga até a pacata Cacheu. A pequena cidade, na beira do rio de mesmo nome, foi um importante entreposto e dão um clima histórico para o lugar.

A estrada que vai até Bissau passa por poucas cidades e vilarejos, mas sempre que tem algum sinal de vida, muitos vendedores de castanha de caju, o carro chefe das exportações do país. O país produz 200 mil toneladas do produto, carro chefe da exportação, ajudando a economia a crescer 5% no ultimo ano.

Ao me aproximar da Bissau, aquele movimento dos subúrbios, com mercados e pessoas, porem bem calmo comparado com outras capitais do oeste africano. Nosso ponto final era por ali, onde eu negociei um taxi para ir até o centro. Somente 500 CFA, menos de um dólar para alguns quilômetros de corrida. Foi uma das poucas coisas baratas por ali. Se engana quem pensa que só porque um país é pobre tudo será barato. A baixa infraestrutura, e poucas opções de hospedagem por exemplo, fazem os preços dispararem. A pousada que tinham me recomendado era pequena e estava lotada. Me indicaram um outro local. Razoavelmente bom, mas com um péssimo custo beneficio.

Eu teria tempo para explorar a cidade, mas minha prioridade era saber quando sairia o ferry para a Ilha de Bubaque, já que só tem um por semana. Caminhei até o porto e encontrei um cartaz indicando a maré e o horário. Pesquisei um pouco sobre canoas, mas elas são bem esporádicas e a viagem é bastante longa.

Informativo

Informativo

O Bairro de Bissau Velho fica ali ao lado do porto. É pequeno, talvez umas 4 quadras por 2 ou 3. Ruas estreitas, casas com sacadas de madeira e alguns casarões históricos nos arredores. O problema é que alguns dos casarões funcionam órgãos do governo, assim como o grande forte (Fortaleza são José de Amura) que hoje é base militar, portanto nada de fotos, infelizmente. De qualquer forma muito gostoso andar sem destino por ali, explorando cada cantinho.

Predios mal conservados perto do porto

Predios mal conservados perto do porto

Ruas calmas na parte velha da cidade

Ruas calmas na parte velha da cidade

Sacadas em muitas construções

Sacadas em muitas construções

Entrada de Bissau Velha

Entrada de Bissau Velha

Casarões

Casarões

A cidade parecia parada, talvez devido ao calor, poucas pessoas nas ruas. Passei pela Igreja católica, pelo palácio presidencial, mas acabei me refugiando na sombra de uma arvore em  um bar em frente à praça Che Guevara. O partido africano para a independência de Guiné e Cabo Verde (sim eram só um país no passado) eram de inspiração marxista, e por isto alguns monumentos e ruas recebem nomes de figuras revolucionarias. O grande líder da independência, Amilcar Cabral, é lembrado nos livros, muros e corações de toda a população.

Catedral de Bissau

Catedral de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Cabral

Amílcar Cabral, sempre lembrado.

Apesar da dificuldade do país, não encontrei nenhum pedinte durante minha viagem. Me senti bastante seguro, cheguei a sair a pé mesmo a noite para  jantar. Para pegar meu ferry, antes do sol nascer não foi diferente. Se bem que as poucas quadras até o porto facilitava. Deu tempo de tomar um café e comer um sanduíche enquanto a embarcação não saia. Não tinha encontrado muitas opções de comida de rua em Bissau, mas num lugar movimentado como o porto sempre tem algumas possibilidades. Comi um bolo tão gostoso que guardei algumas fatias para a viagem.

Sol nascendo no porto

Sol nascendo no porto

Aguardando a partida

Aguardando a partida

A embarcação é velha e lenta, tornando o trajeto longo, mas golfinhos quebram a monotonia e sempre tem alguém disposto a bater papo . Assim que se afasta do continente já da para avistar as primeiras ilhas. O Arquipélago dos Bijagós possui 88 ilhas, de todos os tamanhos e estilos. Pena que existe esta dificuldade tão grande de se locomover entre elas. Um ferry semanal para as principais, uma ou outra canoa superlotada de pessoas e mantimentos entre as ilhas, faz com que seja impossível conhecer mais de meia dúzia de ilhas em um mês se você não tiver um barco próprio. A ilha de Bolama tem a antiga capital, cheia de prédios coloniais abandonados, Orango tem os hipopótamos de água salgada, a João Vieira tartarugas e ótima vida marinha para mergulhos, Uracane cheia de flamingos, algumas são inabitadas, com praias paradisíacas, outras possuem populações com vida super tradicional, onde o rei ainda é quem manda. Falaram que Canhabaque é a mais tradicional de todas, cheia de lugares sagrados e lendas.

Ultima vista de Bissau

Ultima vista de Bissau

Arquipélago dos Bijagos

Arquipélago dos Bijagos

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

Algumas ilhas desertas

Algumas ilhas desertas

 

A hospitalidade dos Bijagós é conhecida, mas sempre vale lembrar que lá são eles que mandam, então suas terras, suas leis. O navegador português Nuno Tristão foi o primeiro europeu a chegar nas ilhas, em 1447. A receptividade naquela época não foi tão boa, e já que ele foi morto pelos guerreiros Bijagós.

Eu desci na ilha de Bubaque, depois de umas 8 horas de viagem. Já tinha feito alguns amigos que me recomendaram uma pousada não tão distante do centrinho. Outro amigo me recomendou o restaurante da irmã dele. Porções simples e honestas. Um prato com arroz e peixe com molho de amendoim pelo equivalente a um euro. Os pratos mais baratos dos restaurantes simples de Bissau e até os dos hotéis de Bubaque eram de pelo menos (o equivalente a) 5 a 7 Euros, então foi um alivio. Não preciso nem dizer que virei freguês, e ainda era um ponto de encontro de pescadores da região, então historias não faltavam…

Aterra a vista!

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Chegando em Bubaque

O centrinho de Bubaque é relativamente “desenvolvido”, a iluminação publica é com energia solar, e alguns botecos mostram jogos de futebol europeu, devido às antenas parabólicas. Alguns casarões abandonados, ruas de terra, e um ou outro carro passa com o intervalo de algumas horas.

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Não tem tantas coisas para fazer, a não ser brincar com a criançada, explorar os vilarejos mais típicos e bater papo com o pessoal. Dizem que em Guiné-Bissau se fala português, mas não é bem assim. Na verdade somente 15% da população fala português como língua corrente. A língua mais falada é o crioulo (Krioul), usada por mais de 70% da população. Existem diversas outras línguas nativas também, faladas por pequenas comunidades. O Crioulo de Guiné Bissau é uma língua que se originou da mistura do Português com línguas locais. Apesar de ser uma língua independente, tem um grande percentual de palavras portuguesas. Quando falam rápido é difícil de entender. Para descontrair, às vezes eu falava um português bem rápido e cheio de gírias, era risada na certa.

Brincadeir de criança

Brincadeira de criança

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

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Na ilha não tem transporte publico. Os poucos carros são de funcionários da ONU, ONGs, ou para transporte de mercadorias e de hotéis mais caros. Mas não é difícil de encontrar uma bicicleta para alugar. O problema é que todas que encontrei estavam em péssimo estado de conservação (esqueça freios e marcha), mas facilita bastante para distancias mais longas.

Presença da ONU e ONGs

Presença da ONU e ONGs

A Praia do Bruce, fica a 18 quilômetros de distancia, no extremo oposto da ilha. É um dia longo, pois precisa sair cedo, antes que o sol torne a pedalada proibitiva. Mochila carregada com frutas mangas, sanduíches e água, muita água. Não tem muito como se perder. É só achar a “ estrada branca” principal “ estrada” da ilha. Era uma estrada feita com conchas, daí veio o nome, mas são tantos os buracos que já é de terra mesmo. Muitos cajueiros, todos carregados com frutas. Eu tentava pedalar rápido mas a bicicleta e a estrada não me deixavam. A leve brisa me entorpecia com o cheiro de caju maduro, que aguçava mais um sentido naquele momento. A trilha sonora era de facões dos trabalhadores limpando a área e coletando coquinhos de palmeiras. Nas pequenas vilas que passava (alguns amontoados de casas) crianças vinham correndo para acenar, e as pessoas paravam para ver o estrangeiro passar. Gritavam “Branco, Branco”. Se surpreendiam quando eu respondia em português e vez ou outra alguém me acompanhava por alguns minutos de bicicleta. Depois de um longo trajeto, valorizamos ainda mais a praia e um refrescante banho de mar. As coisas devem mudar no futuro. Estão construindo um ou outro hotel, mas a praia ainda é deserta. Uma ou outra canoa, onde um porquinho buscava sombra para dormir da areia. Eu já preferi a sombra das arvores, um pouco mais para trás.

Estrada inicia bem

Estrada inicia bem

...mas logo fica assim!

…mas logo fica assim!

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Minha magrela!

Minha magrela!

Todos buscando uma sombra

Todos buscando uma sombra

Um dia longo e relaxante na praia cai bem, mas precisa programar bem a volta. Muito cedo o sol esta fortíssimo, por outro lado anoitece cedo, e é preciso considerar a possibilidade de furar um pneu ou acontecer alguma coisa com a bicicleta no caminho. Na volta crianças, mulheres, adultos e velhos estavam voltando do trabalho. Com seus facões com ponta reta, cestos cheios dos coquinhos vermelhos e cara de exaustos. Um senhor me pediu água, a dele tinha acabado fazia tempo. Era final de semana, um dia quente de verão, mas eu fui o único que pude aproveitar a praia. No dia a dia é preciso trabalhar, é a sobrevivência, mesmo num final de semana com sol.

Algumas pessoas pedalavam no sentido de Bubaque. Todas com sacos pesados amarrados nas bicicletas. Foi bom para puxar meu ritmo, pois não podia ficar para trás.

Em Bubaque logo já conhecia muita gente. Busquei um chip de celular nas diversas vendas, até finalmente encontrar. Havia ficado dias sem dar noticias, e a Bibi estava bastante preocupada. Com o chip em mãos, descobri que era preciso se registrar, mas só lá no continente. Parecia um caso perdido quando um dos meus amigos ligou para o irmão dele em Bissau. Ele pegou a moto e foi até uma agencia telefônica para cadastrar o meu numero no nome dele, e assim pude dar noticias.

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Quando chegou o dia de partir, uma pequena feira de rua se formou em frente ao barco. A cidadezinha estava viva e até apareceu um grupo cantando enquanto o ferry partia. Horas de viagem e cheguei em Bissau já estava escuro. Mas já me sentia em casa, caminhei até o mesmo hotel, sai para comer, parecei que já entendia bem como as coisa funcionavam na pequena capital.

Dia de feira em Bubaque

Dia de feira em Bubaque

Barco sempre lotado

Barco sempre lotado

Azulejos de Bissau

Azulejos em Bissau

Azulejo de Bissau

Azulejo em Bissau

Já estava quase na hora de me despedir de Guiné-Bissau, mas não sem antes experimentar as famosas ostras de Quinhamel. Uns 30 quilômetros a noroeste de Bissau, na beira da praia, um programa imperdível para quem gosta de comer bem. Dizem que final de semana fica cheio, mas dia de semana é muito tranquilo.

Um lugar que eu queria ter conhecido é a vila de pescadores de Varela, no extremo norte do país. A estrada de Santo Domingo para lá não é das melhores, e o transporte não é frequente. Eu tinha planejado de passar uma noite lá, mas rumores diziam que as fronteiras do Senegal com a Gâmbia tinham fechado novamente. Se isto fosse verdade (acabou não acontecendo) eu teria que contornar toda a Gâmbia (o que daria mais de 24 hs de viagem) para poder chegar em Dakar e pegar meu voo para o Brasil. Resolvi não arriscar.

No controle de passaporte de saída, esboçaram uma revista na mochila. Guiné Bissau esta na rota do tráfico de drogas internacional. Com tantas ilhas e uma marinha que só tem um ou outro barco, tornou-se a porta de entrada da cocaína que vai para a Europa. Encontraram meia dúzia de roupas sujas e algumas histórias. Deviam estar entediados, pois adoraram minhas historias de lá e de outros lugares que identificaram nos vistos estampados no passaporte. O papo estava bom, mas tinha que seguir viagem. Abriram um sorriso quando disse que recomendaria o país para meus amigos. “Obrigado, são sempre bem vindos…” acenava o oficial da imigração com um sorriso no rosto. E eu segui no meio de mulheres com vestidos coloridos, homens com sacos pesados nas costas e contrabandistas pela terra de ninguém até chegar no Senegal.

 

No país ao longo de um rio

A Gâmbia estava ligara à rota comercial trans-saariana e fez farte de alguns dos maiores impérios africanos, como o de Ghana, Mali e do Songhai. Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar na região mas logo venderam seus direitos para os ingleses. A disputa colonial pela África fez com que diversas regiões trocassem constantemente de controle, até a conferencia de Berlin, que fez a partilha oficial do continente africano entre os europeus. Maios ou menos nesta época a França tinha influencia na maior parte do Oeste da Africa (no que viria a se chamar Africa Ocidental Francesa) mas a disputa sobre província chamada Senegambia ainda era grande. Os ingleses tinham um entreposto militar em Banjul (hoje capital da Gambia) e controlavam o já proibido trafico de escravos pelo Rio Gambia. Não foi difícil para os inglese conquistarem o território ao longo do rio (hoje Gâmbia), mas os franceses ficaram como toda o restante (hoje Senegal).

O mapa da africa , que já é um absurdo pelas fronteiras determinadas por linhas retas ficou ainda mais esquisito com um país que existe somente ao longo de um rio.

Me aproximando da Gâmbia, vindo da porção norte do Senegal, a estrada N4 (também chamada de Trans-Gambia) praticamente terminou. Viajei muitos quilômetros num carro velho (sept place) por uma estrada bastante empoeirada e quente. Já se aproximava do final de tarde e cheguei a cogitar a possibilidade de dormir nos últimos vilarejos do Senegal. Estando tão perto não custava atravessar a fronteira. Mas não seria tão rápido assim. No posto de controle do Senegal, passaporte carimbado, tranquilo. Já no da Gambia, o oficial veio me perguntar se eu queria que carimbasse meu passaporte. Claro que queria, como faria para explicar na saída do país ou em um possível controle de passaporte? Tentaram me cobrar 2000 CFA, algo como 3 euros. Eu viajava com meu passaporte italiano, pois brasileiros precisam de visto para lá (e não dá para tirar na fronteira) e sabia que não precisava pagar nada. Tentei argumentar, insisti, mas não teve conversa. Sempre me orgulho de dizer que sempre arranjei uma forma de fugir de oficiais corruptos mas ali eu cedi. Estava cansado demais para esperar. Da fronteira contratei um moto-taxi para me levar alguns quilômetros até a próxima cidade, a pequena Farafeni.

Cuidados com a ebola

Cuidados com a ebola

Estava trocando dinheiro, lá eles usam o Dalasi da Gambia e não o CFA, quando percebi que tinha uma van sendo carregada. Já tinha anoitecido, mas não custava ver se ela não iria para meu próximo destino, Janjanbureh. Estava com sorte, era o único transporte que tinha no patio e ia para lá. Quer dizer, sorte mais ou menos. Um cara, daqueles bem malandros veio tentar me vender a passagem. Cobrando bem mais caro. Isto é bem raro nesta região da África, normalmente levam bem a serio os preços e não cobram extra de estrangeiros. Percebi a armadilha e fui comprar direto com o motorista. Ele me garantiu que já estavam quase saindo. Eu sabia que o tempo passa de maneira diferente por ali, então comprei uns baguetes de um vendedor, ovos cozidos de outro e fiz meu sanduíche.

Quando finalmente saímos, a minivan estava lotada, de passageiros e de carga. Os pouco mais de 100 quilômetros foram muito lentos, com paradas para descarregar mercadorias, sair passageiros e subir novos. Quando finalmente chegamos no destino final já era mais de 10:30 da noite.

Peguei minha mochila sem sabem muito bem para onde ir. Na minha frente um rio, Janjanbureh ficava no outro lado. O motorista me falou que tinham hotéis deste lado da margem do rio também, e logo apareceram uns malandros se oferecendo para me levar lá. Estava muito escuro, nenhuma iluminação publica, então não me senti muito seguro de perambular sem conhecer a região. Conversava com quatro senegaleses que estavam vindo a trabalho quando um barqueiro ofereceu para nos levar por 100 Dalasi. O senegalês se ofendeu, ficou irritadíssimo. Segundo ele o preço correto era de 5 Dalasi. Quase brigou com o barqueiro. Eu tentei negociar mas ele disse que não teria passageiros de volta naquele horário e que não poderia nos levar por menos. Os senegaleses discutiram mais um pouco com o barqueiro, falaram alguma coisa que eu não entendi, e ele saiu furioso.

Sentamos na margem do rio, com uma noite quente e muito estrelada. Sem muitos mosquitos mas eu reforçava o repelente, pois esta é uma das áreas com maior incidência de malária de toda a Africa. Os senegaleses ligaram para alguém e garantiam que logo um barco viria nos buscar. Vendo a demora sugeri de eu pagar 60 e cada um 10 Dalasi. Eles não acetaram. Eu morto de cansado da longa viagem resolvi achar o barqueiro e pagar o preço. Quando me dei conta, resolvi fazer a conversão da nova moeda e cai na risada. Os 100 Dalasi são pouco mais de 2 Euros! Eu acabei demorando mais de meia hora para atravessar o rio por este valor. Os senegaleses tinham ficado tão revoltados com o valor que (cansado e não raciocinando) nem me dei ao trabalho de fazer a conversão. Só pensava que pagaria 4 vezes mais que o justo. O raciocínio deles era correto, mas paguei os 100 Dalasi com gosto. O primeiro hotel que fui olhar estava mais de que bom para aquele momento. Ainda tive energia para tomar duas cervejas no bar que ficava num deck ao lado do hotel, e fui dormir, sem banho, o balde poderia esperar a manhã seguinte.

Janjanbureh ( antiga Georgetown) fica na histórica Ilha MacCarthy. Um dos locais mais a dentro do Rio Gâmbia que os ingleses se estabeleceram. Foi um lugar onde muitos escravos libertos vieram morar também. Hoje é um pequeno vilarejo, com certo apelo turístico. Possui diversos armazéns antigos e algumas ruínas o que dá um ar de lugar esquecido. Alguns vendedores ambulantes perto do “porto”, onde 7 entre 10 vendem mangas. O forte café Touba também é muito popular. Alem da cultura e historia local, dizem ser um lugar incrível para observar pássaros. Acabei não encontrando nenhum outro estrangeiro por ali, ninguém para dividir uma canoa ou barco para conhecer os parques nacionais ali por perto. Sozinho os preços eram extremamente proibitivos, então fiquei perambulando pela região. Sempre aparecia alguém para conversar comigo. Eu dou papo, mas infelizmente sempre era com segundas intenções, normalmente oferecendo um serviço de guia.

Pintura em um antigo armazém

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" Porto"

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"Avenida" principal

“Avenida” principal

Peguei um barco para a outra margem do rio e fui explorar os famosos círculos de pedra da região. Os mais conhecidos são os de Wassu, poucos quilômetros dali, listados como Patrimônio da Unesco. Grandes (alguns com 2 metros), bonitos, mas naquele esquema pago, guia, blablabla. Não é uma experiencia em si, tampouco um Stonehenge.

travessia

Travessia

 

Wassu

Entre o Senegal e Gâmbia existem mais de 2000 destes círculos, que foram construídos entre os seculos 3 A.C. e 16 D.C. , nos rituais de sepultamento. A forma de extração das rochas e capacidade de organização mostra o desenvolvimento das sociedades que viveram por ali.

Resolvi estender o passeio e procurar também alguns círculos perto dos vilarejos. Sozinho eu não encontraria, então contratei uns meninos para me levar. Eles ficaram felizes da vida. Uma delicia caminhar entre as casas tipicas, as baobás e escutar as histórias e sonhos da piazada. Os círculos que encontramos, bem mais modestos, tinham um ar de vitória. As crianças discutiam qual era o melhor caminho, qual círculos deveríamos ir e nos divertíamos. Só o sol que castigava, pois estava muito quente.

Círculos de pedra

Círculos de pedra

Meus guias

Meus guias

Casas tipicas

Casas tipicas

Paisagem entre os vilareijos

Paisagem entre os vilareijos

Quando chegou o dia de ir embora, atravessei a ilha e segui pela margem sul. Não tinham ônibus diretos, então tive que fazer diversas conexões até voltar para o Senegal, agora na porção sul, Casamance. Antes disso eu tive que passar pela imigração, que também queria que eu pagasse pelo carimbo. Não eram agressivos, na verdade se faziam de meus amigos. Mas desta vez era de dia, e eu estava com tempo. Coloquei minha arte de negociação para funcionar, dizia que ia voltar por aquela fronteira e até anotei o telefone do guarda. Não fugi da mordida, mas pelo menos paguei só um Euro.

Viajei pelo sul do Senegal e para Guiné Bissau, mas tinha que atravessar a Gambia novamente para pegar meu voo em Dakar, Senegal.

Desta vez fui pela costa da Gâmbia. Dias antes as fronteiras Gâmbia-Senegal tinham sido fechadas novamente. Os dois países vivem brigando por causa da cobrança de impostos. Para a economia do Senegal, atravessar a Gambia, cerca de 40 quilômetros, é bem mais fácil que contornar, que seria uns 600 ou 700 quilômetros. Eu perderia um dia de viagem caso tivesse que dar a volta na Gâmbia. Resolvi arriscar e pude passar, para surpresa minha, sem cobrança para carimbarem o passaporte!

Mototáxi até a primeira cidade pós fronteira e um Peugeot velho (Sept Place) até Serekunda e estava na costa da Gâmbia. Tinham me alertado para evitar o litoral, mas não custava passar um dia na praia. Passei por Kotu e Bakau, até achar uma pequena pousada. Ia sair para comer, mas pensei em ver o mar antes. Fui me decepcionando e entendi exatamente porque haviam me falado para evitar o litoral. As praias da Gâmbia são famosas e muitos turistas vão para lá. Mas é o tipo de gente que fica só nos resorts, só fala com os locais que são seus empregados. Isto gera um clima de segregação muito forte. As pessoas passam a olhar o estrangeiro como uma forma de ganhar dinheiro, e os turistas se escondem atras dos muros, seguranças e vidros dos carros fechados para ter o menos contato possível com as pessoas. Vão para a África sem querer viver a África. Resorts de luxo com bairros inteiros para dar apoio, muitos com casebres com telhado de zinco. O preço de drinks caríssimos são o equivalente a mais de uma semana de trabalho de quem os serve. Não durou muito. Olhei chocado tudo aquilo, voltei para pousada, pedi desculpas e peguei a minha mochila. Me irritei tanto que não consegui nem esperar o ônibus. A demora me fez pegar um táxi mesmo, afinal seriam só 12 Km. Porem mais surpresas estavam por vir. Nos pararam numa barreira policial. O guarda pediu meu passaporte e ficou puxando papo. Resolveu revistar minha mochila. Falou brincando se eu não tinha um “presente” para ele. Me fiz de bobo e ele nos liberou. Não muito tempo depois nos pararam novamente. Desta vez um soldado sorridente me contava como estavam deixando tudo ótimo e seguro para os turistas. Eu olhei com uma cara de “não to te entendendo”. Ele deu uns tapinhas nas insignias do seu ombro e pediu uma colaboração. Fala serio! Disse que estava sem nada no momento, talvez outro dia. Ele manteve o sorriso, agora bem forçado e me dispensou.

Praias e restaurantes só para estrangeiros

Praias e restaurantes só para estrangeiros

Foi um alivio chegar a Banjul. Uma cidade calma e sem grandes atrações. Fiquei em um hotel quase ao lado do Arco 22, um monumento em homenagem ao golpe de estado dado em um presidente democraticamente eleito. Andei pela cidade, explorei mercados, prédios históricos, conheci a mesquita principal e peguei informações sobre o ferry que teria que pegar no dia seguinte. Por alguns momentos me senti anonimo, mas as vezes apareciam malandros com um papo bem manjado. Sempre super simpáticos, mas com interesse estampado na cara. Uma pena, mas parece que a barreira entre o estrangeiro e a população local está bem definida.

Arco 22 no final de tarde

Arco 22 no final de tarde

Num restaurante, um aglomerado de pessoas se espremia na frente de uma televisão. Pensei que era um jogo de futebol, muito popular por ali, mas não. Na Gâmbia, assim como no Senegal e grande parte do Oeste da Africa, além do futebol, o esporte nacional é a Luta Tradicional. Parecida com a Luta Greco-Romana, mas embalada por tambores e ritos tradicionais. Ao contrario dos países vizinhos, na Gâmbia e no Senegal, os lutadores podem dar tapas antes de derrubar os oponentes, se tornando muito mais violenta. O esporte lota as arenas e sempre esta presente na televisão.

Luta tradicional

Luta tradicional

O ferry de Banjul para Barra é o caminho mais próximo para ligar as capitais da Gâmbia e Senegal. Cheguei cedo para pegar o primeiro mas tive que esperar um bom tempo. Ferry lotado e colorido, onde finalmente pude bater papo com pessoas comuns. Uma travessia lenta mas agradável e com bela vista de Banjul na saída. Em Barra taxistas diziam que não tinha ônibus, que a fronteira com o Senegal estava para fechar, mas eu já tinha me acostumado com a malandragem local. Ignorei o assedio e fui até o patio do transporte. Deu tempo de comer alguma coisa para gastar minhas ultimas notas da moeda local e partir para o Senegal, onde entraria sem pagar pelo carimbo.

Banjul

Banjul

Ferry Banjul-Barra

Ferry Banjul-Barra

Chegada em barra

Chegada em barra

Encontro com os Mourides

Antes da chegada do franceses, a região onde hoje é o Senegal era dividida em diversos reinados. Com o estabelecimento da colonia, uma das principais resoluções foi acabar com o poder politico destes lideres. Até então o povo Wolof, predominante por ali, seguiam religiões africanas locais. Só depois da conquista francesa é que passaram a se converter para o islamismo. Mas não é um islamismo como o do Oriente Médio, ele é bem “africanizado”. As antigas estruturas sociais dos clãs foram supridas pela nova estrutura religiosa, as Irmandades Muçulmanas. O grande líder, Amandou Bamba, passou a ser o verdadeiro representante do Profeta Muhamed na terra, assim como os seus descendentes.

O Senegal passou a ser um dos países onde a religião é mais importante e influente no mundo. A luta de Amandou Bamba era religiosa, mas também muito anticolonial. Foi exilado por isto, mas sua redenção pode ser vista nos dias de hoje. Seu nome, e a ramificação do islamismo que originou, o Mouridismo (uma especie de sufismo), esta presente nos nomes de lojas, transporte e das próprias pessoas.

O Senegal não fica tão longe do Brasil, seria uma rápida viagem do Rio Grande do Norte ou do Ceará, mas a ausência de voos diretos faz com que se faça uma longa viagem. Curitiba-São Paulo-Johanesburgo-Dakar é três vezes mais longa do que se tivesse um voo Curitiba-Dakar. Depois de um dia e meio de viagem, acabei chegando de madrugada no aeroporto de Dakar, capital do Senegal. Tinha contactado um jovem jornalista pelo site Couchsurfing que aceitou me hospedar. Apesar do horário, duas da manhã, ele fez questão de me buscar no aeroporto. Segundo ele fazia parte da “Teranga” senegalesa, palavra Wolof para designar hospitalidade.

Ele morava numa casa boa, dois andares com um terraço, num bairro do subúrbio da cidade. Seu pai, que trabalha como gerente de RH e seu irmão, universitário, estavam me esperando ansiosos. Era a primeira vez que recebiam um estrangeiro através do site. Apesar da língua colonial oficial do Senegal ser o francês, todos falavam relativamente bem o inglês.

Conversamos um pouco e perguntaram se eu estava com fome. Trouxeram um grande prato de comida e me assustei com a quantidade. Estava com fome, mas não queria fazer desfeita. Só depois entendi que o prato era para todos. Foi colocado no meio da mesa e todos se serviam, com as mãos mesmo.

No silencio da madrugada vinha uma musica hipnotizante ao fundo, “AaaoooAOaaaoo…”. Era um encontro Mourid, a principal irmandade muçulmana do Senegal. Estavam lendo poesias em voz alta, como se fosse um coral, e a cantoria seguiu pela noite toda.

De manhã acordei com crianças brincando e gritando. A casa do Bachir, meu anfitrião, ficava na frente de um campinho de futebol de areia. Quando olhei pela janela pude notar que todo o bairro era uma “continuação”do campinho, já que toas as ruas eram de areia também.

Campinho do bairro

                            Campinho do bairro

Interessante que era uma família de classe media alta (pelos empregos e cursos universitários), tinham uma mensalista para limpar a casa e um bom carro na garagem, mas o banho era de balde. Tinha um “rabo quente” ligado na tomada para esquentar o balde antes de tomar banho.

Dakar é uma cidade grande, movimentada e espremida numa pequena peninsula. Visitar a cidade num final de semana foi um alivio, pois as ruas ficam constantemente congestionadas nos dias de trabalho.

Visitei o centro antigo, onde tem alguns prédios coloniais interessantes, com clara influencia francesa, como a estação de trem, a prefeitura, a câmara do comercio. O palácio presidencial também é muito bonito. Não muito longe dali, na Medina, fica a grande mesquita, inspirada na de Casablanca-Marrocos. Existem grandes e belos mercados como o Kermel, mas é gostoso explorar os pequenos mercadinhos espalhados pelas ruelas.

Arquitetura com influencia européia

Arquitetura com influencia européia

Grande mesquita de Dakar

Grande mesquita de Dakar

Explorando o centro de Dakar com meu amigo Bachir

Explorando o centro de Dakar com meu amigo Bachir

Na minha passagem por Dakar, não poderia deixar de conhecer a Ilê de Gorée, uma pequena ilha a poucos quilômetros de barco da capital. Patrimônio histórico da Unesco é uma das grandes atrações do país.

Ile de Gorée

Ilê de Gorée

A Ile de Goree é pitoresca e muito tranquila. Tem belos casarões, ruas estreitas, buganviles e barcos coloridos. Pela manhã estava muito calmo caminhar pelas ruelas, mas com o passar do dia mais barcos foram chegando e ficou lotada de turistas. Em alguns lugares históricos como a “La Maison des Esclaves, não dava para circular de tanta gente. A saída foi assistir um futebol no centro da vila e bater papo com meu amigo. Detalhe que no meio do campinho tinha uma grande Baobá, arvore que esta presante em diversos lugares da ilha.

Ile de Gorée

Ilê de Gorée

Baobá no meio do campinho

Baobá no meio do campinho

Maison des Esclaves lotada de turistas

Maison des Esclaves lotada de turistas

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Assim como tantos outras ilhas e fortificações da costa oeste e leste da Africa, a Ilê de Gorée faz parte da triste história de envio de escravos para a america.

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Homenagem aos escravos

A família do meu anfitrião era Mourid devota, então pude me aprofundar um pouco nesta pratica/cultura/religião tão tipica do Senegal. Não tinha um plano bem definido para onde viajaria, mas acabei me influenciando por todas as nossas conversas e decidi ir para Touba, a capital sagrada do Mouridismo. O Bachir fez algumas ligações para amigos me receberem lá e em outras cidades que eu poderia passar ao longo da minha viagem pelo país.

Para ganhar tempo não viajei de ônibus. O transporte escolhido foi o “Sept Place”, carros Peugeot com lugar para sete passageiros, alem do motorista. São os famosos “taxis comunitários”, meio de transporte muito comuns na África (alem do Oriente Médio e Asia Central). Eles saem quando lotam, então é bom iniciar o dia cedo, de preferencia antes do sol nascer.

Sept Place!

Sept Place!

Uma estrada reta e plana, num ambiente árido, mostra um pouco da geografia do país. Uma antiga linha de ferro segue paralela a estrada. É uma ferrovia que liga Dakar até Bamako, capital do Mali, antigo sonho de consumo meu. As baobás espalhadas e as diversas charretes ao longo da estrada dava um clima todo para a viagem, sem falar nos mercados vivos e coloridos dos pequenos vilarejos.

Chegando em Touba, ela pouco se difere de uma outra cidade senegalesa, mas aos poucos fui descobrindo suas regras e peculiaridades. É proibido o consumo de tabaco e álcool em toda a cidade. Também não se pode usar os famosos tambores senegaleses, musica somente se for sagrada. Me surpreendi por não existir nenhum hotel. Durante o Magal, a grande peregrinação de Touba, chagam a vir 3 milhões de fieis, mas eles precisam ficar hospedados nas casas das pessoas ou nas cidades vizinhas.

Transporte público

Transporte público

Charretes são meio de transporte nas cidades também

Charretes são meio de transporte nas cidades também

No coração da cidade está a grade mesquita de Touba. Uma mesquita em constante reforma, já que cada Califa quer aumentar um pouco ou deixar a sua marca. Já são 7 Minaretes, o mesmo numero que em Meca (e o máximo que o Islã permite). Diversos mausóleos onde os descendentes de Bamba são venerados como verdadeiros santos. Interessante que no Islã ortodoxo só existe a relação direta com Deus, sem os intermediários que existem no Mouridismo. No Islã tradicional também não se pode venerar nada alem de Deus portanto os mourides seriam hereges na visão deles.

Grande Mesquita de Touba

Grande Mesquita de Touba

Grande Mesquita de Touba

Assim como Mecca, com sete minaretes

Grande Mesquita de Touba

Em constante reforma

Artistas trabalham na renovação e em novas pinturas, e o dinheiro das doações vem de fieis que vivem em todos os cantos do mundo. Existe uma legião de fieis disposta a seguir a ordem do Sheik, o que torna a doutrina poderosíssima. Dizem que é este poder que tem afastado o extremismo do Senegal. Já os críticos apontam que os benefícios financeiros e politicos estão acima dos espirituais.Apesar de ser bem fora de mão, gostei bastante da minha passagem por lá e de ter aprendido mais sobre este aspecto tão único do Senegal.

Detalhes do interior

 Interior da mesquita

Detalhes do teto

Detalhes do teto

De Touba foi para Kaolak onde consegui fazer uma conexão até a Gâmbia. A estrada que era simples, porem de qualidade, ficou bem ruim, até que se transformou num caminho de terra. Passei uns dias na Gâmbia antes de voltar para o Senegal, agora na porção sul, chamada de Casamance. A Gambia é uma “tripa”de uns 40 km de largura por 300 de comprimento, bem no meio do Senegal. A região de Casamance é bem diferente do restante do país. Menos árida, cheia de rios, manguezais e bem mais arborizada, possui outro povo (Jola), língua e religião. Este contraste fez com que guerrilhas lutassem por independência, principalmente nos anos 80 e 90. O governo do Senegal conseguiu controlar a situação, e já faz uma década que não acontece mais nenhum incidente. No meu caminho até Ziguinchor, passei por uma grande base militar de onde saíram três carros blindados. Acho que nosso carro não tinha autorização para ultrapassar, então atrasou muito a nossa viagem, pois tivemos que ir bem devagar atras deles até resolverem sair da estrada.

Ziguinchor é uma cidade agradável, na beira de um rio. Foi uma base ideal para eu explorar a região. Consegui um hotel num preço aceitável, que tinha um patio cheio de arvores e wifi para eu poder dar noticias. Os preços de toda esta região do Oeste da Africa não são muito convidativos. Eles tem uma comunidade de moeda unica, basicamente formada pelas antigas colonias franceses. A moeda corrente é o CFA, e flutua de acordo com o Euro.

Qualquer hotel podre, custa pelo menos o equivalente a uns 10 euros (podendo chegar a 15 ou 20 sem água corrente). Tudo bem que as vezes o preço é para o quarto duplo, mas eu estava sozinho então tinha que pagar o preço cheio. Uma refeição simples num restaurante qualquer custa 3500 CFA, ou seja, 5 Euros. Um absurdo para o valor do Real atual. A saída era seguir os locais, e descobrir onde tinham os “pratos feitos”, que muitas vezes custavam 500 CFA, em torno de 70 centavos de dólar.

A improvisação e imaginação sempre trazem alternativas também. Eu tinha ido visitar as praias de Cap Skiring, uma antiga vila de pescadores que esta se transformando com o turismo. Fui até os pescadores, escolhi um peixe e um caranguejo, perguntei se não poderiam preparar para mim e fiz uma das melhores refeições da viagem. Prepararam arroz e até um molho para acompanhar o peixe. Comida farta, muito farta e de qualidade.

Cap Skiring

Mulheres aguardando os pescadores

Cap Skiring

Onde tem pescadores tem comida fresca

Onde tem pescadores tem comida fresca

Cap Skiring não é mais nenhum segredo, já tem até um hotel Club Med por lá. Isto não impede que existam diversas praias desertas, muitas delas a unica companhia que eu tinha era de vacas que voltavam da pastagem.

Cap Skiring

Cap Skiring – praias ainda desertas

Cap Skiring

Cap Skiring

Algumas casas de veraneio e terrenos a venda para estrangeiros ou endinheirados de Dakar, mas o sossego continua, pelo menos por enquanto. Na praia principal dezenas de canoas, peixes secando ao sol e pilhas de conchas que formavam verdadeiras montanhas.

Novas casas

Novas casas

Peixes secando ao sol

Peixes secando ao sol

Mas não só de praia vive Casamance. Diversos vilarejos entre os manguezais e rios, mostram uma vida simples e tradicional, onde pessoas batem papo embaixo de mangueiras gigantes. Na minha passagem por Oussouye eu fiquei amigo de um cara que me levou para conhecer a região com sua moto. Passei por pequenas vilas, seguindo pequenas trilhas entre as arvores. Queria muito conhecer o rei da região mas novamente não consegui. Já tinha tentado conhecer reis em outros lugares no Oeste da Africa, mas as majestades africanas parecem que são muito ocupadas.

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Arredres de Oussouye

Existem pequenos campings (com quartos também) espalhados por toda a região. Devido a proximidade deles, é um ótimo lugar para se viajar de bicicleta, curtindo o dia a dia local e andando na velocidade das pessoas.

Em Ziguinchor eu visitei a embaixada de Guiné Bissau e consegui meu visto em menos de 5 minutos. Nada de muitas perguntas ou carta convite como a Embaixada no Brasil exigia. Fui para Guiné Bissau, um tempo depois eu voltei para Ziguinchor onde fui para a Gambia e depois entrei novamente no Senegal. No final da minha viagem eu tinha 8 carimbos senegaleses no meu passaporte, 4 de entrada e 4 de saída, tudo por causa desta bizarrisse colonial de ter um pais ao longo do rio (Gambia), dentro de outro país (Senegal).

A caminho de Dakar ainda passei pela região de Faick, onde tem o belíssimo Delta du Saloum. Peguei balça, apreciei a paisagem, fiz amigos, viajei com carro que quebrou e me diverti bastante. Na minha ultima passagem pela capital decidi não fazer couchsurfing e fiquei num pequeno hotel na região de Yoff. Não muito longe tinha um surfcamp onde surfistas do mundo inteiro estavam hospedados para surfar as boas ondas do país. Fui me informar e falaram que tinha uma ótima ondulação chegando no próximo dia. Depois de tantas viagens resolvi tirar um dia de folga para surfar. Já cedo estávamos percorrendo os mais famosos locais de surf de Dakar, mas não tive sorte. A tal ondulação não chegou, e as ondas não davam nem para brincar. Pelo menos acabaram não me cobrando nada e acabei passeando bastante, por regiões que eu não tinha conhecido, como Yoff, N’gor e até Ponta de Almandies, o ponto mais ao Oeste da África.

Onibus coloridos de Dakar

Ônibus coloridos de Dakar

Na ultima noite me mudei para um hostel perto do aeroporto, pois teria que viajar de madrugada. Fui comer alguma coisa num restaurante ali perto e na volta ouvi aquela “musica” que escutei no meu primeiro dia de Dakar. Eram os Mourides recitando as poesias. Era o final da minha viagem, tudo já fazia muito mais sentido para mim. As lembranças de uma viagem relativamente curta (para os meus padrões) mas muito intensa, passavam na minha cabeça como uma apresentação de slideshow. Só isto já seria um “final feliz”, mas ao olhar no corredor do prédio decadente, de onde saiu um rapaz todo sorridente. Eu o cumprimentei como os Mourid (colocando a mão dele na minha testa) e ele ficou todo feliz. Comecei a falar do Amandou Bamba e ele já foi me convidando para entrar. Ficamos conversando, e um senhor mais velho não sabia muito bem o que fazer com a minha presença. Ligava para ver se autorizavam eu ficar por ali. Depois de uns minutos veio a aceitação, e inclusive me autorizaram a filmar. Um lugar simples, uma reunião espiritual, portanto tentei ser discreto e respeitoso. Me sentei e fiquei apreciando o coral por um bom tempo. Hipnotizado acabei perdendo meu horário, tive que correr para o hotel para algumas horas de sono, antes da longa viagem de volta para o Brasil.

Togo, despedida do Oeste da África

Confesso que não tinha grandes expectativas do Togo. Desde o inicio da programação da viagem, não imaginava explorar o interior, só os pouco menos de 60 quilômetros de costa deste pequeno país. Foi muito bom, pude conhecer com calma e digerir as experiencias tão intensas que tive até ali. Nestas horas, sem grandes planos, acabamos nos surpreendendo, e curtindo momentos simples, aqueles que não podem ser planejados.

As fronteiras pouco importam nesta região, onde povos são separados por linhas imaginarias. Grande parte do “Togo histórico” se é que se pode falar desta maneira, acabou fazendo parte de Ghana. Apesar de ter sido um protetorado alemão (1884) durante um período, pouco resta desta época e a língua colonial mais falada é o francês, já que a França assumiu o controle da região após a primeira guerra.

Minha primeira parada foi em Aného, pertinho da fronteira com o Benim, onde buscava a herança cultural dos escravos que voltaram do Brasil para lá. Assim como os Tabom (Ghana) e Agudás (Benim), também tiveram escravos libertos que se fixaram no Togo, e a cidade era apontada como um grande centro cultural deles. Pouco sobrou da antiga cidade protetorado alemão, no máximo uma ou outra construção colonial, a maioria bem decadente. Havia ouvido falar que até a cor das pessoas seria um pouco mais clara, devido ao “abrasileiramento”. Grande besteira. Quem já viajou pela África sabe que os tons de negro são infinitos e impossíveis de se classificar. Verdade é que não existe uma raça negra, nem fenótipa nem genótipa. Existe uma herança (multi) cultural africana, e só isto. A eugenia tentou em vão criar diferenças e padrões, mas sempre fracassou. Estudos mostram uma variabilidade genética maior entre os próprios grupos de indivíduos do que fora deles. Raça não existe, fato.

O povo Ewe, predominante na região, é amenista e crente nas praticas do Vudum. Muito rico culturalmente, colorido e bastante musical, fez minha estada na região ter sido muito agradável, apesar de não ter passado por grandes atrações.

Lago Togo

Lago Togo, com a histórica Togoville ao fundo

Acabei usando a capital, Lomé, como base, e as curtas distancias facilitaram bastante para eu explorar a região. Um curto táxi comunitário e eu estava em Agbodrafo, a antiga “Porto Seguro” na época dos portugueses. Lá tem um pequeno forte escravocrata, mas meu interesse maior era no sentido oposto ao litoral. Poucos quilômetros dali, por estradas de terra, cheguei no Lac Togo. Parecia a forma mais fácil de chegar até a histórica Togoville, mas não sem muita negociação. Canoas partiam sentido a pequena vila, todas carregadas com os mais diversos produtos, desde saco de alimentos até motocicletas. Mas pareciam não querer levar estrangeiros, pelo menos não pelo preço dos locais. Me passaram o preço que um grande hotel ali perto cobra, para um barco particular. Me surpreendi um pouco, pois no ultimo mês estava viajando por diversos países e nunca tentaram me enganar no preço do transporte. Nada de me revoltar, com um sorriso no rosto, apertos de mãos longos, piadas e abraços consegui derrubar o preço, mas não consegui pagar o justo. Com o turismo, existe uma certa crença que os mais ricos tem que dar dinheiro para os mais pobres. Não que esteja completamente errado, mas eu viajando de forma simples que estava, acabava me sentindo um pouco excluído. De qualquer forma, depois de bastante negociação, acabei cedendo e pensando que estava contribuindo um pouco com a região.

Togoville

Togoville

Redes de pesca no Lago Togo

Redes de pesca no Lago Togo

Pescadores

Pescadores

Pescadores recolhiam as redes, canoas navegavam lentamente quando pude avistar ao longe a torre da igreja. No meio de tantas capelas de Vudum se destaca uma grande catedral, que marca o lugar onde dizem que a virgem Maria apareceu nos anos 70.

Uma cidadezinha calma, com pescadores deitados na beira do lago, alguns comerciantes expondo mercadorias e uma ou outra pessoa na rua. A lotérica era o lugar mais movimentado e um bar/ restaurante o mais barulhento, apesar de poucos clientes. Crianças brincavam de bicicleta, jogavam bola e corriam com rodas. Uma ou outra gritava “Yovo” (homem branco) para mim e saia correndo dando risada.

Passei pela Mansão real, pela Catedral, capelas de vudum e pelo “Memorial”onde foi assinado o tratado com os alemães. Apesar do apelo turístico da região, não pareciam se importar muito com minha presença por ali. Fiz alguns amigos no pequeno mercado de rua e consegui um motorista para me levar de moto até Vogan, uma cidadezinha a alguns quilômetros dali, onde tem um grande mercado nas sextas-feiras. Não havia planejado, mas estava com sorte!

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No caminho, aquele clima rural, cenário de interior. Rápida parada para abastecer, num lugar que vendiam gasolina em garrafas de vidro de um litro. Notei quando nos aproximávamos de Vogan pela quantidade de mulheres com seus cestos na cabeça, e roupas coloridas, voltando das compras.

Abastecendo

Abastecendo

Movimento

Movimento em dia de mercado

É um grande mercado, onde se vende de tudo. Roupas, comidas, animais alem de qualquer coisa que possa precisar no dia a dia. Fora comida, e talvez um tecido ou outro, nada que eu quisesse comprar, mas ótimo lugar para observar as pessoas e o dia a dia. Um pouco de voyeurismo eu confesso. Para aliviar o calor, nada melhor que uma água de coco, que custava 70 CFA, algo em torno de 0,10 Eur.

Vogan

Vogan

Vogan

Vogan

Cores

Cores

Para sair de um grande mercado destes claro que só num carro superlotado. Fui no banco da frente dividindo com uma “Mama”. O carro quebrou, furou pneu, mas nada que eu não estivesse esperando, nem demorou tento assim para eu voltar para Lomé.

Estava hospedado num hotel na região de China Town, atras do palácio presidencial. Os quartos eram bem ruinzinhos, mas tinha um restaurante popular entre os expatriados, onde tinha até banda alguns dias a noite. Para comer eu preferia caminhar umas quadras dali, onde ficavam os restaurante libaneses, bem mais baratos. As comidas de rua sempre estava a disposição também!

Catedral Lomá

Catedral Lomé

A praia, alem de suja, é um local considerado perigoso, portanto eu apenas passava (não aproveitava), a caminho do hotel. Caminhei bastante pelo centro, explorei vários cantinhos do Grand Marché e o mercado de artesanatos. Mas eu estava mesmo sonhando em conhecer o Mercado Akodessewa, conhecido como “Marché des Féticheurs”, o Mercado da Feitiçaria. Como fica mais afastado é só parar uma das motos e acertar o preço. Acabei tendo sorte e um cara bem bacana me levou. Em vez de somente me deixar lá acabou me acompanhando e ficou meu amigo. Ele estava desempregado e tinha tempo livre. Aproveitava para aprender um pouco de inglês, mas ainda estava bem no inicio. Rodamos um pouco pelo mercado antes de achar a seção de feitiçarias. Dentre mantimentos e animais vivos, um pequeno gato me chamou a atenção. É para comer eu perguntei um pouco sem jeito. Claro espondeu a vendedora, com cara de “para que mais seria”. Todo mundo já comeu “filé miau”, mas ir comprar assim é um pouco estranho.

Filé Miau

Filé Miau

A seção de feitiçaria foi um pouco decepcionante, pelo menos para quem tem um espírito de viajante independente. Já na entrada tem uma placa onde mostra o preço da entrada e o valor que você precisa pagar para tirar fotos. O lugar não foi montado para o turista, ele está lá e vendem mercadorias para todo o Oeste da África, só aproveitaram a possibilidade para ganhar um extra. Você pode ter um tour onde vão te explicar a utilização de cada produto, tirar duvidas e até ter uma consulta. Tudo isto no meio de crânios de macacos, cascos de tartarugas, dentes, asas de morcego, garras de diversos animais e por aí vai.

Feitiçaria

Feitiçaria

Vudum

Vudum

Compras

Compras

Loja

Loja

Vale a pena, mas não deixa de ser um daqueles famosos pega-turista. Com certeza é possível ter experiencias bem mais autenticas com o Vudum em outros lugares, mas talvez as fotos não fiquem tão boas como ali.

Consultas

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Mercado Feitiçaria

Mercado Feitiçaria

Alguma encomenda?

Alguma encomenda?

Lomé é pequena para uma capital e muito fácil de se orientar. Dali eu iria até Accra, Ghana, para pegar o voo para o Brasil. Interessante que a fronteira Togo-Ghana fica nos limites da cidade, muito perto do centro. Minha estadia por  ali foi um período nostálgico, onde eu tive um certo tempo livre. Tomando cerveja ou comendo num restaurante eu ficava relembrando esta incrível viagem pelo Oeste da Africa.  Ernest Hemingway não poderia estar mais certo quando disse:

“Não me lembro de uma manhã na África em que eu acordei e não estivesse feliz”