Guiné-Bissau e o Arquipélago dos Bijagós!

A comunidade Lusófona mundial não é grande. Restringe-se a poucos países, sendo eles Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Acho muito legal de viajar para outros países e falar português, ainda mais como Brasileiro. Não que eu não goste de falar outras línguas ou até me comunicar por mímica, mas gera uma curiosidade você dominar o “idioma deles”.

Língua portuguesaunida

Língua portuguesa unida

Guiné Bissau não é muito frequentada por turistas. Existem os estrangeiros que trabalham em ONGs, os turistas endinheirados que vão de avião fretado pescar em uma ou outra ilha, mas não são tantos viajantes independentes por lá. Alias nos últimos anos tem figurado na lista dos dez países menos visitados do mundo. Só isto já me soava tentador e descobrir o que tinha por lá, mas as surpresas sempre são maiores.

 

O visto não parecia algo simples, pelo menos não na Embaixada no Brasil. Pediam carta de convite ou termo de responsabilidade de algum morador (ou empresa) de Guiné Bissau, dentre outras burocracias. Como tudo na estrada é mais fácil, após alguma pesquisa deixei para tirar no Consulado de Ziguinchor, cidade senegalesa que não fica muito longe da fronteira. Cheguei minutos antes da embaixada abrir. Quando o cônsul e seu assistente chegaram soltei um “ Bom dia” bem sonoro, orgulhoso do meu português. Recebi uma resposta meio seca, “ nem tão bom…”! Mas não deu tempo nem de me preocupar se receberia o visto. O cônsul inclusive preencheu meu formulário, só precisei assinar. Entreguei uma copia do passaporte e fotos 3×4, mas ele nem pegou as fotos. Paguei e sai com um visto de duas entradas, tudo isto em menos de 5 minutos. Poderia ter inclusive ter ido direto para a fronteira, mas fiquei uns dias pela região de Casamance, Senegal.

No dia da minha partida, fui cedo para o pátio dos transportes. Quem tem o visto no passaporte consegue pegar um carro (Sept Place) direto de Ziguinchor até Bissau, capital de Guiné Bissau, sem precisar fazer a viagem em etapas. Isto agiliza bastante, mas mesmo assim os 140 km vão demorar perto de 4 horas de viagem com os tramites da imigração.

A estrada do lado senegalês é simples, mas boa, a fronteira é tranquila, sem muitos comentários. Atravessei a pé a “terra de ninguém” e o carro atravessa sozinho para continuar a viagem. Fiquei amigo de um jovem de Freetown, Serra Leoa, que voltava para casa depois de um período de trabalho em Dakar, Senegal. Ele pararia no caminho caso achasse trabalho. Muito interessante estas migrações que acontecem com tanta frequência pelo Oeste da África. A facilidade de poder viajar somente com a carteira de identidade ajuda muito eles neste aspecto. Um alemão que estava indo visitar sua irmã em Bissau também estava no carro, assim como homens de negocio e senhoras voltando para casa.

Amigos da estrada

Amigos da estrada

Cidade

Cacheu

A estrada do lado de Guiné-Bissau é visivelmente de pior qualidade. O país tem um dos piores IDH do mundo. Se a infraestrutura não ajuda o turismo, a não possibilidade de sacar dinheiro em caixas eletrônicos assusta muita gente. Ser vizinha de Guiné (Conracri), onde teve surto de Ebola, e possuir uma instabilidade política, só piora as coisas. Mas posso dizer que foi uma viagem super tranquila e agradável, alem de uma ótima receptividade.

Ebola

Campanha contra a Ebola

Logo após Santo Domingo, a primeira cidade, uma nova ponte, pedagiada, liga até a pacata Cacheu. A pequena cidade, na beira do rio de mesmo nome, foi um importante entreposto e dão um clima histórico para o lugar.

A estrada que vai até Bissau passa por poucas cidades e vilarejos, mas sempre que tem algum sinal de vida, muitos vendedores de castanha de caju, o carro chefe das exportações do país. O país produz 200 mil toneladas do produto, carro chefe da exportação, ajudando a economia a crescer 5% no ultimo ano.

Ao me aproximar da Bissau, aquele movimento dos subúrbios, com mercados e pessoas, porem bem calmo comparado com outras capitais do oeste africano. Nosso ponto final era por ali, onde eu negociei um taxi para ir até o centro. Somente 500 CFA, menos de um dólar para alguns quilômetros de corrida. Foi uma das poucas coisas baratas por ali. Se engana quem pensa que só porque um país é pobre tudo será barato. A baixa infraestrutura, e poucas opções de hospedagem por exemplo, fazem os preços dispararem. A pousada que tinham me recomendado era pequena e estava lotada. Me indicaram um outro local. Razoavelmente bom, mas com um péssimo custo beneficio.

Eu teria tempo para explorar a cidade, mas minha prioridade era saber quando sairia o ferry para a Ilha de Bubaque, já que só tem um por semana. Caminhei até o porto e encontrei um cartaz indicando a maré e o horário. Pesquisei um pouco sobre canoas, mas elas são bem esporádicas e a viagem é bastante longa.

Informativo

Informativo

O Bairro de Bissau Velho fica ali ao lado do porto. É pequeno, talvez umas 4 quadras por 2 ou 3. Ruas estreitas, casas com sacadas de madeira e alguns casarões históricos nos arredores. O problema é que alguns dos casarões funcionam órgãos do governo, assim como o grande forte (Fortaleza são José de Amura) que hoje é base militar, portanto nada de fotos, infelizmente. De qualquer forma muito gostoso andar sem destino por ali, explorando cada cantinho.

Predios mal conservados perto do porto

Predios mal conservados perto do porto

Ruas calmas na parte velha da cidade

Ruas calmas na parte velha da cidade

Sacadas em muitas construções

Sacadas em muitas construções

Entrada de Bissau Velha

Entrada de Bissau Velha

Casarões

Casarões

A cidade parecia parada, talvez devido ao calor, poucas pessoas nas ruas. Passei pela Igreja católica, pelo palácio presidencial, mas acabei me refugiando na sombra de uma arvore em  um bar em frente à praça Che Guevara. O partido africano para a independência de Guiné e Cabo Verde (sim eram só um país no passado) eram de inspiração marxista, e por isto alguns monumentos e ruas recebem nomes de figuras revolucionarias. O grande líder da independência, Amilcar Cabral, é lembrado nos livros, muros e corações de toda a população.

Catedral de Bissau

Catedral de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Palácio presidencial de Bissau

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Tomando uma cerveja para fugir do sol.

Cabral

Amílcar Cabral, sempre lembrado.

Apesar da dificuldade do país, não encontrei nenhum pedinte durante minha viagem. Me senti bastante seguro, cheguei a sair a pé mesmo a noite para  jantar. Para pegar meu ferry, antes do sol nascer não foi diferente. Se bem que as poucas quadras até o porto facilitava. Deu tempo de tomar um café e comer um sanduíche enquanto a embarcação não saia. Não tinha encontrado muitas opções de comida de rua em Bissau, mas num lugar movimentado como o porto sempre tem algumas possibilidades. Comi um bolo tão gostoso que guardei algumas fatias para a viagem.

Sol nascendo no porto

Sol nascendo no porto

Aguardando a partida

Aguardando a partida

A embarcação é velha e lenta, tornando o trajeto longo, mas golfinhos quebram a monotonia e sempre tem alguém disposto a bater papo . Assim que se afasta do continente já da para avistar as primeiras ilhas. O Arquipélago dos Bijagós possui 88 ilhas, de todos os tamanhos e estilos. Pena que existe esta dificuldade tão grande de se locomover entre elas. Um ferry semanal para as principais, uma ou outra canoa superlotada de pessoas e mantimentos entre as ilhas, faz com que seja impossível conhecer mais de meia dúzia de ilhas em um mês se você não tiver um barco próprio. A ilha de Bolama tem a antiga capital, cheia de prédios coloniais abandonados, Orango tem os hipopótamos de água salgada, a João Vieira tartarugas e ótima vida marinha para mergulhos, Uracane cheia de flamingos, algumas são inabitadas, com praias paradisíacas, outras possuem populações com vida super tradicional, onde o rei ainda é quem manda. Falaram que Canhabaque é a mais tradicional de todas, cheia de lugares sagrados e lendas.

Ultima vista de Bissau

Ultima vista de Bissau

Arquipélago dos Bijagos

Arquipélago dos Bijagos

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

A caminho do Arquipélago dos Bijagós

Algumas ilhas desertas

Algumas ilhas desertas

 

A hospitalidade dos Bijagós é conhecida, mas sempre vale lembrar que lá são eles que mandam, então suas terras, suas leis. O navegador português Nuno Tristão foi o primeiro europeu a chegar nas ilhas, em 1447. A receptividade naquela época não foi tão boa, e já que ele foi morto pelos guerreiros Bijagós.

Eu desci na ilha de Bubaque, depois de umas 8 horas de viagem. Já tinha feito alguns amigos que me recomendaram uma pousada não tão distante do centrinho. Outro amigo me recomendou o restaurante da irmã dele. Porções simples e honestas. Um prato com arroz e peixe com molho de amendoim pelo equivalente a um euro. Os pratos mais baratos dos restaurantes simples de Bissau e até os dos hotéis de Bubaque eram de pelo menos (o equivalente a) 5 a 7 Euros, então foi um alivio. Não preciso nem dizer que virei freguês, e ainda era um ponto de encontro de pescadores da região, então historias não faltavam…

Aterra a vista!

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Chegando em Bubaque

O centrinho de Bubaque é relativamente “desenvolvido”, a iluminação publica é com energia solar, e alguns botecos mostram jogos de futebol europeu, devido às antenas parabólicas. Alguns casarões abandonados, ruas de terra, e um ou outro carro passa com o intervalo de algumas horas.

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Não tem tantas coisas para fazer, a não ser brincar com a criançada, explorar os vilarejos mais típicos e bater papo com o pessoal. Dizem que em Guiné-Bissau se fala português, mas não é bem assim. Na verdade somente 15% da população fala português como língua corrente. A língua mais falada é o crioulo (Krioul), usada por mais de 70% da população. Existem diversas outras línguas nativas também, faladas por pequenas comunidades. O Crioulo de Guiné Bissau é uma língua que se originou da mistura do Português com línguas locais. Apesar de ser uma língua independente, tem um grande percentual de palavras portuguesas. Quando falam rápido é difícil de entender. Para descontrair, às vezes eu falava um português bem rápido e cheio de gírias, era risada na certa.

Brincadeir de criança

Brincadeira de criança

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

Crioulo de Guiné-Bissau (Krioul)

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Na ilha não tem transporte publico. Os poucos carros são de funcionários da ONU, ONGs, ou para transporte de mercadorias e de hotéis mais caros. Mas não é difícil de encontrar uma bicicleta para alugar. O problema é que todas que encontrei estavam em péssimo estado de conservação (esqueça freios e marcha), mas facilita bastante para distancias mais longas.

Presença da ONU e ONGs

Presença da ONU e ONGs

A Praia do Bruce, fica a 18 quilômetros de distancia, no extremo oposto da ilha. É um dia longo, pois precisa sair cedo, antes que o sol torne a pedalada proibitiva. Mochila carregada com frutas mangas, sanduíches e água, muita água. Não tem muito como se perder. É só achar a “ estrada branca” principal “ estrada” da ilha. Era uma estrada feita com conchas, daí veio o nome, mas são tantos os buracos que já é de terra mesmo. Muitos cajueiros, todos carregados com frutas. Eu tentava pedalar rápido mas a bicicleta e a estrada não me deixavam. A leve brisa me entorpecia com o cheiro de caju maduro, que aguçava mais um sentido naquele momento. A trilha sonora era de facões dos trabalhadores limpando a área e coletando coquinhos de palmeiras. Nas pequenas vilas que passava (alguns amontoados de casas) crianças vinham correndo para acenar, e as pessoas paravam para ver o estrangeiro passar. Gritavam “Branco, Branco”. Se surpreendiam quando eu respondia em português e vez ou outra alguém me acompanhava por alguns minutos de bicicleta. Depois de um longo trajeto, valorizamos ainda mais a praia e um refrescante banho de mar. As coisas devem mudar no futuro. Estão construindo um ou outro hotel, mas a praia ainda é deserta. Uma ou outra canoa, onde um porquinho buscava sombra para dormir da areia. Eu já preferi a sombra das arvores, um pouco mais para trás.

Estrada inicia bem

Estrada inicia bem

...mas logo fica assim!

…mas logo fica assim!

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Minha magrela!

Minha magrela!

Todos buscando uma sombra

Todos buscando uma sombra

Um dia longo e relaxante na praia cai bem, mas precisa programar bem a volta. Muito cedo o sol esta fortíssimo, por outro lado anoitece cedo, e é preciso considerar a possibilidade de furar um pneu ou acontecer alguma coisa com a bicicleta no caminho. Na volta crianças, mulheres, adultos e velhos estavam voltando do trabalho. Com seus facões com ponta reta, cestos cheios dos coquinhos vermelhos e cara de exaustos. Um senhor me pediu água, a dele tinha acabado fazia tempo. Era final de semana, um dia quente de verão, mas eu fui o único que pude aproveitar a praia. No dia a dia é preciso trabalhar, é a sobrevivência, mesmo num final de semana com sol.

Algumas pessoas pedalavam no sentido de Bubaque. Todas com sacos pesados amarrados nas bicicletas. Foi bom para puxar meu ritmo, pois não podia ficar para trás.

Em Bubaque logo já conhecia muita gente. Busquei um chip de celular nas diversas vendas, até finalmente encontrar. Havia ficado dias sem dar noticias, e a Bibi estava bastante preocupada. Com o chip em mãos, descobri que era preciso se registrar, mas só lá no continente. Parecia um caso perdido quando um dos meus amigos ligou para o irmão dele em Bissau. Ele pegou a moto e foi até uma agencia telefônica para cadastrar o meu numero no nome dele, e assim pude dar noticias.

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Cachaça e vinho de coquinho, as bebidas nacionais

Quando chegou o dia de partir, uma pequena feira de rua se formou em frente ao barco. A cidadezinha estava viva e até apareceu um grupo cantando enquanto o ferry partia. Horas de viagem e cheguei em Bissau já estava escuro. Mas já me sentia em casa, caminhei até o mesmo hotel, sai para comer, parecei que já entendia bem como as coisa funcionavam na pequena capital.

Dia de feira em Bubaque

Dia de feira em Bubaque

Barco sempre lotado

Barco sempre lotado

Azulejos de Bissau

Azulejos em Bissau

Azulejo de Bissau

Azulejo em Bissau

Já estava quase na hora de me despedir de Guiné-Bissau, mas não sem antes experimentar as famosas ostras de Quinhamel. Uns 30 quilômetros a noroeste de Bissau, na beira da praia, um programa imperdível para quem gosta de comer bem. Dizem que final de semana fica cheio, mas dia de semana é muito tranquilo.

Um lugar que eu queria ter conhecido é a vila de pescadores de Varela, no extremo norte do país. A estrada de Santo Domingo para lá não é das melhores, e o transporte não é frequente. Eu tinha planejado de passar uma noite lá, mas rumores diziam que as fronteiras do Senegal com a Gâmbia tinham fechado novamente. Se isto fosse verdade (acabou não acontecendo) eu teria que contornar toda a Gâmbia (o que daria mais de 24 hs de viagem) para poder chegar em Dakar e pegar meu voo para o Brasil. Resolvi não arriscar.

No controle de passaporte de saída, esboçaram uma revista na mochila. Guiné Bissau esta na rota do tráfico de drogas internacional. Com tantas ilhas e uma marinha que só tem um ou outro barco, tornou-se a porta de entrada da cocaína que vai para a Europa. Encontraram meia dúzia de roupas sujas e algumas histórias. Deviam estar entediados, pois adoraram minhas historias de lá e de outros lugares que identificaram nos vistos estampados no passaporte. O papo estava bom, mas tinha que seguir viagem. Abriram um sorriso quando disse que recomendaria o país para meus amigos. “Obrigado, são sempre bem vindos…” acenava o oficial da imigração com um sorriso no rosto. E eu segui no meio de mulheres com vestidos coloridos, homens com sacos pesados nas costas e contrabandistas pela terra de ninguém até chegar no Senegal.

 

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