A Europa pouco visitada

Quando se pensa em uma viagem para a Europa, poucos brasileiros lembram da Moldávia como destino. Uma região que ainda não foi descoberta pelos nossos conterrâneos. Junto com a Bielorrússia, é um dos últimos dois países europeus que ainda exigem visto para brasileiros (se contar Cáucasos como Europa aina tem outros dois). Esmagada entre a Romênia e a Ucrânia, acaba tendo influencia dos dois. Era o limite de Império Romano, que chegava até o rio Dniestre, trocou de mãos diversas vezes, nas guerras entre os Otomanos e Russos, até fazer parte da União Soviética.  A população fala tanto o russo como o Romeno, língua latina que acaba tendo palavras próximas ao português. Na capital Chisinau, é possível observar diversas bandeiras da União Européia, mas ainda parece ser um sonho bem distante, pois é um dos países mais pobres de toda a Europa. As influencias russas e heranças soviéticas também são fáceis de se observar, caminhando por esta agradável e pacata capital.

Um microonibus do aeroporto até o centro, cerca de meia hora, custa menos de 50 centavos de Real! É o Leste Europeu do imaginário, como já foram destinos que hoje são invadidos pelo turismo em massa. Avenidas largas, arborizadas, construções históricas e grandes parques formam o visual da cidade.  Não é o tipo de destino que você vai ter uma lista de atrações imperdíveis para ver, mas não deixa de ser uma cidade bem gostosa e barata para curtir o dia a dia. Como meu anfitrião do couchsurfing acabou cancelando em cima da hora, fui para um hostel, onde uma cama (em quarto para quatro pessoas) custava pouco mais de cinco euros.

Chisinau

Chisinau

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Teatrul Nacional

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Museu nacional

Dei uma passada em alguns monumentos, memoriais e museus, perambulei para ver o Holly Gates, o Parlamento, Palácio Presidencial, alem de uma ou outra das construções históricas que sobreviveram ao bombardeio da segunda guerra. Mas com o verão, tava gostoso mesmo de curtir a vida ao ar livre. Mercados de quinquilharias, os parques Central e Gradina, mercado de flores, concerto com a orquestra juvenil na frente da catedral e cafés lotados davam vida para a cidade. Algumas igrejas ortodoxas coloridas muito bonitas contrastavam com os prédios cinza em forma de bloco ao lado. Dentro das igrejas muita devoção,  as mulheres sempre com as cabeças cobertas, pediam a benção ao padre.

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Igrejas lindas

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Igrejas com os blocos de apartamentos ao fundo

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Holly Gates e Catedral

Catedral

Música numa noite de verão cai bem!

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Estatua do Stefan Cel Mare (o mais famoso Príncipe da Moldávia) na entrada do parque Gradina

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Torre da catedral com o palácio do governo ao fundo

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Pinturas no teto do monastério

 

Para os amantes de vinho é indispensável uma visita à adega da Cricova. São mais de 120 km de corredores numa antiga mina de cal, que hoje guarda mais de um milhão de garrafas de vinho. Parece ser a maior do mundo, mas foi sua concorrente, Melestii Mici que consegui provar ao Guiness, ter mais de 2 milhões de garrafas estocadas.

Como não sou muito fã de “maior do mundo”, “mais isto””mais aquilo”, me contentei com jantares gostosos, com meio litro de vinho  e sobremesa que dificilmente passavam dos 5 euros. Existem outros programas que podem ser feitos no esquema bate e volta, como os monastérios  em cavernas Orheiul Vechi, do seculo 13, na beira do rio Raut ou o Tipova , numa região também muito bonita.  Para quem gosta de cultura, pode dar uma esticada até Soroki. Fica beem puxado para ir e voltar no mesmo dia, mas pode ser uma boa pedida para quem está indo para a Ucrânia. Cidade em que a maioria da população é de ciganos, tem uma arquitetura toda peculiar e uma cultura riquíssima. Infelizmente por ficar mais longe não pude ir desta vez, mas tinha outros planos para o interior.

Eu queria conhecer a Gagauzia, região autônoma da Moldávia. Ao contrario da Transnístria (conto da minha viagem para lá em outro post) a região da Gagauzia fez acordos (depois de algumas guerras) com a Moldávia e após conquistar certas autonomias, desistiu de se separar.

Fui em um ônibus velho de Chisinau até Comrat, capital desta região autônoma. No caminho uma paisagem rural, com tratores andando lentamente nas estradas e agricultores e pastores no campo. Plantações de gira sol, infelizmente murchos, completavam o visual. Não tive muita sorte pois começou a chover intensamente. Comrat é uma pequena cidade de interior, de onde se governa toda a região. Me falavam que era um lugar empoeirado, mas com tanta chuva estava era enlameado, isto sim!. Historicamente os Gagauzos eram búlgaros-turcos muçulmanos. Para poder permanecer nestas terras foram obrigados a se converter ao cristianismo. Tem uma cultura toda peculiar, um idioma próprio e até uma universidade onde  tentam preservar os suas tradições/cultura/língua.

Comrat Gaugazia

Comrat Gagauzia

Com a chuva não pude conhecer as vilas ao redor, que eram meu maior foco, mas não posso dizer que não me diverti em Comrat. A iniciar pela comunicação! O gagauzo é impossível de compreender e ninguém falava inglês, sendo muito difícil pedir comida ou até entender os preços. Já tinha imitado galinha, pedido preço mostrando a calculadora quando incrivelmente encontrei um restaurante a quilo! Na verdade o sistema era um pouco diferente, cada porção tinha um valor, mas foi um alivio saber o que iria comer.

Uma das regiões mais pobres de um dos países mais pobres da Europa. Ai que você percebe como não se pode generalizar nada. Quando alguém fala que “na Europa isto, que na Europa aquilo”, não está se referindo à Gagáuzia, com certeza. A cidade de Comrat é tão Europa quanto Londres, a não ser que não se use mais a conotação geográfica.

Me olhavam com curiosidade. Algumas pessoas tentavam interagir, outras chegaram a se irritar quando eu não entendia o que diziam. Deviam se perguntar: o que este maluco estava fazendo aqui?

A catedral de São João (1820), dois ou três museus de história e cultura Gagauzia, Universidade, biblioteca, centro cultural e meia duzia de memoriais me mantiveram ocupados enquanto a chuva não passava. Como o tempo não se firmou, voltei para Chisinau. Se antes eu tinha achado a capital da Moldávia pequena e pacata, agora consegui ver até um pouco de caos próximo da estação de microonibus. Tudo uma questão de referencia.

Universidade

Universidade

Centro Cultural

Centro Cultural

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gaugázia

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gagauzia

Já estava me sentindo em casa em Chisinau. Havia andado a pé por tudo, circulado de ônibus, até repetido cafés e restaurantes. Me orientava como se já estivesse lá a semanas, mas chegava a hora de partir. Fui para o aeroporto com medo de perder minha conexão em Istambul – e perdi. Não por poucos minutos, mais por horas,devido ao atraso do voo. Com isto tive que dormir mais uma noite no aeroporto. Se Chisinau parecia familiar, o aeroporto de Istambul parecia meu quarto, depois de dormir três noites lá em poucas semanas!

 

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Primavera em Praga

Em 1968, uma serie de reformas na antiga Checoslováquia, foi chamada de Primavera de Praga. Os soviéticos não gostaram nada do estilo moderninho do partido comunista local e mandaram milhares de soldados e tanques, esmagando qualquer manifestação, além de ocupar o país. Primavera de 2014, muito tempo se passou, até mesmo da democratização da região, que alias agora se tornaram dois países, Rep. Tcheca e Eslováquia. A unica invasão que agora é possível observar é a de turistas. Milhares, deles por todos os cantos. Dominaram Praga, tomaram conta!! Fácil de entender porque. É uma cidade linda, cheia de atrativos. O Acordo de Munique, firmado entre as potencias europeias da época, entregou a Checoslováquia para os nazistas e por isto Praga foi polpada durante a invasão alemã. É a cidade da moda para os jovens europeus festarem. Terra de cerveja (a região se chama Bohemia), vimos diversos grupos cantando alto ou até fazendo “jogos” de despedida de solteiro no meio da rua.

O castelo visível de toda a cidade

O castelo de Praga, visível de toda a cidade

Primavera EM Praga - Invasão de turistas!

Primavera EM Praga – Invasão de turistas!

 

Telhados

Telhados

Gargulas na Catedral

Gargulas na imponente Catedral gótica de São Vito

No bairro judeu, além da Sinagoga Old-New (uma das mais antigas da Europa), existe um antigo cemitério. Lá se pode observar uma lapide ao lado da outra, todas amontoadas, pois faltava espaço para enterrar os corpos.

Sinagoga Velha-Nova

Sinagoga

Uma das grandes atrações de Praga  é o relógio astronômico. Antes de chegar em Praga, passamos por toda o Morávia (região leste da Rep Checa). Na cidade de Olomouc (famosa pela coluna da Santíssima Trindade) tem um relógio parecido, mas os comunistas  trocaram as figuras religiosas que aparecem nas janelas de hora em hora por camponeses e operários.

Orloj - Relógio astronômico

Orloj – Relógio astronômico

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Uma agradável surpresa foi o Monastério Strahov no alto da colina, com suas bibliotecas de Teologia e Filosofia . São mais de 130 mil livros (muitos deles antiquíssimos), distribuídos em salões com os o tetos todos decorados.

Biblioteca

Mosteiro Strahov: Bibliotecas de Filosofia e Teologia

Cerca de uma hora de Praga está a cidade Kutná Hora (patrimônio da Unesco). Estávamos na dúvida se iriamos até lá, mas valeu bastante a pena! Chegamos antes dos ônibus de excursão e trens, então estava tudo muito calmo. Clima de interior, uma delícia, depois das hordas de turistas na capital. O templo de Santa Barbara, no seu estilo gótico, é tão bonito quanto a catedral de São Vito de Praga! A catedral da Assunção de Nossa Senhora, todo o centro antigo despertando pela manhã eram um charme.

Torres góticas

Torres góticas do templo de Santa Barbara

Vista para Kutna Hora

Vista para Kutna Hora

Uma atração que chama bastante a atenção na região é o Ossário de Sedlec , com 40 mil esqueletos. Dizem que um abade trouxe um pouco de terra santa de Jerusalém e por isto as pessoas preferiam ser enterradas ali. A capela medieval pode não agradar algumas pessoas, com seu estilo de arte um pouco “forte”, mas ela só mostra o mais obvio, a temporalidade da vida! Lustres, cálices, cruzes, tudo feito com ossos.

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A cidade imperial e o campo da morte

Fazia tempo que eu ensaiava uma viagem para a Cracóvia. Em 2004 eu troquei o leste europeu por uma viagem ao sudeste asiático. Em 2012, depois do casamento da minha irmã na Inglaterra, queria ir para Ucrânia e Polônia, mas no mesmo período aconteceria a Eurocopa nestes países, então optei por um voo barato para o Marrocos e Saara Ocidental.

Finalmente pude conhecer esta incrível cidade, capital imperial da Polônia no passado, patrimônio da Unesco. Cidade invadida pelos Mongóis (Sim o maior império do mundo chegou até a Europa), Nazistas e Soviéticos. Felizmente não foi destruída na segunda guerra e continua muito bem preservada.

Torre do palácio real

Torre do Castelo de Wawel

Igreja

Igreja de Santa Maria, com suas torres diferentes

Cidade universitária, cheia de jovens

Cidade universitária, cheia de jovens

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Catedral

Catedral

Colorida

Colorida

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Sukiennice, na praça central em Stare Miaste (Cidade Velha)

Comida de rua na Rynek Glowny, uma das maiores praças medievais do mundo - Coração da cidade velha

Comida de rua na Rynek Glowny, uma das maiores praças medievais do mundo – Coração da cidade velha

Torre do relogio

Torre do relógio

Ao sul do castelo, fica o Kazimierz antigo bairro judeu, onde ainda existem algumas Sinagogas dentre outros prédios históricos. Lugar mais calmo, com menos turistas, onde vale a pena dar uma caminhada com calma. Milhares de judeus saíram daqui para o campo de extermínio de Auschwitz. Novamente é bom lembrar o  porquê do leste europeu ter uma população tão grande de judeus. Simplesmente porque foram expulsos de diversos reinos da Europa Oriental! Se hoje o anti semitismo não é tão grande na Europa Ocidental, a xenofobia só vem aumentando. Fácil de se observar isto nas ultimas eleições do parlamento Europeu, onde a extrema direita só vem ganhando espaço.

Hitler disse “Quem fala hoje do extermínio dos Armênios?”. E os erros vão se repetindo ao longo da história. Já visitei diversos locais de guerra,  campos de extermínio, de ataques de armas químicas, como em Halabja no Curdistão iraquiano, locais do genocídio em Ruanda e até mesmo o campo de concentração de Dachau, próximo a Munique-Alemanha. Também já estive em memoriais do Holocausto. O que mais me assusta é a forma sistemática e planejada que tudo aconteceu na segunda guerra.

A morte de negros, homossexuais e Ciganos  não é tão lembrada como deveria, mas também fazia parte do plano de extermínio dos nazistas. Os ciganos continuam sofrendo preconceito e sendo colocados a margem da sociedade europeia até hoje.

Fomos visitar o campo de Auschwitz-Birkenau em Oswiecim, onde aconteceram alguns dos maiores massacres da segunda guerra. Para a Bibi, a visita tinha um significado especial, pois foi onde o Victor Frankl, objeto de estudo dela, comprovou sua teoria de “Busca de sentido”. Aquele clima pesado, onde não entendo pessoas ficarem posando para foto, mas cada um com suas manias. Achei que a longa visita guiada traria informações novas, mas neste sentido não foi tão interessante. Pelo menos para mim, vale mais a reflexão em si.

O trabalho

“O trabalho liberta”

Auchewitz

Auschwitz

 

Ofuscada por gigantes

Com o fim e separação da Tchecoslováquia, através do chamado “Divórcio de Veludo” (1993), a Eslováquia ficou meio esquecida. Sua capital, Bratislava, de certa maneira é ofuscada por Viena-Áustria, que está a somente 65 km de distância. Outras importantes e imponentes cidades também não ficam longe, como Budapeste (Hungria), Praga (Rep Tcheca) e Cracóvia (Polônia).

Em viagens anteriores não tinha ido para lá, mesmo tendo passado tão perto. Desta vez não deixei a oportunidade passar! Eu vinha de carro com meu cunhado, Jony, desde o norte da Eslovênia. Após uma estrada interrompida Eslovênia-Áustria, fizemos um desvio pelo estremo nordeste da Itália, atravessamos toda a Áustria até chegar em Viena, onde encontramos com a Bibi e minha sogra, Mara, que tinham passado a última semana em um congresso de fenomenologia por lá. De Viena seguimos até a Bratislava, onde nos hospedamos num hotel naqueles antigos blocos soviéticos, só que todo colorido.

Caminhando por lugares não muito bonitos, mesmo na beira do rio Danúbio, a Bibi me questionou por quê tínhamos ido para lá. Tudo bem, a Bratislava não é daqueles lugares imperdíveis, mas foi só nós chegarmos no centro velho que ela mudou rapidinho de opinião. Um centro movimentado, bonito, com um grande calçadão, cheio de cafés e restaurantes. Prédios históricos (chegou a ser a capital do império Húngaro, quando Budapeste foi invadida pelos otomanos) se misturam com um estilo mais industrial, além de construções mais bizarras da época do comunismo. Tudo isto junto dá um estilo para o lugar. Para quem está pela região, com certeza vale conhecer!

Cafes

Cafes na praça principal

Castelo

Castelo Bratislava

Ponte Suspensa

Ponte suspensa como o “OVNI”Comunista

Cinza

Cinza

Bratislava

Centro antigo

Igrejas e viadulos

Igreja e viaduto

Gostaria de ter explorado mais o interior da Eslováquia, a região leste, mais rural, as montanhas (Montes Tatras) e pequenas vilas devem ser bem interessante. Mas infelizmente não tínhamos tempo, era uma viagem curta. De qualquer forma deu para aproveitar um pouco o caminho até a Polônia e quando era possível, saíamos da estrada principal cara conhecer um lugar ou outro.

Castelo em Trancin

Castelo em Trencin, pouco mais de 100 km ao norte da Bratislava

 

 

Republica Shqiperia e um novo pais!

Alguem gosta de ler Brazil com “Z”? Que tal Brasile, Bresil ou Brasilien? Todo mundo quer o Brasil assim como chamamos no nosso pais! Por isto o titulo: Republica Shqiperia, a forma como os Albanese chamam o seu pais! A lingua albanesa vem dos ilirios (assim como o proprio povo) uma das grandes potencias europeias do passado. E um povo muito orgulhoso (nao tanto quanto os macedonios, que chegam a “niveis argentinos”) e citam facilmente nomes dos albaneses que foram Papas, lideres Otomanos e pessoas importantes na politica mundial atual. Foi um pais fechado, muito fechado, um comunismo fortissimo, que chegou a romper com a Iuguslavia, URSS e China por achar que eles estavam pegando leve. Durante muito tempo foi o pais mais pobre da Europa, e todo o isolamento parece ainda nao ter acabado. Dizem que 9 entre 10 mafiosos do mundo sao albaneses, inclusive na Italia!

Mesmo com a pouca frequencia e falta de transporte da Macedonia para a Albania, nossa viagem foi super tranquila. O candidato a Dervishe (Hussem), veio com um motorista nos buscar em Ohrid, e nos levou ate a fronteira, onde o Baba estava nos esperando. Toda historia comecou quando ainda estavamos em Tetova, e falamos que iriamos para a Albania. O Baba não gostou quando falamos que iriamos sozinhos e de onibus. Preocupacao tipo de pai. Ele afirmava que um pais que não teve religiao por tanto tempo não tinha coracao, e de nada adiantou narrarmos diversas das nossas aventuras em outros paises. Para ele, que viveu a repressao, a questao da Albania e incomparevel. Como ele vai todas as semanas para la, para cuidar dos monasterios, dar consenhos, fazer vizitas e trabalhar, se ofereceu para nos mostrar o pais. Claro que aceitamos, pois teriamos uma outra perspectiva. Ainda perto da fronteira, proximo ao lago Ohrid, mas do lado albanes, paramos na primeira Tekke, e o Baba se mostrou muito abil com as plantas arquitetonicas da reforma e comandando o pessoal. Depois de outras paradas, chegamos a Korca, uma cidade um pouco maior da regiao, onde nos hospedariamos. La nos despedimos deles, pois tinham que ir a outros Tekkes alem de encontrar com mais pessoas. Ficamos com um motorista a nossa disposicao, alem de estarmos num dos melhores hoteis da cidade. Insisti em pagar, mas nao deixaram. Na verdade eles tambem nao estavam pagando, eram trocas de favores, e como existem muitos bektaishis na Albania, vimos que nao teriamos muito o que nos preocupar. Ainda fomos ate Voskopoja, vila que ja foi uma importante cidade dos Balcas, onde existem duas duzias de igrejas, monasterios, alem de casas de pedra e um clima que nada nos lembrava a Europa, pelo menos nao a dos dias de hoje.

Auto estrada europeia!!

A europa nao e so Paris...

Este clima nao mudou nos primeiros dias de viagem. Seguimos por uma pequena estrada, sem acostamento, passando pelo meio de altas e impressionantes montanhas, com campos, pastores e regioes extremamente rurais. Pequenas vilas, e uma ou outra cidade, como Erseka e Permeti, que mesmo assim nao tinham nem meia duzia de ruas paralelas. O que nao faltavam eram os antigos blocos de apartamentos comunistas e estatuas de altos e fortes soldados, mostrando que a “propaganda” nao era fraca. Ao lado da estrada centanas de “bunkers iglus” estavam colocados em posicao estrategicas. Em todo o pais chegou a ter 700.000 bunkers destes, sendo que a populacao da Albania chega somente a tres milhoes de pessoas. Feitos de concreto pesado, teriam sido bem mais uteis se utilizados para a infraestrutura do pais, mas hoje estao abandonados parecendo mais como OVNIS. No mapa a viagem parecia que seria curta, mas devido a tantas montanhas, eram muitas curvas e sobe e desce, portanto foi bem demorado. Mas adoramos, um super visual!! Dormimos em Girocastra, antiga cidade (da Unesco), com suas casa de telhado de pedra e arquitetura tipica, alem de um grande forte no topo de uma montanha. Tinha um guia nos esperando (bektaishi e claro) e nada de pagar entradas nem hotel! Tiramos varias duvidas, aprendemos sobre a regiao e visitamos a casa onde morou o Hoxha, ditador da Albania por mais de 40 anos. Pegamos uma praia em Saranda, lugar que poderia estar na Grecia, e na verdade quase esta. Enseada em forma de ferradura, mar adriatico, bem astral, quase na frente da ilha grega de Corfu. Ficamos algumas horas ali, e ainda fomos mais para o sul, no Parque nacional de Butrini, que tambem e da Unesco. La existem restos de cidades que um dia foram dos Ilirios, Romanos, Gregos, Otomanos e por ai vai. Tinha mais turista de cruzeiros de navios do que pedra sobre pedra dos sitios arqueologicos. Iniciamos nossa subida rumo a Vlora, por um litoral todo recortado, cheio de curvas e uma super subida numa montanha que tinha uma otima vista. Viagem gostosa, do lado voltado para o mar era quase so pedras e bunkers e do outro tinham florestas de pinus cobrindo de verde todas as montanhas.

Bunkers por todos os lados!

Girocastra

Mar Adriatico

Vlora nao nos seduziu. Cidade praiana movimentada, feiona, onde foi proclamada a independencia do pais em 1912. Incrivel a quantidade de bandeiras dos EUA em todo o pais. Sao os grandes aliados da Albania, desde a independencia, e depois do comunismo, e claro. Outra mania nacional sao as casas de apostas. Sao como casinos, mas basicamente para jogos esportivos. Tem em tudo que e canto! A proxima parada foi em outra cidade da Unesco, Berati. Provavelmente um dos lugares que mais gostamos da Albania (tirando a parte da natureza). Cidade antiquissima, com diversos bairros, arquitetura, igrejas e mesquitas por todos os lados. Mais uma fortaleza na montanha (viraram piada, pois quase toda cidade tem!), mas esta tem dentro um bairro onde as pessoas ainda moram nos casaroes antigos. Comemos um carneiro com iugurte ao forno sensacional. Na praca principal, uma igreja de um lado e uma mesquita do outro. As religioes parecem se darem bem aqui, e ate se dao, mas o problema e que nao tem forca nenhuma. Com tantos anos de proibicao, hoje poucos sao religiosos.

Berati

50 anos sem direito a propriedade! Agora 7 a cada 10 carros sao Mercedes!!

Dentre suas andancas pelos monasterios da Macedonia, Kosovo e Albania, encontramos com o Baba novamente e fomos juntos ate o Monte Tomori, local sagrado para os Bektaishis. Mais um monasterio esta em reforma la, e a 2500 metros e o mais alto do pais. No topo da montanha tem uma “capela” para um dos Imans muculmanos. Na mesma caminhonete que estavamos, foi uma ovelha amarrada, que logo descobrimos que seria oferecida para sacrificio. Ela foi degolada, e depois do sangue escorrer, um pouco foi passado nas nossas testas, seguido de oracoes. A carne nao e desperdicada, e cada parte e doada a um grupo da sociedade. A carne de ovelha estava saborosa, mas pareceu estrana depois de ter presenciado o sacrificio da “prima” dela…

Sacrificio

Com o Baba

Vista do Monte Tabor

Demos uma esticada ate Tirana, com paradas em Durresi e outros lugares para o Baba se encontrar e orienter pessoas. Desde doentes ate pessoas que necessitavam de conselhos espirituais. Nao preciso nem falar que todo o tempo de viagem que tinhamos com ele aproveitamos bastante para conversar sobre o assunto. Tirana tem uma mistura interessante, com predios de colonia Italiana ao lado dos monstros comunistas. La nos despedims do Baba que nao parou, eram quase meia noite quando nos deixou num hotel e seguiu viagem por mais algumas horas ate seu proximo destino. Fomos ate Kruja, outra cidade antiga, com forte, e que uma familia estava nos esperando para mostrar a regiao e onde tivemos um super almoco. Acabamos ate recebendo um convite para o casamento antes de irmos embora. Aprendemos um pouco mais sobre o Skanderbeg, heroi Albanes, que depois mais de 20 anos como soldado escravo dos otomanos se rebelou e desertou, para voltar e proteger seu pais. Mais algumas cidades e fortes, mas so de passagem. Mesmo em Shkodra, que parecia interessante, acabamos nao explorando muito. O final de tarde se aproximava, e a estrada ate a fronteira com Montenegro era demorada e esburacada. Nos despedimos do simpatico motorista (cristao ortodoxo) que nos acompanhou, e deixamos uns presentinhos para todos. Inicialmente era para termos so passado pela Albania, mas acabamos estendendo nossa estada.

A Tirana italiana...

e a Tirana Comunista

Predio velho, pintura nova!

Propganda

Montenegro e um dos paises mais novos. Ate pouco tempo fazia parte da Servia-Montenegro, que nada mais era que a Iuguslavia, depois de ter perdido Eslovenia, Croacia, Bosnia e Macedonia. Sabiamos que era um pequeno pais, com magnificas paisagens naturais, mas nos surpreendemos com a sua rapida caminhada para a Uniao Europeia.

Mesmo sendo uma fronteira da Europa, e ate que desafiadora. Nada de transporte publico, e uma estradinha vagabunda. O oficial da imigracao de Montenegro estava com dor de barriga ou bravo por causa da profissao de sua mae, e nao foi nem um pouco simpatico. A noite ja chegava, e nao tivemos outra opcao a nao ser esticar o dedao e pedir carona. Vantagem que com a parada para mostrar passaportes, ja tinhamos selecionado alguns carros, e tentato conversar com alguns deles.

Um cara muito simpatico iria ate 10 km antes de Podgorica, capital e nosso destino. Ao chegar em sua cidade, acho que se comoveu, e sabia que nao teria onibus no dia, e nos levou ate Podgorica. Ate iamos ficar la, mas quando vimos a qualidade do quarto que estavam nos oferecendo por um preco nem tao amigo assim, resolvemos emendar a viagem ate a Baia de Kotor, onde teriamos um descanso merecido. Chegamos em Kotor ja era quase uma da manha, e para agravar, e epoca de carnaval la. O pessoal na rua, festando, e nos com as mochilas, procurando algum lugar para dormir. Sabiamos que nao achariamos o melhor lugar, entao caminhamos para dentro da cidade velha murada, andamos pelos corredores estreitos e pegamos a primeira opcao que nao estava lotada, para procurar um lugar com calma no outro dia.

Ficamos novos depois de uma longa noite de sono. Nem parecia que estavamos tao perto do “carnaval” deles. Saimos a procura de uma casa, e conseguimos mais um “achado” daqueles. Como temos sorte com isto. Uma casa bem perto da cidade velha, mas num lugar super calmo. Um jardim com arvores frutiferas, e uma varanda coberta com um “parreiral de kiwi”, onde tomavamos cafe da manha todos os dias. Descobrimos uma pequena praia, e nossa rotina foi praia-casa-praia, durante uns dias, esquecendo que estavamos perto da cidade antiga. A bahia de Kotor e cercada por altas montanhas, dando todo um contorno diferente. Inacreditavelmente navios de cruzeiros chegam ate ali, e o movimento era grande por isto.

Tudo aqui ja foi parte dos venezianos, portanto o carnaval deles e mais original que o nosso.

Um final de tarde, depois de andarmos pela cidade, resolvi enfrentar a caminhada ate o topo de uma montanha, acampanhando as muralhas da cidade, onde existe um antigo forte. E uma boa caminhada, mas a vista vai melhorando a medida que se sobe, o que e um otimo incentivo. La de cima e que se tem ideia da dimensao dos fiords, e a (maravilhosa!) vista fica completa. Fiquei la ate quase o anoitecer, e na descida as badaladas dos sinos das igrejas davam o clima para o lugar. Em outro dia subi novamente, mas desta vez com a Bibi. Andamos mais pela cidade velha, que e muito pequena, entao acabavamos dando voltas e voltas pelos mesmos lugares. Para acalmar o calor, so na base de sorvete e cerveja.

Kotor Bay

A algum tempo atras tivemos que marcar nossa passagem de volta. Como vamos utilizar milhagem, nao tivemos muita opcao, entao nos restou antecipar um pouco a volta. Com isto Kosovo e Servia estavam descartados, pois mesmo que fosse rapido tirar o visto, perderiamos um tempo precioso de final de viagem. Queriamos ir para o parque nacional de Durmitor, no norte de Montenegro, mas ao descobrir que tinha um onibus direto para Sarajevo de Kotor, achamos melhor ir para a Bosnia-Herzegovina e deixar o norte do pais para a proxima viagem para a regiao, junto com o que faltou dos Balcas. Apesar de na placa da rodoviaria mostrar dois horarios, so queriam me vender para o primeiro deles, nao adiantou insistir. Era complicado, pois chegariamos no meio da madrugada, mas nao tivemos o que fazer. Depois de aproveitarmos nosso ultimo dia, fomos para a rodoviaria, e nos surpreendemos ao saber que nosso onibus estava lotado! Tiraram nossas mochilas do bagageiro e foram embora nos deixando com os bilhetes na mao. Simples assim! Uns noruegueses falaram que o mesmo aconteceu com eles dias antes. Achamos que teriamos que esperar o outro dia, quando o pessoal achou uma solucao depois de alguns telefonemas. Nos colocaram no onibus mais tarde, aquele que eu nao quiseram me vender a passagem. De quebra me devolveram um pouco do dinheiro, pois era mais barato!! Que beleza!