A Europa pouco visitada

Quando se pensa em uma viagem para a Europa, poucos brasileiros lembram da Moldávia como destino. Uma região que ainda não foi descoberta pelos nossos conterrâneos. Junto com a Bielorrússia, é um dos últimos dois países europeus que ainda exigem visto para brasileiros (se contar Cáucasos como Europa aina tem outros dois). Esmagada entre a Romênia e a Ucrânia, acaba tendo influencia dos dois. Era o limite de Império Romano, que chegava até o rio Dniestre, trocou de mãos diversas vezes, nas guerras entre os Otomanos e Russos, até fazer parte da União Soviética.  A população fala tanto o russo como o Romeno, língua latina que acaba tendo palavras próximas ao português. Na capital Chisinau, é possível observar diversas bandeiras da União Européia, mas ainda parece ser um sonho bem distante, pois é um dos países mais pobres de toda a Europa. As influencias russas e heranças soviéticas também são fáceis de se observar, caminhando por esta agradável e pacata capital.

Um microonibus do aeroporto até o centro, cerca de meia hora, custa menos de 50 centavos de Real! É o Leste Europeu do imaginário, como já foram destinos que hoje são invadidos pelo turismo em massa. Avenidas largas, arborizadas, construções históricas e grandes parques formam o visual da cidade.  Não é o tipo de destino que você vai ter uma lista de atrações imperdíveis para ver, mas não deixa de ser uma cidade bem gostosa e barata para curtir o dia a dia. Como meu anfitrião do couchsurfing acabou cancelando em cima da hora, fui para um hostel, onde uma cama (em quarto para quatro pessoas) custava pouco mais de cinco euros.

Chisinau

Chisinau

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Teatrul Nacional

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Museu nacional

Dei uma passada em alguns monumentos, memoriais e museus, perambulei para ver o Holly Gates, o Parlamento, Palácio Presidencial, alem de uma ou outra das construções históricas que sobreviveram ao bombardeio da segunda guerra. Mas com o verão, tava gostoso mesmo de curtir a vida ao ar livre. Mercados de quinquilharias, os parques Central e Gradina, mercado de flores, concerto com a orquestra juvenil na frente da catedral e cafés lotados davam vida para a cidade. Algumas igrejas ortodoxas coloridas muito bonitas contrastavam com os prédios cinza em forma de bloco ao lado. Dentro das igrejas muita devoção,  as mulheres sempre com as cabeças cobertas, pediam a benção ao padre.

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Igrejas lindas

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Igrejas com os blocos de apartamentos ao fundo

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Holly Gates e Catedral

Catedral

Música numa noite de verão cai bem!

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Estatua do Stefan Cel Mare (o mais famoso Príncipe da Moldávia) na entrada do parque Gradina

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Torre da catedral com o palácio do governo ao fundo

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Pinturas no teto do monastério

 

Para os amantes de vinho é indispensável uma visita à adega da Cricova. São mais de 120 km de corredores numa antiga mina de cal, que hoje guarda mais de um milhão de garrafas de vinho. Parece ser a maior do mundo, mas foi sua concorrente, Melestii Mici que consegui provar ao Guiness, ter mais de 2 milhões de garrafas estocadas.

Como não sou muito fã de “maior do mundo”, “mais isto””mais aquilo”, me contentei com jantares gostosos, com meio litro de vinho  e sobremesa que dificilmente passavam dos 5 euros. Existem outros programas que podem ser feitos no esquema bate e volta, como os monastérios  em cavernas Orheiul Vechi, do seculo 13, na beira do rio Raut ou o Tipova , numa região também muito bonita.  Para quem gosta de cultura, pode dar uma esticada até Soroki. Fica beem puxado para ir e voltar no mesmo dia, mas pode ser uma boa pedida para quem está indo para a Ucrânia. Cidade em que a maioria da população é de ciganos, tem uma arquitetura toda peculiar e uma cultura riquíssima. Infelizmente por ficar mais longe não pude ir desta vez, mas tinha outros planos para o interior.

Eu queria conhecer a Gagauzia, região autônoma da Moldávia. Ao contrario da Transnístria (conto da minha viagem para lá em outro post) a região da Gagauzia fez acordos (depois de algumas guerras) com a Moldávia e após conquistar certas autonomias, desistiu de se separar.

Fui em um ônibus velho de Chisinau até Comrat, capital desta região autônoma. No caminho uma paisagem rural, com tratores andando lentamente nas estradas e agricultores e pastores no campo. Plantações de gira sol, infelizmente murchos, completavam o visual. Não tive muita sorte pois começou a chover intensamente. Comrat é uma pequena cidade de interior, de onde se governa toda a região. Me falavam que era um lugar empoeirado, mas com tanta chuva estava era enlameado, isto sim!. Historicamente os Gagauzos eram búlgaros-turcos muçulmanos. Para poder permanecer nestas terras foram obrigados a se converter ao cristianismo. Tem uma cultura toda peculiar, um idioma próprio e até uma universidade onde  tentam preservar os suas tradições/cultura/língua.

Comrat Gaugazia

Comrat Gagauzia

Com a chuva não pude conhecer as vilas ao redor, que eram meu maior foco, mas não posso dizer que não me diverti em Comrat. A iniciar pela comunicação! O gagauzo é impossível de compreender e ninguém falava inglês, sendo muito difícil pedir comida ou até entender os preços. Já tinha imitado galinha, pedido preço mostrando a calculadora quando incrivelmente encontrei um restaurante a quilo! Na verdade o sistema era um pouco diferente, cada porção tinha um valor, mas foi um alivio saber o que iria comer.

Uma das regiões mais pobres de um dos países mais pobres da Europa. Ai que você percebe como não se pode generalizar nada. Quando alguém fala que “na Europa isto, que na Europa aquilo”, não está se referindo à Gagáuzia, com certeza. A cidade de Comrat é tão Europa quanto Londres, a não ser que não se use mais a conotação geográfica.

Me olhavam com curiosidade. Algumas pessoas tentavam interagir, outras chegaram a se irritar quando eu não entendia o que diziam. Deviam se perguntar: o que este maluco estava fazendo aqui?

A catedral de São João (1820), dois ou três museus de história e cultura Gagauzia, Universidade, biblioteca, centro cultural e meia duzia de memoriais me mantiveram ocupados enquanto a chuva não passava. Como o tempo não se firmou, voltei para Chisinau. Se antes eu tinha achado a capital da Moldávia pequena e pacata, agora consegui ver até um pouco de caos próximo da estação de microonibus. Tudo uma questão de referencia.

Universidade

Universidade

Centro Cultural

Centro Cultural

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gaugázia

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gagauzia

Já estava me sentindo em casa em Chisinau. Havia andado a pé por tudo, circulado de ônibus, até repetido cafés e restaurantes. Me orientava como se já estivesse lá a semanas, mas chegava a hora de partir. Fui para o aeroporto com medo de perder minha conexão em Istambul – e perdi. Não por poucos minutos, mais por horas,devido ao atraso do voo. Com isto tive que dormir mais uma noite no aeroporto. Se Chisinau parecia familiar, o aeroporto de Istambul parecia meu quarto, depois de dormir três noites lá em poucas semanas!

 

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Curdistão!

Mapa Curdistao

Quando estava na Síria e Líbano, escrevi um pouco sobre o Curdistão ( Blog). Um povo com uma cultura e língua própria, toda uma tradição e acabou sendo dividido por fronteiras politicas (sendo que na época da Pérsia, eram uma província autônoma). Hoje é a maior população de uma etnia sem Estado do mundo (40 milhoes). Na Turquia, foram proibidos de utilizar sua língua  tradições  nem mesmo comemorar seu ano novo (Nowruz, na chegada da primavera). Desde a independência os turcos tentavam formar um sentimento de unidade no pais, e para isto queriam acabar com identidades de minorias, como os Curdos. Falavam que os curdos não existiam, eram apenas turcos camponeses, turcos das montanhas…

A fim de recuperar sua identidade, nos anos 80 iniciou uma guerrilha, um braco armado do PKK (partido dos trabalhadores Curdos). Muitas mortes e atentados depois, e o líder do PKK foi preso em 1999. O exercito turco reprimiu fortemente a revolta, e a situação virou uma guerra civil, com quase 50.000 mortos.  A resistência ainda acontece, mas tem se enfraquecido com as novas atitudes do governo Turco, que autorizou o ensino de curdo, celebrações de folclore e ate uma televisão Curda. Hoje e uma região tranquila para se viajar, e decidimos conferir.

Com todos os vistos no passaporte (pelo menos os que eram possível pegar no momento), agora poderíamos partir. Pegamos o ferry para o lado asiático de Istambul, deixamos as mochilas no locker da bonita ferroviária  e fomos dar uma caminhada de despedida. Compramos umas comidinhas, mas sem se preocupar muito, pois tínhamos visto na internet que nosso trem tinha um ótimo vagão restaurante. Já acomodados na cabine de primeira classe, 15 minutos antes do trem sair, recebemos a noticia que não teria vagai restaurante nesta viagem. Deu tempo de correr para comprar pão, umas bolachas, água e refrigerante.

Esperando o trem

A cabine era super boa, pia, frigobar, tomadas e camas largas. Ideal para um trajeto longo. A viagem era para ser de 30 horas, mas acabou sendo de 36. E olha que passou rápido  Nos dividíamos entre bater papo, leitura e olhar para fora da janela. Passamos por paisagens lindas, vales, montanhas completamente nevadas, outras que pareciam pintadas com suas manchas brancas de neve  ( muitas vezes abaixo de onde estávamos , vilas com casas e muros de pedra, pastagens (com ovelhas e seus devidos pastores). Pra não dizer que não faltou nada, senti falta de um pouco de interação  Este é o maior problema de uma cabine de primeira classe. Como o trem ia passar perto da região da Capadócia  tinham outros viajantes ate a primeira manha da viagem, mas depois nada. Nas paradas descia para comprar alguma comida, e já quase de manha, nos avisaram que estávamos chegando em Diyabarkir.

Neve!

Vilas

Trem

Diyabarkir e a capital do Curdistão turco, cidade com muita historia antiga (Asirios, Romanos…), e também recente, pois foi o centro da resistência do PKK. Como já era quase de manha, resolvemos arriscar de ir ao nosso couchsurfer (que nos esperava desde a 1hr), mas ninguém atendeu a porta. Nem insistimos muito, e o taxista nos levou ate a região dos hotéis  sem nos cobrar mais por isto. Ficamos dentro da cidade velha, com seu gigantesco muro e ruas estreitas, bem cara de oriente médio  mas com um estilo próprio  Ate as mesquitas já tem uma aparência mais árabe e não turca. O muro escuro da cidade, tem diversos portões e muitas torres, sendo que é possível subir na maioria delas. As do norte tem vista para a cidade e parque que acompanha a cidade velha, e as do sul para o planalto da mesopotâmia, com o rio Tigre a apenas 3 km.

Cidade murada

Rio Tigre

A bonita mesquita (ex-igreja) Ulu Cami e suas Madrasas estavam em reforma parcial, mas a região ao redor, logo em frente ao mercado do ouro estava bem movimentada. Muitos curdos tomando cha, com suas calcas saruel. Pelo jeito tao dando uma geral na cidade, que também possui muitas igrejas. A mais bonita delas, igreja siria Keldani Kilisesi, também tava em reforma. Existem também alguns museus que mostram as casas tradicionais da região, mas nos tivemos outra experiencia com casa tradicional.

Reuniao para o cha

Uma garota de 12 anos e suas amigas puxaram papo com a Bibi (são muito curiosos e simpáticos por aqui). Logo surgiu o convite para irmos conhecer a casa delas, família e por ai vai. Seguimos pelos labirintos da cidade velha, por ruas cada vez mais estreitas. As pixações de PKK estavam presentes por todo o lado. Chegamos na casa de uma delas e logo a família já foi se apresentando, tudo em curdo, pois só a filha e um irmão falavam um pouco de inglês  Ficamos sabendo que a menina de 12 anos e professora de curdo a 4 anos, pois sua família sempre preservou a tradição  enquanto muitas de suas amigas não sabem falar nem a língua do seu povo. Na casa tem uma sala de aula, onde alem da língua  parte da cultura e historia também são passadas. Tomamos chá  comemos pão caseiro e queijo tipico, tudo sentado no chão  rodeados pelos familiares. Ligaram a TV curda Roj, que hoje é legalizada. Falaram bastante da guerrilha, do filho morto pelo exercito turco, dos 3 anos de cadeia por sua filha ensinar a língua curda e por ai vai. O convite para dormirmos na casa deles não demorou muito também. A Bibi ganhou presentes e nos divertimos muito.

Intercambio

Existem muitos lugares interessantes na região  Mardim não fica muito longe dali, uns cento e poucos km ao sul. E uma cidade no topo de uma montanha, com só uma grande rocha acima dela, e uma grande vista para a Síria e Iraque, que estão logo ali do lado. Mais igrejas, algumas dos cristãos nestorianos. Nos viramos muito bem com os ônibus  mesmo sem falar curdo, e logo estávamos a caminho de Cizre.