República da Transnístria!

Lenin

Lenin

Com o colapso da União soviética, a Transnístria proclamou independência da então República Socialista Soviética da Moldávia (para um maior entendimento da região, ler sobre a Bessarábia também). A própria Moldávia, apesar de ter autonomia sobre a região, só conseguiu independência da URSS mais tarde. Foi quando se estabilizou como republica e aderiu às Nações Unidas que tentou reanexar a Transnístria. Uma guerra que se estendeu por mais alguns anos. A Transnístria, de maior parte da população eslava e língua russa, não se identificava tanto com os romenos da Moldávia. Com o apoio da Rússia, venceram a guerra e conseguiram se manter De facto independentes, apesar de não ter o reconhecimento internacional de nenhum país membro da ONU.

Não lembro ao certo quando escutei a primeira vez sobre esta república, só sei que passei a sonhar com um país congelado no tempo, um pedacinho da União Soviética que tinha sobrevivido. Depois de tanto viajar este era um destino que dava o famoso frio na barriga, muitas duvidas e poucas informações sobre o lugar.

No hostel em Chisinau-Moldávia me perguntaram se eu tinha certeza que iria para lá sozinho. Um conhecido, de um clube de viagens, alertou para eu ter cuidado com os guardas na Transnístria, famosos pela corrupção. Costumo ser um pouco cético quanto aos comentários das pessoas que nunca foram para um lugar, mas tem fortes opiniões sobre o destino. Confesso que me preparei psicologicamente para o pior, deixei até um dinheiro separado em um bolso para uma ultima tentativa de liberdade caso fosse necessário.

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Brasão da Transnístria

 

Existem microonibus saindo com bastante frequência de Chisinau para Tiraspol, capital da Transnístria. A viagem é rápida e me surpreendi quando o controle de imigração foi antes do rio. Teoricamente Transnístria significa “Depois do (Rio) Dnester”, mas parece que o exército deles teve sucesso em conquistar lugares estratégicos. Um grande brasão com a foice e o martelo mostravam a entrada deste país que não existe. Na imigração, o oficial tentava me explicar em russo, que eu teria que me registrar caso ficasse mais que dez horas lá. Peguei o documento e respondi um “Sem problemas!” em português mesmo, pois percebi que ele não entendia nada de inglês. Soldados na beira da estrada e tanques camuflados protegiam a ponte que dava acesso para Tiraspol. Uma larga avenida passava por prédios alinhados, diversas propagandas em outdoors e bandeiras nas cores da Transnístria e da Rússia. Alguns monumentos e parques depois e começamos nos afastar da cidade novamente, até chegar no ponto final, em frente da velha estação de trem.

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Cartão da imigração – Valido por 10 horas sem registro

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Propaganda da independência

Estação de trem

Estação de trem

 

Logo fui em um guichê para trocar dinheiro, lá só aceitam o Rubro da Transnístria. Peguei o pequeno mapa, tentando não mostrar para ninguém, me localizei mais ou menos e parti para a caminhada. As ruas estavam desertas e uma vez ou outra passava um ônibus caindo aos pedaços. Entrei em um parque para fotografar uma igreja e ficava olhando para os lados com medo que alguém visse. Mesmo sem querer, acabei pegando a “neura” de pessoas que nunca tinham ido para lá.  Tentei me controlar, mas veio a lembrança um artigo sensacionalista que havia lido, que falava sobre a economia local ser basicamente contrabando de armas e trafico de mulheres. Duas quadras para frente, paro antes de atravessar a rua e vejo um Porsche vindo na outra direção. Me aproximando do centro noto que a quantidade de Mercedes é maior que dos antigos Lada. A cidade fica mais movimentada, não chega a ser viva, mas tem um dia a dia mais intenso. Ok, pode ter mafia-russa, afinal até uma base do exercito russo tem lá, mas com certeza as histórias da região são bastante aumentadas, e algumas viram “lendas-urbanas”. Passo por ruas com nome “Karl Marxa”, “25 de Outubro”e “Lenina”. Estatuas do Lenin também não são difíceis de serem observadas. Existe um grande culto ao passado, mas o presente não aponta nada para o comunismo.

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Banco

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Igreja ortodoxa

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Parque Kirov

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Ônibus velhos contrastando com Mercedes e Porche

Mal tinha iniciado meu tour pela região e me deparo com uma agencia dos correios. Não tive duvidas e entrei para ver se tinha algum cartão postal ou coisa do tipo. Na pior das hipóteses seria divertido explicar o que queria. E foi! Peguei fila e quando chegou a minha vez a senhora me olhou com cara de impaciente por não me entender – e eu não entender ela. Uma outra senhora sentada em uma mesa veio na minha direção e me atendeu em outro local. Conseguiu uns cartões postais e me ajudou a preencher, de forma que eles entendessem. Enviei dois cartões postais, que não tinha certeza se chegariam. Lembrei que nunca recebi os cartões que mandei do Iraque e do Turcomenistão, mas não custava tentar.

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Cartões postais no correio da Transnístria

Poucas quadras dali tinha um pequeno museu que contava a história dos conflitos da Transnístria. Poderia ser um ótimo lugar para entender a história, mas todos os documentos estavam em russo, a simpática senhora que atendia ficava me acompanhando, apontava para um lado e para outro, mas a comunicação era zero. No final rimos muito, ela me abraçou e meu deu um tapinha nas costas me mostrando o caminho da saída.

Logo me deparei com a primeira loja, depois a fábrica da Kvint, antiga produtora (1897) de destilados, orgulho nacional, presente até numa nota do Rublo da Transnístria! Mais ou menos como se a Caninha 51 fosse estampada em uma nota de Real! Estranho para nós, mas não para um país onde o primeiro presidente  (governou por 10 anos) se chamava Igor Smirnov! Brincadeiras a parte, nenhuma relação com a Smirnoff.

 

Os produtos Kvint também podem ser encontrados nos supermercados Sheriff. A estrela, simbolo do “Sheriff” é facilmente visualizada. Só não se confunda, Sheriff também é marca de posto de gasolina, de hotel e até de clube de futebol!! Por mais que criem muitas histórias sobre o lugar, da para entender da onde tiraram a “ideia” que uma mafia controla tudo em Tiraspol. O clube de futebol Sheriff tem uma arena super moderna, alem de um centro esportivo bem completo, definitivamente “padrão Fifa”.

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Estadio do Sheriff

Avenidas largas e arborizadas , muita propaganda nacional, algumas igrejas e um mercado de rua improvisado onde vendiam de tudo. Comi alguma coisa na rua mesmo e quando percebi já tinha “desencanado” bastante do lugar. Passei por mais alguns prédios soviéticos, palácio presidencial e cheguei até o cemitério dos heróis, um memorial dos mortos na guerra, com as devidas homenagens e chama eterna. Já estava fotografando tanque de guerra sem olhar (muito) para os lados.

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Catedral da Natividade vista de longe

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Senhora vendendo roupas com a estatua do General Suvorov atrás

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Palácio presidencial

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1792 – ano da vitória sobre os Otomanos

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Memorial de guerra

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Chama eterna em homenagem aos mortos

Deu tempo de me perder, andar sem destino, explorando a cidade. Aleatoriamente acabei passando na frente das embaixadas da Ossétia do Sul e da Abkhazia, países (que não existem) que reconhecem a República da Transnístria como país. Funciona quase como um clube dos excluídos, onde um apoia o outro (a República de Nagorno-Karabakh também reconhece).

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Embaixada da Abkhazia e Ossétia do Sul

Presenciei também um casamento movimentado, jovens tomando sorvete, amigos bebendo, pessoas fazendo compras, crianças brincando, um casal brigando dentre tantas cenas comum do dia a dia. Por mais que se fantasie um país que não existe como algo do outro mundo, no final das contas as pessoas acabam tendo uma vida bem normal. Cada um com seus problemas.

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Adeus Lenin!

Com tanta historia antiga, um fato da história mais recente acabou ficando em segundo plano nesta viagem pela Asia Central: talvez o Cazaquistão seja o melhor lugar para tratar deste assunto. Primeiro porque a rota da seda passou só por um pequeno pedaço ao sul do país, e segundo porque ele era como um irmãozinho da Russia, ou talvez um empregado bem obediente.

O Cazaquistão e imenso, o nono maior pais do mundo. Com um território tão grande, era fácil para a URSS esconder varias coisas. Prisioneiros políticos foram mandados aos montes para cá. Os lançamentos espaciais eram feitos daqui (o primeiro homem que foi ao espaço saiu da Cazaquistão!). Testes nucleares foram feitos aqui também  Centenas deles. Muitos subterrâneos  mas uma porção a céu aberto. O Cazaquistão era uma extensão da Russia, é fácil de associar o pais a URSS até hoje, mas não por muito tempo…

A fronteira para o Cazaquistão não fica muito longe de Tashkent. Parecia que a viagem ate Shymkente seria rápida e sem problemas, mas não foi bem assim. Sair do Uzbequistão foi relativamente tranquilo, apesar da revista nas malas. Para chegar perto da imigração do Cazaquistao, tinha um amontoado de gente, que nem de longe lembrava uma fila. Um cara que depois vimos ser amigo dos guardas (ou ate um guarda de folga) nos ofereceu para furar fila se pegássemos um táxi com ele. O valor era alto, e sempre acho meio suspeitas estas situações  Fomos pelo processo normal e foi demorado. Depois de um tempo nos liberaram para outra fila, para efetivamente entrar no prédio  Outra fila la dentro, e depois de mais espera, já com os formulários na mão  a Bibi teve seu passaporte carimbado. Eu nao tive a mesma sorte. O oficial olhava meu passaporte contra a luz, tentava descolar o plastico, saia, voltava, e assim ia ganhando tempo. Ta certo que o passaporte antigo brasileiro ‘e bem tosco (e o meu ainda foi emitido na Malásia , mas tava na cara que ele queria uns trocados. Mas ele não sabia com quem estava lidando. Me enrolou uns 40 minutos, questionou sobre as datas, do porque do meu passaporte não ter chip, e com ajuda de uma mulher que estava na fila que traduzia tudo para mim, fui respondendo. O pessoal da fila ja estava enfurecido, e sendo distribuídos para os outros guichês  A Bibi voltou para ver o que tinha acontecido, e quase barraram ela. Venci pelo cansaço e depois de um bom tempo nos liberaram. Pegamos transporte junto com a nossa amiga-tradutora, e fomos ate Shymkent, onde passamos num caixa eletrônico  coisa que não fazíamos desde a Turquia. Já havíamos combinado que não ficaríamos na cidade (pois teríamos que voltar de qualquer forma) e que seguiríamos viagem para o Turkistan. Uma estrada reta, onde as montanhas foram desaparecendo, e a paisagem ficou plana e desértica  ate com camelos ao lado da estrada.

Nosso hotel tinha vista para o belo mausoléu do Kozha Yasaui (lugar mais sagrado do Cazaquistão , além de outras edificações imponentes. Assim como grande parte de Samarkand, aqui estas construções também foram erguidas a pedido do Timur. Yasaui foi um dos maiores de todos os Sufis. Responsável pela aceitação do Islamismo na Asia central, e com seguidores em toda a região inclusive o famoso sufi Molavi.

Arranjamos um cafe onde repetimos praticamente todas as refeições  fizemos um amigo na rua que nos acompanhou nas visitas e conversamos bastante, e encontramos uma pessoa que explicou tudo sobre o lugar, da parte religiosa à histórica  o que fez com que entendêssemos muito melhor sobre o que aconteceu ali.

Já conhecíamos o caminho de volta para Shymkent, e la fomos para um hotel bem atípico  Ficava dentro de um shopping (meio galeria, mas bom). Como se tivesse um hotel dentro do shopping Batel em Curitiba. Comemos num delicioso restaurante turco e demos uma volta pela cidade.

Na manha seguinte sedo fomos no escritório de imigração  Todo estrangeiro tem que se registrar antes de completar 5 dias que chegou no pais. O oficial alegava que eu tinha que me registrar em Almaty, pois a empresa da carta convite era de la. Depois de muita insistência falou que o meu hotel poderia fazer o registro. No hotel falaram que não podiam fazer o registro, mas que dariam uma carta falando que estávamos lá. Logo apareceu uma pessoa se oferecendo para fazer por algumas dezenas de dólares (claro que ele tinha esquema com a imigração . Não desisti e encarei a burocracia e corrupção  e no final acabei vencendo!! Eba, comemoramos gastando o dinheiro em outras coisas. Shymkente ‘e uma cidade bem agradável, e gostamos da estadia.

Pegamos ônibus errado, depois ônibus certo (vcs acham que e fácil ler em russo ou cazak no alfabeto cyrilico?!), e fomos ate Sayram, pequena cidade da época da Rota da Seda que ficava ha poucos km dali, e onde nasceu o Yasaui. Não sobrou muito da cidade antiga, além de um ou outro monumento. Caminhamos um pouco, vimos a devoção no mausoléu da mãe do Yasaui e na mesquita principal, pois era sexta-feira. No final das contas, valeu mais a parada para tomar chá e bater um papo com uns tiozinhos dali, comprar umas frutas e se divertir nas Marshutka (minibus local).

Em Shymkent ja garantimos nosso lugar comprando a passagem de trem para Almaty, que prometia ser a cidade moderna do Cazakistao, para alguns dias depois, e nesse meio tempo fomos ate a cidade de Lenger, onde havia o belíssimo Parque Nacional Sayram-Ugan nas montanhas. Sabíamos o nome de uma pessoa que trabalhava em um cafe, que organizava as visitas e hospedagens por la. Chegando no cafe, o tal Alikhan não estava, e ninguém sabia se iria voltar. Pior, ninguém nem sabia do tal parque, e falavam que era em outra cidade. Detalhe que para se comunicar tivemos até que desenhar!! Depois de um bom tempo de espera e sem outra opção  decidimos tentar encontrar uma solução fora dali. Caminhamos e tentamos pegar informação com alguns locais que estavam em frente a um mercado. A pessoa que procurávamos parecia ser conhecida (a cidade é bem pequena), e gentilmente nos colocaram dentro do carro e foram procurar onde ficava a casa dele. Passamos numa casa, em outra, ligavam, e depois de um tempão chegamos ate a casa do Alikhan. Oferecemos para pagar o combustível  mas eles não aceitaram, queria ajudar só ajudar. A pessoa que procurávamos não estava, mas a filha dele sim. Ela cozinhou para nos, e esperamos a tarde inteira ate ele chegar. Estávamos a pouco tempo no Cavaquista, mas pelas experiencias que vinhamos tendo, os Kazaks eram o povo mais simpático dentre os “stãos”.

Finalmente o Alikhan chegou, e pudemos organizar nossa visita. Primeiro dormimos numa casa/fazenda de uma família  bem perto do parque, onde tivemos a possibilidade de experimentar leite de égua pela primeira vez. Não era o leite puro e sim o fermentado, que todos aqui dizem conter um pouco de álcool. O gosto era no minimo esquisito! Eles adoram leite de égua, e preferem ao de vaca.

Dia seguimos ate o parque, onde dormimos em um Yurt, aquelas barracas redondas dos mongóis  e que passaram a ser utilizadas em toda Asia Central. O lugar era muito bonito, um vale, cheio de cavalos e carneiros, com um riozinho de desgelo passando ao lado, e as montanhas ao fundo. Fizemos varias caminhadas, algumas por pastos que pareciam um tapete de flores. A Bibi encarou ate um banho gelado de rio. Longe da eletricidade, o céu era totalmente estrelado, e o topo do Yurt era aberto. Mesmo a temperatura caindo a noite, dentro continuava quente.

A volta de Lenger para Shymkent foi corrida, e fomos direto para a estacão de trem. Compramos uns mantimentos, e ao entra no vagão descobrimos que estávamos na saída de emergência  e as janelas não abriam. Nosso vagão também não tinha ar-condicionado. Eu adoro trens, mas não estávamos tendo sorte ultimamente. Não preciso nem falar que estava um calor infernal, e que só molhando a toalha para poder dormir. Estávamos num vagão sem cabine, e a interação era mais fácil  Varias famílias russas-kazaks, e nos comunicamos como pudemos. Pela manha mal deu tempo de comprar uns quilos de maca verde numa das paradas e jã estávamos chegando a Almaty, antiga capital (recentemente mudou para Astana, uma cidade projetada, meio “Dubai”), e cento econômico do país.

Almaty e uma cidade bem moderna para os padrões da Asia Central. Chegam a dizer que parece europeia, mas so se for do leste europeu. E uma cidade bem soviética  toda arborizada, com aqueles prédios em forma de bloco, tudo com as montanhas nevadas ao fundo. Por outro lado, tem bares, cafés descolados, e bastante balada. Carros modernos e caros contrastam com os onibus caindo aos pedaços, e os trens urbanos também. Caminhamos pela parte moderna, pela Igreja Ortodoxa, prédios do governo, teatros, parques e também comemos muito bem.

A pedido da Bibi fomos num restaurante italiano bem recomendado. Era daqueles caros (Almaty ‘e uma cidade cara), mas que se tomar cuidado com os “extras” se encaixa no budget da viagem. Só uma salada e pão para acompanhar o prato principal, sem sobremesa nem cafezinho. Quando o garçom abriu a garrafa de água rosqueando a tampa vi que estaria em problemas. Só a água custou 8,5 dólares!!! Teríamos que comer bastante shashlik e plov para compensar!hahah

Passamos horas nos cafés olhando o pessoal moderninho chegar com seus carros novos. Ate ensaiamos de pegar uma balada, mas nao era o dia certo e acabamos num barzinho. No cardápio cervejas com ate 15% de álcool e aperitivos que iam desde batata frita ate carne de cavalo.

As estatuas do Lenin tinham sido mudadas de lugar, mas ainda estavam por ali. Ruas como Kommunistichesky, Lenina, Karl Marx mudaram de nome, os estranhos e feios prédios blocos soviéticos ainda estão presentes, mas provavelmente não por muito tempo. Tudo parece mesmo fazer parte do passado. O Cazaquistão com suas imensas reservas de petróleo parece estar gostando bastante de um dinheirinho, do consumo. Tanto o governo como a população  Qual o futuro dos Kazaks que até pouco tempo atras eram nômades?  Não sei, só sei que Adeus Lenin!

Tchau!