Na terra dos Vainaques

A história e costumes dos Chechenos e Inguches são muito interessantes. Eles são do povo Vainaque, descendente nos Naks que vieram da região da Mesopotâmia para o Cáucaso, mais de 10 mil anos atras. Viveram isolados nas montanhas por milhares de anos e foram se desenvolvendo como sociedade. Claro que por estarem no caminho entre o ocidente e oriente, foram influenciados pelos diversos povos que passavam e conquistaram a região, mas pertenceram com características muito únicas.

A estrutura social é bem forte. Consiste no individuo, família, grupo, clan, ramificações, alianças e a “nação”  propriamente dita (nação não tem a ver com país neste caso). Existe uma característica e um código de moral forte e definido nos povos descendentes dos Vainaques. O primeiro valor destes povos é a liberdade, depois vem a igualdade e em terceiro lugar a hospitalidade. Na republica de Inguchétia, um anfitrião é completamente responsável pelo seu hospede perante a sociedade, precisando não só proteger como atender todas as suas necessidades básicas. As estruturas democráticas destas sociedades chamou muito a atenção dos conquistadores russos, mas não os impediu que invadissem a região.

Partimos de Vladikavkaz, que hoje fica na Ossétia do Norte, mas já fez parte da Inguchétia (esta disputa já causou grandes problemas). Um pouco adiante atravessamos Beslan, cidade que teve um grande massacre dez anos atrás. Era o aniversario da data onde mais de 300 pessoas (a maioria crianças) foram mortas por terroristas em uma escola. Fomos parados para mais um controle de passaportes e acabamos desistindo de visitar o memorial. O clima estava tenso demais e não queríamos ser confundidos com jornalistas.

Vamos para onde?

Vamos para onde?

A  Inguchétia é uma das menores e mais pobres subdivisões da Federação Russa. Viajávamos por paisagens rurais e quase não percebemos quando passamos pela maior cidade, Nazran. Nazran foi a capital até o ano 2000, quando construíram o centro administrativo nos seus arredores, aproximadamente no local da histórica Magas, que havia sido destruída em 1239 pelos mongóis. Hoje a pequena Magas é a capital da República da Inguchétia.

Bem vindos à Inguchétia

Bem vindos à Inguchétia

Quando passamos por mais um memorial, não nos aguentamos e paramos. Durante a segunda guerra mundial, os inguches e chechenos foram acusados de colaborar com os nazistas. Stalin deportou quase metade da população para a Ásia Central e Sibéria, o que ocasionou a morte de muitos deles . Um memorial muito bem montado, com as devidas homenagens aos heróis e aos mortos, com a chama eterna bem na frente de uma torre tradicional Inguch. Tanques, estatuas, fotografias e lista de nomes completavam o senário.

Torres Inguches

Torres Inguches

Heróis de gerra

Heróis de gerra

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Praça no memorial

Praça no memorial

Seguimos nossa viagem pela pequena estrada cheia de agricultores vendendo seus produtos no acostamento. Nosso motorista ia em alta velocidade, ou tinha pressa ou gostava de correr. Tudo ia bem, até que apareceu uma mureta dividindo as pistas, marcando o inicio de uma auto estrada. Poderia ser bom, caso nosso motorista não tivesse entrado a 130 por hora na contramão. Desespero geral!! Alguns caminhões vinham no sentido oposto, estavam longe, mas também  em alta velocidade. Nosso ” Rubinho” freou, foi controlando o carro, deu um cavalo de pau, seguiu acelerando e fez nova curva forte para contornar a mureta (na frente de outros carros) e pegar a estrada no sentido correto. Eu na frente tentava falar para ele ir tranquilo e ele só olhava com uma cara de “deixa comigo”. As pessoas tem medo de atentado terrorista nestas regiões, mas é muito mais fácil morrer de acidente de carro por ali, com certeza!

Agricultores

Agricultores

Começaram a aparecer placas com a figura de Akhmad Kadyrov, líder Checheno que assinou um acordo com a Russia após a internacionalmente chamada “guerra da Chechênia”. Nos aproximávamos de Grozny, capital da Chechênia com as lembranças de imagens de uma cidade devastada por duas grandes guerras de independência. O conflito só terminou em 2009 e esperávamos ainda encontrar algumas ruínas, já que para muitos é uma das cidade mais bombardeada da história. Foi um choque. Os subúrbios são um pouco pobre, mas longe de terem entulhos e resquícios da guerra. Já o centro da cidade está completamente reconstruído. Avenidas largas, praças com jardins, shopping moderno e prédios novos. Difícil de imaginar que tão pouco tempo atras estava tudo destruído. Para ver que quando se tem vontade politica e dinheiro, as coisas andam. Falam em um investimento de mais de 5 bilhões de dólares na região. Pelo jeito a Russia não quer perder a Chechênia de forma alguma. Conversando com amigos russos, eles diziam que Grozny era uma das cidades mais seguras de toda a Russia. Senário completamente diferente dos períodos de guerra quando centenas de milhares de pessoas morreram, ou da curta independência, quando 176 pessoas foram sequestradas somente em 1998.  Apesar da informação de segurança, não deixava de ter uma certa tensão no ar, talvez até pelo nosso inconsciente.

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Herói para uns, traidor para outros.

Igreja Ortodoxa

Igreja Ortodoxa

Shopping

Shopping e mulheres chechenas

Avenidas

Difícil de imaginar que a poucos anos a cidade estava toda destruída.

Uma igreja ortodoxa era protegida por soldados, estes também espalhados por regiões estratégicas da cidade. Saímos para conhecer a cidade e nosso motorista parecia bem animado, era a primeira vez dele por ali também. Tentávamos tirar fotos discretamente para não acabarmos na delegacia como na Ossétia do Norte, mas nosso problema ali foi outro. Eu e o motorista eramos os únicos de calça comprida. Devido o calor o Leo, khouri e Marcelo estavam de bermuda. Eu lembro muito bem quando fui atravessar o continente africano que me recomendaram usar calça. Na época eu não entendi direito, pois pareceria um estrangeiro de qualquer maneira. Mais para frente compreendi que a bermuda chama muito a atenção, e pode ser considerada ofensiva em algumas sociedades. No Paquistão em pleno Ramadã, para meu desespero, meu cunhado insistia em usar bermuda. Nunca tivemos nenhum problema, mas não foi o caso na Chechênia. Mal iniciamos nossa caminhada e um grupo de jovens gritou alguma coisa de forma agressiva de dentro de um carro. Como não entendemos nada, ignoramos. Mais adiante, atravessando a ponte, já próximos da mesquita, um cara parou o Marcelo e apontava para a perna dele. Gesticulava de forma não muito amigável e mostrava a sua calça. O recado estava dado. Circulamos entre os chafarizes e pela bonita praça ao redor da mesquita. Quando nos aproximamos, guardas falaram que não era permitido estar de bermuda ali. Eu e o nosso motorista entramos, não sei quem estava mais empolgado. O resto do pessoal teve que se afastar um pouco. Rodamos mais a cidade, levamos outros xingões, mas agora já sabíamos qual era o motivo. Interessante que é uma cidade bem moderna, e as pessoas que se incomodavam também aparentavam uma vida moderna, normalmente jovens. Julgamos ser muito mais uma espécie de fascismo do que uma questão religiosa ou tradicional. Talvez até uma xenofobia, algo impossível em uma região tradicional inguche ou chechena.

Teatro

Teatro Nacional

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prédios novos vistos da mesquita

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Prédios modernos

Mesquita cm a bandeira Chechena

Mesquita com a bandeira Chechena

Grozny

Grozny

Soube que existem gangues que atiram com paintball em mulheres que não cobrem a cabeça, algo que teoricamente não é obrigatório. Mas não imagine mulheres com chador ou roupas pretas. Até mesmo os lenços ou hijabs são bem coloridos. Achei muito interessante como o islamismo se desenvolveu na região, absorvendo elementos da cultura Vainaque. No interior, conservam elementos das religiões pré-islâmicas, e chamam até hoje Allah de “Dela”, nome do principal deus da religião ancestral deles.

Arredores de Grozny

Mesquita nos arredores de Grozny

O grupo separatista da Chechênia perdeu a força, principalmente devido a todos os investimentos e repressão brutal que a Russia exerce na região. A própria integração da Chechênia à Russia foi via referendo, mostrando que existe um certo apoio popular. Apesar de não existir muitos crimes urbanos, não deixa de ser uma região um pouco volátil. Atualmente os conflitos migraram mais para os vizinhos Daguestão e Inguchétia, mas confesso que não me surpreendi quando um mês depois que voltei para casa, li sobre um novo atentado a bomba no centro de Grozny, onde 5 pessoas morreram.

Entendi melhor o que nosso motorista tentava nos explicar na volta para Vladikavkaz. Ele gesticulava e falava em osseta, mostrando que Grozny era mais ou menos. Interessante ver a reconstrução, modernidade, mas segundo ele, o bom mesmo era “Goris, shashlik…”. O pessoal se divertia quando eu traduzia que ele queria nos levar para as montanhas para fazer um churrasco, que isto sim seria divertido! Pelo jeito nosso motorista tinha o mesmo gosto que eu. Apesar das cidades serem interessantes, o interior é bem mais legal! Muito bacana como é possível conversar tanto tempo e se dar bem com uma pessoa que não fala uma palavra na mesma língua que você. Eu tinha anotado umas frases em russo, mas fica a dica, as palavras em osseta, inguch ou checheno que vão arrancar sorrisos no norte do cáucaso!

Quase me matou, mas é meu amigo! ;)

Quase me matou, mas é meu amigo! 😉

Principado de Svaneti

Quando saí para meu projeto dos “Países que não existem”, sabia que passaria pela Geórgia varias vezes. Sabia também que não poderia dar a atenção devida ao país. Não seria a primeira vez. No início de 2011, quando parti de Istambul para percorrer a Rota da Seda, minha ideia inicial era de passar pela Geórgia e Armênia antes de ir para o Irã. Acabamos nos atrasando um pouco e teríamos somente duas semanas para percorrer estes países (alguns vistos da Ásia Central tem data marcada). Surgiu a possibilidade de visitarmos o Norte do Iraque e optamos por esta rota. Seria muito mais difícil voltar para para o Iraque do que para a Geórgia. Não é que eu estava certo?!

Como a Bibi não foi comigo, existe uma probabilidade bem alta de eu voltar para os Cáucasos. A região que eu mais gostei da Geórgia acabou aparecendo no roteiro meio que por acaso. Dias antes, um deslizamento de terra bem grande aconteceu na Military Highway, estrada que liga a Geórgia com o Sul da Russia. Falavam em semanas para liberar a estrada, pois até o posto de fronteira que tinha sido danificado. Com isto ia por água abaixo meu plano de visitar a Ossétia do Sul, já que o único acesso permitido é via Russia. Com esta situação, tínhamos alguns dias extras e não foi difícil escolher o destino: O antigo Principado de Svaneti, a mais alta região habitada da Europa.

Não deixa de ter uma ligação com o meu projeto, já que no passado já fez parte do Reino da Abkhazia, antes de ser anexado ao reino da Geórgia. Devido a localização estratégica, sempre foi de extrema importância. Foi protetorado dos Bizantinos para se defenderem dos persas e dos russos que temiam a invasão dos otomanos. Tão isolado que mesmo durante a URSS conseguiu preservar bastante sua tradição.

Estávamos voltando da República da Abecásia, o Marcelo iria encontrar com dois amigos em Tbilisi capital da Geórgia, e eu fiquei em Zugdidi. Sabia da infrequência do transporte publico no período da tarde. As estradas, apesar das ultimas reformas, ainda são lentas e cheias de curvas. Parei no pequeno patio de ônibus e me informaram que quando chegassem mais passageiros sairia. Estava com uma cara que demoraria horas e resolvi comer alguma coisa. Me deliciava com mais um prato tipico da região quando vi uma marshrutka (lotação) parando na frente do patio onde funcionava a “rodoviária”. Sai correndo a tempo de embarcar sentido Mestia, “capital” de Svaneti.

Caminho para Mestia

Caminho para Mestia

Não demorou muito e começamos a subida. A paisagem foi mudando, curvas e mais curvas, penhascos e lagos. Foram horas de viagem, mas poderiam ser dias que não reclamaria. Cabeça encostada na janela, vendo a paisagem incrível passar como se fosse a televisão da vida real. Só tirei o sorriso do rosto quando percebi que o motorista estava bêbado. Numa das nossas paradas ele tomou mais duas garrafas de cerveja, o que me deixou preocupado. Cheguei a pensar em pegar carona, mas o final de tarde se aproximava e a estrada não tinha movimento. As curvas aumentaram, mas nosso “piloto” parecia saber o que estava fazendo. Horas mais para frente, paramos para ajudar a tirar um sofá de cima de uma caminhonete e entregar para uma família. Muito contentes com minha ajuda, já me convidaram para comer e beber. O vinho rolava solto, mas para meu desespero a bebida preferida do motorista era o Chacha, uma vodka feita de uva, tipo uma grappa. Como não adiantava intervir, achei melhor relaxar, ou melhor, beber para relaxar. A “festa” de ultima hora parecia não acabar e acabei seguindo um uma outra lotação que passou por ali. Começava a anoitecer, a paisagem de montanha continuava incrível, e as primeiras torres de vigia dos Svaneti começaram a aparecer.

Mestia - Geórgia

Mestia com suas torres

A pequena Mestia funciona como a capital da região. Até que tem uma boa estrutura turística (mais que imaginava/queria), com hotéis e um ou outro restaurante onde o pessoal fica tomando cerveja e escutando musica no final da tarde. Muitos homestays onde as famílias fazem um dinheirinho extra alugando os quartos das suas casas. Alias, muitas destas casas já são verdadeiras pousadas, cheias de estrangeiros. Eu paguei 25 Lari, cerca de 10 euros para um quarto privado, com direito a café da manhã e jantar (bem servidos!).

Arredores de Mestia

Arredores de Mestia

Caminhadas

Caminhadas

O fato de ter ficado isolada nas montanhas por tanto tempo, preservou a cultura Svaneti. Eles tem uma língua própria, bem diferente do georgiano. As roupas, comidas e costumes também são diferentes. A partir de Mestia tem uma serie de passeios e trekkings para fazer. Algumas igrejinhas super antigas, um museu etnográfico mas a cultura e visual da região que são a grande atração. Cercada de montanhas, algumas delas nevadas e com diversas torres defensivas (construídas entre os seculos 9 e 12). Fiz uma caminhada até o Glacial Chalati, passando por outras belas paisagens. Não foi difícil conseguir carona na volta, e nem fiquei surpreso quando me convidaram para beber. Beber parece ser um esporte nacional por aqui também!

Glaciar

Glaciar

Foram dias gostosos mas ainda não tinha terminado a minha jornada por Svaneti. Um pouco ao sul de Mestia fica Ushguli, quatro pequenos vilarejos com casas de pedra, cheios de torres defensivas, à sombra da maior montanha da Georgia ( Mt Shkara, 5068metros). O caminho não é fácil, umas quatro horas para percorrer menos de 50 quilômetros, mas o trajeto é fascinante. Ushguli é daqueles lugares que se pode usar qualquer tipo de elogios e superlativos, mas mesmo assim não se consegue descrever a beleza da região. Tão pouco as fotos conseguem traduzir o encanto do lugar!

Ushguli, Svaneti

Ushguli, Svaneti

Caminhei entre as vilas, visitei igrejas, monastérios e observei o dia a dia da região. As imponentes montanhas ao fundo – alem do povo em geral- davam todo um clima para o vale. Cachorros usados para pastoreio estavam por todos os lados. Alguns faziam companhia nas caminhadas, outros intimidavam quando me aproximava de alguma casa ou tentava interagir com alguém. Mais para frente vou escrever sobre as inúmeras atrações da Georgia, país com potencial turístico muito grande, mas Svaneti foi o lugar que mais gostei de todos que visitei!

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Gostaria de ter passado mais tempo nestes vilarejos, dar chance ao acaso, entrar no dia a dia local. Existem diversas casas que alugam quartos, deve ser uma experiência incrível ficar uns dias por ali. Infelizmente acabei só passando o dia. Na noite anterior soube que a fronteira com a Russia tinha sido reaberta, e apesar da lentidão, era possível atravessar. Eu já havia perdido a data de entrada para a Ossétia do Sul, mas não deixava de ser uma oportunidade de visitar algumas repúblicas do Norte do Cáucaso, que ficam no sul da Russia.

Interessante que em linha reta, se atravessasse as montanhas, eu não estava a mais de 10 km do sul da Russia (a montanha mais alta da Europa fica do outro lado da fronteira,  o Monte Elbrus, com 5642mts).  Porem a unica estrada da Georgia para a Russia é a Military Highway . Eu teria que voltar até Mestia, acordar muito antes do sol nascer para garantir espaço em uma lotação até Tbilisi e da lá pegar outra lotação, montanha acima novamente, até Kazbegi. Confesso que senti falta de ter uma das coisas mais importantes numa viagem, “Tempo”, mas compensei com muita disposição. Cansativo? Claro que sim, mas as paisagens, pessoas e experiencias faziam que eu quase não lembrasse disto!

 

A Europa pouco visitada

Quando se pensa em uma viagem para a Europa, poucos brasileiros lembram da Moldávia como destino. Uma região que ainda não foi descoberta pelos nossos conterrâneos. Junto com a Bielorrússia, é um dos últimos dois países europeus que ainda exigem visto para brasileiros (se contar Cáucasos como Europa aina tem outros dois). Esmagada entre a Romênia e a Ucrânia, acaba tendo influencia dos dois. Era o limite de Império Romano, que chegava até o rio Dniestre, trocou de mãos diversas vezes, nas guerras entre os Otomanos e Russos, até fazer parte da União Soviética.  A população fala tanto o russo como o Romeno, língua latina que acaba tendo palavras próximas ao português. Na capital Chisinau, é possível observar diversas bandeiras da União Européia, mas ainda parece ser um sonho bem distante, pois é um dos países mais pobres de toda a Europa. As influencias russas e heranças soviéticas também são fáceis de se observar, caminhando por esta agradável e pacata capital.

Um microonibus do aeroporto até o centro, cerca de meia hora, custa menos de 50 centavos de Real! É o Leste Europeu do imaginário, como já foram destinos que hoje são invadidos pelo turismo em massa. Avenidas largas, arborizadas, construções históricas e grandes parques formam o visual da cidade.  Não é o tipo de destino que você vai ter uma lista de atrações imperdíveis para ver, mas não deixa de ser uma cidade bem gostosa e barata para curtir o dia a dia. Como meu anfitrião do couchsurfing acabou cancelando em cima da hora, fui para um hostel, onde uma cama (em quarto para quatro pessoas) custava pouco mais de cinco euros.

Chisinau

Chisinau

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Teatrul Nacional

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Museu nacional

Dei uma passada em alguns monumentos, memoriais e museus, perambulei para ver o Holly Gates, o Parlamento, Palácio Presidencial, alem de uma ou outra das construções históricas que sobreviveram ao bombardeio da segunda guerra. Mas com o verão, tava gostoso mesmo de curtir a vida ao ar livre. Mercados de quinquilharias, os parques Central e Gradina, mercado de flores, concerto com a orquestra juvenil na frente da catedral e cafés lotados davam vida para a cidade. Algumas igrejas ortodoxas coloridas muito bonitas contrastavam com os prédios cinza em forma de bloco ao lado. Dentro das igrejas muita devoção,  as mulheres sempre com as cabeças cobertas, pediam a benção ao padre.

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Igrejas lindas

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Igrejas com os blocos de apartamentos ao fundo

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Holly Gates e Catedral

Catedral

Música numa noite de verão cai bem!

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Estatua do Stefan Cel Mare (o mais famoso Príncipe da Moldávia) na entrada do parque Gradina

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Torre da catedral com o palácio do governo ao fundo

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Pinturas no teto do monastério

 

Para os amantes de vinho é indispensável uma visita à adega da Cricova. São mais de 120 km de corredores numa antiga mina de cal, que hoje guarda mais de um milhão de garrafas de vinho. Parece ser a maior do mundo, mas foi sua concorrente, Melestii Mici que consegui provar ao Guiness, ter mais de 2 milhões de garrafas estocadas.

Como não sou muito fã de “maior do mundo”, “mais isto””mais aquilo”, me contentei com jantares gostosos, com meio litro de vinho  e sobremesa que dificilmente passavam dos 5 euros. Existem outros programas que podem ser feitos no esquema bate e volta, como os monastérios  em cavernas Orheiul Vechi, do seculo 13, na beira do rio Raut ou o Tipova , numa região também muito bonita.  Para quem gosta de cultura, pode dar uma esticada até Soroki. Fica beem puxado para ir e voltar no mesmo dia, mas pode ser uma boa pedida para quem está indo para a Ucrânia. Cidade em que a maioria da população é de ciganos, tem uma arquitetura toda peculiar e uma cultura riquíssima. Infelizmente por ficar mais longe não pude ir desta vez, mas tinha outros planos para o interior.

Eu queria conhecer a Gagauzia, região autônoma da Moldávia. Ao contrario da Transnístria (conto da minha viagem para lá em outro post) a região da Gagauzia fez acordos (depois de algumas guerras) com a Moldávia e após conquistar certas autonomias, desistiu de se separar.

Fui em um ônibus velho de Chisinau até Comrat, capital desta região autônoma. No caminho uma paisagem rural, com tratores andando lentamente nas estradas e agricultores e pastores no campo. Plantações de gira sol, infelizmente murchos, completavam o visual. Não tive muita sorte pois começou a chover intensamente. Comrat é uma pequena cidade de interior, de onde se governa toda a região. Me falavam que era um lugar empoeirado, mas com tanta chuva estava era enlameado, isto sim!. Historicamente os Gagauzos eram búlgaros-turcos muçulmanos. Para poder permanecer nestas terras foram obrigados a se converter ao cristianismo. Tem uma cultura toda peculiar, um idioma próprio e até uma universidade onde  tentam preservar os suas tradições/cultura/língua.

Comrat Gaugazia

Comrat Gagauzia

Com a chuva não pude conhecer as vilas ao redor, que eram meu maior foco, mas não posso dizer que não me diverti em Comrat. A iniciar pela comunicação! O gagauzo é impossível de compreender e ninguém falava inglês, sendo muito difícil pedir comida ou até entender os preços. Já tinha imitado galinha, pedido preço mostrando a calculadora quando incrivelmente encontrei um restaurante a quilo! Na verdade o sistema era um pouco diferente, cada porção tinha um valor, mas foi um alivio saber o que iria comer.

Uma das regiões mais pobres de um dos países mais pobres da Europa. Ai que você percebe como não se pode generalizar nada. Quando alguém fala que “na Europa isto, que na Europa aquilo”, não está se referindo à Gagáuzia, com certeza. A cidade de Comrat é tão Europa quanto Londres, a não ser que não se use mais a conotação geográfica.

Me olhavam com curiosidade. Algumas pessoas tentavam interagir, outras chegaram a se irritar quando eu não entendia o que diziam. Deviam se perguntar: o que este maluco estava fazendo aqui?

A catedral de São João (1820), dois ou três museus de história e cultura Gagauzia, Universidade, biblioteca, centro cultural e meia duzia de memoriais me mantiveram ocupados enquanto a chuva não passava. Como o tempo não se firmou, voltei para Chisinau. Se antes eu tinha achado a capital da Moldávia pequena e pacata, agora consegui ver até um pouco de caos próximo da estação de microonibus. Tudo uma questão de referencia.

Universidade

Universidade

Centro Cultural

Centro Cultural

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gaugázia

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gagauzia

Já estava me sentindo em casa em Chisinau. Havia andado a pé por tudo, circulado de ônibus, até repetido cafés e restaurantes. Me orientava como se já estivesse lá a semanas, mas chegava a hora de partir. Fui para o aeroporto com medo de perder minha conexão em Istambul – e perdi. Não por poucos minutos, mais por horas,devido ao atraso do voo. Com isto tive que dormir mais uma noite no aeroporto. Se Chisinau parecia familiar, o aeroporto de Istambul parecia meu quarto, depois de dormir três noites lá em poucas semanas!

 

Kosovo: Não-País ou Quase-País?

Dos países com reconhecimento parcial, Kosovo tem uma posição privilegiada. Digamos que está mais para um Quase-País do que para um Não-País. Tem o reconhecimento de 108 estados membros da ONU (Só perde para a Palestina, que tem o reconhecimento de 134 membros, além de ser Estado Observador da ONU), faz parte do FMI, do Banco Mundial dentre outras associações internacionais. Sua grande força é que a maioria dos membros da União Européia o reconhecem como país (somente 5 não reconhecem). Para o governo brasieirol, se você for para o Kosovo, estará indo para a Sérvia, que já não tem nenhum controle sobre a região.

O Kosovo proclamou independência no início de 2008. Os albaneses, maioria da população do Kosovo, vinham sendo massacrados pelos Sérvios, comandados pelo louco do Milosevic. O Exército de libertação do Kosovo já foi taxado de terrorista pelo ocidente no passado, mas em uma espécie de nova guerra fria (Servia tinha a Russia como grande aliada), EUA e a OTAN (se sentindo culpados por terem deixado os Sérvios massacrarem os Bósnios anos antes), resolveram apoia-los. Com os bombardeios da OTAN, as forças Sérvias recuaram e desde então a região tem autonomia e busca o reconhecimento como país. Para conseguir o feito existem algumas barreiras. A Russia, membro do conselho de segurança é extremamente contra. Países europeus, querem a garantia de que minorias servias na região sejam protegidas e tem medo do sentimento de vingança que os kosovares-albaneses possam ter, já que  milhares de albaneses foram expulsos de suas terras (quase 1 milhão de refugiados) e tiveram suas famílias massacradas (tentaram fazer uma limpeza étnica).

Eu já havia visitado todos os vizinhos do Kosovo, inclusive ensaiado uma ida para lá. Nunca escondi meu interesse pelos Bálcãs, na minha opinião uma das regiões mais interessantes da Europa! Depois de uma noite (mal) dormida no aeroporto de Istambul, cheguei em Pristina, capital do Kosovo. O avião sobrevoou  as belas montanhas, todas enrugadas, como se buscasse um vale para poder pousar. Depois da imigração, revistaram toda a minha mochila, fizeram algumas perguntas e perguntaram quanto dinheiro eu tinha. Acostumado com oficiais corruptos, fiquei com medo mostrar muito dinheiro, mas não era o caso. Eles acharam pouco, ainda perguntaram um “mas você tem um cartão de crédito pelo menos, né?!” antes de me liberarem e solar um “somente rotina, bem vindo ao Kosovo!”

Tinha sido alertado sobre a “síndrome do carro branco”, referencia à cor dos carros da ONU, que fazem o preço dos produtos e serviços subir consideravelmente devido à presença de expatriados com altos salários. Como não existe transporte público do aeroporto para o centro, o jeito foi atravessar a saguão do aeroporto desviando dos taxistas, passar por outro grupo deles lá fora e ficar parado como se esperasse alguém. Ofereceram táxi e eu disse que já tinha um pré agendado. Apos uns minutos disse que iria com um deles se cobrassem o valor que eu já havia combinado (com o táxi que não existia), 30% do valor que estavam pedindo. Aceitaram na hora!

O aeroporto não era tão perto e deu para conversar bastante com o motorista no caminho. Ele não falava inglês muito bem, mas era comunicativo e foi bastante proveitoso. Conheceria Pristina depois, meu foco naquele momento era Prizren, cidade cerca de duas horas de distância. Na verdade não fica muito longe, mas a estrada passa por pequenas vilas e muitas curvas entra as montanhas. Ótimo para ver o dia a dia pela janela alem de poder bater papo com os outros passageiros. Os kosovares estão acostumados com estrangeiros, que normalmente estão a trabalho lá, então não iniciam tanto as conversas, mas se você puxa papo, não param de falar! Como eu já havia viajado pela região albanesa da Macedônia (Tetovo) além da Albânia, eles me viam com bastante curiosidade e tínhamos bastante assunto.

Interior

Interior

Prizren foi uma antiga capital do reino da Servia. Tem sua maioria esmagadora da população kosovar-albanesa, sendo que os poucos sérvios que moravam lá fugiram após o conflito. A cidade velha está muito bem preservada, somente o bairro sérvio e as igrejas que foram bastante destruídos. Mas os tempos de guerra ficaram para trás e quem quer reconhecimento interacional tem que buscar outra postura. Com muita ajuda internacional, o lugar estava pulsando. Cheio de turistas, muitos deles do próprio Kosovo mas também bastante estrangeiros, se espalhavam nos cafés ao redor do Shadervan, antiga fonte de água em um calçadão. Cheguei em pleno festival de filme da cidade e o dia a dia parecei ainda mais vivo.

Centro

Centro

Prizren

Cidade velha com a cidadela ao fundo

Prizren

Prizren

Longas caminhada entre os diversos prédios históricos, mesquitas e igrejas eram intercaladas com repouso em algum café para olhar o movimento e a viada acontecer ao redor. Uma cidade muito gostosa, adorei o tempo gasto por ali. A quantidade de gente, que por um lado dava vida ao local, com o tempo irritou um pouco, queria ter sentido o lugar em um dia comum também. Para compensar isto caminhei bastante por bairros um pouco mais afastados. Comi um delicioso Tave e tomei uma bebida tipica chamara Boza, feita do milho.

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Minaretes

Minaretes

Igrejas destruídas e protegidas com arame farpado

Igrejas destruídas e protegidas com arame farpado

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Acabei nem indo para Peje, cidadezinha mais ao norte do Kosovo, pois acabaria ficando muito corrido. Segui pela mesma estrada de volta para Pristina, passando pelos diversos memoriais de guerra e pela bandeiras do Kosovo ao lado das da Albânia.

Apesar de ser a capital, Pristina não tem tantas atrações. É um lugar movimentado, com tantos estrangeiros e ajuda interacional acabou desenvolvendo uma série de opções de lugares para sair e comer. Um contraste de lugares sofisticados com apartamentos em forma de blocos da era comunista. Um enorme calçadão, chamado Madre Teresa, é uma das regiões mais movimentadas da cidade.

Blocos

Blocos

Calçadão Madre Teresa

Calçadão Madre Teresa

A Madre Teresa nasceu em Skopje, que hoje fica na Macedônia mas na época fazia parte do Kosovo, uma subdivisão do Império Otomano. Existe um grande santuário para ela no centro de Pristina, na esquina das avenidas George Bush com Bill Clinton.

Santuário

Santuário Madre Teresa

Pode parecer estranho um antigo país comunista, de maioria muçulmana, ter esta proximidade com os EUA, mas ela é visível por todos os lados. Bandeiras americanas ao lado das albanesas e do Kosovo sã bem comuns. Eles se mostram muito agradecidos pela decisão dos EUA liderarem a Otan no ataque contra os Sérvios (contrariando a ONU). Pertinho da loja “Hilary Clinton” pude ver a estátua que ergueram em homenagem ao Bill Clinton, no minimo curioso.

Estatua Bill Clinton

Estatua Bill Clinton

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Outdoor

Mesquitas e igrejas

Mesquitas e igrejas

Depois de explorar bem a cidade, tanto a parte nova como a antiga, estava pronto para seguir viagem. Seguiria minha jornada pelos #PaísesQueNãoExistem com a certeza de que o Kosovo não só existe, como já foi descoberto pelos turistas!

Primavera em Praga

Em 1968, uma serie de reformas na antiga Checoslováquia, foi chamada de Primavera de Praga. Os soviéticos não gostaram nada do estilo moderninho do partido comunista local e mandaram milhares de soldados e tanques, esmagando qualquer manifestação, além de ocupar o país. Primavera de 2014, muito tempo se passou, até mesmo da democratização da região, que alias agora se tornaram dois países, Rep. Tcheca e Eslováquia. A unica invasão que agora é possível observar é a de turistas. Milhares, deles por todos os cantos. Dominaram Praga, tomaram conta!! Fácil de entender porque. É uma cidade linda, cheia de atrativos. O Acordo de Munique, firmado entre as potencias europeias da época, entregou a Checoslováquia para os nazistas e por isto Praga foi polpada durante a invasão alemã. É a cidade da moda para os jovens europeus festarem. Terra de cerveja (a região se chama Bohemia), vimos diversos grupos cantando alto ou até fazendo “jogos” de despedida de solteiro no meio da rua.

O castelo visível de toda a cidade

O castelo de Praga, visível de toda a cidade

Primavera EM Praga - Invasão de turistas!

Primavera EM Praga – Invasão de turistas!

 

Telhados

Telhados

Gargulas na Catedral

Gargulas na imponente Catedral gótica de São Vito

No bairro judeu, além da Sinagoga Old-New (uma das mais antigas da Europa), existe um antigo cemitério. Lá se pode observar uma lapide ao lado da outra, todas amontoadas, pois faltava espaço para enterrar os corpos.

Sinagoga Velha-Nova

Sinagoga

Uma das grandes atrações de Praga  é o relógio astronômico. Antes de chegar em Praga, passamos por toda o Morávia (região leste da Rep Checa). Na cidade de Olomouc (famosa pela coluna da Santíssima Trindade) tem um relógio parecido, mas os comunistas  trocaram as figuras religiosas que aparecem nas janelas de hora em hora por camponeses e operários.

Orloj - Relógio astronômico

Orloj – Relógio astronômico

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Uma agradável surpresa foi o Monastério Strahov no alto da colina, com suas bibliotecas de Teologia e Filosofia . São mais de 130 mil livros (muitos deles antiquíssimos), distribuídos em salões com os o tetos todos decorados.

Biblioteca

Mosteiro Strahov: Bibliotecas de Filosofia e Teologia

Cerca de uma hora de Praga está a cidade Kutná Hora (patrimônio da Unesco). Estávamos na dúvida se iriamos até lá, mas valeu bastante a pena! Chegamos antes dos ônibus de excursão e trens, então estava tudo muito calmo. Clima de interior, uma delícia, depois das hordas de turistas na capital. O templo de Santa Barbara, no seu estilo gótico, é tão bonito quanto a catedral de São Vito de Praga! A catedral da Assunção de Nossa Senhora, todo o centro antigo despertando pela manhã eram um charme.

Torres góticas

Torres góticas do templo de Santa Barbara

Vista para Kutna Hora

Vista para Kutna Hora

Uma atração que chama bastante a atenção na região é o Ossário de Sedlec , com 40 mil esqueletos. Dizem que um abade trouxe um pouco de terra santa de Jerusalém e por isto as pessoas preferiam ser enterradas ali. A capela medieval pode não agradar algumas pessoas, com seu estilo de arte um pouco “forte”, mas ela só mostra o mais obvio, a temporalidade da vida! Lustres, cálices, cruzes, tudo feito com ossos.

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