Estônia, terra de pagãos!

A Estônia só se estabeleceu como país após a primeira Guerra Mundial, e mesmo assim logo foi ocupada. Antes disto eram povos,  sempre tentando uma  identidade como nação. Foram dominados por finlandeses, suecos, dinamarqueses, alemães e russos, cada um deixando suas marcas. O cristianismo foi imposto aos então pagãos que moravam lá. Primeiro os católicos, depois os luteranos e por fim os ortodoxos. As belas construções ficaram, mas a religião não. Menos de 15% dos estonianos se dizem religiosos, sendo apontando como o país menos religioso do mundo. Por outro lado, existem novas ondas de espiritualidade neo-pagãs.  A adoração da natureza remete ao inicio da identidade e ao folclore estoniano. Existe uma rica mitologia que tem sido resgatada como forma de identidade nacional e negação dos invasores do passado. Num país coberto por florestas não é difícil de “adorar” uma arvore. O feriado mais importante do país é o Jaanipaev, onde dançam e cantam ao redor de fogueiras, no dia que chamam de “metade do verão” (solstício-noite mais longa do ano). Dizem que teve origem na queda de um meteoro a mais de 4 mil anos atrás. Assim como o dia 25 de dezembro (solstício de inverno, noite mais curta) foi incorporado pelo cristianismo, o Jaanipaev também foi. Chamam de São João, e tem muita gente no Brasil comemorando a data mesmo sendo no inverno, cantando e dançando nas fogueiras de festa Junina, sem nem imaginar que estão praticando “paganismo estoniano”.

Chegamos à capital da Estônia, Talin, de ferry. O porto fica próximo do centro antigo, onde iriamos nos hospedar. Com uma bagagem a mais do que estamos acostumados, mais um bebe e um carrinho, achamos melhor aceitar a oferta dos donos do AirB&B em nos buscar. Cobrariam somente 5 Euros e nos levariam até o nosso apartamento.

Ficamos hospedados a uma quadra de um dos portões de entrada da cidade velha, numa rua secundária, bem calma. Uma localização excelente, mas uma pena que a rua que dava acesso até a praça central estava em reforma.

A cidade murada de Talin é linda. Num estilo medieval, faz jus a fama de ser uma das mais bem preservadas da Europa. Quem diz que parece que ela saiu de um conto de fadas também não está mentindo. As ruas de pedra, a arquitetura e as torres das igrejas (a igreja de São Olavo foi a construção mais alta do mundo na Idade Média)  encantam qualquer um. Patrimônio da Unesco, as construções de pedra sobreviveram ao tempo, e a cidade também contou com a sorte de não ter sido bombardeada na Segunda Gerra.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Chegamos num domingo e tinha até uma feirinha na praça central. Estava tudo movimentado, bem movimentado. Verão na Europa tem destas coisas, tinha turistas para todos os lados. Talvez o fato da cidade ser pequena dê um aspecto de cheia mais facilmente.

Junto com os turistas vem as pessoas tentando vender algo ou te convencer a entrar nos restaurantes. Nada de muito insistente, mas com certeza quebrou um pouco o clima, assim como algumas pessoas posando para fotos com armaduras para ganhar uns trocados.

Ma isto foi mais a primeira impressão, nos outros dias nos acostumamos e acho que as coisas ficaram mais calmas também.  Colocamos à prova o carrinho guarda-chuva que compramos para a viagem. Foi o menor e mais barato que encontramos na internet, e compramos no site de um supermercado. Ele aguentou bem as ruas de pedras da cidade. Trepidava bastante, e o Gabriel achando que era embalo acabava dormindo.

IMG_0405 IMG_0137-001

Mesmo anoitecendo muito tarde, respeitamos o horário de dormir do Gabriel. Também comprávamos coisas no supermercado e fazíamos comida para ele. Podia comer em casa ou a marmita que levávamos e esquentávamos nos restaurantes. Não foi desta vez que ele experimentou a comida estoniana. Eu também fiquei adiando para comer a sopa de rena e acabei esquecendo. Fica para uma próxima.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Quando íamos em lugares mais longe, ou que precisaria subir escadas, eu levava o Gabriel no “Canguru”. Quando queria chegar rápido em um lugar também, sempre com o carrinho dobrado na mão.

Adoramos caminhar pela cidade, esperar os grupos de turistas passarem para curtir um pouco os lugares sozinhos. O ritmo da viagem foi mais lento, sentávamos para comer, tomar uma cerveja ou café e ver a vida passar com ainda mais frequência que em outras viagens. O Gabriel adorava tudo. Estava super animado e sorridente todas as horas. Já se mostrava um grande companheiro de viagem, só tínhamos que respeitar seu ritmo e suas necessidades.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Inicialmente o nosso plano era de viajar pela costa da Estônia até a Letônia, beirando o Mar Báltico. De ultima hora decidimos fugir do fluxo de turistas e explorar um pouco o interior. Sabíamos que não tinham grandes atrações, mas quem sabe encontraríamos belas paisagens e vilarejos na região rural.

Não foi uma decisão acertada. Tivemos azar com o tempo e pegamos muita chuva. O país inteiro é plano (ponto mais alto tem 300 metros!), então a paisagem muda pouco. A estrada até Tartu é praticamente uma reta. Pouco pudemos conhecer da cidade, que é a mais antiga do país. Uma cidade universitária, com um belo centro antigo, mas vamos mesmo é lembrar da chuva torrencial que caía. No trecho até Voru melhorou um pouco, saiu um sol e céu azul, dando até para curtir um pouco mais a viagem.

Este slideshow necessita de JavaScript.

É uma região com cultura e línguas próprias, com casarões de madeira antigos e prédios soviéticos.  Ali perto está Rouge, a cidadezinha que estávamos buscando. Muitas colinas com uma serie de  lagos, com vendedores de morangos na beira da estrada. A região mais bonita que encontramos no interior da Estônia. Depois disto foi uma aventura, por estradas de terra que nem pareciam estar dentro da União Europeia. Uma pequena ponte de madeira e uma placa indicavam que estávamos entrando na Latvia (Letônia) onde pegaríamos um pouco mais de chuva, pelo menos no primeiro dia.

Finlândia, a primeira viagem com bebê

Nunca imaginaria que a nossa primeira viagem com o Gabriel seria para Helsinque, a capital da Finlândia. Ele tinha acabado de completar 7 meses, e precisava conhecer terras mais distantes. Sonhamos com Ilhas Mauricios, mas não apareceu nenhuma promoção. Dai fomos mudando de destinos até que surgiu uma ótima oportunidade para os Países Bálticos, antigo sonho de viagem. De quebra a melhor passagem era para Helsinque, de onde pegaríamos um ferry para seguir viagem.

Viajar com bebê é bem diferente, mas depois de ver tantos pais com crianças na estrada, confesso que já não assustava tanto. Aquela história de que é preciso viajar antes de ter filhos já não fazia sentido há muito tempo.

Minha irmã, expert em viagem com filhos ( Viajo com filhos), sempre conta a história de quando o pediatra falou para ela que existem crianças no mundo todo, então não tem o que temer. A Finlândia, país com uma das melhores qualidades de vida do mundo, com certeza é um destino para se viajar de olhos fechados.

Na nossa primeira viagem internacional (o Gabriel tinha feito um voo nacional com 2 meses) desrespeitamos uma regra mencionada em diversos blogs de viagem, a de fazer voos curtos ou sem escala. Foi justamente o único problema que tivemos em toda a viagem. Se bem que não sei se o problema foi o tempo de voo, pois ele chorou no inicio da viagem. Moramos em uma chácara e ele dorme em um silencio absoluto, apenas com musica de fundo. No avião com tantas pessoas, luzes e televisões, existiam estímulos demais para que pegasse no sono. Por sorte a KLM nos forneceu o assento na primeira fila, com direito a bercinho e tudo (reservei gratuitamente antes).

O berço no avião ajuda muito!

O berço no avião ajuda muito!

Chegamos em Helsinque depois de uma longa viagem, e optamos por pegar um Uber em vez de trem ou ônibus. Logo estávamos no nosso apartamento, reservado pelo AirB&B. A Bibi começou a ver vantagens em viajar com bebê.

Não tenho muita pratica com reservas, normalmente escolhemos hotéis na estrada mesmo, e esta foi uma das grandes mudanças desta viagem, tudo reservado (ok, Europa Ocidental reservamos antes). O apartamento era minusculo, mas tinha uma pequena cozinha, então dava para preparar comida para o Gabriel. Era só levar e pedir para alguém esquentar em um restaurante ou café.

Ficamos no bairro de Kallio, antigo bairro industrial, hoje foi tomado por estudantes buscando preços mais baixos. Dezenas de pubs e pequenos restaurantes. Não é um lugar tão família, é bem jovem, mas bem localizado e com bons preços.

Kallio

Kallio

O transporte publico é super eficiente, mas é caro para bilhetes individuais. A saída é comprar os passes mais longos (24hs) se for usar bastante o metrô. Para bilhete simples, fica mais barato pegar um Uber se estiver em duas pessoas.

Não existem catracas no metro

Não existem catracas no metro

Tivemos azar com o tempo. A temperatura estava variando entre 10 e 15 graus, o que não é ruim, mas o problema foi a chuva, que não deu trégua. Caminhamos um pouco, mas acabamos mais é revezando entre cafés e restaurantes. Helsinque não é uma cidade cheia de atrações, quando eu pensava em viagens para a Finlândia, sempre sonhava com o norte do país, mas não deixou de ser um ótimo lugar pára nos adaptarmos.

Pinturas imitando pinturas rupestres em uma estação de metrô

Pinturas imitando pinturas rupestres em uma estação de metrô

Dois cafés e uma agua para a mamadeira

Dois cafés e uma água para a mamadeira, por favor…

Criança se adapta muito melhor que adultos. No segundo dia o Gabriel já dormiu a noite toda, enquanto nós estávamos acordados sentindo a diferença de fuso horário (6 horas). Para complicar, o verão na região tem noites muito curtas. O sol se punha as 22:50 e amanhecia às 3:50.

A Finlândia é famosa pela sua politica de bem estar social. Cobra altos impostos, o que reflete diretamente nos preços, mas possui os serviços básicos de saúde e educação de excelente qualidade. Isto acaba atraindo imigrantes, e nos divertimos e surpreendemos pessoas de Gana, Irã e Somália quando contamos de nossas viagens por lá. Ao perguntar sobre a vida na Finlândia todos tiveram a mesma resposta. Não da para ficar rico, mas pelo menos temos uma boa vida, trabalho e sabemos que sempre teremos o que comer!

Helsinque

Helsinque

Catedral Uspenski

Catedral Uspenski

Catedral Luterana

Catedral Luterana

Numa tregua da chuva

Numa trégua da chuva

Uma coisa que nos chamou atenção nas nossas visitas aos supermercados é que na nota vem discriminado separado o valor de um suco/água da embalagem. Tipo suco 80 centavos, lata 10 centavos. Uma maquina recolhe embalagens vazias e dá credito para gastar no estabelecimento.

Com a chuva deixamos o piquenique em Soumenlinna para uma próxima vez, e pegamos o ferry para Talim, capital de Estônia. Umas três horas de viagem, mas o Gabriel pouco se importava, estava mesmo é gostando de ter a atenção dos pais 24 horas por dia!

Partida do ferry

Partida do ferry

 

Espaço para crianças brincarem no ferry

Espaço para crianças brincarem no ferry

Encontramos um microondas para esquentar a comida que tínhamos preparado

Encontramos um microondas para esquentar a comida que tínhamos preparado

 

Dargavs, a cidade dos mortos!

Se Dargavs, a cidade dos mortos, ficasse em algum outro país europeu, seu dia a dia seria diferente. Existiriam filas de turistas, lojinhas vendendo cartões postais, imãs de geladeira e camisetas. Barracas de comida nas proximidades disputariam os turistas a tapa. Hotéis com vista para a “cidade”, tours diários direto de Vladikavkaz, passes especiais para visitas noturnas em dias de lua cheia. Com certeza estaria listado na lista do patrimônio da Unesco e figuraria entre as principais atrações de qualquer país. Mas (para nossa sorte) não está! Ela esta perdida no meio do cáucasos, isolada, parada no tempo, cercada por montanhas de pelo menos 4 mil metros…

Saindo de Vladikavkaz, fomos sentido sudoeste, como quem iria para a Ossétia do Sul. Não tinha como não lembrar com frustração que estava tão perto deste “não-país”, mas que não poderia visitar por ter perdido a data de entrada. O Marcelo me incomodava dizendo que esta seria uma grande “mancha no meu currículo”. Depois de diversos contatos e burocracia com as autoridades da Ossétia do Sul, agora os planos eram outros.

Arredores de Vladikavkaz

Igreja ortodoxa nos arredores de Vladikavkaz

Dezenas de guindastes se destacavam nas obras de novos conjuntos habitacionais sendo construídos nos arredores de Vladikavkaz. Igrejas ortodoxas e memoriais de guerra montavam a paisagem que se tornava rural, com as imponentes montanhas do cáucasos atrás. Na parada para abastecer, carros da Ossétia do Sul nos mostravam o quanto estávamos perto deste “País que não existe”. Já conformado que não iriamos para lá, agora tentávamos achara o caminho para Dargavs.

RSO- República da Ossétia do Sul

RSO- República da Ossétia do Sul

Venda de mel

Produção e venda de mel na beira da estrada

Uma estrada simples, pequena mas relativamente bem conservada ia acompanhando uma corredeira que trazia água de desgelo. Nosso motorista, chamado “Guia” estava animado. Nunca tinha ido para “temida” Dargavs – a cidade dos mortos. Diz a lenda local que quem visita a cidade não volta vivo. Não sei se foi por isto, mas um pouco para frente paramos num local para fazer oferendas. Ele nos deu moedas e nos chamou para jugarmos numa espécie de poço. Nem pensamos duas vezes, poderíamos estar garantindo as nossas vidas, era melhor seguir o script.

Não custa nada deixar umas moedinhas

Não custa nada deixar umas moedinhas

Fomos viajando entre as belas montanhas, quando passamos por uma cidadezinha, Koban (?), relativamente bem estruturada. Fortes antigos e diversas torres tradicionais ao longo da colina. O “Guia” tentava nos explicar que era um lugar turístico, onde “muitos estrangeiros” vinham. Ok, quem sabe (como osseta) ele estava se referindo aos Russos como estrangeiros. Ele escutava animado musicas internacionais, e enquanto tocou Sting, nos questionou se não era musica brasileira. Não nos parecia muito bem informado…

Ruinas do Forte

Ruínas do Forte

Torres tradicionais

Torres tradicionais

Mudamos os trajeto, agora não seguíamos entre as montanhas e sim montanha acima. Avistamos pela primeira vez o Monte Kazbegi, o mesmo que tínhamos visto dias antes do lado Georgia. Entre uma e outra encruzilhada ficamos na duvida para onde seguir. Fomos atendidos por um simpático casal de ossetas. Mesmo Dargavs sendo tão incrível, não tinham a menor ideia de onde queríamos ir. Tivemos que mostrar uma foto para nos apontarem a direção. Antes disso a senhora fez questão de me levar até uma pequena casa de madeira próxima do rio. O Marcelo, Leo e Khouri não entendiam porque eu tinha entrado no “banheiro” com ela e demorado tanto. Na verdade era o local onde ela produzia pão para toda a vila, acho que ficaram aliviados ao saber disto. O marido, provavelmente depois de ter tomado umas doses de vodka, nos abraçava e sorria sem parar.

Monte Kazbegi visto do lado osseta-russo da fronteira

Monte Kazbegi visto do lado osseta/russo da fronteira

Esqueça

Esqueça politica, conflitos e fronteiras, o mundo é feito de pessoas!

Indicações turisticas

Sinais do turismo na região

Não estávamos longe de Dargavs, e quando chegamos ao próximo vilarejo, decidimos ir caminhando, para observarmos melhor o ambiente todo. O rio Gizeldon estava tímido, com pouca água, mas todo o vale e as montanhas dão um clima especial para o lugar.

Rio

Rio Gizeldon

Primeira vista de Dargavs

Primeira vista de Dargavs

Dargavs, a cidade dos mortos, na verdade é um cemitério. São cerca de 100 criptas, construídas entre os seculos 12 e 16. Todas as necrópoles tem uma arquitetura bem singular e uma torre solitária se destaca um pouco mais a direita.

Dargavs

Dargavs

Torre

Torre solitária

Dargavs

Criptas com as montanhas ao fundo

Vista de cima da torre

Vista de cima da torre

O silencio tomava conta do lugar. Teias de aranha comprovavam o abandono, mas a beleza de todo o conjunto nos impedia de achar algo de assustador. Até mesmo os caixões abertos e os esqueletos pareciam estar em harmonia. Moedas nas entradas de algumas tumbas são a unica marca de que existe visitação por ali.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Uma das lendas é de que uma praga assolou a Ossétia centenas de anos atras. Dargavs teria sido construída para servir de abrigo para os doentes, que teriam vivido lá enquanto aguardavam a sua morte. Dai viria a história de que quem vai para Dargavs não volta com vida. Arqueologistas comprovam que as construções são bem mais antigas que a praga de poucos seculos atrás, que dizimou grande parte da população. De qualquer maneira não é difícil de imaginar que a praga tenha dado origem a esta superstição de não sair vivo de lá.

Dargavs

Dargavs

Teias e aranhas por todos os lados

Teias e aranhas por todos os lados

Cemitério tem que ter flor!

Cemitério tem que ter flor!

Dargavs

Dargavs

Dargavs

Dargavs

Depois de explorar toda a região por horas, procurar curiosidades, subir na torre e apreciar a vista fantástica do local, decidimos voltar. Durante o longo trajeto não fazíamos piada sobre não voltar de lá com vida. Não queríamos dar chance para o azar. Com tantas curvas, precipícios e motoristas com hábitos suicidas, demoramos para relaxar.

Visual na beira da estrada

Visual na beira da estrada

Poucas horas depois, contornamos Vladikavkaz e  nos aproximamos da fronteira da Rússia com a Geórgia. Uma fila de caminhões apareceu, nos mostramos que não teríamos tarefa fácil. Se na ida para a Ossétia o “Zico” deu um show de habilidade/contatos/proatividade, agora era a vez do “Guia” mostrar seus talentos. Furava fila, desafiava “caras de poucos amigos” e só parava quando aparecia um carro de polícia. Também tinha uns contatos por ali, o que claro que facilitou muito. Depois de varias situações, chegamos a imigração russa. Furando novamente a fila descaradamente, questionei porque ninguém reclamava. Ele só fez sinais mostrando telefones, armas e outras coisas que não entendi direito. A mafia estava conosco novamente, não seria desta vez que nos impediriam. A oficial da imigração se frustrou quando não entendemos nenhuma das perguntas que fez. Perdemos uns minutos mas logo fomos liberados.

A equipe! Agora parados em um congestionamento na "terra de ninguém", entre Ossétia (Rússia) e Geórgia

A equipe! Agora parados em um congestionamento na “terra de ninguém”, entre Ossétia (Rússia) e Geórgia

Mas não chegaríamos com tanta facilidade à Geórgia. ainda tinha toda a “Terra de ninguém”entre as duas fronteiras. Nosso motorista fez o possível e impossível, ultrapassou filas dentro de tuneis e tudo, mas uma hora tudo parou. Ficamos um bom tempo parados em congestionamentos, só observando a “mafia dos fura fila”. Nos aproximando da República da Geórgia a situação foi se normalizando. Na imigração nos olharam com certa suspeita, fizeram meia duzia de perguntas e nos liberaram. O transito fluiu e não demorou muito para chegarmos próximo de Kazbegi. A noite se aproximava e não imaginávamos ter que enfrentar um novo congestionamento, quando de repente cruzamos com milhares de ovelhas!! Uma situação no minimo inesperada, mas para falar a verdade nada mais nos surpreendia…

Congestionamento na chegada na Geórgia

Congestionamento na chegada na Geórgia

Azerbaijão, novo país do “faz de conta”?

O Azerbaijão, assim como seus vizinhos, fica bem na encruzilhada entre Europa e Asia. Se um pouco mais a oeste, em Istambul, a divisa dos continentes é o estreito de Bósforo, por aqui é a cadeia de montanhas do Cáucaso que faz esta divisa. Portanto esta linha não é tênue e sim quilômetros e montanhas de distância, fazendo da região meio Europa meio Asia.

Por ficar em uma encruzilhada, acabou tendo influência de todos os povos que passaram por ali. Os persas zoroastras, a conversão para o cristianismo, conquista dos árabes, chegada dos turcos que tiveram diversas disputas com os russos. Os azeris acabaram ficando uma mescla de tudo isto. São um povo turco, mas teoricamente seguem o islamismo shiita. Na verdade são bem seculares e europeus, porém muito hospitaleiros. Sem esquecer um toque de influência Russo-Soviética, que sempre deixa suas marcas.

Com uma ou outra exceção, a grande maioria das pessoas que conheço que estiveram no Azerbaijão, não eram muito entusiastas sobre o lugar. Desta maneira eu já fui com uma expectativa baixa, mesmo sendo o tipo de pessoa que geralmente acaba gostando de tudo.

..

Baku

Após perder minha conexão em Istambul, tendo que dormir uma noite no aeroporto, meu voo pela manhã não teve maiores problemas. Cheguei na imigração com o visto no passaporte, tirado na embaixada no Brasil. Recentemente que cancelaram  os vistos no aeroporto (as regras vivem mudando). Isto não facilitou tanto as coisas. Uma entrevista de pelo menos 15 minutos com o oficial da imigração, deixou inclusive outras pessoas passarem na minha frente enquanto chamava seu superior. Queriam saber o que eu ia fazer lá e porque eu não tinha o visto para a Geórgia (não precisamos) meu próximo destino. Deixou claro que depois de 3 dias no país eu precisaria me registrar, se não teria problemas. Havia lido que a antiga disputa com a Armênia pelo Nagorno-Karabakh tinha se reacendido, causando algumas mortes na fronteira. Não sei se esta instabilidade política os deixou mais cuidadosos, se são sempre assim, ou se tive azar mesmo.

Troquei um pouco de dinheiro para ter a moeda local, o Manat Azeri comigo (moeda forte, próxima do Euro). Para desespero dos taxistas, neguei todas as propostas que iniciaram por 20 Manat e caíram para 10 quando eu já caminhava pelo estacionamento do aeroporto. Não muito longe a parada de ônibus, que custa 0,30 centavos até a estação do metro. Os passageiros riam da tentativa dos taxistas e uns discretamente acenavam para eu embarcar no ônibus. Lá dentro queriam me dar lugar para sentar e até pagar minha passagem. Como não tinha troco, sugeri pagar para mais duas pessoas que estavam conversando comigo, mas quando o cobrador chegou, só me avisou que alguém já tinha acertado a minha passagem. Não demorou tanto assim para chegar no metro, mas deu tempo de conversar bastante, tanto com pessoas que falavam inglês, quanto com outras que pediam para eles traduzirem tudo. Bastante curiosos e simpáticos.

Meu novo amigo me acompanhou até o metro. Ia em outra direção mas fez questão em me levar até a plataforma que me levaria até a cidade velha. Os metros são bem no estilo soviéticos, em tuneis muitos profundos.

Chegando no centro, logo fui para a cidade mudara, caminhando pelas ruas estreitas buscando o lugar que iria ficar. Tinha reservado pelo AirB&B, achando que era em um apartamento, mas era um apartamento transformado em hostel mesmo. Bem localizado, mas sem nenhuma placa, pois não deve ter licença. Subi e desci as escadas até achar o lugar. Chegando encontrei meu amigo Marcelo, que viajaria comigo daqui em diante (ele foi comigo para o Haiti ano passado).

É fácil de perceber que Baku, a cidade dos ventos, é a capital de  um grande exportador de petróleo. Ao redor da cidade velha, muitos prédios e construções novas. É possível perceber a rápida mudança que vem acontecendo. Na praça da fonte, uma ou outra construção antiga, já perto de um Mc Donaldes bem movimentado. Um calçadão, Nizami Kuç, cheio de lojas e pessoas. Claro que é uma região moderna da cidade, mas vi pelo menos 50 mulheres com o ombro de fora para cada uma com a cabeça coberta. Difícil saber se é uma herança do comunismo ou culpa do capitalismo-modernismo. Um pouco mais para frente, no Heydar Park, calçadões que brilhavam de tão limpos. Fontes que a noite são todas iluminadas e coloridas e passagens subterrâneas pelas ruas todas com escadas rolantes e comercio padronizado. Um pouco arrumado de mais para meu gosto. Algumas crianças jogando bola eram a única coisa que dava um pingo de vida para o lugar. Do outro lado da cidade velha, na beira do mar Cáspio, um moderno calçadão, também impecavelmente limpo. Trabalhadores terminando novos edifícios e um novo e moderno estádio a vista. As três torres (Flame Towers) se destacam na cidade. Poderia ser um grande contraste com a cidade velha, mas na verdade é fácil de perceber que ela não é tão velha assim. Está quase toda reformada. Podem me chamar de implicante, mas também está um pouco arrumada demais para meus padrões.

.

Construções novas

.

Praças impecáveis

.

Novo e Antigo

É bacana se perder nas ruelas da cidade vela. Ao acaso ainda é possível ver algumas cenas do dia a dia, pois existem famílias que ainda moram lá. Outras construções já se transformaram em hotéis, restaurantes e lojas. Um ou outro lugar que ainda não foi reconstruído, trabalhadores se esforçam para terminar a reforma. Apesar das minhas críticas, existem lugares bonitos e interessantes. Alguns minaretes, o palácio Shirvanshah, a antiga praça do mercado, caravançarais, a torre Qiz Kalasi (Maiden Tower, com 30 metros de altura), sem contar a própria muralha e portões. O lugar é pequeno dá para conhecer rapidamente e ainda insistir um pouco buscando por alguma novidade.

.

Flame Towers ao fundo da Cidade Velha

.

Maiden Tower

Saindo das áreas mais centrais da cidade, uma serie de novas construções além de diversos prédios modernos prontos e vazios. Me lembrou um pouco uma mini versão do que vi em Ashgabat, Turcomenistão. Não muito longe, casas que não lembram em nada a quantidade de petróleo que o país tem. A desigualdade social é gritante, água de esgoto correndo entre as casas. Quem se foca só em uma das duas regiões vai ter uma opinião completamente unilateral de Baku.

Apesar do calor beirando o insuportável, encaramos uma curta viagem até Qobustan, uns 60 km ao sul. Congestionamento inicial ( e absurdo!) vencido, logo  percebemos um clima semi-desértico. Acompanhando o visual haviam praias com grandes hotéis, extração de petróleo e muita areia. Nesta região estão construindo o Khazar Island, ilha artificial cheio de atrações para quem gosta do estilo “Faz de conta”. Não muito tempo depois chagarmos no sitio arqueológico da idade de bronze. Diversas cavernas nas colinas com desenhos de milhares de anos. A região desértica da um clima para o lugar, com uma grande vista para o Mar Cáspio. Um museu muito bem montado, mas que tão deve atrair a atenção de quem não se interessa pelo assunto. Algumas atrações tentam se estabelecer como rota turística, a ali ao lado se pode visitar os “Vulcões de lama”. Pequenos orifícios borbulham e jogam lama de tempos em tempos. Ok, qual a próxima atração? Na tentativa de segurar o turista, criam roteiros. Na minha opinião nada mais são que “armadilhas para turista”. Nossa próxima parada Yanar Dag, já bem mais próximo a Baku (Suraxani) também decepcionou. A “Montanha de fogo” é um corte, como se fosse um barranco, de onde sai um gás que fica queimando. Tipo do lugar que a Bibi me mataria se a levasse para conhecer. Eu normalmente vou conferir, pelo menos para ver como é, mas quase perdi a paciência. Um casal de russos estava dividindo o carro com a gente, e a russa passou mal. Decidimos não ir no templo do Zoroastrismo Atesgah, que parecia bem interessante. De qualquer modo já fui em alguns templos de Zoroastrismo do Irã – alem de já estar meio  irritado, então acabei nem me importando muito.

.

Vulcões de lama

.

Museu bem montado

.

Petróleo

.

“Grande atração”

.

Mesquita Bibi Heybat – Construída nos anos 90 – cópia da antiga mesquita seculo 13

Normalmente eu quero voltar para os lugares que viajo. Neste caso considero a cidade como vista. Vale a pena? Sim, para passar uns dias, ponto. Talvez eu tenha sido injusto com o Azerbaijão. Como o foco desta viagem eram os “Países que não existem”, não explorei outras regiões do país, pelo pouco tempo que tinha. Fora das capitais e grandes cidades que a cultura e tradição se apresenta de maneira mais marcante. Se eu tivesse viajado para a cidadezinha de Sheki, no norte do Azerbaijão, ido para Xinaliq nas montanhas ou conhecido Quba Rayon (Krasnava Sloboda), quem sabe eu não estaria apaixonado pelo lugar. Se por um lado nunca é possível  ver tudo, por outro sempre é bom ter uma desculpa para voltar

.

Estação de trem

Pude me contentar com um pouquinho mais de Azerbaijão, que eu vi pela janela do trem, na lenta viagem até a Geórgia. Interagi como pude com outros passageiros e discuti sobre o eterno conflito de Nagorno-Karabakh. O garoto que estava na minha cabine com sua mãe e irmã, resolveu se aproximar no final da viagem. Venceu a timidez e se esforçando para falar inglês me mostrou fotos das suas aulas de dança latina. “Salsa, Rumblo, Tchatchacha” dizia ele empolgado. As perguntas sobre por que minha mulher não estava viajando comigo e qual o motivo de não termos filhos, acabaram não sendo respondidas. Tudo bem, também fiquei sem saber porque um azeri de 13 anos faria aulas de danças latinas…

República da Transnístria!

Lenin

Lenin

Com o colapso da União soviética, a Transnístria proclamou independência da então República Socialista Soviética da Moldávia (para um maior entendimento da região, ler sobre a Bessarábia também). A própria Moldávia, apesar de ter autonomia sobre a região, só conseguiu independência da URSS mais tarde. Foi quando se estabilizou como republica e aderiu às Nações Unidas que tentou reanexar a Transnístria. Uma guerra que se estendeu por mais alguns anos. A Transnístria, de maior parte da população eslava e língua russa, não se identificava tanto com os romenos da Moldávia. Com o apoio da Rússia, venceram a guerra e conseguiram se manter De facto independentes, apesar de não ter o reconhecimento internacional de nenhum país membro da ONU.

Não lembro ao certo quando escutei a primeira vez sobre esta república, só sei que passei a sonhar com um país congelado no tempo, um pedacinho da União Soviética que tinha sobrevivido. Depois de tanto viajar este era um destino que dava o famoso frio na barriga, muitas duvidas e poucas informações sobre o lugar.

No hostel em Chisinau-Moldávia me perguntaram se eu tinha certeza que iria para lá sozinho. Um conhecido, de um clube de viagens, alertou para eu ter cuidado com os guardas na Transnístria, famosos pela corrupção. Costumo ser um pouco cético quanto aos comentários das pessoas que nunca foram para um lugar, mas tem fortes opiniões sobre o destino. Confesso que me preparei psicologicamente para o pior, deixei até um dinheiro separado em um bolso para uma ultima tentativa de liberdade caso fosse necessário.

.

Brasão da Transnístria

 

Existem microonibus saindo com bastante frequência de Chisinau para Tiraspol, capital da Transnístria. A viagem é rápida e me surpreendi quando o controle de imigração foi antes do rio. Teoricamente Transnístria significa “Depois do (Rio) Dnester”, mas parece que o exército deles teve sucesso em conquistar lugares estratégicos. Um grande brasão com a foice e o martelo mostravam a entrada deste país que não existe. Na imigração, o oficial tentava me explicar em russo, que eu teria que me registrar caso ficasse mais que dez horas lá. Peguei o documento e respondi um “Sem problemas!” em português mesmo, pois percebi que ele não entendia nada de inglês. Soldados na beira da estrada e tanques camuflados protegiam a ponte que dava acesso para Tiraspol. Uma larga avenida passava por prédios alinhados, diversas propagandas em outdoors e bandeiras nas cores da Transnístria e da Rússia. Alguns monumentos e parques depois e começamos nos afastar da cidade novamente, até chegar no ponto final, em frente da velha estação de trem.

.

Cartão da imigração – Valido por 10 horas sem registro

.

Propaganda da independência

Estação de trem

Estação de trem

 

Logo fui em um guichê para trocar dinheiro, lá só aceitam o Rubro da Transnístria. Peguei o pequeno mapa, tentando não mostrar para ninguém, me localizei mais ou menos e parti para a caminhada. As ruas estavam desertas e uma vez ou outra passava um ônibus caindo aos pedaços. Entrei em um parque para fotografar uma igreja e ficava olhando para os lados com medo que alguém visse. Mesmo sem querer, acabei pegando a “neura” de pessoas que nunca tinham ido para lá.  Tentei me controlar, mas veio a lembrança um artigo sensacionalista que havia lido, que falava sobre a economia local ser basicamente contrabando de armas e trafico de mulheres. Duas quadras para frente, paro antes de atravessar a rua e vejo um Porsche vindo na outra direção. Me aproximando do centro noto que a quantidade de Mercedes é maior que dos antigos Lada. A cidade fica mais movimentada, não chega a ser viva, mas tem um dia a dia mais intenso. Ok, pode ter mafia-russa, afinal até uma base do exercito russo tem lá, mas com certeza as histórias da região são bastante aumentadas, e algumas viram “lendas-urbanas”. Passo por ruas com nome “Karl Marxa”, “25 de Outubro”e “Lenina”. Estatuas do Lenin também não são difíceis de serem observadas. Existe um grande culto ao passado, mas o presente não aponta nada para o comunismo.

.

Banco

.

Igreja ortodoxa

.

Parque Kirov

.

Ônibus velhos contrastando com Mercedes e Porche

Mal tinha iniciado meu tour pela região e me deparo com uma agencia dos correios. Não tive duvidas e entrei para ver se tinha algum cartão postal ou coisa do tipo. Na pior das hipóteses seria divertido explicar o que queria. E foi! Peguei fila e quando chegou a minha vez a senhora me olhou com cara de impaciente por não me entender – e eu não entender ela. Uma outra senhora sentada em uma mesa veio na minha direção e me atendeu em outro local. Conseguiu uns cartões postais e me ajudou a preencher, de forma que eles entendessem. Enviei dois cartões postais, que não tinha certeza se chegariam. Lembrei que nunca recebi os cartões que mandei do Iraque e do Turcomenistão, mas não custava tentar.

.

Cartões postais no correio da Transnístria

Poucas quadras dali tinha um pequeno museu que contava a história dos conflitos da Transnístria. Poderia ser um ótimo lugar para entender a história, mas todos os documentos estavam em russo, a simpática senhora que atendia ficava me acompanhando, apontava para um lado e para outro, mas a comunicação era zero. No final rimos muito, ela me abraçou e meu deu um tapinha nas costas me mostrando o caminho da saída.

Logo me deparei com a primeira loja, depois a fábrica da Kvint, antiga produtora (1897) de destilados, orgulho nacional, presente até numa nota do Rublo da Transnístria! Mais ou menos como se a Caninha 51 fosse estampada em uma nota de Real! Estranho para nós, mas não para um país onde o primeiro presidente  (governou por 10 anos) se chamava Igor Smirnov! Brincadeiras a parte, nenhuma relação com a Smirnoff.

 

Os produtos Kvint também podem ser encontrados nos supermercados Sheriff. A estrela, simbolo do “Sheriff” é facilmente visualizada. Só não se confunda, Sheriff também é marca de posto de gasolina, de hotel e até de clube de futebol!! Por mais que criem muitas histórias sobre o lugar, da para entender da onde tiraram a “ideia” que uma mafia controla tudo em Tiraspol. O clube de futebol Sheriff tem uma arena super moderna, alem de um centro esportivo bem completo, definitivamente “padrão Fifa”.

.

Estadio do Sheriff

Avenidas largas e arborizadas , muita propaganda nacional, algumas igrejas e um mercado de rua improvisado onde vendiam de tudo. Comi alguma coisa na rua mesmo e quando percebi já tinha “desencanado” bastante do lugar. Passei por mais alguns prédios soviéticos, palácio presidencial e cheguei até o cemitério dos heróis, um memorial dos mortos na guerra, com as devidas homenagens e chama eterna. Já estava fotografando tanque de guerra sem olhar (muito) para os lados.

.

Catedral da Natividade vista de longe

.

Senhora vendendo roupas com a estatua do General Suvorov atrás

.

Palácio presidencial

.

1792 – ano da vitória sobre os Otomanos

.

Memorial de guerra

.

Chama eterna em homenagem aos mortos

Deu tempo de me perder, andar sem destino, explorando a cidade. Aleatoriamente acabei passando na frente das embaixadas da Ossétia do Sul e da Abkhazia, países (que não existem) que reconhecem a República da Transnístria como país. Funciona quase como um clube dos excluídos, onde um apoia o outro (a República de Nagorno-Karabakh também reconhece).

.

Embaixada da Abkhazia e Ossétia do Sul

Presenciei também um casamento movimentado, jovens tomando sorvete, amigos bebendo, pessoas fazendo compras, crianças brincando, um casal brigando dentre tantas cenas comum do dia a dia. Por mais que se fantasie um país que não existe como algo do outro mundo, no final das contas as pessoas acabam tendo uma vida bem normal. Cada um com seus problemas.