A Costa do Ouro e o Império Ashanti.

Ghana foi uma das primeiras colonias africanas a conquistar independência, em 1957. A Costa do Ouro se juntou com o antigo Império Ashanti e outros dois protetorados para formar o novo país. Historicamente não faz muito sentido, são povos e línguas completamente diferentes, mas como país “moderno” até que funcionou. Os primeiros europeus que chegaram na Costa do Ouro foram os portugueses, seguidos por dinamarqueses, holandeses e britânicos. As influencias de todos eles são fáceis de observar na arquitetura e no nome dos diversos fortes espalhados pela costa, de onde levavam escravos, marfim, pimenta e ouro, é claro.

Os guias de viagem apresentam o país como “Africa para iniciantes”, uma descrição bem precisa. É um país muito fácil de viajar, relativamente barato, riquíssimo culturalmente, seguro, e onde o inglês é língua oficial. Não por acaso muitos jovens ocidentais escolhem a região ara fazer trabalhos voluntários.

Eu cheguei na capital do país, Acra, depois de uma longa viagem via Joanesburgo (bom preço pela SAA). Era domingo, e tive uma impressão um pouco distorcida da cidade. Perto do aeroporto diversos casarões das embaixadas, avenidas largas e sem transito, com pouquíssimas pessoas na rua. Uma tranquilidade. Como voltaria para Acra, fui direto para um hotel que fica num subúrbio, perto dos transportes para a costa oeste do país. Ao lado anel viário que contorna a cidade uma grande favela, com casebres de madeira e telhado de metal. Apesar do tamanho do bairro, tudo também estava calmo. Fui descobrir que era uma favela com maioria dos povos do norte de Ghana, que são Muçulmanos (no sul são Amenistas e Cristãos). Estava bem no meio do feriado do final do Ramadã, Eid All-Fitr e todos deveriam estar em suas casas.

Cheguei no hostel, e claro que o preço era melhor do que se tivesse reservado antes. São poucos lugares no mundo que vale a pena reservar pela internet. Foi o melhor hotel de toda a viagem, o único com água quente e café da manhã e um dos poucos com wi-fi. A maior parte dos outros hotéis que fiquei não tem nem endereço na internet, porem são mais baratos.

Claro que a capital de um país populoso como Ghana não poderia ser tão tranquila. Depois de viajar pelo Oeste da Africa voltei para Acra para pegar o voo de volta para o Brasil, e encontrei uma cidade toda colorida, pulsante, cheia pessoas nas ruas.

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Mas no subúrbio onde eu estava não deu para perceber isto. Saí cedo, mas mesmo nos grandes pátios de transporte, apesar de movimentados, não estavam cheios. Devia ser por causa do feriado. O ônibus que queria não passou, então eu decidi pegar um “Tro-Tro”(lotação) até uma outra região de onde saem os Tro-Tros para as diversas cidades da costa.

Vendedor de marmitas em um Tro-Tro

Vendedor de marmitas em um Tro-Tro

Foi uma “climatização”. Eu era um dos primeiros passageiros, e eles só saem quando lotam. Numa viagem terrestre pela África não se pode ter pressa, tem que deixar as coisas acontecerem. Um alto-falante ficava repetindo o destino da van, e o cobrador insistia para as pessoas entrarem, mesmo que quisessem ir para outro destino. Dezenas de vendedores ambulantes, vendendo de tudo. Mas nada insistentes, não estavam vendendo nada para turistas. Vendiam roupa, marmita, água, escova de dente, perfume, qualquer coisa que alguém pudesse querer comprar. E o comercio informal funcionava, pois todos pediam para ver, avaliavam o produto, as vezes compravam. Um vendedor de espelhos fez sucesso no Tro-Tro que eu estava e vendeu diversas unidades. Todos os produtos são carregados na cabeça, independente da quantidade e tamanho.

Fiquei conversando com o pessoal, aprendendo sobre o lugar, cultura e observando atento o dia a dia dali. Quando esbocei um cansaço o lotação saiu.

Diversas obras de viadutos e estradas apontavam placas da construtura Queiroz Galvão, e na saída de Acra, uma placa de amizade de Ghana e Brasil, comemorando a parceria entre os dois países.

Uma estrada simples mas sem muito movimento leva até Cape Coast, antiga capital da Costa do Ouro e importante atração turística. Lá se encontram o imponente castelo Cape Coast e Elmina. Elmina vem de El Mina, antigo forte português São João da Mina. Existem dezenas de fortes e castelos espalhados por toda a costa de Ghana, muitos deles patrimônio da Unesco. Estes são dois dos mais famosos, mas outros são mais recompensadores. Como eu não sou muito destes lugares preparados para o turista, segui para Takoradi, onde peguei outro tro-tro para Agona Junction e um táxi coletivo por estrada de terra até a vila de pescadores de Dixcove. Uma pequena rua levava até a bela baía em forma de ferradura. Incontáveis barcos de pescas com suas bandeiras tremulando devido ao forte vento davam um clima para o lugar. As pessoas (assim como em toda Ghana) eram muito simpáticas. Difícil passar por alguém que não perguntasse, “Tudo bem”, “Fez boa viagem” ou “Bem vindo”. Não eram invasivos, mas sempre muito educadas. No meio daquela vila de pescadores, fervendo de gente, para cima e para baixo com frutos do mar, não foi difícil avistar o Forte Inglês “Metal Cross”, se destacando na colina esquerda. Parecia fechado mas um rapaz logo se dispôs a abrir e me contar a história do lugar por alguns trocados.

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Aquele forte vazio, quase fantasmagórico trazia a lembrança de todo o trafico de escravos que aconteceu na região, e que seria lembrado em diversos lugares desta viagem.

A calma e abandono do lugar contrastava com a vida e energia da vila de Dixcove. Em uma vila de pescadores nunca é difícil achar algo para comer. Foi rápido para achar um dos meus pratos preferidos, lula. Era numa barraquinha de rua, não tinha acompanhamentos. Perguntei se era seca ao sol, mas era frita. Não pensei duas vezes. Pegava a lula inteira e ia arrancando os pedaços dos tentáculos com os dentes. Uma delicia!!

Vista panoramiza de Akwiida

Vista panoramiza de Dixcove

Barcos de pesca em Akwiida

Barcos de pesca em Dixcove

Prato de Lula

Prato de Lula

Em Dixcove não existem hotéis para ficar, então tinha que escolher entre duas alternativas. O balneário de Busua, que tem diversas pousadas em uma praia maravilhosa, ou a vila de Akwiida, que tem uma ou outra pousada em praias perto. Como a ideia não era descansar, claro que optei por Akwiida e a praia de Ezile Bay logo ao lado.

Outro táxi coletivo (tem que voltar para Agona Junction) para mais uns 20 km de estrada esburacada que passa no meio de seringais utilizados para a extração de borracha, e cheguei em Akwiida. Rapida caminhada por uma região rural até Ezile Bay.

Ezile Bay é uma praia particular, com diversos chales simples na beira da do mar. Um pequeno restaurante e uma super vista. O tempo não estava ajudando muito e eu era o único hospede do lugar. Preço bom, em torno de 5 USD para um quarto coletivo, mas que fiquei sozinho.

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A dona da pousada mora na Europa, mas os três funcionários estão sempre atentos para qualquer hospede que apareça. Um vai e vem de pessoas não deixa o lugar ficar parado, afinal a vila é ali ao lado. Dividi meu tempo entre conversas com os funcionários, tomando banho de mar, brincando com as crianças, fazendo caminhadas e explorando a parte velha de Akwiida.

Ponte movimentada

Ponte movimentada

Ponte na parte velha da vila

Ponte na parte velha da vila

Akwiida

Akwiida

Uma pequena vila mas com um dia a dia muito ativo. Quem vive de pesca tem que estar trabalhando duro todo o dia para garantir o seu sustento. Este seria um ótimo lugar para terminar a viagem e descansar um pouco, mas devido a logística e aos vistos, tinha que começar por aqui.

Quando chegou o dia de partir, comi bem numa pequena feirinha antes de encaram um dos primeiros Tro-tro da manhã. Tinha uma longa estrada pela frente. Akwiida-Angora Junktion-Takoradi. Em Takoradi me recomendaram não pegar um Tro-Tro e sim um Ford, pois iria mais rapido. Eu achein que o tal “Ford”seria uma carro e não uma van. Na verdade muda só a marca do veiculo.

A medida que ia avançando em direção ao norte do país, o clima se tornava mais tropical. Regiões de florestas começaram a aparecer e caminhões carregando grandes toras faziam parte do senário. Nosso motorista era hábil em pagar propina,  assim que a policia parava o “Ford” ele discretamente deixava uns trocados com o oficial e era liberado após um rápido aperto de mão.

A chegada em Kumasi, a segunda maior cidade do país, foi cansativa. Quilômetros de congestionamento, filas que não paravam. Vontade de descer e seguir a pé, mas eu tinha que chegar no centro pois nem sabia onde iria me hospedar. Não foi difícil de achar um lugar bom e barato, alem de bem localizado. Incrível como me senti em casa rapidamente em Ghana. Sai para explorar o gigantesco mercado central, andei para cima e para baixo, inclusive a noite, sempre me sentindo bastante seguro. Comi muito “Comi” e “Fufu”, uma espécie de polenta pegajosa que comem junto com molho de peixe. É o mesmo que o “Ugali” tão comum no Leste da Africa.

Kumasi é a antiga capital do Império Ashanti, que dominou toda a região central de Ghana. Era um dos grandes fornecedores de escravos para os europeus e tiveram diversas batalhas até serem conquistados pelos ingleses.

Arredores do mercado central

Arredores do mercado central

Até hoje o rei Asante, “Asantehene” tem bastante influencia e um poder politico paralelo. Ele é bastante admirado pelo povo Akan que abita a região. É possível visitar seu palácio, o Manhyia Palace, onde tem um museu para conhecer um pouco mais da história do reinado.

Kumasi também é a cidade natal do Ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Descobri que por ali dão os nomes de acordo com o dia que a criança nasceu. Todos os meninos que nasceram em uma sexta-feira são chamados de “Kofi”! Se fosse no sábado seria “Kwame”.

Além da costa, algumas das regiões mais procuradas pelos turistas em Ghana ficam nos arredores de Kumasi, além do grande lago artificial Volta. Existem bons parques nacionais como o Mole, mais meu próximo destino era o extremo noroeste do país, já bem perto da divisa com a Costa do Marfim e Burkina Faso.

Só consegui um ônibus convencional, que saia “perto das 4 da manhã”, quando lotasse. Fui cedo para garantir o meu lugar. Não estava muito feliz por não ter encontrado nenhum ônibus um pouco melhor, mas logo me convenci de que era a melhor forma de viajar. Não pelo conforto, mas pela experiencia que tive. As pessoas que pegavam o ônibus, eram muito simples e tradicionais, todas com cicatrizes no rosto. As cicatrizes funcionam como uma especie de identidade para os povos de diversas regiões. Já tinha observado isto em um ou outro lugar em viagens que fiz no passado, mas nunca em tanta intensidade. Algumas tinham um risco longo que vinha desde o final do olho até perto da boca, outras três ou quatro riscos como se fossem um bigode de gato, outras uma pequena marca na bochecha. Era como se fosse uma exposição da vida real. Daria para fazer um ensaio fotográfico para um livro tamanha a variedade. Cheguei a pedir para tirar uma foto de um senhor que eu conversava em uma das paradas. Ele negou gentilmente, e logo se afastou, mudou a forma de conversar comigo. Não adianta, a maquina fotográfica atrapalha muito em viagens deste tipo. Tem que curtir o momento, gravar na memoria, caso contrario vai perder completamente o clima.

Ônibus convencional. As pessoas fogem das fotografias.

Ônibus convencional. As pessoas fogem das fotografias.

Muitas horas de viagem e a paisagem começou a mudar novamente. De floresta passou a ficar mais árido, tipo um sertão. Eu parecia uma criança quando avistei a primeira mesquita com arquitetura sudanesa, tão comum nesta região.

Cheguei em Wa e estranhei que o povo não era tão simpático e atencioso como no restante do país. Consegui encontrar um lugar para ficar, mas as pessoas não sorriam tanto. Tinha aquele clima de cidade de fronteira, meio terra de ninguém. Explorei a pequena cidade, a antiga mesquita que já está caindo aos pedaços no meio de casebres, mas o ponto alto foi o Palácio do Wana, chefe do povo Wala. Consegui conversar com o filho do Wana, mas ele disse que seu pai estava muito ocupado, que precisaria marcar uma audiência com bastante tempo de antecedência para ser atendido. Fiquei curtindo o palácio, todo feito de barro com uma arquitetura tipica. Brinquei com crianças e quando estava jantando um jovem com uniforme escolar se aproximou pedindo dinheiro. Foi a primeira pessoa que me pediu dinheiro em toda Ghana. Ele falou que era para comer, mas o cheiro de álcool era fortíssimo no seu halito. Eu tinha tempo e resolvi incomodar. Eu dizia: “Se vc quiser sentar e comer eu pago, mas para bebida não. E continuei: “Conheço pessoas que perderam tudo que tinham por causa da bebida…blá bla blá”. Ele me olhou assustado e mudou de assunto rapidamente: “O que é tecnologia para você?” Eu mereço, isto que dá ficar conversando com bêbado!

Palácio Wana

Palácio Wana

Antiga mesquita de Wa

Antiga mesquita de Wa

Je suis Ghana!

Apesar de já estar “próximo” da fronteira, isto não mudou o fato de eu ter que madrugar para pegar um Tro-tro antes do sol nascer. As estradas são péssimas neste cantinho abandonado do país, e os carros quebram. O nosso quebrou, arrumaram, quebrou novamente, transferiram para outro. Muitas pessoas iam para a mesma fronteira. Depois de tantos acontecimentos e viagem intensa você acaba ficando amigo de todo mundo. Estranhei que ninguém ia na direção da imigração quando chegamos na pequena Hamale. Ficamos por aqui diziam. Eu sabia que atravessariam a fronteira, mas muitos fariam de forma ilegal.

Caminhei até a imigração onde novos oficiais estavam sendo treinados. Oficiais mais experientes ajudavam no procedimento. Olhando o visto de múltiplas entradas o rapaz que me atendeu disse: “Volte logo, você é sempre bem vindo!” E assim caminhei pela estreita faixa de terra de ninguém até a imigração de Burkina Faso.

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9 comentários em “A Costa do Ouro e o Império Ashanti.

    • Obrigado pelo elogio Milton! Na verdade estou mais para viajante, só tento relatar de forma espontânea algumas das minhas experiencias!
      Grande abraço!

  1. Ótimo texto! Deu uma super vontade de ir.
    Sempre soube que o personagem Kwame, de Capitão Planeta, era Ganês. Muito legal saber que ele provavelmente nasceu em um sábado. Eles pensaram em tudo

    • Oi Leonardo,
      não tinha me dado conta sobre o capitão Planeta 🙂 E olha que o nome de sábado foi escolha aleatória! Que legal que vc lembrou!
      Abraço

  2. Pingback: Finlândia, a primeira viagem com bebê | Saíporaí

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