O Vale de Hunza, o Pequeno-Tibet e o maior paredão do mundo!!

Karimabad e o mais próximo de um destino turístico no norte do Paquistão  e e fácil entender porque. A vila tem uma super vista para gigantescas montanhas (com destaque para Rakaposhi), ótimas caminhadas, uma forte cultura do hospitaleiro povo Hunza, deliciosa comida, e ainda muita historia.

A região tem muitos hotéis  mas quase todos vazios. Todos reclamaram muito que depois do 11/09 o turismo no Paquistão despencou. Os hotéis baratos (2 usd por pessoa) não estavam lotados, mas tinha bastante mochileiros. Encontramos algumas pessoas que estavam no ônibus que veio da China, como o excêntrico  figura rara, tcheco de 72 anos (e que já viajou para 155 países!!!), alem do nosso amigo japonês Koich, que encontramos pela terceira vez desde o Quirguistão  Como ficamos alguns dias, fizemos novas amizades, encontramos couchsurfer e nos sentimos em casa!

Já que estávamos bem no meio da montanha, tudo era subida ou descida. Não demoramos muito para visitar o antigo forte-palácio da região. Fica no topo da vila, e ficou ativo durante 800 anos, ate que com a chegada da KKH, caíram as monarquias. Os antigos reis receberam títulos simbólicos, mas ate hoje são idolatrados por muitas pessoas. Muita gente não se sente paquistanes por aqui, e sim hunzo. O forte-palácio e muito bonito, e com influencias tibetanas claras. Fácil de associar sua fachada com o palácio Potala de Lhasa. Isto ocorreu porque um príncipe de Hunza se casou com uma princesa de Skardu, região hoje a leste do Paquistão  e que antes fazia parte do império tibetano.

Hunza Fort

Em outras vilas vizinhas existem ainda outros palácios menores, e do outro lado do vale, atravessando o rio, ficava outro reinado, o rival Nagir, oponente de tantas guerras. Verão e época de diversas frutas, mas a especialidade da região são as ameixas amarelas. Misturam na comida, secam, fazem diversos pratos. Aproveitamos para nos abastecer destas frutas para fazer uma das caminhadas mais longas que encaramos na região. Subimos ate o Ultar Meadow, uma pastagem verde la no topo da montanha, atravessando cachoeira, penhascos e muita subida com pedra solta. Já estávamos relativamente alto, portanto num ar rarefeito. O Jonny teve que mostrar bastante superação  parecia um filme, mas encarou ate o fim. O visual inacreditável, o caminho desafiador, mas valeu cada uma das 7 horas. Teve gente que descobriu que tem medo de altura ao caminhar pelas “passarelas” na beira do abismo…haha

passarelas

unico caminho

no topo de Ultar Meadow

Tempo mudou rapido

A Bibi aproveitou para ler, na cama de chá especialmente virada para as montanhas. Passamos bastante tempo largados ali também  e as refeições com todo mundo junto era um momento a parte. Nosso prato favorito era o Chiken Karay, que intercalávamos com outros pratos para não enjoar.

esta vista custa dois dolares!

Numa de nossas caminhadas o Marco fez um amigo, que deu uma roupa de muçulmano para ele. Já estávamos pensando em comprar, mas como o Ramadan aqui é mega relax, nada de lenço na cabeça para a Bibi, dava ate para sair de bermuda, estávamos adiando. Esta parte de Hunza e de maioria Ismailis também, mas nem todo o vale e assim. Nos horários de reza, e principalmente no horário da ultima (ainda bem de madrugada), e primeira refeições (ao por de sol), as mesquitas cantavam alto, e de forma bem longa. Paralisávamos olhando para o horizonte como se estivéssemos hipnotizados, era de arrepiar!!

Um dia decidimos descer montanha ate a vila de Ganish, na beira da KKH. E uma cidadezinha mega antiga, com casas tradicionais, mesquitas todas trabalhadas em madeira e um lago como “praça” principal. Alguns antigos caravansarais ainda estão la, e a madeira onde os cavalos (ou camelos) eram amarrados continua ali, gasta de tanto ser usada. Fiquei pensando se o Ibn Batuta ou o Marco Polo amarraram seus cavalos ali. Existe um interessante sistema de refrigeração para alimentos, utilizando água gelada da montanha canalizada. Foi o primeiro lugar onde mulheres chamaram a atencao da Bibi por causa da roupa. Ali eles eram sunitas, e o mês sagrado do Ramadan deveria ser respeitado.

Caravansarai em Ganish

Em um outro dia, em vez de descermos, resolvemos acompanhar os canais, andando horizontalmente pela montanha. Passamos por casas de pedra, crianças jogando criket com pá, trabalhadoras no campo com roupas suuper coloridas. Muitas pessoas paravam para conversar, nos convidavam para entrar. Era final de tarde, e o lugar tinha uma magia no ar. A Bibi virou e disse: “sera que não poderíamos vir morar aqui, ou pelo menos passar uns meses?” Eu respondi com um ar de vitorioso: “ue, você não tinha medo de vir para o Paquistão? Não era um lugar perigoso?” Voltamos já estava escuro, andando pelas pequenas vilas e seus simpáticos moradores.

interacao nas vilas

Hunza faces

Chegou o dia de partir, mas como nos que comandamos, resolvemos ficar um dia extra, só aproveitando o lugar. Conversando com o Koich, decidimos fazer parte da viagem juntos, já que nos demos bem e nos encontrávamos toda hora mesmo.

De Karimabad fomos para Aliabad e de la para Gilgit, maior cidade da região norte do Paquistão  Gilgit funciona como uma capital, alem de ser barulhenta, movimentada e empoeirada. Ah, também havíamos descido bastante, portanto estava beem quente.

mais caminhões decorados pelo caminho

Comprei meu novo modelito, e eu com barba já estava passando por paquistanes. Gilgit ja e bem maior, principalmente comparado com as vilas que passamos, mas também não dava para ser chamada de cidade grande. Ainda e um mundo a parte do Paquistao. O esporte favorito no norte do pais e o polo. Mas não e um polo de playboy não, e um polo vale-tudo, onde a porrada come solta. Os campos de polo passaram a ser referencia nos mapas das cidades maiores que passamos ainda na região norte. A bravura não esta só nos esportes. No topo da montanha uma homenagem aos Gilgit Scouts. Formados pelos ingleses, foram os heróis da resistência e luta contra os indianos na disputa da Kashimira. Mesmo em menor numero, conseguiram garantir 30% da Kashimira para o Paquistão  mas este assunto eu comento mais para a frente.

Nos arredores de Gilgit ja tem muitas ruínas budistas, mas a maioria dos sítios budistas estão perto de Skardu, no estado de Baltistan, que significa Pequeno-Tibet. Na verdade o budismo chegou na China, e até mesmo no Tibet, passando pelo norte do Paquistão  Na região passa o sagrado rio Indus. A Viagem ate Skardu foi bela (como sempre), perigosa devido os desfiladeiros, mas especialmente dolorosa pelo micro-ônibus lotado e horas de duração.

Alem dos lugares de interesse de Skardu, a cidade seria ponto de partida para os Deosais Plains. Juntos com o Koich poderíamos alugar um jipe só para nos, já que não existe transporte publico para la. Depois de muitas discussões (saudáveis) com outros viajantes durante o jantar e uma noite bem dormida, estávamos prontos para negociarmos o transporte. Logo arranjamos um jipe e fomos para o mercado comprar comida para os próximos dias. A Bibi e o Jony compravam frutas enquanto eu fui cercado por locais, onde tivemos altas conversas. A maioria da região e de muçulmanos shiitas, e quando contei que tinha ido a Mashaad e falei sobre os Imams foram ao delírio. Não acreditavam como eu podia saber a historia da religião deles. Foi muito divertido!

paquistaneses em Skardu

Andamos pelas ruas caóticas  descolamos as barracas e sacos de dormir e estávamos prontos para partir. Nosso motorista colocou sua musica favorita, que repetia “Ali, Ali, Ali…” e cantamos empolgados. Mal sabíamos que ele ia repetir a musica umas 50 vezes, ate enjoarmos. Passamos por lago, mais postos de controle e subíamos sem parar. De repente, parecia ser mais um passe, aonde depois de uma subida viria uma descida, tudo mudou. Chegamos nos Deossais, estávamos a 4 mil metros de altitude, mas em vez de um descida, um planalto! Andamos por pequenas trilhas, atravessamos rios ate chegar em um rio com uma ponte suspensa. Era o lugar onde acamparíamos.

Infelizmente estavam construindo uma ponte de concreto ao lado, o que fazia o lugar perder um pouco do estilo. Sem contar que estava cheio de acampamentos dos operários  Mas de qualquer maneira o lugar era super calmo, bonito, e quando veio a noite, um céu espetacular!!!

A quatro mil metros de altitude a temperatura despencou rapidamente. Tínhamos sacos de dormir bons, mas as barracas emprestadas eram furadas, e tivemos que colocar grampos de roupa e fita para fechar os buracos. Quando chegou a hora de partir o jipe não funcionou. Tivemos que esperar mais algumas horas, ate a temperatura subir o suficiente. Se Deosai já estava bonito, depois de passarmos por mais rios, e outros lagos ainda mais bonitos, iniciamos uma descida com um suuper visual. Passamos por vilas e mais vilas. Estávamos sem mapa, mas nosso motorista foi pedindo informação e conseguiu chegar onde queríamos, Tarashin.

 

Estávamos muito na duvida se vinhamos para cá ou se íamos para os Fary Meadows. Ambos sao na base do pico Nanga Parbat, o oitavo maior do mundo. No Fary M., face norte, alem de alugar outro jipe, teríamos que caminhar três horas ate o local onde dormiríamos  Diziam ser mais bonito, ou pelo menos mais verde. A maioria das pessoas vão para la. Mas a face sul, a Rupal face, tinha um apelo maior (literalmente). Era o maior paredão de um campo base ate o cume, com mais de 4500 metros.

Não nos arrependemos. A vila tinha só duas pousadas, sem energia elétrica e claro. Já tinha um baita paredão bem de frente para os nossos quartos, mas sabíamos que não era o cume que estávamos avistando. Teríamos que contornar a montanha. Acordamos cedo, e logo estávamos atravessando nosso primeiro glacial, rumo a vila de Rupal. Só um amontoado de casas, muitas plantações e mulheres com roupas coloridas. As mulheres não conversavam conosco, nem deixavam tirar fotos. Já os homens eram super simpáticos, nos convidavam para chá, e teve um Sr. que ate colheu umas verdura para nós.

Rupal Faces

O Sr que colheu verduras para nos

A caminhada apesar de longa, não era difícil, pois era quase totalmente no plano. A Bibi nos acompanhou desta vez e adorou. Teve toda esta questão cultural antes de chegarmos ao acampamento base. O paredão nem parecia tao alto, mas tínhamos perdido a referencia. Tentando calcular com proporções e analisando melhor, vimos que grandes construções eram migalhas ao lado da montanha. Fizemos piquenique olhando aquela pequena pastagem com yakes, escutando os estalos seguidos de avalanche. Ainda sob o efeito da perda de perspectiva, decidi andar sozinho ate um glacial. Parecia perto, mas demorou um bom tempo. As flores, a neve branca e o barulho da montanha davam uma sensação fenomenal. Logo vi que poucos metros dali tinha outro glacial, que escorria da montanha e passava bem atras de onde estava o pessoal.

Nanga Parbat!

Na volta, passando pelas vilas, a Bibi ficou um pouco mais para trás  para ver se melhorava a interação com as mulheres. Deu certo!! Foi cercada, perguntavam mil coisas, cantaram, pediram para ela cantar. Eu tentei tirar fotos de longe, mas era um momento para ser curtido, não fotografado. Depois de muita insistência para ficar, ela partiu. Crianças foram seguindo ela ate nos encontrarmos. O entardecer ja chegava, e paramos no glacial para pegar gelo. Pratica comum. As pessoas vem com uma sacola, limpam a parte de cima do gelo, quebram pedaços para levar para casa. Quem precisa de geladeira?

so para mulheres

aprendendo a levitar

Depois de 13 horas estávamos de volta, tomando uma coca gelada com gelo do glacial. Durante a noite não dormimos, fomos desligados! Recuperados, estávamos prontos para seguir viagem. Lá estávamos nos, cedo para pegar o jipe comunitário ate Astor.

com nosso amigo Koich

Caminho pelo vale de Astor e muito bonito e chegando lá tivemos uma surpresa. Sempre estavam sendo super honestos a respeito dos preços, não tínhamos nem que nos preocupar. Desta vez o motorista resolveu cobrar o famoso “preço para turista” (primeira e unica vez no Paquistão, 10 vezes o combinado). Acabei com ele! Iniciei com um “vc vai cobrar mas caro de nos por sermos estrangeiros? Este não foi o preço combinado  então e roubo. Vc vai nos roubar em pleno mês sagrado do Ramadan???” Nisso ja juntou varias pessoas, todos dando opiniões  Terminei apontando para o céu e dizendo “ Alah esta vendo. Será que somos diferentes de vc ou somos todos iguais?” A multidão que tinha se formado me apoiava e pressionou ate o motorista ceder todo envergonhado.

Mais um ônibus  desta vez bom, ate com ar condicionado (ok, não funcionava direito) e voltamos para Gilgit, onde encontramos amigos suíços que não víamos desde o Uzbequistão.

Seguir pela KKH ou sair do caminho novamente? Tínhamos uma decisão a tomar.

Xinjiang nao e China!

Kashgaria sempre fez parte da Asia Central. Seu povo e língua são parentes dos seus vizinhos, não tendo nenhuma ligação com a China. Ha uns 60 anos atras a região foi anexada pelos chineses, mais ou menos na mesma época que a China invadiu o Tibet. Mais recentemente o governo passou a criar incentivos para que os chineses se mudassem para la e abrissem negócios (o mesmo que foi feito com o Tibet), visando assim acabar com a identidade do povo de Kashgar, os Uygurs. Urunqui, a capital da região  teve toda sua cidade velha destruida. Dezenas de mesquitas foram demolidas, mas os Uygures nao aceitaram esta invasão tao facilmente. Enquanto os chineses queriam seu vasto território desértico, mas cheio de petróleo  eles só queriam sua identidade, e vida tranquila que sempre tiveram.

Chegando na imigração chinesa novamente problemas com meu passaporte velho (sem chipe e foto 5×7 tosca), e para terminar, queriam olhar minhas fotos na maquina e por fim abriram meu computador. Ainda não sei se acharam que eu era jornalista ou terrorista. Ao sair da fronteira, negociamos um carro que levava trocentos galoes e mercadorias. Ao comprar agua agradeci em mandarim, para a revolta (com toda a razão !) do dono do estabelecimento. Eu sabia da questão dos Uygurs x Chineses, mas como arrisquei uns comprimentos em mandarim na imigração  acabei me confundindo. A estrada, para nossa surpresa, nao era nem um pouco boa. Para ajudar o nosso motorista começou a dar aquelas pescadas. Tentei puxar papo para ele não dormir, mas ele ano aguentou, encostou a caminhonete e deitou na direção  Eu me ofereci para dirigir e ele aceitou na hora, indo para o banco traseiro roncar. Dirigi não mais de uma hora e o pneu furou. Depois de trocarmos o pneu, o motorista voltou para o comando. A estrada era longa, e apesar de bonita, nem se comparava com a etapa final do Quirguistão  Os últimos quilômetros foram beem cansativos, e depois de algumas paradas, chegamos a uma autopista, e logo a ex- pequena cidade Kashgar.

Todos ficaram muito contentes com o hotel, que era bom, barato e super bem localizado. Outra coisa que foi suuper bem vinda foi a comida!! Nossa, que delicia. Estávamos precisando mudar o cardápio depois da Asia Central!! O pessoal só levou um baita susto com a pimenta, que achávamos que era tomate ao ver o prato.

Estávamos a uma quadra da cidade velha e na nossa primeira caminhada, aquela boa surpresa, lojas de antiguidade, temperos, frutas, alem de cobras e lagartos secos para vender dando todo um clima. Os uygurs super simpáticos  puxavam papo e logo chegamos na praça onde tem a antiga mesquita Kha. Logo percebemos uma movimentação de exercito e tropa de choque, que nos assustou um pouco. Depois entendemos a situação, e ate nos acostumamos com as tropas e carros camuflados.

Mesquita Kha

algumas coisas estranhas

acho que nao viram a placa

Tínhamos alguns dias ate o final de semana, quando teria o famoso mercado de domingo e o de animais. Kashgar ‘e uma cidade comercial a muuito tempo, uma das principais da rota da seda. Aqui a rota se dividia, e seguia mais a leste para Xiang ou para o sul, sentido India. Rodamos a cidade velha varias vezes. Final de tarde ficava caótica  cheia de barraquinhas de comida. Muitas comidas boas, e outras bem diferentes. Mas tudo por uns poucos trocados. Como ‘e Ramadan, as pessoas estavam loucas para pegar comida e fazer sua refeição assim que o sol se por. Muiitas opções de comida, entre fornos fazendo pão na hora e carnes penduradas sem nenhuma refrigeração. Sweet caos!!

Ramadan

Parte da cidade velha esta caindo aos pedaços  e parte esta totalmente reconstruída (não reformada). Existem cidades em que toda a cidade velha foi colocada ao chão pelos chineses. Visitamos a parte leste da cidade velha, ainda residencial. Muitas casas tradicionais, corredores estreitos, mas se olhássemos para cima já enxergávamos ruas e prédios modernos ao lado. A forca da China esta chegando com tudo. Poucos locais tradicionais se mantem em pé, mas felizmente mantiveram alguns deles, como a bonita tumba do Abakh Hoja.

cidade velha

velho x novo

A cultura Uygur esta diminuindo cada vez mais, apesar da resistência deles. Eles se recusam a aprender Mandarim, e se rebelam como podem. A dois anos atras teve um inicio de revolução  mas que foi duramente esmagado pelos chineses. Muitas perseguições, execuções e mesquitas implodidas.

Interessante como a mídia reage a estes novos protestos que aconteceram poucos dias antes de chegarmos. A maioria das agencia de noticias colocava os Uygurs como extremistas islâmicos  treinados no Paquistão e Afeganistão  Não estou defendendo a forma que estao protestando, pois houveram mortes e queimaram estabelecimentos, mas sua causa ‘e nobre. Não e fácil conversar com um vendedor na rua e ver seus olhos se encherem de lagrimas ao falar sobre o que sua vida se transformou depois da ocupação chinesa. A China esta colonizando e fazendo as mesmas coisas que os países europeus fizeram nos últimos seculos. Os países ocidentais dizem “amem” para a China por diversos motivos. Pela potencia econômica que e, que empresta dinheiro para o pais mais rico do mundo quando este entra em crise, e para combater o Islamismo, como se este fosse inimigo do ocidente. Vendo tanto exercito, detectores de metal sendo colocados nas portas da mesquita, e áreas sendo isoladas, claro que tentamos encontrar o maior numero de informações  Da vontade de rir ao ver o que esta acontecendo e o que a mídia fala. Me surpreendi ao ver uma matéria no Brasil não tendenciosa como as outras. (Clique aqui)

Uygur observando movimentação das tropas de choque

mendigos olhando o noticiário na praca

O gigantesco mercado de domingo e um caos. Tem de tudo, mas acabamos não achando coisas que tínhamos visto durante a semana. Nos divertimos negociando, e nos arredores do mercado, numa região não tao turísticas  juntou uma pequena multidão para ver a Bibi barganhando uma camisa-vestido,davam opinião na cor, estilo, preço, estava demais.

Mulheres uygures no marcado de domingo

Pegamos um táxi ate o mercado de animais, mas acabaram nos deixando no lugar errado. Pegamos um trator de volta. Isto, um trator. Kashgar pode estar se modernizando, mas ainda e muuito comum ver pessoas andando de trator nas avenidas, de carroça e de burros. Muitas vezes na contramão  sem causar nenhuma estranheza. Chegamos no mercado de animais na metade do dia, e estava quente, muito quente. Já na entrada um caminhão saindo com Yaques (aqueles bois peludos dos Himalaias) se debatendo dentro de caminhões  Pessoas colocando ovelhas no porta malas ou amarrando na sua moto. Uns levavam no colo, outros davam chutes nos bichos. Vacas, cavalos, cabras, ovelhas, camelos, yaques, tudo num patio empoeirado, mas bota empoeirado nisto. O lugar parecia congelado no tempo. As pessoas, deitadas na sombra e sem tomar água por causa do Ramadam eram uma atração a parte. Só não imaginávamos demorar tanto para pegar um transporte dali. Ficamos um tempão buscando carona, táxi  carroça ou ate um trator. Tudo passava lotado, mas depois de muita insistência deu tudo certo.

Sopranas no taxi

mercado de animais

Tomamos nossas ultimas cervejinhas, pois sabíamos que teríamos semanas de seca pela frente. Organizamos um transporte e ja cedo pegamos estrada rumo ao sul. Não demorou muito para recebermos a noticia que não poderíamos passar de um check point sem autorização  Demos meia volta com menos de uma hora de viagem. Nova informação chegou que poderíamos passar, se falássemos que estávamos indo direto para o Paquistão  sem dormir em território chines. Comemoramos e seguimos em frente. Não demorou muito para a Karakoran Highway mostrar a sua cara. O asfalto foi terminando, apesar de muitos operários e maquinas na beira da pista, e as montanhas foram ficando cada vez mais impressionantes.

ainda com asfalto

Ao chegarmos no lago Kara Kul, já sabíamos que iriamos passar a noite la, mesmo contra a vontade das autoridades chinesas, que nestas alturas nem tinham mais controle sobre nos. Procuramos yurts ao norte do lago, e achamos uma família muito simpática  Eram Kyrgs, mesmo sua família nunca tendo tido nenhum contato com o Quirguistao. Kyrg ‘e etnia, não nacionalidade! Para nossa surpresa nosso amigo japones Koich, que conhecemos no Quirguistao, tambem estava acampando la. Camelos na beira do lago e montanhas com mais de 7 mil metros davam o clima. Yurt nada turístico  dormimos todos juntos, e acordamos cedo com nosso anfitrião rezando e comendo antes do sol nascer (lembram que e ramadan?). Aproveitamos e saímos cedo, por paisagens tao fantásticas quando no dia anterior. Chegamos em Tashkurgan, terra de Tagics e fomos direto ate a imigração  onde aguardamos o único ônibus diário por um bom tempo. Fizemos todos os procedimentos de saída do pais, embarcamos no ônibus acompanhados por soldados chineses, que viajaram com a gente por mais algumas horas, teoricamente passando por terra de ninguém  mas que esqueceram de avisar os pastores e seus yaques. Os soldados chineses desceram do ônibus e estávamos no Khunjerab pass, a quase 5 mil metros de altitude. Avistamos a primeira bandeira paquistanesa, mas ainda levaria algumas horas (e centenas de curvas) ate chegarmos na imigração do pais.

pela janela

Sírio-libanês!?

No Brasil usamos muito o termo sírio-libanês, como se fosse uma só coisa. Não e nenhum preconceito, nem desconhecimento, assim como kibe e esfirra eles estão sempre juntos, mas são diferentes. A verdade e que a imigração para o Brasil ocorreu ainda no seculo 19, quando ainda não existiam as nações independentes de Síria e Líbano.
Brasileiro não costuma vir muito para esta região (a não ser os que tem descendência sírio-libanesa). Já viajantes de outros países se assustam pelas (não) recomendações de seus governos, tratando a região como áreas de risco. Envolvimentos de Sírios no 11 de setembro; a invasão e guerra de Israel no Líbano em 2006, fizeram o turismo despencar. Uma pena para a economia local, mas uma tranquilidade para quem vem para cá. A cultura e tradição de Damasco, a modernidade de Beirute, mereceriam uma atenção maior das pessoas que planejam uma próxima viagem, e isto que estou falando só das capitais. Sem falar da simpatia do povo, e da deliciosa culinária, que vai muito alem de kibe e esfirra… Você vai escutar Habibi, Habibi toda hora, e não e a cadeia de restaurante e sim algo como “querido”, e “Pão Sírio” aqui se chama só “pão” (Gi, esta foi pra vc)!!
Da fronteira de Israel/Palestina fomos ate Amã, onde só fizemos uma conexão e seguimos para a Síria. As informações sobre vistos na fronteira novamente eram contraditórias. Na internet e guia, falava que tinha que tirar com antecedência, mas pessoas que encontrávamos falavam que dava para tirar na hora. Foi super rápido, e logo estávamos em território sírio. Pouco depois, olhando o visto que e todo em árabe, observei escrito 3 jours bem pequeno. Acho que porque falei que íamos para o Líbano e voltaríamos para a Síria, acharam que não ficaríamos muito em Damasco. A comunicação nunca e clara, então acontece estas coisas.
As opções de hotel baratos ficam muito próximas uma da outra, alem de perto da cidade velha, o que facilita muito. Ficamos num hotel que e um casarão antigo, com um patio interno super gostoso. Paredes com pinturas e decoração tipicas, poltronas e sofás com narguilés estrategicamente posicionados. Placas proibindo o consumo de álcool mostravam que a religião e levada a serio. As pequenas ruas ao redor faziam quase que uma barreira das avenidas, transito e poluição dos arredores. A região e cercada de cafés, sempre lotados de sírios. Com o inicio dos jogos da copa, o movimento que já era grande aumentou um monte. As centenas de bandeiras do Brasil espalhadas pela cidade tinham uma concorrência: bandeiras da Alemanha. Mesmo em menor numero, deu para ver que o apoio para eles não era pequeno.
Falam relativamente pouco inglês na Síria, então ao nos informarmos onde era a imigração para prolongarmos nosso visto acabamos indo em um lugar errado. Ate descobrir que não era la demorou um pouco, pulando de escritório em escritório, ate encontrar alguém que falava francês, pois inglês tava difícil. Descobrimos o lugar correto, e daí foi só encarar a burocracia. Paga uma pequena taxa, compra selo, tira fotocopias, leva papelada numa sala, volta para outra, fica em filas que se misturam para passar por 3 mesas numa pequena sala, carimba, vai em outra sala, pega assinatura, pula de mesa em mesa novamente (não em forma sequencial), muuita burocracia e tudo da certo no final. Era de rir.
Damasco e uma das mais antigas cidades constantemente habitadas do mundo. De 5 a 7 mil anos antes de Cristo já tinha gente vivendo por aqui. A cidade velha e muito legal. Murada, com seus mercados, ruas estreitas, mesquitas, ruínas romanas, igrejas, tudo muito vivo. Nada montado para os turistas, e sim para o dia a dia. Seguimos as filas para experimentar os deliciosos sorvetes locais, e andamos por tudo ao longo dos dias.
A mesquita Umayyad, fica não muito longe da entrada. Um antigo templo romano, que virou uma Basílica Bizantina, e depois da expulsão das cruzadas da região se transformou na mesquita. Muito bonita, com seu patio gigantesco, mosaicos e torres. As mulheres precisam colocar um roupão para se cobrirem e a Bibi teve que seguir as regras. Na sala de orações tem um lugar onde dizem estar a cabeça do São João Batista. Deve ser desde a época da Basílica Bizantina, se bem que ele é um profeta para o islamismo também. Em outra parte da mesquita estão os restos mortais de Husseim, importante muçulmano, neto do profeta Maomé. Um simpático iraniano matou nossa curiosidade. Por falar em heróis, existem tum ulos de alguns heróis das guerras contra as cruzadas por aqui, entre eles o Saladim.

Cidade velha de Damasco

Mesquita Umayyad

Aproveitei que a Bibi ficou estudando naquele lugar chato que descrevi do hotel, e sai para desvendar um pouco mais da cidade velha. Lojas de tempero com cascos de tartaruga, estrelas do mar e outras coisas esquisitas penduradas. Tentei perguntar o que era e já queriam empacotar para mim. Acabei parando no meio de uma mesquita Xiita, muito bonita, toda decorada e com grandes lustres. Tava tendo pregação em alguns pátios e fiquei observando. Um senhor se aproximou falando um inglês perfeito, e aproveitei para entender um pouco mais da diferença dos xiitas e sunitas (principais ramificações do Islamismo).

Patio do nosso hotel

Dentro de uma mesquita xiita

Macumba?!

Fui no bairro cristão, primeiro sozinho e depois com a Bibi. Andamos aleatoriamente pelos corredores, explorando a região. Existem algumas passagens da Bíblia que ocorreram por aqui e fomos conferir. Visitamos uma casa damasense do seculo 18, que foi transformada em museu. A Bibi também deu a olhadinha dela nas lojas, e a tranquilidade dos vendedores surpreende. Jogam o preço la em cima, esperando que você negocie, mas não são nada insistentes. Se falar que vai dar uma olhada em outros lugares eles ate te incentivam, agradecem e pedem para você voltar (e e claro que sempre tem coisa mais barata para frente). O povo e super simpático, e de varias maneiras achamos parecido com o povo brasileiro. A expectativa era grande, pois só ouvíamos falar maravilhas do lugar, e não nos decepcionamos. E daqueles lugares difíceis de ir embora. A cidade e grande, bagunçada, meio caótica, mas parece pura, tem personalidade. Conhecemos dois jornalistas brasileiros, Mauricio e Wilian, que estão viajando a quase um ano e mandando matérias para o Brasil. Aproveitamos para falar bastante em português, falando do Brasil, mundo e de nossas vidas e escolhas. Muito gente boa, fomos jantar juntos quase todos os dias.
A Bibi resolveu não encarar a ida ate Palmira, ruínas romanas que ficam no meio do deserto, já próximo ao Iraque. Na verdade já pertenceu a diversos povos antes dos romanos, e era estrategicamente muito importante para as caravanas que passavam por ali. São umas três horas de viagem, e escutei novamente o quanto o mundo foi injusto com o Iraque, assunto muito comum na Jordânia também. A cidade em si e pequena e empoeirada. Quente, muito quente. Com certeza a temperatura passava dos 40 graus. Andei sozinho pelas ruínas da cidade, um dos principais locais de visitação da Síria.

Palmyra

Fui comer alguma coisa e me proteger do sol. Por sorte tava tendo jogo da Argélia, único time árabe da copa, portanto com a torcida de todos. Me diverti. Ainda encontrei os jornalistas brasileiros com quem passei um tempo. Fui num castelo em cima de uma montanha, local com uma vista impressionante de toda a região. Infelizmente tava meio nublado esta hora, e vi que o por do sol não teria nada demais. Resolvi encarar as 3 horas de viagem para ficar com a Bibi. Chegando na rodoviária taxistas me cercaram. Ao falar que queria pegar um ônibus, não se opuseram nem insistiram. Um deles me levou pela mão e andou ate o ponto me mostrando qual ônibus pegar, além de falar para o motorista onde eu iria descer. Da para acreditar? I love this place!
A Bibi conheceu um senhor que trabalhava na União Árabe e acabamos indo de carona com ele para o Líbano em alto estilo, de motorista e tudo. Tava engraçado ele de terno e gravata, indo para uma reunião, e nos com as mochilas, de bermuda e chinelo. O cara e muito gente boa e fomos conversando o tempo todo. Bom ver o ponto de vista de um egípcio muçulmano, que viaja todos os países árabes e morou nos EUA. Ainda tivemos um imprevisto na fronteira, por algo que escreveram no nosso passaporte quando prorrogaram o visto, mas o solicito e simpático oficial da imigração resolveu tudo da forma mais rápida possível. Infelizmente isto fez com que nosso amigo se atrasasse para a reunião, mas acho que o bate papo foi proveitoso para os dois lados, então ele não deve ter se importado taanto. Nos despedimos já em Beirute, quando ele foi trabalhar e nos procurarmos um hotel barato para ficar.
Achar um lugar barato para dormir em Beirute é fácil, pois praticamente só existem três ou quatro opções, então você sabe exatamente aonde ir. O próximo problema e que estão sempre lotados. Arrumamos um quarto ate que ajeitado numa pensão, mas o problema e que tinha gente caindo pelas janelas de tao lotada. Dormito rios, camas no terraço, até no corredor e sofás da sala!! Impossível se sentir em casa. Conhecemos um DJ gaúcho que esta morando por ali e deu umas boas dicas da região.
Beirute e moderna, descolada e a primeira vista muito rica. O centro da cidade foi todo reconstruído, pois depois de bombardeiros não sobrou nada. Fizeram uma arquitetura antiga, com jardins e lojas de marca. Muito bonito, glamouroso, mas meio artificial. Mulheres andam com roupas curtas e decotadas, e o numero de “moderninhos” e muito grande. Na corniche, calcadão beira mar, e um desfile de carros, os libaneses gostam de aparecer. Vimos diversas Ferraris, Porches e a quantidade de táxis da Mercedes é incontável! Mas não tem praia propriamente dita. São pedras onde o pessoal usa para mergulhar, pescar ou ate fumar narguilé. Os chiques e famosos usam alguns dos clubes ou marinas, todos estruturados, perfeito lugar para ver e ser visto. No topo de uma colina centenas de pessoas se reúnem para ver o por de sol, com os pingen rocks, pedras que saem do mar, dando todo um charme.

centro reconstruído

visual do cafe no por de sol

beira mar

Existem bons cafés nesta região, onde novamente os libaneses exibem seus brinquedinhos estacionados na frente. O pessoal aqui gosta de comer bem, beber e festar. Alias, festar como se não houvesse amanha, o que ali pode não ser só uma expressão. Ouvimos seguidamente historias de que poderia estourar outra guerra neste verão. Nos avisaram para ficar de olho no porto, se esvaziasse era para nos preocuparmos. Para alguns e só tática dos israelenses para espantar o turismo, que representa grande parte da receita do Líbano. Aproveitamos o embalo e fomos conferir uma das noitadas. Resolvemos encarar a famosa BO18, clube da moda por aqui. Convidamos um americano e uma americana para irem juntos com a gente. Foi engrado, pois ao descer do táxi no estacionamento, andamos meio sem saber onde era, ate apontarem para nos a entrada, que era uma escada no meio do estacionamento. O lugar e embaixo da terra, um bunker. O segurança tentou conferir a lista de convidados, pois não se compra entrada, só entra “a galerinha”. Pior que não tinha roupa de sair, então tava beem largado. Mas pra estrangeiro sempre e diferente, e sendo casal foi mais fácil também. Noitada pegando, muito divertido. O teto se abria de vez em quando, e só dava para ver o céu e alguns seguranças la em cima. Dizem que mais tarde chega muita gente de festas particulares e ficam no estacionamento também. Libaneses e Israelenses podem ter varias diferenças entre si, mas os dois gostam de uma festa e tem mulheres muito bonitas.
Beirute ta toda enfeitada para a Copa, e vimos a estreia do Brasil numa das ruas dos barzinhos. Depois do jogo teve buzinasso e tudo! Aqui também a seleção tem um grade apoio, seguida pela Alemanha. Ao contrario de Damasco, que era uma unanimidade entre os viajantes, encontramos muitas pessoas que não gostaram muito de Beirute. E uma cidade movimentada, moderna e cara, mas nos aproveitamos bastante.
Claro que nem tudo são flores. E um lugar de grande desigualdade social. E fomos conferir essa parte também. Fomos ate o antigo assentamento palestino de Chatila/Sabra, hoje praticamente uma favela, onde ocorreu um massacre um 82. O exercito israelense, ao isolar Beirute e afastar a resistência, isolou este bairro palestino e deixou uma “milicia crista” entrar e matar mais de 2000 civis palestinos. Agora bato na tecla do meu outro post: “Milicia Crista”? Um cristão de verdade faria isto? A mesma coisa dos “atentados muçulmanos”. Isto e religião ou politica?
No ônibus para Chatila conversávamos com uns palestinos quando um viu minha tatuagem e mostrou a sua. Estava escrito “Ali”. Eu comentei com ele que deveria ser xiita, pois Ali era o primo e genro do profeta Maomé, que casou com sua filha Fátima. Ganhei a confiança do cara na hora, valeu a pena ter feito o dever de casa na mesquita! Logo na primeira rua que descemos, ao pedir informações vimos o abismo social que existe no Líbano. O cara nos informava qual parte era de domínio do Hezbollah, Fatah, Hamas e outros grupos. Fomos andando e nas primeiras quadras não nos sentimos muito bem. Eu fiquei meio assim por ter trazido a Bibi, se tivesse sozinho seria diferente. Alem de mal encarados, o pessoal ali eram todos torcedores da Alemanha! Mas não demorou muito para tudo mudar. Entre as bandeiras de Hamas, Fatah, fotos do Arafat e do Templo da Rocha, gigantescas bandeiras do Brasil passaram a aparecer.

Terroristas?

Não eram só as facções politicas que dividiam o bairro, mas também as preferencias futebolísticas. Começamos a conversar com um senhor e logo foi aparecendo gente. Fomos andando e já tinha uma duzia de jovens conosco. Nos convidaram para sentar e tomar um chá, e trouxeram copos do Brasil. Todos estavam com camisetas e faixas da seleção. Ficamos conversando um tempão, falando sobre suas dificuldades por serem palestinos, falta de direitos, mas também de sonhos, desejos e dia a dia. Pessoas do bem, jovens cheios de vida e ideias. Com o tempo, ao se sentirem confortáveis, mostraram fotos deles uniformizados e armados. Era difícil de acreditar, mas fácil de entender. Assim como o soldado israelense que conhecemos la, o pessoal aqui ta cansado de tanto conflito, mas por causa de meia duzia de louco de cada lado, civis continuam morrendo. Nos levaram para caminhar mais, nos deram presentes e não nos deixaram pagar nada, nem o chá. Entramos num café e fizemos a maior bagunça cantando musica do Brasil, tocando bumbo e corneta, muito divertido. Até na hora da foto fiz chifrinho na piazada. Nos escoltaram de volta ate onde pegaríamos o ônibus. Comentaram que o inicio do bairro era meio barra pesada, pois era onde existia o trafico de drogas. Explicaram que os palestinos que se davam bem e iam morar em outros países e meio que esqueciam a “causa”. De certa forma lembravam da frase que o Arafat quando ainda jovem escreveu com seu próprio sangue para o exercito Egípcio: “Don’t forguet Palestine”. Eles já queriam combinar alguma coisa para fazermos no dia seguinte e saber quando voltaríamos lá. Trocamos emails e contatos e saímos com o coração apertado.
Seguindo o roteiro não tradicional, um dia fomos ao sul de Beirute, para Sidam (saida). Não, nossa principal intenção não era visitar esta cidade fenícia citada na Bíblia, com mais de seis mil anos de historia. Faríamos uma conexão la para ir no recém inaugurado museu do Hezbollah. Ao descer no ponto de ônibus a comunicação com os taxistas não era fácil, e não sabiam onde queríamos ir. Ao encontrar um senhor que falava Inglês, ele me perguntou: E acham que vão deixar vocês entrarem? Realmente o lugar era novo, e o pessoal não tinha informações. Ouvimos falar que tinha sido inaugurado a menos de duas semanas. Mas a areá era conhecida, e o motorista cristão ficou fazendo mistério, dizia para não falarmos inglês que era perigoso. Mostrou suas cicatrizes da guerra, mas logo vimos que ele era louco mesmo. De qualquer forma chegar nas montanhas, em área do Hezbollah, nos causou silencio. Bandeiras em todos os postes, alem de fotos dos mártires (homens bomba e heróis da resistência) davam o clima para o lugar. No meio de uma vista magnifica chegamos a um grande estacionamento, com dois ônibus e muitos carros. Na hora deu para ver que logo este lugar vai ser uma grande atracão turística, listada em todos os guias de viagem. Novinho em folha, algumas partes ainda não estão nem abertas ao publico, como a loja de lembranças. A estrutura e perfeita, iluminação, placas em inglês e árabe, água, ate salas para se rezar. Parece que quem construiu foi para a Disney para tirar ideias (hehe, desculpe, não me aguentei!).
Bem, e um museu em céu aberto, na região onde houveram os combates entre os Israelenses e o Hezbollah. Uma forte propaganda mostrando como eles eram a resistência libanesa, e com menos armas e tecnologia conseguiram lutar. Mesmo estilo dos locais que visitamos no Vietnã. Existem bunkers cavados nas pedras, com longos tuneis e material exposto. Armas, tanques e foguetes da resistência alem de material capturado e destruído de Israel. Duas partes chamam muito atenção. Uma especie de furacão, com arcos e muitos tanques e armas de Israel destruídas, junto com capacetes de soldados israelenses, como se fosse um “obra de arte”, e o memorial para os mártires. E uma escadaria bem íngreme, alta, que se sobe com esforço e ao olhar em frente só se vê o céu. Chegando la em cima tem um jardim super florido com a homenagem aos mortos, e tudo cercado pelas belas montanhas. O esforço, sacrifício, céu e paraíso estão evidentes, mesmo não estando escrito em nenhum lugar. Pena não termos conseguido ver o filme que passa algumas vezes ao dia. Uma sala só dedicada a Israel não tinha tradução em Inglês. Acredito que a propaganda devia ser forte. Muitas famílias e turistas árabes, mas acho que logo os estrangeiros vão descobrir. Com certeza valeu a pena.
Hezbollah!

Museu muito bem montado. Ispirado na Disney?rs

Turismo local

Estávamos felizes quando saímos de Beirute para as montanhas no norte do Líbano. Mesmo tendo gostado bastante da experiencia, precisávamos um pouco de paz, ficar longe do barulho e movimento da grande cidade.

Deuses e (ou) Demônios (?)!

Segundo a lenda, Deuses e Demônios estavam brigando por um pote que continha o néctar da imortalidade. Vishnu conseguiu pegar o pote e quatro gotas caíram em diferentes lugares, que passaram a serem considerados sagrados: Allahabad, Ujain, Nasik e Haridwar. Sempre que o planeta Jupter entra em aquário  o sol em aries e a lua em Sagitário e celebrada a Kumbha Mela (festival do Pote). Milhões de peregrinos de todos os cantos vem para participar, discutir religião  meditar e sem banhar no Ganges para se livrar do Karma. A celebração acontece de 12 em 12 anos, com encontros menores a cada 4 anos. Menores não significa pequenos, pois e considerado a maior celebração religiosa do mundo. Já teve Kumbh Mela com mais de 60 milhões de pessoas!!! Não sei se a lenda e verdadeira, mas que tinham santos e demonicos por ali tenham…

Já estacamos em Rishikesh, bem instalados, mas o problema de locomoção era grande. Tentamos caminhar, mas não estávamos tão perto do centrinho. Acabei indo sozinho e a Bibi voltou para o hotel. Tínhamos combinado de encontrar nossa amiga holandesa Marlinda (Indonésia e Myanmar) e la fui eu pela muvuca. Tiveram ate que fazer sentido único para andar nas pontes, numa forma de tentar organizar a multidão  Encontrei com ela, ficamos um bom tempo num café gostoso na beira do Ganges. Dava ate para esquecer da multidão a poucos metros. Decidimos ir ate o hotel para ela encontrar com a Bibi, e a caminhada foi longa… As duas acabaram decidindo antecipar a ida para o Ashram, numa ultima tentativa de fugir de tanta bagunça  Tivemos que acordar super cedo para conseguir atravessar a ponte com as mochilas.

O pessoal que pedia para tirar foto com agente

Agora vcs entendem porque a Bibi achou melhor nao ir?

Dois dias antes e cinquenta quilometros de distancia…

Ainda em Rishikesh

Já do outro lado ficamos um bom tempo no café na beira do Ganges ate a hora de nos despedirmos. Elas foram para o Ashram, que e mais afastado de Rishikesh, e eu já com hotel, fui pegar o maior numero de informações possível sobre Kumbh Mela. O banho principal era no dia seguinte, e teria que achar uma forma de ir ate la. Sugeriram ate de eu passar a noite em Haridwar, para ver o sol nascer la, mas achei que seria um pouco demais, pois não conseguiria nem dormir no chão  de tanto indiano que tinha por la. Contratar um autorickshaw estava fora de cogitação  devido aos elevados preços  De ônibus pegaria aquele congestionamento já conhecido, e teria que andar quilômetros ate a região dos banhos. A solução foi pegar o primeiro trem mesmo. Antes do sol nascer eu já tava caminhando, para chegar do outro lado do rio, pegar um transporte até a ferroviária  lutar por um bilhete (somente 5 rupias) e esperar o trem. Engana-se quem pensa que depois foi tranquilo. O trem já estava lotado. Pessoas tentavam subir ao mesmo tempo que outras tentavam descer. Nada de fila (aqui não conhecem isto!!). Algumas pessoas criaram o jeitinho indiano. Todas as janelas tem grades, para que ninguém pule, menos a de emergência  Muitas pessoas passaram a utilizar as janelas de emergência como forma de acesso garantido. La fui eu garantir o meu lugar. Teoricamente o trem só para em um lugar, mas fez varias paradas, para subir mais gente, que vinha sei la de onde. Não existia a menor possibilidade de verificarem os bilhetes, e as leis da física estavam sendo desafiadas. A chegada atrasou por causa das demasiadas paradas, e sair da estacão de trem não foi fácil.

Chegada em Haridwar

Chegar na rua não melhoraria a situação  As ruas estavam funcionando em sentidos únicos  e o mar de gente ia levando todo mundo. Lutei para atravessar a rua, sendo arrastado quase uma quadra para baixo. Do outro lado a primeira barreira policial. “Daqui ninguém passa, alertava o oficial. Tem gente demais!” Rapidamente olhei o nome do hotel mais distante que conseguia ver e falei que tinha que voltar para meu hotel, que todas minhas coisas, meu dinheiro e passaporte tavam la. Ele me pediu o cartão do hotel me testando e eu falei que não tinha e iniciei a encheção de saco. Uns 15 minutos depois consegui passar. O empurra empurra diminuiu um pouco, mas não demorou tanto para surgir outra barreira. Só estava passando gente com credencial. Parecia que seria mais difícil  mas esta não demorou 5 minutos. Um grupo antipático italiano, quase não acreditou. Eles estavam esperando seu guia, com as credenciais de jornalistas, e mal me deram as informações que pedi. Só dei um tchauzinho quando estava la do outro lado. A terceira foi moleza. Alguns Sadus estavam passando em procissão bem quando cheguei. O soldado me fez esperar eles passarem, e me liberou logo depois. Ai eu já tinha livre acesso aos acampamentos dos Babas e dos Sadus. Logo encontrei os peladões  Primeiro alguns bem sérios  e logo outros que pareciam em desfile alegórico  Um colocava uma barra no pinto dele e torcia, torcia, ate colocar a barra por trás da perna. Doi só de ver. O vídeo ta garantido, e no final da viagem vou postar aqui.

A caminho do Ganges

Cena comum

Mais peladoes

Nos acampamentos dava para perceber alguns poucos que pareciam sérios  e muitos que queriam aparecer. Consegui conversar com algumas pessoas mais o dia foi mais de observar mesmo. Nem tinha como ser diferente. Algumas discussões  alguns atos religiosos, mas o que mais se via era o pessoal fumando. Nas ruas principais os peladões  cobertos de lama, iam passando para o banho no Ganges, para lavar seu karma. Alguns Babas também passavam, um ate em cima de um cavalo, com multidões acompanhando, com suas bandeiras.

Baba

Mais Babas

Mesmo que tenham Babas suspeitos, a maioria esmagadora das pessoas que estavam em Haridwar eram devotos, estes sim do bem (tirando os motoristas de autorickshaw!!!haha).

Acampamentos

Acampamento 2

Nao usa roupa, mas olhem olhem o relogio…

Ta mais para palhaco que para homem santo!!!

Corta a unha meu!!!

Circulei para cima e para baixo mas tinha que continuar, queria chegar ao Ghath principal. Mais uma barreira, esta jogo duro. Fiquei mais um bom tempo tentando convencer o soldado a me liberar, o tempo passava e nada. Um cara tentou passar a corda e levou varias pauladas. Na ultima tentativa o oficial encarregado me liberou. Não adiantou muito, pois pude caminhar poucos metros, ate uma barreira de onde ninguém mais passava. Estava perto, mas mal dava para ver. Sai desta área tentando contornar a quadra, mas não me deixaram subir. Voltei alegando ter esquecido a bateria da maquina carregando (os guardas já me conheciam), entrei num restaurante, tomei um refri e sai pela porta da cozinha, furando o ultimo bloqueio. Pra ser sincero não adiantou muito, pois mesmo dando a volta na quadra não deu certo. Não cheguei na escadaria principal, mas também nem precisava. A melhor parte foi entre os acampamentos mesmo. O dia tinha sido longo, tenso e cansativo. Decidi nem esperar para ver a Puja do final do dia. Já sabia como estaria a estacão de trem, e demoraria horas ate eu chegar la. Fui andando na outra direcao, tentando ma afastar da muvuca. Do outro lado do rio já estava mais tranquilo, e resolvi parar para dar um mergulho, e lavar o meu karma também  Na verdade não mergulhei, entrei ate a cintura e joguei água na minha cabeça  Não se preocupem, pois aqui a água não e poluída que nem em Varanasi. Se bem que com as 15 milhoes de pessoas que tinham lá neste dia, não sei para onde que o esgoto ia…

Banho no Ganges

Tambem fui para o banho

De alma lavada, caminhei por quilômetros  passando por acampamentos mais distantes, outras pontes, mais pessoas se banhando, enquanto lembrava da loucura que tinha sido este dia.

Gente por todos os lados!!

Indicavam que teriam ônibus para Rishikesh mais para frente, mas nunca chegava. Ao perguntar para um soldado onde estavam parados os ônibus que iriam para Rishikesh pela estrada velha, ele apontou para frente, mas me mandou sentar ao lado numa sombra. Imaginei que o ônibus passaria por ali, mas não. Logo foi um carro que passou e foi parado. Me chamaram e ganhei uma carona de volta em um carro que tinha ate ar condicionado!!! Nem acreditei. Claro que sendo India tava bom de mais para ser verdade. O motorista resolveu me cobrar quando chegamos. O preço  trinta rupias, mesmo preço que uma passagem de onibus (1,5 Real). Inacreditável !! Cheguei em Rishkesh meio zonzo, de tanta coisa que tinha acontecido naquele dia. Sentei para tomar um suco e tentar digerir um pouco, mas levou mais um outro dia inteirinho para isto acontecer. Foi muito bom, mas eu tava muito cansado de tanto calor e principalmente de tanta gente, e resolvi ir logo para as montanhas.
As informações que eu recebia eram meio contraditórias  Teoricamente algumas estradas ao norte ainda estariam fechadas. Não quis nem saber, e peguei um transporte ate a rodoviária que atende a parte norte do estado. Falavam que esta outra rodoviária era longe, que não poderia me levar. Não sabia se era verdade e quando um motorista com um autorickshaw lotado falou que so me levaria por 50 rupias, resolvi encarar, pois os ônibus saem cedo e não podia me atrasar. Acontece que um tempo depois desce um passageiro e paga 5 rupias. Nem 500 metros depois ele aponta para onde eu deveria pegar o ônibus  Paguei 10 rupias (preço para a outra rodoviária , bem mais que o outro passageiro, e o motorista ficou gritando para eu pagar 50. Eu apontava para todos os deuses pendurados no painel e falava para ele: “Eles tao vendo…”, “ Você vai ter um Karma ruim por isto, ladrão ..” e no calor da discussão ate: “ Você vai reencarnar uma planta, porque nem inseto coce vai conseguir…”!!! Ele ameaçou chamar a policia e eu concordei. Todos os passageiros estavam do meu lado, e insistiam para ele ir. No final deu certo, e peguei um ônibus de 5 horas ate uma cidade onde troquei de ônibus e encarei mais 4 horas ate Josinath. Arrumei um hotel baratinho e sai pesquisar sobre as estradas. Realmente elas estavam fechadas, não pelo um metro de neve que me falavam, mas pelo exercito mesmo. São regiões já muito próximas do Tibet, e as cidades ao norte são habitadas somente nos 6 meses de verão  No outro período são esvaziadas e fechadas. Com isto a visita a Badrinath ou ao vale das flores estava descartada. Tomando um chai num restaurante pé sujo, fiquei sabendo de uma vila chamada Lata, onde a estrada estaria aberta. Dia seguinte cedo eu já tava pegando um ônibus para la. Foi quase uma hora de viagem para percorrer 17 km. Muitas curvas, daquelas beirando precipícios, afinal, já estava na cordilheira do Himalaia.

Hymalaia Express

O motorista para o ônibus num lugar com não mais que 15-20 casas e fala que eu teria que descer ali. Me informei e Lata ficava a 1.5 km morro acima. Fui seguindo a trilha em zigue-zague ate chegar num aglomerado de casas. Me disseram que vivem 100 famílias ali, mas duvido. Tava dando uma caminhada pela pequena vila e encontrei um cara que falava bem inglês  Ele falou que poderia ficar na casa dele, e aceitei, tendo em vista que não existe pousadas ali. Ele tirou os filhos de um dos quartos, e falou que era todo meu. Quarto simples mas com uma suuper vista.

Vista do meu quarto!

Tinha acabado de terminar um festival de três dias, onde pediam chuva para os deuses. Teve um almoço para os homens, e eu fui convidado. Conheci a região  e conversei com ele sobre quais possibilidades de passeios que poderia fazer dali. Combinamos que faríamos um treking para ver o Nanda Devi , segunda maior montanha da India, com quase 8000 metros de altitude. A mulher dele cozinhava numa fogueira, num comodo separado que era a cozinha/sala de jantar. Fogo no chão  e nos sentávamos ao redor. Algumas latas contendo arroz, lentinha e açúcar  alem de outras pequenas de temperos. O leite vinha da vaca que ficava embaixo da casa. Já tinha visto isto no Iemen e no Tibet, os animais ficam no primeiro nível  o que de certa forma esquenta a casa no inverno. O problema são as moscas… Falar em moscas, não tem água encanada, só um tanque (no meio da vila) de onde vem a água do desgelo. La todos vão se abastecer com seus baldes, escovar os dentes e tomar seu banho. Assim, na torneira, meio da ruela. Na verdade da só pra se dar uma lavada, de roupa mesmo.

Vila de Lata

Anfitrioes

Acordamos cedo para a caminhada, e ele me alertou sobre algumas nuvens. Falou que iria se eu quisesse, mas que não tava gostando daquele vento. Como eu tinha tempo, achei melhor não arriscar, e esperar pelo próximo dia. Fiquei de bobeira pela vila, brincando com as crianças, tomando chai com os adultos. Desci ate o rio, e no meio da tarde o vento gelado aumentou.

Curtindo a regiao

Nuvens escuras foram tomando conta do topo das montanhas e sai correndo para a Vila. Estava quase chegando quando começou a chover. Meu quarto tinha frestas, e o vento gelado entrava.

Neve nas montanhas

Me agasalhei, dobrei o cobertor em dois para tentar me esquentar, mas a solução foi ir para o lado da fogueira. Quando a tempestade passou, os cumes das montanhas estavam brancos. Havia nevado! Nossa, escapamos de uma! Ainda bem que não fomos!! Nem sinal de melhora nos outros dias, e resolvi ficar curtindo a tranquilidade do lugar. De noite, quando estava jantando, escutei uns tambores, seguidos de gritos repetitivos. Como tinha sido a primeira chuva da temporada, estava acontecendo um festival. Durou cerca de 3 horas, e toda a vila foi participar. Dois senhores e uma senhora de mais idade lideravam. Eles dançavam em volta da fogueira, no ritmo do tambor. Ela ia derramando a água recolhida da chuva a medida que dançava  Eles dançavam no ritmo frenético dos tambores, quase em transe e na parada da musica jogavam a água sobre suas cabeças  Não vi eles tomarem nada, nem fumar, mas pareciam completamente fora de si. O resto das pessoas entrou na dança, que durou bastante tempo. Eu fiquei encolhido, tentando me proteger do frio, e agradecendo esta sincronicidade que aconteceu para eu poder estar ali, neste momento tão importante. Como são agricultores (durante 6 meses, no inverno não fazem nada), a chuva e essencial para a sobrevivência  e a felicidade tava estampada na cara deles, e refletida na minha…
Foram dias muito gostosos, mas com aquele tempo não adiantava eu ficar por ali.

Tempo fechado

Voltei para Josimath, e meu amigo veio junto. Dei um dinheirinho para eles pela casa e comida, e ele já estava indo para a cidade para comprar material escolar para os filhos!! Fomos num jipe comunitário  que sai bem sedo dali de perto. Antes de sair o motorista verificou cuidadosamente a buzina, freios, luz e os piscas. Todos funcionando pudemos seguir viagem pelas curvas e penhascos.

De volta a Rishikesh, acabei encontrando nossos amigos alemães  que conhecemos no Myanmar. Acabei ficando alguns dias ali, jantando com eles todos os dias, em vez de ir para o ashram.

Melhor que fazer novos amigos e reencontra-los!!

Foi bom para a Bibi poder curtir um pouco mais sozinha. Fui para la e foi bem bacana. Nada de seguir o programa, se bem que fazia yoga com a Bibi de manha. O lugar e na beira do Ganges, com varias trilhas, lugar muito bonito. Passamos alguns dias ali, caminhando, curtindo o lugar. A Bibi falava que parecia ate um spa. Teve um dia que ficamos sem se falar, mesmo fazendo atividades juntos. Comida boa, e no final do dia uma pequena cerimonia antes do jantar.
O tempo passou, e se aproximava do dia que havíamos comprado uma passagem para sair da India (votação encerrada!!rs). Fomos para Rishikesh, para mais uns dias de cafés e compras, mandamos algumas coisas pelo correio e estávamos prontos para sair da Índia  Será?!





Ano novo chines na terra dos livres.

A Tailândia, passou por diversas guerras e invasões no passado, quando ainda era chamada de reino do Sião. Eram batalhas com o Império Kremer, hoje Cambodja, e com a Birmânia, alem dos chineses. Tudo isto, junto com a grande esperteza do rei, fez com a Tailândia moderna nunca fosse colonizada por países europeus, ao contrario de todos os seus vizinhos. Não e a toa que e chamada de terra dos livres (Thai + Land). Com isto, a cultura do pais e unica, e não segue os padrões ocidentais.

Existe uma grande tolerância para as diferenças, e um fato muito interessante e a integração dos LadyBoys na sociedade. O país é o numero um na cirurgia de troca de sexo, e os ladyboys atendem nos restaurantes, caixas e em qualquer cargo publico ou privado, sem nenhuma discriminação.

O rei, que com sua hábil negociação, cedeu algumas terras para um, fez acordos com outros, e foi se acertando com todo mundo. Depois de mais de 60 anos no poder ele continua quase uma unanimidade. Na verdade existe uma oposição, mas a massa o adora e existem posteres e quadros dele em qualquer biboquinha. Teoricamente ele só tem um poder figurativo, assim como a rainha do Reino Unido, mas na pratica não e bem assim. Em 2006 o exercito deu um golpe de estado, derrubando o primeiro ministro, que não se acertava muito com o rei. Adivinhem quem comanda o Exercito? Pode não ser algo muito democrático, mas que todos os tailandeses devem muito a vossa majestade, devem, e eles sabem disto.

O voo de Yangon era para Bangkok, mas só faríamos uma conexão seguindo para Chiang Mai. A espera no aeroporto acabou sendo muito prazerosa, pois encontramos o Vicente, sócio da Pati na Pulp e nosso amigo ha muuitos anos. Ele estava vindo do Vietnã, rumo a Hong Kong e deu tempo de almoçarmos juntos e batermos papo. Nos meus links da para ir direto para os videos de viagem da Pulp, que são muito legais, cliquem la.

Nos com o Vicente almoçando no aeroporto de BKK

Em Chiang Mai, do aeroporto ate a pousada foi tranquilo, pois já era a terceira vez que chegava na cidade. Ficamos na mesma pousada que fiquei em 2004, com um super jardim e musica ambiente. A pousada e bacana, uma quadra do Thapa Gate. Um ponto desagradável, mas curioso, foi que um rato roeu a mochilinha da Bibi para pegar comida que tinha dentro. Quando a Bibi foi reclamar para o dono ele falou que tinha ratos sim, devido tanto mato no jardim, mas a linha do Budismo que ele seguia, fazia com que não pudesse praticar nenhum mal contra os animais. Contou que antes tinham cobras, e ele tinha que conversar com elas para irem embora.

Foram dias tranquilos, aproveitando o Festival das Flores que estava acontecendo, e com isto a feirinha de final de semana estava muito maior, e tinha ate um palco com apresentação de danças. As comidas da feirinha são algo a parte. Dezenas de pratos diferentes a preços baixíssimos. A partir de 30 centavos de real já dava para comer alguma coisa. Aproveitei para ir em mais uma luta de Muay Thai, mas não era num ginásio próprio, e sim no meio de bares, onde turistas bebiam e se preparavam para a noitada. Nesta região de bares vi os insetos fritos para vender, que degustei na primeira vez que vim para cá. Se engana quem acha que tem em tudo que e canto. O lugar mais fácil de achar e justamente onde estão os estrangeiros bêbados, provavelmente os maiores comedores de insetos da Tailândia!!

Comida boa!

Comida de bêbado!

Mais Muay Thai

Tínhamos vindo pra Chiang Mai para dar entrada no visto para a Índia, pois o consulado aqui era bem mais tranquilo que a Embaixada em Bangkok. Mesmo o motorista do tuk tuk tendo se perdido com a mudança de endereço do consulado, conseguimos chegar cedo la e encaminhar tudo. Demoraria 5 dias uteis, portanto uma semana. Pegamos o primeiro ônibus que conseguimos para Pai, um cidadezinha mais ao norte do pais, já próxima da tríplice fronteira (Tailândia-Myanmar-Laos). Pai já foi um daqueles segredos, cidadezinha super gostosa no meio das montanhas, mas foi descoberta, e esta crescendo bastante. Hoje e bem turística, mas preserva seu charme. Muitos estrangeiros vem para cá e ficam, portanto virou meio que um lugar Hippie. Muitos vivem de pintura, musica, artesanato e por ai vai. Cada um se vira como pode e vai ficando. Lojinhas descoladas estão surgindo aos montes, e os padrões dos hotéis também estão aumentando com o fluxo de turismo. O ponto alto do lugar e a natureza, pois o visual e incrível. Todos vem para fazer treking, rafting, visitar vilas de minorias étnicas, cachoeiras, etc. Nos tínhamos outros planos. Eu já tinha entrado em contato com o campo de treinamento de Muay Thai e ficaria treinando boa parte do dia. A Bibi ia fazer yoga e para não ficar entediada arranjamos uns cursos para ela. Meu dia a dia era treinar, descansar e treinar de novo. O da Bibi era Yoga e curso de culinária tailandesa, Yoga e curso de massagem tailandesa, ou Yoga e mais Yoga. Claro que de noite dávamos umas voltas pelo centrinho, que e todo movimentado, mas nada de dormir tarde. O treino era bom, mas bem menos puxado que os que fiz da outra vez, mas mesmo assim passava de cinco horas de treino diarios. São vários treinadores, sendo que o principal já foi campeão no Lumpinee em Bkk. Tinha desde iniciantes que estavam tendo o primeiro contato com o Boxe Tailandês, ate lutadores profissionais que vieram aprimorar suas técnicas. Claro que eu não tava na melhor forma física, pois na viagem não pratico nenhum esporte regular, mas me empenhei. Pra ser sincero depois de uns dias, com os muculos todos doloridos, e já sem os pelos na canela, pensei: Porque estou me empenhando tanto se poderia só me preocupar com a parte técnica? Até dei uma relaxada depois disto. No sábado é dia de sparring, coisa que não e muito comum nos treinos tailandeses (pois eles lutam muito e não podem estar machucados), mas devido ao grande numero de estrangeiros que tem por aqui. Fui lá e foi bacana. Só teve um lutador francês que quis “ver o lado”, e posso dizer que ele ganhou o que queria…haha Comecei a soltar o jogo e o pessoal elogiou bastante. Ponto alto para quando derrubei o treinador ex-campeão duas vezes. Recebi uma proposta firme para ficar dando aula de MMA e BJJ ali, mas recusei. Mandei um email para alguns amigos no Brasil, para ver se alguém se candidata, mas ate agora nada. Não sabem o que estão perdendo…

treino duro

Lugar astral

Rango da hora!!

Sera que aprendeu?

No meio das montanhas…

Etapa treino superada, os deliciosos chás de gengibre que sempre tomávamos a noite foram trocados por geladas cervejas. Voltamos pelas dezenas de curvas ate Chiang Mai, para o Ano Novo Chines. E o terceiro ano novo que passo em menos de cinco meses (ano novo etíope, o nosso e agora o chines). O ano novo chines tem calendário móvel, pois e baseado nas fases da lua. A Tailândia segue outro calendário, mas devido o grande numero de imigrantes e descendentes chineses, comemoram o evento aqui também. Nosso visto para a Índia ficou pronto e deu para se despedir da comida tailandesa com as trocentas opções da feirinha. Ficamos mais um dia para eu ver dois dos meus companheiros de treino lutarem. Em tantas lutas que tinha assistido aqui, ainda não tinha apostado nenhuma vez, pratica muito comum. Já tinha gastado um dinheirinho em cerveja quando decidi recuperar numa aposta na luta principal da noite. Quando não tava colocando dinheiro, estava acertando todos os palpites, baseado na aparência dos lutadores e pelo primeiro round. Na ultima luta conhecia o irlandês, que lutaria com um tailandês. Não que achasse ele um super lutador, mas tinha nocauteado nas suas duas ultimas. Apostei nele só por ter treinado junto, e perdi!! A cerveja que eu queria “recuperar” acabou saindo o dobro…haha Como a Bibi citou o livro da Elizabet Gilbert “Comer rezar e amar”, não tive como não lembrar do livro “versão masculina” “Beber, jogar e foder”. Depois que o cara descobre que e corno vai para a Irlanda para beber, Las Vegas para jogar e Tailândia para o resto. Mal ele sabia que poderia fazer os três na Tailândia!!hahaha

Muvuca na rua

Se não tivéssemos que pegar o visto para a Índia, poderíamos ter ido direto de Pai para o Laos já que era pertinho. De qualquer forma não estávamos muito longe, e pegamos um ônibus até a fronteira, onde passaríamos a noite.