Cuidado para não ficar encalhado no Malawi

Quando estava indo para o Malawi escutava muita gente falando para tomar cuidado para não ficar ” encalhado” la. Logo entendi porque. O Malawi é carinhosamente apelidado de ” coração caloroso da Africa” (odeio estas traduções) e faz jus ao apelido.

É um país pobre, muito pobre. Um dos mais pobres da Africa, e consequentemente do mundo. Sofreu uma das ditaduras mais longas, do então ” presidente ” Banda. Um cara que proibiu mulheres de usar mini saias e calças compridas. Os homens foram proibidos de ter cabelos compridos, dentre outras coisas. A censura era muito grande em vários aspectos, mas mesmo assim, o Papa e a Margaret Thacher visitaram o país e não falaram nada contra este sistema, muito pelo contrario.  Hoje os tempos são outros e houve uma inversão de valores daquela época. O clima é super amistoso e existem rastafaris por todos os lados.

Vindo da fronteira da Zâmbia, arranjamos transporte ate uma pequena cidade  e de lá, junto com meia duzia de zambianos, acertamos com um ônibus para nos levar ate Lilongwe. Ao entrar no velho ônibus estilo escola americana peguei no sono rapidamente. Acordei não muito tempo depois, e nem havia percebido que algumas jovens haviam entrado em alguma parada no caminho. O dia estava amanhecendo e elas cantavam musicas locais, estilo coral. Eu meio confuso pela falta de sono, com o dia nascendo e aquela musica maravilhosa, que durou as próximas horas. Entendi claramente aquela expressao: ” De chorar!”

A entrada em Lilongwe parecia um pós guerra. Muitas pilhas de lixo sendo queimadas, naquela parte antiga da cidade, com uma nevoa,  que apesar de ser crista, possui algumas torres de mesquitas que se destacam ao céu. A estação de ônibus é hilaria. Uma bagunça, nem parece uma capital. Só passamos no caixa eletrônico e já pegamos um ônibus para o Lago Malawi.

rodo

O lago Malawi é o terceiro maior da Africa é o sétimo maior do mundo. Tentaram apelidar de lago calendário, mas não pegou. São 365 milhas de comprimento (dias no ano), por 52 milhas de largura (semanas no ano) e 12 rios que desembocam nele (meses no ano) e e o sétimo maior lago do mundo (dias da semana). Água transparente, no maior clima de praia.

Senga Bay foi nosso primeiro destino, pegamos ônibus + caçamba de caminhonete para chegar la. Acampamos de frente para o lago. Lugar muito tranquilo, bonito e não tinham outros estrangeiros, o que deu um charme ao lugar. O lago era lindo, mas foi o povo que chamou a atenção neste lugar. Todos paravam, conversavam, te levavam para cima e para baixo. Ninguem te pede dinheiro ou algo assim. Te levam para os lugares porque querem companhia, praticar o inglês, receber bem as pessoas.  É difícil de acreditar, pois a região é muito pobre. No início estranhei, pois as vilas de pescadores pareciam favelinhas, mas adorei andar pelas ruelas, me perder sem me preocupar. Um dia compramos algumas coisas no mercado de rua, alugamos uma canoa, e remamos ate uma ilha relativamente próxima para fazer um piquenique lá. Em pouco tempo ja tinhamos muitos amigos, e as criancas nos adoravam. Vinham, andavam de mãos dadas, brincavam. Algumas pequenas choravam ao nos ver. Os Muzungus (homem branco) sao assustadores para elas. Tinha um figura, bêbado conhecido, que é nascido no Moçambique. Ele adorou falar portugues comigo, e falava bem alto que nos dois eramos da mesma tribo. Descobri que na região que ele morava, na província do Niassa, ele era orador, encarregado de fazer os anúncios oficiais. Encontrei ele outras vezes e sempre me diverti. Arrumei um restaurante local que tinha arroz e feijão, e comi quase todas as refeiçoes lá. A proprietaria ficou suuuper feliz, e eu tambem. Comida boa pelo menos 4 vezes mais barata que no camping.  Numa noite tinham algumas casas passando filmes de DVD. Num era musical, no outro era Duro de Matar 2. Incrível!! Esta era minha piada favorita quando morava em Sengés, que os lançamentos na locadora eram Titanic e Duro de matar, e aqui era realidade!!!

Cores...

Cores…

Amigos

Amigos

Um dois, feijao com arros...

Um dois, feijao com arroz…

Costurando o Ziper da Barraca e comendo ovo

Costurando o Ziper da Barraca e comendo ovo

Decidimos ir para Nikata Bay, mais ao norte. A diversão começava.  Uma caçamba de pick up ate Salina (com um freezer novamente), mini ônibus, mais uma caçamba de caminhão e outro microonibus. Numa das viagens tinha um senhor, todo alinhado, de terno e gravata, com um galo na sacola. Pena que este (e muitos outros) momentos não da para tirar foto, pois quebra totalmente o clima, eles te veem com outros olhos.

Difícil de acreditar que não estávamos no litoral. Total clima de praia. O proprio lago formava uma baía que parecia um mar azul esverdeado. Existem alguns morros e chales pendurados entre estes e o lago. Muita gente do mundo inteiro, encalhados no Malawi. Viajantes que chegaram para alguns dias, e acabaram ficando semanas, ou meses. Aqui encontramos alguns insistentes vendedores de artesanato, o que não estávamos acostumados. No final das contas ate fizemos bons negocios com roupas velhas. Nunca pensei que uma camiseta desbotada do Che seria tao disputada. Tem um rasta figura que alem de vender bonitas pinturas, tem um “restaurante”. Na verdade são algumas cadeiras, mesa, num puxadinho atras da barraquinha dele, tudo com um super visual, tochas e velas. Ficamos encalhados ali por uns dias também, nadando, pegando sol,tomando cerveja barata, comendo peixe, de bobeira esperando o barco que ia para o sul. Um dia preparei uma caipirinha, com cachaça mesmo (não, não é brasileira), e fez o maior sucesso. Acabaram tomando 2 litros, no sistema “tubão”, passando de um para o outro. O cara do bar, que lembrava o saudoso Musum, ficou emocionado (era aniversario de 55 anos dele). Um dos dias Fizemos um mergulho bacana. Parecia um aquario com muitos peixinhos coloridos. Um chamou atenção. Quando se sente ameaçado, coloca todos os filhotes na boca para proteger.

Nikata Bay

Nikata Bay

Mercado de rua

Mercado de rua

Vida dura!!!

Vida dura!!!

Rastaman

Rastaman

On a shoestring

Não fui muito original na minha passagem pela Zâmbia. Assim como a maioria, apenas passei por este país, nao explorando muito. A Zâmbia, diferente dos últimos lugares que estive, é um país muito urbano, não possuindo muitas cidades/vilas na região rural.

Da fronteira fomos direto para Livingstone, lado da Zâmbia da Victoria Falls. Cidade que vem crescendo muito, por causa do caos economico do Zimbabue, que antes recebia a maior parte dos turistas. Sempre ouvi falar muito daqui, e imaginava que a infra-estrutura seria melhor. Ficamos no simpatico Jollyboys Backpackers. Nao vou colocar fotos, mas segue o site: www.backpackzambia.com e deem uma olhada.

A quantidade de agua das quedas estava bem acima do normal, criando uma nevoa, nao dando para ver o final da cachoeira. Para chegar aos pontos de melhor vista, só se encharcando, portanto sem fotos (mas encharcado!!). Muitos turistas europeus e muitos jovens mochilando (alguns esquecendo por que vieram e ficam só bebendo na piscina.

Vic Falls

Vic Falls

Que tal um mergulho?

Que tal um mergulho?

Ponte Zambia x Zimbabue

Ponte Zambia x Zimbabue

Quando estávamos saindo para Lusaka, a Landy quebrou novamente. Ja estava claro para mim que era hora de partir. Acabava a etapa de viajar de carro e iniciava o Shoestring. A Landy foi excelente, nos levou a lugares que poucos carros 4 x4 chegariam, exploramos a Africa mesmo. Mas agora tinha que partir. Peguei um ônibus para Lusaka, e o Grahan e Tomas também partiram, mas com planos diferentes.

Eu tinha que ficar em Lusaka até conseguir o visto para o Malawi, e o Grahan também ficou para pegar o do Moçambique. O Tomas seguiu direto pro Malawi onde entraria com o passaporte italiano. Como chegamos num final de semana, o centro da cidade estava bem diferente, calmo. Foi bom para nos acostumarmos com o lugar. Domingo andamos muito, e descobrimos que teria um jogo da “suburbana”, Lusaka CC X Chipata. Fomos lá e nos divertimos muito. Eramos a atracão local. Ao tirar algumas fotos e fazer videos perguntaram se eu era olheiro.

Lusaka CC x Chipata

Lusaka CC x Chipata

A cidade não tem nada de especial, alguns marcados interessantes, mas o povo da Zâmbia como um todo dá um show a parte. São muuuito simpáticos. Chama atenção mesmo depois de ter passado pela Namíbia e Botsuana, onde eram muito legais também.

Na segunda feira, assim que a embaixada do Malawi abriu, la estava eu tentando pegar um visto. Uma senhora nem um pouco simpática me pediu varias cópias de documentos, e foi uma correria. Falou que demoraria uns 5 dias e já estava pensando em ir direto pro Moçambique. Sei que no final das contas acabou dando tudo certo, e depois de muita conversa consegui para a hora do almoço, arrancando até um sorriso da antipática senhora.

Em algum lugar em Lusaka

Em algum lugar em Lusaka

Deu tempo de comer num delicioso restaurante indiano e correr para a rodoviária onde pegaria um ônibus até a fronteira. Ônibus lotado, com direito a passageiro carregando freezer, alem de varias caixas no corredor (algumas com pessoas sentadas em cima). Na metade da viagem paramos numa vila que tinha uma feira de rua. Já estava escuro e tudo era iluminado com velas e tochas. Muitos peixes fritos e frutas diferentes. O Grahan foi no banheiro e o ônibus partiu. Eu corri e subi no ônibus em movimento. Só consegui convencer o motorista a parar uns 3 km depois. Mas deu tudo certo.

Chegamos de madrugada em Chipata. Íamos dormir no ônibus ate de manhã, mas arranjamos um jeito de ir ate a fronteira (alguns km dali). Já estávamos procurando lugar para acampar quando percebemos que a fronteira era 24 horas e não até as 18 como o guia dizia. Seguimos para o Malawi de madrugada mesmo.

Etosha

Então, meio difícil escrever sobre o Etosha. E um grande zoológico  com todas as qualidades e defeitos destes. É um parque gigantesco, área suficiente para diversas espécies viverem muito bem, e conservadas de forma natural. Não é como um Kruger, mas não deixa de ser extremamente  comercial, com seus lodges refinados, piscinas e restaurantes. Claro que e um excelente lugar para ver a vida “ selvagem”, principalmente perto de vc. Os animais não se assustam, e existem os Waterholes, onde vc pode ficar tomando uma cerveja e eles vem beber água. Estes parques são meio artificiais para o meu gosto, mas talvez seja a única forma de ficar a 4 ou 5 metros de um leão.

Bota camuflagem nisto

Bota camuflagem nisto

Ta olhando o que?

Ta olhando o que?

Centenas de zebras

Centenas de zebras

Claro que agente continuou acampando, e cozinhando na fogueira, para escapar das altas taxas cobradas para estrangeiros. Um parque muito legal, totalmente recomendado, mas não é a Africa selvagem e intocada. A emoção de ver a vida selvagem livre nem se compara, mas requer tempo e paciência.

Africa!!

Africa!!

Procuramos alguns geo cache, “tesouros escondidos” com coordenadas em um site da internet. Achamos uma caixa de plastico com lembranças pessoais , alem de um caderno para colocar nome e contato. Bem divertido, pois normalmente escolhem lugares bem bonitos mas de difícil acesso.

Um elefante incomoda muita gente...

Um elefante incomoda muita gente…

Etosha depois da temporada de chuvas

Etosha depois da temporada de chuvas

Saindo do parque acampamos não muito longe, no dia seguinte paramos em Tsumeb para uma revisão no carro, comprar mantimentos e seguimos para a fronteira. Desistimos de ir pelo Caprivi, pois deveria estar alagado devido a pesada temporada de chuvas deste ano. Pena pois tem toda uma influencia de Angola que queria ver, mas acabamos passando e acampando em uma área dos San (Bushman), os primeiros habitantes do sul da África.

Foram mais de 3000 km de Namíbia, sendo que mais de 95% em Estrada de terra, e finalmente chegamos na fronteira com a Botsuana. Parecia uma porteira de fazenda, onde não passam mais que 50 pessoas por mês. Ao mostrar o passaporte Brasileiro, o Kaka foi lembrado imediatamente.

4000 KM depois

Depois de rodar mais de 4000 km na África do Sul, cheguei ao parque Kalagadi, na tríplice fronteira  A.Sul-Botsuana-Namíbia. Ficamos alguns dias fazendo Games (Safaris) e logo vimos que não era tao fácil ver os principais animais. Tem que ter muito paciência, principalmente nestes parques grandes onde não tem uma superpopulação de animais.

Kalagadi Park

Kalagadi Park

Entramos na Namibia pela fronteira Mata-Mata, e após rodar alguns KM, acampamos ao lado da estrada mesmo.

Camping na estrada

Camping na estrada

Atravessamos o que restava do Kalahari, todo o deserto do Karoo acampando onde dava, pois praticamente não tinham cidades. A Namíbia é um pais muito grande, com uma população de pouco mais de 2 milhões de habitantes. As poucas cidades que tinham, eram minúsculas, portanto não podia fazer nenhum contato com o Brasil, o que me deixou preocupado.

O deserto do Karoo é um plato, onde o horizonte se perde em todas as direções, e que muda muito ao se aproximar do deserto da Namibia, todo montanhoso e com dunas.  Já no deserto da Namíbia acampamos o mais perto possível de Sossiusvlei, um dos cartões postais mais famosos da Namíbia, com suas dunas vermelhas intermináveis. Show de bola!!!

Dunas

Dunas

Dunas

Dunas

Depois de passar um tempo nesta região, saímos rumo a Swakopomund, mas a Landy estragou novamente (estava indo tão bem…) perto de Solitaire (procurem no Google Earth). Uma “cidade” com umas 5 casas, um Lodge, um posto de gasolina e uma padaria. Tinha uma lua cheia incrível, e não foi tao ruim ficar no Deserto mais uma noite.

Lua Cheia em Solitaire

Lua Cheia em Solitaire

Agoniado pois não tinha como passar notícias para a Bibi, pensei em abandonar a “expedição” pela primeira vez, tinha decidido que se não saíssemos no dia seguinte (parecia um problema sério) seguiria de carona, pois não tinha transporte coletivo. Inacreditavelmente deu tudo certo, o que surpreendeu até ao Piter.

Landy funcionando!!!

Passamos por uns Pass muito bonitos, e chegamos a uma reta interminável, totalmente plana, mas ainda com estrada de terra. Rodamos muitos KM até chegarmos em Swakopomund. Os ventos gelados do atlântico sul, ao encontrarem com o deserto, causam um fog muito forte. Ficou tudo nublado, e  frio, parecendo o leste europeu em Janeiro.

Mas as coincidências não param por aí. Até a primeira guerra mundial, a Namíbia era parte da Alemanha, e se chamava German South West Africa (ficou sob o domínio da Af. do Sul depois disto até a independência em 1990), portanto possui incríveis semelhanças com a Alemanha. Entendi plenamente o que o Lula quis dizer  ” … Nem parece Africa,” quando se referia a Namíbia.

Arquitetura toda europeia, ruas todas limpas, tudo organizado. Claro que nao se pode generalizar ” Africa ” como um todo, mas muitas cidades aqui parecem com a Europa e não com a Africa. Ou vcs acham que Blumenau é a cara do Brasil?

Swakopomund

Swakopomund

Dizem que Luderitz e ainda mais tradicional, mas acabamos não passando por lá. Foi de lá que Almyr Klink saiu com seu barco a remo para atravessar o atlântico (Cem dias entre o céu e o Mar).

Termino este post com uma frase dele, inspiração para qualquer viajante:

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”
Amyr Klink

Kalahari

Depois de viajar muitos KMs, acampamos pouco depois de Kuruman, numa Game farm, fazenda com animais selvagens. Era importante para ver se não havíamos esquecido nada, e se estava tudo em ordem. Acordamos com macacos pulando nas barracas, e pudemos nos familiarizar com outros animais que veríamos daqui para frente. Novos problemas com a Landy resolvidos, viajamos mais alguns km e paramos no meio do Deserto do Kalahari (que já não é mais o mesmo). Acampamos no topo de uma duna. Agora sim!! Pode parecer cliché, mas o por do sol foi fantástico, como sempre é na Africa. O céu estrelado no meio do deserto nem se fala… Íamos ficar só uma noite, mas não conseguimos partir, tava muito show. Problemas na Landy superados, rodamos mais vários KMs e sérios problemas apareceram. O Piter montou a Land Rover inteira, tinha muitas peças de reposição, mas desta vez precisava de um mecânico  Passamos horas numa cidade no meio do nada, esperando a landy ficar pronto. Por sorte tinha um Lodge legal, e almoçamos lá. Tudo pronto, seguimos viagem no escuro mesmo, para não perder tempo. As duas e meia, já cansados, paramos e acampamos na beira da Estrada, que não passava uma alma. O bonitão aqui ficou com preguiça de montar a barraca e dormiu no carro, mesmo sem ter o vidro nas janelas traseiras. No deserto a temperatura varia mais de 40 graus em um só dia, portanto a noite fica temperaturas negativas. Calculem o frio… Pelo menos a Landy parecia estar em ordem agora.

Frio no Kalahari

Frio no Kalahari