NUNCA MAIS!?!

Never again, o  “nunca mais” já foi dito muitas vezes. A cada catástrofe, cada desgraça é dito novamente. Quando poderemos dar um basta em tantas situações que poderiam ser evitadas e que depois ficamos lamentando? Não quero fazer um texto político, pois sei que vai ficar chato, mas seria interessante refletirmos.

Construção do genocídio na Ruanda:

  • 1894 – Alemães chegam a região Urundi-Ruanda. Houve uma resistência inicial a colonização, mas sem muito sucesso.
  • 1923 – Belgas assumem o território, apos o fracasso alemão na primeira guerra.
  • 1932 – Belgas classificaram o povo em Tutsis, Hutus e Twa (pigmeus). Qualquer família que tivesse mais de 10 vacas era considerada Tutsi, independente da origem. Virou uma divisão social, mas ate os Twa que protegeram uma rainha Tutsi receberam o titulo de Tutsi. Identificacao feita na carteira de identidade.
  • 1950 – Os Tutsis ja comandavam a região, com os seus ” reis” Mwani.  Passam a ser ainda mais favorecidos (educação, cargos…), em troca de  lealdade aos belgas.
  • Hutus eram 85%, Tutsis 14% e Twa 1% da População. Originavam de tribos que vieram da Etiópia e Sudão, dentre outras regiões. Os hutus já eram o “povo” antes da chegada dos belgas, mas existiam casamentos entre as diferentes “raças”, viviam tranquilamente por centenas de anos.
  • A Igreja apoiava a discriminação, pregando que os Tutsis eram superiores.
  • 1956- Tutsis tentam a Independência, belgas passam a apoiar os Hutus.
  • 1959 – Morre o Mwani (rei Tutsi).
  • 1959-1973- Quase 1milhao de Tutsis vao para o exilio em paises vizinhos.
  • 1962 – Independência forma 2 países, Ruanda, agora comandada por Hutus e Burundi, comandada por Tutsis (que perderam eleições, mas continuaram no poder a forca). Hutus crian cotas para Tutsis.
  • 1972 – Hutus tentam um golpe de estado no Burundi, matam cerca de 1000 Tutsis. Em represália mais de 300.000 Hutus são mortos, num genocídio selecionado. Matam Hutus com educacao, influentes, com bons cargos. Tentam “popularizar” os Hutus novamente.
  • 1973 – Habyarimana derruba o presidente Kayibana na Ruanda, e tenta melhorar o problema dos conflitos.
  • 1986 – Musevini assume o poder na Uganda. Para ganhar a guerra, utiliza muitos refugiados de Ruanda que estavam exilados em Uganda. Paul Kagame (atual presidente da Ruanda) era seu braço direito.
  • 1990 – Ruanda Patriotic Front, Rebeldes Tutsis que viviam no exílio, invadem Ruanda. O exercito de Ruanda recebe o apoio de tropas internacionais, contando com exercito da Franca, Belgica e Congo.
  • Inicialmente milhares de Tutsis e Hutus que colaboraram com a invasão foram massacrados. Muitos presos em estadios de futebol superlotados, sem comida nem agua. Mais Tutsis se refugiam nos países vizinhos. Inicia uma serie de matanças de Tutsis em pequenas cidades.
  • Ministro da Defesa de Ruanda (Coronel Bagarosa) ajuda a treinar a Milícia Interhamwe, forma não oficial de matar os Tutsis. Exercito francês também apoia.
  • 1991- RPF invade novamente a Ruanda, desta vez mais armados e treinados (com o apoio de Uganda). Vão conquistando territórios no norte do pais, ate que em 1993 já estão próximos de Kigali. Os massacres esporadicos contra Tutsis em outras regioes se tornam mais frequentes.
  • 1993- Criam a convencao em Arusha-Tanzania para um cessar-fogo.
  • 1994 – Presidente Habyariama volta da convenção de Arusha junto com  presidente Cypriem do Burundi. Ele discutia uma divisao de poder, mas parecia que conseguira menos que o esperado. Seu aviao estava para aterrisar quando foi derrubado por um missil. Dizem que foram Hutus extremistas, que já estavam com o genocídio planejado, mas muitos Hutus tem explicações claras de porque foram os Tutsis que derrubaram. Ninguem nunca vai saber.
  • Inicia o genocidio. Listas de todos os Tutsis já estavam feitas. Ruas sao bloqueadas e a matanca inicia. A populacao em geral tambem participa. Quem não participa e acusado de traição e e morto também.
  • Facoes, martelos e porretes com pregos foram armas muito utilizadas.
  • Na Igreja em Nyamata, 6 mil pessoas estavam dentro da Igreja, e mais de 4 mil fora. Elas buscaram abrigo la pois em 1992 muitas tinham se salvado la. Algumas pessoas morreram esmagadas quando o tumulto estava acontecendo do lado de fora. Alguns homens se posicionaram na entrada da igreja, para proteger as outras pessoas. O sucesso durou pouco, pois granadas foram lancadas. Todas as marcas dos estilhaços podem ser vistas no chão, paredes, portão e toldo da igreja ate hoje.
  • Historias como as de Nyamata aconteceram as dezenas, por todo o pais. Em alguns locais os próprios padres/pastores colaboraram na execução de seus fieis, ou ate mesmo, executaram.
  • Não adiantava só matar, tinha que ser cruel.
  • Cortavam os tendões para que não pudessem fugir.
  • Homens com Aids estupravam mulheres.
  • Cortavam a barriga de mulheres gravidas para matar as crianças na frente da mãe.
  • Maridos eram obrigados a  matar suas mulheres antes de serem mortos.
  • Mulheres eram obrigadas a matar suas crianças antes de serem mortas.
  • Crianças eram forcadas a participar dos massacres.
  • Vizinhos matavam vizinhos, amigos de anos.
  • No interior era pior, pois todos se conheciam, e sabiam quem deveria morrer.
  • Dados do governo atual (RPF) dizem que 90% dos Hutus participaram do genocídio, 5% ficaram neutros e 5% ajudaram os Tutsis.
  • Pessoas da ONU tentaram avisar o que estava por vir, mas nada foi feito. As pequenas tropas designadas para salvar os estrangeiros ja seriam suficientes para evitar o genocídio, se tivessem outro foco.
  • Na hora de escolher se salvavam os estrangeiros (independente da nacionalidade) ou os Tutsis, não exitaram em deixar os Tutsis para trás.
  • 1994 – 3 meses depois a guerrilha RPF toma Kigali e conquista mais territórios, fazendo com que o exercito e a milicia fujam para o Congo
  • Nos próximos anos os Hutus se tornaram os refugiados. As milicias afirmavam que quem voltasse seria morto por um teorico sentimento de revanche.
  • Interhamwe, milicia hutus,  faziam ataques a partir da fronteira.
  • 1996 – RPF invade as fronteiras do Congo para guerrear com a Milicia. Muitos Hutus que não tinham nada a ver com a milicia retornam ao pais.
  • Muitos responsáveis são julgados, mas alguns conseguem asilo em outros países (alguns presos mais tarde).
  • Os tribunais não dão conta de tantos julgamentos. Reativam as Gacaca, forma tribal de julgar problemas pequenos (tipo tribunal de pequenas causas). Ate hoje são realizadas as Gacaca todas as quinta-feiras de manhã. Se o acusado assumir e contar o que foi feito, pega a pena de trabalho comunitario, devidamente vestido com um macacao rosa. Se não assumir, pode pegar pena de prisão perpetua.
  • So assim algumas familias podem “enterrar” seus parentes.
  • Muitas famílias foram separadas. Milhares de órfãos.  Muitas famílias morreram por inteiro, sem ficar ninguém para contar a historia…
6000 pessoas neste espaco, aguardand para serem mortas...

6000 pessoas neste espaco, aguardando para serem mortas. Sobraram as roupas…

Nunca mais?

E ossos…

Genocidio

Nunca mais?

Igreja Nyamata

Igreja Nyamata

Tudo bem, tudo acabou, Ruanda esta se reconstruindo, apesar de marcada eternamente.

Foi uma caso isolado? Não acontece nada igual em outros lugares?

Do mesmo jeito que Ruanda era um pequeno pais sem muita importãncia para a comunidade internacional, Dafur/Sudão e só um deserto, correto?!

Haiti, ha, aquele país pequenino. Nigeria, Mali, Libano, Palestina, Chad, Africa central, Costa do Marfin, Congo…

Somalia? Nao deve ter mais jeito, certo?! Iraque e Afeganistão, estes sim são “perigosos” para o Ocidente!! Lá é importante tomarmos uma ação rápida!

Ta bom, guerras são uma realidade muito distante para os brasileiros, mas duvido que ninguém se comovesse ao saber sobre qualquer um destes casos. Se comoveriam, da mesma forma que se comovem ao ver no Jornal Nacional o caso da menina Isabela, brutalmente assassinada pelo pai. Todos pedem justiça e fecham os olhos pelas centenas de outras crianças que são violentadas, mortas também brutalmente pelos seus pais. Qual a diferença? Um esta na televisão, milhares não.

E nos, fazemos o que? Só lamentamos?

Cranios furados co martelada

Cranios furados com martelada

Les Milles Colines

Na imigração de Ruanda conhecemos 2 casais da África do sul que estavam indo sentido Uganda e trocamos algumas dicas de viagem. O oficial da Ruanda me questionou sobre  eu ter alguma carta convite, para que ele pudesse emitir o visto. Já sabia que eles perguntavam isto as vezes, pois outros viajantes tinham me alertado, e prontamente respondi que tinha passado no consulado em Kampala e que me falaram que para brasileiros não precisava (nem tinha passado). O visto saiu rapidinho… Pegamos uma van até Ruhengeri, cidade que fica próxima da entrada do Parc des Vulcans (assistam o filme   ” Gorilas in the Mist”). A chegada em Ruanda foi um choque. Depois de tantas estradas esburacadas, um asfalto que parecia um tapete. Ha, aqui eles dirigem como no Brasil, não na mão inglesa como em todos os países da África que passei até agora. O estranho e que tem carros com a direção do lado direito e outros do lado esquerdo. A passagem custava 400, mas o cobrador tentou me vender por 1000 pra ver se eu comprava…

Depois deste simples Daladala (van) nos surpreendemos com o mini ônibus que nos levaria ate Gisenyi. Um ônibus limpo, novo, até com filmes de DVD numa tela plana que descia  do teto. Viajamos primeiro lateral a aquelas montanhas e vulcos e depois passamos a contornar as milhares de colinas da Ruanda. Que paisagem fantástica!!! Triste era ver que em todas as cidades, por menores que fossem, tinham placas sobre os memoriais do genocídio (comentarei em outro post). A chegada em Gisenyi foi linda, vinhamos descendo ate visualizar o lago Kivu. Gisenyi e a cidade balneário de Ruanda, onde os ruandeses ricos passam suas ferias. Existem alguns grandes hotéis, alem de outros menores e descolados. Descemos na parada final do ônibus e caminhamos algumas quadras ate o lago para se localizar. Na parte alta da cidade fica a muvuca, mercados, bagunça e perto do lago os hotéis e casarões coloniais. Decidimos pegar umas motos para ir 7 km ao sul, onde estava o hotel indicado pelos sul-africanos que encontramos na fronteira. Para chegar la, contornamos montanhas com uma vista super bonita, e passamos por barreiras do exercito. Hotel bacana, de frente para o lago, numa parte mais recortada do lago. Chales que lembravam os Bungalows que sempre ficamos na Praia do Rosa (lado esquerdo da entrada da Verde Rosa). Curtimos uma praia, e o lugar. Tinham umas pedras onde vimos o por de sol, e ao virarmos para voltar, vimos a lua cheia saindo de trás das colinas. Parecia encomendado.

Cafe no lago Kivu

Cafe no lago Kivu

Lua no Lago kivu

Lua no Lago kivu

Praia 1

Praia

Dia seguinte tomamos um cafe no florido jardim e saímos com bagagens de volta para a cidade. Não tinha vaga para mais dias e o preco era bem salgado. Alias, Ruanda e mais estruturada, mas bem mais cara que seus vizinhos próximos. Não achávamos transporte para a cidade e acabamos dividindo um táxi com um casal de belgas. Nos mudamos para o albergue da igreja presbiteriana, onde tem quartos para casal, com banheiro limpo, além de restaurante. Engatamos num papo com os Belgas e decidimos almoçar juntos. Ele cuida da cinemateca de Bruxelas e ela e professora. Ele conhecia muitos filmes brasileiros e já bateu um papo com o Walter Salles. Andávamos pelas ruas quando fomos parados por soldados. Perguntaram onde íamos, pois o presidente estava no hotel ali ao lado. Achamos um bom restaurante com uma super vista para o lago, onde comemos bem e tomamos uma deliciosa cerveja local (herança da colonização Belga). O casal voltou para o hotel que estavam e nos passeamos pela larga avenida com palmeiras na beira do lago.

Praia Gysenyi

Praia Gysenyi

Gostamos do lugar e resolvemos ficar um dia a mais (sempre acontece isto). Como não estávamos prevendo ficar mais um dia, e era sexta, claro que já tava tudo reservado. Arrumamos as coisas e mudamos para outra pousada. Uma pena, pois foi uma delicia acordar com o coral da Igreja. Na nova pousada os quartos eram ao redor de um jardim/restaurante, aparentemente ok, mas o banheiro era ruinzinho…

Passeamos mais pela cidade, que na verdade achávamos que era um pouco maior. Andamos ate a fronteira com o Congo e só não fomos ate o outro lado pelos altos custos dos vistos e falta de tempo. Caminhões do exercito passavam por nos toda hora, assim como bonitas caminhonetes de estrangeiros que trabalham no país. Fomos até o principal hotel da cidade, onde sentamos para tomar uma cerveja e curtir uma praia. Este hotel foi utilizado pelo governo interino de Ruanda durante o genocídio, estrategicamente escolhido devido a fronteira com o Congo.

Congo, logo ali..

Congo, logo ali..

O bom da Ruanda e que fora as estradas serem muito boas, as distancias são sempre pequenas. O pais e muito pequeno. Pegamos outro excelente ônibus sentido Kigali. Viagem passou rápido, e nem consegui prestar atenção no filme devido a paisagem que tinha do outro lado da janela. Chegando em Kigali nos surpreendemos novamente. Que cidade bacana, foi a melhor  primeira impressão de todas as capitais que passamos. Saímos a pé para ir ate o hotel indicado, e ao pedir informação para um tanzaniano na rua, ganhamos uma companhia, pois ele também buscava outro hotel. Achamos nosso hotel, bom, com internet liberada e tudo, mas meio carinho. Largamos as coisas e saímos para conhecer a cidade. Passamos pelo centrão, e por um shopping, onde a Bibi matou a vontade de comer pizza. Fomos ate o hotel Les mile collines, onde se passou a historia do ” Hotel Ruanda”. Alias, tenho citado alguns filmes, acho que vou criar um poste só com eles. Difícil imaginar toda aquela desgraça acontecendo aqui.  Claro que o pior aconteceu nas pequenas cidades e vilas da região rural, mas em Kigali o massacre foi grande. A diferença e que aqui a identificação dos Tutsis era mais difícil, enquanto nos povoados menores todos sabem quem e quem.

Kigali

Kigali

No dia seguinte fomos no memorial do genocídio de Kigali. Super estruturado, moderno, com áudio visual e muitas informações. Mostra toda a historia de Ruanda ate o genocídio e a recuperação do pais. Te faz passar mal todas aquelas informações detalhadas sobre a crueldade que tudo foi executado. Existe um andar dedicado a outros genocídios que aconteceram no mundo, alem de salas com fotografias de vitimas de Ruanda. Como o atual presidente (Paul Kagame) era líder da guerrilha Tutsi que tomou o poder depois do genocídio, achei os textos um pouco tendenciosos. Uma pena para quem vai lá sem ter informações mais profundas sobre o assunto, pois fica tendo uma ótica unilateral. Apesar de informações tendenciosas no memorial, o presidente tem feito um excelente trabalho. E um cara radical, totalmente conta a corrupção, e tem construído uma Ruanda para todos, independente de se Tutsi, Hutu ou Twas. Lemos tudo, linha por linha, sem pular nem uma das informações disponíveis. No mesmo local estão enterrados milhares de vitimas deste genocídio. Andamos de volta para a cidade (tínhamos ido de moto) e rodamos mais um pouco, antes de voltar para o albergue da Igreja católica, para onde havíamos nos mudado pela manhã. Tinha todas as vantagens dos albergues de igrejas, mas com o defeito que no tem banheiro no quarto (hi, quebrei um dos acordos com a Bibi!!).

Memorial

Memorial

Não comentei, mas aqui alem da língua local, se fala francês, devido a colonização belga. Foi divertido a comunicação. Em 2006 trabalhei com engenheiros franceses para desenvolver um produto, fiz algumas aulas particulares na Aliança, pois depois quase fui morara na Franca. Vi que não adiantou quase nada, pois o pouco que sabia, esqueci. Mas me comunicava, e era ate divertido. Eles falam um pouco de Kiswahili também, portanto fazia uma mistureba das línguas e dava tudo certo!!

Num outro dia fomos ate Nyamata, onde aconteceu um massacre terrível em uma igreja. Pra chegar la só de daladala, daqueles podrões. Tava até com saudades! Viagem curta e depois de uma pequena caminhada por esta região rural chegamos ao Memorial. Milhares de pessoas estavam se abrigando dentro da igreja e outras milhares fora, quando foram brutalmente assassinadas (contarei mais detalhes num post especifico). As roupas continuam jogadas dentro da igreja e existem porões onde milhares de ossos estão expostos. Parece macabro, mas talvez seja uma forma de alertar o mundo para que genocídios como estes não aconteçam mais. Contratamos um guia, que estava presente no genocídio, e perdeu muitos familiares. Inacreditável que enquanto comemorávamos as vitorias da Copa de 94 tudo isto acontecia aqui.

Deu um desespero quando ao pedir informação sobre o ônibus para voltar ate Kigali era só as 8:30. Na verdade foi uma pequena confusão. Nas vilas do leste da Africa usam o Kiwahili time, que e dividido entre dia e noite, sempre começando as 6. Oito e meia da manha são 14:30 para nós. Então voltamos para Kigali e fomos encontrar um Ruandês que e membro do Couchsurfing. Saímos para tomar uma cerveja e conversar sobre todas as questões do país, desde o genocídio ate o dia de hoje. O cara fala espanhol fluentemente, além de outras 7 línguas. Aprendeu sempre sozinho. Pinta faixas para levantar dinheiro para comprar material para pintar quadros, sua grande paixão. Nos passou informações importantíssimas sobre tudo o que aconteceu por aqui. Kigali e considerada a capital mais segura da Africa, e apesar de ser noite, caminhamos tranquilamente até o albergue da igreja. A Bibi adorou a experiencia de encontrar alguém do couchsurfing. Quando fazemos uma amizade por acaso e bem mais espontâneo, por outro lado assim temos uma liberdade maior de perguntar o que quiser, pois sabemos que a pessoa esta aberta a responder.

Recebemos um convite para ficar na casa de uma pessoa no Burundi, e no dia seguinte pegamos outro ótimo ônibus para lá.

Montanhas, Lagos e Vulcões!!!

O ônibus para Kabale não era ruim para os padrões da África. Era alto, com três poltronas de um lado, duas do outro e sem banheiro (é claro!). Pouco antes de sairmos, um passageiro se levantou e pediu que todos orassem para que Deus iluminasse aquela viagem (a maioria do pais e crista). Nunca imaginamos o quanto aquele ato seria tao importante. Defenitivamente aquele passageiro ja tinha feito aquele trajeto. Entendemos também porque tantas pessoas recomendavam o lento ônibus do correio. O motorista seguiu a toda. No inicio a estrada estava ate boa, e nao dava para perceber tanto. Logo chegamos a partes onde estava em manutencao, e a poeira levantou. A Bibi que estava na janela sentiu bem mais. Eu dormi mas não demorei muito para acordar com o ônibus desviando de buracos e fazendo curvas em “alta” velocidade (para a condição da estrada era rápido, fisicamente falando não era). Pouco antes de amanhecer, muitas pessoas desceram, e ficamos com três poltronas para nos dois. A Bibi finalmente dormiu, e a paisagem desta região montanhosa foi ficando cada vez mais deslumbrante. A medida que íamos subindo as montanhas, o frio ia aumentando proporcionalmente a altitude. O sol foi chegando aos poucos, proporcionando uma vista magnifica. Não muito depois nos avisaram que havíamos chegado na pequena Kabale (o ônibus seguiria viagem). Descemos, a Bibi enrrolada no saco de dormir, e eu so de camiseta e cachecol, corri para abrir a mala que estava no bagageiro para me agasalhar. Tomamos um bom cafe da manha num hotel não muito longe dali. Na ida até o hotel já arranjamos transporte para o Lago Bunyonyi. No curto caminho montanhoso e empoeirado ate o lago a Bibi dormiu, e eu fiquei observando o dia começar nesta pequena região rural ao redor de Kabale. Senhoras quebravam pedras, sentadas no chão com pequenos martelos, perto de algumas pedreiras. Outras carregavam o cascalho sobre a cabeca, montanha acima e abaixo. Ao chegar no lago, optamos por pegar uma canoa, e não um barco a motor, para curtir ainda mais o clima.

Lake Bunyonyi

Lake Bunyonyi

A paisagem é algo sensacional, todas aquelas montanhas, com terraços cultivados, envolvendo o lago. Um lugar calmo, muito astral e magico. Fomos ate a ilha Buchara. Existem dois tipos de acomodação, chales e barracas. São aquelas barracas tipo exercito, já montadas, que tem cama e da para ficar em pé dentro. Achei que podia ser uma boa oportunidade para a Bibi aprender a “acampar”. De qualquer forma a qualquer momento poderíamos mudar para um chale, se necessário.

Acampando? Mais ou menos...

Acampando? Mais ou menos…

Foram dias bem relax, sem fazer muita coisa. A Bibi meditava com frequência, e eu saia para andar pela ilha, que era bem pequena. Em menos de 15 min dava a volta na ilha. As vezes dava uns mergulhos também.

OoOoooo...!!!

OoOoooo…!!!

Fomos no comentado mercado Kyevu (todos os sabados), que nao ficava muito tempo de barco a motor da Ilha Buchara. Este mercado foi de muita importância nos anos 70, época do Amin, pois e na divisa com a Ruanda, e muitas trocas de mercadorias eram realizadas. Tivemos azar que bem no dia que fomos tinha um velório ali perto, e não formaram muitas barracas por este motivo. Comemos a comida tipica deles que e uma mistura de Batata doce, um tipo de aipim, banana e feijão, tudo cozido junto, na mesma panela, e envolto de folhas de bananeira. Um porcento da população de Ruanda e de pigmeus, e alguns destes estavam lá. Parecem “hominhos”. Tentamos uma interação, mas o povo ali era “meio do mato”, e não teve muita conversa.

Comidinha caseira!

Comidinha caseira!

Kyevu market

Kyevu market

A ilha que estávamos era de propriedade da Igreja Anglicana. Alias, as igrejas cristãs são super atuantes em toda a Uganda. Na ilha tinham viajantes, mas também encontramos alguns missionários. A Bibi gostou da barraca e acabamos nem nos mudando para os chales. Todos os horários eram programados. Depois da janta se escolhia o café da manha e falava o horário que queria que fosse servido, depois do cafe, escolhíamos o almoço e o horário, e assim sucessivamente. Ha, o banho também tinha hora marcada, e vinham abastecer o recipiente do chuveiro com água (quente) com um balde.

Ainda dormimos uma noite em  Kabale e depois  seguimos pela montanhosa e empoeirada estrada para Kisoro. Como não tinha transporte local saindo regularmente, pegamos um táxi “comunitário”. O motorista coloca quantos passageiros couberem para que todos paguem menos. Sei que em certa etapa da viagem tinham 3 na frente e 4 atrás, na verdade 5, pois um passageiro estava com uma criança não muito pequena no colo. Dava para ver a cara de desespero da Bibi. Alem disto, muita poeira, buracos e paisagens exuberantes…

Kisoro e uma cidade muito empoeirada, sem muitas atrações. E ponto de partida para ver os Gorilas da Montanha do lado de Uganda. Existem diversos hotéis simples e muito baratos, do estilo que ficamos em Kabale, mas como a TPM da Bibi virou TM, tive que arranjar algo melhor. Depois de muito procurar, encontramos um lugar muito agradável, onde os proprietários nos trataram como filhos. Foi bom ficar num lugar mais estruturado, pois no dia seguinte fui subir um vulcão, e fiquei tranquilo de deixar a Bibi descansando.

Sensacao de estar em casa.

Sensação de estar em casa.

Tinha combinado com um Bodaboda de passar me pegar as 6 da manha, e este não apareceu. Sai para a cidade ainda escuro, em busca de outro transporte. Depois de um tempinho achei um motoboy que não falava uma palavra em inglês, mas aqui eles também falam Kiswahili. Negociei para ir ate o parque, e antes disto passamos no posto de gasolina, pois e claro que tava sem combustível. Fomos seguindo desviando todos aqueles buracos, e ainda a certa distancia da entrada do parque a moto quebrou. Segui a pé, andando rápido, pois se me atrasasse não deixariam eu subir o vulcão. Cheguei bem atrasado, mas viram que eu não teria problemas de completar o percurço antes de anoitecer, e liberaram minha subida. Subi eu, um guia e um guarda devidamente armado de um AK47. O parque nacional de Maharinga (Uganda) e a continuação do parc nacional des Virungas (Congo), e parc nacional des Volcans (Ruanda). São diversos vulcões que se estendem um ao lado do outro, cruzando fronteiras e se estendendo por um vasto territorio. Escolhi subir o Muhavura (4127 mts) o mais alto dos 3 vulcões deste parque da Uganda (O Pico da Neblina, mais alto do Brasil tem 2994 mts). Pra mim sempre os primeiros 30 min são os piores, depois parece que engrena. A subida e bem íngreme, e ia em zig-zag. Alguns metros para a esquerda, outros para a direita. So mais perto do cume que tivemos que circundar para chegar ao topo, e encontrar um pequeno lago na cratera. Infelizmente o tempo estava totalmente encoberto. Toda a vista dos outros vulcões e países não foi possível. Que pena!!! Fiquei com aquela sensação de quero mais, mas fazer o que. Como eu tinha subido rápido, tive mais tempo la em cima para esperar para ver se o tempo abria, mas não adiantou, não era meu dia. Iniciamos a descida com cuidado, pois escadas improvisadas tinham pregos enferrujados e estrutura suspeita. O bom e que na vinda era subida o tempo todo, e não volta só descida, sem oscilações. Chegando la embaixo olhei para cima, tamanha não foi minha surpresa ao notar que a montanha não estava mais encoberta! O parque fica numa região bem remota, e foi interessante passar por todos aqueles vilarejos. Alguns deles estavam com falta de água, e  pessoas formavam longas filas para abastecer galoes com água trazida da cidade.

No Topo!!

No Topo!!

Lago na cratera do vulcao

Lago na cratera do vulcão

Escadas

Escadas

O desafio visto de baixo

O desafio visto de baixo

Dia seguinte seguimos (novamente por uma estrada esburacada e empoeirada) até a fronteira de Ruanda.

Explorando as Ilhas Querimbas

Decidimos que não iriamos de ônibus/ caminhão até a recomendada praia de Pangane, para depois pegar o barco para Ibo, voltando para o Sul. Tinha muito mais lógica subir pelas ilhas e depois voltar para o continente. Ok, mas como fazer isto? Na pousada que estávamos falaram que era complicado e tal. Um dia estávamos explorando a cidade baixa de Pemba, e fomos falar com alguns pescadores. Descobrimos um Dhow (tipo de Jangada) que iria levar mantimentos para pequenas ilhas e depois  navegar ate Ibo. Não tivemos duvida, acertamos com o pescador (mais barato que o táxi de Wimbe para Pemba) e a meia noite já estávamos lá, dormindo no Dhow, esperando a mare certa para iniciarmos a viagem.

Aguardando a saida

Aguardando a saida

As 3 da madruga estávamos partindo, em meio a algas verde fluorecentes (pareciam neon), iluminadas pela Lua. Dormimos poucas horas sobre os sacos de arros e varias bugigangas. O sol nascendo foi um momento a parte, assim como os golfinhos que logo apareceram. Tentei dividir uns pães e amendoins que tinha com a tripulação  mas eles não deram muita bola. Logo percebi porque. Acenderam um fogareiro portátil  prepararam um delicioso chá (servido com pimenta) e aqueceram um pão tipo ” sonho”. Depois de um tempo descobrimos que existia um banheiro improvisado, e rimos muito quando o Samuel utilizou. Passamos por diversas ilhas, algumas muito pequenas, e eramos atracão turística.

Banheiro

Banheiro

Dhow igual ao nosso

Dhow igual ao nosso

Pronto para a chuva

Pronto para a chuva

Desde o inicio da viagem, peguei ” chuva” (chuvisco na verdade, suuuper leve), só dois dias. Um em Cape town e outro em Nampula. Claro que Murphy ia aparecer ali. Nuvens pretas começaram a se formar, e nem o lençol improvisado como vela auxiliar foi suficiente para fugirmos da tempestade. Vento forte fez o Dhow disparar, mas logo chegou a chuva. Quem ta na chuva e para se molhar… Não durou mais que uma hora e meia, e deslizamos sobre ondas que aumentaram consideravelmente de tamanho. Passamos por mais ilhas, contornamos um manguezal ate chegarmos em Ibo, principal ilha do arquipélago  Foi paixão a primeira vista. Totalmente isolada, com seus casarões portugueses espalhados pelas largas ruas. Luz só das 18 as 20, e quando tem gasolina para o gerador. Restaurante? Um ou outro a não ser os das duas “luxuosas” pousadas de franceses. Alias, algumas das ilhas são de propriedade de um árabe  que construiu resorts, com pista de pouso e tudo (como que os turistas ricos chegariam la?). Os poucos dias que tínhamos programado para a ilha principal se transformaram em uma semana, ao descobrirmos que o dia de São João estava próximo  e era o Padroeiro da Cidade alem do aniversario da própria  Com isto teríamos que cancelar a recomendada e isolada praia de Pangane, o  que fiz sem do. Praia bonita tem muita no Brasil, mas aquela ilha era um caldeirão cultural, e com a festa que se aproximava estava melhor ainda. Nunca trocaria os papos de final de tarde com o Sr João Batista (de 82 anos, conselheiro da ilha, que estudou muito e trabalhou com os Portugueses) para ficar largado numa praia bonita.

Ibo!!

Ibo!!

Já no primeiro dia preparamos uma Garoupa de 18 Kg. Deu um trabalhão. Fizemos grelhada, frita e ensopado, como não tem geladeira (eletricidade), comemos, demos para os amigos que já tínhamos feito, e almoçamos no dia seguinte. O peixe custou menos de 30 reais, a mais alguns trocados para os temperos e acompanhamentos. Com a falta de restaurantes tivemos que nos virar, mas sempre preparávamos coisas gostosas. Quando dava preguiça  corríamos para o centrinho e comprávamos peixe frito (vinha enrolado em folha de caderno), salgados, doce de amendoim, pé de moleque, tentáculos de polvo, vários tipos de pães e ” sonho” (na verdade e sem recheio). Eu gostava de comprar os tentáculos de polvo, já com molho apimentado, e misturar com arroz. Teve um dia que fiz uma Caranguejada,   sirizada na verdade. Comprei quase 10 kg para 4 pessoas e cada um tinha direito a 4 siris. Imagine o tamanho do bichinho. Se bem que consegui umas patolas extras.

Garoupa

Garoupa

Patola

Patola

Quer farinha? Tem que moer mandioca...

Quer farinha? Tem que moer mandioca…

Um dia fomos caminhando na mare baixa para a ilha vizinha, Querimba. Foram duas horas de caminhada, no inicio entre mangues e depois por areia. Na mare cheia fica com 4 metros de profundidade em certas partes. Nas outras ilhas, só 20 % da população fala Português  devido a forte influencia dos árabes  Conhecemos um Moçambicano descendente de Alemão que nos mostrou sua impressionante plantação de cocos (exporta para a Tanzânia  que toma grande parte da ilha. Tomamos água de coco, comemos o doce broto que germina dentro do coco de fomos para as praias. Ele contou das dificuldades de se investir no Moçambique  que não era como no Brasil (que visitou a 20 anos atras) onde tudo funcionava, tinha infraestrutura… Da para acreditar?

Querimba

Querimba

Visual

Visual

Teve dias que fomos para o banco de areia da Ilha Matemo, teve dia que fomos fazer mergulho, com uma suuper visibilidade e direito a ver mais golfinhos.

Banco de areia perto de Matemo

Banco de areia perto de Matemo

Mas gostamos mesmo de nos “perder” em Ibo. Com as festas a ilha tava borbulhando. Cheio de gente de outras ilhas, do continente e alguns turistas. Inclusive encontramos os portugueses novamente alem de outras pessoas que conhecemos no caminho. O dia da festa foi uma atracão a parte. Cedo já tinha musica, danças tipicas, e ate o governador do distrito apareceu para falar no palanque. As crianças engomadinhas, nos seus melhores vestidos de festa, com cabelos devidamente arrumados e penteados. Muitas comidas e a noite colocaram ate um telão com filmes de Bollywood, que era o suprassumo para quem não tem nem tv. Alguns cantores e muita festa e bebedeira antes de pular a fogueira. Na verdade, fora o santo a festa não tem nada a ver com o nosso São João (só algumas bandeirinhas). No dia seguinte, dia da independência de Moçambique  já tava tudo mais calmo. Acho que era a ressaca. Moçambique conquistou a Independência só em 1975, quando as forças revolucionarias (Frelimo) chutaram Portugal do pais. Não foi a mesma moleza que no Brasil.

Dia de Festa

Dia de Festa

Sao Joao

Sao Joao

Corrida de Dhow

Corrida de Dhow

Estilos

Estilos

Ibo tb possui alguns fortes e também foi palco de guerras contra os árabes  local de venda de escravos, e região estratégica para os portugueses. Mas e bem diferente da Ilha de Moçambique.

Dificuldade da Independencia estampada na bandeira

Dificuldade da Independencia estampada na bandeira

Casa de Cha

Casa de Cha

Entardecer em Ibo

Entardecer em Ibo

Aqui nao pode!!!

Aqui nao pode!!!

Aqui pode...

Aqui pode…

Vendedoras com as "comidinhas de rua"

Vendedoras com as “comidinhas de rua”

Achamos um Dhow que iria ate a Tanzânia  em 3 dias de viagem. Acertamos com o proprietário e nos despreocupamos. Menos de 10 horas antes de sair ele nos falou de um problema que teve e cancelou. Estava com o tempo contado para chegar a Dar Es Salam (Tanzânia) para esperar a Bibi (primeira dama). Foi uma correria ate achar um barco que sairia de madrugada, fazer diversas  conexões em cruzamentos, primeiro utilizando pau de arara e depois caçambas de caminhonetes. Esta fronteira e uma das mais desafiadoras da Africa, muito cansativa. Região sem estrutura, de pequenas vilas, de onde o Frelimo veio conquistando território ate chegar em Maputo. No caminho fizemos paradas forcadas devido um problema da ultima caminhonete. Em algumas vilas fui cercado, queriam saber como sabia português, se tinha morado em Angola ou em Moçambique. Quando falava que era do Brasil, alguns nem sabiam onde era, um comentou: América do sul, né?! Perguntavam se estava a trabalho, em busca de ouro. Contei do meu trajeto até ali e dos meus planos para o restante da viagem pela África, quando uma pessoa sabiamente comentou: Ah, você viaja em busca de conhecimento então…

Cacamba

Cacamba

E mais cacamba...

E mais cacamba…

Ta com fome?

Ta com fome?

Depois de mais de 12 hs e viagem, chegamos a Mocimboa da Praia. Recebemos o convite que uma pessoa da caminhonete para dormir na casa dele. Ficamos na sala, numa estera de palha. Dia seguinte, perto das 4 já estávamos recolhendo gente na Land Cruise para seguir pela difícil estrada ate a fronteira. Em um momento contei 28 pessoas na caminhonete. Não dava para se mexer. A estrada de terra virou arreia, e foi uma longa viagem. Na hora de carimbar a saída quase tivemos problemas com os guardas (novamente), mas conseguimos se safar. Dai foi só pegar um barco e atravessar para a Tanzânia  Dormimos não muito longe dali, e logo seguiríamos pelo sul da Tanzânia até chegar em Dar Es Salam

Barco na fronteira Moz x Tanzania

Barco na fronteira Moz x Tanzania

Em terra de cego

Algumas fronteiras na África são distantes entre si, e e o caso do Malawi e Moçambique, onde existe alguns KM de ” Terra de ninguém”.  Para percorrer estes km fomos na garupa de bicicletas, com nossas mochilas, apostando corrida. Muito divertido. Os Alemães iam subir o Malawi por terra (depois de ter descido de barco),  mas quando me conheceram viram uma oportunidade de viajar comigo, por falar português. Viajar no norte do Moçambique já não é fácil  sem saber a língua fica tudo ainda mais difícil  O Moçambique e praticamente dividido em dois países  O sul e mais ” moderno” com muita influencia da Africa do Sul. Muitos sul-africanos tem negócios lá, casa de veraneio nas bonitas praias. Lá que ficam as industrias e tem uma relativa boa estrutura. Já o norte ( e ate dividido fisicamente pelo rio Zanbezi) e selvagem, isolado.  Em toda a minha estadia, não tomei banho nem um dia com água encanada. Só de balde! Transporte? Carona, Caçamba de caminhão e poucas ” lotações  sempre bem cedo, saindo entre 3:30 e 4 da manha. A expectativa era muito grande, primeiro pais estrangeiro que visito podendo falar português.

Ainda antes da fronteira encontramos um casal, Todd- Americano, e Eva- Espanhola, super legais,  que seguiram viagem com a gente. Apos uma pequena conexão em Mandimba seguimos para Cuamba. Poucas horas de viagem e o pneu furou, e não tinha estepe. Ficamos um tempo perto de umas casas, num lugar super isolado, ate arrumarem o pneu. Neste lugar elogiaram meu português  e queriam saber onde aprendi. hahaha Comedia. Conversando com um senhor que trabalha no Correio Moçambicano  perguntei sobre um boné da ” Vale” que ele usava. Contou que estavam investindo muito no Moçambique  e que ele ganhou um premio do correio e foi para o Brasil. Perguntei se tinha ido para o Rio, e ele me respondeu que não, que tinha ido para Curitiba. Mundo pequeno!!!! Foi até no Bar do Alemão no Largo da Ordem!!!! Seguimos viagem e algumas horas depois estourou o pneu, desta vez sem conserto. Como ja estava meio tarde, não passou mais ninguém na estrada, e tivemos que dormir por ali. Eu, Graham, Todd e Eva tínhamos barracas, mas o restante das pessoas tiveram que se abrigar num barracão de pau a pique que deveria ser um mercado. Comemos batata doce, unica comida disponível  No outro dia cedo já passou uma caminhonete e seguimos para Cuamba. Cidade no meio do nada, pequena, com um certo charme, ruas largas e algumas casas com arquitetura portuguesa. Parecia abandonada no tempo. Tomamos um bom “mata-bixo” (cafe da manha) e arrumamos uma pousada. Achei que depois de tanto tempo dormiria numa cama, mas para dividir custos acabei ficando no chão mesmo (a pousada era bem ruinzinha, e acho que o saco de dormir era melhor que a cama). O banho era de balde, mas aqueciam um recipiente com uma fogueira, então o banho era quente!

Estrada...

Estrada…

Banho de balde, mas agua quente.

Banho de balde, mas água quente.

Compramos algumas coisas num mercado de rua, e comemos por lá mesmo. Um prato de arroz, feijão e carne, na feira custava menos de meio dólar  Tinham me falado que o Moçambique era meio caro, mas depende aonde vc vai. Se bem que os preços das pousadas eram bem caros em relação a qualidade oferecida. As 5 saia o “Comboio” (trem) sentido Nampula.

Colocam até um ou outro carro nos vagões  de tao ruim que são as estradas. Pegamos uma cabine para nos 6, com 2 triliches.  O ” Comboio” e lento, mas passa por paisagens exuberantes. Vilas remotas, com dezenas de vendedores de tudo, galinha viva, assada, mandioca, bolos, frutas… O comboio quebrou, e esperamos algumas horas ate vir uma outra locomotiva. Passamos por lindas montanhas, e deu vontade de parar numa das pequenas vilas e explorar a região  Pena que ainda existam tantas minas terrestres, herdadas dos tantos anos de ” Guerra civil”, que terminou a 15 anos. Guerra Civil entre parenteses, pois a Renamo, apoiada pelos EUA e Africa do sul, era uma guerrilha mercenária, que atuava em diversos países.

Comboio quebrado

Comboio quebrado

Vendedores

Vendedores

Chegamos em Nampula ja de noite. Ao procurar um hotel, encontramos com 4 oficiais do exercito moçambicano, devidamente armados. Sabia que teríamos problemas, e rapidamente andei na direção deles e simpaticamente pedi informações  Enquanto falava com um deles, outro já foi recolhendo os passaportes, falando que teríamos que acompanha-los e blablabla. A corrupção da policia moçambicana e famosa. Depois de eu contar algumas historias tristes, que tínhamos sido roubados, que não tínhamos nem cartão de credito, acabamos sendo liberados. Ficamos num hotel, mas novamente dividimos um quarto e continuei sem dormir em cama.

Aha-Uhu, Moz e nosso!!

Aha-Uhu, Moz e nosso!!

ta em casa!

ta em casa!

Nampula é uma cidade bonita, relativamente “moderna”, não tem cara de vila. Mas quando descobri que e a terceira maior cidade do Moçambique  descobri a dificuldade que o norte do pais passa. Pegamos um” Machimbombo” (ônibus) para Ilha de Moçambique  com direito a ver camelos darem um corridão em policiais. Na viagem conheci um simpático casal de portugueses  que estão morando em Maputo (capital) e estavam de ferias. Conversamos todo o longo trajeto, e me segurei pra não contar nenhuma piada de português…hehe

Não acampamos propriamente na ilha, mas sim de frente para esta, que tinha uma praia mais bonita. Para a ilha, era só caminhar pela estreita ponte, curtindo todo o visual. A Ilha e um museu a céu aberto. Patrimônio da Unesco, já foi a capital dos territórios portugueses na africa. Devido as frequentes guerras com os Árabes  imponentes fortificações foram construídas.  Posteriormente, estes fortes foram utilizados para aprisionar os escravos, antes de serem levados da África e mais recente como prisão  na época da independência e da guerra civil. Para construir os fortes, utilizaram pedras da própria ilha, o que fez com que uma parte seja muito mais baixa, como se fosse um buraco mesmo.

Ilha de Mocambique

Ilha de Moçambique

Mais Ilha de Moz

As ruas são super estreitas, e e uma pena que as construções estejam em péssimo estado de conservação  salvo algumas exceções  Os locais reclamam que devido o isolamento não recebem muitos turistas, e os que vem, ficam pouco tempo, não deixando muito dinheiro. O potencial do lugar e incrível, mas tem muito ainda a ser feito.

A Ilha já não tem muitas praias, e as que tem, são usadas como banheiro pelos locais. Uma pena. Ate vi alguns mais higiênicos andando com suas pás para enterrar as necessidades… Hilário!!

Ilha de Moz

Camping que ficamos

Perto do camping tinha uma pequena vila, onde descobrimos um mercado noturno. Comemos frutos do mar, batata doce, mandioca, salgados  e pães, tudo por menos de 1 us$. Os locais riam muito, pois eramos brancos e estávamos comendo com a mão  sentados no chão  e eu falava ate português. Muitos vinham conversar e ficamos um bom tempo la.Tínhamos que fazer uma conexão em Namialo, para pegar o Machimbombo que saia cedo de Nampula para Pemba. O problema era que as lotações param a cada km, e provavelmente não chegaríamos a tempo. Decidimos alugar um caminhão só para gente, e para reduzir custos, acertamos que só pararíamos quando quiséssemos  e o dinheiro seria para abater o que pagamos. Deu certo, chegamos a tempo, pagando um preço razoável. Seguimos para Pemba, importante cidade portuária da região norte.  Da cidade pegamos carona ate um cruzamento e outra com um motorista de van da Universidade Católica ate a praia de Wimbe. Inacreditavelmente não tivemos que pagar, coisa incomum aqui. A bonita praia de Wimbe já tem alguns Resorts, mas ficamos mais no canto sul, onde e mais isolado e calmo.

Wimbe