Explorando as Ilhas Querimbas

Decidimos que não iriamos de ônibus/ caminhão até a recomendada praia de Pangane, para depois pegar o barco para Ibo, voltando para o Sul. Tinha muito mais lógica subir pelas ilhas e depois voltar para o continente. Ok, mas como fazer isto? Na pousada que estávamos falaram que era complicado e tal. Um dia estávamos explorando a cidade baixa de Pemba, e fomos falar com alguns pescadores. Descobrimos um Dhow (tipo de Jangada) que iria levar mantimentos para pequenas ilhas e depois  navegar ate Ibo. Não tivemos duvida, acertamos com o pescador (mais barato que o táxi de Wimbe para Pemba) e a meia noite já estávamos lá, dormindo no Dhow, esperando a mare certa para iniciarmos a viagem.

Aguardando a saida

Aguardando a saida

As 3 da madruga estávamos partindo, em meio a algas verde fluorecentes (pareciam neon), iluminadas pela Lua. Dormimos poucas horas sobre os sacos de arros e varias bugigangas. O sol nascendo foi um momento a parte, assim como os golfinhos que logo apareceram. Tentei dividir uns pães e amendoins que tinha com a tripulação  mas eles não deram muita bola. Logo percebi porque. Acenderam um fogareiro portátil  prepararam um delicioso chá (servido com pimenta) e aqueceram um pão tipo ” sonho”. Depois de um tempo descobrimos que existia um banheiro improvisado, e rimos muito quando o Samuel utilizou. Passamos por diversas ilhas, algumas muito pequenas, e eramos atracão turística.

Banheiro

Banheiro

Dhow igual ao nosso

Dhow igual ao nosso

Pronto para a chuva

Pronto para a chuva

Desde o inicio da viagem, peguei ” chuva” (chuvisco na verdade, suuuper leve), só dois dias. Um em Cape town e outro em Nampula. Claro que Murphy ia aparecer ali. Nuvens pretas começaram a se formar, e nem o lençol improvisado como vela auxiliar foi suficiente para fugirmos da tempestade. Vento forte fez o Dhow disparar, mas logo chegou a chuva. Quem ta na chuva e para se molhar… Não durou mais que uma hora e meia, e deslizamos sobre ondas que aumentaram consideravelmente de tamanho. Passamos por mais ilhas, contornamos um manguezal ate chegarmos em Ibo, principal ilha do arquipélago  Foi paixão a primeira vista. Totalmente isolada, com seus casarões portugueses espalhados pelas largas ruas. Luz só das 18 as 20, e quando tem gasolina para o gerador. Restaurante? Um ou outro a não ser os das duas “luxuosas” pousadas de franceses. Alias, algumas das ilhas são de propriedade de um árabe  que construiu resorts, com pista de pouso e tudo (como que os turistas ricos chegariam la?). Os poucos dias que tínhamos programado para a ilha principal se transformaram em uma semana, ao descobrirmos que o dia de São João estava próximo  e era o Padroeiro da Cidade alem do aniversario da própria  Com isto teríamos que cancelar a recomendada e isolada praia de Pangane, o  que fiz sem do. Praia bonita tem muita no Brasil, mas aquela ilha era um caldeirão cultural, e com a festa que se aproximava estava melhor ainda. Nunca trocaria os papos de final de tarde com o Sr João Batista (de 82 anos, conselheiro da ilha, que estudou muito e trabalhou com os Portugueses) para ficar largado numa praia bonita.

Ibo!!

Ibo!!

Já no primeiro dia preparamos uma Garoupa de 18 Kg. Deu um trabalhão. Fizemos grelhada, frita e ensopado, como não tem geladeira (eletricidade), comemos, demos para os amigos que já tínhamos feito, e almoçamos no dia seguinte. O peixe custou menos de 30 reais, a mais alguns trocados para os temperos e acompanhamentos. Com a falta de restaurantes tivemos que nos virar, mas sempre preparávamos coisas gostosas. Quando dava preguiça  corríamos para o centrinho e comprávamos peixe frito (vinha enrolado em folha de caderno), salgados, doce de amendoim, pé de moleque, tentáculos de polvo, vários tipos de pães e ” sonho” (na verdade e sem recheio). Eu gostava de comprar os tentáculos de polvo, já com molho apimentado, e misturar com arroz. Teve um dia que fiz uma Caranguejada,   sirizada na verdade. Comprei quase 10 kg para 4 pessoas e cada um tinha direito a 4 siris. Imagine o tamanho do bichinho. Se bem que consegui umas patolas extras.

Garoupa

Garoupa

Patola

Patola

Quer farinha? Tem que moer mandioca...

Quer farinha? Tem que moer mandioca…

Um dia fomos caminhando na mare baixa para a ilha vizinha, Querimba. Foram duas horas de caminhada, no inicio entre mangues e depois por areia. Na mare cheia fica com 4 metros de profundidade em certas partes. Nas outras ilhas, só 20 % da população fala Português  devido a forte influencia dos árabes  Conhecemos um Moçambicano descendente de Alemão que nos mostrou sua impressionante plantação de cocos (exporta para a Tanzânia  que toma grande parte da ilha. Tomamos água de coco, comemos o doce broto que germina dentro do coco de fomos para as praias. Ele contou das dificuldades de se investir no Moçambique  que não era como no Brasil (que visitou a 20 anos atras) onde tudo funcionava, tinha infraestrutura… Da para acreditar?

Querimba

Querimba

Visual

Visual

Teve dias que fomos para o banco de areia da Ilha Matemo, teve dia que fomos fazer mergulho, com uma suuper visibilidade e direito a ver mais golfinhos.

Banco de areia perto de Matemo

Banco de areia perto de Matemo

Mas gostamos mesmo de nos “perder” em Ibo. Com as festas a ilha tava borbulhando. Cheio de gente de outras ilhas, do continente e alguns turistas. Inclusive encontramos os portugueses novamente alem de outras pessoas que conhecemos no caminho. O dia da festa foi uma atracão a parte. Cedo já tinha musica, danças tipicas, e ate o governador do distrito apareceu para falar no palanque. As crianças engomadinhas, nos seus melhores vestidos de festa, com cabelos devidamente arrumados e penteados. Muitas comidas e a noite colocaram ate um telão com filmes de Bollywood, que era o suprassumo para quem não tem nem tv. Alguns cantores e muita festa e bebedeira antes de pular a fogueira. Na verdade, fora o santo a festa não tem nada a ver com o nosso São João (só algumas bandeirinhas). No dia seguinte, dia da independência de Moçambique  já tava tudo mais calmo. Acho que era a ressaca. Moçambique conquistou a Independência só em 1975, quando as forças revolucionarias (Frelimo) chutaram Portugal do pais. Não foi a mesma moleza que no Brasil.

Dia de Festa

Dia de Festa

Sao Joao

Sao Joao

Corrida de Dhow

Corrida de Dhow

Estilos

Estilos

Ibo tb possui alguns fortes e também foi palco de guerras contra os árabes  local de venda de escravos, e região estratégica para os portugueses. Mas e bem diferente da Ilha de Moçambique.

Dificuldade da Independencia estampada na bandeira

Dificuldade da Independencia estampada na bandeira

Casa de Cha

Casa de Cha

Entardecer em Ibo

Entardecer em Ibo

Aqui nao pode!!!

Aqui nao pode!!!

Aqui pode...

Aqui pode…

Vendedoras com as "comidinhas de rua"

Vendedoras com as “comidinhas de rua”

Achamos um Dhow que iria ate a Tanzânia  em 3 dias de viagem. Acertamos com o proprietário e nos despreocupamos. Menos de 10 horas antes de sair ele nos falou de um problema que teve e cancelou. Estava com o tempo contado para chegar a Dar Es Salam (Tanzânia) para esperar a Bibi (primeira dama). Foi uma correria ate achar um barco que sairia de madrugada, fazer diversas  conexões em cruzamentos, primeiro utilizando pau de arara e depois caçambas de caminhonetes. Esta fronteira e uma das mais desafiadoras da Africa, muito cansativa. Região sem estrutura, de pequenas vilas, de onde o Frelimo veio conquistando território ate chegar em Maputo. No caminho fizemos paradas forcadas devido um problema da ultima caminhonete. Em algumas vilas fui cercado, queriam saber como sabia português, se tinha morado em Angola ou em Moçambique. Quando falava que era do Brasil, alguns nem sabiam onde era, um comentou: América do sul, né?! Perguntavam se estava a trabalho, em busca de ouro. Contei do meu trajeto até ali e dos meus planos para o restante da viagem pela África, quando uma pessoa sabiamente comentou: Ah, você viaja em busca de conhecimento então…

Cacamba

Cacamba

E mais cacamba...

E mais cacamba…

Ta com fome?

Ta com fome?

Depois de mais de 12 hs e viagem, chegamos a Mocimboa da Praia. Recebemos o convite que uma pessoa da caminhonete para dormir na casa dele. Ficamos na sala, numa estera de palha. Dia seguinte, perto das 4 já estávamos recolhendo gente na Land Cruise para seguir pela difícil estrada ate a fronteira. Em um momento contei 28 pessoas na caminhonete. Não dava para se mexer. A estrada de terra virou arreia, e foi uma longa viagem. Na hora de carimbar a saída quase tivemos problemas com os guardas (novamente), mas conseguimos se safar. Dai foi só pegar um barco e atravessar para a Tanzânia  Dormimos não muito longe dali, e logo seguiríamos pelo sul da Tanzânia até chegar em Dar Es Salam

Barco na fronteira Moz x Tanzania

Barco na fronteira Moz x Tanzania

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