República da Transnístria!

Lenin

Lenin

Com o colapso da União soviética, a Transnístria proclamou independência da então República Socialista Soviética da Moldávia (para um maior entendimento da região, ler sobre a Bessarábia também). A própria Moldávia, apesar de ter autonomia sobre a região, só conseguiu independência da URSS mais tarde. Foi quando se estabilizou como republica e aderiu às Nações Unidas que tentou reanexar a Transnístria. Uma guerra que se estendeu por mais alguns anos. A Transnístria, de maior parte da população eslava e língua russa, não se identificava tanto com os romenos da Moldávia. Com o apoio da Rússia, venceram a guerra e conseguiram se manter De facto independentes, apesar de não ter o reconhecimento internacional de nenhum país membro da ONU.

Não lembro ao certo quando escutei a primeira vez sobre esta república, só sei que passei a sonhar com um país congelado no tempo, um pedacinho da União Soviética que tinha sobrevivido. Depois de tanto viajar este era um destino que dava o famoso frio na barriga, muitas duvidas e poucas informações sobre o lugar.

No hostel em Chisinau-Moldávia me perguntaram se eu tinha certeza que iria para lá sozinho. Um conhecido, de um clube de viagens, alertou para eu ter cuidado com os guardas na Transnístria, famosos pela corrupção. Costumo ser um pouco cético quanto aos comentários das pessoas que nunca foram para um lugar, mas tem fortes opiniões sobre o destino. Confesso que me preparei psicologicamente para o pior, deixei até um dinheiro separado em um bolso para uma ultima tentativa de liberdade caso fosse necessário.

.

Brasão da Transnístria

 

Existem microonibus saindo com bastante frequência de Chisinau para Tiraspol, capital da Transnístria. A viagem é rápida e me surpreendi quando o controle de imigração foi antes do rio. Teoricamente Transnístria significa “Depois do (Rio) Dnester”, mas parece que o exército deles teve sucesso em conquistar lugares estratégicos. Um grande brasão com a foice e o martelo mostravam a entrada deste país que não existe. Na imigração, o oficial tentava me explicar em russo, que eu teria que me registrar caso ficasse mais que dez horas lá. Peguei o documento e respondi um “Sem problemas!” em português mesmo, pois percebi que ele não entendia nada de inglês. Soldados na beira da estrada e tanques camuflados protegiam a ponte que dava acesso para Tiraspol. Uma larga avenida passava por prédios alinhados, diversas propagandas em outdoors e bandeiras nas cores da Transnístria e da Rússia. Alguns monumentos e parques depois e começamos nos afastar da cidade novamente, até chegar no ponto final, em frente da velha estação de trem.

.

Cartão da imigração – Valido por 10 horas sem registro

.

Propaganda da independência

Estação de trem

Estação de trem

 

Logo fui em um guichê para trocar dinheiro, lá só aceitam o Rubro da Transnístria. Peguei o pequeno mapa, tentando não mostrar para ninguém, me localizei mais ou menos e parti para a caminhada. As ruas estavam desertas e uma vez ou outra passava um ônibus caindo aos pedaços. Entrei em um parque para fotografar uma igreja e ficava olhando para os lados com medo que alguém visse. Mesmo sem querer, acabei pegando a “neura” de pessoas que nunca tinham ido para lá.  Tentei me controlar, mas veio a lembrança um artigo sensacionalista que havia lido, que falava sobre a economia local ser basicamente contrabando de armas e trafico de mulheres. Duas quadras para frente, paro antes de atravessar a rua e vejo um Porsche vindo na outra direção. Me aproximando do centro noto que a quantidade de Mercedes é maior que dos antigos Lada. A cidade fica mais movimentada, não chega a ser viva, mas tem um dia a dia mais intenso. Ok, pode ter mafia-russa, afinal até uma base do exercito russo tem lá, mas com certeza as histórias da região são bastante aumentadas, e algumas viram “lendas-urbanas”. Passo por ruas com nome “Karl Marxa”, “25 de Outubro”e “Lenina”. Estatuas do Lenin também não são difíceis de serem observadas. Existe um grande culto ao passado, mas o presente não aponta nada para o comunismo.

.

Banco

.

Igreja ortodoxa

.

Parque Kirov

.

Ônibus velhos contrastando com Mercedes e Porche

Mal tinha iniciado meu tour pela região e me deparo com uma agencia dos correios. Não tive duvidas e entrei para ver se tinha algum cartão postal ou coisa do tipo. Na pior das hipóteses seria divertido explicar o que queria. E foi! Peguei fila e quando chegou a minha vez a senhora me olhou com cara de impaciente por não me entender – e eu não entender ela. Uma outra senhora sentada em uma mesa veio na minha direção e me atendeu em outro local. Conseguiu uns cartões postais e me ajudou a preencher, de forma que eles entendessem. Enviei dois cartões postais, que não tinha certeza se chegariam. Lembrei que nunca recebi os cartões que mandei do Iraque e do Turcomenistão, mas não custava tentar.

.

Cartões postais no correio da Transnístria

Poucas quadras dali tinha um pequeno museu que contava a história dos conflitos da Transnístria. Poderia ser um ótimo lugar para entender a história, mas todos os documentos estavam em russo, a simpática senhora que atendia ficava me acompanhando, apontava para um lado e para outro, mas a comunicação era zero. No final rimos muito, ela me abraçou e meu deu um tapinha nas costas me mostrando o caminho da saída.

Logo me deparei com a primeira loja, depois a fábrica da Kvint, antiga produtora (1897) de destilados, orgulho nacional, presente até numa nota do Rublo da Transnístria! Mais ou menos como se a Caninha 51 fosse estampada em uma nota de Real! Estranho para nós, mas não para um país onde o primeiro presidente  (governou por 10 anos) se chamava Igor Smirnov! Brincadeiras a parte, nenhuma relação com a Smirnoff.

 

Os produtos Kvint também podem ser encontrados nos supermercados Sheriff. A estrela, simbolo do “Sheriff” é facilmente visualizada. Só não se confunda, Sheriff também é marca de posto de gasolina, de hotel e até de clube de futebol!! Por mais que criem muitas histórias sobre o lugar, da para entender da onde tiraram a “ideia” que uma mafia controla tudo em Tiraspol. O clube de futebol Sheriff tem uma arena super moderna, alem de um centro esportivo bem completo, definitivamente “padrão Fifa”.

.

Estadio do Sheriff

Avenidas largas e arborizadas , muita propaganda nacional, algumas igrejas e um mercado de rua improvisado onde vendiam de tudo. Comi alguma coisa na rua mesmo e quando percebi já tinha “desencanado” bastante do lugar. Passei por mais alguns prédios soviéticos, palácio presidencial e cheguei até o cemitério dos heróis, um memorial dos mortos na guerra, com as devidas homenagens e chama eterna. Já estava fotografando tanque de guerra sem olhar (muito) para os lados.

.

Catedral da Natividade vista de longe

.

Senhora vendendo roupas com a estatua do General Suvorov atrás

.

Palácio presidencial

.

1792 – ano da vitória sobre os Otomanos

.

Memorial de guerra

.

Chama eterna em homenagem aos mortos

Deu tempo de me perder, andar sem destino, explorando a cidade. Aleatoriamente acabei passando na frente das embaixadas da Ossétia do Sul e da Abkhazia, países (que não existem) que reconhecem a República da Transnístria como país. Funciona quase como um clube dos excluídos, onde um apoia o outro (a República de Nagorno-Karabakh também reconhece).

.

Embaixada da Abkhazia e Ossétia do Sul

Presenciei também um casamento movimentado, jovens tomando sorvete, amigos bebendo, pessoas fazendo compras, crianças brincando, um casal brigando dentre tantas cenas comum do dia a dia. Por mais que se fantasie um país que não existe como algo do outro mundo, no final das contas as pessoas acabam tendo uma vida bem normal. Cada um com seus problemas.

Lançamento dos livros em Lisboa – Portugal

Estão todos convidados para o lançamento dos livros em Lisboa-Portugal, dia 17 de outubro! O evento vai ser em um Café/livraria muito bacana, chamado Palavra de Viajante. Vamos contar um pouco das nossas viagens e esperamos encontrar muitos viajantes, portugueses e estrangeiros que estejam de passagem pela capital portuguesa.  Estendam o convite aos conhecidos que tenham em Lisboa.

Durante toda a semana ficaremos hospedados no premiadíssimo Lisboa Central Hostel, que está nos apoiando neste evento. Fica a dica para quem vier de outras cidades europeias. 😉

 

cartaz

 

 

Os livros De Cape Town a Muscat: Uma Aventura pela África e De Istambul a Nova Délhi: Uma Aventura pela Rota da Seda estarão a venda na livraria Palavra de Viajante após o evento.

A Europa pouco visitada

Quando se pensa em uma viagem para a Europa, poucos brasileiros lembram da Moldávia como destino. Uma região que ainda não foi descoberta pelos nossos conterrâneos. Junto com a Bielorrússia, é um dos últimos dois países europeus que ainda exigem visto para brasileiros (se contar Cáucasos como Europa aina tem outros dois). Esmagada entre a Romênia e a Ucrânia, acaba tendo influencia dos dois. Era o limite de Império Romano, que chegava até o rio Dniestre, trocou de mãos diversas vezes, nas guerras entre os Otomanos e Russos, até fazer parte da União Soviética.  A população fala tanto o russo como o Romeno, língua latina que acaba tendo palavras próximas ao português. Na capital Chisinau, é possível observar diversas bandeiras da União Européia, mas ainda parece ser um sonho bem distante, pois é um dos países mais pobres de toda a Europa. As influencias russas e heranças soviéticas também são fáceis de se observar, caminhando por esta agradável e pacata capital.

Um microonibus do aeroporto até o centro, cerca de meia hora, custa menos de 50 centavos de Real! É o Leste Europeu do imaginário, como já foram destinos que hoje são invadidos pelo turismo em massa. Avenidas largas, arborizadas, construções históricas e grandes parques formam o visual da cidade.  Não é o tipo de destino que você vai ter uma lista de atrações imperdíveis para ver, mas não deixa de ser uma cidade bem gostosa e barata para curtir o dia a dia. Como meu anfitrião do couchsurfing acabou cancelando em cima da hora, fui para um hostel, onde uma cama (em quarto para quatro pessoas) custava pouco mais de cinco euros.

Chisinau

Chisinau

.

Teatrul Nacional

.

Museu nacional

Dei uma passada em alguns monumentos, memoriais e museus, perambulei para ver o Holly Gates, o Parlamento, Palácio Presidencial, alem de uma ou outra das construções históricas que sobreviveram ao bombardeio da segunda guerra. Mas com o verão, tava gostoso mesmo de curtir a vida ao ar livre. Mercados de quinquilharias, os parques Central e Gradina, mercado de flores, concerto com a orquestra juvenil na frente da catedral e cafés lotados davam vida para a cidade. Algumas igrejas ortodoxas coloridas muito bonitas contrastavam com os prédios cinza em forma de bloco ao lado. Dentro das igrejas muita devoção,  as mulheres sempre com as cabeças cobertas, pediam a benção ao padre.

.

Igrejas lindas

.

Igrejas com os blocos de apartamentos ao fundo

.

.

Holly Gates e Catedral

Catedral

Música numa noite de verão cai bem!

.

Estatua do Stefan Cel Mare (o mais famoso Príncipe da Moldávia) na entrada do parque Gradina

.

Torre da catedral com o palácio do governo ao fundo

.

Pinturas no teto do monastério

 

Para os amantes de vinho é indispensável uma visita à adega da Cricova. São mais de 120 km de corredores numa antiga mina de cal, que hoje guarda mais de um milhão de garrafas de vinho. Parece ser a maior do mundo, mas foi sua concorrente, Melestii Mici que consegui provar ao Guiness, ter mais de 2 milhões de garrafas estocadas.

Como não sou muito fã de “maior do mundo”, “mais isto””mais aquilo”, me contentei com jantares gostosos, com meio litro de vinho  e sobremesa que dificilmente passavam dos 5 euros. Existem outros programas que podem ser feitos no esquema bate e volta, como os monastérios  em cavernas Orheiul Vechi, do seculo 13, na beira do rio Raut ou o Tipova , numa região também muito bonita.  Para quem gosta de cultura, pode dar uma esticada até Soroki. Fica beem puxado para ir e voltar no mesmo dia, mas pode ser uma boa pedida para quem está indo para a Ucrânia. Cidade em que a maioria da população é de ciganos, tem uma arquitetura toda peculiar e uma cultura riquíssima. Infelizmente por ficar mais longe não pude ir desta vez, mas tinha outros planos para o interior.

Eu queria conhecer a Gagauzia, região autônoma da Moldávia. Ao contrario da Transnístria (conto da minha viagem para lá em outro post) a região da Gagauzia fez acordos (depois de algumas guerras) com a Moldávia e após conquistar certas autonomias, desistiu de se separar.

Fui em um ônibus velho de Chisinau até Comrat, capital desta região autônoma. No caminho uma paisagem rural, com tratores andando lentamente nas estradas e agricultores e pastores no campo. Plantações de gira sol, infelizmente murchos, completavam o visual. Não tive muita sorte pois começou a chover intensamente. Comrat é uma pequena cidade de interior, de onde se governa toda a região. Me falavam que era um lugar empoeirado, mas com tanta chuva estava era enlameado, isto sim!. Historicamente os Gagauzos eram búlgaros-turcos muçulmanos. Para poder permanecer nestas terras foram obrigados a se converter ao cristianismo. Tem uma cultura toda peculiar, um idioma próprio e até uma universidade onde  tentam preservar os suas tradições/cultura/língua.

Comrat Gaugazia

Comrat Gagauzia

Com a chuva não pude conhecer as vilas ao redor, que eram meu maior foco, mas não posso dizer que não me diverti em Comrat. A iniciar pela comunicação! O gagauzo é impossível de compreender e ninguém falava inglês, sendo muito difícil pedir comida ou até entender os preços. Já tinha imitado galinha, pedido preço mostrando a calculadora quando incrivelmente encontrei um restaurante a quilo! Na verdade o sistema era um pouco diferente, cada porção tinha um valor, mas foi um alivio saber o que iria comer.

Uma das regiões mais pobres de um dos países mais pobres da Europa. Ai que você percebe como não se pode generalizar nada. Quando alguém fala que “na Europa isto, que na Europa aquilo”, não está se referindo à Gagáuzia, com certeza. A cidade de Comrat é tão Europa quanto Londres, a não ser que não se use mais a conotação geográfica.

Me olhavam com curiosidade. Algumas pessoas tentavam interagir, outras chegaram a se irritar quando eu não entendia o que diziam. Deviam se perguntar: o que este maluco estava fazendo aqui?

A catedral de São João (1820), dois ou três museus de história e cultura Gagauzia, Universidade, biblioteca, centro cultural e meia duzia de memoriais me mantiveram ocupados enquanto a chuva não passava. Como o tempo não se firmou, voltei para Chisinau. Se antes eu tinha achado a capital da Moldávia pequena e pacata, agora consegui ver até um pouco de caos próximo da estação de microonibus. Tudo uma questão de referencia.

Universidade

Universidade

Centro Cultural

Centro Cultural

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gaugázia

Governo, com bandeiras da Moldávia e Gagauzia

Já estava me sentindo em casa em Chisinau. Havia andado a pé por tudo, circulado de ônibus, até repetido cafés e restaurantes. Me orientava como se já estivesse lá a semanas, mas chegava a hora de partir. Fui para o aeroporto com medo de perder minha conexão em Istambul – e perdi. Não por poucos minutos, mais por horas,devido ao atraso do voo. Com isto tive que dormir mais uma noite no aeroporto. Se Chisinau parecia familiar, o aeroporto de Istambul parecia meu quarto, depois de dormir três noites lá em poucas semanas!

 

Chipre, uma ilha dividida.

A história do Chipre se confunde com a história da humanidade. Existem vestígios de que a ilha era habitada 10 mil anos atrás. Fez parte da Grécia antiga, do Império Romano, Bizantino, foi caminho e conquistado pelos Cruzados, Venezianos e passou um longo período sob domínio Otomano. Caiu nas mãos dos Britânicos, até finalmente conseguirem a independência, já nos anos 60.

A população consistia de uma maioria cipriota grega e uma minoria cipriota turca. O novo governo teve dificuldades em reger o país, muitos conflitos e crises aconteceram, até que em 74 uma junta militar deu um golpe de estado para anexar a ilha à Grécia. A Turquia reagiu imediatamente invadindo o norte da ilha para proteger os turcos cipriotas. Com o final do conflito, criou-se uma zona desmilitarizada chamada linha verde, que divide o Chipre em dois (inclusive sua capital, Nicósia). A parte sul é conhecida como República do Chipre (membro da União européia) e a norte como Republica Turca do Chipre do Norte, país de facto independente mas somente reconhecido pela Turquia.

Eu cheguei pelo aeroporto de Ercan, na parte norte da ilha, entrada considerada ilegal pela República do Chipre. Como tenho passaporte italiano, deixam atravessar para o sul (consideram toda ilha parte da União Européia) mas se tivesse com o brasileiro, poderia circular somente na parte norte (se entrar pelo sul pode ir para o norte e voltar). *Atualizando, o André foi algumas semanas depois que eu e cruzou para o sul com o passaporte brasileiro

Imigração rápida, tive que esperar pouco tempo até meu anfitrião do coushsurfing, Rif, chegar. Já tinha lido sobre a dificuldade de locomoção na parte norte da ilha, portanto foi fundamental a boa vontade do meu amigo em me levar para conhecer toda a ilha. Geograficamente situada no Oriente Médio, é um museu a céu aberto. É possível parar toda hora para visitar sítios arqueológicos. Não demorou muito para eu ver as primeiras igrejas abandonadas e destruídas. Algumas vilas , também semi abandonadas,  onde algumas casas tinham buracos de bala chamaram minha atenção. Quando os cipriotas gregos fugiram para o sul, a Turquia incentivou a ida de turcos para o norte do Chipre, pra repovoar a região. O Rif é filho de turcos, que vieram pós divisão do Chipre. Nascido no Chipre a mais de 30 anos, faz parte de um dos grandes problemas de uma possível reunificação.

Aqueduto

Aqueduto Otomano na beira da estrada

Fomos contornando a linha verde, passando por diversas bases militares e postos de controle. Logo entenderia que todos estes militares turcos acabam sendo grande parte da economia do norte da ilha. Passamos por incontáveis vilas e viajamos sentido  Famagusta, no leste da ilha. Algumas das paradas mais importantes no caminho foram as ruínas da cidade grega de Salamis, as Tumbas Reais e o monastério de St Barnabas (onde ele supostamente está sepultado), um dos lugares mais sagrados do Chipre. O Santo Barnabé é um dos apóstolos, padroeiro do Chipre.

.

Salamis, antiga Cidade-Estado grega

DSC_0093

Tumbas Reais

.

Monastério Santo Barnabé

Chegando em Famagusta, caminhamos pela cidade velha, toda murada (construída pelos venezianos), conhecemos a Othelo Tower, a catedral de St Nicholas (hoje Mesquita Lala Pasha Mustafa), e outros diversos lugares históricos. Atravessamos o porto até uma bonita praia, que fica ao lado de Varosha, cidade turística (pré-divisão) que ficava de frente para o mar, mas que hoje está parcialmente destruída e isolada, sendo uma verdadeira cidade fantasma. Pessoas pegam praia com prédios bombardeados ao fundo.

.

Vista

.

Antiga catedral, hoje mesquita, no estilo gótico

 

Pessoas pegando praia com uma cidade fantasma e prédios bombardeados ao fundo.

Pessoas pegando praia com uma cidade fantasma e prédios bombardeados ao fundo.

Encontramos com um amigo do Rif e fomos fazer uma das atividades preferidas da Ilha, comer. Comer está diretamente ligado com a cultura dos cipriotas turcos, e posso dizer que se come muito bem! Foi bom para fugir do calor intenso que fazia e colocar minha lista de perguntas em dia.

Aperitivo

Aperitivo

Descanso merecido e discussões interessantíssimas, pegamos estrada para o extremo norte da ilha, na Península Karpaz. Região mais isolada de todo o Chipre, somente algumas vilas, muitas delas bem tradicionais e conservadoras. Me surpreendeu ao encontrar cipriotas gregos vivendo em Dipkarpaz, uma raridade no Chipre do Norte, já que muitos fugiram para o sul abandonando suas casas. Bonitas praias, um parque nacional com jegues selvagens, o monastério do Apostolo Andreas de frente para o mar e finalmente chegamos ao cabo apostolo, no extremo norte da ilha.

Golden Beach

Golden Beach

Monastério

antigo Monastério Apostolo Andreas

Cabo Apostolo

Cabo Apostolo

Foram mais algumas horas de viagem até chegar na vila onde os pais do Rif moram. Apesar do Rif ter uma vida relativamente moderna, os pais dele são bastante conservadores. Eu brincava que o pai dele sentava na mesa como um leão – um rei da selva – que queria ser servido. Ele não falava uma palavra em inglês, no inicio me olhava com desconfiança, mas nos entendemos muito bem. A mãe se empenhava na cozinha e amigos apareceram junto com os irmãos para um longo e divertido jantar. Apesar de um clima bem seco, semi-árido, algumas arvores frutíferas davam um clima para a mesa montada do lado de fora da casa. Alias, a casa onde eles moram estava abandonada desde os conflitos nos anos 70, eles simplesmente tomaram posse do lugar, coisa muito comum em toda a região.

O "Chefe"

O “Chefe”

Os dias foram muito proveitosos, acordávamos cedo e rodávamos bastante, sempre em companhia de mais algum amigo. O calor era intenso e o sol fortíssimo. Em Girne (também chamada de Kyrenia) pude conhecer a parte mais turística do Chipre do Norte. Dezenas de hotéis, restaurantes, boates e cassinos. Wi-fi gratuito nas praças, um porto bem charmosinho com um castelo Bizantino ao lado. No topo da montanha tem um bonito monastério, Bellapais, onde tem uma ótima vista de toda a região.

Porto

Porto Girne

Monastério

Monastério Bellapais

Vista

Vista Girne

O oeste do Chipre do Norte tem uma paisagem  diferente, talvez um pouco menos árida, com grandes plantações de cítricos. Muitas igrejas, como a de São Mamas, mas a grande atração da região de Morphou (fundada pelos espartanos) é Soli, com um teatro romano e mosaicos de uma antiga basílica, onde dizem que São Marcos foi batizado. Isto sem contar na bela costa e pequenos restaurantes na beira do mar.

Mosaicos

Mosaicos em Soli

Litoral

Litoral em Morphou

A Família do Rif fazia com que me sentisse em casa. Extremamente hospitaleiros, já estava amigo até do vizinho, que produzia pães frescos para toda a vila. Depois de rodar boa parte do norte da ilha, havia chegado a hora de conhecer a capital, Nicósia, e atravessar para o sul, na República do Chipre. Nicósia é toda murada (pelos venezianos), em forma de estrela, com grandes portões de acesso.

Placa na fronteira

Placa ao lado da “fronteira, que fica no meio de Nicósia

Vinha observando muitas bandeira da RT do Chipre do Norte ao lado de bandeiras turcas, e o mesmo acontecia em Nicósia. Os mastros mais altos e bandeiras maiores, quem sabe para que os cipriotas gregos pudessem observar. A cidade é dividida por um muro e tem um ponto onde é possível atravessar, depois dos devidos controles de passaporte. Antigamente este tramite era bem mais complicado, mas desde a entrada do Chipre (sul) na União europeia, estão facilitando tudo. Mesmo os cipriotas turcos ganharam o direito de entrar na porção sul da ilha e até trabalhar lá. Que consegue provar a origem cipriota pode tirar até o tão sonhado passaporte da União Européia. O grande problema agora está com os turcos, que foram relocados para o Chipre do Norte. Eles não podem passar para o sul e são acusados de serem o motivo do Chipre estar dividido. A questão é um pouco mais complicada, no ultimo plebiscito, os próprios cipriotas gregos não aceitaram que a ilha se reunificasse, No sul, as bandeiras da Republica do Chipre estão ao lado das da Grécia.

Fronteira

Próximo à “fronteira”. Tirei a foto de longe para não ter problemas

A parte sul de Nicósia me pareceu bem mais moderna e menos interessante. Claro que valeu a pena conhecer e me perder pelas pequenas ruas, ver todas as ativas igrejas e cafés, tudo pareceu muito animado, cara de festa, principalmente próximo à avenida Macarius, área descolada da cidade.  Mas não adianta, gostei mesmo da parte norte, com um belo caravansarai (Buyuk Han -The great inn), os banhos turcos,  a imponente  Selimiye mosque além das casas Samanbace do período otomano. Até a região da moda, Dereboyu, me pareceu mais autentica que Macarius.

Bandeiras Gregas

No sul da ilha, muitas bandeiras Gregas

.

Confeitarias e restaurantes bem mais caros na parte sul.

 

Marcas da guerra

Buracos de bala – marcas da guerra e de um Chipre dividido

Caravansarai

Caravansarai no Norte de Nicósia

Apesar da situação aparentemente ser mais simples do que muitos outros “países que não existem”, a divisão do Chipre não parece que se resolverá logo, principalmente por causa dos turcos que nasceram e vivem lá a tanto tempo. Os cipriotas gregos poderiam dar uma aliviada também (já que agora não querem reunificar), mas existem muito ressentimento e desconfiança dos dois lados. Quem sabe no futuro, quando a Turquia realmente ponha todas suas fichas para entrar na união européia, esta questão seja resolvida, e o Chipre volte a ser um só país.

Acordou as 2 das manha para fazer marmita

A mãe do Rif acordou cedo todos os dias para preparar café da manhã, inclusive no dia que fui embora, ás 2 das manhã

 

Kosovo: Não-País ou Quase-País?

Dos países com reconhecimento parcial, Kosovo tem uma posição privilegiada. Digamos que está mais para um Quase-País do que para um Não-País. Tem o reconhecimento de 108 estados membros da ONU (Só perde para a Palestina, que tem o reconhecimento de 134 membros, além de ser Estado Observador da ONU), faz parte do FMI, do Banco Mundial dentre outras associações internacionais. Sua grande força é que a maioria dos membros da União Européia o reconhecem como país (somente 5 não reconhecem). Para o governo brasieirol, se você for para o Kosovo, estará indo para a Sérvia, que já não tem nenhum controle sobre a região.

O Kosovo proclamou independência no início de 2008. Os albaneses, maioria da população do Kosovo, vinham sendo massacrados pelos Sérvios, comandados pelo louco do Milosevic. O Exército de libertação do Kosovo já foi taxado de terrorista pelo ocidente no passado, mas em uma espécie de nova guerra fria (Servia tinha a Russia como grande aliada), EUA e a OTAN (se sentindo culpados por terem deixado os Sérvios massacrarem os Bósnios anos antes), resolveram apoia-los. Com os bombardeios da OTAN, as forças Sérvias recuaram e desde então a região tem autonomia e busca o reconhecimento como país. Para conseguir o feito existem algumas barreiras. A Russia, membro do conselho de segurança é extremamente contra. Países europeus, querem a garantia de que minorias servias na região sejam protegidas e tem medo do sentimento de vingança que os kosovares-albaneses possam ter, já que  milhares de albaneses foram expulsos de suas terras (quase 1 milhão de refugiados) e tiveram suas famílias massacradas (tentaram fazer uma limpeza étnica).

Eu já havia visitado todos os vizinhos do Kosovo, inclusive ensaiado uma ida para lá. Nunca escondi meu interesse pelos Bálcãs, na minha opinião uma das regiões mais interessantes da Europa! Depois de uma noite (mal) dormida no aeroporto de Istambul, cheguei em Pristina, capital do Kosovo. O avião sobrevoou  as belas montanhas, todas enrugadas, como se buscasse um vale para poder pousar. Depois da imigração, revistaram toda a minha mochila, fizeram algumas perguntas e perguntaram quanto dinheiro eu tinha. Acostumado com oficiais corruptos, fiquei com medo mostrar muito dinheiro, mas não era o caso. Eles acharam pouco, ainda perguntaram um “mas você tem um cartão de crédito pelo menos, né?!” antes de me liberarem e solar um “somente rotina, bem vindo ao Kosovo!”

Tinha sido alertado sobre a “síndrome do carro branco”, referencia à cor dos carros da ONU, que fazem o preço dos produtos e serviços subir consideravelmente devido à presença de expatriados com altos salários. Como não existe transporte público do aeroporto para o centro, o jeito foi atravessar a saguão do aeroporto desviando dos taxistas, passar por outro grupo deles lá fora e ficar parado como se esperasse alguém. Ofereceram táxi e eu disse que já tinha um pré agendado. Apos uns minutos disse que iria com um deles se cobrassem o valor que eu já havia combinado (com o táxi que não existia), 30% do valor que estavam pedindo. Aceitaram na hora!

O aeroporto não era tão perto e deu para conversar bastante com o motorista no caminho. Ele não falava inglês muito bem, mas era comunicativo e foi bastante proveitoso. Conheceria Pristina depois, meu foco naquele momento era Prizren, cidade cerca de duas horas de distância. Na verdade não fica muito longe, mas a estrada passa por pequenas vilas e muitas curvas entra as montanhas. Ótimo para ver o dia a dia pela janela alem de poder bater papo com os outros passageiros. Os kosovares estão acostumados com estrangeiros, que normalmente estão a trabalho lá, então não iniciam tanto as conversas, mas se você puxa papo, não param de falar! Como eu já havia viajado pela região albanesa da Macedônia (Tetovo) além da Albânia, eles me viam com bastante curiosidade e tínhamos bastante assunto.

Interior

Interior

Prizren foi uma antiga capital do reino da Servia. Tem sua maioria esmagadora da população kosovar-albanesa, sendo que os poucos sérvios que moravam lá fugiram após o conflito. A cidade velha está muito bem preservada, somente o bairro sérvio e as igrejas que foram bastante destruídos. Mas os tempos de guerra ficaram para trás e quem quer reconhecimento interacional tem que buscar outra postura. Com muita ajuda internacional, o lugar estava pulsando. Cheio de turistas, muitos deles do próprio Kosovo mas também bastante estrangeiros, se espalhavam nos cafés ao redor do Shadervan, antiga fonte de água em um calçadão. Cheguei em pleno festival de filme da cidade e o dia a dia parecei ainda mais vivo.

Centro

Centro

Prizren

Cidade velha com a cidadela ao fundo

Prizren

Prizren

Longas caminhada entre os diversos prédios históricos, mesquitas e igrejas eram intercaladas com repouso em algum café para olhar o movimento e a viada acontecer ao redor. Uma cidade muito gostosa, adorei o tempo gasto por ali. A quantidade de gente, que por um lado dava vida ao local, com o tempo irritou um pouco, queria ter sentido o lugar em um dia comum também. Para compensar isto caminhei bastante por bairros um pouco mais afastados. Comi um delicioso Tave e tomei uma bebida tipica chamara Boza, feita do milho.

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Minaretes

Minaretes

Igrejas destruídas e protegidas com arame farpado

Igrejas destruídas e protegidas com arame farpado

.

.

Acabei nem indo para Peje, cidadezinha mais ao norte do Kosovo, pois acabaria ficando muito corrido. Segui pela mesma estrada de volta para Pristina, passando pelos diversos memoriais de guerra e pela bandeiras do Kosovo ao lado das da Albânia.

Apesar de ser a capital, Pristina não tem tantas atrações. É um lugar movimentado, com tantos estrangeiros e ajuda interacional acabou desenvolvendo uma série de opções de lugares para sair e comer. Um contraste de lugares sofisticados com apartamentos em forma de blocos da era comunista. Um enorme calçadão, chamado Madre Teresa, é uma das regiões mais movimentadas da cidade.

Blocos

Blocos

Calçadão Madre Teresa

Calçadão Madre Teresa

A Madre Teresa nasceu em Skopje, que hoje fica na Macedônia mas na época fazia parte do Kosovo, uma subdivisão do Império Otomano. Existe um grande santuário para ela no centro de Pristina, na esquina das avenidas George Bush com Bill Clinton.

Santuário

Santuário Madre Teresa

Pode parecer estranho um antigo país comunista, de maioria muçulmana, ter esta proximidade com os EUA, mas ela é visível por todos os lados. Bandeiras americanas ao lado das albanesas e do Kosovo sã bem comuns. Eles se mostram muito agradecidos pela decisão dos EUA liderarem a Otan no ataque contra os Sérvios (contrariando a ONU). Pertinho da loja “Hilary Clinton” pude ver a estátua que ergueram em homenagem ao Bill Clinton, no minimo curioso.

Estatua Bill Clinton

Estatua Bill Clinton

.

Outdoor

Mesquitas e igrejas

Mesquitas e igrejas

Depois de explorar bem a cidade, tanto a parte nova como a antiga, estava pronto para seguir viagem. Seguiria minha jornada pelos #PaísesQueNãoExistem com a certeza de que o Kosovo não só existe, como já foi descoberto pelos turistas!