Pelas montanhas de Nagorno-Karabakh

Alguns conflitos entre a Armênia e Azerbaijão na disputa pelo Nagorno-Karabakh quase adiaram minha ida para lá. Um helicóptero derrubado, atiradores fazendo suas vitimas e campos de refugiados completando 20 anos… A região é mais um daqueles conflitos congelados. Historicamente o Nagorno-Karabakh – também chamada de Alto Karabakh em português – já teve autonomia, mas culturalmente é muito ligada à Armênia. Geograficamente para quase todo o mundo  faz parte do Azerbaijão, que dominava a região desde o final da primeira guerra mundial (dizem ter ligações étnicas com o povo original da região, mas isto é outra história). Já tiveram azeris morando lá (como minorias), mas desde a guerra de independência, quase todos foram expulsos ou mortos.

Um pouco de estudo e vimos que se não nos aproximássemos da “linha de frente”, divisa com o Azerbaijão, não teríamos problemas. Se é para explorar, resolvemos fazer bem feito. Nada de entrar pela “popular” rota Goris-Stepanakert. Usamos um caminho vindo do norte, atravessando o passe Sotk, por uma nova estrada que atravessa as montanhas. Nagorno significa “montanha” em Russo, Kara “Negro” em turco e Bakh “jardim”em persa, então com certeza valeria a pena o visual da “montanha do jardim negro”.

Nova estrada pelo Passe Sostk

Nova estrada pelo Passe Sostk

Nagorno-Karabakh

Nagorno-Karabakh

Desde o inicio já percebemos a influencia que a Armênia exerce na região. É como se fosse uma província armênia, idioma, placas, povo. Talvez tenha faltado um pouco o contato com karabakhs separatistas para ter uma ideia mais geral (com azeris já tínhamos conversado). Nem mesmo controle de imigração tivemos para entrar no país por esta estrada. Contornamos belas montanhas, seguimos pequenos riachos e uma hora ou outra aparecia um amontoado de casas. Tanques abandonados na beira da estrada e pequenos memoriais lembravam um pouco da guerra não tão distante.

Memoriais na beira da estrada

Memoriais na beira da estrada

Mas foi em Dadivank que fizemos nossa primeira parada mais longa. Um monastério incrível, construído entre os séculos 9 e 13, perdido no meio das montanhas! Foi fundado pelo Santo Dadi, que está sepultado na igreja principal. Existe um lento trabalho de restauração, mas parece meio abandonado. De qualquer maneira foi uma grata surpresa.

Primeira vista de Dadivank

Primeira vista de Dadivank

Monastério

Monastério

Mais estrada de terra, viajando por regiões remotas do norte do Nagorno-Karabakh (provincia de Shahumian). Já estávamos “quebrados” da viagem quando chegamos em Vank, uma das grandes atrações de NK. Lá que está o monastério Gandzasar (significa tesouro da montanha), um dos mais sagrados do país. Encontramos inclusive outros turistas estrangeiros por lá. A igreja principal é em homenagem ao São João Batista e possui algumas figuras talhadas na pedra.

Gandzasar

Gandzasar

No passado um morador local tentou a sorte na Russia e se deu bem. Quer dizer, mais ou menos. Enriqueceu muito, mandou dinheiro para a região, construiu um hotel bizarro, mas acabou sendo preso por se envolver na Mafia russa. Não preciso nem falar que por aqui ele é herói né?! Alem do hotel, restaurante e quase um “parque temático” ele ajudou na infraestrutura local. É possível de se observar novamente as marcas da guerra. Um longo muro coberto com as placas dos carros azeris é exposto com orgulho. Estes sinais aparecem em todos os lugares.

Placas dos carros azeris exibidas como troféus

Placas dos carros azeris exibidas como troféus

Algumas das bizarrisses do mafioso Karabakh-Russo

Algumas das bizarrices do mafioso Karabakh-Russo

Já bem mais perto de Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh, cabos aéreos ligam uma montanha a outra para impedir que aviões voem abaixo do radar. Mas o clima não é tenso, pelo menos não na capital. Uma cidade pequena, ruas arborizadas, praças floridas com wi-fi gratuito e cheia de pessoas.

A capital Stepanakert

A capital, Stepanakert

Chegada em Stepanakert

Chegada em Stepanakert

Depois de passar no Ministério de Relações exteriores para nos registrarmos e pegarmos o visto, pudemos caminhar tranquilamente e até tomar uma cerveja curtindo o entardecer de Stepanakert. Nosso motorista, Arman, é um franco-armênio, mas não conseguimos achar muito de francês nele. Tinha ideias bem radicais, quase fascistas eu diria. Tenho certeza que ele não gostou muito de algumas perguntas provocativas que fiz, mas bem ou mal acabava respondendo.

Ministério das relações exteriores

Reconhecido por poucos, mas é um país! Ou não?!

Florida

Flores e o palácio presidencial

Acabamos indo dormir na casa dele em Shushi, poucos quilômetros dali. Shushi já foi uma grande cidade, mas foi destruída na guerra. Lá era o centro da cultura azeri no Nagorno-Karabakh, portanto a sua população reduziu drasticamente. Algumas atrações como o antigo forte, igrejas e até uma mesquita valem a visita.

O apartamento do Arman é em um bloco soviético, estava meio que caindo aos pedaços, mas ele via como uma grande oportunidade. Tinha outros apartamentos e pretendia reformar para turistas. Morava com sua mulher a a pequena filha, que era um terror. Maltratou um gato da hora que chegamos até irmos embora, uma verdadeira peste! Dava pena. Ao contrario do gato, fomos bem tratados e alimentados. Um bom jantar regado a vinho era o que precisávamos para fechar o longo dia.

Jantar em Shushi

Jantar em Shushi

Vista do nosso quarto em Shushi

Vista do nosso quarto em Shushi

Mas nossas aventuras não tinham terminado. Logo cedo tentamos convencer o Armen a nos levar até Agdam. Não foi nem uma discussão longa, ele dizia Não, Não e Não. Impossível! Agdam é uma cidade fantasma, totalmente devastada e saqueada. Fica bem próxima da fronteira, na linha de combate, portanto proibida para estrangeiros. Ele alegava se nos pegassem ele poderia se complicar. Tentamos montar um plano B e falamos com um taxista. Ele aceitou nos levar, mas no inicio do caminho já começou com as regras: não pararia, não poderíamos baixar a janelas e não poderíamos tirar fotos. Regras demais para nosso gosto! Pedimos para nos deixar no patio dos transportes em Stepanakert mesmo. Lá fui negociar com o motorista do Lada mais velho que encontrei. Com certeza ele gostaria de fazer uma corrida mais longa. E eu estava certo! A comunicação não foi muito fácil, mas já ofereci um preço justo e fechamos negocio. Saindo de Stepanakert passamos por mais tanques abandonados, uma ou outra base militar e não demorou muito até nosso motorista nos avisar que estávamos em Agdam. Serio? Não tinha nada, só uns montes de pedra. Ele entrou no meio da “cidade” e existiam poucos vestígios das construções. Uma cidade de mais de 100 mil habitantes foi colocada abaixo. Saquearam as ruínas e retiraram tudo que poderia ser aproveitado em outro lugar. Sobrou pouco até mesmo do parque de diversões. Passamos por um ou outro posto de controle mas não nos pararam. A hora de maior adrenalina foi quando a nosso pedido ele nos levou até a antiga mesquita. Está destruída, mas os dois minaretes (Torres da mesquita) se mantem em pé, e podem ser visto de longe. Uma base militar fica logo atrás, portanto ele me vetou quando na empolgação pedi para descer. Eu queria escalar o minarete, mas realmente talvez não fosse uma boa ideia.

Mesquita

Mesquita de Agdam, uma das poucas construções em pé

Adgan, a cidade fantasma

Adgan, a cidade fantasma

De volta a Stepanakert, paramos novamente no monumento Papik Talik, e demos mais uma passeada pelo centro. Mais uma rápida passagem por Sushi e pegamos a estrada para a Armênia. Um zigue-zague pelas belas montanhas, novas discussões com nosso motorista radical, e chegamos no controle de imigração, onde entregamos nosso registro e fomos liberados.

Papik-

Papik-Talik, uma homenagem aos povos ancestrais das montanhas de NK

Stepanakert

Stepanakert

Stepanakert

Stepanakert

Propaganda por todos os lados

Propaganda por todos os lados

Registro

Registro

Depois de voltar para o Brasil, publiquei algumas fotos do Nagorno-Karabakh na internet. Não demorou muito para eu fazer parte de uma “lista negra”de pessoas que viajaram para lá. Oficialmente o Azerbaijão proíbe visitar a região que não controla. A fronteira que utilizamos é considerada ilegal. Seria a mesma coisa que entrar na Abecásia via Russia e a Geórgia ficasse sabendo. Uma pena, espero que não atrapalhe futuras visitas para lá, pois gostaria de conhecer o enclave Nakhchivan, que fica entre Armênia e Turquia.

Marcado

Na lista negra!

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República da Geórgia

A Georgia funcionou como hub para eu visitar os países vizinhos e acabei entrando e saindo quatro vezes no país. De certa maneira isto fez com que eu me sentisse meio que intimo, quase em casa por ali. Até o formato todo original das letras do alfabeto georgiano não me eram mais estranhas.

Georgiano

Hã?!

 

Comentei que a região que mais gostei na Geórgia foi Svaneti, que fica no meio das montanhas. Mas tem muitas outras coisas interessantíssimas no país. A capital, Tbilisi, é bonita, interessante e cheia de contrastes. Prédios em blocos soviéticos no seus subúrbios, uma cidade velha que esta sendo restaurada rapidamente no centro, e cercada por construções modernas. Bem no meio da Geórgia, ótimo ponto de apoio para visitar outras atrações. E os turistas sabem disto. Impossível não observar nas ruas vários estrangeiros. No metro sempre tinham vários grupos de jovens com suas mochilas. Se no Brasil a Georgia não é um destino tão popular, os europeus já descobriram…

A cidade velha é um charme. Apesar do grande investimento que fazem no país, ainda é relativamente autentica. Uma parte bem turística, contrasta com casas lindas caindo aos pedaços poucas quadras dali. No meio de tudo isto, dezenas de casas sendo reformadas para se tornarem hotéis, restaurantes e cafés. Tem tudo para se tornar um destino turístico muito popular.

 

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O forte Narikala fica no topo de Tbilisi, onde é possível chegar de teleférico e ter uma ótima vista da cidade. Um pouco mais para o lado tem um funicular. Diversas pontes, de diversos estilos, atravessam o rio Mtkavari que corta a cidade. O palácio presidencial e a catedral Sameba também tem seu destaque em Tbilisi.

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Carros modernos nas ruas e jovens que baixíssimos salários. Cafés descolados na rua Rustaveli e mulheres tradicionais nas igrejas. Tudo parece um verdadeiro conflito de ideias e ideais.

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Mulheres cobrem a cabeça para entrar nas Igrejas Ortodoxas

Bem perto de Tbilisi fica a antiga capital do “Reino da Ibéria”, Mtskheta. Pequena, charmosa com suas ruas de pedra, é um lugar muito agradável e bonito para se visitar. Lugar sagrado para a Igreja Ortodoxa, é onde a Sta Nino (que saiu da Capadócia) teria convertido o Rei Mirian III no início do seculo 4. Logo após a conversão, o Rei Miriam III tornou o cristianismo a religião oficial de toda a região.

 

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O cristianismo está diretamente ligado com a cultura e a história da Geórgia. Muitos dos atrativos da região tem relação com a religião. Pegamos um microonibus até a região desértica de Kakheti, bem perto da fronteira com a Azerbaijão. Lá está o Monastério David Gareja, ativo até hoje, que possui um complexo de centenas de células monásticas em cavernas. Na verdade parte do complexo deste monastério está em terras azeris, o que gera uma disputa territorial até hoje. Simpáticos soldados azeris controlam a linha da divisa para que nenhum maluco saia caminhando deserto a dentro.

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Quando comentei em outro post que subi a Military Highway sentido Kazbegi e Ossétia do Norte, acabei não colocando nenhuma foto do caminho.  O forte Ananuri e suas duas igrejas são só mais um na lista dos monumentos da Geórgia que fazem parte do patrimônio da Unesco.

Ananuri

Ananuri

 

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Painel com ótima vista na beira na Military Highway

Num lugar tão único e interessante como a Geórgia, não poderia faltar uma boa comida tipica!

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Gostei muito da Geórgia. Belezas naturais, cultura fortíssima, história, povo simpático e bons preços. Tipo do lugar que agrada os mais diversos estilos de viajantes. A Bibi já tinha muita vontade de ir para lá, e depois que contei algumas histórias para ela, tive a certeza de que vou voltar! O legal é que existem diversas opções de destinos. Eu adorei a região de montanhas de Svaneti, mas ainda existe Mutso, Shatili e Tusheti. Se conheci David Gareja, tem as cavernas monásticas de Vardzia, e assim por diante. Posso voltar e fazer uma viagem completamente diferente desta, mas não me incomodaria nem um pouco repetir alguns lugares tão legais 😉

Chipre, uma ilha dividida.

A história do Chipre se confunde com a história da humanidade. Existem vestígios de que a ilha era habitada 10 mil anos atrás. Fez parte da Grécia antiga, do Império Romano, Bizantino, foi caminho e conquistado pelos Cruzados, Venezianos e passou um longo período sob domínio Otomano. Caiu nas mãos dos Britânicos, até finalmente conseguirem a independência, já nos anos 60.

A população consistia de uma maioria cipriota grega e uma minoria cipriota turca. O novo governo teve dificuldades em reger o país, muitos conflitos e crises aconteceram, até que em 74 uma junta militar deu um golpe de estado para anexar a ilha à Grécia. A Turquia reagiu imediatamente invadindo o norte da ilha para proteger os turcos cipriotas. Com o final do conflito, criou-se uma zona desmilitarizada chamada linha verde, que divide o Chipre em dois (inclusive sua capital, Nicósia). A parte sul é conhecida como República do Chipre (membro da União européia) e a norte como Republica Turca do Chipre do Norte, país de facto independente mas somente reconhecido pela Turquia.

Eu cheguei pelo aeroporto de Ercan, na parte norte da ilha, entrada considerada ilegal pela República do Chipre. Como tenho passaporte italiano, deixam atravessar para o sul (consideram toda ilha parte da União Européia) mas se tivesse com o brasileiro, poderia circular somente na parte norte (se entrar pelo sul pode ir para o norte e voltar). *Atualizando, o André foi algumas semanas depois que eu e cruzou para o sul com o passaporte brasileiro

Imigração rápida, tive que esperar pouco tempo até meu anfitrião do coushsurfing, Rif, chegar. Já tinha lido sobre a dificuldade de locomoção na parte norte da ilha, portanto foi fundamental a boa vontade do meu amigo em me levar para conhecer toda a ilha. Geograficamente situada no Oriente Médio, é um museu a céu aberto. É possível parar toda hora para visitar sítios arqueológicos. Não demorou muito para eu ver as primeiras igrejas abandonadas e destruídas. Algumas vilas , também semi abandonadas,  onde algumas casas tinham buracos de bala chamaram minha atenção. Quando os cipriotas gregos fugiram para o sul, a Turquia incentivou a ida de turcos para o norte do Chipre, pra repovoar a região. O Rif é filho de turcos, que vieram pós divisão do Chipre. Nascido no Chipre a mais de 30 anos, faz parte de um dos grandes problemas de uma possível reunificação.

Aqueduto

Aqueduto Otomano na beira da estrada

Fomos contornando a linha verde, passando por diversas bases militares e postos de controle. Logo entenderia que todos estes militares turcos acabam sendo grande parte da economia do norte da ilha. Passamos por incontáveis vilas e viajamos sentido  Famagusta, no leste da ilha. Algumas das paradas mais importantes no caminho foram as ruínas da cidade grega de Salamis, as Tumbas Reais e o monastério de St Barnabas (onde ele supostamente está sepultado), um dos lugares mais sagrados do Chipre. O Santo Barnabé é um dos apóstolos, padroeiro do Chipre.

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Salamis, antiga Cidade-Estado grega

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Tumbas Reais

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Monastério Santo Barnabé

Chegando em Famagusta, caminhamos pela cidade velha, toda murada (construída pelos venezianos), conhecemos a Othelo Tower, a catedral de St Nicholas (hoje Mesquita Lala Pasha Mustafa), e outros diversos lugares históricos. Atravessamos o porto até uma bonita praia, que fica ao lado de Varosha, cidade turística (pré-divisão) que ficava de frente para o mar, mas que hoje está parcialmente destruída e isolada, sendo uma verdadeira cidade fantasma. Pessoas pegam praia com prédios bombardeados ao fundo.

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Vista

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Antiga catedral, hoje mesquita, no estilo gótico

 

Pessoas pegando praia com uma cidade fantasma e prédios bombardeados ao fundo.

Pessoas pegando praia com uma cidade fantasma e prédios bombardeados ao fundo.

Encontramos com um amigo do Rif e fomos fazer uma das atividades preferidas da Ilha, comer. Comer está diretamente ligado com a cultura dos cipriotas turcos, e posso dizer que se come muito bem! Foi bom para fugir do calor intenso que fazia e colocar minha lista de perguntas em dia.

Aperitivo

Aperitivo

Descanso merecido e discussões interessantíssimas, pegamos estrada para o extremo norte da ilha, na Península Karpaz. Região mais isolada de todo o Chipre, somente algumas vilas, muitas delas bem tradicionais e conservadoras. Me surpreendeu ao encontrar cipriotas gregos vivendo em Dipkarpaz, uma raridade no Chipre do Norte, já que muitos fugiram para o sul abandonando suas casas. Bonitas praias, um parque nacional com jegues selvagens, o monastério do Apostolo Andreas de frente para o mar e finalmente chegamos ao cabo apostolo, no extremo norte da ilha.

Golden Beach

Golden Beach

Monastério

antigo Monastério Apostolo Andreas

Cabo Apostolo

Cabo Apostolo

Foram mais algumas horas de viagem até chegar na vila onde os pais do Rif moram. Apesar do Rif ter uma vida relativamente moderna, os pais dele são bastante conservadores. Eu brincava que o pai dele sentava na mesa como um leão – um rei da selva – que queria ser servido. Ele não falava uma palavra em inglês, no inicio me olhava com desconfiança, mas nos entendemos muito bem. A mãe se empenhava na cozinha e amigos apareceram junto com os irmãos para um longo e divertido jantar. Apesar de um clima bem seco, semi-árido, algumas arvores frutíferas davam um clima para a mesa montada do lado de fora da casa. Alias, a casa onde eles moram estava abandonada desde os conflitos nos anos 70, eles simplesmente tomaram posse do lugar, coisa muito comum em toda a região.

O "Chefe"

O “Chefe”

Os dias foram muito proveitosos, acordávamos cedo e rodávamos bastante, sempre em companhia de mais algum amigo. O calor era intenso e o sol fortíssimo. Em Girne (também chamada de Kyrenia) pude conhecer a parte mais turística do Chipre do Norte. Dezenas de hotéis, restaurantes, boates e cassinos. Wi-fi gratuito nas praças, um porto bem charmosinho com um castelo Bizantino ao lado. No topo da montanha tem um bonito monastério, Bellapais, onde tem uma ótima vista de toda a região.

Porto

Porto Girne

Monastério

Monastério Bellapais

Vista

Vista Girne

O oeste do Chipre do Norte tem uma paisagem  diferente, talvez um pouco menos árida, com grandes plantações de cítricos. Muitas igrejas, como a de São Mamas, mas a grande atração da região de Morphou (fundada pelos espartanos) é Soli, com um teatro romano e mosaicos de uma antiga basílica, onde dizem que São Marcos foi batizado. Isto sem contar na bela costa e pequenos restaurantes na beira do mar.

Mosaicos

Mosaicos em Soli

Litoral

Litoral em Morphou

A Família do Rif fazia com que me sentisse em casa. Extremamente hospitaleiros, já estava amigo até do vizinho, que produzia pães frescos para toda a vila. Depois de rodar boa parte do norte da ilha, havia chegado a hora de conhecer a capital, Nicósia, e atravessar para o sul, na República do Chipre. Nicósia é toda murada (pelos venezianos), em forma de estrela, com grandes portões de acesso.

Placa na fronteira

Placa ao lado da “fronteira, que fica no meio de Nicósia

Vinha observando muitas bandeira da RT do Chipre do Norte ao lado de bandeiras turcas, e o mesmo acontecia em Nicósia. Os mastros mais altos e bandeiras maiores, quem sabe para que os cipriotas gregos pudessem observar. A cidade é dividida por um muro e tem um ponto onde é possível atravessar, depois dos devidos controles de passaporte. Antigamente este tramite era bem mais complicado, mas desde a entrada do Chipre (sul) na União europeia, estão facilitando tudo. Mesmo os cipriotas turcos ganharam o direito de entrar na porção sul da ilha e até trabalhar lá. Que consegue provar a origem cipriota pode tirar até o tão sonhado passaporte da União Européia. O grande problema agora está com os turcos, que foram relocados para o Chipre do Norte. Eles não podem passar para o sul e são acusados de serem o motivo do Chipre estar dividido. A questão é um pouco mais complicada, no ultimo plebiscito, os próprios cipriotas gregos não aceitaram que a ilha se reunificasse, No sul, as bandeiras da Republica do Chipre estão ao lado das da Grécia.

Fronteira

Próximo à “fronteira”. Tirei a foto de longe para não ter problemas

A parte sul de Nicósia me pareceu bem mais moderna e menos interessante. Claro que valeu a pena conhecer e me perder pelas pequenas ruas, ver todas as ativas igrejas e cafés, tudo pareceu muito animado, cara de festa, principalmente próximo à avenida Macarius, área descolada da cidade.  Mas não adianta, gostei mesmo da parte norte, com um belo caravansarai (Buyuk Han -The great inn), os banhos turcos,  a imponente  Selimiye mosque além das casas Samanbace do período otomano. Até a região da moda, Dereboyu, me pareceu mais autentica que Macarius.

Bandeiras Gregas

No sul da ilha, muitas bandeiras Gregas

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Confeitarias e restaurantes bem mais caros na parte sul.

 

Marcas da guerra

Buracos de bala – marcas da guerra e de um Chipre dividido

Caravansarai

Caravansarai no Norte de Nicósia

Apesar da situação aparentemente ser mais simples do que muitos outros “países que não existem”, a divisão do Chipre não parece que se resolverá logo, principalmente por causa dos turcos que nasceram e vivem lá a tanto tempo. Os cipriotas gregos poderiam dar uma aliviada também (já que agora não querem reunificar), mas existem muito ressentimento e desconfiança dos dois lados. Quem sabe no futuro, quando a Turquia realmente ponha todas suas fichas para entrar na união européia, esta questão seja resolvida, e o Chipre volte a ser um só país.

Acordou as 2 das manha para fazer marmita

A mãe do Rif acordou cedo todos os dias para preparar café da manhã, inclusive no dia que fui embora, ás 2 das manhã