Caminho das índias (2005)

Quando estava indo para o Nepal fiz escala no antigo aeroporto de Delhi (hoje bem moderno), onde tive meu primeiro contato com a Índia: dezenas de pessoas dormindo no chão, outras comendo… eu sabia que a experiencia seria intensa. Tinha tido um aperitivo de caos nos festivais do Nepal, mas tudo havia se tranquilizado bastante nas montanhas do Tibet.

Agora chegava na Índia em um dos lugares mais intensos, Varanasi. A cidade é um dos lugares mais sagrados da Índia, onde tudo acontece ao longo do rio Ganges. Uma confusão de sensações, cheiros de tempero se misturavam com o fedor de bosta. Muita gente, animais, autorickshas… Não foi um choque cultural porque eu amei desde o início, estava mais para um sonho. Olhava tudo aquilo e não conseguia esconder o sorriso do meu rosto. Com o lábio rachado dos ventos gelados do himalaias, muitas pessoas sabiam que eu vinha das montanhas, e o bate papo fluía nos gaths (escadarias) na beira do Ganges. Muitas pessoas se banhando, cerimonias, pessoas lavando até a boca na água onde passavam restos de corpos. A lenha é cara, e nem todas as famílias conseguem garantir uma cremação completa. Entrei timidamente no rio, me joguei água, mas não tive coragem de mergulhar. Talvez fosse demais para um primeiro dia.

Na beira do Ganges

Na beira do Ganges

Cores da India

Cores da India

Conheci a cidade, rodei aleatoriamente, visitei os crematórios, o bairro muçulmano e diversos templos hindus. Passeei de barco pelo Ganges para ver o sol nascer. Fui até Darnath, local onde Buda deu o seu primeiro sermão. Sentei embaixo da mesma arvore, mas num país com 1 bilhão de pessoas não tinha ninguém para conversar comigo. Bom, pois precisava de um tempo. Aproveitei para curtir o silencio, que foi muito bem vindo, já tinha até esquecido como que era. Crianças se aproximaram vendendo pequenas estatuetas de barro de Buda por poucos paise (centavos de Rupia). A miséria na Índia é algo chocante, e incomoda. Comprei uma estatueta, mas me peguei virando o rosto tantas vezes para não ver coisas que me “incomodavam” que passei a ter um conflito interno.

Crianças muçulmanas

Crianças muçulmanas

Darnath

Darnath

Horas mais tarde conheci um senhor, que me apresentou um templo jainista. Seu fundador, Mahavira, foi um contemporâneo de Buda. Dizem que Buda sempre o desafiou para embates filosóficos, mas ele sempre evitou o confronto. As figuras das estatuas até que são parecidas e existem outras semelhanças entre estas religiões. Praticantes da não violência  os mais “radicais” andam com uma vassoura para limpara o caminho, evitando pisar em algum inseto. Foi muito bacana e proveitoso o bate papo

Arrisquei comprar uma passagem de trem na última hora pois sempre sobram uns lugares. Vagão sleeper simples, facilitava a interação, e eu estava conhecendo um dos programas que mais gosto de fazer quando vou para a Índia, andar de trem! Viajei a noite toda e cheguei em Agra antes do sol nascer.

Rostos da India

Rostos da India

Esperando o Trem

Esperando o Trem

Agra não é uma cidade muito agradável. O fato de milhares de turistas visitarem o Taj Mahal faz com que ao caminhar por lá te olhem como um caixa eletrônico ambulante. Mas estava com muito bom humor, e levei tudo na brincadeira. Conheci um casal de ingleses e um australiano no trem, e decidimos só passar o dia por ali. Corremos para ver o dia nascer atrás do Taj Mahal, único lugar calmo que encontramos em Agra, com o visual do rio. Depois encaramos o empurra-empurra para comprar os bilhetes inflacionados, com grande diferença para indianos e turistas. Lembro que paguei cerca de 15 usd, bem mais do que vinha gastando por dia com todas as atividades, incluindo hotel, comida e transporte.

Taj

Taj

O local é fantástico, e fui apresentado para a arquitetura Mughal que passei a admirar tanto. Não se tem paz lá dendro, lotado de turistas estrangeiros e e indianos. O calor também estava pegando, mas deu para passear e sentar em uma sombra para admirar a grandeza do Taj e das mesquitas ao lado. Ainda passamos no Agra Fort, outro magnífico monumento da lista da Unesco, antes de pegar outro trem noturno, desta vez para Jairpur no Rajastão.

Dividi um quarto de hotel com o casal de ingleses e me assustei com a dor de barriga que ele teve de noite. Se retorcia e teve que ir até o hospital. Eu tinha tido desarranjo no Tibet, e parecia que meu corpo já estava “vacinado”. Acabaram indo para Delhi, e voltei a ficar sozinho.

Desafiando a teoria de que indianos eram dinheiristas, peguei muitas caronas e circulei por varias atrações só na “amizade”. Claro que surgiram aquelas armadilhas para turistas. Um dia fui no cinema, parecia um teatro, com cortinas abrindo e intervalo. Na saída dois jovens se aproximaram e pediram para praticar o inglês. Eu que adoro uma interação fiquei batendo papo. Perguntaram onde estava indo e falei de lugares que queria conhecer. Se ofereceram para me levar, e como já tinha conseguido algumas caronas fui na boa. No meio do caminho falou de um tio que tinha lojas de pedras, que poderia ser um bom presente, ou até negócio. Eu educadamente disse que não queria, mas insistiram. Eu neguei mais firme e depois de uma insistência, pararam o carro, esconderam o sorriso e cordialidade, e me mandaram sair na hora. Eu sai me fazendo de bobo e segui conhecendo a bonita cidade rosa. O palácio da cidade, o palácio dos ventos, o Amber Fort e o incrível observatório astrológico/astronômico Jantar Mantar. Legal andar nas ruas e ver encantadores de cobras, mesmo que seja para ganhar uns trocados dos turistas. Muitos macacos e charretes de camelos carregando tijolos faziam parte das cenas do dia a dia nas partes menos turísticas da cidade. Não pretendia fazer muitas compras, mais os mercados também são bem bacana de se passear.

Mais cores

Mais cores

Pelas ruas

Pelas ruas

Filme com intervalo e cortinas

Filme com intervalo e cortinas

A viagem se aproximava do final e peguei outro trem, desta vez para a capital, Delhi. Fiquei num quarto escuro no camelódromo Pahaganj, em frente a estação de trem. Como tinha poucos dias comecei pelas atrações mais manjadas, antes de me “perder” pela cidade. O magnífico Red Fort, ofereceu sombra nos seus jardins. O caos do Chandni Chowk me apresentou para tantas novas comidas de rua. A imponente mesquita Jama Masjid me apresentou para o islamismo, religião que passei a admirar muito. Conversei por horas com curiosos fiéis. Também fui ao templo Bahai, conhecer mais uma religião (além do Budismo, Jainismo, Hinduísmo, Islamismo…).  Existem alguns lugares para “ver” como o Qtab Minar, minarete que representa a chegada do islamismo na Índia e o Gandhi Smriti, onde o Gandhi foi assassinado. Gostei muito de passear pelo Humayun Tomb, com arquitetura fantástica, belos e silenciosos jardins. Troquei uns livros e passeei por Connaught Place na minha última noite.

Templo Bahai

Templo Bahai

Minarete Q

Minarete Qtab

Tomb

Humayum Tomb

Me despedi da Índia sabendo que iria voltar. O país mais diverso que eu já havia conhecido até ali. De quebra, qual o país que é possível se hospedar na capital por 3 usd?

Quato de 150 Rupia em Delhi

Quarto de 150 Rupia em Delhi

PS-  Voltaria para a Índia mais duas vezes, onde passaria mais de 4 meses.

Carnaval em (El) Salvador!

Com a terrível guerra civil em El Salvador, muitos salvadorenhos emigraram para os EUA, principalmente para o estado da Califórnia.  Nos bairros de baixa renda, não foram tão bem recebidos, pois o grande número de pessoas chegando representava uma ameaça aos empregos de outros imigrantes. Marginalizados agruparam-se em uma gangue que foi crescendo e se organizando. Os Mara Salvatrucha, MS-13, passaram a ser respeitados e foram ampliando seu território, e dominando o tráfico de drogas em algumas regiões. Nisto acontece  uma dissidência e surge os Mara-18, que passam a ser rivais dos seus compatriotas. Ambas as gangues recebem também ex-guerrilheiros, e se tornam ainda mais violentas. Como última alternativa, os EUA passaram a deportar os chefes dessas organizações, mas o problema só aumentou. Em El Salvador as organizações cresceram rapidamente e com o dinheiro do tráfico nos EUA se profissionalizaram ainda mais.  Passaram a atuar como milícias, recebendo dinheiro em troca de proteção e exercendo poderes e influência politica cada vez maior.

A situação estava se tornando insustentável, quando no ano passado os líderes do MS 13 e Mara 18, sentaram para conversar dentro do presídio de segurança máxima em San Salvador. O governo deu algumas regalias para esses presos, e com o novo acordo, a violência despencou. Homicídios caíram 32% e sequestros 50%. Escutamos que jovens deixaram de ser recrutados, ou pelo menos criaram uma mínima idade para isto.

Exite um documentário chamado La Vida Loca  muito interessante sobre este assunto.

Ainda na Nicarágua  quando voltei da Costa do Mosquito para encontrar a Bibi em Santo Tomas, pedi a um senhor numa loja ligar para o mesmo taxista que tinha levado ela até o monastério. Seguimos pelas bonitas estradas rurais, e demorou uns 40 minutos até chegar lá. É um mosteiro trapista feminino, aquela ordem do filme “Sobre homens e deuses”. Tinha um padre italiano muito gente boa e outras hospedes, freiras franciscanas missionárias muito divertidas. Fiquei um dia com a Bibi e gostei muito do lugar. Antes de pegarmos a estrada para Leon, antiga capital e reduto dos Liberais no passado (Granada era onde prevaleciam os Conservadores).

Bibi com as missionárias e o padre

Bibi com as missionárias e o padre

Apesar de bonita, a arquitetura de Leon não chega a ser uma Granada, mas é muito mais “viva”. Cheio de estudantes nas ruas, pessoas praticando esportes nas quadras, movimentada. Os painéis pintados nas paredes e muros fazem a revolução parecer ainda mais viva.

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Painéis revulucionários pela cidadew

Painéis revulucionários pela cidadew

No nosso planejamento inicial, não iriamos para El Salvador. Ao longo da viagem fomos amadurecendo esaa ideia  Em Leon descobrimos que o ônibus que vai direto até lá não tem horário fixo, pois vem desde a Costa Rica. Resolvemos pegar os “chiken buses”, afinal em quilômetros não era tão longe. Mas isto quase custou a minha vida, não pelo perigo, mas porque a Bibi queria me esganar!!rsrs

Uma lotação de Leon até Chinandega, outra que já estava saindo até a fronteira em Casaule. Paga uma taxa de 3 USD para sair da Nicarágua e outra de 2 usd para entrar em Honduras (onde foram muito atenciosos). A Bibi quis comer e sem querer acabamos perdendo o ônibus que estava para sair (aí eu que quase a matei!rs). Foram horas pelas estradas abandonadas do sul de Honduras, onde crianças tapavam buracos em troca de moedas jogadas pelo motoristas, e lagartos eram oferecidos como uma nutritiva refeição de proteínas.

Lotação em Honduras

Lotação em Honduras

Chegamos em Somotilo/Guasaule onde fizemos nova imigração agora para El Salvador. Estranhamente não carimbam o passaporte, tem só um controle eletronico. Pegamos um ônibus até San Miguel onde conseguimos pegar outro até San Salvador, capital do país. Ônibus animado, com vendedores de tudo que é tipo de comida. Os saquinhos com bebidas também fazem sucesso por aqui. Saquinhos de água gelada são infinitamente mais baratos que água mineral. Os de água-de-coco gelado, com pedaços de coco dentro, são artesanais (com um nó na ponta), e são uma deliciosa pedida. Al[em dos vendedores ambulantes de tudo, há os cantantes que animavam o belo trajeto.

Chegando em El Salvador, já estava escurecendo. Muitas pessoas se ofereceram para nos ajudar a chegar aonde queríamos ir. Acabamos pegando um táxi até uma estação de onde saem micro-ônibus direto para a praia. A Bibi tava meio tensa com a história dos “Mara”, mas o pessoal falava que o maior problema era a violência entre eles, além da extorsão (o famoso pagar por proteção). Esperando o micro-ônibus na estação particular, vigiada com câmeras e seguranças fortemente armados, torcíamos para que o pagamento para os Maras tivesse em dia, pois se não estivesse seria uma guerra…rs

Mais quarenta minutos de viagem, agora num confortável ônibus com filme e musica, e nos deixaram na entrada da praia de El Tunco, logo após o porto de La Liberdad. Treze horas de viagem para percorrer menos de 500 km. El Tunco é uma praia famosa pelo surf, cheia de pousadas, portanto não foi difícil achar um lugar bom e barato para ficar. Centro pequeno, com meia duzia de restaurantes e outra meia dúzia de lojinhas. Como é voltado para o turista, os preços eram um pouco acima do que estávamos pagando na viagem, mas nada exorbitante. Apesar de ser considerado um destino onde rolam algumas noitadas, até que não estava muito movimentado fora do final de semana. Mas no sábado a balada era pesada, com muito ragaton e pessoal se esfregando estilo funk. Apesar de ser carnaval, não entramos no embalo. Estávamos em outro ritmo então relaxamos por uns dias, curtindo o final da viagem. Acordava cedo todo dia, para surfar quando o mar ainda não estava lotado. Encontramos o Igor, brasileiro que também estava viajando pela America Central, pela oitava vez, apesar de ter feito um trajeto totalmente diferente do nosso. Ele estava com outra brasileira, Ana, que conheceu em Honduras. Curtimos um clima de praia, comida e cervejinha. Férias da viagem, antes de irmos para San Salvador.

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El Tunco

El Tunco

Segundo aquela ironia, mais uma capital com uma catedral, palácio do governo, teatro, mercado de rua… e nada de mais. Mas queríamos conhecer a catedral para visitar o túmulo do Monseñor Romero, padre conservador, amigo da elite do país, mas que se comoveu com a causa camponesa, e acabou lutando e morrendo por eles e foi assassinado. A guerra civil foi brutal, e enquanto os camponeses estavam lutando, o governo (ditadura) contrarrevolucionário invadia as vilas e matava todas as mulheres e crianças, para abalar os guerrilheiros. Assim como tantos outros lugares que passamos, vimos que a guerra-fria não tinha nada de fria. Se EUA e Russia não tinham coragem de se enfrentar, patrocinavam pessoas para fazer isso por eles, testando seus equipamentos e lucrando com isto. Conseguimos comprar um livro a seu respeito e conversar com algumas pessoas que dizem ter sido curadas por milagres dele. O Padre Oscar Romero foi indicado para o premio Nobel da Paz em 1979, mas perdeu para Madre Tereza de Calcutá  Há quem diga que ele só foi não foi o vencedor por interferência direta dos EUA e da própria Igreja Católica. Nunca vamos saber. Gosto muito de uma frase dele, “o verdadeiro pecado é a injustiça”.

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San Salvador

San Salvador

Ainda tínhamos uma viagem até Tegucigalpa, capital de Honduras. Honduras é o país mais desigual das Amáricas (seguido de Guatemala e Brasil). Pegamos pela primeira vez o ônibus de alto padrão TICA bus, que circula por todas as capitais da América Central. Confortável,  mais rápido, mas sem graça. Uma viagem passa a ser somente um deslocamento, sem nenhum aspecto cultural. O turismo em Honduras se concentra no norte, basicamente nas ilhas Rotam e nas ruínas mayas Copan. Desta vez não teríamos tempo para visitar, mas numa próxima  viagem pelos países mais ao norte, com certeza estarão no nosso roteiro. De qualquer maneira, andando pelas estradas de Honduras,  nos deu vontade de viajar pelo interior do país, aleatoriamente descobrindo seus “segredos”. Tegucigalpa está no topo da lista das cidades mais violentas do mundo, onde grande parte dessa lista são cidades latino-americanas. Se alguém tem medo de ir para lá, vale lembrar que Maceió também está no topo de qualquer lista. Varias outras cidades brasileiras figuram as listas de mais perigosas do mundo, inclusive Curitiba.

A cidade não tem atrações em si. Se o Rio de Janeiro tem o Cristo redentor, Tegucigalpa tem o Cristo del Picacho. Se bem que este é bem menor e vistoso. O que não são menores são as favelas, que se espalham por toda a cidade, sendo difícil identificar onde termina um bairro e onde inicia uma favela. Talvez tudo seja uma mistura dos dois, sem contar com a pequena e milionária elite. Na frente do aeroporto um shopping moderno contrastava com o cenário. O pequeno aeroporto (maior aeroporto não fica na capital, e sim próximo as áreas turísticas) cobra uma taxa de saída caríssima, o que me deixou revoltado.

Colinas de Tegucigalpa

Colinas de Tegucigalpa

Tanto tempo de viagem pela América Central e agora um curto voo de volta para a Cidade do Panamá, onde dormiríamos uma noite antes de voltar para o Brasil.

Panamá, muito mais que um canal.

Não adianta, quando se fala do Panamá, a primeira coisa que vem na cabeça é o famoso Canal do Panamá, que liga o oceano atlântico ou pacífico. Construído no final do seculo 19, acabou ficando pronto só em 1914. Fans de grandes obras de engenharia podem discordar, mas ao chegar na Cidade do Panamá, não teve uma pessoa que visitou o canal que estava empolgada com o que viu. O conjunto da obra e sua importância é muito mais interessante do que o que se vê. O Panamá tem muito mais para oferecer.

Chegando no Panamá, fomos direto para Casco Viejo, a parte antiga da cidade. Uma das poucas partes da cidade que tem ainda tem certa autenticidade. Quando pesquisei sobre a Cidade do Panamá, li muito sobre mini-Dubai, Mini-Miami e outras comparações. Realmente existem prédios super modernos no centro, tem muito dinheiro rolando, mas a desigualdade é grande, basta passar por bairros como El Chorrillo, para ver que ainda tem muita pobreza.

O Casco Viejo esta sendo revitalizado. Como o palácio do presidente (Palacio de las Garzas) fica por ali, a região é fortemente policiada. Alguns prédios históricos reformados, e muitos caindo aos pedaços, não tem meio termo. A Bibi gostou bastante da região, eu não posso dizer que me encantei, mas com certeza melhor que a parte moderna da cidade, onde só é “mais uma cidade”.

Igreja no Casco Viejo com o coreto da praça

Igreja no Casco Viejo com o coreto da praça

Parte moderna da Cidade do Panamá

Parte moderna da Cidade do Panamá

Bem próximo de Casco Viejo, está o mercado de peixe, melhor lugar que mais gostei da Cidade do Panamá. Não muito diferente de tantos outros mercados de peixe, mas com diversas barraquinhas vendendo vários tipos de ceviche com preços de 1 a 3 USD. No Panamá, utiliza-se o USD, mas as moedas são de Balboa (moeda de dólar também são aceitas). Mas voltando as comidas, as barraquinhas ficam cheias de panamenhos, comendo, escutando musica e tomando cerveja. Não se assuste se um vendedor ambulante te oferecer ovos de tartaruga. Eles são muito apreciados por aqui. Muito temperados e apimentados, tem uma consistência estranha. Você tem que rasgar a casca, que é mole e sugar a gema e a clara. Vai se sentir um lagarto!

Ovos de tartaruga

Ovos de tartaruga

Nosso maior interesse no Panamá era o arquipélago de San Blas, na região autônoma de Kuna (Guna) Yala. Até poucos anos atrás, para chegar lá só de avião ou encarando um longo dia de viagem por estradas enlamaçadas. Agora com o asfalto, está tudo bem mais fácil. Não existe transporte público até lá, então você vai ter que entrar em contato com uma das diversas agencias para se esquematizar. É possível acertar só o transporte ou fazer um pacote completo.

Acabamos fechando com a Lam Tours. Passaram para nos pegar bem cedo, mas fomos levados para um escritório superlotado de turistas e me deu um desespero. Alta temporada, tava cheio de gente, todos tentando escolher a ilha que ficariam, querendo fazer festa. Achei que não teria sossego e me deu um grande mau humor. Será que não teria tranquilidade? Mas uma enrolação para fazer compras no mercado, levamos muitos galões de água, já que pretendíamos ficar alguns dias por lá.

Estrada bonita, com mata fechada ao lado, cheia de curvas e sobe e desce. O estilo montanha russa faz com que a viagem, apesar de não tão distante, demore umas quatro horas. Um posto de controle mostrava que estávamos entrando na comarca de Kuna Yala. Como é uma região autônoma  a partir dali o que vale são as leis indígenas. Um pouco mais para frente um rápido controle de passaportes e logo chegamos no local onde saem os barcos. São 365 ilhas, mas nem todas são habitadas. As mais próximas do continente têm vilas, mas muitas outras são habitadas somente por uma ou duas famílias.

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Nós tínhamos arranjado tudo para ficar na ilha Diablo. Apenas uma parada para abastecer em uma ilha-vila e seguimos viagem pelas águas transparentes do caribe. Ficamos muito contentes com nossa ilha, muito bonita e calma. O problema é que era uma das com menos infraestrutura, a Bibi chegou a pensar que não ficaríamos tanto tempo quanto queríamos, mas logo entrou no esquema. Se inicialmente não acertar direto com o “dono”da ilha, uma dica é de falar que vai ficar somente um ou dois dias, depois estender a sua estada. Nós fizemos isto e conseguimos o preço de camping para ficar em uma cabana que tinha até cama, um luxo! hehe “Pousada” literalmente pé na areia, já que não tem piso, desce da cama pisando na areia. Fica a poucos metros do mar azul cristalino, com uma rede na frente.

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Para dar uma volta na ilha não demoram muitos minutos, inclusive o banheiro ficava lá do outro lado. Tinha uma cabana de palha mais próxima onde tomávamos banho. Tinha um buraco com água doce onde pegávamos água com uma jarra para encher o balde.

A ilha ao lado, numa distancia onde era possível nadar, tinha um barco afundado, somente com a proa para for a. No caminho também tem uns corais com seus devidos peixinhos. Na ilha tinham poucas pessoas, e logo ficamos muito amigos, principalmente dos hermanos argentinos, muito gente boa! Altos bate papo no final de tarde. Pessoas vinham e iam, e nós fomos ficando. Um dia chegou um barco cheio de gente, e a ilha ficou lotada. Não foi só o clima que mudou, mas a qualidade da comida. Para quem tinha comido lagosta, ficar só no peixinho foi triste. rs

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O barco da ilha saia todos os dias para passeios, algumas vezes ilhas próximas e outras mais longe. Lugares para fazer snorkling, ou somente para curtir uma outra praia. Algumas enseadas estava lotadas com barcos a vela, alguns inclusive com bandeiras brasileiras.

Antes de ir embora teria que ter um grand finale. Um festival estava para acontecer, onde iriam dar o nome para duas jovens Kuna. Fomos em uma das ilhas principais, já mais perto do continente (utilizam o continente para agricultura), nada de praias bonitas. Barreiras com pedras para evitar que a água avance, e uma casa ao lado da outra, um super aproveitamento do espaço. Corredores entre as casas de madeira, conhecemos a ilha com a tradução de um holandês que casou com uma local.

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O festival acontece em um galpão central, que estava muito cheio. As mulheres, assim como nas ilhas pequenas, estavam com suas roupas típicas. Já os homens vestiam roupas comuns. Toda uma cerimonia  com homens para um lado e mulheres para o outro. Um senta e levanta, com chefes Kuna levando podes de Chincha (bebida local feita de cana de açúcar destilada e café) para frente e para trás, oferecendo para as pessoas alinhadas lateralmente. Eles também fumavam charutos de palha e baforavam a fumaça na cada de todos, inclusive de nós. Uma festa que dura cinco dias e se bebe muito. Algumas vezes passavam distribuindo presentes, que não tem nada de tradicional, pacotes com bala e cigarros.

Caminhando pela ilha pedi para tirar uma foto de uma senhora, ela levantou o dedo indicador, e eu disse, sim, só uma foto. Tirei a foto e ela falou, um dólar. Problemas de comunicação! Eles não são muito chegados em fotos, e isto já virou um comércio.

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Infelizmente fomos embora antes da musica começar, não sem antes aprender a história dos Kuna e sua relação com os EUA durante a construção do canal, o que posteriormente ajudou a conquista da autonomia da região. Chamou a atenção a quantidade de lixo plastico, como já havíamos observado em outras regiões onde o tradicional tem contato com a industrialização de uma maneira brusca. Uma pena.

Volta para a Cidade do Panamá, onde descansaríamos e depois de tantos dias tomamos um banho em um chuveiro! Saímos com nossos amigos argentinos e como estávamos com tempo sobrando, demos uma passada no Canal do Panamá. Mas foi somente um pit-stop para recarregar as energias e seguir viagem. Depois de uma noite bem dormida e um dia tranquilo, pegamos um ônibus noturno até a cidade de Almirante e depois um barco para Bocas del Toro. Estávamos na dúvida se íamos para lá ou não. É uma ilha conhecida pelo surf e pelas festas, achávamos que poderia estar cheia demais. Sabe que até que não estava. As festas rolavam madrugada a dentro, mas para quem estava em outro ritmo não chegava a atrapalhar. Só faltava ter uma bandeira da argentina proclamando território deles. Incrível a quantidade de argentinos que encontramos nesta viagem, em todos os países. Pelo menos uns 50 argentinos pera cada brasileiro.

Bocas del Toro tem mais um clima selvagem, com mangues ao redor, mato. O primeiro lugar que fomos foi para a praia das estrelas, ainda na ilha Colon. Ônibus até Bocas del Drago e uma gostosa caminhada pela areia, contornando a ilha. Mas ao chegar lá tinha uma farofada, isopores, churrasquinho, barulho… Não tínhamos nos dado conta que era domingo, e tava meio piscinão de Ramos.

Também não demos muita sorte com o tempo lá, tirando o primeiro dia de sol, os outros estavam nublados e com bastante chuva.

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Logo na frente da ilha Colon, na ilha Bastimentos tem a praia Red Frog, local onde pode se hospedar ou simplesmente fazer um passeio. Com sorte vai ver estes sapos vermelhos. Se não conseguir ver, terão crianças te oferecendo para tirar fotos por uns trocados. Uma boa pedida para comer ou beber algo é o Bibi’s on the beach, na ilha Carenero, onde também tem um ótimos Surf. Acabamos não indo para Cayos Zapattilas, já que seu estilo é mais parecido como de San Blás.

Como para ir para as outras ilhas, para surfar ou qualquer programa tem que ir de taxi-barco, com chuva, não adiantava insistir muito e resolvemos seguir viagem. A fronteira de Saxiola, não esta muito longe. É possível pegar o barco de volta para o continente e fazer algumas conexões de ônibus ou acertar com um transfer/minivan direto. A pequena fronteira não é muito movimentada, e depois de atravessar a pé a antiga ponte com trilhos de trem, chegamos na Costa Rica.

Atravessando a ponte para a Costa Rica (carregando a mochila da Bibi também!)

Atravessando a ponte para a Costa Rica (carregando a mochila da Bibi também!)

Cuba, o país das contradições.

Antes de ir para Cuba tentei pesquisar várias informações sobre o país, através da internet e guias de viagem, conversas com viajantes que já tinham ido para lá, com um brasileiro estudante de medicina que mora em Havana e, cubanos. Queria fazer uma viagem autentica, mas logo desisti. Cuba é extremamente turística  e o fato de não existir Casas Particulares em todas as cidades te impede de sair da rota turística, que é bem delimitada.

Havana

Havana

Por outro lado, Cuba “acontece” em todos os lugares, e o melhor do país não pode ser recomendado ou planejado, aparece ao acaso, entre as atrações turísticas  Acabei limitando o tempo na ilha com medo dos custos, mas me arrependi. Para quem não fica indo de atração turística em atração turística a ilha não é cara. Com menos de duas semanas, resolvemos nos limitar em Havana e a província de Pinar del Rio, deixando o centro e leste do país para outra viagem.

Chegamos somente de madrugada, havíamos reservado uma Casa Particular na Rua Industria, Centro Havana. Poucas indicações do local, acabamos acordando os vizinhos antes da dona da casa: Sra Gudelia. Ela com seu roupão, cabelo desarrumado e cara amassada de sono, disse que acabou dando nosso quarto para duas russas, portanto estava lotado e fechou a porta na minha cara. Olhei para a cara da Bibi quase que não acreditando e toquei a campainha novamente. Falei que eu não teria problema em dormir na rua, ou ali mesmo no saguão do prédio, mas que estava com minha esposa, tinha reserva e blablabla. Acho que ela acordou nesse meio tempo, e nos convidou para entrar. Pediu para sentarmos e disse que resolveria a situação. Saiu de roupão tocando em todas as casas particulares que conhecia para ver se tinha lugar para nós,  mas em vão. Logo após o Natal, altíssima temporada, tudo estava lotado. A Bibi já queria buscar um hotel, mas concordou quando falei para dormir no sofá.  Eu esperei sentado se teria uma solução, mas já imaginava que o sofá cama seria a melhor saída  Quando a Sra Gudélia voltou sem achar lugar para nós, preparamos o sofá cama, e a Bibi, para desespero da Gudélia,  ainda decidiu que iria tomar banho. Eu já me acomodei na parte do sofá que estava inclinada pelo menos uns vinte graus e capotei.

Uma das coisas que estava na minha lista para conhecer em Cuba era a Santeria, religião afro-americana que tem um parentesco com o Candomblé. Grande foi minha surpresa ao acordar com diversos rostos, potes e bonecos ao lado de onde eu estava dormindo! Uma coisa a menos para eu ter que sair procurando. Já no café da manhã, enquanto a Gudélia se desculpava pela noite anterior (que não nos cobrou, é claro) eu já a bombardeava com perguntas sobre a Santeria, prática que ela era adepta e conhecia muito bem.

Santeria

Santeria

Os copos de água são espíritos.

Os copos de água são espíritos.

Resumindo a história, tudo estava lotado, e acabamos ficando no quarto dela, que foi dormir no quarto do filho. Uma senhora muito simpática, que logo nos sentimos muito próximos. Saímos para caminhar por Havana Vieja, com seus prédios históricos reformados e ruas lotadas. Se Cuba choca muitos estrangeiros num primeiro momento, não pudemos dizer que o mesmo aconteceu com a gente. Realmente tudo é uma questão de parâmetro.  Depois de ter viajado para tantos países pouco desenvolvidos, Havana não se destacava no quesito pobreza. O que mais chamava a atenção eram os carros antigos e construções, dando aquela sensação de viagem no tempo.

Ficamos quase uma semana em Havana. Aproveitamos  bem o lugar. Adotamos o ônibus  bom e barato, como forma de transporte e uma vez ou outra pegávamos os táxis coletivos junto com outros cubanos. Conversamos com muitos em restaurantes, ônibus ou até mesmo na rua. Um simples pedido de informação se transformava em longas conversas, que até sentávamos para não cansar. E assim fomos perguntando a opinião das pessoas sobre o regime, as mudanças, as idéias, sonhos…

Praça de Revolução

Praça de Revolução

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Alteramos as atrações mais óbvias com longas caminhadas, deixando que o acaso nos apresentasse a Ilha. Até ônibus errado pegamos! Pena não ter conseguido ir nos treinamentos de Boxe. Levam o esporte a sério aqui, com uma população vinte vezes menor que a do Brasil, o quadro de medalhas é de dar inveja.

Consegui ver os centros organopônicos – plantações de hortaliças. Não aqueles em cima dos prédios, mas muito interessante uma cidade do tamanho de havana quase conseguir se abastecer de hortaliças produzidas localmente.

Véspera de ano novo, Centro Havana estava inacreditável. A movimentação das pessoas, carrinhos de mão onde transportavam porcos amarrados, toda a preparação da ceia, comércio lotado e caixas e mais caixas de cerveja e rum. Tínhamos combinado de pegar uma balada com o pessoal do Couchsurfing, mas a Bibi se assustou quando um vizinho nosso disse que o lugar era baixo nível, que nós iriamos nos estressar.

Iemanjá também é muito adorada pela Santeria. Na virada do ano, as pessoas jogam água pela janela. Baldes de água  não só na rua como em quem passa. Muito divertido. Fizemos uma ceia com a Gudélia e um vizinho órfão, que ela meio que adotou.

O único ponto baixo de Havana foi que tivemos nossa câmera roubada de dentro do quarto. Não só pela máquina em si, mas por todas as fotos. Inspirado no livro do Banksy, tinha tirado várias fotos das pinturas revolucionárias nos muros e outdoors da cidade, sem falar nas fotos dos carros, construções e pessoas. Bem, como diz a mãe de um amigo meu, só acontece com quem viaja. Tenho quase certeza que foi o filho da Gudélia. Pior ainda é saber que ele não precisa. A mãe, com a casa particular, onde aluga três quartos a 20-25 CUC cada, o Irmão vende roupas e ganha cerca de 300 CUC/mês, e o pai mora no exterior e manda dinheiro para eles. Só descobrimos quando estávamos de saída para Viñales, em Pinar Del Rio. Sabíamos que perderíamos o dia na Delegacia, e acabamos deixando para a volta, caso não aparecesse.

Pinar del Rio é a província mais a oeste de Cuba, região rural onde se planta grande parte do tabaco cubano. Viñales é uma cidadezinha bem gostosa, no meio de uma paisagem de montanhas maravilhosa. É bastante turística, pelo menos umas 300 casas particulares, mas é uma ótima base para explorar a região. Passeios voltados para o turista são caros, alugar cavalos ou até mesmo bicicletas, mas a região vale a pena. Exploramos fazendas, conversamos com camponeses e fumamos charuto, é claro. As fazendas são muito bacanas, auto-suficientes  todas planejadas, com suas hortas, arvores frutíferas (flores também são plantadas para atraírem os insetos), criação de animais, além do tabaco, é claro. Mas o produtor de carne de vaca não pode consumir nem um quilo sequer do seu produto, e tem que avisar se uma vaca morrer. Carne de gado é consumida somente por enfermos, velhos e crianças. Pode parecer indignante, mas se pensarmos que das milhões de crianças que morrem de fome, nenhuma esta em Cuba, mostra que é somente mais uma contradição.

Viñales

Viñales

vista

vista

Fomos a um show de musica a noite na praça na frente da igreja, cheio de gente, cubanos e turistas. Nada de musica cubana e sim hip-hop e ragatone. Mesmo nas pequenas cidades existem as Casas da Cultura, com atrações a preços acessíveis para os cubanos. Alias os cubanos são muito ligados a Cultura. Sempre prestigiam a musica e arte em geral. Fora de Havana não vi muitos, mas na capital existem incontáveis cinemas e teatros.

Andando de bicicleta, conhecemos um camponês que tinha uma caverna na sua propriedade. A tal caverna 8. Existem algumas cavernas na região que já tem iluminação, toda estruturada. Esta foi uma caminhada para chegar, e lá dentro só na tocha feita com uma garrafa e querosene. Tínhamos uma lanterna que nos possibilitou tomar banho no rio subterrâneo alem de seguir dentro da água até diversos salões. Os medos da Bibi estão ficando pela estrada!

Mesmo sabendo das maravilhosas praias de Cuba, eu não tinha vontade de conhecer. Achava que existiam coisas mais interessantes para fazer. Mas como não estou viajando sozinho, atendi o pedido da Bibi e fomos para Cayo Jutias. Praia maravilhosa, mar lindo, apenas com um restaurante. Nada daqueles resorts, mas não mudei minha opinião sobre as prioridades. Para mim o que mais valeu foi a conversa com o motorista, que trabalhou anos como engenheiro, antes de virar motorista. Se dizia ultra-capitalista, que faria qualquer trabalho para ganhar dinheiro. Isto não mudava seu sentimento nacionalista e até admiração pelo Fidel. Admiração pela revolução e liderança, não pelo comunismo. Não conhecemos nenhuma pessoa que disse que na época do Batista (antigo ditador) era melhor. Um país que da uma educação de qualidade, porem não cria meios para aplicar o conhecimento produzido.

Praias lindas, mas cultura mais interessante

Praias lindas, mas cultura mais interessante

De uma madeira geral, os mais velhos, que lutaram a Revolução, disseram que muitas vidas foram perdidas para simplesmente abandonar a causa. Os “um pouco” mais novos, lutaram a guerra de Angola, e também tem um sentimento forte com o país. Os camponeses, grandes apoiadores da Revolução, e beneficiados direto pela reforma agrária, de uma maneira geral apoiam bastante o regime, mas fazem suas críticas. Já os jovens são bem mais contestadores, não pelo sistema, mas pelas suas privações. Muitos acreditam nas mudanças, só acham que elas são muito lentas.

O sistema eleitoral, com os “delegados”, é uma espécie de parlamentarismo. Ninguém precisa estar ligado ao partido comunista para se candidatar. As eleições são bem democráticas, mas por outro lado, vai ter uma centralização total em cima dos Castros. Vai entender…

Região Rural

Região Rural

Nos despedimos dos carros de bois, das fazendas estruturadas e autossuficientes  daquele clima tranquilo e das montanhas para voltar para Havana. Depois do ocorrido, não nos hospedamos na casa da Gudélia novamente, mesmo sabendo que ela não tinha nada a ver com a história.

Caldo de cana, 8 centavos de Real

Caldo de cana, 8 centavos de Real, Pão com tomate, 24 centevos, Pão com salsicha, 40 centavos

Sabíamos que uma ida a delegacia nos tomaria grande parte do dia, mas resolvemos encarar. Mesmo sabendo que dificilmente recuperaríamos nossa câmera. Assim fizemos nossa parte, e ainda tivemos outra experiencia cultural. Foram cerca de sete horas gastas com a policia, desde a nossa apresentação e identificação, passando pelo longo interrogatório, feito por uma policial de mini saia curtíssima (eu nem tinha notado, a Bibi que comentou!). Toda a burocracia, relatos do dia a dia desde que chegamos, identificação de fotografias até a visita na casa da Gudélia, acompanhado de investigadores no seu Lada branco.

Os CDRs (Comitê de defesa da Revolução) podem ser o seu melhor amigo ou pior inimigo. É como se a cada numero X de quadras tivesse um síndico, e as pessoas se reunissem para tomar conta do bairro. A ideia é excelente, e dizem que funcionava muito bem até os anos 80. Mas hoje, com tantos problemas, ninguém da conta de resolver brigas de vizinhos, buracos na rua, dentre outros problemas do dia a dia. Imagine os problemas maiores. Todos se conhecem, e a fofoca corre solta. Portanto não é difícil descobrir as coisas que acontecem. Cerca de 80% dos cubanos estão inscritos nos CDRs. Encontramos inclusive cubanos contra o comunismo inscritos. Eles alegavam que a revolução era popular, e não comunista. Que se quisessem mudar algo, precisavam participar. Falavam que as mudanças estavam acontecendo, mas que tudo demorava pelo menos uns vinte anos para ser atendido…

Para o nosso ultimo dia ainda tínhamos uma visita a fazer. Uma professora, que da aula de história na Universidade de Havana há 40 anos. A filha dela mora em Paris, e é amiga de uma grande amiga da minha mãe. Fomos até sua casa no bairro de Santo Soares onde vive com seu neto. Fechamos com chave de ouro. Pudemos discutir todas nossas impressões e idéias com ela. Esclarecer situações e aprender muitas coisas. Ela não é cubana, mas mora em Cuba ha mais de 40 anos, pois casou com um cubano. Tem duas filhas morando na Europa, seu marido mora no México, mas ela se recusa a sair. Ama o país, e disse que em nenhum lugar no mundo valorizam um professor como em Cuba. Não achem que é uma comunista, muito pelo contrário. Não poupou duras criticas dentre os muitos elogios que fez ao país. Mesmo com a ótima qualidade de ensino, a infraestrutura é péssima, e falta até papel. Seria como agravar a situação dos problemas das Universidades Federais brasileiras varias vezes.

Enquanto jantávamos, um amigo do neto, colega de universidade, chegou com uma mochila cheia de eletrônicos. Ele tem passaporte espanhol e viaja para os EUA para trazer eletrônicos e fazer um dinheiro extra. Disse que vende tudo com muita facilidade.

Nossa anfitriã nos confidenciou que estava com câncer. Disse que recebeu tratamento de qualidade durante um bom tempo, mas que devido ao embargo, não existem peças de reposição para os aparelhos. Chegou a fazer alguns tratamentos em Paris, mas não quer abandonar sua vida em Havana.

Casa em Havana

Trocamos presentes, e ela nos deu uma cópia do ótimo filme “Habanastation”. Quando estávamos saindo ela nos disse uma frase que caiu como uma luva sobre a nossa impressão da ilha: “Cuba é o país das contradições”.

Vídeo Rota da Seda

Praticamente um ano após o nosso retorno, finalmente terminamos o vídeo da Rota da Seda. Uma viagem da Turquia para o Curdistão e Norte do Iraque, Irã, Turcomenistão, Uzbequistão e Republica Karakolpak, Cazaquistão, Quirguistão, China/Xinjiang, Paquistão e Índia e Caxemira.

A ideia era fazer um lançamento em um telão, ou fazer uma reunião para a primeira exibição. Alguns fatores inviabilizaram isto no momento, e de qualquer forma, acredito que os leitores do blog devem ser os primeiros a ver.  Quem nos acompanha com frequência merece!

Espero que gostem…