No país que venceu a guerra americana.

O povo vietnamita e originário do sul da China. Durante mais de mil anos esteve sobre o domínio dos Chineses. Mais recentemente, no seculo 19, teve a colonização francesa, e a região passou a se chamar Indochina (atualmente Laos, Vietnã e Camboja). Na segunda guerra mundia foi a vez do Japão invadir a região. Com o final da guerra, o povo vietnamita, liderado pelo revolucionário Ho Chi Minh, iniciou o processo de independência do país. Foram poucos anos ate que conseguissem expulsar os franceses, que mesmo com apoio financeiro e bélico dos EUA tiveram que retirar suas tropas. Foi realizado um acordo em Genebra, mediado pelas Nações Unidas onde foi marcada a data que seria realizada uma eleição para que o Vietnã finalmente pudesse ser um país independente. Desrespeitando este acordo, com medo do comunismo e perda de influencia na região, os EUA financiaram um governo no sul do Vietnã, e não aceitaram a unificação e eleições. Com isto o Vietnã invadiu o sul para unificar o pais e acabar com anos de domínio estrangeiro na região. Os EUA mandaram muitos soldados e armamentos, dando inicio a por aqui chamada “Guerra Americana”.
Mesmo com toda a tecnologia, experiencia de gueras anteriores, usando armas químicas e toneladas de bombas a mais que as utilizadas na segunda guerra mundial, depois de anos os EUA tiveram que deixar a região. Perderam a guerra para pequenas guerrilhas de vietcongs, fortalecidos pela população local.
Ho Chi Minh, o líder da independência do pais, estudou em colégio francês, sendo fluente na língua. Trabalhou em navios tendo vivido por mais de 30 anos no exterior. Em Paris já fazia parte de partidos políticos, mas foi na URSS que conheceu o Socialismo. Infelizmente ele não viu seu pais livre, mas ate hoje é adorado e lembrado por todos.
Um ano após a guerra efetivamente terminar, Saigon, a maior cidade do sul do Vietnã, foi renomeada Ho Chi Minh City (HCMC). Nosso voo da Indonésia chegou a HCMC já no inicio da noite, e confesso que estava um pouco preocupado por não ter visto. No guia dizia para não chegar sem visto e um internauta brasileiro disse que em Hanoi, capital do pais, havia observado filas e confusão para tirar o visto na chegada. Eu tinha encaminhado todo o processo pela internet, e tinha a carta da imigração impressa. Não é que para nossa surpresa o processo foi super tranquilo e rápido. Passaporte carimbados fomos sacar dinheiro e arranjar um táxi, pois os ônibus já não estavam circulando mais. Para diminuir os custos, convidamos uma alemã que tínhamos conhecido no aeroporto da Indonésia para ir com a gente, e nos dirigimos para o terminal de voos domésticos, onde os táxis são mais baratos.
A surpresa não ficou só por causa do visto. Todos falavam mal da movimentada HCMC, e nós que não gostamos muito de cidades grandes já fomos com aquele preconceito. Ao chegar vimos aquele caos de motocicletas na rua (muito mais que na Indonésia), pessoas com aqueles chapéus em forma de cone, que só esperávamos ver nas plantações de arros, e muitas “figuras” nas ruas, todos muito animados. Ficamos numa região agitada, cheia de barzinhos, com mesas na rua. Foi só tomar uma cerveja gelada e brindar a chegada no novo país. Deu tempo ate de experimentar a lula seca com molho de pimenta que os vendedores trocavam por um punhado de moedas.
Como estávamos numa região central, era fácil de caminhar por tudo. Comemos um gostoso sanduíche e tomamos um ice coffe na rua de café da manha e a Bibi já viu que não teria problemas com a comida daqui.

Cafe da manha

Fomos andando ate o mercado Bem Than. Impressionante como por mais previsíveis que estes mercados possam ser, são sempre legais. Tinham desde boas falsificações de marcas famosas, produtos chineses e vietnamitas, alem de uma boa praça de alimentação. Difícil era tirar a Bibi das lojinhas. Muitas vezes deixava ela e só voltava depois para buscar. O museu War Renmants não fica muito longe dali, e fomos andando pelos cafés e mini hotéis (muito bons e baratos!) até la. De fora já da para ver tanques, aviões e helicópteros americanos expostos como relíquia.

Relíquias

Museu muito bem montado, com a parte histórica, dados da guerra e outra com muitas fotos (algumas chocantes). Os efeitos das armas químicas na população e soldados americanos (crianças nasceram deformadas muitos anos após o fim da guerra), e replicas das prisões onde os americanos torturavam os vietnamitas. Vendo os filmes americanos nos faz acreditar que a tortura era só praticada “do outro lado”, o que claro que e mentira. Pra quem não leu, “Brasil nunca mais” relata documentos e torturas na ditadura no Brasil, alem de como os EUA treinou os militares brasileiros para saber torturar com eficiência. Sera que casos de tortura como os mostrados no Iraque são isolados?
O palácio da independência estava ali ao lado. Fomos surpreendidos pelo transito de final de tarde onde  dezenas de motos avançavam loucamente sobre as calcadas. Aquela deliciosa sensação de “estou viajando”.

Sim, estou viajando!

Existem alguns locais interessantes nos arredores de HCMC. Um deles e o principal templo do Caodeismo, religião local que mistura vários aspectos do Catolicismo, Budismo, Taoismo e Confucionismo. Chegamos para presenciar a cerimonia deles. Alem de todas as religiões citadas, e representadas com imagens, ainda tinham aspectos que lembravam o Islamismo. Esta região já funcionou como um “Vaticano”. Era uma enorme fazenda, onde estava o centro religioso do Caodeismo. Com o Comunismo esta região foi subdividida, e está bem menor.

Caodeismo

Fomos também nos tuneis de Cu Chi, região estratégica onde varias batalhas foram travadas. O sistema de tuneis passa de 200 km de extensão, e foram construídos sem projeto nenhum e sem mapas. Como os Vietcongs tinham pouca chance contra os americanos, atraiam eles para os tuneis, onde tinham uma  boa superioridade. Assistimos filmes da época e conhecemos muitas das armadilhas. Como estávamos na região dos tuneis claro que tivemos que experimentar. Eu fui num original, apertado, claustrofóbico e escuro, onde se rasteja por folhas ate a saída. Não da nem para imaginar o que e estar num lugar destes  numa guerra, com bombas e inimigos por perto. Existe um outro túnel alargado para os ocidentais. Este com luzes e saídas a cada 10 metros. A Bibi tentou um destes, mas saiu na primeira oportunidade.

Vietcong sorridente saindo do túnel

No meio do mato existem bonecos no melhor estilo parque temático para nos explicarem como era o dia a dia. No final de tudo se pode comprar munição e disparar a sua própria metralhadora. E, os comunistas de hoje estão bem mudados. Na verdade o comunismo aqui já foi diminuindo no final dos anos 80, quando a população passou a ter direito de propriedade de terra. Com o colapso da URSS não tiveram outra opção a não ser a economia de mercado. Hoje a terra vale muito, e as desapropriações para construir metros, trens aéreos tem feito muita gente rica. Empresas estrangeiras estão por todo o lado, a taxa de desemprego e inferior a 2% e o crescimento anual de 7% (antes da crise ano passado).
Difícil saber o que realmente vale a pena visitar e o que são “armadilhas” para turistas. O Mekong Delta, por exemplo, ao sul de HCMC, estava nos nossos planos iniciais, mas acabamos pulando e indo direto para o norte. Concluímos que para realmente conhecer o Delta, o mercado flutuante e as vilas, teríamos que ir por conta própria, passando alguns dias, e não num tour que passava ate por fazendas de apicultura e fabrica de bala.

Qual e o pais do futebol? Comemoração de jogo de meio de campeonato

Pegamos então um ônibus direto para Mui Ne, uma pequena praia que esta sendo tomada por resorts e lojas. Ficamos no canto ainda pouco desenvolvido da praia. O lugar, com seus ventos fortes, e muito procurado para a pratica de Kite Surf, e tinham dezenas de pessoas voando com suas pranchas e “pipas”, alem de outras fazendo suas aulas experimentais.

Kite surfing

Com tantos jovens, existem diversos bares e clubes. Em uma noite fomos conferir um deles, no mair estilo Ibiza, todo decorado, com uma piscinona no meio. Encontramos um italiano que viaja o mundo vendendo vinhos e ficamos conversando, mas sem muito foco, devido a sua embriagues. No final da noite o DJ colocou uma seleção de remix de musicas brasileiras, e deu aquele saudosismo.
Com tanto vento na região, existem muitas dunas, que se tornaram uma atracão. Alugamos uma moto e fomos beirando a costa, passando pelas vilas de pescadores com seus cestos que utilizam para pescar,  ate chegarmos nas dunas brancas. Para quem já foi para o nordeste, ou Joaquina e Siriu, nada de impressionante, nem perdemos tempo. Pegamos estrada e fomos ate as dunas vermelhas (mas que para nos também eram brancas). Estas sim, muito bonitas. Ficamos rodando as estradinhas de terra, com vista para o lago e dunas, parando para curtir o lugar quando dava vontade.

Dunas

Região pesqueira

Como decidimos pegar o ônibus noturno, para chegar em Nha Trang já pela manha tivemos um problema. A Bibi tinha dado uma bermuda para a recepcionista do hotel levar num costureiro, e só ficaria pronto no dia seguinte. La fomos nos, após o expediente, ate a cidade onde ela mora. Aquele transito de motocicletas e auto-falantes dando noticias no maior estilo comunista, deram um clima. Com a bermuda em mãos todos fomos tomar um Pho, sopa tipica daqui, numa barraquinha de praça e bater papo. Acabou sendo um super programa.
Os ônibus noturnos aqui tem cama, então viajando a noite se ganha tempo. São três fileiras de beliches, onde fica bem reclinado, apesar de não ser totalmente deitado, pois tem que ter espaço para os pés do passageiro de trás. Se não couber, como no meu caso, tem uma “janelinha” nas laterais  para colocar o pé para fora.

“Janelinha” para o pé

Em Nha Trang encontramos o hotel com melhor custo beneficio de toda a viagem. Por seis dólares (para duas pessoas), hotel limpo com wi fi, aircon, água quente. Só não tinha café da manha. Já fiquei em muito hotel por menos de três, dois dólares, mas a baixa qualidade acompanhava o preço, o que não era o caso aqui.
A praia aqui e mais desenvolvida, cheia de lojas, restaurante e avenidas largas. Rodamos a cidade, nos localizamos na região. Existem muitas ilhas, com água excelente para mergulho. Tentam te vender muitos passeios para as ilhas, com almoço e entradas inclusas. Resolvemos ir de teleférico para curtir o visual. Quando chegamos la nos demos conta que era tudo estilo a praia de Sentosa, guardadas as diferenças entre Singapura e Vietnã,com varias atividades bem turísticas inclusas. Sorte que era cedo e deu tempo de voltar alugar uma moto e sair para fazer outras coisas mais interessantes. Fomos num monastério, que tem um Buda sentado no topo de uma montanha. Vista para a região e com direito a uma briga de galo bem na frente da estatua. Fomos pela estrada costeando a praia, passando por ruínas do Império Chan até dar vontade de voltar. Parada no mercado publico antes de voltar para o hotel, para ver todas as esquisitísses da comida local. Pra quem não quer arriscar nada diferente, pode escolher uma lagosta, que e assada nas barraquinhas de rua mesmo.

Briga de galo

A viagem ate Hoi An foi longa, a primeira que o ônibus noturno foi realmente útil. Na tv passavam filmes bizarros, onde lutadores chineses arrancavam a cabeça de seus oponentes com socos e estrangulavam outros com suas próprias tripas…  Ao chegar, o ônibus parou direto num hotel. Hotel muito bom, com preço razoável, mas bem longe da área de interesse. Tentavam te convencer que era melhor ficar ali, que emprestavam bicicletas para ir para a cidade. De manha, depois de uma noite dormindo no ônibus, você quase cai na historia deles. No Vietnã e tudo assim, sempre tentando se dar bem em cima de você, tentando te vender alguma coisa por dez vezes o preço real, não pode levar muito a serio, se não se estressa. Sai para caminhar e ver outras opções de hotéis como base de comparação. Não demorou muito para ver que estava muito longe e voltei para buscar a Bibi e ir ate a área central. A cidade e muito legal, com suas ruas estreitas, arquitetura com influencia europeia alem de uma comida tipica muito boa. Passaram os dias e nos rodávamos as mesmas ruazinhas, para cima e para baixo. Muitas lojas vendem de tudo, desde quinquilharias ate roupas. A região e cheia de alfaiates, que fazem ternos e vestidos muito bons por preços inacreditáveis.
Justo no dia que íamos para My Son, as maiores ruínas Cham da região, amanheceu chovendo. Como ficava a uma hora de viagem de onde estávamos, resolvemos encarar, pois o tempo poderia estar melhor la. Engano nosso! Chuva e mais chuva. Acho que foi o primeiro dia de chuva mesmo em oito meses de viagem. Fomos conhecer as ruínas debaixo de água. Claro que e difícil de aproveitar assim. My Son já não esta em um bom estado de conservação, já passamos por templos impressionantes, o que nos deixa mais críticos, e ainda debaixo de água. Roubada total!! Voltando para a cidade a chuva parava e voltava, mas conseguimos aproveitar mais um pouco. Não nos cansávamos de passar pela ponte coberta japonesa pela decima vez, fazer o circuito andando pelas principais ruas da cidade. O único ponto negativo da cidade e que não se pode andar 5 metros sem algum tentar te convencer a entrar num restaurante, loja, barco…

Hoi An

dragon fruit

Não e só de moto que o pessoal anda no Vietnã

Desta vez uma viagem “curta” de ônibus e estávamos em Hue, antiga capital, centro politico de vários acontecimentos históricos, com sua citadela murada. Da hora que chagamos ate a hora que saímos foi chuva sem parar. Sabe aquela pancada de chuva de verão? Imagine 48 hrs assim. Se fosse São Paulo tava debaixo de água. Do hotel íamos para um restaurante e voltávamos. De noite até nos aventuramos até um bar, pois estávamos entediados. Cheguei a andar algumas quadras para tentar ver a região, mas era impossível. Foi o lugar que estivemos mas sentimos que não conhecemos. Não adiantava ficar mais, pois nem sinal de que melhoraria o tempo. Só nos restava seguir viagem.

O tempo parou?

Como tudo conspirava para não pegarmos o barco não o pegamos. As noticias mostravam que os protestos pela separação do sul do Iêmen se intensificavam com a proximidade do dia da independência (antes eram 2 países  que se unificaram em 1990). Chegou a ter ate alguns atos de violência  O tempo mudou bruscamente, e chegou a chover um pouco, mas o grande problema era o vento. Passar 14 hs num barco com mais de 300 vacas com tempo ruim não parecia muito agradável  isto se o barco saísse.  Não podíamos esperar mais, tínhamos que acabar com o “Groundhog Day” (filme dia da marmota, onde todo dia acontece a mesma coisa), então pegamos um avião de Djibuti para Sanaa.

Desde a primeira vez que tinha visto uma foto da Old Sanaa, sabia que um dia iria para la. De repente estava eu chegando na capital do Iêmen. Sobrevoando me pareceu bem mais moderna que esperava,  afinal se trata do mais pobre dos países árabes. No aeroporto já tivemos o primeiro choque cultural, quando vimos que todos usavam seus turbantes e grandes facas na cintura. Por outro lado, no estacionamento tinham bons carros, e uma impecável avenida de 4 pistas que nos levou ate a parte velha da cidade. Saímos da pista que havia ficado abaixo do nível da cidade para entrar num dos acessos da cidade velha. Fomos andando por ruas estreitas ate que o taxista falou que o carro não passava mais. Fomos a pé, andando entre aquelas construções  com uma meia luz, muito show. Fomos num hotel indicado mas resolvemos olhar outros ao lado. Os preços não eram dos melhores, mas como já era tarde resolvemos ficar num deles. Hotel antigo, numa construção antiquérrima, mas cheia de estilo. Portas de um metro e meio e pé direito do quarto de uns três metros e meio. Vitrais em todos os quartos. Muito bacana.

Predio em Old Sanaa

Dia seguinte tomamos café cedo e partimos para explorar Old Sanaa. Muito bom andar sem destino, só seguindo pelas ruelas. As construções a primeira vista parecem todas iguais, o que torna fácil de se perder. Que bom! E a melhor forma de conhecer um lugar. Tínhamos combinado de fazer o check out as duas, então voltamos correndo para o hotel, pegamos nossas mochilas, e caminhamos ate Tahrir, no inicio da cidade nova. Aqui, diferente da maioria dos lugares, a parte nova da cidade e mais barata. Não demoramos para achar um hotel bacana muito barato. Fomos na região das embaixadas pois o Guru precisa de visto para entrar em Omã, nosso provável próximo destino. Brasileiros só carimbam na fronteira, mas foi bom para confirmar a informação  Legal passear na parte mais nova da cidade. Mesmo não sendo a minha preferida, faz parte da cultura local. Mesmo os táxis sendo muito baratos, resolvemos pegar micro-ônibus  só pela diversão.  Teríamos que fazer conexão e tudo, e ninguém falava inglês  muito menos nos falávamos árabe. Foi muito divertido! Legal de ver a hospitalidade das pessoas. Mesmo sem falar uma palavra em inglês vinham nos ajudar, se empenhavam. Nossa ideia rendeu boas risadas, tanto nossas quanto deles. Voltamos para a parte velha da cidade para curtir o final de tarde na região de um grande mercado. Muito show!

Detalhes

Nosso primeiro dia foi tao corrido que nem deu tempo de ir na policia nos registrar. Então no outro dia foi a primeira coisa que fizemos. Só o visto não adianta, tem que ir la, deixar copias do passaporte e visto, alem do endereço do hotel. Burocrático mais simples. Voltamos para as embaixadas e o Guro conseguiu convencer em receber o visto na hora e não em 2 semanas como estava propondo. Na embaixada do Iram foram muito atenciosos. Ele solicitou visto aqui e vai retirar em Muscat, capital de Omã. Brasileiro novamente não precisa.

Traje tipico

Devido a não frequência de ônibus e burocracia da policia, resolvemos alugar um carro com motorista para conhecer os arredores de Sanaa. Para isto visitamos varias agencias e negociamos bastante. Acabamos acertando com a agencia recomendada pelo embaixador do Brasil na Etiópia  que entendeu nosso “estilo” de viagem e nos deu vários descontos. No topo do hotel que ficava a agencia tinha um terraço com uma super vista. Tomamos um cafe e ficamos curtindo as chamadas das mesquitas que parecia uma sinfonia. Andamos para o outro lado da Old Sanaa até o portão principal. Subimos num local e ficamos vendo a movimentação do pessoal, alem das rodas de pessoas mascando Khat. Todos se vestem igual aqui. “Saia”, que e uma canga, lenço/turbante e cinto com faca. Para ver se alguém e mais rico não se olha a roupa, joias e sim o estilo da faca. Poucos usam o que chamaríamos de roupas ocidentais. Quando não estão com as roupas típicas estão usando ternos de veludo. Muito estilosos. Outro final de tarde gostoso e beem devagar.

Vista geral de Sanaa

Já tínhamos rodado bastante Sanaa e era hora de conhecer seus arredores. Fomos com nosso motorista ate um palácio que fica a uns 40 km do centro de Sanaa. Ele fica em cima de uma pedra. Bonito de se ver e com uma super vista la de cima. Passamos por diversas vilas, Thulla, Hababah eKawkaban, de onde andamos montanha abaixo ate Shiban. Todas com suas construções antigas, suas cisternas e historias. Em muitas delas existiam os bairros judeus, e as estrelas de Davi ainda estão nos vitrais e portas ate hoje. Os judeus do Iêmen também foram retirados numa super operação de Israel, chamada ” Operação tapete Magico”, e foram levados até a terra prometida. Algumas famílias judias ainda vivem em Sanaa.

Palacio

Sanaa e uma das cidades mais antigas do mundo, com povoamento constante. Dizem que foi construída por um dos filhos de Noé, logo apos o diluvio. Toda esta região foi parte do império de Axum da Etiópia, antes de serem conquistados pelos Árabes Muçulmanos.

Nosso voo para Socotra estava lotado e teríamos que esperar mais alguns dias por aqui. Fomos tentar pegar informação sobre os ônibus para Omã, mas a comunicação foi impossível. Sempre falavam que não tinham ônibus, indicavam outro lugar mas nunca dava certo. Frustrados fomos encontrar com o ED, jornalista canadense que mora aqui, que conhecemos no Couchsurfing. Batemos um papo e fomos ate o apartamento que ele divide com outros jornalistas. Ficamos no terraço  com Aquela vista de Sanaa, conversando sobre o pais e viagens. Ele e recém formado em Fotojornalismo, e morou os últimos 4 anos em diferentes países do oriente médio  Muito bom o bate papo, e pudemos ter um pouco mais de informações  pois a  dificuldade da língua estava nos privando disto. Ate então todas as informações que tínhamos era de pessoas ligadas ao turismo.

Fomos ate a policia pegar autorização para viajar por terra para Omã. Tudo com data certa e devidas copias que ficam nos controles ao longo da estrada. Fomos ate a agencia acertar mais um passeio, pois conseguimos marcar o voo só mais para frente.

Desta vez fomos para sudoeste de Sanaa, uns 100 km de viagem, passando pelas Montanhas Haraza ate chegar em Al-Hutyaib, Al-Hajarah e a fantástica Manakaha. Cidadezinhas paradas no tempo, penduradas nas montanhas. Em todas estas cidades encontrávamos alguém que falava inglês, e ficávamos conversando durante as caminhadas.

O tempo parou por aqui!!Mais de 3000 anos de ocupacao continua...

Que lugar!!

Toda a burocracia policial tem um porque. Tirando o sul que tenta uma independência de forma civilizada, existem 2 áreas de conflitos no Iêmen. Ao norte, perto da Arabia Saudita, na região de Sadah, existe uma guerra, entre o governo e grupos radicais islâmicos  Não se pode nem sair de Sanaa na estrada que leva a este local. Diariamente víamos aviões de guerra saindo de Sanna. Dificil saber o que acontece, pois reportes também são proibidos naquela região  mas provavelmente o governo esta bombardeando os extremistas, que tem apoio de outros países islâmicos  Já nas Montanhas Hadramout, rebeldes ligados a Al Qaeda tem feito guerrilha, e o governo tem dificuldade de controlar. São locais muito longe de onde vou passar, por isto não se preocupem. Turistas desavisados ou imprudentes foram vitimas destas guerrilhas. Poucos meses atras houve sequestro seguido de mortes de turistas alemães  Estes grupos radicais são contra o “ocidente’, por isto tem turistas como alvo, alem da mídia que atraem. O Iêmen teve um grande numero de participantes nos atentados de 11 de setembro.

Iêmen é um pais pobre, com um povo super tradicional e hospitaleiro. Existe uma previsão de terminar a água potável da região em poucos anos, o que causa um desespero geral na nação  O pouco petróleo que ainda resta também está no fim. Pena um país tão interessante culturalmente e bonito naturalmente, ser tão instável.

Free Somaliland!!

Berbera era tudo o que precisávamos, um pouco de tranquilidade. Fomos ate o hotel indicado. Um hotel  muçulmano, com sua sala de orações bem no meio e ala separada para homens e mulheres. Hotel simples, mas impecavelmente limpo, a um preço de 2,5 usd por dia. Quando perguntamos se tinha banho quente o recepcionista respondeu que sim, mas meio sem jeito. Depois fomos descobrir que a água é temperatura ambiente, ou seja, a água fria mais quente do mundo. Mesmo de manha já está quente.

Já estava escurecendo, mas aqui não tivemos nem um problema em sair de noite. Pessoas nos cumprimentavam, eram simpáticas. Passei numa farmácia pois tava com um pouco de febre e fui super bem atendido por um Dr que fez questão de passar todo seu histórico escolar na Europa. Mesmo eu tomando 5 litros de água por dia eu estava um pouco desidratado. Pegamos a dica de um bom restaurante e saímos para procurar. Não encontrávamos e ao pedir informação, um moleque nos levou umas 10 quadras até o restaurante. Oferecemos um refrigerante e ele não aceitou,  disse que não precisava. Ainda perguntou se queríamos que ele fosse nos buscar. Me digam aonde existe algo assim? Inacreditável!!

O restaurante era na beira do mar, no Golfo do Aden, mas na parte do porto. Tinha um peixe gostoso mas as porcões eram pequenas. Bem, a coca-cola e a água estavam bem geladas! De lá caminhamos pelas ruas pouco iluminadas perto do porto. Passamos por pelo menos umas 15 mesquitas. Ao chegar na rua principal, vimos alguns camelos descansando tranquilamente debaixo de um poste de luz. Que astral este lugar!!

Cha e bate papo

Chá e bate papo

Acucar Brasileiro

Açúcar Brasileiro

Faz tanto calor aqui, que acordei cedo e não conseguia mais dormir. Tomei meu banho quente e saímos. Não demoramos muito para achar um lugar que servia chá. O chá aqui e com bastante leite, e poem outras coisas junto. Juntou bastante gente, e o lugar virou uma grande sala de reuniões, ou de entrevista. No canto tinha uma tv a cabo, com diversos canais. Ficamos conversando por um bom tempo, e as 9 da manha já estávamos pingando de suor. Interessante que chegavam, deixavam a sandália de lado para lavarem e sentavam. Andamos até perto do porto para descobrir mais informações sobre a viagem para o Djibuti. Não consegui meu visto para o Iêmen, então teria que ir para o Djibuti antes. A embaixada do Iêmen na Etiópia solicitou uma carta da Embaixada brasileira, coisa que o Embaixador Renato Xavier providenciou rapidamente (além de me dar dicas de viagem no Yemen). Acontece que quando voltei na embaixada depois do circuito histórico, estava fechada por uma semana devido ao final do Ramadã. Bem, procuramos caminhões, tentamos entrar no porto para ver se tinham barcos e nada. Tava cada vez mais abafado, insuportável. Resolvemos ir para uma praia logo no final da cidade, onde estão construindo um hotel resort. Nossa, que diferença. Lá tinha ate uma brisa, que apesar de quente refrescava. Fomos tomar o nosso merecido banho de mar. A praia inteira só para nós. Fiquei curtindo sozinho, afastado do Guru e Michael. Olhava aquela praia, as montanhas inclinadas ao fundo, e passava imagens tipo slide show dos últimos 6 meses. Fiquei mais de 2 horas na água, que estava com uma temperatura de 32 graus. Ainda apareceu um pessoal que começou a jogar bola. Um cara com seu traje tipico muçulmano veio falar com a gente. Ele falou que a Somalilândia não gostava de turistas e blablabla. Pior que sabia nosso hotel, e parecia estar hospedado lá. Bem, como não tinha muito o que fazer fomos conversando. Perguntamos se lia o Corão, e ele disse que sim, além de orar 5 vezes ao dia. Perguntamos sobre as passagens sobre o Rei Cristão de Axum ( Vejam este vídeo sobre esta estória), sobre o profeta Maomé falar que estrangeiros em terras islâmicas deveriam ser tratados bem, como um presente de Deus… Ele sabia tudo e nos contava empolgado. Acho que ele foi lembrando das palavras de Maomé e foi amolecendo. No final ate jogamos bola juntos, sob um sol de 42 graus.

Mar Vermelho com uma praia para mim

Mar Vermelho/Golfo do Aden com uma praia só para mim

Fomos até o hotel “resort” e chegou o Steve, Inglês que divide seu tempo entre a Inglaterra e a Somalilândia. É o único estrangeiro que vive aqui. Está ensinando a guarda costeira a mergulhar e montou sua base de mergulho no hotel para algum turista que aparecer. Ele mesmo confirmou que não ganha dinheiro com o turismo, que é mais hobby. Cobra 20 usd, o que deve ser um dos mergulhos mais barato do mundo. Marcamos para mergulhar no dia seguinte.

Conversamos bastante sobre a situação do pais, sobre o passado, perspectivas. Ele escreve para diversos jornais e revistas da Europa e USA sobre a situação politica da região. Conhece todo mundo do governo, e já sabia que estávamos em Berbera pois a inteligencia da policia ligou para ele perguntando se sabia quem eramos. Pelo jeito estávamos sendo observados de perto. O Ministro das relações Exteriores da Etiópia se hospedou neste hotel, e quando voltávamos para a cidade vimos uma cena de filme. Ele sentado tomando um refrigerante e vários soldados sentados em cadeiras de plastico virados de costas para o ministro. Ele veio intermediar os problemas ocorridos a 10 dias atrás (possível golpe de estado ou protesto resultando em mortes). Demos mais umas voltas na cidade antes de voltar para o hotel. De dia as ruas ficam vazias pois e muito quente, então ficam mascando qat na sombra. De noite saem, mas já não se entendem muito bem…hehe

Berbera

Berbera

Depois de um rápido chá e algumas frutas, fomos encontrar com o Steve para mergulhar. Como o Guru não tem certificação, o lugar foi bem básico então ficou devendo um pouco, afinal de contas estava no Mar Vermelho! O fato de um pequeno peixe leão vir para cima de mim, tentando me intimidar já valeu! Tinha uns restos de naufrágio também.

Depois de curtir a praia voltamos para a cidade para tentar agilizar a viagem para o Djibuti. Todos aconselhavam voar ou retornar a Hargeisa e de la ir para a fronteira, mas nos queríamos ir de Berbera para a Fronteira. Perguntávamos para varias pessoas na rua, e conhecemos um jornalista que nos ajudou um monte, além de nos entrevistar. Ele acha que ta cedo para publicar algo sobre turismo, mas pelo menos já tem alguma informação. Conhecemos um senhor no hotel que trabalhava no governo e tinha bastante contatos. Fomos até a policia de circulação, para ver se tinha alguém indo pela “estrada” que queríamos. Ficaram de retornar. Passamos na quadra esportiva que estava lotada, cheia de atividades. Logo encontramos aquele cara que tentou nos intimidar na praia. Ele estava todo simpático, e nos levou na rápida internet e depois para tomar leite de camela (bem ruinzinho). Quando souberam que voltaríamos para o hotel para jantar com o Steve fizeram questão em nos levar. Fomos escutando o corão em árabe. Ele falou que era para nos informarmos sobre o Islamismo e prometeu ler sobre outras religiões depois dos nossos bate papo. A criatura mudou da água para o vinho!

Jantamos com o Steave e 3 Chineses que moram em Adis-Abeba e voaram para o final de semana aqui. Adoraram nossas historias de viagens. O Jornalista ligou confirmando que seu amigo aceitou a contraproposta que fizemos para uma pick up nos levar pelo deserto. Passaram para nos buscar e acertar detalhes do dia seguinte.

Seguiríamos pela costa, por uma “estrada” pouco utilizada, atravessando o deserto. Passaram para nos buscar bem cedo e o carro era uma Land Cruiser descente. Tínhamos solicitado um guarda pois já tínhamos aprendido que era um super custo beneficio. Ao sair da cidade, o motorista errou o caminho e foi sentido ao final do porto. Quando vi estava o soldado abanando sua boina desesperadamente pala janela e alguém apontando um lança foguete para nos. Ops, acho que era área militar!!

A estrada era um verdadeiro areião, deserto para os dois lados e aquela vista para o mar. Sempre passávamos por cabras e camelos e seus devidos donos. Quando tínhamos rodado uns 60 km encalhamos pela primeira vez. Foi quando descobri que não tínhamos nenhum equipamento, nem os mais básicos como pá, corrente… Tivemos que cavar na mão, sob um sol de 40 graus. Tentávamos de tudo mas não adiantava. Depois de umas 3 horas finalmente conseguimos. Já estava claro que não faríamos a viagem num só dia, nem perto das 15 horas que estimamos. O carro encalhou mais algumas vezes, parecia Camel Trophy, mas fomos nos virando. Depois de um tempo encalhou de novo, desta vez nem se mexia. Tentamos um pouco mas já nos largamos exaustos embaixo de alguns arbustos. Agora era torcer que alguém passasse. Demoraram algumas horas, mas passou um caminhão no sentido contrario que nos ajudou, claro que sem cobrar nada, só para praticar o bem. No meio de toda esta história ainda acabou furando um pneu, portanto sem estepe dali para frente!

Deserto entre Somalilandia e Djibouti

Deserto entre Somalilândia e Djibuti

Buscávamos não usar a trilha, mas a parte de pedra ao lado. Até que funcionava, mas a atenção por buracos e relevo tinha que ser redobrada. Paramos para almoçar num pequeno vilarejo e nem preciso comentar o espanto do pessoal ao nos ver. Aqui o açúcar brasileiro e mais famoso que o futebol e um saco era utilizado para fechar a janela. Em Berbera já tinha visto que para eles açúcar e sinônimo de Brasil.

Mais um pneu que se foi...

Mais um pneu que se foi…

Mais quilômetros rodados, de lugares intocados, mais vezes encalhamos, mas sempre conseguindo nos virar, até que no final da tarde, com uma lua cheia saindo, foi mais uma “daquelas vezes”. Nem tentamos nada. Simplesmente tiramos algumas esteiras de palha, e nos largamos ao lado do carro mesmo. Como não tinha o que fazer, resolvemos descansar. Um tempo depois apareceu uma pessoa de uma vila não muito distante. Ele carregava uma pá e trouxe chá para nos. Trabalhou duro, tentando tirar o carro, mas foi em vão. Eu queria dormir mas quando via a situação, com aquele guarda dormindo abracado com a metralhadora só conseguia era rir.

Boa Noite!

Boa Noite!

Algumas horas depois passa outro caminhão para nos salvar. Conseguimos ir até a vila (meia dizia de casas) e tivemos que insistir muito para pagar o jantar para o cara que trabalhou por horas cavando. Ele dizia que era um prazer… Eu torcia que fosse churrasco de camelo, mas era de bode. Andamos mais um pouco depois do jantar e dormimos no meio do deserto. Dia seguinte de muita viagem, mas um pouco mais tranquilo, mesmo com mais pneus furados. Curtimos a paisagem e os lugares, até finalmente chegarmos na fronteira. Tivemos que esperar um tempo, pois estava fechada e só abriria as 4 da tarde.

Na imigração foram super gente boa. Ficava me questionando como o povo ocidental é ignorante quanto aos muçulmanos. Quando se fala em muçulmano muitas pessoas confundem religião com raça e com política.

Árabe não é sinônimo de muçulmano, pois existem árabes cristãos. O maior pais muçulmano do mundo é a Indonésia, que não é árabe. Muitos costumes atribuídos ao Islamismo são regionais, tribais e não religiosos. O Irã também é muçulmano, mas e Persa e não árabe. O Irã e uma republica Islâmica e não reconhece Israel como estado. Ao mesmo tempo existem judeus que vivem no Irã, em paz indo nas suas sinagogas, sem serem incomodados. Religião, ou o próprio Deus, é sempre bom, que estraga são os humanos…

FREE SOMALILAND!!!

Não conte para minha mãe… (Estou na Somalilândia!!!)

“Viajar é descobrir que todo mundo está errado sobre os outros países.” (Aldous Huxley)

Desde 1991, com a gerra civil na Somália, não existe mais só o país Somália, mais 3 países. Somália (onde vemos a guerra na TV), Puntland (onde estão os piratas) e Somaliland (onde há paz). Antes da independência , eram colonias distintas, a Somalilândia dominada pela Inglaterra e as outras pela Itália. Para conquistar a independência (anos 60) se uniram num só país. A capital  da Somalilândia, Hargeisa, foi severamente bombardeada pelos somalis (anos 90), mas conseguiram a independência e veem se desenvolvendo com o passar dos anos. Parece uma super historia de sucesso não? Um pais que do caos hoje tem eleições presidenciais populares com 3 partidos (raridade para a Africa), 4 empresas aéreas privadas (o Brasil com todo seu tamanho tem quantas?), diversas empresas de celular (Etiópia só tem uma) . Segurança? Uma das cidades mais seguras da África. Não existe crime contra o cidadão comum, não existe roubo, assalto, etc. Um país destes tinha que entrar no meu roteiro. Mas existia um grande problema. Não é reconhecido por nenhum país, então na verdade é uma terra de ninguém. Como não tinha nada planejado quando sai, e ficava “lá em cima”, deixei para ver pelo caminho como estaria a situação.  Nestes quase 6 meses encontrei um Inglês e um Polonês que tinham ido para lá e só falaram coisas boas. Pronto, estava confirmado. Em Madagascar soube através dos japoneses que um amigo deles foi do porto de Berbera (Somalilândia) para o Iêmen num navio que transportava gado. Era um plano inicial. Quando falei para o Guru que iria ele topou na hora. O Michael, que também passou a viajar com a gente, achou que seria uma oportunidade única, pois ele nunca iria para la sozinho, ainda mais com passaporte americano. O visto tirei logo que cheguei na Etiópia. Como não é um país reconhecido eles não tem embaixada e sim um Liaison Office. Um escritório de relacionamento. O visto ficou pronto em 5 minutos. Mas como ainda íamos viajar pela Etiópia, e o visto tinha validade de um mês daquele dia, tivemos que falar com o “cônsul” que nos ajudou prontamente, deu varias dicas e conversamos muito tempo. Pegamos o cartão dele com contatos de amigos na Somalilândia. Quando voltamos do circuito histórico, corremos para la para o Michael tirar o visto dele. Era uma sexta, tava fechado, e queríamos pegar o ônibus de domingo para Harar e depois seguir para Somalilândia. A solução foi pedir para o segurança ligar para o “Consul” que 15 minutos depois chegou, abriu o escritório e emitiu o visto. Ainda brincou que se soubesse que eramos nos teria vindo antes. Muito gente boa! A fronteira e feia, muito suja, cheia de plastico.  Chegando no lado da Somalilândia foram super atenciosos. O oficial da imigração ficou doente quando viu que eu era brasileiro. Falou de todas as ultimas copas, era fã de carteirinha. Falou que eu sou o primeiro brasileiro a passar por esta fronteira. Acho que ele se empolgou um pouco, mas não devem ter muitos. Passaporte carimbado, agora era só achar transporte ate Hargeisa. Ônibus? Não, nenhum. O transporte aqui são carros tipo perua, socados de gente. Preço em dólar, o dobro da Etiópia para a mesma quilometragem. Tivemos que trocar de carro porque queriam cobrar a bagagem no primeiro. Vimos que nem todos eram simpáticos quando um cara jogou a mochila do Michael para fora do carro. No segundo carro foi tudo certo e uma senhora retribuiu gentilmente a bolacha que recebeu com uma goiaba. Chegamos em Hargeisa e confesso que achei um caos por tudo que falavam. Claro que evoluíram um monte nestes quase 20 anos, mas a bagunça impera. Uma das primeiras cenas que vi foi um caminhão descarregando madeira. Quando prestei atenção era da chilena Arauco. Não podia ser! A Arauco era a principal concorrente da empresa que trabalhava, e cheguei até a ir para o Chile para fazer uma pesquisa dos produtos deles, distribuição, mercados… Muita gente na rua, barracas tipo camelô por todos os lados e muita areia cobria o fino asfalto da avenida principal. Para fugir do choque inicial pegamos um bom hotel, o terceiro melhor da capital. La teríamos boas informações, e depois descobrimos que nos 12 usd tinha até café da manha e internet não achamos mais tão caro como no inicio. Deu tempo de largar as coisas e sair pelo centro. Antes tínhamos que trocar dinheiro. Era só escolher uma das caixas de arame espalhadas pela rua ou pilhas de Somaliland Shilings em cima de esteiras. Um usd são 6500 SS, portanto treze notas de 500, que e a maior que circula. O negocio era trocar 10 USD por dia, ou carregar uma mala com dinheiro…haha

Trocando dinheiro

Trocando dinheiro

Fomos ate o Memorial de Guerra, praca em que exibem um avião Mig da forca aérea Somali, que e exibido com orgulho. Lá juntou gente, muita gente. Todos já estavam vindo falar conosco antes, mas lá eram dezenas de pessoas. Soldados tiveram que dispersar a multidão. Sempre perguntavam o nome, da onde eramos, e se eramos jornalistas!!! Se surpreendiam quando falávamos que eramos turistas e ficavam ainda mais curiosos. Notamos que uma minoria (1 em 20) não gostavam muito e resmungavam para quem nos dava “moral”. O Michael também teve que trocar sua resposta de nacionalidade de americano para canadense rapidinho, pois teve gente que chiou. Em geral uma simpatia nunca vista, nós eramos atração turística. Para comprar o chip para o cel praticamente paramos o escritório do lugar. Resolvi comprar um jornal local. Algumas das publicações são em inglês. Me surpreendi quando me deparei com a notícia do assassinato de três pessoas 10 dias antes. O jornal (oposição) falava que era um protesto, mas depois descobrimos por fontes neutras que foi uma tentativa de golpe de estado. Se o cidadão comum não sofre nenhum perigo de violência, a violência política ainda faz parte da realidade do pais. Teríamos que redobrar a atenção, mas como em Madagascar, era só ficar longe de manifestações publicas (estas foram fora da cidade). Depois de um primeiro dia destes, comemos um pouco antes de escurecer e decidimos nem sair a noite. Conhecemos muitos somalilanders que estudam na Inglaterra, país que tem voo direto para cá (assim como Dubai, Iêmen, Quênia, Etiópia, e logo USA).

Memorial de guerra

Memorial de guerra

Banco!

Banco!

Avenida principal

Avenida principal

Bem cedo eu já estava acordando com o chamado das mesquitas. Fiquei só na janela, depois na sacada vendo o dia amanhecer e a cidade movimentar.Todos seguem a risca a regra de rezar 5 vezes ao dia. País 100 por cento muçulmano. Não pode bebida alcoólica, se tiver só transportando é cadeia! Homens e mulheres sentam em lugares diferentes nos restaurantes, cheio de regras. Queríamos visitar umas pinturas rupestres muito antigas, em excelente estado de conservação. Para isto teríamos que arrumar um carro, pois os táxis comunitários só vão de cidade em cidade, e este lugar ficava fora da estrada. No hotel estavam cobrando caro demais e decidimos arranjar um carro na rua. No memorial de guerra tava cheio de táxis e voltamos para lá, depois de ter visitado alguns mercados, dentre eles o mercado do ouro. Não demorou muito até encher de gente para ver nossa negociação. Para aliviar entramos dentro do táxi e chegamos num acordo. Tinha uma situação que não estava clara ainda. Algumas pessoas falavam que para circular pelo interior do pais precisaríamos de escolta armada. Fomos até a “secretaria de segurança” e nos foi passado que sim. Quiseram até encrespar sobre nossa viagem pelo interior, quando o cartão do “cônsul” com telefones escritos a mão fez efeito. Ainda passamos no ministério do turismo, que fica numa pequena sala dentro do ministério da pesca (hilário!!). Lá nos contaram que existe uma super proteção com estrangeiros. Já não conseguem reconhecimento, se algo acontecer tudo ficaria ainda pior. A alguns anos alguns somalis entraram escondidos na Somalilândia e assassinaram 3 turistas, e foi um grande problema de relações internacionais. Não tínhamos escolha a não ser pagar os 10 dólares para o soldado que nos acompanharia.

Hargeisa

Mesquita em Hargeisa

Partimos pela estrada Hargeisa-Berbera, e teríamos que pegar uma estrada secundaria para Las Geel. Uma reta só e a paisagem não mudava, era deserto dos dois lados. Passamos por um ou outro aglomerados de casas, que nem podemos chamar de cidades. Paramos numa delas para almoçar. Só tinha macarrão, e só 3 pratos, então tivemos que dividir. Nem foi difícil pois aqui não usam talher, então os pratos ficavam no meio e nos íamos  pegando com a mão. Depois deste lugar pegamos uma “estrada” secundaria, na verdade nem tem estrada, é só seguir a trilha feita por outro carro. Víamos pequenas formações rochosas e algumas cabanas. Muitas cabras e camelôs por toda a estrada. Chegamos num check-point onde pediram a papelada que tínhamos acertado no Ministério do Turismo. Uma pessoa seguiu com a gente para mostrar o lugar. Paramos numa casa, que possuía alguns cartazes com informações das pinturas, que só foram descobertas em 2003. Caminhamos montanha acima e o lugar e fantástico. São muitas e muitas pinturas, muio vivas, parecem que foram pintadas a pouco tempo e tem mais de 5000 anos. Se fosse em outro pais receberia milhares de visitas, e nós ali, sozinhos, explorando, curtindo o lugar e a bela vista. Valeu muito a pena!

Pinturas Rupestras

Pinturas Rupestres

Isto tem que virar um Parque Nacional

Isto tem que virar um Parque Nacional

Vista da caverna

Vista da caverna

Em vez de retornar para Hargeisa, seguimos a estrada, sentido Barbera, pois tínhamos combinado desta forma. O soldado já mascava chat a horas e provavelmente não estaria apto para nos defender. De qualquer forma sua presença foi de grande importância pois não pediram o nosso passaporte nem uma vez, bem diferente de quando estávamos sozinhos, que era toda hora.

Nao e treinamento Taliban, e so escolta armada pela Somalilandia!

Não e treinamento Taliban, é só escolta armada pela Somalilândia!

Tava quente, muito quente e só parecia que piorava. Tinham nos falado que Berbera era insuportavelmente quente e tudo ia se confirmando. A paisagem mudou um pouco, com a presença de umas montanhas. Pudemos até ver um ou outro animal selvagem. A qualidade do asfalto foi piorando, e buracos ficaram mais frequentes. Chegamos em Berbera no final de tarde. Como e a segunda maior cidade imaginávamos um grande movimento, mas ao contrario de Hargeisa a cidade tava calma, quase parada, com poucas pessoas na rua. De cara nos identificamos mais com este lugar.

O Feriado Cristão e a Cidade Sagrada Muçulmana

De volta a Addis, ainda tínhamos que fazer algumas coisas, antes de ir para Harar. Visitamos o Museu Nacional e o Museu Etnológico. Deu para aprender m pouco mais sobre as diversas tribos do pais (são 80 línguas e 200 dialetos diferentes), ver varias pinturas ortodoxas com Jesus negro, mas o ponto alto para mim foi a parte dos fosseis dos “Homídeos”. Para quem não sabe, eu quando tinha 6 ou 7 anos não queria ser jogador de futebol nem bombeiro, queria ser paleontólogo, e isto foi muito antes da geração parque dos dinossauros.

Existe uma seção que explica toda a evolução da especie humana, com vários fosseis de nossos ancestrais que foram achados aqui. Lembram da Lucy, nossa tatatatataravo? Ela era etíope. Os fosseis da Etiópia são os mais antigos e em excelente estado de conservação.

Já que estávamos por aqui resolvemos estender um pouco mais para ver a comemoração do Meskel, que e o dia que acharam a Cruz. Se o ano novo foi uma comemoração discreta, esta foi uma grande manifestação popular. Todas as ruas perto do centro estavam bloqueadas, milhares de pessoas caminhavam com seus trajes típicos em direção a Meskel Square, no centro da cidade. Quando chegamos, depois de muita dificuldade para arranjar transporte, as arquibancadas já estavam lotadas. Diversos desfiles de escolas, alegorias celebrando Cruz sagrada e a Etiópia. Discurso do Papa da Igreja Ortodoxa Etíope, devidamente protegido por atiradores de elite em cima dos prédios. População super comportada, sentada e ordeira. Eram milhares e milhares de pessoas, difícil estimar, mas acho que devia ter mais de 100000. Todas elas com velas em punho, numa cena bonita, durante a queima de uma fogueira de palha e de fogos de artificio.

Praca Meskel

Praça Meskel

Comemorando Meskel

Comemorando Meskel

Todo mundo curtindo, com branco e as cores da Etiopia

Todo mundo curtindo, com branco e as cores da Etiópia

O Samuel escolheu para se mudar para outra casa bem neste dia, então depois das celebrações fomos para a casa nova, depois de ter jantado num restaurante tipico de uma das tribos. Cardápio? Ingera (para variar) com carne moída crua picante (novidade!). Muito bom, comi um monte.

Já estávamos prontos para seguir viagem, então bem cedo pegamos um ônibus para Harar. Viagem longa, mas com um asfalto de excelente qualidade. A temperatura ia aumentando a medida que nos aproximávamos de Harar. A paisagem também foi se modificando, o verde foi desaparecendo gradativamente, e a areia aumentando na mesma proporção. Chegamos na cidade e depois de uma longa discussão sobe preço ficamos no primeiro hotel que visitamos. Quarto com duas camas e um colchão no chão.

Harar e a quarta cidade mais sagrada para os muçulmanos, depois de Meca, Medina e Jerusalém. E uma antiga cidade murada, com um quilometro quadrado e praticamente 100 Mesquitas.

Existem 100, aqui estao 2

Existem 100, aqui estão 2

Mesmo sendo final de tarde o calor era insuportável. Ficamos largados num restaurante, e demos uma volta na cidade velha. Nós estávamos na cidade nova, para fora dos muros, e que tem maioria crista. Ao caminhar na cidade murada, dentre tantas mesquitas, no centro da cidade uma Igreja Ortodoxa. Aqui a paz prospera…

Ruas da cidade velha

Ruas da cidade velha

Cores Vivas

Cores Vivas

Indo para a escola

Indo para a escola

A cidade é pequena, e no outro dia andamos pelas centenas de ruelas estreitas, surpreendentemente com portões de casas pintados com cores fortes. Visitamos pequenos museus, conversamos com pessoas, passamos no mercado de carne de camelo, e encontramos um antigo amigo. Sim, no meio da rua encontrei um cara que conversei durante horas na viagem de Nairóbi para Moyale, e que ate ficou no mesmo hotel que a gente. Que coincidência. Muito gente boa, nos levou para a casa dele para apresentar a família. Sua esposa ofereceu a cerimonia do cafe, tostando os grãos e servindo junto com pipoca. Ficamos brincando com a comunicativa filha de 4 anos ate a hora de sairmos. Combinamos de ver alimentarem as hienas mais tarde e fomos tomar um sorvete no final e tarde.

Amigos!!

Amigos!!

Existe uma tradição em Harar em que todo anoitecer alimentam hienas logo na saída de um dos portões da cidade. Dizem que faziam isto em épocas de fartura, para que em épocas de seca as hienas não atacassem os homens e seus rebanhos de cabras e ovelhas. Parece que funcionou, pois hoje as hienas circulam livremente durante a noite sem causar problemas. Hoje este “evento” já se tornou turístico, e pedem uma contribuição para pagar as “pelancas”. De qualquer forma fomos conferir, e os animais são bonzinhos(hehe). Pensar que já morri de medo daquelas hienas circulando pelas nossas barracas na Botsuana, e aqui estava eu dando de comer na boca dos bichinhos. Primeiro com a mão, depois com a boca!! Foi divertido.

Depois de muito tempo de Africa os animais passam a te respeitar...hehe

Depois de muito tempo de Africa os animais passam a te respeitar…hehe

Uma delicia de cidade, onde o tempo não passa. O pessoal leva o Chat a serio aqui e masca durante o dia inteiro. No final da tarde parecem Zumbis, mortos vivos perambulando. Estava enganado quando falei que era que nem Red Bull. Bem, não sei o que aconteceria se alguém tomasse Red Bull por 8 horas seguidas…

Harar

Harar

Portao principal

Portão principal

Tivemos uma grande discussão no hotel, pois estávamos usando outro quarto para tomar banho. Nosso chuveiro não funcionava direito e ninguém deu atenção a nossas reclamações. Resolveram implicar com o preço, pois estávamos pagando a tabela que era para 2 e não para 3. Como tínhamos combinado não cedemos, e ameaçaram tirar o lençol do colchão do chão. Eu que tava dormindo ali e virei um bicho. Briguei, ameacei colocar na internet e blalala e no final das contas deu certo.

Cedo seguimos para jijiga. No ônibus fiquei conversando com um Sr que tinha bastante informações sobre o Brasil, mas queria saber ainda mais. Queria saber minha opinião de como melhorar a Etiópia dentre outras coisas. Sempre encontro pessoas curiosas, mas algumas fazem perguntas difíceis, e o assunto se torna profundo. Muito legal, mas de muita responsabilidade para responder. Fizemos uma rápida conexão para Wajjale. A temperatura aumentava ainda mais, e agora era só deserto mesmo. Passamos por uma área onde estavam tirando minas terrestres ao lado da estrada, fruto de uma guerra já de algum tempo  entre Etiópia e Somália.

Logo nos aproximamos da fonteira da Somália. Pera ai, aqui não e Somália já faz muito tempo…