Deuses e (ou) Demônios (?)!

Segundo a lenda, Deuses e Demônios estavam brigando por um pote que continha o néctar da imortalidade. Vishnu conseguiu pegar o pote e quatro gotas caíram em diferentes lugares, que passaram a serem considerados sagrados: Allahabad, Ujain, Nasik e Haridwar. Sempre que o planeta Jupter entra em aquário  o sol em aries e a lua em Sagitário e celebrada a Kumbha Mela (festival do Pote). Milhões de peregrinos de todos os cantos vem para participar, discutir religião  meditar e sem banhar no Ganges para se livrar do Karma. A celebração acontece de 12 em 12 anos, com encontros menores a cada 4 anos. Menores não significa pequenos, pois e considerado a maior celebração religiosa do mundo. Já teve Kumbh Mela com mais de 60 milhões de pessoas!!! Não sei se a lenda e verdadeira, mas que tinham santos e demonicos por ali tenham…

Já estacamos em Rishikesh, bem instalados, mas o problema de locomoção era grande. Tentamos caminhar, mas não estávamos tão perto do centrinho. Acabei indo sozinho e a Bibi voltou para o hotel. Tínhamos combinado de encontrar nossa amiga holandesa Marlinda (Indonésia e Myanmar) e la fui eu pela muvuca. Tiveram ate que fazer sentido único para andar nas pontes, numa forma de tentar organizar a multidão  Encontrei com ela, ficamos um bom tempo num café gostoso na beira do Ganges. Dava ate para esquecer da multidão a poucos metros. Decidimos ir ate o hotel para ela encontrar com a Bibi, e a caminhada foi longa… As duas acabaram decidindo antecipar a ida para o Ashram, numa ultima tentativa de fugir de tanta bagunça  Tivemos que acordar super cedo para conseguir atravessar a ponte com as mochilas.

O pessoal que pedia para tirar foto com agente

Agora vcs entendem porque a Bibi achou melhor nao ir?

Dois dias antes e cinquenta quilometros de distancia…

Ainda em Rishikesh

Já do outro lado ficamos um bom tempo no café na beira do Ganges ate a hora de nos despedirmos. Elas foram para o Ashram, que e mais afastado de Rishikesh, e eu já com hotel, fui pegar o maior numero de informações possível sobre Kumbh Mela. O banho principal era no dia seguinte, e teria que achar uma forma de ir ate la. Sugeriram ate de eu passar a noite em Haridwar, para ver o sol nascer la, mas achei que seria um pouco demais, pois não conseguiria nem dormir no chão  de tanto indiano que tinha por la. Contratar um autorickshaw estava fora de cogitação  devido aos elevados preços  De ônibus pegaria aquele congestionamento já conhecido, e teria que andar quilômetros ate a região dos banhos. A solução foi pegar o primeiro trem mesmo. Antes do sol nascer eu já tava caminhando, para chegar do outro lado do rio, pegar um transporte até a ferroviária  lutar por um bilhete (somente 5 rupias) e esperar o trem. Engana-se quem pensa que depois foi tranquilo. O trem já estava lotado. Pessoas tentavam subir ao mesmo tempo que outras tentavam descer. Nada de fila (aqui não conhecem isto!!). Algumas pessoas criaram o jeitinho indiano. Todas as janelas tem grades, para que ninguém pule, menos a de emergência  Muitas pessoas passaram a utilizar as janelas de emergência como forma de acesso garantido. La fui eu garantir o meu lugar. Teoricamente o trem só para em um lugar, mas fez varias paradas, para subir mais gente, que vinha sei la de onde. Não existia a menor possibilidade de verificarem os bilhetes, e as leis da física estavam sendo desafiadas. A chegada atrasou por causa das demasiadas paradas, e sair da estacão de trem não foi fácil.

Chegada em Haridwar

Chegar na rua não melhoraria a situação  As ruas estavam funcionando em sentidos únicos  e o mar de gente ia levando todo mundo. Lutei para atravessar a rua, sendo arrastado quase uma quadra para baixo. Do outro lado a primeira barreira policial. “Daqui ninguém passa, alertava o oficial. Tem gente demais!” Rapidamente olhei o nome do hotel mais distante que conseguia ver e falei que tinha que voltar para meu hotel, que todas minhas coisas, meu dinheiro e passaporte tavam la. Ele me pediu o cartão do hotel me testando e eu falei que não tinha e iniciei a encheção de saco. Uns 15 minutos depois consegui passar. O empurra empurra diminuiu um pouco, mas não demorou tanto para surgir outra barreira. Só estava passando gente com credencial. Parecia que seria mais difícil  mas esta não demorou 5 minutos. Um grupo antipático italiano, quase não acreditou. Eles estavam esperando seu guia, com as credenciais de jornalistas, e mal me deram as informações que pedi. Só dei um tchauzinho quando estava la do outro lado. A terceira foi moleza. Alguns Sadus estavam passando em procissão bem quando cheguei. O soldado me fez esperar eles passarem, e me liberou logo depois. Ai eu já tinha livre acesso aos acampamentos dos Babas e dos Sadus. Logo encontrei os peladões  Primeiro alguns bem sérios  e logo outros que pareciam em desfile alegórico  Um colocava uma barra no pinto dele e torcia, torcia, ate colocar a barra por trás da perna. Doi só de ver. O vídeo ta garantido, e no final da viagem vou postar aqui.

A caminho do Ganges

Cena comum

Mais peladoes

Nos acampamentos dava para perceber alguns poucos que pareciam sérios  e muitos que queriam aparecer. Consegui conversar com algumas pessoas mais o dia foi mais de observar mesmo. Nem tinha como ser diferente. Algumas discussões  alguns atos religiosos, mas o que mais se via era o pessoal fumando. Nas ruas principais os peladões  cobertos de lama, iam passando para o banho no Ganges, para lavar seu karma. Alguns Babas também passavam, um ate em cima de um cavalo, com multidões acompanhando, com suas bandeiras.

Baba

Mais Babas

Mesmo que tenham Babas suspeitos, a maioria esmagadora das pessoas que estavam em Haridwar eram devotos, estes sim do bem (tirando os motoristas de autorickshaw!!!haha).

Acampamentos

Acampamento 2

Nao usa roupa, mas olhem olhem o relogio…

Ta mais para palhaco que para homem santo!!!

Corta a unha meu!!!

Circulei para cima e para baixo mas tinha que continuar, queria chegar ao Ghath principal. Mais uma barreira, esta jogo duro. Fiquei mais um bom tempo tentando convencer o soldado a me liberar, o tempo passava e nada. Um cara tentou passar a corda e levou varias pauladas. Na ultima tentativa o oficial encarregado me liberou. Não adiantou muito, pois pude caminhar poucos metros, ate uma barreira de onde ninguém mais passava. Estava perto, mas mal dava para ver. Sai desta área tentando contornar a quadra, mas não me deixaram subir. Voltei alegando ter esquecido a bateria da maquina carregando (os guardas já me conheciam), entrei num restaurante, tomei um refri e sai pela porta da cozinha, furando o ultimo bloqueio. Pra ser sincero não adiantou muito, pois mesmo dando a volta na quadra não deu certo. Não cheguei na escadaria principal, mas também nem precisava. A melhor parte foi entre os acampamentos mesmo. O dia tinha sido longo, tenso e cansativo. Decidi nem esperar para ver a Puja do final do dia. Já sabia como estaria a estacão de trem, e demoraria horas ate eu chegar la. Fui andando na outra direcao, tentando ma afastar da muvuca. Do outro lado do rio já estava mais tranquilo, e resolvi parar para dar um mergulho, e lavar o meu karma também  Na verdade não mergulhei, entrei ate a cintura e joguei água na minha cabeça  Não se preocupem, pois aqui a água não e poluída que nem em Varanasi. Se bem que com as 15 milhoes de pessoas que tinham lá neste dia, não sei para onde que o esgoto ia…

Banho no Ganges

Tambem fui para o banho

De alma lavada, caminhei por quilômetros  passando por acampamentos mais distantes, outras pontes, mais pessoas se banhando, enquanto lembrava da loucura que tinha sido este dia.

Gente por todos os lados!!

Indicavam que teriam ônibus para Rishikesh mais para frente, mas nunca chegava. Ao perguntar para um soldado onde estavam parados os ônibus que iriam para Rishikesh pela estrada velha, ele apontou para frente, mas me mandou sentar ao lado numa sombra. Imaginei que o ônibus passaria por ali, mas não. Logo foi um carro que passou e foi parado. Me chamaram e ganhei uma carona de volta em um carro que tinha ate ar condicionado!!! Nem acreditei. Claro que sendo India tava bom de mais para ser verdade. O motorista resolveu me cobrar quando chegamos. O preço  trinta rupias, mesmo preço que uma passagem de onibus (1,5 Real). Inacreditável !! Cheguei em Rishkesh meio zonzo, de tanta coisa que tinha acontecido naquele dia. Sentei para tomar um suco e tentar digerir um pouco, mas levou mais um outro dia inteirinho para isto acontecer. Foi muito bom, mas eu tava muito cansado de tanto calor e principalmente de tanta gente, e resolvi ir logo para as montanhas.
As informações que eu recebia eram meio contraditórias  Teoricamente algumas estradas ao norte ainda estariam fechadas. Não quis nem saber, e peguei um transporte ate a rodoviária que atende a parte norte do estado. Falavam que esta outra rodoviária era longe, que não poderia me levar. Não sabia se era verdade e quando um motorista com um autorickshaw lotado falou que so me levaria por 50 rupias, resolvi encarar, pois os ônibus saem cedo e não podia me atrasar. Acontece que um tempo depois desce um passageiro e paga 5 rupias. Nem 500 metros depois ele aponta para onde eu deveria pegar o ônibus  Paguei 10 rupias (preço para a outra rodoviária , bem mais que o outro passageiro, e o motorista ficou gritando para eu pagar 50. Eu apontava para todos os deuses pendurados no painel e falava para ele: “Eles tao vendo…”, “ Você vai ter um Karma ruim por isto, ladrão ..” e no calor da discussão ate: “ Você vai reencarnar uma planta, porque nem inseto coce vai conseguir…”!!! Ele ameaçou chamar a policia e eu concordei. Todos os passageiros estavam do meu lado, e insistiam para ele ir. No final deu certo, e peguei um ônibus de 5 horas ate uma cidade onde troquei de ônibus e encarei mais 4 horas ate Josinath. Arrumei um hotel baratinho e sai pesquisar sobre as estradas. Realmente elas estavam fechadas, não pelo um metro de neve que me falavam, mas pelo exercito mesmo. São regiões já muito próximas do Tibet, e as cidades ao norte são habitadas somente nos 6 meses de verão  No outro período são esvaziadas e fechadas. Com isto a visita a Badrinath ou ao vale das flores estava descartada. Tomando um chai num restaurante pé sujo, fiquei sabendo de uma vila chamada Lata, onde a estrada estaria aberta. Dia seguinte cedo eu já tava pegando um ônibus para la. Foi quase uma hora de viagem para percorrer 17 km. Muitas curvas, daquelas beirando precipícios, afinal, já estava na cordilheira do Himalaia.

Hymalaia Express

O motorista para o ônibus num lugar com não mais que 15-20 casas e fala que eu teria que descer ali. Me informei e Lata ficava a 1.5 km morro acima. Fui seguindo a trilha em zigue-zague ate chegar num aglomerado de casas. Me disseram que vivem 100 famílias ali, mas duvido. Tava dando uma caminhada pela pequena vila e encontrei um cara que falava bem inglês  Ele falou que poderia ficar na casa dele, e aceitei, tendo em vista que não existe pousadas ali. Ele tirou os filhos de um dos quartos, e falou que era todo meu. Quarto simples mas com uma suuper vista.

Vista do meu quarto!

Tinha acabado de terminar um festival de três dias, onde pediam chuva para os deuses. Teve um almoço para os homens, e eu fui convidado. Conheci a região  e conversei com ele sobre quais possibilidades de passeios que poderia fazer dali. Combinamos que faríamos um treking para ver o Nanda Devi , segunda maior montanha da India, com quase 8000 metros de altitude. A mulher dele cozinhava numa fogueira, num comodo separado que era a cozinha/sala de jantar. Fogo no chão  e nos sentávamos ao redor. Algumas latas contendo arroz, lentinha e açúcar  alem de outras pequenas de temperos. O leite vinha da vaca que ficava embaixo da casa. Já tinha visto isto no Iemen e no Tibet, os animais ficam no primeiro nível  o que de certa forma esquenta a casa no inverno. O problema são as moscas… Falar em moscas, não tem água encanada, só um tanque (no meio da vila) de onde vem a água do desgelo. La todos vão se abastecer com seus baldes, escovar os dentes e tomar seu banho. Assim, na torneira, meio da ruela. Na verdade da só pra se dar uma lavada, de roupa mesmo.

Vila de Lata

Anfitrioes

Acordamos cedo para a caminhada, e ele me alertou sobre algumas nuvens. Falou que iria se eu quisesse, mas que não tava gostando daquele vento. Como eu tinha tempo, achei melhor não arriscar, e esperar pelo próximo dia. Fiquei de bobeira pela vila, brincando com as crianças, tomando chai com os adultos. Desci ate o rio, e no meio da tarde o vento gelado aumentou.

Curtindo a regiao

Nuvens escuras foram tomando conta do topo das montanhas e sai correndo para a Vila. Estava quase chegando quando começou a chover. Meu quarto tinha frestas, e o vento gelado entrava.

Neve nas montanhas

Me agasalhei, dobrei o cobertor em dois para tentar me esquentar, mas a solução foi ir para o lado da fogueira. Quando a tempestade passou, os cumes das montanhas estavam brancos. Havia nevado! Nossa, escapamos de uma! Ainda bem que não fomos!! Nem sinal de melhora nos outros dias, e resolvi ficar curtindo a tranquilidade do lugar. De noite, quando estava jantando, escutei uns tambores, seguidos de gritos repetitivos. Como tinha sido a primeira chuva da temporada, estava acontecendo um festival. Durou cerca de 3 horas, e toda a vila foi participar. Dois senhores e uma senhora de mais idade lideravam. Eles dançavam em volta da fogueira, no ritmo do tambor. Ela ia derramando a água recolhida da chuva a medida que dançava  Eles dançavam no ritmo frenético dos tambores, quase em transe e na parada da musica jogavam a água sobre suas cabeças  Não vi eles tomarem nada, nem fumar, mas pareciam completamente fora de si. O resto das pessoas entrou na dança, que durou bastante tempo. Eu fiquei encolhido, tentando me proteger do frio, e agradecendo esta sincronicidade que aconteceu para eu poder estar ali, neste momento tão importante. Como são agricultores (durante 6 meses, no inverno não fazem nada), a chuva e essencial para a sobrevivência  e a felicidade tava estampada na cara deles, e refletida na minha…
Foram dias muito gostosos, mas com aquele tempo não adiantava eu ficar por ali.

Tempo fechado

Voltei para Josimath, e meu amigo veio junto. Dei um dinheirinho para eles pela casa e comida, e ele já estava indo para a cidade para comprar material escolar para os filhos!! Fomos num jipe comunitário  que sai bem sedo dali de perto. Antes de sair o motorista verificou cuidadosamente a buzina, freios, luz e os piscas. Todos funcionando pudemos seguir viagem pelas curvas e penhascos.

De volta a Rishikesh, acabei encontrando nossos amigos alemães  que conhecemos no Myanmar. Acabei ficando alguns dias ali, jantando com eles todos os dias, em vez de ir para o ashram.

Melhor que fazer novos amigos e reencontra-los!!

Foi bom para a Bibi poder curtir um pouco mais sozinha. Fui para la e foi bem bacana. Nada de seguir o programa, se bem que fazia yoga com a Bibi de manha. O lugar e na beira do Ganges, com varias trilhas, lugar muito bonito. Passamos alguns dias ali, caminhando, curtindo o lugar. A Bibi falava que parecia ate um spa. Teve um dia que ficamos sem se falar, mesmo fazendo atividades juntos. Comida boa, e no final do dia uma pequena cerimonia antes do jantar.
O tempo passou, e se aproximava do dia que havíamos comprado uma passagem para sair da India (votação encerrada!!rs). Fomos para Rishikesh, para mais uns dias de cafés e compras, mandamos algumas coisas pelo correio e estávamos prontos para sair da Índia  Será?!





Tudo por dinheiro!!!

Há os que digam que a India e a alma do mundo, ate pode ser, mas ou esta mudando ou esta podre. Os ocidentais tem uma visao muito romantica da espiritualidade indiana, e hoje virou moda. No Brasil as escolas de yoga se procriam feito coelhos, meditacao, curso disto, curso daquilo. Ouvimos algumas vezes para tomar cuidado com os tais gurus. Um deles estava estampado no jornal, depois de um grande escandalo com uma atriz de Bollywood. Ele pregava o celibato, tinha milhares de fieis no mundo inteiro, e o flagraram com a nova namorada. Alguns conhecidos Babas, tidos como santos por ocidentais e indianos, são motivo de piada para outros tantos. Chamados de charlatoes para baixo. Contam historias de como enganam o povo, e realmente e estranho ver o rosto deles estampados ate em caixa de leite. A descrenca tem aumentado muito, e o ocidente vem na contramao. Na verdade acho que o ocidente nunca entendeu direito como pensam por aqui. E muito diferente, outro funcionamento.
A India fazia comercio com o Imperio Romano, Arabes, Persas, Chineses e por ai vai. Não sei como se comportavam na epoca, mas hoje são grandes ladroes. Não do estilo brasileiro, com revolver e faca na mao, mas nem por isto deixam a agressividade de lado. Um motorista de autorickshaw (tuk-tuk daqui), tem um monte de deuses pindurados, fotos, enfeites religiosos, mas mesmo assim vai mentir que o hotel que voce pediu fechou, mudou de lugar, e caro, e longe (e por ai vai), so para te levar no hotel que ele ganha comissao. Se tiver alguma chance vai tentar te cobrar mais por alguma coisa. O pior de tudo, e que o preco que voce tanto negociou, vai estar bem mais acima do preco cobrado para os locais. Esta pratica e de certa forma incentivada pelo governo, que cobra diferentes precos para os estrangeiros. Ate ai tudo bem, pois esta incentivando a populacao a conhecer sua historia, seus monumentos, museus. O problema e que existe uma tabela de precos reduzidas para asiaticos tambem, e no final das contas, os pobres japoneses vao pagar menos que os brasileiros, por exemplo. Nas lojas a complicacao continua. A tatica de jogar o preco pela metade, ou ate trinta porcento, por aqui não funciona. Em muitos lugares empacotariam na hora para voce levar. Fica dificil de saber o preco real do que voce esta levando. A briga e de pagar so um pouco mais caro. Cansa ate os mais habeis negociadores! Alguns itens passam a ter precos definidos para turistas, mesmo que sejam infinitamente superiores ao valor real. O vendedor passa a se recusar a vender para ganhar “pouco”, pois sempre vai passar outro trouxa pagando 5 vezes o valor do produto. Bem, pelo menos muitos falam que o mesmo indiano que roubaria tua mochila no trem enquanto voce dorme, cuidaria super bem dela se voce pedisse para ele olhar enquanto voce vai no banheiro. Pensando nisto aceitei de um vendedor me trazer o troco depois, e estou esperando ate agora ele voltar…

Tinhamos desistido de ir direto para Delhi, pois como o calor estava chegando mais cedo este ano, teriamos que ir antes para o Rajastao, pois após seria humanamente impossivel. Ficamos mais um dia em Jalgaon para curar nova alergia que surgiu na Bibi e pegamos um trem para Ahengabad. Não tinhamos reserva, entao arriscamos comprar segunda classe e ir na sleeper. Deu certo, e ainda caimos com uma familia super divertida. A viagem longa e o calor desgastante fez com que ficassemos na grande e movimentada Ahengabad um dia, antes de pegar um onibus para Udaipur. A expectativa era grande, pois todos falavam maravilhas de la. Nem a noite mal dormida no pulante onibus sleeper, o motorista do autorickshaw tentando nos enganar e meia duzia de vacas (e suas necessidades e claro!!) paradas na frente do hotel as 5 da manha estragaram nosso encanto pela cidade. Ficamos a um pulo do palacio da cidade, entre as ruazinhas estreitas, muito bom o lugar. O lago que fica bem no centro da cidade, e tem um palacio no meio, não estava muito cheio, devido a pouca chuva recebida nos ultimos anos, mas não deixa de ser o principal ponto da cidade. Não demoramos para achar nosso restaurante preferido, e ir la todas as noites. Um terraco, pendurado na beira do lago, com vista para o palacio da cidade e otimo por do sol. Fomos agraciados por uma lua cheia, que deu um clima maior ainda para o lugar. Claro que andamos por tudo, principalmente eu, mas tambem adotamos uma confeitaria preferida, onde passavamos as horas de maior calor. Os dias iam se passando e não tinhamos muita vontade de sair daquele lugar aconchegante. Nos restaurante, diariamente passava o filme “Octopussy” do James Bond, que foi filmado na cidade. Ficamos de ver varias vezes, mas estavamo ocupados demais…hehe Todo o Rajastao teve uma grande influencia mongol, pois invadiram e conquistaram a regiao, deixando muitas de suas tradicoes. Muitos dos fortes deste estado são mais antigos que o Brasil.

Palacio do Maraja




O palacio no meio do lago, nossa vista de todos os jantares...


Quer um sapato novo?

Outro onibus noturno e chegamos em Jodpur, mais perto do deserto, e portanto mais quente e empoeirado. Estavamos quase chegando, e numa parasda um motorista de autorickshaw subiu no onibus e tentou nos levar, falando que tinhamos chegado. Por sorte não saimos, pois ainda estavamos na parte de fora da cidade. Chegamos mais perto do forte, e estavamos surpresos vendo dezenas de camas para fora das casas, todas na calcada, onde a populacao tentava buscar um pouco de frescor, quando chegou o insistente motorista novamente. Ficamos num hotel com uma super vista do forte, impressionante, mas o calor era intenso, mesmo de noite. Como o nosso aniversario de casamento se aproximava, procurei um hotel melhor, com aircon, e nos mudamos para la.
Jodpur tem um belo forte bem no meio da cidade e um magnifico palacio. Estes palacios são dos marajas, que já tiveram muito poder e dinheiro, mas hoje a situacao não esta tao bem assim. Tanto aqui como em Udaipur, transformaram parte dos seus palacios em hoteis de luxo, para tentar alguma arrecadacao. As milhares de regalias que tinham foram cortadas, e hoje vivem muito mais do estatus. A populacao gosta muito deles, pois construiam muitas obras publicas. São como os reis nos paises de monarquia. Jodpur e muito famosa pelo mercado de rua, perto da torre do relogio, onde se encontra tempeiros e especiarias alem de objetos antigos e de decoracao. E um caos, super empoeirado e muito, mas muito sujo. Imundo seria a descricao mais proxima para as belas ruas da cidade velha de Jodpur.

Forte de Jodpur


Turistas indianos


Por que voces acham que chamam Jodpur de cidade azul?


Outro Maraja, outro palacio...


Fazia tempo que queria levar a Bibi no cinema, e aqui consegui. Dificil foi fazer os indianos entenderem que queriamos ver um filme de Bollywood em Hindi, e não “ Duelo de Titans”, filme americano em ingles. O cinema não era tao tradicional e classico como o que eu tinha ido em Jaipur há 5 anos atras, mas cumpriu o seu papel. Salas grandes, e o filme (Sadiyaan) bem legal. Historia de amor, com direito a intervalo e a dancas estilo clip no meio do filme. Na epoca da separacao de India e Paquistao, uma familia muculmana foge para o Paquistao e acaba, no meio do caos, perdendo seu filho ainda bebe. Ele e encontrado e criado por uma familia hindu, cresce e se apaixona por uma muculmana. As familias não aprovam devido a diferenca de religiao, e entao a familia hindu procura e acha os pais biologicos que vem e acertam o casamento, agora aprovado por terem a mesma religiao…

E dalhe Bollywood!!!

Optamos por cancelar a ida a sagrada Puskar, pois o lago da cidade esta seco, e seguimos mais ao oeste ate Jaisalmer. Jaisalmer e a ultima cidade da India, nos limites do deserto Thar. Depois da cidade, existem algumas vilas, muita areia e se chega a fronteira do Pakistao. Pequena, cheia de ciganos e com um forte espetacular bem no meio, que pode se visto de qualquer canto da cidade. Não e um forte padronizado, ele e recortado, com diferentes construcoes. Muito bonito! Pegamos um hotel com piscina para aliviar o calor, e acabamos encontrando uns amigos portugueses que estao viajando de moto pela India. Organizamos um passeio de camelo, que e bem tradicional por aqui. Como já tinha sido informado do desconforto, andariamos um dia, passariamos a noite no deserto e retornariamos no final da manha seguinte. O pessoal quase se mata para te vender um passeio. E uma guerra entre as agencias, pousadas e tal. O passeio e legal, realmente desconfortavel, mas valeu a pena. O deserto Thar não e tao impressionante. São muitas areas planas, pouquissimas dunas. Claro que com a lentidao dos camelos, e o pouco tempo que escolhemos, não entramos muito deserto a dentro. Tivemos a companhia de um casal ingles, e foi muito divertido. De noite por sorte não ventou, e não acordamos cobertos de areia. Primeira experiencia da Bibi em dormir assim, e vou te falar que ela adorou. Ficom me perguntando onde poderiamos ir em outro deserto e tal… Pena que o ceu não estava completamente limpo, entao a visao das estrelas, apesar de muito bonita, não foi fantastica. Durante a noite viamos muitos avioes de guerra sobrevoando, patrulhando o espaco aereo da India, já que estavamos muito proximos do Paquistao. De volta ao hotel, mais piscina, passeios no forte e descanco do calor infernal. Em visita a um templo Janeista dentro do forte, conheci um senhor muito inteligente que falava muito bem ingles, e aproveitei para tirar muitas duvidas. Os indianos em geral, não gostam de te deixar sem resposta, entao inventam varias coisas. Por isto sempre ‘e bom encontrar uma fonte mais confiavel.

Acho que foi o forte que mais gostei.


O que vcs acham?






Placa na entrada do templo.


Armado tambem nao pode!!

Pegamos um trem para Jaipur, capital do Rajastao, onde passariamos pouco tempo e já seguiriamos para Rishikesh. No trem fomos surpreendidos por uma tempestade de areia, so para nos lembrar que estavamos no deserto. Fiquei batendo papo com um indiano boa parte do tempo. Corremos ate um restaurante numa parada mais longa, para conseguir uma comida um pouco mais gostosa. Ele se interessava bastante sobre o Brasil e eu eproveitava para passar meu questionario. O papo sobre castas foi muito interessante. Segundo ele, as castas praticamente não existem, na India moderna. Numa empresa, a selecao e por qualificacoes, e alguem de uma casta inferior pode ser chefe de um funcionario de casta superior. Claro que a heranca do sistema vai fazer com que isto não seja tao comum. O mesmo acontece na politica. Como a India e uma democracia (alias a maior do mundo), os eleitos nem sempre serao de castas superiores. Na India das cidades menores, ou ate das grandes cidades, mas com pouca influencia ocidental esta historia já e diferente. Mesmo numa familia onde os filhos estudaram na Europa, por exemplo, dificilmente irao aceitar que casem com alguem de uma casta diferente.
Parece algo muito estranho, mas vamos relembrar um pouco de historia (quem conhece mais de castas indianas pode achar que não tem nada a ver, mas acho uma boa explicacao para um leigo). Na Europa antiga, seja ela medieval, Roma ou Grecia, existiam diversas divisoes. Nobresa, Clero, Burgueses, Patricios, Plebeus, Servos, Escravos. Alem de diversas subdivisoes, como duques, conde, padre, bispo, artesao, agricultor e por ai vai… Estas divisoes socialmente eram discriminatorias e desiguais, assim como as castas indianas, mas servem para organizar a sociedade, e querendo ou não, funcionam. A hereditariedade que determina quem e quem, sendo as misturas muito pouco provaveis. Principe que não casa com princesa, não tem direito ao trono. Um habil artesao, mesmo sendo do povo, não vai querer que sua filha case com um agricultor e por ai vai. Não precisa se aprofundar muito em pesquisas para notar que as profissoes tinham a tendencia de se repetir ao passar das geracoes numa mesma familia. Agora imaginem uma sociedade europeia destas com voto popular, grandes empresas e competicao. Claro que não vai funcionar, da mesma forma que as castas indianas estao lentamente ruindo. O rapido desenvolvimento da India so vai acelerar este processo.
Chegamos ainda de madrugada em Jaipur, a cidade rosa. Pegamos um hotel bem simpatico, para um merecido descanso. Cedo já estavamos organizando o onibus para Rishikesh e logo visitando o Jantar Mantar, gigantesco observatorio astrologico, com aparelhos de alta precisao, muito impressionante. Foi muito bom retornar la com a Bibi, já que ela estudou astrologia.

Cidade Rosa


Olha o estilo do jardineiro do observatorio


Passeio, compras e logo estavamos pegando um onibus para Haridwar, de onde iriamos para Rishikesh. O onibus que demoraria 11 horas demorou muito mais, e no final das contas chegamos em Rishkesh quase 24 horas depois de ter saido. As estradas não são das melhores nesta regiao, e a quantidade de gente era impressionante. Faltava 2 dias para Kumbh Mela (depois vou comentar), gigantesco festival que acontece em Haridwar. O onibus nem conseguia entrar na cidade. Nos deixou num terreno afastado, onde as pessoas seguiam a pe, ou lutavam por um transporte. Os motoristas de autorickshaw, tentavam se aproveitar da situacao, e cobravam precos dez, quinze vezes mais caros. Depois de muitas tentativas e discussao, pegamos um rickshaw, mas aqueles de bicicleta mesmo, ate o centro. Multidoes iam a pe, ruas bloqueadas e acampamentos comecavam a aparecer ao lado das ruas. Pegamos um onibus que estava passando, e precisamos de muitas, mas muitas horas para percorrer a pequena distancia ate Rishkesh. Para voces terem uma ideia da velocidade do onibus, e so lembrarem dos congestionamentos de ano novo e carnaval. A estrada estreita sem acostamento não ajudava. Iamos passando por kilometros de acampamentos ao lado da pista, e dava para ter uma ideia da dimencao do festival. Em Rishkesh as coisas não estavam mais faceis. Ruas bloqueadas, extorcao nos transportes, mas conseguimos chegar ate um hotel, depois de muito esforco e ate esbocarmos uma inutil caminhada. Nestas horas para manter o casamento, a viagem e porque não minha propria vida, so uma coisa ajudaria: “Me da o teu melhor quarto!!”



Rumo ao norte!!

Eu e a Pati sembre discutimos (no bom sentido) qual e a India verdadeira. A India tradicional, espiritual, historica, que vem na nossa imaginacao e que tenho mostrado aqui ou a “nova India”, a India rica. Abro o jornal e vejo que uma empresa indiana acaba de comprar a Zain telefonica, se tornando uma das cinco maiores do mundo.. Muitos podem falar, ta e daí?! A Zain e uma compania telefonica com atuacao em mais de 15 paises africanos, muito boa por sinal (dava para passar de pais para pais com o mesmo chip, sempre como se o numero fosse local). A Land Rover e Indiana, assim como a Jaguar. Nao preciso comentar que os salarios de Bollywood sao mais altos que os da Globo, nem que os jogadores de cricket ganham mais que os de futebol no Brasil, ne?! Poderia citar outras empresas, e pesquisando um pouco mostrar numeros astronomicos.

A India ta crescendo muito. Ok, tem muito para crescer, pode se comparar com o crescimento que o Brasil teve nos anos 70, quando tinha muito para crescer tambem (claro que ainda tem, mas era o inicio da caminhada). Mas o Brasil desandou por um bom periodo, teve altas inflacoes e estagnou. A India aparenta ter uma economia solida, planejada, e a sequencia de crescimento pode ser diferente da que tivemos (sera que pelos excelentes economistas indianos que lecionam no mundo todo?). A nova India existe, são milhoes e milhoes de pessoas, mas proporcionalmente a populacao ainda e muito, mas muito pequena.

No Brasil as coisas não são muito diferentes. Qual o percentual da populacao brasileira que tem curso superior? 10%? Tudo bem, esta aumentando com a popularizacao de cursos superiores, mas ainda demora para recuperar. Saneamento? Habitacao? Mortalidade infantil? Corrupcao? Infraestrutura? O BRIC fica todo se achando, as novas economias bambambam. Pensem o tamanho das populacoes de Brasil, Russia, India e China, agora no tamanho da area destes paises. Como paises, estao se tornando nacoes poderosas, pois decisoes politicas internacionais contam como um todo, mas se pensarmos bem, estao muito abaixo do potencial. Peguem estes PIBs e dividam pela populacao para ver o PIB per capta, ou ate mesmo pela area dos paises, criando uma nova forma de avaliacao (os paises do BRIC sao top 10 em area e populacao). Piada!  A India, assim como Brasil, Russia e China ainda tem que comer muito feijao ou chapati, arroz, batata, seja la o que for…

Normalmente temos muito poucos planos, e mesmo assim estao sempre mudando, mas desta vez nos superamos. De Tirunavamalai pegamos um onibus comum ate Bangalore, e so la decidimos para onde iamos. Inicialmente seguiriamos para Mysore, onde tem um magnifico palacio, a Bibi ficou seduzida por historias de uma linda e tranquila praia com cultura indiana, chamada Gokarna, e poderiamos seguir tambem direto para Hampi, destino que passariamos com certeza.

Ao nos aproximarmos de Bangalore, já podiamos ver que se tratava de uma grande cidade. Talvez seja a maior representante da “nova India”. Claro que não tem o glamour de Mumbai, mas ali e onde esta o maior custo de vida do pais, inpulssionado pelos altos salarios dos capacitados profissionais de TI. Meu companheiro de viagem na africa, Guru, contava que muitos dos seus amigos estavam largando seus empregos no Vale do Silicio na California para ganhar salarios superiores em Bangalore, com um custo de vida bem mais baixo que o americano.

Quase que passamos pela nossa parada, já que o onibus não ia ate a rodoviaria. Nos avisaram em cima da hora, pulamos do onibus meio desageitados e pegamos um outro onibus urbano ate a rodoviaria. Para evitar um zigue zague, mais mudancas de lugares e para fugir do calor, resolvemos ir direto para Hampi mesmo. O ultimo onibus já estava para sair, mas era um onibus comum e a viagem seria longa. Optamos por pegar um onibus noturno com camas e passar o dia na cidade. Compramos as passagens, largamos as mochilas e fomos ate um “shopping” ali perto que o pessoal que vendeu a passagem recomendou. Estava mais para galeria de centro, nada a ver com a nova India. Acabamos descobrindo qual era um dos shopping descolado da cidade e fomos la. O grande motivo era ter um lugar com ar condicionado para não ficar no calor infernal que estava la fora, mas acabou tendo a desculpa que estariamos vendo um pouco da outra India…

Mesmas lojas, mesmo padrao, para ser sincero não me atrai muito. Ate tem um ou outro estilo diferente, coisas interessantes para se ver da “cultura pop”, mas fiquei entediado muito rapido. Pelos menos matamos o tempo. Ao pegar o onibus a Bibi cometeu uma grande gafe. Um “piazinho” nos guiava ate onde o onibus estava estacionado, e ela estava encantada com a desenvoltura e firmesa da crianca. Na hora de embarcarmos ela perguntou qual era a idade dele, mostrando com os dedos 5 ou 6 anos. Ele respondeu 22. Ficamos achando que ele não sabia falar ingles direito, que tava tentando falar 12 anos (mesmo parecendo a metade desta idade). O “piazinho” que não era um piazinho e sim um “Cara” que não cresceu, falou irritado que tinha nascido em 88′, so que não tinha crescido. Demoramos um tempo ate acreditar na historia, e o cara saiu bravo…

Chegamos em Hospet pouco antes do inicio da manha, e Hampi fica a um pulo dali. Olhamos umas 3 pousadas ate nos dar conta que os precos e qualidade mudavam muito pouco. A regiao fica no meio de um “bazar” baguncado, com ruas estreitas, pequenas lojas improvisadas, restaurantes e pousadas. A torre do principal templo pode ser vista de toda a regiao. Muitos dos restaurantes estao nos terracos, para proporcionar uma melhor vista.

Bem cedo alugamos uma moto para rodar. Apesar das distancias não serem tao longas, o calor estava muito grande para fazer o percurso de bicicleta. Hampi foi a capital de um imperio que dominou todo o sul da India, e existem incontaveis ruinas desta civilizacao, em diversos estados de conservacao. Alem das obras do homem, a paisagem chama muito a atencao. Uma regiao seca, apesar de algumas “ilhas” verdes de plantacoes de banana e arrozais, com milhares de pedras de diferentes formatos e tamanhos. Muitas destas pedras estao empilhadas, estranhamente equilibradas, como se tivessem sido colocadas desta forma propositalmente. O conjunto da obra do homem e de Deus e realmente espetacular.

Bem no inicio da nossa estadia, fomos num destes restaurantes turisticos pois a Bibi queria mudar o gosto da comida. Resultado, acabou pegando uma infeccao intestinal. Não adianta, restaurante local ta sempre cheio, o giro de pessoas e muito maior, pois obviamente tem mais indianos que turistas, e a comida sempre vai ser mais fresca. Resolvemos esperar passar naturalmente, sem remedio, pois não tinhamos pressa para sair dali. No inicio fiquei cuidando mais dela, pois so podia comer sopa e torradas. Ficou internada no quarto e nas leituras, e com o passar dos dias arriscou umas saidas para ver o por de sol num lugar não muito longe. Sentindo a melhora dela, passei a arriscar passeios mais longos, por mais ruinas, enquanto ela continuava mergulhada nos seus estudos. Com a melhora passamos a gastar horas nos restaurantes a beira do rio, so aproveitando a sombra e agua fresca. Mais passeios pelas interminaveis ruinas, e ate uma volta num “barco cesto”.

Quando se passa bastante tempo num lugar pequeno assim, fica amigo do dono da pousada, pendura a conta no restaurante que vai todo dia, os vendedores nem insistem mais pois sabem que voce não vai comprar, se sente em casa mesmo. Um dia antes da nossa despedida do local, voltando de uma caminhada, descobrimos meio que por acaso um lugar incrivel onde o sol estava se pondo. Na hora certa e no lugar certo!! Foi so deitar na pedra quente e curtir ate a noite cair por completa…

A India e grande, e qualquer viagenzinha demora um bom tempo. Nossa proxima parada, Jalgaon, era a maior distancia que percorreriamos ate agora. Autorickshaw ate Hospet, trem ate Guntakal onde esperariamos por duas horas o trem ate Jalgaon. O compartimento sleeper e simples mas bom por causa da interacao, já que não existem cabines fechadas, mas neste trecho da viagem incomodou um pouco pois praticamente so tinham homens. Linha muito utilizada por pessoas que viajam a trabalho. Nos dois trens estavamos cercados por engenheiros civis, profissao que esta em alta com o grande investimento em infra estrutura no pais. Já se aproximava da metade da tarde e a temperatura so parecia aumentar. A Bibi comparou o vento que vinha da janela do trem como um secador de cabelos, e acreditem, ela não estava exagerando.

Pulamos do trem na rapida parada na estacao de Jalgaon, e já tinham pessoas perguntando se queriamos dividir um carro para os passeios a Ajanta e Ellora, que tambem tinham acabado de chegar e tal. Eram 3 refugiados tibetanos, que moram aqui na India e estavam em perigrinacao para as “cavernas” Budistas da regiao. Eles foram com a gente ate o hotel que escolhemos e acabamos combinando de fazer o passeio, ou parte dele juntos, pois o aluguel de um carro seria praticamente o mesmo preco que as diversas passagens de onibus somadas.

A distancia ate Ajanta não era grande, mas a viagem não e tao rapida assim. O nosso amigo tibetano foi recitando mantras boa parte da viagem, e logo notamos que seria uma experiencia muito interessante. As cavernas de Ajanta foram esculpidas na rocha por monges, que la fizeram seu local de estudos e devocao. Pilares para a sustentacao foram deixados, alem de algumas esculturas e muitas pinturas. Na epoca que era ativa, no chao existia uma fina camada de agua, que funcionava como um espelho natural para iluminar as impressionantes pinturas. Diz a lenda que os monges daqui estudavam magia e eram capazes de coisas incriveis. Levitacao era uma das praticas mais simples…

As fotos de Ajanta desapareceram do cartao de memoria, junto com a maioria das fotos de Ellora. Espero conseguir recuperar!

A cada caverna nossos amigos seguiam o script do ritual tibetano, com gestos, mantras e muita paixao. O lugar que e mais visitado por sua beleza, teve um extra pela devocao não muito comum nem esperada por aqui.

Mais uma esticada ate Ellora, onde pretendiamos ficar e so visitar as cavernas no dia seguinte. De ultima hora acabamos decidindo visitar com os tibetanos e aproveitar a volta ate Jalgaon. Se em Ajanta, fora a construcao das cavernas, eram as pinturas que impressionavam, em Ellora eram as esculturas. As cavernas eram ainda muito mais impressionantes que as de Ajanta. Aqui as cavernas não são so budistas, mas existem janeistas e hinduistas tambem. Algumas partes das rochas foram totalmente esculpidas, deixando de ser cavernas, e passando a ser um templo solido, feito so de uma rocha, sem encaixes. Lembram das igrejas de Lalibela na Etiopia? Mesmo estilo (a cidade de Petra na Jordania tambem e assim). A principal delas e magnifica, inacreditavel como conseguiram esculpir aquela beleza, daquele tamanho, na rocha. Tiraram 250000 metros cubicos de rocha. Para se ter uma base de comparacao, um container que eu exportava carregava 50 metros cubicos de madeira. Seriam o o equivalente a 5000 destes containeres que vcs veem na estrada indo para os portos, tudo feito na mao. Vimos os templos janeistas juntos com os tibetanos, mas depois eles foram direto para os budistas enquanto nos gastamos tempo nos hinduistas.

Pilares esculpidos

Templo inteiro escavado na pedra

Esculturas

No inicio eu e a Bibi ficavamos falando um para o outro, olha isto, olha aquilo, inacreditavel, mas depois de um tempo o silencio nos tomou. Circulavamos de boca aberta, observando cada detalhe. A luz do final de tarde batia de frente e tudo ficou ainda mais bonito. Ate esquecemos de tirar fotos, que com certeza ficaram faltando, mas o momento e que vale, não e?! De qualquer forma a beleza do lugar não caberia numa foto… Terminamos nas cavernas budistas, e mesmo o horario de visitas já tendo terminado nos deixaram ficar mais, pois estavamos com os devotos. Saimos de la já era noite, e alem dos segurancas, so haviam macacos e nos. Muito gostoso das 6 as 7, quando ainda estava claro, e o lugar vazio, todo so para nos.

Na volta para Jalgaon, o tibetano pediu para sua esposa traduzir que tinhamos muita sorte de ter estado ali com eles, que o lugar e incomum e Buda nos traria muita felicidade. Eu apenas sorri, e pensava: sera que e possivel ser mais feliz do que sou? E segui a viagem em silencio, escutando o motorista cantar suas musicas indianas favoritas e o tibetano recitar seus interminaveis mantras no banco de tras…

E depois da Índia?

Não sabemos direito para onde viajar depois da Índia, e um grande problema…haha

Podem nos ajudar?

Final da votacao 29.04!
Todos os destinos (menos voltar para casa!!) ja fizeram parte dos planos (que planos?), mas mudamos de ideia e o destino sera outro. O meu queridinho de quando coloquei a pesquisa era Paquistão e Irã, unanimidade de todos que vão para la…

A Índia é foda!!

A Índia é foda! Poderia iniciar o meu primeiro post na Índia de diversas maneiras diferentes. Poderia falar sobra a rica cultura do Hinduísmo, sobre o sistema de castas, a chegada dos portugueses, o domínio linha dura dos ingleses, sobre Gandi, independência e divisão do subcontinente indiano em Paquistão, Índia e Bangladesh. Poderia falar da “nova Índia” (a Índia rica e descolada), de Bollywood ou da fantástica culinária. Ao invés disto inicio com um “A Índia é foda!”. Foda no bom sentido. Existe um (já batido) ditado que diz que ou você ama a Índia ou odeia. Eu não concordo. Conheço muita gente que amou e depois odiou, odiou e depois amou e tem os que amam e odeiam ao mesmo tempo. O sentimento sobre a Índia e algo muito forte. Eu tive uma rápida passagem pela parte norte do país em 2005, numa viagem combinada com Nepal e Tibet. Amei! Uma vez um grande amigo meu me perguntou para qual pais que eu tinha ido e mais gostaria de voltar. A resposta foi muito rápida e precisa: Índia! Pode-se viajar dois, três, seis meses, ou ate um ano pela Índia e ainda terá muita coisa interessante e diferente para conhecer e vivenciar. Em algum momento você pode ate cansar, mas se não for só ódio, com certeza vai voltar.

Chegamos no novo aeroporto de Cochim, no sul da Índia. Escolhi a chegada pelo sul por uma questão logística, clima tica, mas também por um primeiro contato mais fácil para a Bibi. O sul do pais e bem mais tranquilo e o povo mais simpático e menos insistente. Ainda no aeroporto conhecemos um casal de Suíços com quem pegamos um ônibus ate Fort Cochin, a região histórica da cidade. Ao procurar um lugar para ficar, percebi que o povo do sul não era só um pouco mais tranquilo que o do norte, mas muuuito mais tranquilo. Ficamos numa pequena pousada de dois quartos, onde os Suíços nos acompanharam. Todo o estado de Kerala tem uma forte influencia portuguesa. Em Cochim esta a igreja de São Francisco, a primeira construção europeia na Índia, e também onde o Vasco da Gama ficou enterrado por uns anos, antes de ser levado a Portugal. Dentro da igreja tem ate uma flamula do time de futebol do Eurico Miranda. Tem muuita igreja por aqui, mais que templos Hindus e Mesquitas, pelo menos na região histórica. Existem ate alguns nomes de lojas e restaurantes em português. A maioria dos cristãos indianos estão no sul da índia. Existe também uma sinagoga no bairro judeu, onde eles se estabeleceram a centenas de anos. Muitas lojas e turistas por toda a região. Redes de pesca artesanal chinesas dão todo um clima para o lugar, que e dividido em algumas ilhas/penínsulas.

Igreja de São Francisco

Bairro Judeu

Redes de pesca chinesa

Um dia fomos surpreendidos por uma greve geral devido o aumento dos combustíveis. Tudo parou. Kerala foi o primeiro estado (devido a diversidade de línguas são muito autossuficientes) no mundo a eleger um governo comunista. Não preciso nem falar das heranças que este sistema trouxe, ne?! Educação e saúde de dar inveja a qualquer pais emergente, porem a falta de investimento privado trás muitos atrasos para a região. Nossos novos amigos passaram três meses viajando pelo norte da Índia, antes de irem para o sudeste asiático e voltarem para mais dois meses. Estavam descolados para cá, e isto me ajudou bastante. Eu contava para a Bibi que em 2005 comia até na frente da ferroviária e era bom, mas ela insistia que queria tomar mais cuidado, devido a todas as historias que ouvíamos de infecção intestinal. Aqui tem ate nome: “Delhi Belly”. Dizem que e impossível vir para cá e não ter nada. Sempre tem uma vez, fica imune e tudo em ordem. Parenteses: estou a 11 meses na estrada, comendo de tudo, em muitos lugares com as mãos, e ate agora não tive nenhum problema. A segunda refeição que fizemos aqui foi num restaurante estilo “pé sujo”. A Bibi ficou meio de cara, o lugar era quente e não muito agradável. Depois que terminamos a refeição ela já estava mudando. Foi só mais uma visita a um destes restaurantes para ela admitir que a comida era muito melhor que nos outros. A grande vantagem daqui e que tudo e preparado na hora. Havíamos decidido também que para vivenciar mais a cultura indiana nos tornaríamos vegetarianos e não consumiríamos alcool.

O calor estava grande e todos só falavam que iria aumentar nos próximos meses. Ainda bem que o ônibus que pegamos para Allepey, mais ao sul não tinha vidros nas janelas.

Ônibus preparado para o calor…

A cidade em si não e tao interessante, apesar de ter alguns canais cortando o centro, ainda tem cara de uma vila suja. As primeiras vacas começaram a aparecer nas ruas, alem de cores e muvuca. Esqueçam a arquitetura europeia de alguns casarões de Fort Cochi, ali estava com mais cara de Índia mesmo. Demos umas voltas e pesquisamos sobre os passeios de barco disponíveis para as famosas “Back Watters”. Barco a motor, canoa, ferry e barco casa. Difícil de escolher quando cada um fala das diversas vantagens do produto vende. O barco casa parecia mais interessante, apesar de não passar pelos canais menores e do preço mais elevado. Deixamos algumas opções na manga, e na manha que faríamos o passeio eu e o Inri saímos para fazer uma ultima negociação. No caminho encontramos um cara que ofereceu sua casa barco, cortando os intermediários ficaria muito mais barato. Subimos na moto dele e fomos dar uma olhada. Foi aprovada e logo estávamos lá com nossas bagagens navegando calmamente por Backwatter. Tinham 2 quartos para nos, uma sala com tv e dvd e um terraço. Na tripulação tínhamos nos 4, o capitão, o cozinheiro e um ajudante. Comidas maravilhosas (em grande quantidade, não para passarinho como em Halong Bay), frutas, chá. Aquela vida dura, passando por paisagens fantásticas, pequenas vilas, canais, lagos. O programa foi muito, mas muito acima da expectativa. E olha que era bem recomendado. A noite eu estava dormindo na nossa cabine quando acordo e vejo a Bibi sentada na janela. Me assustei e perguntei o que tinha acontecido. Ela respondeu, sem mudar sua expressão, que tinha um rato gigantesco no nosso banheiro, e que decidira fazer xixi pela janela! Hahaha. Conferi e realmente o dito cujo estava lá. Não dava para abrir a porta para ele não vir para o quarto. Rimos muito da situação no dia seguinte, e ele tinha misteriosamente desaparecido do banheiro. Uma das cenas mais hilarias da viagem com certeza foi acordar e ver a Bibi sentada na janela!!!

House Boat parecido com o nosso, mas este não tem terraço…:)

BackWater

Lago em BW

Não tínhamos muitos planos e ficamos na duvida se já íamos para o estado vizinho de Tamil Nadu ou se passávamos na praia de Varkala. Como continuava um calor de 38 graus, e teríamos que ir para outra cidade para pegar um trem de qualquer forma, decidimos pegar uma praia. Varkala fica um pouco mais para o sul ainda. E cercada de falésias vermelhas e tem um estilo alternativo. Cheia de restaurantes, cafés e lojinhas. Bem turística, com muitos mochileiros, mas como era final de semana tinham locais na praia também. No segundo dia observamos que no canto da praia indianos eram barrados por dois policiais, que ficavam apitando a toda hora. Ali só podiam ficar turistas. O primeiro sentimento e de revolta, mas logo vimos que os indianos ficam tirando fotos das gringas na cara dura, alem de ficar olhando fixamente, quase babando. Para preservar o turismo, e o dinheiro que vem com ele, acharam melhor fazer esta separação. Arranjamos um tiozinho de uma venda para cozinhar para a gente. Eu adoro frutos do mar, e tava pegando mais não comer aqueles camarões gigantes, lulas e peixes do que carne. Mas descobri porque e tao fácil de ser vegetariano aqui. As opções são intermináveis, e os temperos também. Sei que muitos não vão acreditar mas comemos um prato de couveflor (cheio de apetrechos) que estava melhor que muito camarão que eu já comi por ai! Acredite se quiser…

Falesias de Varkala

Devido ao trem lotado acabamos ficando um pouco mais que o planejado inicialmente, e deu para irmos num restaurante italiano para a Bibi matar a vontade dela. Os suíços mudaram os planos deles e resolveram pegar o trem com a gente para Mandurai- Tamil Nadu. Na estacão ferroviária fiquei brincando com uma menininha, e logo a mãe dela puxou papo com a Bibi e pintou a testa dela. Antes de virmos para cá já avisava para a Bibi que o melhor da Índia não esta nos templos, fortes, palácios e sim no dia a dia. A classe sleeper e simples, mas barata e permite esta interação. Dormimos e inacreditavelmente durante a noite esfriou, tivemos ate que nos cobrir. Chegamos bem cedo em Mandurai, cidade grande, suja e movimentada. Por sorte os hotéis ficam perto da estacão de trem, e o templo Sri Meenasshi também. Fizemos duas visitas ao templo, uma de dia quando estava muuuito quente e outra a noite, bem mais tranquila. Como tem que tirar os sapatos, tivemos que andar descalços pelas calcadas que pareciam brasas. Um falso professor, falando de um festival e tal, nos convenceu de irmos com ele e quando vimos estávamos dentro de uma loja. O “velho truque índio”!!!haha Pra quem não ta de calca, as lojas emprestam roupas para você entrar no templo, e depois tentam te vender alguma coisa. Tinham alguns turistas, mas muito mais devotos. Algumas regioes eram restritas a hindus. No fechamento do templo, um pequeno ritual com musica deu um extra para o lugar. Imaginava que o bonito portal estaria iluminado a noite, mas estava mais bonito de dia mesmo.

Mandurai

Aqui os elefantas também dão benção…

E cuidam das vacas melhor do que cuidamos de cachorros no Brasil

Ao contrario de tantos lugares que tivemos “early check in”, aqui você pode ficar no hotel 24 horas, independente da hora que chega. Descobrimos isto quando nos ligaram as 6 da manha para perguntar se ficaríamos mais um dia. Resolvemos partir e nos despedimos de nossos amigos que estavam indo para outra direção, rumo as montanhas. Pegamos um ônibus simples que foi ate Tanjore.

Chegamos naquele calor infernal, e os hotéis apesar de serem uma pechincha, eram de baixa qualidade. Rodamos um pouco ate achar um lugar decente. Nosso almoço foi servido em folhas de bananeira e não em pratos, e cada vez descobríamos mais opções gostosas de comida. O templo daqui Brihadishawara completa mil anos este ano. Não e colorido como o de Mandurai e sim só num tom. O silencio e menor numero de pessoas fez com que esquecêssemos o caos da cidade. No templo principal ficamos aguardando numa fila num corredor escuro. Dois músicos tocavam uma especie de corneta e tambor. Num certo momento paravam, um sino tocava e as cortinas la na frente se abriam, onde homens seguravam candelabros e abençoavam os fieis, que levavam suas mãos a cabeça fazendo sinal de saudação. Ritual muito bonito e interessante. Ficamos largados no gramado deste que e patrimônio da Unesco quando algumas famílias foram se aproximando. Quando vimos estávamos cercados de indianos curiosos. Tentávamos superar a barreira da língua, quando apareceu um cara que falava um bom inglês. O Hindi, língua oficial do pais, só e falado como primeira língua por 20% da população. Aqui neste estado são 70 milhões de pessoas que só falam Tamil.

Tanjore

Em Tanjore tem também um palácio, onde estão diversos museus. Na época áurea da região, foram daqui que saíram muitos dos navios que colonizaram parte da Malásia e Indonésia. Estavamos na duvida se seguíamos para outras cidades com templos, as grandes atraçõe do estado ou se íamos para um Ashram (que já tínhamos cancelado a reserva) ou ainda para o norte. Como a Bibi já esta um pouco cansada de viagens, achamos melhor passar no Ashram, que fica ao lado de uma montanha muito sagrada da Índia (Arunashala, onde o deus Shiva se transformou numa coluna de fogo). O trasporte na Índia é muito bom, vai para qualquer canto, mas o problema que as informações as vezes não são tao boas assim. Uns falavam que tinha ônibus direto, outros que tinha que fazer conexão. Nem qual das rodoviárias deveríamos ir souberam nos indicar. Acabou que pegamos horas de ônibus ate uma cidade onde deveria ter um ônibus até Tiruvanamalai, cidade do ashram, mas não tinha. Mais uma conexão ate outra cidade, onde chegamos só no final da tarde e resolvemos ficar. A paisagem era muito bonita, verde e rural, mas teve uma situação um pouco complicada. Vocês devem saber que as vacas são sagradas aqui, e estão por todos os lados. Eu correndo para pegar o ônibus, chutei uma bosta de vaca. Chutei, não pisei. Isto significa que tinha merda entre meus dedos e entre o chinelo e meu pé! So deu para jogar um pouco da nossa água mineral e limpar com um jornal onde estavam enroladas nossas comidinhas para viagens. Que situação! Na nossa parada, fizemos sucesso na cidade. Trocamos emails com um monte de gente e ficamos conversando um monte. Não devem parar muitos estrangeiros por aqui. Incrível como muitas pessoas não tem a menor ideia de onde e o Brasil. Não tem futebol (aqui o Cricket que e famoso), não lembram do Brasil. Sempre me perguntavam o que tinha de famoso no Brasil.

O campo e de futebol, mas o jogo e de cricket!!

O ultimo ônibus até Tiruvanamalai foi tranquilo. Alem de já estarmos perto engatamos numa conversa com dois irmãos muçulmanos e o tempo passou super rápido. Ela era super simples, não falava quase nada de inglês, mas era muito curiosa. Conversamos sobre muitas diferenças culturais, como casamentos arranjados, religião, o pagamento do dote por parte da família da noiva e por ai vai. Ela me perguntava assustada por que eu deixava minha mulher trabalhar fora. Se eu não queria que ela cozinhasse para mim todos os dias. Ao olhar o braco bronzeado da Bibi perguntou porque ela não adotada as roupas locais, pois aqui o sol era muito forte. O ocidente tem um preconceito muito grande com chadors, sem pensar na funcionalidade delas. Ela sugeriu que ate um Sari indiano ajudaria (não era uma sugestão religiosa, e sim pratica). Não conseguimos ficar no dormitório do ashram, mas arranjamos um lugar ali bem perto. Teoricamente funcionava com doações, mas quando falamos o quanto queríamos pagar, o cara não gostou muito. Aceitou, mas falou para não contarmos para ninguém e tal. Fizemos amizade com um casal Russo/americano que passou pela mesma historia, e estavam pagando menos que a gente. O ashram e do Ramana Maharish, um “santo” hindu que meditou por aqui durante muitos anos ate encontrar suas respostas. A Bibi vai escrever com mais detalhes sobre ele( www.tambemsai.wordpress.com ). Não tinha uma programação muito certa no ashram, como Yoga e meditação. Tinham as atividades diárias, e participava quem queria. Vários estrangeiros e tudo que e tipo de gente. Lugar bonito, nos pés do monte Arunashala, com pavoes e macacos espalhados por todos os lados. Ficamos mais amigos dos Russos de NYC, e passamos um tempo com eles. Muito gente boa eles. Fui ate fazer Ditxa, uma pratica de troca de energia “divina”. Novamente deixarei a Bibi explicar isto, pois poderá falar com muito mais propriedade. Subimos o Monte Arunashala, mas não ate o topo, pois o calor tem começado cedo. Fomos ate uma das cavernas onde o Ramana Maharish meditou. De la tinha uma bela vista da cidade, com um bonito lago de um lado e o grande templo aos pés da montanha. Durante minha estada ali, lembrava da minha avo em muitos momentos, já que e praticante de yoga a uns 45 anos e grande estudiosa de energias e afins (tanta coisa que não saberia nem explicar). Alias, foi em algum verão em Caioba, quando devia ter uns 4 anos que vi yoga pela primeira vez. Eu e a Pati acordávamos correndo quando ouvíamos minha vó fazer as respirações, esticávamos as esteiras e tentávamos imitar. Ao descobrir que teria um festival importante no grande templo da cidade lembrei na hora que ela chamaria de “milagre” (coincidências não ao acaso, não necessariamente um milagre religioso). Fomos no templo ainda de tarde, e não parava de chegar gente.

Devocao

Paineis feitos de sal colorido

Quase na hora

Filas iam se formando, devotos preparavam velas e mosaicos. Saris coloridos por todos os lados, musica, elefante dando benção. Um dos pontos altos foi quando lavavam o touro, transporte do Shiva, com leite. Os fieis iam a loucura. Novamente fizemos muito sucesso, praticamente não conseguíamos ficar sozinhos. Principalmente crianças vinham conversar e cada vez juntava mais gente. Uma super experiencia, mas na saída, com aquele empurra empurra para passar nos estreitos corredores deu aquele receio. Fácil de imaginar aquelas tragedias onde dezenas (ou centenas) de pessoas são pisoteadas. Mas estávamos celebrando o dia em que Shiva dançou no topo do monte Kailash, momento especial, de muita energia segundo eles, e os deuses estavam conosco…