E a capital do Burundi é …?

Pois é, estávamos indo num ótimo minibus, com DVD e tela plana para o Burundi. No ônibus não foi difícil de reparar a gigantesca cicatriz na cabeça do Sr que sentava logo a frente e na mão da mulher algumas poltrona ao lado. As marcas dos sobreviventes são psicológicas e físicas  e nem temos como saber se são de Ruanda ou Burundi, pois ambos os países passaram por imensos problemas de violência.

No Burundi, ao contrario de Ruanda, os Hutus não conseguiram assumir o poder apos a independência  mesmo ganhando as eleições  O exercito era formado praticamente por Tutsis, e depois do genocídio selecionado de 1972 ficou totalmente formado por Tutsis. Listar todos os golpes de estado seria perda de tempo, pois foi um atras do outro. A guerra só terminou em 2004/2005, quando as Nações Unidas mandaram tropas para garantir as eleições  Com as eleições realizadas, e a vontade da maioria expressa, os Hutus tomaram o poder. Alguns rebeldes ainda tentaram fazer oposição, mas a guerra civil estava com seus dias contados.

Viajar para o Burundi e uma coisa nova, pois ha muito tempo não e um lugar seguro. Confesso que gosto de viajar para lugares inusitados, mesmo que não exista uma atracão do tipo ” tem que ver”. Só de estar num lugar destes, entender o que se passou ja e mais do que suficiente para mim. Para reforçar minha vontade, esta rota por Burundi era a melhor opção logística, com as melhores estradas, tendo em vista que as estradas do noroeste da Tanzânia são péssimas, e a viagem ate Kigoma demoraria dias.

Bienvenue au Burundi!

Bienvenue au Burundi!

Na imigração foi tudo rápido.  Não tínhamos comprado o visto com antecedência  e no pequeno escritório da imigração estavam sem recibo. Como resolver esta situação.  Pegaram uma folha de papel sulfite, escreveram a mão mesmo, em seguida carimbaram, uma carta para a imigração em Bujumbura. Ah sim, Bujumbura e a capital do Burundi, o que fui descobrir apenas algumas semanas antes de vir para a Africa, isto que eu gosto de um mapa. Quando comentei com o Piter/Varesca, casal sul-africano que viajei, que o Burundi estaria no meu ” caminho” se desse uma volta no Lesta da Africa, falaram que eu estaria morto se passasse por la. Quanta falta de informação…

Carta para a imigracao

Carta para a

imigração. Após a fronteira a paisagem foi mudando. Muitas áreas queimadas, por diversos KM, e inacreditavelmente planas. Em pouco tempo voltamos as colinas, e passamos a descer, descer. As vilas eram paupérrimas, o que contrastava com o bom asfalto que percorríamos  Com o tempo apareceram alguns buracos, mas nada demais. O que chamou a atenção foi a quantidade de bananeiras. Era uma do lado da outra, o verdadeiro pais das bananas. Muitos cachos gigantescos na cabeça das pessoas que perambulavam pelas ruas das pequenas vilas que paramos no caminho. A medida que fomos descendo, e nos aproximando do Lago Tanganika, a temperatura foi aumentando, aumentando, ate ficar muito quente. A Bibi ficou de papo com uma guria que tava sentado no bando da frente. Eu também troquei e-mails com um Sr que e técnico Agro-florestal…

Chegando em Bujumbura foi aquele choque, pois vinhamos da bonita Kigali, se bem que esperávamos depois de tantos anos de guerra. O Samson, nosso anfitrião do Couchsurfing estava nos esperando. Muito gente boa, comunicativo, nos levou para almoçar e depois da ciesta (levada a serio aqui) passamos rapidamente na imigração onde em 2 minutos conseguimos o visto de transito, somente 3 dias. Tudo bem, não iriamos explorar o pais, só passar um tempo na capital e seguir para Tanzânia – Kigoma.

Bujumbura

Bujumbura

O cara tinha tudo programado, super anfitrião  mas com o tempo incomoda um pouco. Como viajamos de forma independente, não e fácil se prender a programas, horários e tal, parece quase um tour. Mas valeu pelo contato de uma pessoa local.

Como o Samson tinha acabado de se mudar, sua casa não tinha nem banheiro, então ofereceu para ficarmos na casa do irmão dele, soldado das Nações Unidas. Homem, 25 anos, morando sozinho já viu… Era uma casa super simples, num subúrbio  lugar que no Brasil chamaríamos de favela. Poucos metros antes da casa tinha uma barraca do exercito, onde soldados garantiam a segurança do local. Uma arvore na frente da avenida que vinha do centro chamava a atenção pela quantidade de morcegos gigantes pendurados. Casa simplérrima  e meio sujinha, e a Bibi já torceu o nariz. Não dava para falar que não íamos ficar, pois ele tava sendo super gente boa. Teríamos um quarto só para nos, relativamente grande e com internet.

Morcegos

Morcegos

Fomos até um subúrbio mais afastado, onde o Samson construía sua casa. Era quase no limite com a região rural, área de predominância Hutu, e portanto muito afetada nos anos de guerra. Muitas casas em ruínas apresentavam diversos buracos de bala. Mais barracas do exercito para garantir a segurança  Depois de conhecer a esposa e os filhos, fomos para um barzinho ali perto junto com alguns amigos. No canto do bar tinha um bode pendurado com uma churrasqueira ao lado. Se pedisse o espetinho, o churrasqueiro abanava as moscas, cortava a carne, espetava, assava e servia. Tomamos umas cervejas, mas estavam quente. Andamos um bom caminho de volta (ate pegarmos o transporte), pelas ruas sem iluminação da região.  A população se surpreendia em ver os Muzungos andando por ali. Alem de estarmos com os locais, o Samson conhece todo mundo, parece vereador. Cumprimentava os soldados e policiais que encontrávamos  além de metade da população  Ele e muito conhecido pois trabalha com projetos sociais e vive só de doações da comunidade. No período de guerra, existia o toque de recolher, e depois que escurecia as ruas ficavam vazias. Com o fim da guerra em 2004/2005 foram estendendo o horário ate chegar a meia-noite. Hoje teoricamente não existe mais toque de recolher, mas como o transporte publico para cedo, existe um toque de recolher teórico  pelo menos para quem não tem transporte próprio  Para os que tem, Bujumbura possui uma grande seleção de lugares para sair, que variam desde simples bares ate danceterias e restaurantes. São os resquícios de uma geração que achou que ia morrer e agora quer curtir ate a morte…

Buracos de bala

Buracos de bala

Barracas do exercito para garantir a seguranca

Barracas do exercito para garantir a segurança

Chegando na casa vimos que não ficaríamos mais no quarto grande e sim num minusculo. A Bibi demorou para dormir, e ficamos parcialmente protegidos pela tela mosquiteira e pelo ventilador. Fazia muuito calor e os mosquitos estava por todo lado. A certa altura da madrugada, acordamos com uma mulher, nossa vizinha, chorando. Não demorou muito e a energia acabou, nos deixando cozinhando ali dentro. Um maldito mosquito entrou dentro da tela e nos azucrinou. Eu com a lanterna tentando matar, abrindo a porta para ventilar e tentando acalmar a Bibi que ja chorava nestas alturas. Final das contas deu tudo certo. Dia seguinte arrumamos todas as coisas e abri a porta p/ arejar a casa quando o galo entrou e deu um trabalhão para tocar o maldito para fora. Quando o Samson chegou falei que nos mudaríamos porque a Bibi estava naqueles dias, precisava tomar vários banhos, e não se sentia muito a vontade. Tudo tranquilo. Fomos para a cidade, demos uma geral caminhando e depois fomos para a casa do Samson onde sua esposa nos esperava com um belo almoço.  Depois do almoço pegamos as coisas e não demoramos muito para achar um hotel. Encontramos com a amiga da Bibi do ônibus  um Polonês que ficaria na casa do Samson (tínhamos encontrado ele em Nyamata-Ruanda), e junto com o Samson fomos até uma praia do lago Tanganika.

Almoco

Almoço

Amigos

Amigos

Praia no Tanganika

Praia no Tanganika

Lago Tanganika

Lago Tanganika

O Lago Tanganika e o segundo maior da Africa, ficando atras somente do Lago Victoria. Este lago também e o segundo mais profundo do mundo, chegando a ter inacreditáveis 1400 metros de profundidade!!! Chegamos de DalaDala e o tempo não tava muito bom. Sentamos na beira da praia para tomar uma cerveja. Era uma praia estruturada, não com o aspecto selvagem como as do Malawi, mas era bonita também  Ventava tanto que tinha ate pequenas ondas.Ficamos batendo papo, tipo clube do bolinha, mulheres para um lado, homens do outro. O polonês esta fazendo a viagem inversa da minha. Veio do norte (desde o Egito) indo para o sul, então tínhamos muitas dicas e informações para trocar. Tiramos umas fotos e de repente apareceu um pia com uma câmera pedindo se ele podia tirar fotos. Não fui eu que falei com ele, ate achei que era conhecido. Tiramos algumas fotos e este pia tirou uma impressora HP da sua velha mochila, colocou o cartão de memoria e imprimiu rapidamente as fotos!!! Haha eu chorava de rir tamanho era meu espanto.

Impressora HP na praia

Impressora HP na praia

Voltamos para o hotel e a Bibi tinha convidado as 2 amigas para jantar. Só não sabíamos que aqui quem convida e quem paga. Gentilmente pedimos desculpas pelo mal entendido e explicamos que não tínhamos entendido. Acabamos indo jantar só eu e a Bibi. Aqui, assim como na Ruanda, não da para sacar dinheiro em caixas automáticos  então tem que ter uns dólares para trocar nas milhares casas de cambio. Como era noite, pegamos um táxi para o restaurante, mesmo sendo poucas quadras. Conversando com o gerente do restaurante, ele fez questão de na volta nos acompanhar a pé para mostrar o quanto Bujumbura era segura a noite.

Paz!!!

Paz!!!

No Burundi, assim como na Uganda e na Ruanda, esta uma das nascentes do Rio Nilo. Não muito impressionante, mas talvez a mais longa. Existe também a discussão se foi aqui ou na Tanzânia que a expedição do Stanley encontrou o Dr Livingstone, missionário desaparecido a muitos anos (talvez o maior explorador da Africa, depois comentarei mais sobre ele).

Bem cedo, antes do sol nascer, estávamos pegando uma van para a Tanzânia  A Bibi me questionava se não tinha ônibus  mas o pior e que não tinha. Encontramos 2 estudantes de medicina irlandeses, que também viajariam para Kigoma-Tanzânia. Os irlandeses e o polonês foram os únicos brancos que vimos em todo o Burundi, mesmo na rua.

Para fechar o porta malas o cobrador dava uns chutes. Foi bem cheia a van, mas dentro do limite de pessoas. A saída ao sul me chamou atenção  Ao invés de bananeiras como na entrada do pais, passamos por diversas cruzes, num cemitério improvisado. Passamos por muitas barreiras do exercito, que nos paravam, conferiam todos os itens de segurança  inclusive limpador de para-brisas e pisca, antes de nos liberar. Se nos outros países nos acostumamos com AK-47, aqui eram aquelas surpreendentes metralhadoras com tripe que estavam por todos os lados. A estrada foi piorando, quando bem para o sul passamos por dois resorts, no meio do nada. Fácil de entender pela beleza do lugar, difícil de entender quando e porque foi construído ali.

Olha a cor da agua

Já perto da fronteira as curvas começaram  assim como o sobe desce. O asfalto terminou, e numa pequena vila paramos para fazer a imigração  numa casa que mais parecia residencial. Um sr me chamou tirando sarro para ir comer com eles. Comiam Ugali (polenta deles) e peixes muito pequenos (uns 2 cm) com cebola. Agradeci, sentei e comi junto com eles, amassando o ugali com a mão  assim como eles fazem. Eles riram da cena e nos divertimos muito.

Andamos mais um pouco ate a imigração da Tanzânia  O processo foi meio lento e tivemos que comprar outros vistos, o que não estava correto de acordo com o tratado da comunidade do Leste da Africa. Uma outra van, caindo aos pedaços  nos esperava a não muitos metros dali. Todos os passageiros que estavam na outra van, alem de outros estavam la. Estava apertado, eu com duas mochilas no colo que serviram de encosto para a Bibi, porque o banco dela tava sem encosto. Cachos de banana, galinha e caixa com pintinhos também faziam parte da carga. O cobrador não conseguiu fechar a porta, então fechou por fora e se lançou pela janela, onde ficou com o corpo totalmente para fora durante as horas que seguiram pela empoeirada estrada. Varias vezes coloquei empoeirada estrada nos meus posts, mas esta ganhava de todas, e de lavada… Sabe aquela terra roxa do norte do Parana? Então  aquele estilo. A poeira entrava pelas janelas, frestas, buracos. A estrada era terrível  e todos se mantinham de olhos fechados ou com lenços na cabeça. A Bibi ria sem parar, mostrando que desenvolveu um ótimo senso de humor desde o inicio da viagem.

Conforto?!

Conforto?!

Depois de algumas horas, a poucos Km de Kigoma, a Van para. Passam a descarregar toda a mercadoria que estava abarrotada no teto. Haviam ate parado para comprar uma corda para amarrar tudo, mas agora tava tudo no chão  Ofereceram o equivalente a uns 30 centavos de real para 2 passageiros seguirem a pé  Eles prontamente aceitaram e seus lugares foram preenchidos com as mochilas e mercadorias. Nem 500 metros depois fomos parados pela policia, que conferiu se tava tudo em ordem. Logo chegamos em Kigoma, e parecia que estávamos fantasiados.

NUNCA MAIS!?!

Never again, o  “nunca mais” já foi dito muitas vezes. A cada catástrofe, cada desgraça é dito novamente. Quando poderemos dar um basta em tantas situações que poderiam ser evitadas e que depois ficamos lamentando? Não quero fazer um texto político, pois sei que vai ficar chato, mas seria interessante refletirmos.

Construção do genocídio na Ruanda:

  • 1894 – Alemães chegam a região Urundi-Ruanda. Houve uma resistência inicial a colonização, mas sem muito sucesso.
  • 1923 – Belgas assumem o território, apos o fracasso alemão na primeira guerra.
  • 1932 – Belgas classificaram o povo em Tutsis, Hutus e Twa (pigmeus). Qualquer família que tivesse mais de 10 vacas era considerada Tutsi, independente da origem. Virou uma divisão social, mas ate os Twa que protegeram uma rainha Tutsi receberam o titulo de Tutsi. Identificacao feita na carteira de identidade.
  • 1950 – Os Tutsis ja comandavam a região, com os seus ” reis” Mwani.  Passam a ser ainda mais favorecidos (educação, cargos…), em troca de  lealdade aos belgas.
  • Hutus eram 85%, Tutsis 14% e Twa 1% da População. Originavam de tribos que vieram da Etiópia e Sudão, dentre outras regiões. Os hutus já eram o “povo” antes da chegada dos belgas, mas existiam casamentos entre as diferentes “raças”, viviam tranquilamente por centenas de anos.
  • A Igreja apoiava a discriminação, pregando que os Tutsis eram superiores.
  • 1956- Tutsis tentam a Independência, belgas passam a apoiar os Hutus.
  • 1959 – Morre o Mwani (rei Tutsi).
  • 1959-1973- Quase 1milhao de Tutsis vao para o exilio em paises vizinhos.
  • 1962 – Independência forma 2 países, Ruanda, agora comandada por Hutus e Burundi, comandada por Tutsis (que perderam eleições, mas continuaram no poder a forca). Hutus crian cotas para Tutsis.
  • 1972 – Hutus tentam um golpe de estado no Burundi, matam cerca de 1000 Tutsis. Em represália mais de 300.000 Hutus são mortos, num genocídio selecionado. Matam Hutus com educacao, influentes, com bons cargos. Tentam “popularizar” os Hutus novamente.
  • 1973 – Habyarimana derruba o presidente Kayibana na Ruanda, e tenta melhorar o problema dos conflitos.
  • 1986 – Musevini assume o poder na Uganda. Para ganhar a guerra, utiliza muitos refugiados de Ruanda que estavam exilados em Uganda. Paul Kagame (atual presidente da Ruanda) era seu braço direito.
  • 1990 – Ruanda Patriotic Front, Rebeldes Tutsis que viviam no exílio, invadem Ruanda. O exercito de Ruanda recebe o apoio de tropas internacionais, contando com exercito da Franca, Belgica e Congo.
  • Inicialmente milhares de Tutsis e Hutus que colaboraram com a invasão foram massacrados. Muitos presos em estadios de futebol superlotados, sem comida nem agua. Mais Tutsis se refugiam nos países vizinhos. Inicia uma serie de matanças de Tutsis em pequenas cidades.
  • Ministro da Defesa de Ruanda (Coronel Bagarosa) ajuda a treinar a Milícia Interhamwe, forma não oficial de matar os Tutsis. Exercito francês também apoia.
  • 1991- RPF invade novamente a Ruanda, desta vez mais armados e treinados (com o apoio de Uganda). Vão conquistando territórios no norte do pais, ate que em 1993 já estão próximos de Kigali. Os massacres esporadicos contra Tutsis em outras regioes se tornam mais frequentes.
  • 1993- Criam a convencao em Arusha-Tanzania para um cessar-fogo.
  • 1994 – Presidente Habyariama volta da convenção de Arusha junto com  presidente Cypriem do Burundi. Ele discutia uma divisao de poder, mas parecia que conseguira menos que o esperado. Seu aviao estava para aterrisar quando foi derrubado por um missil. Dizem que foram Hutus extremistas, que já estavam com o genocídio planejado, mas muitos Hutus tem explicações claras de porque foram os Tutsis que derrubaram. Ninguem nunca vai saber.
  • Inicia o genocidio. Listas de todos os Tutsis já estavam feitas. Ruas sao bloqueadas e a matanca inicia. A populacao em geral tambem participa. Quem não participa e acusado de traição e e morto também.
  • Facoes, martelos e porretes com pregos foram armas muito utilizadas.
  • Na Igreja em Nyamata, 6 mil pessoas estavam dentro da Igreja, e mais de 4 mil fora. Elas buscaram abrigo la pois em 1992 muitas tinham se salvado la. Algumas pessoas morreram esmagadas quando o tumulto estava acontecendo do lado de fora. Alguns homens se posicionaram na entrada da igreja, para proteger as outras pessoas. O sucesso durou pouco, pois granadas foram lancadas. Todas as marcas dos estilhaços podem ser vistas no chão, paredes, portão e toldo da igreja ate hoje.
  • Historias como as de Nyamata aconteceram as dezenas, por todo o pais. Em alguns locais os próprios padres/pastores colaboraram na execução de seus fieis, ou ate mesmo, executaram.
  • Não adiantava só matar, tinha que ser cruel.
  • Cortavam os tendões para que não pudessem fugir.
  • Homens com Aids estupravam mulheres.
  • Cortavam a barriga de mulheres gravidas para matar as crianças na frente da mãe.
  • Maridos eram obrigados a  matar suas mulheres antes de serem mortos.
  • Mulheres eram obrigadas a matar suas crianças antes de serem mortas.
  • Crianças eram forcadas a participar dos massacres.
  • Vizinhos matavam vizinhos, amigos de anos.
  • No interior era pior, pois todos se conheciam, e sabiam quem deveria morrer.
  • Dados do governo atual (RPF) dizem que 90% dos Hutus participaram do genocídio, 5% ficaram neutros e 5% ajudaram os Tutsis.
  • Pessoas da ONU tentaram avisar o que estava por vir, mas nada foi feito. As pequenas tropas designadas para salvar os estrangeiros ja seriam suficientes para evitar o genocídio, se tivessem outro foco.
  • Na hora de escolher se salvavam os estrangeiros (independente da nacionalidade) ou os Tutsis, não exitaram em deixar os Tutsis para trás.
  • 1994 – 3 meses depois a guerrilha RPF toma Kigali e conquista mais territórios, fazendo com que o exercito e a milicia fujam para o Congo
  • Nos próximos anos os Hutus se tornaram os refugiados. As milicias afirmavam que quem voltasse seria morto por um teorico sentimento de revanche.
  • Interhamwe, milicia hutus,  faziam ataques a partir da fronteira.
  • 1996 – RPF invade as fronteiras do Congo para guerrear com a Milicia. Muitos Hutus que não tinham nada a ver com a milicia retornam ao pais.
  • Muitos responsáveis são julgados, mas alguns conseguem asilo em outros países (alguns presos mais tarde).
  • Os tribunais não dão conta de tantos julgamentos. Reativam as Gacaca, forma tribal de julgar problemas pequenos (tipo tribunal de pequenas causas). Ate hoje são realizadas as Gacaca todas as quinta-feiras de manhã. Se o acusado assumir e contar o que foi feito, pega a pena de trabalho comunitario, devidamente vestido com um macacao rosa. Se não assumir, pode pegar pena de prisão perpetua.
  • So assim algumas familias podem “enterrar” seus parentes.
  • Muitas famílias foram separadas. Milhares de órfãos.  Muitas famílias morreram por inteiro, sem ficar ninguém para contar a historia…
6000 pessoas neste espaco, aguardand para serem mortas...

6000 pessoas neste espaco, aguardando para serem mortas. Sobraram as roupas…

Nunca mais?

E ossos…

Genocidio

Nunca mais?

Igreja Nyamata

Igreja Nyamata

Tudo bem, tudo acabou, Ruanda esta se reconstruindo, apesar de marcada eternamente.

Foi uma caso isolado? Não acontece nada igual em outros lugares?

Do mesmo jeito que Ruanda era um pequeno pais sem muita importãncia para a comunidade internacional, Dafur/Sudão e só um deserto, correto?!

Haiti, ha, aquele país pequenino. Nigeria, Mali, Libano, Palestina, Chad, Africa central, Costa do Marfin, Congo…

Somalia? Nao deve ter mais jeito, certo?! Iraque e Afeganistão, estes sim são “perigosos” para o Ocidente!! Lá é importante tomarmos uma ação rápida!

Ta bom, guerras são uma realidade muito distante para os brasileiros, mas duvido que ninguém se comovesse ao saber sobre qualquer um destes casos. Se comoveriam, da mesma forma que se comovem ao ver no Jornal Nacional o caso da menina Isabela, brutalmente assassinada pelo pai. Todos pedem justiça e fecham os olhos pelas centenas de outras crianças que são violentadas, mortas também brutalmente pelos seus pais. Qual a diferença? Um esta na televisão, milhares não.

E nos, fazemos o que? Só lamentamos?

Cranios furados co martelada

Cranios furados com martelada

Les Milles Colines

Na imigração de Ruanda conhecemos 2 casais da África do sul que estavam indo sentido Uganda e trocamos algumas dicas de viagem. O oficial da Ruanda me questionou sobre  eu ter alguma carta convite, para que ele pudesse emitir o visto. Já sabia que eles perguntavam isto as vezes, pois outros viajantes tinham me alertado, e prontamente respondi que tinha passado no consulado em Kampala e que me falaram que para brasileiros não precisava (nem tinha passado). O visto saiu rapidinho… Pegamos uma van até Ruhengeri, cidade que fica próxima da entrada do Parc des Vulcans (assistam o filme   ” Gorilas in the Mist”). A chegada em Ruanda foi um choque. Depois de tantas estradas esburacadas, um asfalto que parecia um tapete. Ha, aqui eles dirigem como no Brasil, não na mão inglesa como em todos os países da África que passei até agora. O estranho e que tem carros com a direção do lado direito e outros do lado esquerdo. A passagem custava 400, mas o cobrador tentou me vender por 1000 pra ver se eu comprava…

Depois deste simples Daladala (van) nos surpreendemos com o mini ônibus que nos levaria ate Gisenyi. Um ônibus limpo, novo, até com filmes de DVD numa tela plana que descia  do teto. Viajamos primeiro lateral a aquelas montanhas e vulcos e depois passamos a contornar as milhares de colinas da Ruanda. Que paisagem fantástica!!! Triste era ver que em todas as cidades, por menores que fossem, tinham placas sobre os memoriais do genocídio (comentarei em outro post). A chegada em Gisenyi foi linda, vinhamos descendo ate visualizar o lago Kivu. Gisenyi e a cidade balneário de Ruanda, onde os ruandeses ricos passam suas ferias. Existem alguns grandes hotéis, alem de outros menores e descolados. Descemos na parada final do ônibus e caminhamos algumas quadras ate o lago para se localizar. Na parte alta da cidade fica a muvuca, mercados, bagunça e perto do lago os hotéis e casarões coloniais. Decidimos pegar umas motos para ir 7 km ao sul, onde estava o hotel indicado pelos sul-africanos que encontramos na fronteira. Para chegar la, contornamos montanhas com uma vista super bonita, e passamos por barreiras do exercito. Hotel bacana, de frente para o lago, numa parte mais recortada do lago. Chales que lembravam os Bungalows que sempre ficamos na Praia do Rosa (lado esquerdo da entrada da Verde Rosa). Curtimos uma praia, e o lugar. Tinham umas pedras onde vimos o por de sol, e ao virarmos para voltar, vimos a lua cheia saindo de trás das colinas. Parecia encomendado.

Cafe no lago Kivu

Cafe no lago Kivu

Lua no Lago kivu

Lua no Lago kivu

Praia 1

Praia

Dia seguinte tomamos um cafe no florido jardim e saímos com bagagens de volta para a cidade. Não tinha vaga para mais dias e o preco era bem salgado. Alias, Ruanda e mais estruturada, mas bem mais cara que seus vizinhos próximos. Não achávamos transporte para a cidade e acabamos dividindo um táxi com um casal de belgas. Nos mudamos para o albergue da igreja presbiteriana, onde tem quartos para casal, com banheiro limpo, além de restaurante. Engatamos num papo com os Belgas e decidimos almoçar juntos. Ele cuida da cinemateca de Bruxelas e ela e professora. Ele conhecia muitos filmes brasileiros e já bateu um papo com o Walter Salles. Andávamos pelas ruas quando fomos parados por soldados. Perguntaram onde íamos, pois o presidente estava no hotel ali ao lado. Achamos um bom restaurante com uma super vista para o lago, onde comemos bem e tomamos uma deliciosa cerveja local (herança da colonização Belga). O casal voltou para o hotel que estavam e nos passeamos pela larga avenida com palmeiras na beira do lago.

Praia Gysenyi

Praia Gysenyi

Gostamos do lugar e resolvemos ficar um dia a mais (sempre acontece isto). Como não estávamos prevendo ficar mais um dia, e era sexta, claro que já tava tudo reservado. Arrumamos as coisas e mudamos para outra pousada. Uma pena, pois foi uma delicia acordar com o coral da Igreja. Na nova pousada os quartos eram ao redor de um jardim/restaurante, aparentemente ok, mas o banheiro era ruinzinho…

Passeamos mais pela cidade, que na verdade achávamos que era um pouco maior. Andamos ate a fronteira com o Congo e só não fomos ate o outro lado pelos altos custos dos vistos e falta de tempo. Caminhões do exercito passavam por nos toda hora, assim como bonitas caminhonetes de estrangeiros que trabalham no país. Fomos até o principal hotel da cidade, onde sentamos para tomar uma cerveja e curtir uma praia. Este hotel foi utilizado pelo governo interino de Ruanda durante o genocídio, estrategicamente escolhido devido a fronteira com o Congo.

Congo, logo ali..

Congo, logo ali..

O bom da Ruanda e que fora as estradas serem muito boas, as distancias são sempre pequenas. O pais e muito pequeno. Pegamos outro excelente ônibus sentido Kigali. Viagem passou rápido, e nem consegui prestar atenção no filme devido a paisagem que tinha do outro lado da janela. Chegando em Kigali nos surpreendemos novamente. Que cidade bacana, foi a melhor  primeira impressão de todas as capitais que passamos. Saímos a pé para ir ate o hotel indicado, e ao pedir informação para um tanzaniano na rua, ganhamos uma companhia, pois ele também buscava outro hotel. Achamos nosso hotel, bom, com internet liberada e tudo, mas meio carinho. Largamos as coisas e saímos para conhecer a cidade. Passamos pelo centrão, e por um shopping, onde a Bibi matou a vontade de comer pizza. Fomos ate o hotel Les mile collines, onde se passou a historia do ” Hotel Ruanda”. Alias, tenho citado alguns filmes, acho que vou criar um poste só com eles. Difícil imaginar toda aquela desgraça acontecendo aqui.  Claro que o pior aconteceu nas pequenas cidades e vilas da região rural, mas em Kigali o massacre foi grande. A diferença e que aqui a identificação dos Tutsis era mais difícil, enquanto nos povoados menores todos sabem quem e quem.

Kigali

Kigali

No dia seguinte fomos no memorial do genocídio de Kigali. Super estruturado, moderno, com áudio visual e muitas informações. Mostra toda a historia de Ruanda ate o genocídio e a recuperação do pais. Te faz passar mal todas aquelas informações detalhadas sobre a crueldade que tudo foi executado. Existe um andar dedicado a outros genocídios que aconteceram no mundo, alem de salas com fotografias de vitimas de Ruanda. Como o atual presidente (Paul Kagame) era líder da guerrilha Tutsi que tomou o poder depois do genocídio, achei os textos um pouco tendenciosos. Uma pena para quem vai lá sem ter informações mais profundas sobre o assunto, pois fica tendo uma ótica unilateral. Apesar de informações tendenciosas no memorial, o presidente tem feito um excelente trabalho. E um cara radical, totalmente conta a corrupção, e tem construído uma Ruanda para todos, independente de se Tutsi, Hutu ou Twas. Lemos tudo, linha por linha, sem pular nem uma das informações disponíveis. No mesmo local estão enterrados milhares de vitimas deste genocídio. Andamos de volta para a cidade (tínhamos ido de moto) e rodamos mais um pouco, antes de voltar para o albergue da Igreja católica, para onde havíamos nos mudado pela manhã. Tinha todas as vantagens dos albergues de igrejas, mas com o defeito que no tem banheiro no quarto (hi, quebrei um dos acordos com a Bibi!!).

Memorial

Memorial

Não comentei, mas aqui alem da língua local, se fala francês, devido a colonização belga. Foi divertido a comunicação. Em 2006 trabalhei com engenheiros franceses para desenvolver um produto, fiz algumas aulas particulares na Aliança, pois depois quase fui morara na Franca. Vi que não adiantou quase nada, pois o pouco que sabia, esqueci. Mas me comunicava, e era ate divertido. Eles falam um pouco de Kiswahili também, portanto fazia uma mistureba das línguas e dava tudo certo!!

Num outro dia fomos ate Nyamata, onde aconteceu um massacre terrível em uma igreja. Pra chegar la só de daladala, daqueles podrões. Tava até com saudades! Viagem curta e depois de uma pequena caminhada por esta região rural chegamos ao Memorial. Milhares de pessoas estavam se abrigando dentro da igreja e outras milhares fora, quando foram brutalmente assassinadas (contarei mais detalhes num post especifico). As roupas continuam jogadas dentro da igreja e existem porões onde milhares de ossos estão expostos. Parece macabro, mas talvez seja uma forma de alertar o mundo para que genocídios como estes não aconteçam mais. Contratamos um guia, que estava presente no genocídio, e perdeu muitos familiares. Inacreditável que enquanto comemorávamos as vitorias da Copa de 94 tudo isto acontecia aqui.

Deu um desespero quando ao pedir informação sobre o ônibus para voltar ate Kigali era só as 8:30. Na verdade foi uma pequena confusão. Nas vilas do leste da Africa usam o Kiwahili time, que e dividido entre dia e noite, sempre começando as 6. Oito e meia da manha são 14:30 para nós. Então voltamos para Kigali e fomos encontrar um Ruandês que e membro do Couchsurfing. Saímos para tomar uma cerveja e conversar sobre todas as questões do país, desde o genocídio ate o dia de hoje. O cara fala espanhol fluentemente, além de outras 7 línguas. Aprendeu sempre sozinho. Pinta faixas para levantar dinheiro para comprar material para pintar quadros, sua grande paixão. Nos passou informações importantíssimas sobre tudo o que aconteceu por aqui. Kigali e considerada a capital mais segura da Africa, e apesar de ser noite, caminhamos tranquilamente até o albergue da igreja. A Bibi adorou a experiencia de encontrar alguém do couchsurfing. Quando fazemos uma amizade por acaso e bem mais espontâneo, por outro lado assim temos uma liberdade maior de perguntar o que quiser, pois sabemos que a pessoa esta aberta a responder.

Recebemos um convite para ficar na casa de uma pessoa no Burundi, e no dia seguinte pegamos outro ótimo ônibus para lá.

Montanhas, Lagos e Vulcões!!!

O ônibus para Kabale não era ruim para os padrões da África. Era alto, com três poltronas de um lado, duas do outro e sem banheiro (é claro!). Pouco antes de sairmos, um passageiro se levantou e pediu que todos orassem para que Deus iluminasse aquela viagem (a maioria do pais e crista). Nunca imaginamos o quanto aquele ato seria tao importante. Defenitivamente aquele passageiro ja tinha feito aquele trajeto. Entendemos também porque tantas pessoas recomendavam o lento ônibus do correio. O motorista seguiu a toda. No inicio a estrada estava ate boa, e nao dava para perceber tanto. Logo chegamos a partes onde estava em manutencao, e a poeira levantou. A Bibi que estava na janela sentiu bem mais. Eu dormi mas não demorei muito para acordar com o ônibus desviando de buracos e fazendo curvas em “alta” velocidade (para a condição da estrada era rápido, fisicamente falando não era). Pouco antes de amanhecer, muitas pessoas desceram, e ficamos com três poltronas para nos dois. A Bibi finalmente dormiu, e a paisagem desta região montanhosa foi ficando cada vez mais deslumbrante. A medida que íamos subindo as montanhas, o frio ia aumentando proporcionalmente a altitude. O sol foi chegando aos poucos, proporcionando uma vista magnifica. Não muito depois nos avisaram que havíamos chegado na pequena Kabale (o ônibus seguiria viagem). Descemos, a Bibi enrrolada no saco de dormir, e eu so de camiseta e cachecol, corri para abrir a mala que estava no bagageiro para me agasalhar. Tomamos um bom cafe da manha num hotel não muito longe dali. Na ida até o hotel já arranjamos transporte para o Lago Bunyonyi. No curto caminho montanhoso e empoeirado ate o lago a Bibi dormiu, e eu fiquei observando o dia começar nesta pequena região rural ao redor de Kabale. Senhoras quebravam pedras, sentadas no chão com pequenos martelos, perto de algumas pedreiras. Outras carregavam o cascalho sobre a cabeca, montanha acima e abaixo. Ao chegar no lago, optamos por pegar uma canoa, e não um barco a motor, para curtir ainda mais o clima.

Lake Bunyonyi

Lake Bunyonyi

A paisagem é algo sensacional, todas aquelas montanhas, com terraços cultivados, envolvendo o lago. Um lugar calmo, muito astral e magico. Fomos ate a ilha Buchara. Existem dois tipos de acomodação, chales e barracas. São aquelas barracas tipo exercito, já montadas, que tem cama e da para ficar em pé dentro. Achei que podia ser uma boa oportunidade para a Bibi aprender a “acampar”. De qualquer forma a qualquer momento poderíamos mudar para um chale, se necessário.

Acampando? Mais ou menos...

Acampando? Mais ou menos…

Foram dias bem relax, sem fazer muita coisa. A Bibi meditava com frequência, e eu saia para andar pela ilha, que era bem pequena. Em menos de 15 min dava a volta na ilha. As vezes dava uns mergulhos também.

OoOoooo...!!!

OoOoooo…!!!

Fomos no comentado mercado Kyevu (todos os sabados), que nao ficava muito tempo de barco a motor da Ilha Buchara. Este mercado foi de muita importância nos anos 70, época do Amin, pois e na divisa com a Ruanda, e muitas trocas de mercadorias eram realizadas. Tivemos azar que bem no dia que fomos tinha um velório ali perto, e não formaram muitas barracas por este motivo. Comemos a comida tipica deles que e uma mistura de Batata doce, um tipo de aipim, banana e feijão, tudo cozido junto, na mesma panela, e envolto de folhas de bananeira. Um porcento da população de Ruanda e de pigmeus, e alguns destes estavam lá. Parecem “hominhos”. Tentamos uma interação, mas o povo ali era “meio do mato”, e não teve muita conversa.

Comidinha caseira!

Comidinha caseira!

Kyevu market

Kyevu market

A ilha que estávamos era de propriedade da Igreja Anglicana. Alias, as igrejas cristãs são super atuantes em toda a Uganda. Na ilha tinham viajantes, mas também encontramos alguns missionários. A Bibi gostou da barraca e acabamos nem nos mudando para os chales. Todos os horários eram programados. Depois da janta se escolhia o café da manha e falava o horário que queria que fosse servido, depois do cafe, escolhíamos o almoço e o horário, e assim sucessivamente. Ha, o banho também tinha hora marcada, e vinham abastecer o recipiente do chuveiro com água (quente) com um balde.

Ainda dormimos uma noite em  Kabale e depois  seguimos pela montanhosa e empoeirada estrada para Kisoro. Como não tinha transporte local saindo regularmente, pegamos um táxi “comunitário”. O motorista coloca quantos passageiros couberem para que todos paguem menos. Sei que em certa etapa da viagem tinham 3 na frente e 4 atrás, na verdade 5, pois um passageiro estava com uma criança não muito pequena no colo. Dava para ver a cara de desespero da Bibi. Alem disto, muita poeira, buracos e paisagens exuberantes…

Kisoro e uma cidade muito empoeirada, sem muitas atrações. E ponto de partida para ver os Gorilas da Montanha do lado de Uganda. Existem diversos hotéis simples e muito baratos, do estilo que ficamos em Kabale, mas como a TPM da Bibi virou TM, tive que arranjar algo melhor. Depois de muito procurar, encontramos um lugar muito agradável, onde os proprietários nos trataram como filhos. Foi bom ficar num lugar mais estruturado, pois no dia seguinte fui subir um vulcão, e fiquei tranquilo de deixar a Bibi descansando.

Sensacao de estar em casa.

Sensação de estar em casa.

Tinha combinado com um Bodaboda de passar me pegar as 6 da manha, e este não apareceu. Sai para a cidade ainda escuro, em busca de outro transporte. Depois de um tempinho achei um motoboy que não falava uma palavra em inglês, mas aqui eles também falam Kiswahili. Negociei para ir ate o parque, e antes disto passamos no posto de gasolina, pois e claro que tava sem combustível. Fomos seguindo desviando todos aqueles buracos, e ainda a certa distancia da entrada do parque a moto quebrou. Segui a pé, andando rápido, pois se me atrasasse não deixariam eu subir o vulcão. Cheguei bem atrasado, mas viram que eu não teria problemas de completar o percurço antes de anoitecer, e liberaram minha subida. Subi eu, um guia e um guarda devidamente armado de um AK47. O parque nacional de Maharinga (Uganda) e a continuação do parc nacional des Virungas (Congo), e parc nacional des Volcans (Ruanda). São diversos vulcões que se estendem um ao lado do outro, cruzando fronteiras e se estendendo por um vasto territorio. Escolhi subir o Muhavura (4127 mts) o mais alto dos 3 vulcões deste parque da Uganda (O Pico da Neblina, mais alto do Brasil tem 2994 mts). Pra mim sempre os primeiros 30 min são os piores, depois parece que engrena. A subida e bem íngreme, e ia em zig-zag. Alguns metros para a esquerda, outros para a direita. So mais perto do cume que tivemos que circundar para chegar ao topo, e encontrar um pequeno lago na cratera. Infelizmente o tempo estava totalmente encoberto. Toda a vista dos outros vulcões e países não foi possível. Que pena!!! Fiquei com aquela sensação de quero mais, mas fazer o que. Como eu tinha subido rápido, tive mais tempo la em cima para esperar para ver se o tempo abria, mas não adiantou, não era meu dia. Iniciamos a descida com cuidado, pois escadas improvisadas tinham pregos enferrujados e estrutura suspeita. O bom e que na vinda era subida o tempo todo, e não volta só descida, sem oscilações. Chegando la embaixo olhei para cima, tamanha não foi minha surpresa ao notar que a montanha não estava mais encoberta! O parque fica numa região bem remota, e foi interessante passar por todos aqueles vilarejos. Alguns deles estavam com falta de água, e  pessoas formavam longas filas para abastecer galoes com água trazida da cidade.

No Topo!!

No Topo!!

Lago na cratera do vulcao

Lago na cratera do vulcão

Escadas

Escadas

O desafio visto de baixo

O desafio visto de baixo

Dia seguinte seguimos (novamente por uma estrada esburacada e empoeirada) até a fronteira de Ruanda.

A Pérola da África

Antes de cruzar a fronteira para a Uganda, atravessamos a linha do Equador. Percebi que já tinha viajado um bocado, pois iniciei bem abaixo do tropico de Capricórnio, além disto, minha viagem estava sendo para o Nordeste e não direto para o norte. Foi uma viagem bem tranquila. Pegamos um ônibus executivo, bem melhor que os da Tanzânia. Tinham so 3 poltronas por fileiras, tipo os nossos ônibus leito, mas as comparações param por aí. A viagem passou super rápido, e fomos apreciando a bonita paisagem.

A Uganda é chamada de Pérola da África, além de diversos outros apelidos. Local onde o turismo tem crescido consideravelmente, mas deve aumentar ainda mais. A estabilidade tem aumentado, mas ainda existem alguns graves problemas na fronteira com o Sudão. Difícil não associarmos a Uganda ao louco do Idi Amim. Para quem não lembra dele, vale ver o filme ” O ultimo rei da Escócia”, o qual fala da historia dele e da Uganda na época. Para se entender um pouco mais, a situação do pais não era melhor antes, e nem ficou melhor nos anos seguintes a esta ditadura. Só perto dos anos 90 que veio a “estabilidade” econômica, mas mesmo assim, o presidente que assumiu, e esta no poder ate hoje, e muito criticado.

Da fronteira seguimos sem paradas para a simpática Jinja. Mais uma daquelas cidades que tentam lançar como meca dos esportes radicais, mas e meio forcado, puro marketing turístico. Uma cidade relativamente pequena, mas com uma boa estrutura. Muitos visitam esta cidade só para fazer Rafting (nivel 5) na  nascente do rio Nilo. Sim uma das nascentes do Nilo, o rio mais longo do mundo, e aqui. O ônibus nos deixou na estrada, pois seguia para a capital, Kampala. Pegamos 2 Boda-Bodas, que nada mais e que uma motocicleta com pequenas adaptações para levar passageiros e bagagem (ta bom, motoboy, hehe), e fomos para um hotel indicado. Não sabíamos que no final de semana em questão estaria acontecendo a maior feira agropecuária do pais, portanto tudo tava lotado. A Bibi ficou cuidando das mochilas enquanto eu dei uma volta para achar algum lugar para ficarmos. Acabei negociando numa mansão, adaptada a hotel, um super quarto. A Bibi ficou bem feliz, e de sobra, a noite teria um casamento muçulmano no jardim, o qual participamos discretamente.

Hotel

Hotel

Casamento

Casamento

No outro dia fomos na tal fonte do rio Nilo, que aparentemente não tem nada de especial, mas tudo mudou, quando sentamos numa pedra, ficamos conversando por horas tomando uma cerveja com o nome de ” Nile Special” ! Íamos passar na feira agropecuária depois, mas já era o ultimo dia e estavam desmontando tudo, alem do mais, como a Bibi e de Chapecó, já ta cansada destas feiras…hehe (não podia perder a piada..!!)

Nile Special!!!!!!! haha

Nile Special!!!!!!! haha

Com o centro compacto, e um ótimo lugar para passear, e existem alguns bons e baratos restaurantes. Ficamos um bom tempo no hotel também, onde fizemos alguns amigos que trabalhavam la. Deu vontade de ficar mais tempo, só por causa das pessoas. Ha, ia esquecendo, quando Gandi morreu, seu corpo foi cremado, e suas cinzas espalhadas por alguns lugares. Parte destas cinzas estão no templo Indu daqui. Alias, alem de templos, tem muito restaurante Indiano (comemos num bem gostoso), e Indianos também. No inicio da década de 70, o Amin tava tao incomodado com os asiáticos, que os expulsou do pais, só com as roupas do corpo. Ele “nacionalizou” o comercio, que grande parte era de Indianos e Chineses.

Pegamos um ônibus para Kampala. Viagem tranquila, nem conversamos muito, ficamos só curtindo o visual. O motorista não nos avisou para descer no local que tínhamos pedido, e acabamos no centrão. Um caos nunca visto antes, impressionante mesmo. E para piorar, não estavam aceitando minha nota, pois tava com um selo raspado. Perdemos um tempinho nesta, mas logo pegamos um daladala para o Hotel que tinham nos recomendado. A Bibi foi indo na frente e minha moto estava lenta. Alguns Km depois, parou completamente. O motorista pediu para eu descer, deitou a moto chacoalhando, e me falou: “Agora chega ate o posto de gasolina”. Claro que no posto ele não tinha dinheiro nem pra colocar combustível. Dizem que não colocam combustível para que a moto/carro não sejam roubados, mas acho que e poque são quebrados mesmo.

Motoboy!!

Motoboy!!

Chegamos no hotel indicado, que era fora do centro. Tinha tentado ligar de Jinja, mas o numero tinha mudado. Resultado, tava lotado. O da frente era bem tranquilo, mas a Bibi não quis ficar porque não tinha banheiro no quarto. Acabamos indo procurar um outro hotel que não encontramos, e seguimos de volta para o centão barulhento. Eu já tava bem irritado nesta hora porque queria ter ficado já no primeiro. Vimos mais um hotel, mas o custo beneficio não parecia ser dos melhores. Para encurtar a historia, dei uma colher de chá pra Bibi, que tava de TPM, e arrumei um hotel melhor (e caro!). Deu tempo de caminhar um pouco pelo caos  desta região ainda antes de dormir.

Kampala...

Kampala…

Dia seguinte fui dar entrada para meu visto da Etiópia, era melhor esperar em Kampala que em Nairóbi sozinho. Vi que a parte de cima da cidade e totalmente diferente, pelo menos para este lado. Poucas quadras do caos do centrão, estão avenidas largas, com arvores floridas. Se afastando ainda mais começam os bairros residenciais, com muitas casas bonitas e algumas mancões. Kampala fica ao longo de sete colinas, portanto tem uma bela vista, e muda muito de uma região para outra. O visto ficaria para o dia seguinte, e voltei para pegar a Bibi e sair a pé pela cidade. Caminhamos bastante, e nos impressionamos com gigantescos pássaros que sobrevoavam a cidade e faziam ninhos nas praças. Como estávamos longe, voltamos de moto, passando pela parte nobre da cidade. Kampala estava surpreendendo bastante. Para fechar o dia, e comemorar que o visto estava encaminhado, fomos jantar num gostoso restaurante Etíope. Restaurante movimentado, comida boa, mas o mais legal foi ver a Bibi comer com as mãos…

Passaros

Pássaros

Nao tem preco!!

Não tem preço!!

Um dia pela manha, começamos a conversar com o garçom, e a conversa se prolongou por horas. Falamos sobre o dia a dia, sobre cultura, e sobre a época do Amin, e claro. Achava que todos odiavam este homem que fez tantas barbaridades, mas descobri que alguns o defendem, dizendo que tem o outro lado da historia…

Bem, o Achi (garçom) foi mais uma daquelas pessoas que nos encantou. Combinamos de nos encontrar depois do expediente dele. Neste tempo saímos para conhecer mais a cidade e buscar o visto que deveria estar pronto. Deveria, mas não estava. Vieram com aquela historia que brasileiros ganham o carimbo quando chegam no aeroporto. Tive que explicar (novamente) que iria por terra, e que nesta fronteira nao davam o visto (eu explicando para o consulado!). Também, porque alguém em sã consciência iria encarar a dura e longa viagem pelo deserto do norte do Kenya/sul da Etiópia? Bem, o problema era meu, e acabaram emitindo o visto na hora mesmo. Ufa!

Tivemos que ligar para o Achi e remarcar para noite. Neste meio tempo corri para conseguir as passagens para Kabale. Inicialmente íamos no ônibus do correio, que diziam que era mais seguro, mas como e pequeno e para o te, pó todo, optamos por ir em um noturno, que vai mais rápido. No horário combinado o Achi apareceu no hotel (que já não era mais o mesmo do primeiro dia, mas acho que não preciso entrar em detalhes,hehe). Saímos para um barzinho, mas estava muito barulhento. Acabamos num bar de um hotel, onde conversamos por algumas horas. O cara e de uma simpatia que não existe, cheio de sonhos, trabalhador, mais uma daquelas historias de vida. Trabalha um monte, e no final do mês ganha USD35. E eu que me achava malandro quando em parte da viagem gastava só USD7 por dia. E o Achi com aquele sorrisão estampado, falando dos seus planos, de seus sonhos. Mesmo com toda a dificuldade, ele se deu ao trabalho de nos trazer lembranças de Uganda. Algumas provavelmente de sua própria casa, outras talvez compradas. Prometemos que tentaríamos ajudar de alguma maneira. Como a vida e dura! E como alguns, mesmo perdendo os pais, trabalhando um monte, não desanimam, nem perdem a vontade de viver.

Achi

Achi

Ele ainda caminhou com a gente ate o hotel, onde arrumamos as coisa, e antes de sair dei a camiseta do Brasil que tinha acabado de ganhar da mãe/Clau. Logo saímos pois já era perto da meia noite, e tínhamos que pegar o ônibus.