Praias, montanhas e mais Marrakesh

A viagem podia ser longa, mas tinha um bom livro para ler, amigos novos para fazer e muita coisa para pensar. Chegando em Goulimine fomos comer antes de arranjar transporte para a praia, e o deem uma olhada no nome da avenida:

Um dos maiores viajantes de todos os tempos!

Pegamos um granda taxi pelas curvas até o litoral, onde chegamos na simpática Sidi Ifni. Uma pequena cidade que na época que foi dominada pelos espanhois se chamava  “Santa Cruz dele mar pequena”. Uma mistura de arquitetura espanhola com marroquina, até igreja tem. Definitivamente uma cidade árabe, porem com um ar mediterrâneo. A primavera árabe se iniciou por aqui (e foi esmagada) e depois se espalhou pelos seus vizinhos.

Mas tinhamos recebido uma indicação de uma praia mais ao norte, e lá fomos nós tentar encontrar. Quando nosso grand taxi nos deixou no meio da estrada e apontou na direção do mar, achavamos que estariamos ferrados. Caminhamos descendo as falesias e chegamos na pequena Legzira. Achavamos que teria uma vilazinha tipica, mas era um “resort”, só uma meia duzia de hoteis simples. Praia de parapeint e surf, que em algumas épocas do ano é bem procurada, mas estava bem vazia. Ficamos bem instalados com vista para mar.

Não tinha onda, mas fizemos ótimas caminhadas, aproveitando todo aquele visual de falezias. Não lembro se comentei antes, mas estavámos curtindo bastante a comida no Marrocos. Além do obvio cuscus, os tajines de frango, carne, carneiro, bode, verduras. O nosso preferido foi de pombo! Sim, comem pombo aqui, até misturado com torta doce. Mas comemos o tal pombo com verduras e foi aprovado. Comemos também sanduiche de coração de boi, mas quando chegamos na praia, trocamos pelos frutos do mar. Alem dos grelhados, claro que tinha Tajine de peixe!

Legzira

Recuperados e bem alimentados,  subimos as falezias para tentar pegar carona na estrada. Já estavamos pensando em voltar para Sidi Ifni, de onde conseguiriamos um transporte mais facilmente quando parou uma vam. Até este momento não sabiamos se iriamos direto para Tiznit, e depois para as montanhas, ou se parariamos em Mirleft, no caminho. Seguimos pelas curvas e visual do alto das falésias até chegar na antiga cidadezinha dos hippies, hoje do surf, que todos se vangloriavam que Jimi hendix ia passar umas férias.

Procurando por um hotelzinho, acabamos achando um apartamento bem bacana. Como era fora de temporada, pagamos 200 Dirham (menos de 20 Eur) por um Apto de 3 quartos, banheiro, sala e cozinha. Caminhando pela região, ainda vimos varias “Vilas”, casas de veraneio de franceses e espanhois, bem no topo das falésias, com super vistas. Um padrão bem mais alto, mas os preços não estavam muito caro também.

Mirleft

Vilas

Quem fica comendo fora toda hora valoriza uma cozinha e uma geladeira. No jantar fizemos um polvo maravilhoso. Rimos muito com nosso amigo Berbere Lahcen. Ele foi o primeiro marroquino (até então) que conhecemos que detonou o Rei Muhamed VI. Ele contou bastante da Intifada, primavera árabe e do seu irmão, que foi da guarda real. Contou que o irmão dele estava na represão da Intifada de Smara (Saara Ocidental), quando um jogaram lideres da Polisario de cima de um  helicóptero, e atiravam em mulheres e crianças que não quisessem embarcar em ônibus do governo. Mas tiveram muitos assuntos lights também, e em época de Eurocopa, nosso polvo quase queimou por causa da emoção de um jogo.

Nhamnham…

De Mirleft foi um pulo até Tiznit, com sua cidade murada e bonitos portais. Podiamos ter ficado mais na praia, mas a Bibi não encontrou a vila pé na areia que queria, então fomos para a montanha novamente. Curvas e mais curvas subindo o novamente o Anti Atlas, passando por Kashbas até chegar na simpática Tafraut. Olhamos um para o outro e quase que lendo o pensamento do outro falamos: Gostei daqui! Cidadezinha pequena, poucas quadras, toda ajeitadinha (um pouco demais para mim, mas perfeita para a Bibi), cercada por montanhas, oasis e formações rochosas. Ficamos no hotel Salama, talvez o único em toda a viagem que possui um website (http://hotelsalama.com/pages/en_morocco_hotel_salama_index3.htm).

Portal em Tiznit

Não adiantava estarmos na montanha, o calor estava insuportável. Como muitos dos passeios que queriamos fazer eram de bicicleta, acordavamos bem cedo, para voltar antes do meio dia. Fugiamos do sol forte e depois rodavamos a cidade no final da tarde, andando pelo mercado ou vendo a vida passar na praça.

No primeiro dia era para rodarmos uns 15 km de bike, mas acabei entrando numa trilha errada e acabamos rodando bem mais que isto. Muito legal passar pelos oasis, pequenas vilas e depois andar pelas formações rochosas. Inventão umas coisas tipo, você tem que passar no “Chapeu do Napoleão”, teve até um artista belga que pintou umas pedras para mudar o tom do deserto. Mas o mais legal é passear mesmo, e ver a mudança dos tons de vermelho com a alteração da luz.

Tafraut

Praça

Oasis

pedras pintadas

No segundo dia a maior parte do caminho era por asfalto, o que perdia um pouco o charme, mas em compensação, as vilas eram muito bonitas e tinham casas tradicionais. Ironia do destino, no dia que rodamos menos por estradas de terra foi o dia que o pneu furou. Já estavamos pensando em colocar em cima da primeira caminhonete que passasse quando o dono de uma venda numa vila maiorzinha nos ajudou.

De Tafrout pegamos um onibus super moderno para Marrakesh, bem diferente dos que estávamos viajando. Novinho em folha, com ar condicionado no máximo e paradas para rezar e almoçar. Muito estranho a relação do marrocos com a religião. Dizem ser super rigorosos com a reza, Ramadam, não nos deixam entrar nas mesquitas, mas por outro lado são bem hipócritas em outras regras como bebidas alcoólicas e não enganar/roubar o próximo.

Chegando em Marrakesh, um destes hipócritas, no caso um taxista, ficou brabo porque eu não queria pagar cinco vezes mais a tarifa para ir para Djemaa El-Fna. Mandava eu seguir a pé, e eu ia sorrindo e ironicamente agradecendo pela informação da direção. Duas quadras depois pegamos um taxi pelo preço correto. A diferença pode ser de poucos dólares, mas você pagaria dez reais por uma lata de refrigerante que vale dois reais?

Nosso hotel da primeira passagem pela cidade não era muito bom (o pior que ficamos no Marrocos) então seguimos a sugestão do nosso amigo Dale, que alias estaria lá. Chegamos num “BBB”, bom bonito e barato. Perto da praça, mas não barulhento, com estilo, patio intérno e impecavelmente limpo. Encontramos o Dale na entrada e não demoramos muito para sair para a praça. Já escurecia e o movimento começava. Como o Dale é musico, queria gravar e escutar muitos dos artistas e o acompanhamos.

Jantamos cérebro de bode junto com outras comidas mais comuns, tomamos um suco das dezenas de barracas de suco de laranja natural e fomos capotar!

Scargot, claro que também comemos.

Conhecemos Marrakesh mais a fundo, caminhando pelas centenas de quilometros de ruelas da cidade velha. A Bibi ficou louca com as lojas, que quando passavamos já sabiam que eramos brasileiros e só faltava nos chamarem pelo nome. Fomos em alguns palácios e Madrassas. Mas fomos também para a outra Marrakesh, a cidade nova.

Meu amigo Riad, do Couchsurfing morava num bairro bem longe da cidade velha. Uma vida bem diferente do imaginário que o ocidente tem do Marrocos. Ele procura emprego numa multinacional, sai para dançar, bebe (segundo ele moderadamente), não tá nem ai para o rei e nem sonha em rezar cinco vezes ao dia. O interessante de ver estas misturas da tradição com a modernidade, é que mesmo ele tendo uma vida moderna, eles ainda comem com as mãos por exemplo. Alias a mãe dele fez um banquete, com vária opções de comida, e deu até para matar saudades de comer um feijão.

Couchsurfing

Bateu aquela tristeza na hora de voltar. Mesmo sendo uma viagem curta, tínhamos tido uma imersão, e aquele se transformado no nosso dia a dia. Pegamos o voo para Madri, onde ainda passaríamos uma noite antes de voltar para o Brasil.

No avião, olhando para um mapa na revista pensava: Onde será a próxima viagem?

O Vale de Hunza, o Pequeno-Tibet e o maior paredão do mundo!!

Karimabad e o mais próximo de um destino turístico no norte do Paquistão  e e fácil entender porque. A vila tem uma super vista para gigantescas montanhas (com destaque para Rakaposhi), ótimas caminhadas, uma forte cultura do hospitaleiro povo Hunza, deliciosa comida, e ainda muita historia.

A região tem muitos hotéis  mas quase todos vazios. Todos reclamaram muito que depois do 11/09 o turismo no Paquistão despencou. Os hotéis baratos (2 usd por pessoa) não estavam lotados, mas tinha bastante mochileiros. Encontramos algumas pessoas que estavam no ônibus que veio da China, como o excêntrico  figura rara, tcheco de 72 anos (e que já viajou para 155 países!!!), alem do nosso amigo japonês Koich, que encontramos pela terceira vez desde o Quirguistão  Como ficamos alguns dias, fizemos novas amizades, encontramos couchsurfer e nos sentimos em casa!

Já que estávamos bem no meio da montanha, tudo era subida ou descida. Não demoramos muito para visitar o antigo forte-palácio da região. Fica no topo da vila, e ficou ativo durante 800 anos, ate que com a chegada da KKH, caíram as monarquias. Os antigos reis receberam títulos simbólicos, mas ate hoje são idolatrados por muitas pessoas. Muita gente não se sente paquistanes por aqui, e sim hunzo. O forte-palácio e muito bonito, e com influencias tibetanas claras. Fácil de associar sua fachada com o palácio Potala de Lhasa. Isto ocorreu porque um príncipe de Hunza se casou com uma princesa de Skardu, região hoje a leste do Paquistão  e que antes fazia parte do império tibetano.

Hunza Fort

Em outras vilas vizinhas existem ainda outros palácios menores, e do outro lado do vale, atravessando o rio, ficava outro reinado, o rival Nagir, oponente de tantas guerras. Verão e época de diversas frutas, mas a especialidade da região são as ameixas amarelas. Misturam na comida, secam, fazem diversos pratos. Aproveitamos para nos abastecer destas frutas para fazer uma das caminhadas mais longas que encaramos na região. Subimos ate o Ultar Meadow, uma pastagem verde la no topo da montanha, atravessando cachoeira, penhascos e muita subida com pedra solta. Já estávamos relativamente alto, portanto num ar rarefeito. O Jonny teve que mostrar bastante superação  parecia um filme, mas encarou ate o fim. O visual inacreditável, o caminho desafiador, mas valeu cada uma das 7 horas. Teve gente que descobriu que tem medo de altura ao caminhar pelas “passarelas” na beira do abismo…haha

passarelas

unico caminho

no topo de Ultar Meadow

Tempo mudou rapido

A Bibi aproveitou para ler, na cama de chá especialmente virada para as montanhas. Passamos bastante tempo largados ali também  e as refeições com todo mundo junto era um momento a parte. Nosso prato favorito era o Chiken Karay, que intercalávamos com outros pratos para não enjoar.

esta vista custa dois dolares!

Numa de nossas caminhadas o Marco fez um amigo, que deu uma roupa de muçulmano para ele. Já estávamos pensando em comprar, mas como o Ramadan aqui é mega relax, nada de lenço na cabeça para a Bibi, dava ate para sair de bermuda, estávamos adiando. Esta parte de Hunza e de maioria Ismailis também, mas nem todo o vale e assim. Nos horários de reza, e principalmente no horário da ultima (ainda bem de madrugada), e primeira refeições (ao por de sol), as mesquitas cantavam alto, e de forma bem longa. Paralisávamos olhando para o horizonte como se estivéssemos hipnotizados, era de arrepiar!!

Um dia decidimos descer montanha ate a vila de Ganish, na beira da KKH. E uma cidadezinha mega antiga, com casas tradicionais, mesquitas todas trabalhadas em madeira e um lago como “praça” principal. Alguns antigos caravansarais ainda estão la, e a madeira onde os cavalos (ou camelos) eram amarrados continua ali, gasta de tanto ser usada. Fiquei pensando se o Ibn Batuta ou o Marco Polo amarraram seus cavalos ali. Existe um interessante sistema de refrigeração para alimentos, utilizando água gelada da montanha canalizada. Foi o primeiro lugar onde mulheres chamaram a atencao da Bibi por causa da roupa. Ali eles eram sunitas, e o mês sagrado do Ramadan deveria ser respeitado.

Caravansarai em Ganish

Em um outro dia, em vez de descermos, resolvemos acompanhar os canais, andando horizontalmente pela montanha. Passamos por casas de pedra, crianças jogando criket com pá, trabalhadoras no campo com roupas suuper coloridas. Muitas pessoas paravam para conversar, nos convidavam para entrar. Era final de tarde, e o lugar tinha uma magia no ar. A Bibi virou e disse: “sera que não poderíamos vir morar aqui, ou pelo menos passar uns meses?” Eu respondi com um ar de vitorioso: “ue, você não tinha medo de vir para o Paquistão? Não era um lugar perigoso?” Voltamos já estava escuro, andando pelas pequenas vilas e seus simpáticos moradores.

interacao nas vilas

Hunza faces

Chegou o dia de partir, mas como nos que comandamos, resolvemos ficar um dia extra, só aproveitando o lugar. Conversando com o Koich, decidimos fazer parte da viagem juntos, já que nos demos bem e nos encontrávamos toda hora mesmo.

De Karimabad fomos para Aliabad e de la para Gilgit, maior cidade da região norte do Paquistão  Gilgit funciona como uma capital, alem de ser barulhenta, movimentada e empoeirada. Ah, também havíamos descido bastante, portanto estava beem quente.

mais caminhões decorados pelo caminho

Comprei meu novo modelito, e eu com barba já estava passando por paquistanes. Gilgit ja e bem maior, principalmente comparado com as vilas que passamos, mas também não dava para ser chamada de cidade grande. Ainda e um mundo a parte do Paquistao. O esporte favorito no norte do pais e o polo. Mas não e um polo de playboy não, e um polo vale-tudo, onde a porrada come solta. Os campos de polo passaram a ser referencia nos mapas das cidades maiores que passamos ainda na região norte. A bravura não esta só nos esportes. No topo da montanha uma homenagem aos Gilgit Scouts. Formados pelos ingleses, foram os heróis da resistência e luta contra os indianos na disputa da Kashimira. Mesmo em menor numero, conseguiram garantir 30% da Kashimira para o Paquistão  mas este assunto eu comento mais para a frente.

Nos arredores de Gilgit ja tem muitas ruínas budistas, mas a maioria dos sítios budistas estão perto de Skardu, no estado de Baltistan, que significa Pequeno-Tibet. Na verdade o budismo chegou na China, e até mesmo no Tibet, passando pelo norte do Paquistão  Na região passa o sagrado rio Indus. A Viagem ate Skardu foi bela (como sempre), perigosa devido os desfiladeiros, mas especialmente dolorosa pelo micro-ônibus lotado e horas de duração.

Alem dos lugares de interesse de Skardu, a cidade seria ponto de partida para os Deosais Plains. Juntos com o Koich poderíamos alugar um jipe só para nos, já que não existe transporte publico para la. Depois de muitas discussões (saudáveis) com outros viajantes durante o jantar e uma noite bem dormida, estávamos prontos para negociarmos o transporte. Logo arranjamos um jipe e fomos para o mercado comprar comida para os próximos dias. A Bibi e o Jony compravam frutas enquanto eu fui cercado por locais, onde tivemos altas conversas. A maioria da região e de muçulmanos shiitas, e quando contei que tinha ido a Mashaad e falei sobre os Imams foram ao delírio. Não acreditavam como eu podia saber a historia da religião deles. Foi muito divertido!

paquistaneses em Skardu

Andamos pelas ruas caóticas  descolamos as barracas e sacos de dormir e estávamos prontos para partir. Nosso motorista colocou sua musica favorita, que repetia “Ali, Ali, Ali…” e cantamos empolgados. Mal sabíamos que ele ia repetir a musica umas 50 vezes, ate enjoarmos. Passamos por lago, mais postos de controle e subíamos sem parar. De repente, parecia ser mais um passe, aonde depois de uma subida viria uma descida, tudo mudou. Chegamos nos Deossais, estávamos a 4 mil metros de altitude, mas em vez de um descida, um planalto! Andamos por pequenas trilhas, atravessamos rios ate chegar em um rio com uma ponte suspensa. Era o lugar onde acamparíamos.

Infelizmente estavam construindo uma ponte de concreto ao lado, o que fazia o lugar perder um pouco do estilo. Sem contar que estava cheio de acampamentos dos operários  Mas de qualquer maneira o lugar era super calmo, bonito, e quando veio a noite, um céu espetacular!!!

A quatro mil metros de altitude a temperatura despencou rapidamente. Tínhamos sacos de dormir bons, mas as barracas emprestadas eram furadas, e tivemos que colocar grampos de roupa e fita para fechar os buracos. Quando chegou a hora de partir o jipe não funcionou. Tivemos que esperar mais algumas horas, ate a temperatura subir o suficiente. Se Deosai já estava bonito, depois de passarmos por mais rios, e outros lagos ainda mais bonitos, iniciamos uma descida com um suuper visual. Passamos por vilas e mais vilas. Estávamos sem mapa, mas nosso motorista foi pedindo informação e conseguiu chegar onde queríamos, Tarashin.

 

Estávamos muito na duvida se vinhamos para cá ou se íamos para os Fary Meadows. Ambos sao na base do pico Nanga Parbat, o oitavo maior do mundo. No Fary M., face norte, alem de alugar outro jipe, teríamos que caminhar três horas ate o local onde dormiríamos  Diziam ser mais bonito, ou pelo menos mais verde. A maioria das pessoas vão para la. Mas a face sul, a Rupal face, tinha um apelo maior (literalmente). Era o maior paredão de um campo base ate o cume, com mais de 4500 metros.

Não nos arrependemos. A vila tinha só duas pousadas, sem energia elétrica e claro. Já tinha um baita paredão bem de frente para os nossos quartos, mas sabíamos que não era o cume que estávamos avistando. Teríamos que contornar a montanha. Acordamos cedo, e logo estávamos atravessando nosso primeiro glacial, rumo a vila de Rupal. Só um amontoado de casas, muitas plantações e mulheres com roupas coloridas. As mulheres não conversavam conosco, nem deixavam tirar fotos. Já os homens eram super simpáticos, nos convidavam para chá, e teve um Sr. que ate colheu umas verdura para nós.

Rupal Faces

O Sr que colheu verduras para nos

A caminhada apesar de longa, não era difícil, pois era quase totalmente no plano. A Bibi nos acompanhou desta vez e adorou. Teve toda esta questão cultural antes de chegarmos ao acampamento base. O paredão nem parecia tao alto, mas tínhamos perdido a referencia. Tentando calcular com proporções e analisando melhor, vimos que grandes construções eram migalhas ao lado da montanha. Fizemos piquenique olhando aquela pequena pastagem com yakes, escutando os estalos seguidos de avalanche. Ainda sob o efeito da perda de perspectiva, decidi andar sozinho ate um glacial. Parecia perto, mas demorou um bom tempo. As flores, a neve branca e o barulho da montanha davam uma sensação fenomenal. Logo vi que poucos metros dali tinha outro glacial, que escorria da montanha e passava bem atras de onde estava o pessoal.

Nanga Parbat!

Na volta, passando pelas vilas, a Bibi ficou um pouco mais para trás  para ver se melhorava a interação com as mulheres. Deu certo!! Foi cercada, perguntavam mil coisas, cantaram, pediram para ela cantar. Eu tentei tirar fotos de longe, mas era um momento para ser curtido, não fotografado. Depois de muita insistência para ficar, ela partiu. Crianças foram seguindo ela ate nos encontrarmos. O entardecer ja chegava, e paramos no glacial para pegar gelo. Pratica comum. As pessoas vem com uma sacola, limpam a parte de cima do gelo, quebram pedaços para levar para casa. Quem precisa de geladeira?

so para mulheres

aprendendo a levitar

Depois de 13 horas estávamos de volta, tomando uma coca gelada com gelo do glacial. Durante a noite não dormimos, fomos desligados! Recuperados, estávamos prontos para seguir viagem. Lá estávamos nos, cedo para pegar o jipe comunitário ate Astor.

com nosso amigo Koich

Caminho pelo vale de Astor e muito bonito e chegando lá tivemos uma surpresa. Sempre estavam sendo super honestos a respeito dos preços, não tínhamos nem que nos preocupar. Desta vez o motorista resolveu cobrar o famoso “preço para turista” (primeira e unica vez no Paquistão, 10 vezes o combinado). Acabei com ele! Iniciei com um “vc vai cobrar mas caro de nos por sermos estrangeiros? Este não foi o preço combinado  então e roubo. Vc vai nos roubar em pleno mês sagrado do Ramadan???” Nisso ja juntou varias pessoas, todos dando opiniões  Terminei apontando para o céu e dizendo “ Alah esta vendo. Será que somos diferentes de vc ou somos todos iguais?” A multidão que tinha se formado me apoiava e pressionou ate o motorista ceder todo envergonhado.

Mais um ônibus  desta vez bom, ate com ar condicionado (ok, não funcionava direito) e voltamos para Gilgit, onde encontramos amigos suíços que não víamos desde o Uzbequistão.

Seguir pela KKH ou sair do caminho novamente? Tínhamos uma decisão a tomar.

Pós revolução nas montanhas celestiais!

O Quirguistão é um pais montanhoso, muito montanhoso. Algumas destas montanhas atravessam boa parte da Asia Central. Uma das maiores cadeias de montanhas ‘e a Tian Shan, que significa “Montanhas Celestiais”. O Quirguistão divide outras coisas com seus vizinhos, a origem do povo e da língua são praticamente os mesmos. A independência de todos estes países também aconteceu na mesma época, com o colapso da URSS. Mas entrando na politica as coisas ficam diferentes. O Uzbequistão tem o mesmo ditador, odiado por todos, desde a independência  O mesmo acontece com o Cazaquistão  se bem que o ditador la ‘e adorado por muitos (o que não faz o petróleo . No Quirguistão um ditador não se mantem por tanto tempo. Em 2005 houve a revolução das tulipas, e depois de muito quebra-quebra e mortes, o ditador teve que fugir do pais. Novo presidente, sistema e problemas antigos, muita corrupção  nepotismo e descontentamento fizeram com que a população fosse as ruas novamente ano passado. Novo quebra-quebra e violência  Carros incendiados e a policia/exercito abrindo fogo contra a população  Centenas de mortos e milhares de feridos. O novo presidente não aguentou a nova revolução  e também teve que fugir. O pais ainda sente esta revolução recente. Existem os otimistas, mas outros falam que so os marionetes foram trocados. Hoje o Quirguistão  assim como o Brasil, tem uma Presidenta. Vamos ver como ‘e que elas se saem…

Depois da despedida da mãe e Clau, tiramos um dia para descansar, lavar roupas e programar os próximos dias. Nosso próximo destino era Kol Ukok, bem perto de Kochkor, montanha acima. Havia uma pequena possibilidade de chuva, mas quando acordamos de manha, resolvemos cancelar, pois as montanhas estavam encobertas com nuvens escuras. Não foi a primeira vez que as montanhas fizeram isto comigo. Prorrogamos para o dia seguinte. Depois de ter chovido, parecia que daria certo, mas só no tempo de tomar cafe da manha, o vento bateu e as nuvens voltaram. Cancelamos novamente, mas arriscamos uma saída pela vila. Próximo do horário de almoço o tempo limpou, e decidimos aproveitar a oportunidade. O inicio da subida ficava a poucos km da nossa pousada. Tivemos que esperar um pouco ate nossos cavalos chegarem. Nesse meio tempo já iniciou nova movimentação de nuvens. Mas todos falavam que só na primavera que chovia forte, que no verão seria uma chuva fraca e curta. Resolvemos arriscar. A subida por um vale, sempre montanha acima, com uma super vista de Kochkor e suas montanhas atras. Os cavalos passavam por pedras, rios, ladeiras, com a maior tranquilidade. A medida que fomos subindo, fomos nos aproximando dos restos de neve, e também das nuvens, que ja estavam quase ao nosso lado. Ameaçava chover, mas por um momento parecia que tudo tinha ficado para trás  Foi quando já bem no alto da montanha, iniciou um vento forte.

Tempestade vindo

Trovoadas não muito longe, no cume das montanhas ao nosso lado. Veio uma chuva fina e já tínhamos colocado a roupa adequada. Ficou frio, bem frio. De repente minha jaqueta preta foi ficando branca. Falei para a Bibi se cuidar que estava chovendo granizo, mas logo percebemos que não tinha problema, na verdade estava nevando! Sim, neve em pleno verão do Quirguistão  Olha, só não foi melhor, porque passamos um frio desgraçado  Nossas mãos congelavam, e não queríamos parar para pegar mais roupas na mochila. Nao muito tempo depois, atingimos o ponto mais alto, e o tempo abriu totalmente. Parecia combinado para podermos ver a paisagem do lago azul com as montanhas nevadas ao fundo. Ainda tínhamos que contornar o lago, para chegar mais perto das montanhas, e ver em qual dos sete yurts que ficaríamos  O lugar era fantástico  perfeito para mim, com certeza um dos lugares que mais gostei nesta segunda etapa da viagem! Eu ficaria uma semana la só subindo as montanhas ao lado, glaciais e outros lagos. O problema para a Bibi ‘e que era zero estrutura. Nada de banho, na verdade não tinha nem banheiro. Bem autentico.

vista da janela do yurt

A família que ficamos era bem gente fina, e passamos um bom tempo dentro do yurt nos aquecendo com chá quente. Mesmo de dia ligaram o aquecimento, queimando bosta, e claro. Tinha um japonês acampando ali ao lado. Conversamos bastante e tomamos leite de égua, aquele fermentado. O vento estava de cortar, mesmo com o tempo bom. Eu parecia uma criança andando para cima e para baixo. Com o entardecer a temperatura despencou ainda mais, e o céu parecia um planetário.  Nosso yurt tinha uns furos, mas pelo menos as cobertas eram grossas. Durante a noite cheguei a pensar que um lobo atacava uma ovelha de tanto que ela berrava, mas estava só dando cria haha. Segunda vez que isto acontece, outro dia foi uma jumenta. Eu tinha falado que iria entrar no lago, mas não tive coragem. Alem de encarar a água quase congelada, teria que sair num vento gelado. Ficou para a próxima.

 

O retorno foi com tempo bom, mas longo e sem paradas. As centenas de marmotas continuavam correndo, atravessando a trilha, e dando sinal para as outras. Depois de umas cinco horas resolvemos descer dos cavalos, e seguir a pé  pois já não dava mais para aguentar de dor. Ficamos na casa da mesma família, e tomamos um merecido banho quente. Nosso próximo destino era Naryn, algumas horas dali. Chegando la decidimos nem ficar na cidade, e continuar a viagem ainda mais ao sul, bem perto da fronteira com a China. No caminho muita poeira, e muitos caminhões e chineses trabalhando na nova estrada. Saímos em uma estrada secundaria, passando entre um cânion  ate chegar em Sary Tash. Ficamos em Yurts no vale, com vista para o antigo e diferente caravançarai  Mal tínhamos chegado, vieram umas pessoas se apresentar para nos. Um deles se dizia o Consul do Brasil no Quirguistão.  Dei risada, pois ele mal falava inglês. Ele tinha um boné com o Cruzeiro do Sul e escrito em Kyrgs.

Demorou um bom tempo ate entender que era um titulo honorário  e que ele era um homem de negócios  Fomos convidados para um banquete com eles, tiraram muitas fotos e demos muita risada. Fomos forcados a tomar umas vodkas. Quando alguém oferece um brinde, todos escutam atentamente esta pessoa falar sobre cada um da mesa, e depois viram o copo. Nos fizemos de bobo e fomos tomando devagar. Tinha uma jornalista que falava bem inglês  e ela serviu como interprete. E-mails trocados, mais fotos, prometemos ir ate o seu cafe restaurante “Pele”, para conversarmos mais. Ele contou que tinham 11 brasileiros em Bishkek, sendo que 3 eram jogadores de futebol, e nos prometeu colocar em contato com eles. Neste lugar não tinha chuveiro, mas tinha uma daquelas saunas de pedra, onde aquecem a água com fogo, e mistura água fria para tomar banho. Melhor do que nada, mas depois de limpo fica aquela sensação de suado.

Banquete

Noite fria, mas um bom yurte fez com que nem sentíssemos  Tivemos uma surpresa que no dia seguinte não encontraram os nossos cavalos. Eles amarram as patas dianteiras do cavalo como se fosse uma algema, mas mesmo assim eles desapareceram. Foram pulando sei la para onde. Ficaram procurando ate tarde, e so nos avisaram quando já não dava mais tempo de subir os mais de 4000 mts ate o passe que daria para enxergar mais um lago entre as montanhas. Decidimos caminhar pelo vale, sem pretensão de ir muito alto. Depois de algumas horas, quando vimos uma movimentação de nuvens, decidimos voltar, pois nova tempestade estava vindo. Inacreditavelmente conseguimos chegar nos Yurts sem nos molharmos.

Caravansarai

Ainda visitamos o caravançarai por dentro, antes de retornar para Narin. La chegando achamos um apto bem barato, mas como queríamos interação, buscamos uma casa de família  Ficamos num daqueles blocos soviéticos caindo aos pedaços  mas que dentro era bem reformado. Alias Narin e cheia destes blocos, uma cidade bem espalhada, decadente, com um rio cortando ao meio.

Narin

Caminhamos pela cidade e ficamos amigos de umas pessoas de Bishkek que estavam no quarto ao lado. Trabalhavam para a Unicef, e acabamos jantando juntos. Novamente nos incluíram nos rounds de vodka, e ficamos escutando como os tempos soviéticos eram bons, muito melhores que agora. Um deles brincava: “antes não tínhamos dinheiro, mas tínhamos tudo! Agora podemos ter dinheiro, mas não temos nada…”. Quando ele disse que se tivesse uma nova URSS ele sairia correndo para la sugeri dele ir para Cuba, mas acho que ele não entendeu minha ironia, ou talvez tivesse bebido demais para isto.

Adoramos nossa estadia, nossas anfitriãs e vizinhos, mas tínhamos que voltar para Bishkek. Pegamos uma mashtruka (microonibus) e encaramos a estrada. Nosso hotel tava lotado, e ao buscar um lugar para ficarmos acabamos encontrando nossos amigos israelenses de Bukhara. Saímos para jantar, bater papo e contar as aventuras do ultimo mês  Deu tempo de acertar mais um ou outro detalhe, nos mudarmos para o nosso hotel favorito, pois teríamos nova companhia. Agora os irmãos da Bibi que viriam para viajar conosco.

Bishkek

Turquistão!

Se olhássemos mapas antigos, estaríamos viajando pelo Turquistão. Mas o que é antigo? A pouco tempo acabei de ler os Livros do Marco Polo e do Ibn Batuta (viajante marroquino que percorreu metade do mundo). Comparava impressões de lugares que eles tinham com as nossas. Alguns lugares já eram antigos quando eles passaram ha 700 anos atras, outros foram se formar bem depois deles, mas já são antigos para nos. De qualquer maneira são vestígios de civilizações  historia, acontecimentos e pessoas. É como se existisse um ciclo. E se tem o ciclo de acontecimentos, existe também o ciclo de curiosos, e estávamos felizes por fazer parte destes.

Depois de 22 horas em um trem sem ar condicionado, e com altas temperaturas, chegamos em Tashkent. Como era uma sexta feira, aproveitamos para ir direto na embaixada da China, que estava aberta neste dia. Não e que deu certo! Acabamos conseguindo o visto no mesmo dia. Ficamos na casa de uma família que recebe bastante estrangeiros. Os quartos super bons, mas da pena da família, que não tem espaço nenhum na sua própria casa. Como tínhamos acesso a cozinha, aproveitamos para fazer arroz, batata, e logo curar nosso problema. A guest house era um ponte de encontro com as pessoas que viajam pela Asia Central, encontramos algumas pessoas fazendo o trajeto bem parecido com o nosso, alem de algumas delas terem encontrado com pessoas que também conhecemos na estrada. O mundo parece muito pequeno para quem viaja por aqui!

A grande piada dos viajantes era que a maior atracão de Tashkent era a estacão de trem. Todo mundo ficava feliz de ir embora. Mas como tínhamos que pegar o visto para a India, resolvemos aproveitar como podíamos  A temporada de opera estava suspensa devido o inicio do verão  mas mesmo assim fomos no teatro. Ao tentarmos entender que peca estava estava em cartas, e qual eram os preços, acabamos ganhando um convite para a primeira fileira!!!

Foi um programa bem interessante, teatro completamente lotado, mas confesso que depois da primeira meia hora sem entender nada ficou um pouco cansativo, mas valeu super a pena. Ainda demos uma esticada depois num barzinho.

teatro

Passeando pelo meio dos prédios soviéticos, aproveitamos para dar uma esticada no gramado de uma sombra em um parque. Logo um policial veio nos falar que não podia. Estranhamos que tinham pessoas pulando de uma ponte e nadando no rio que passava ao lado do parque, alem de um avo com seu neto tomando banho no chafariz… mas ficar na grama nao podia. Vai entender?!

Vistos encaminhados, pegamos o metro ate a estacão de trem, onde seguiríamos viagem. Normalmente tento seguir uma logística na viagem, mas com a questão dos vistos, tivemos que antecipar a ida para Tashkent e agora voltar um pouco no trajeto, quebrando a logística  Nada demais, e os trens são relativamente bons. Como o destino não era longe, nada de cabines, e sim poltronas estilo avião  com filmes passando nas televisões  Samarkand é o destino mais famoso do Uzbequistão  Eu brincava com a Gi em Londres que o Uzbequistão era super turístico, e Samarkand era o que faltava para assinarmos embaixo da minha afirmação.

rua para os carros eletricos

Para cada mochileiro, tinha um ônibus de velhinhos visitando o lugar. Ao lado dos maravilhosos monumentos, uma rua basicamente só para um carro elétrico que levava os aposentados para cima e para baixo. Jardins, parques, tudo certinho. Monumentos todos reformados, ou sendo reconstruído  Uma pena que em um dos lugares mais interessantes para ver os monumentos – a praça Registan, estava com um palco montado para uma apresentação que vai acontecer daqui a três meses. Um guarda tentou oferecer para subirmos em um dos minaretes em troca de um dinheirinho, mas com cuidado negamos. Madrassas, mesquitas e muitos mausóleos  Um lugar que parece uma rua de mausóleos  um do lado/frente para o outro. O lugar onde o Timur esta enterrado também é aqui, e muitas pessoas veem rezar por ele.

Conhecemos um Uzbek que falava bem inglês e deu para encher ele de perguntas, e bater um longo papo. Num dia, ao procurarmos algo para comer achamos um mercado muito colorido. Grande parte do povo daqui e Tajik (o mesmo do Tajikistao). E uma etnia diferente, que fala uma língua parecida com o Farsi. Alem das roupas coloridas e chapéus, os dentes de ouro também fazem sucesso aqui.

O país e lindo, e toda hora nos questionávamos qual a cidade mais bonita, quais os monumentos mais impressionantes. Mas definitivamente tivemos uma overdose de monumentos. Precisávamos mudar um pouco. Taxi comunitário para Jiza, transporte para a cidadezinha de Yangiqislov, ate chegar na região de Florish. São algumas pequenas vilas na beira das montanhas Nurata, entrada para um parque nacional.

Nada de estrutura de hotéis  pousadas, somente algumas famílias cadastradas para receber turistas. Tínhamos um quarto só para nos, dormindo no chão  é claro, mas com colchoes bem confortáveis  As refeições eram uma atracão a parte, sempre muita comida, e era só se espichar para pegar frutas nas diversas arvores ao redor (pêssegos, amoras, peras, ameixas, etc). De um lado um planalto sem fim, onde dava para ver que tinha água la longe, do outro as montanhas belíssimas  Não imaginávamos quão longe era, e decidimos ir tomar banho no lago. Demorou uma hora e meia, mas compensou para dar um mergulho. Bandos de cabras e ovelhas dava um clima para o lugar, e a noite era espetacular com o céu todo estrelado.

Divertido foi o dia que resolvemos pegar cavalos para andar pela região  Os cavalos da Asia Central sao super famosos, como nao podia ser diferente, pois era uma terra de nômades  Já na saída o cavalo da Bibi disparou, e eu tive que cavalgar atras para conseguir fazer ele parar. A Bibi falava “para, para, help me, pleease”!! Ate agora não sei quem ela achava que iria entender, o cavalo quem sabe!!haha

Por segurança eu fui na frente puxando o cavalo dela com uma corda. O pior é que quando eles ficavam muito perto insistiam em se morder e brigar. Foi um super passeio, passando pelos planaltos, montanhas e vales. Difícil de esquecer, não só pela beleza, mas pela dor física que ficamos depois também…hehe

Muitos quilos de frutas depois, e horas de leitura debaixo das arvores, estávamos voltando para Tashkent para buscar o visto da India e nos despedir do Uzbequistão  Voltamos a mesma guest house, encontramos amigos de viagem e encontramos novos. Andamos diversas vezes pelas estacoes de metro, que apesar de ser só o nosso caminho, eram uma atracão por seus candelabros e painéis  Chato era ter que ficar mostrando o passaporte e registro toda a vez, alem de revistar a mochila. O Uzbequistão é uma ditadura, e você é obrigado a fazer um registro todo lugar que vai. Na verdade o hotel faz para você  mas quando ficamos em Nurata não tivemos este registro, por exemplo. Conversamos um pouco com as pessoas, sobre a dura vida daqui. Todos reclamaram, e teve um couchsurfer que ate mudou de assunto com medo que alguém escutasse.

Os vistos para a Asia Central tem data de entrada e saída  e já chegava a hora de partir. Ate e possível prorrogar, mas isto significaria menos tempo em outro lugar. A unica região que sentíamos por não ter ido era o Vale Fergana. Mas este vale se estende ate o Quirguistão  e passaríamos por lá, então não tínhamos com o que se preocupar. Achamos que como viemos do Irã para o Uzbequistão  acabamos comparando demais os dois países, parecia que o melhor teria sido ter ido primeiro para o Uzbequistão e depois para o Irã. Mas mesmo assim, antes de sair do pais, a caminho da fronteira, já batia aquela saudades…

Na metade do mundo!

O Uzbequistão poderia ser considerado na metade do mundo. Pelo menos na metade da mais importante rota comercial entre Europa e Asia. Muita historia se passou por ali. Alexandre o Grande marchou sentido o oriente, Gengis Khan sentido o Ocidente. Desta mesma região surgiu o Timur, que conquistou todas as regiões ao redor, e uniu todas os povos turcos, formando o Turquistão, que ia da China ate a atual Turquia. Se por um lado ele não era nem um pouco “bonzinho”, por outro era uma pessoa de muito bom gosto, e que adorava arte. Pudemos conferir algumas das belas construções feitas naquela época.

Nossa primeira parada no Uzbequistão foi na antiga cidade de Bukara. Ficamos numa guest house bem legal, aqui existem diversas guest houses em casarões típicos, tornando o lugar ainda mais característico  Ficamos no bairro judeu, onde estão a maioria destes casarões  Estávamos a poucos metros de uma sinagoga, e era muito interessante ter judeu Uzbeks andando para cima e para baixo. O numero de judeus já foi bem maior, e e muito bacana ver eles tao integrados na sociedade, mesmo o pais sendo de maioria muçulmana. Alias, a não tanto tempo atras, eles usavam ate uma mesquita como sinagoga, acreditam? Os monumentos mais impressionantes não ficavam muito longe de onde estávamos  e nos dividíamos entre os passeios, que eram no inicio da manha e final da tarde já que o calor era absurdo, e muita sombra e comida ao lado do lago Lyabi Hauz, cercado por madrassas. Nos sentimos muito bem em Bukara, parecia que estávamos num pequeno bairro, já que quase tudo dava para ser feito a pé.

Encontramos pessoas interessantes, conversamos bastante, e curtimos o lugar. Um dia fui obrigado a tomar umas doses de vodca já que o dono da pousada estava comemorando alguma coisa, que ate agora eu não sei o que era. Aqui os hospedes sempre tem que beber primeiro. Conversamos também com uns locais, fomos na feira, parques e mercados, mas parecia ter algo faltando. Os monumentos eram perfeitos demais. Lindos, maravilhosos com seus domos azuis e pinturas, mas faltava um pouco de vida.

Seguimos pela estrada de péssima qualidade ate Urgench, uns 500 km mais para o norte. Depois de muito deserto, buracos e nenhum estrutura chegamos em Khiva. Ficamos na parte velha da cidade, totalmente murada. Se achamos que Bukara estava perfeitinha demais, ali parecia que tinha sido construído ontem. A cidade ‘e impressionante, tem mesquitas, mausoléus  e mais de 40 madrassas (escolas islâmicas  só dentro da cidade murada. Mas praticamente nada está em atividade, e um grande museu. Muitos dos monumentos tem lojinhas dentro ou viraram pequenos museus. ‘E possível e bem legal, percorrer a pé parte da muralha, e a cidade ‘e mais interessante como um todo do que os monumentos individuais. Subimos por uma escada escura ate o topo de um dos minaretes, de onde tinha uma super vista. A noite caia e tudo ficava desértico  quieto, sem ninguém nas ruas. Tentei comprar uma passagem de trem sem sucesso algum. A comunicação tem sido uma grande barreira, se eu tivesse levado a serio minha ideia de ter estudado um russo básico, as coisas seriam mais fáceis.

A linguagem de sinais funciona bem, e consegui um motorista para nos levar em alguns castelos antigos mais para o norte, ate chegarmos na Republica Karakalpak. E mais um daqueles países que já existiram, mas não existem mais, apesar de ser uma região autônoma  No caminho já observávamos muitas carroças, burricos, e uma população bem simples. Tudo bem diferente dos lugares todos preparados para turistas que tínhamos passado no Uzbequistão  Algumas horas depois chegamos a Nukus, capital da Karakalpak. Uma cidade esquecida no tempo. Prédios soviéticos decadentes, um povo com língua  tradição e cultura própria  Era fácil de imaginar que estávamos em outro pais. Passamos na ferroviária e as filas (amontoado de pessoas) desanimavam. Eu não conseguia entender nada que estava escrito na placa, nem o nome das cidades. A mais bem intencionada das pessoas sabia só falar russo. Acabei dando os passaportes e dinheiro para um oficial que prometeu que tudo estaria pronto em 4 horas. Fomos ate um hotel, que não era muito agradável  e depois até o museu Savitsky. Este museu e o segundo maior acervo de obras da ex-URSS. São mais de 100 mil obras de arte, muitas delas proibidas por muito tempo. Claro que nem 2% das obras estão expostas, e depende muito de algumas exposições temporárias para mostrar mais coisas. Existe um andar do museu com uma exposição sobre a cultura de Karakalpak, onde muitos objetos, fotografias, roupas e outros itens foram recuperados, antes que a cultura toda se perdesse. Foi muito interessante, e conseguimos uma pessoa que falava bem inglês  assim podendo entender um pouco mais do lugar. Voltamos na estação de trem e ainda não estava pronto. Sera que demora tanto para emitir uma passagem? Fomos num mercado e interagimos bastante com o pessoal, que era bem simpático e curioso. A maior nota da moeda aqui vale uns 30 centavos de Dollar  então imaginem a pilha de dinheiro ao trocar 100 usd. Nos mercados algumas pessoas ficam com malas e sacolas de dinheiro. Se trocar no cambio oficial se perde bastante dinheiro, então sempre íamos nos mercados mesmos.

A passagem deu certo, e devolveram ate o troco. Nos estávamos morrendo de medo de corrupção  pois um casal de israelenses tinham nos assustado, mas tudo se mostrou ser mais simples do que parecia. Desisti de ir deserto a dentro ate o antigo Mar Aral. Eu queria ver aqueles navios encalhados na areia, sem nada de água, onde ocorreu uma das maiores catástrofes causadas pelo homem. Mas depois de ver tanta coisa perfeitinha, e descobrir que ate os navios eles alinharam e organizaram, desisti da ideia. Arranjei um restaurante bem gostoso, e a Bibi ficou surpresa. O problema e que não estávamos muito bem de estomago, e não podíamos comer de tudo (depois de quase dois anos de viagem, tive minha primeira diarreia).

milhonarios

O trem chegou no horário  e a cabine de segunda classe era para ser boa. E era, o problema ‘e que na maioria dos vagões o ar condicionado estava estragado, então a viagem não foi muito agradável  O senhor que cuidava do nosso vagão era bem legal, as nossas companheiras de cabine também se esforçavam oferecendo comida, mas era difícil não pensar na temperatura. Caminhávamos ate o vagão restaurante para ver se achávamos algum lugar mais fresco, mas não tinha muita solução  A janela abria só trés dedos, e a Bibi molhou uma toalha para conseguir dormir. Vinte e duas horas depois chegamos em Tashkent, a capital do Uzbequistão.