O tempo parou?

Como tudo conspirava para não pegarmos o barco não o pegamos. As noticias mostravam que os protestos pela separação do sul do Iêmen se intensificavam com a proximidade do dia da independência (antes eram 2 países  que se unificaram em 1990). Chegou a ter ate alguns atos de violência  O tempo mudou bruscamente, e chegou a chover um pouco, mas o grande problema era o vento. Passar 14 hs num barco com mais de 300 vacas com tempo ruim não parecia muito agradável  isto se o barco saísse.  Não podíamos esperar mais, tínhamos que acabar com o “Groundhog Day” (filme dia da marmota, onde todo dia acontece a mesma coisa), então pegamos um avião de Djibuti para Sanaa.

Desde a primeira vez que tinha visto uma foto da Old Sanaa, sabia que um dia iria para la. De repente estava eu chegando na capital do Iêmen. Sobrevoando me pareceu bem mais moderna que esperava,  afinal se trata do mais pobre dos países árabes. No aeroporto já tivemos o primeiro choque cultural, quando vimos que todos usavam seus turbantes e grandes facas na cintura. Por outro lado, no estacionamento tinham bons carros, e uma impecável avenida de 4 pistas que nos levou ate a parte velha da cidade. Saímos da pista que havia ficado abaixo do nível da cidade para entrar num dos acessos da cidade velha. Fomos andando por ruas estreitas ate que o taxista falou que o carro não passava mais. Fomos a pé, andando entre aquelas construções  com uma meia luz, muito show. Fomos num hotel indicado mas resolvemos olhar outros ao lado. Os preços não eram dos melhores, mas como já era tarde resolvemos ficar num deles. Hotel antigo, numa construção antiquérrima, mas cheia de estilo. Portas de um metro e meio e pé direito do quarto de uns três metros e meio. Vitrais em todos os quartos. Muito bacana.

Predio em Old Sanaa

Dia seguinte tomamos café cedo e partimos para explorar Old Sanaa. Muito bom andar sem destino, só seguindo pelas ruelas. As construções a primeira vista parecem todas iguais, o que torna fácil de se perder. Que bom! E a melhor forma de conhecer um lugar. Tínhamos combinado de fazer o check out as duas, então voltamos correndo para o hotel, pegamos nossas mochilas, e caminhamos ate Tahrir, no inicio da cidade nova. Aqui, diferente da maioria dos lugares, a parte nova da cidade e mais barata. Não demoramos para achar um hotel bacana muito barato. Fomos na região das embaixadas pois o Guru precisa de visto para entrar em Omã, nosso provável próximo destino. Brasileiros só carimbam na fronteira, mas foi bom para confirmar a informação  Legal passear na parte mais nova da cidade. Mesmo não sendo a minha preferida, faz parte da cultura local. Mesmo os táxis sendo muito baratos, resolvemos pegar micro-ônibus  só pela diversão.  Teríamos que fazer conexão e tudo, e ninguém falava inglês  muito menos nos falávamos árabe. Foi muito divertido! Legal de ver a hospitalidade das pessoas. Mesmo sem falar uma palavra em inglês vinham nos ajudar, se empenhavam. Nossa ideia rendeu boas risadas, tanto nossas quanto deles. Voltamos para a parte velha da cidade para curtir o final de tarde na região de um grande mercado. Muito show!

Detalhes

Nosso primeiro dia foi tao corrido que nem deu tempo de ir na policia nos registrar. Então no outro dia foi a primeira coisa que fizemos. Só o visto não adianta, tem que ir la, deixar copias do passaporte e visto, alem do endereço do hotel. Burocrático mais simples. Voltamos para as embaixadas e o Guro conseguiu convencer em receber o visto na hora e não em 2 semanas como estava propondo. Na embaixada do Iram foram muito atenciosos. Ele solicitou visto aqui e vai retirar em Muscat, capital de Omã. Brasileiro novamente não precisa.

Traje tipico

Devido a não frequência de ônibus e burocracia da policia, resolvemos alugar um carro com motorista para conhecer os arredores de Sanaa. Para isto visitamos varias agencias e negociamos bastante. Acabamos acertando com a agencia recomendada pelo embaixador do Brasil na Etiópia  que entendeu nosso “estilo” de viagem e nos deu vários descontos. No topo do hotel que ficava a agencia tinha um terraço com uma super vista. Tomamos um cafe e ficamos curtindo as chamadas das mesquitas que parecia uma sinfonia. Andamos para o outro lado da Old Sanaa até o portão principal. Subimos num local e ficamos vendo a movimentação do pessoal, alem das rodas de pessoas mascando Khat. Todos se vestem igual aqui. “Saia”, que e uma canga, lenço/turbante e cinto com faca. Para ver se alguém e mais rico não se olha a roupa, joias e sim o estilo da faca. Poucos usam o que chamaríamos de roupas ocidentais. Quando não estão com as roupas típicas estão usando ternos de veludo. Muito estilosos. Outro final de tarde gostoso e beem devagar.

Vista geral de Sanaa

Já tínhamos rodado bastante Sanaa e era hora de conhecer seus arredores. Fomos com nosso motorista ate um palácio que fica a uns 40 km do centro de Sanaa. Ele fica em cima de uma pedra. Bonito de se ver e com uma super vista la de cima. Passamos por diversas vilas, Thulla, Hababah eKawkaban, de onde andamos montanha abaixo ate Shiban. Todas com suas construções antigas, suas cisternas e historias. Em muitas delas existiam os bairros judeus, e as estrelas de Davi ainda estão nos vitrais e portas ate hoje. Os judeus do Iêmen também foram retirados numa super operação de Israel, chamada ” Operação tapete Magico”, e foram levados até a terra prometida. Algumas famílias judias ainda vivem em Sanaa.

Palacio

Sanaa e uma das cidades mais antigas do mundo, com povoamento constante. Dizem que foi construída por um dos filhos de Noé, logo apos o diluvio. Toda esta região foi parte do império de Axum da Etiópia, antes de serem conquistados pelos Árabes Muçulmanos.

Nosso voo para Socotra estava lotado e teríamos que esperar mais alguns dias por aqui. Fomos tentar pegar informação sobre os ônibus para Omã, mas a comunicação foi impossível. Sempre falavam que não tinham ônibus, indicavam outro lugar mas nunca dava certo. Frustrados fomos encontrar com o ED, jornalista canadense que mora aqui, que conhecemos no Couchsurfing. Batemos um papo e fomos ate o apartamento que ele divide com outros jornalistas. Ficamos no terraço  com Aquela vista de Sanaa, conversando sobre o pais e viagens. Ele e recém formado em Fotojornalismo, e morou os últimos 4 anos em diferentes países do oriente médio  Muito bom o bate papo, e pudemos ter um pouco mais de informações  pois a  dificuldade da língua estava nos privando disto. Ate então todas as informações que tínhamos era de pessoas ligadas ao turismo.

Fomos ate a policia pegar autorização para viajar por terra para Omã. Tudo com data certa e devidas copias que ficam nos controles ao longo da estrada. Fomos ate a agencia acertar mais um passeio, pois conseguimos marcar o voo só mais para frente.

Desta vez fomos para sudoeste de Sanaa, uns 100 km de viagem, passando pelas Montanhas Haraza ate chegar em Al-Hutyaib, Al-Hajarah e a fantástica Manakaha. Cidadezinhas paradas no tempo, penduradas nas montanhas. Em todas estas cidades encontrávamos alguém que falava inglês, e ficávamos conversando durante as caminhadas.

O tempo parou por aqui!!Mais de 3000 anos de ocupacao continua...

Que lugar!!

Toda a burocracia policial tem um porque. Tirando o sul que tenta uma independência de forma civilizada, existem 2 áreas de conflitos no Iêmen. Ao norte, perto da Arabia Saudita, na região de Sadah, existe uma guerra, entre o governo e grupos radicais islâmicos  Não se pode nem sair de Sanaa na estrada que leva a este local. Diariamente víamos aviões de guerra saindo de Sanna. Dificil saber o que acontece, pois reportes também são proibidos naquela região  mas provavelmente o governo esta bombardeando os extremistas, que tem apoio de outros países islâmicos  Já nas Montanhas Hadramout, rebeldes ligados a Al Qaeda tem feito guerrilha, e o governo tem dificuldade de controlar. São locais muito longe de onde vou passar, por isto não se preocupem. Turistas desavisados ou imprudentes foram vitimas destas guerrilhas. Poucos meses atras houve sequestro seguido de mortes de turistas alemães  Estes grupos radicais são contra o “ocidente’, por isto tem turistas como alvo, alem da mídia que atraem. O Iêmen teve um grande numero de participantes nos atentados de 11 de setembro.

Iêmen é um pais pobre, com um povo super tradicional e hospitaleiro. Existe uma previsão de terminar a água potável da região em poucos anos, o que causa um desespero geral na nação  O pouco petróleo que ainda resta também está no fim. Pena um país tão interessante culturalmente e bonito naturalmente, ser tão instável.

África, até logo.

Poucos dias antes de completar 6 meses de África eu estava saindo para o Oriente Médio. Não tem o que falar deste período a não ser o famoso ” se melhorar estraga”. Viajar pela Africa não e simples, e algumas pessoas me questionaram se eu não cansei. A resposta e simples. Não. Por um simples motivo:  a recompensa e muito grande!! Viajaria por mais 6 meses de volta pelos mesmos países que passei, ou pelo menos um ano pelo Centro e Oeste da Africa.

A África dos desertos estrelados, das savanas, da floresta tropical, das bonitas praias, dos lagos gigantescos, das montanhas, das línguas, das culturas, das vilas e das cidades. Dos animais selvagens, dos nem tao selvagens assim. Das estradas pouco percorridas, das novas estradas e infra estrutura. Africa de muita historia, muitas surpresas e de gente muito boa. Pessoas, sim o povo africano merece um destaque especial. Pessoas que fizeram eu me sentir em casa, mesmo estando muito longe. Hospitalidade nunca vista antes, que fez 6 meses parecerem poucos dias.

Gostaria de recomendar um livro para quem esta indo para a Africa ou se interessa pelo assunto. “Africa, the biography of a continent” do John Reader. Vi o livro a primeira vez na Ruanda, onde o Belga que conheci estava lendo. Falou que era difícil de achar e que tinha emprestado de uma biblioteca. Muito tempo depois eu por acaso esbarrei com um novinho, e comprei na hora. Na verdade acho que e fácil de achar, não sei se existe a tradução para português. São mais de 800 paginas, que cobrem desde a formação geológica, evolução dos homens, impérios, culturas, colonização, guerras civis ate o dia de hoje. Excelente leitura!!

Obrigado África

Precos altos, temperatura ainda mais alta.

Tive diferentes sensações e sentimentos no Djibuti, mas o calor foi com certeza a mais forte…hehe Êta país quente. Pra voçês terem uma ideia, os bancos trabalham das 7 as 10;30 e das 16:30 as 18. Impossivel fazer alguma coisa de tarde. As ruas ficam vazias, e as sombras cheias de gente deitada, mascando chat.

Da fronteira ate o centro da cidade foi relativamente fácil. Difícil foi ficar respondendo todas as perguntas em francês do oficial da imigração, isto que da passar por estas fronteiras não muito utilizadas. No caminho ate a cidade, três check point, onde tínhamos que descer do ônibus, apresentar passaporte a as vezes responder algumas perguntas. Toda esta segurança e porque existe uma grande base americana aqui. O Djibuti e um pequeno pais, e sua capital se chama Djibuti também. Existe um grande e importante porto. Com a base militar, e estrangeiros com salários americanos e europeus consumindo aqui, os preços dispararam. Por isto não foi difícil procurar hotel, já tínhamos a indicação do mais barato e fomos direto para lá.

A cidade tem seu charme, na arquitetura, no estilo. Os franceses capricham neste aspecto. Por outro lado, na nossa primeira saída para jantar, já vimos grupos de gringos bêbados, fazendo bagunça na rua, além de outros entrando em quartos com prostitutas. Dava para ver que o lugar já tinha recebido muita (ma) influencia. Tentamos achar algum restaurante mais barato, mas foi dificil. Então pelo menos arranjamos um com terraço e brisa, para aliviar o calor.

Foram dias muito devagar aqui. Logo nos adaptamos ao ritmo. Rápido mesmo foi tirar o visto para o Iêmen. Em 2 horas ele tava na mão, sem precisar de carta de embaixada nem nada. No mais foi ir ate o porto, descobrir de onde saia o barco para o Iêmen e voltar todos os dias para ver quando teria o próximo barco.

Eu e o Michael saímos para fazer 2 mergulhos. Junto foram 2 oficiais da Marinha Belga, que estão combatendo os Piratas. Alias está cheio de navio de guerra e até submarino para combater os piratas. Eles contaram que tem até um navio russo onde milionários pagam para atirar nos piratas! Vai saber se é verdade…

Navios anti-piratas

Navios anti-piratas

Mergulhamos num super naufrágio. Um navio alemão de 135 metros de comprimento, com mastros e tudo. Tá partido no meio e pudemos atravessar por este local. Muitos peixes e uma boa visibilidade. Agora sim!! Isto que eu esperava do Mar Vermelho!! E água temperatura de banheira, mais de 30 graus…

Equipe!

Equipe!

O outro mergulho foi em corais, com moreias e muitos peixes. Muito bom também. Com certeza foi o ponto alto de Djibuti. E o barco para o Iêmen parecia que não vinha. Perdemos um no primeiro dia, mas tínhamos que conhecer aqui antes. Resolvemos ir no Hotel Palace Kempinski, um super hotel !! Tomamos um caríssimo milk shake, mas com direito a ficar largados na beira da piscina por horas, só batendo papo e lendo.

Estilo...

Estilo…

Um dia fomos jantar com um Somali que estava no nosso hotel. Alias esta cheio de Etíopes e Somalis. Os Somalis são fáceis de reconhecer pois tem a pele bem escura e os olhos bem azuis. Notamos que no final do jantar ele discretamente colou seu nome, numero do quarto e hotel num pedaço de papel. A garçonete recolheu de forma ainda mais discreta. Cidade portuária e isto aí…

Com o passar dos dias fomos aprendendo onde estavam os lugares mais baratos, desta forma não ficou tao pesada a estadia por aqui. Trocar frutas por uma refeição até que foi bom num calor destes.

Mesquitas

Mesquitas

Centao de Djibouti

Centrão de Djibuti

Finalmente um lugar que nao pode!!

Finalmente um lugar que não pode!!

Logo entramos no esquema de dormir de tarde, quando esta quente demais para fazer outra coisa. Foi tudo devagar, mas ótimo para eu organizar as ideias, pensar sobre a viagem até aqui. Afinal de contas, foram mais de 6 meses, muitos lugares, muitas pessoas, muitas emoções. Também comecei a planejar as próximas etapas, e tinha que ver como e onde encontraria a Bibi.  O Michael partiu de trem de volta para a Etiópia, e o Guru segue comigo para o Iêmen, quando o barco chegar… Inshallah como dizem por aqui.

Filmes na África

Tenho citado alguns filmes nos posts. Resolvi então fazer uma lista com filmes e a referencia dos países onde se passa a historia. Seria legal se participassem, falando qual filme que viram, o que acharam. Caso lembrem de algum que não esta aqui, passem o nome por favor.

  • Os Deuses devem estar loucos – Botsuana (a referencia ao que não precisamos,representada pela garrafa de coca cola, mas passa a ser essencial em nossas vidas e excelente!)
  • Out of Africa – Quênia (Historia real, fomos na casa onde hoje é um museu)
  • O Jardineiro fiel – Quênia (Bom filme)
  • Hotel Ruanda – Ruanda ( Retrata bem a triste historia)
  • Diamantes de Sangue – Serra Leoa ( Utilizei muito o “TIA” -This is Africa- na viagem)
  • Gorilas das montanhas – Ruanda
  • Tsosi – Africa do Sul ( ganhou Oscar, bom hip hop)
  • Pátria proibida – Sudão
  • Mr Bones – Africa do sul ( Comedia, mas vale a pena para quem foi ou vai para a Africa)
  • O ultimo rei da Escócia – Uganda (ganhou Oscar, fala sobre o Idn Amin)
  • Duma-(historia de um menino q adotou um guepardo,paisagens lindas… – Clau)
  • A Sombra e a Escuridão –  Quênia (Val Kilmer e Michael Douglas participam da construção de uma estrada de ferro que passa pelo Rio Tsavo no Quênia e os trabalhadores são apavorados por 2 leoes que matam os trabalhadores….fatos reais.- Viezi)
  • Lagrimas do Sol- Nigéria (Bruce Willis é enviado para resgatar uma medica missionaria na Nigéria.- Viezi)
  • Rei Leão – Quênia –
  • Madagascar- Madagascar –
  • Masai Branca – Quênia (alemã que visita o Quênia e se apaixona por um guerreiro Masai)
  • Minha terra, Africa – (francesa que se recusa abandonar sua plantação de cafe apesar da guerra civil)
  • Sheena, a rainha da selva – Quênia
  • Lugar nenhum na Africa – Quênia
  • Africa dos meus sonhos – Quênia
  • Cheetah- Quênia
  • Em um mundo melhor – Quênia
  • Viagem ao grande deserto – Namíbia
  • Prey – Africa do Sul
  • Darwin’s Nightmare – Tanzânia (Sensacionalista, recebeu muitas criticas)
  • Amor sem fronteiras
  • Mandela, A luta pela liberdade – África do Sul
  • Invictus – África do Sul
  • O Senhor das Armas
  • Um Grito de Liberdade – África do Sul
  • O bater do Tambor – África do Sul
  •  Reporteres de Guerra – África do Sul – baseado em fatos reais sobre o the bang bang club- fotografos que cobriram os conflitos na africa durante o apartheid ( André A)
  •  Em nome da honra – Africa do Sul – baseado em fatos reais, policial branco investiga sul africano suspeito de terrorismo na Africa do Sul durante o apartheid (André A)
  • Maré Negra – África do Sul – filme que foca no popular passeio cage shark, onde turistas mergulham com tubarões protegidos por uma gaiola (André A)
  • Protegendo o Inimigo Africa do Sul – Filme de ação eletrizante rodado em Cape Town com Denzel Washington (André A)
  • The first grader – Quenia- baseado em fatos reais, sobre um ex combatente que decide aprender a ler aos 84 anos (André A)
  • A cor púrpura – teve algumas poucas cenas rodadas no Quênia (Andé A)
  •  Flor do Deserto – baseado em fatos reais sobre a vida da top model Warris Dirie na Somália (André A).

Ajudem a completar a lista.

Free Somaliland!!

Berbera era tudo o que precisávamos, um pouco de tranquilidade. Fomos ate o hotel indicado. Um hotel  muçulmano, com sua sala de orações bem no meio e ala separada para homens e mulheres. Hotel simples, mas impecavelmente limpo, a um preço de 2,5 usd por dia. Quando perguntamos se tinha banho quente o recepcionista respondeu que sim, mas meio sem jeito. Depois fomos descobrir que a água é temperatura ambiente, ou seja, a água fria mais quente do mundo. Mesmo de manha já está quente.

Já estava escurecendo, mas aqui não tivemos nem um problema em sair de noite. Pessoas nos cumprimentavam, eram simpáticas. Passei numa farmácia pois tava com um pouco de febre e fui super bem atendido por um Dr que fez questão de passar todo seu histórico escolar na Europa. Mesmo eu tomando 5 litros de água por dia eu estava um pouco desidratado. Pegamos a dica de um bom restaurante e saímos para procurar. Não encontrávamos e ao pedir informação, um moleque nos levou umas 10 quadras até o restaurante. Oferecemos um refrigerante e ele não aceitou,  disse que não precisava. Ainda perguntou se queríamos que ele fosse nos buscar. Me digam aonde existe algo assim? Inacreditável!!

O restaurante era na beira do mar, no Golfo do Aden, mas na parte do porto. Tinha um peixe gostoso mas as porcões eram pequenas. Bem, a coca-cola e a água estavam bem geladas! De lá caminhamos pelas ruas pouco iluminadas perto do porto. Passamos por pelo menos umas 15 mesquitas. Ao chegar na rua principal, vimos alguns camelos descansando tranquilamente debaixo de um poste de luz. Que astral este lugar!!

Cha e bate papo

Chá e bate papo

Acucar Brasileiro

Açúcar Brasileiro

Faz tanto calor aqui, que acordei cedo e não conseguia mais dormir. Tomei meu banho quente e saímos. Não demoramos muito para achar um lugar que servia chá. O chá aqui e com bastante leite, e poem outras coisas junto. Juntou bastante gente, e o lugar virou uma grande sala de reuniões, ou de entrevista. No canto tinha uma tv a cabo, com diversos canais. Ficamos conversando por um bom tempo, e as 9 da manha já estávamos pingando de suor. Interessante que chegavam, deixavam a sandália de lado para lavarem e sentavam. Andamos até perto do porto para descobrir mais informações sobre a viagem para o Djibuti. Não consegui meu visto para o Iêmen, então teria que ir para o Djibuti antes. A embaixada do Iêmen na Etiópia solicitou uma carta da Embaixada brasileira, coisa que o Embaixador Renato Xavier providenciou rapidamente (além de me dar dicas de viagem no Yemen). Acontece que quando voltei na embaixada depois do circuito histórico, estava fechada por uma semana devido ao final do Ramadã. Bem, procuramos caminhões, tentamos entrar no porto para ver se tinham barcos e nada. Tava cada vez mais abafado, insuportável. Resolvemos ir para uma praia logo no final da cidade, onde estão construindo um hotel resort. Nossa, que diferença. Lá tinha ate uma brisa, que apesar de quente refrescava. Fomos tomar o nosso merecido banho de mar. A praia inteira só para nós. Fiquei curtindo sozinho, afastado do Guru e Michael. Olhava aquela praia, as montanhas inclinadas ao fundo, e passava imagens tipo slide show dos últimos 6 meses. Fiquei mais de 2 horas na água, que estava com uma temperatura de 32 graus. Ainda apareceu um pessoal que começou a jogar bola. Um cara com seu traje tipico muçulmano veio falar com a gente. Ele falou que a Somalilândia não gostava de turistas e blablabla. Pior que sabia nosso hotel, e parecia estar hospedado lá. Bem, como não tinha muito o que fazer fomos conversando. Perguntamos se lia o Corão, e ele disse que sim, além de orar 5 vezes ao dia. Perguntamos sobre as passagens sobre o Rei Cristão de Axum ( Vejam este vídeo sobre esta estória), sobre o profeta Maomé falar que estrangeiros em terras islâmicas deveriam ser tratados bem, como um presente de Deus… Ele sabia tudo e nos contava empolgado. Acho que ele foi lembrando das palavras de Maomé e foi amolecendo. No final ate jogamos bola juntos, sob um sol de 42 graus.

Mar Vermelho com uma praia para mim

Mar Vermelho/Golfo do Aden com uma praia só para mim

Fomos até o hotel “resort” e chegou o Steve, Inglês que divide seu tempo entre a Inglaterra e a Somalilândia. É o único estrangeiro que vive aqui. Está ensinando a guarda costeira a mergulhar e montou sua base de mergulho no hotel para algum turista que aparecer. Ele mesmo confirmou que não ganha dinheiro com o turismo, que é mais hobby. Cobra 20 usd, o que deve ser um dos mergulhos mais barato do mundo. Marcamos para mergulhar no dia seguinte.

Conversamos bastante sobre a situação do pais, sobre o passado, perspectivas. Ele escreve para diversos jornais e revistas da Europa e USA sobre a situação politica da região. Conhece todo mundo do governo, e já sabia que estávamos em Berbera pois a inteligencia da policia ligou para ele perguntando se sabia quem eramos. Pelo jeito estávamos sendo observados de perto. O Ministro das relações Exteriores da Etiópia se hospedou neste hotel, e quando voltávamos para a cidade vimos uma cena de filme. Ele sentado tomando um refrigerante e vários soldados sentados em cadeiras de plastico virados de costas para o ministro. Ele veio intermediar os problemas ocorridos a 10 dias atrás (possível golpe de estado ou protesto resultando em mortes). Demos mais umas voltas na cidade antes de voltar para o hotel. De dia as ruas ficam vazias pois e muito quente, então ficam mascando qat na sombra. De noite saem, mas já não se entendem muito bem…hehe

Berbera

Berbera

Depois de um rápido chá e algumas frutas, fomos encontrar com o Steve para mergulhar. Como o Guru não tem certificação, o lugar foi bem básico então ficou devendo um pouco, afinal de contas estava no Mar Vermelho! O fato de um pequeno peixe leão vir para cima de mim, tentando me intimidar já valeu! Tinha uns restos de naufrágio também.

Depois de curtir a praia voltamos para a cidade para tentar agilizar a viagem para o Djibuti. Todos aconselhavam voar ou retornar a Hargeisa e de la ir para a fronteira, mas nos queríamos ir de Berbera para a Fronteira. Perguntávamos para varias pessoas na rua, e conhecemos um jornalista que nos ajudou um monte, além de nos entrevistar. Ele acha que ta cedo para publicar algo sobre turismo, mas pelo menos já tem alguma informação. Conhecemos um senhor no hotel que trabalhava no governo e tinha bastante contatos. Fomos até a policia de circulação, para ver se tinha alguém indo pela “estrada” que queríamos. Ficaram de retornar. Passamos na quadra esportiva que estava lotada, cheia de atividades. Logo encontramos aquele cara que tentou nos intimidar na praia. Ele estava todo simpático, e nos levou na rápida internet e depois para tomar leite de camela (bem ruinzinho). Quando souberam que voltaríamos para o hotel para jantar com o Steve fizeram questão em nos levar. Fomos escutando o corão em árabe. Ele falou que era para nos informarmos sobre o Islamismo e prometeu ler sobre outras religiões depois dos nossos bate papo. A criatura mudou da água para o vinho!

Jantamos com o Steave e 3 Chineses que moram em Adis-Abeba e voaram para o final de semana aqui. Adoraram nossas historias de viagens. O Jornalista ligou confirmando que seu amigo aceitou a contraproposta que fizemos para uma pick up nos levar pelo deserto. Passaram para nos buscar e acertar detalhes do dia seguinte.

Seguiríamos pela costa, por uma “estrada” pouco utilizada, atravessando o deserto. Passaram para nos buscar bem cedo e o carro era uma Land Cruiser descente. Tínhamos solicitado um guarda pois já tínhamos aprendido que era um super custo beneficio. Ao sair da cidade, o motorista errou o caminho e foi sentido ao final do porto. Quando vi estava o soldado abanando sua boina desesperadamente pala janela e alguém apontando um lança foguete para nos. Ops, acho que era área militar!!

A estrada era um verdadeiro areião, deserto para os dois lados e aquela vista para o mar. Sempre passávamos por cabras e camelos e seus devidos donos. Quando tínhamos rodado uns 60 km encalhamos pela primeira vez. Foi quando descobri que não tínhamos nenhum equipamento, nem os mais básicos como pá, corrente… Tivemos que cavar na mão, sob um sol de 40 graus. Tentávamos de tudo mas não adiantava. Depois de umas 3 horas finalmente conseguimos. Já estava claro que não faríamos a viagem num só dia, nem perto das 15 horas que estimamos. O carro encalhou mais algumas vezes, parecia Camel Trophy, mas fomos nos virando. Depois de um tempo encalhou de novo, desta vez nem se mexia. Tentamos um pouco mas já nos largamos exaustos embaixo de alguns arbustos. Agora era torcer que alguém passasse. Demoraram algumas horas, mas passou um caminhão no sentido contrario que nos ajudou, claro que sem cobrar nada, só para praticar o bem. No meio de toda esta história ainda acabou furando um pneu, portanto sem estepe dali para frente!

Deserto entre Somalilandia e Djibouti

Deserto entre Somalilândia e Djibuti

Buscávamos não usar a trilha, mas a parte de pedra ao lado. Até que funcionava, mas a atenção por buracos e relevo tinha que ser redobrada. Paramos para almoçar num pequeno vilarejo e nem preciso comentar o espanto do pessoal ao nos ver. Aqui o açúcar brasileiro e mais famoso que o futebol e um saco era utilizado para fechar a janela. Em Berbera já tinha visto que para eles açúcar e sinônimo de Brasil.

Mais um pneu que se foi...

Mais um pneu que se foi…

Mais quilômetros rodados, de lugares intocados, mais vezes encalhamos, mas sempre conseguindo nos virar, até que no final da tarde, com uma lua cheia saindo, foi mais uma “daquelas vezes”. Nem tentamos nada. Simplesmente tiramos algumas esteiras de palha, e nos largamos ao lado do carro mesmo. Como não tinha o que fazer, resolvemos descansar. Um tempo depois apareceu uma pessoa de uma vila não muito distante. Ele carregava uma pá e trouxe chá para nos. Trabalhou duro, tentando tirar o carro, mas foi em vão. Eu queria dormir mas quando via a situação, com aquele guarda dormindo abracado com a metralhadora só conseguia era rir.

Boa Noite!

Boa Noite!

Algumas horas depois passa outro caminhão para nos salvar. Conseguimos ir até a vila (meia dizia de casas) e tivemos que insistir muito para pagar o jantar para o cara que trabalhou por horas cavando. Ele dizia que era um prazer… Eu torcia que fosse churrasco de camelo, mas era de bode. Andamos mais um pouco depois do jantar e dormimos no meio do deserto. Dia seguinte de muita viagem, mas um pouco mais tranquilo, mesmo com mais pneus furados. Curtimos a paisagem e os lugares, até finalmente chegarmos na fronteira. Tivemos que esperar um tempo, pois estava fechada e só abriria as 4 da tarde.

Na imigração foram super gente boa. Ficava me questionando como o povo ocidental é ignorante quanto aos muçulmanos. Quando se fala em muçulmano muitas pessoas confundem religião com raça e com política.

Árabe não é sinônimo de muçulmano, pois existem árabes cristãos. O maior pais muçulmano do mundo é a Indonésia, que não é árabe. Muitos costumes atribuídos ao Islamismo são regionais, tribais e não religiosos. O Irã também é muçulmano, mas e Persa e não árabe. O Irã e uma republica Islâmica e não reconhece Israel como estado. Ao mesmo tempo existem judeus que vivem no Irã, em paz indo nas suas sinagogas, sem serem incomodados. Religião, ou o próprio Deus, é sempre bom, que estraga são os humanos…

FREE SOMALILAND!!!