Family Trip 2 – Litoral do Quênia

Até a fronteira, o ônibus aguentou bem, apesar das paradas não esperadas, para um ônibus direto.  Assim que entramos no Quênia, a estrada começou a ficar ruim, e foi piorando. A poeira entrava por tudo, e ate caia da caixa de som. A Bibi já tava com um bico gigante quando o ônibus parou pela primeira vez. Mexeram um pouco e seguiu viagem. Numa outra parada ela decidiu ir ao banheiro, o famoso “bush toilete”.  Como era savana, e a vegetação bem rasteira, tive que segurar uma canga para fazer “cabaninha”. Depois de seguidas paradas, o ônibus quebrou de vez. Me irritei um pouco com as reclamações e falta de espirito de aventura (quando decidimos não esperar para pegar o voo, saíamos do risco), e fui ler dentro do ônibus. Com tanto tempo de Africa, deixo vários detalhes passar. Para enriquecer um pouco mais, vou colocar aqui o e-mail que o Clau mandou para todos da família la no Brasil:

” … saímos de Arusha na Tanzânia para Mombasa no Quênia. Que aventura…Da fronteira da Tanzânia ate a cidade de Voi e uma estrada de terra absolutamente horrível. O ônibus que tomamos nada tem a ver com nosso padrão Marcopolo. Mas ao menos tínhamos poltronas individuais e que reclinavam razoavelmente. Mas a estrada tinha tantas panelinhas que o possante não resistiu e quebrou no meio do nada. Depois de algumas tentativas soubemos que não tinha como seguir viagem nele. Mandariam um outro que chegaria em 5 horas…A solução foi parar o próximo ônibus que apareceu e la fomos nos com todas as malas no corredor sobre sacos de farinha, batata, galinhas, etc… Cada um ficou num assento possível com bagagem no colo e rodeados de tudo o que se possa imaginar. Na minha frente havia uma mulher com uma vasta cesta cheia de ervilhas e aproveitava para debulhar enquanto o ônibus pulava pela estrada de pó. Ao lado uma outra tirou uma panela de barro de um baita saco e pegava as cascas de ervilha pra levar pra casa. Não cabendo nesta panela, tirou uma segunda do fundo do saco e encheu tb de cascas. No final socou tudo saco a dentro. Estava o Gui e eu na ultima fila com montanhas de malas e sacos nos separando da Bibi que estava uns 3 assentos adiante e a Monica que ficara mais pra frente do onibus sentada entre dois passageiros bem perfumados. E com as janelas fechadas. De vez em quando via que a Monica levantava o braco e eu respondia abanando pensando que tava dando tchau. Na terceira vez que levantou o braco vi que a cabeça dela tinha caído. Logo pensamos o Gui e eu que estava vomitando. Pulei por cima dos sacos e das malas do corredor pra chegar ate ela e ver que tinha desmaiado. O passageiro do lado queria abrir a blusa dela pra respirar melhor. Cheguei em tempo de evitar e mandei abrir as janelas pra entrar um pouco de ar. Todos queriam saber o que tinha acontecido. Disse que era problema de pressão baixa. Logo o da frente me passou um cartão de medico de ervas. Neste meio tempo havia entrado no ônibus um camelo que em altos berros apregoava remédios para o nariz, asma, figado, febre amarela, etc… Ate ofereceu um pó pra colocar na boca da Monica. Claro que não aceitei. La atras perguntaram pra Bibi que havia acontecido. Ela disse: She…desmaiou. What? Is she died? No only e fez o gesto com a cabeca caindo pro lado. Enfim depois de algumas horas de peripecias chegamos a Voi. Mas nao sem antes pagar nova passagem no trecho que usamos o segundo onibus. Em Voi pegamos um taxi que nos levou finalmente a Mombasa.”

Não foi fácil ver a Mãe assim. Sei que ela tem pressão baixa, já vi ela assim varias vezes, mas assusta. Alguns detalhes que o Clau não mencionou: O táxi, depois de carregado, não funcionou, por problemas de bateria. Ao pararmos para comprar bebidas, o motorista retirou rapidamente os adesivos da lataria do carro, pois não tinha autorização para sair do município.

Mombasa surpreendeu. Cidade festeira, cheia de Matatus (os dala-dala daqui) coloridos, com neons e dvds. Mesmo sendo de maioria Muçulmana, noitadas que seguem até o amanhecer. Entendi porque o Dimitri, francês que morava em Ibo-Moçambique, de vez em quando atravessava toda a Tanzânia só para chegar ate aqui. Gostaria de ter passado mais tempo por aqui, terra que também já foi dos portugueses. Seguimos pela costa ate Malindi, passando por diversas praias que mais parecem um pedacinho da Itália. Não, não é por causa do visual, e sim pela quantidade de italianos que veraneiam aqui. Tudo que e placa e escrita em italiano, e ate os guardadores de carro falam italiano para se comunicar com os turistas. De lá pegamos um Voo para Lamu. Inicialmente queria atravessar a África da Africa do Sul ate Djibuti por terra, sem pegar avião. A estrada não era longa, mas era pior que a que passamos. Como não estava mais sozinho, tinha que ser responsável. De qualquer maneira faria uma volta pelos países do Leste da Africa e retornaria a Tanzânia, e subiria tudo de novo por terra.

Ainda no “aeroporto”, comecei a conversar com um senhor alemão que puxou papo. Ele se interessou pela minha viagem, meus antigos empregos , minha formação, dentre outras coisas. Falou que era consultor de hotéis, e que também lidava com o mercado imobiliário. Contei das minhas novas empreitadas junto com o Geraldo, e até falamos de preços e oportunidades no Brasil. Chegando na pequena pista de pouso, ele contou que já havia vendido mais de 600.000 casas/terrenos durante a vida dele. Achei meio forcado, mas seguimos juntos ate Lamu, que fica em outra ilha. O barco estava o esperando, com toda uma comitiva. Ele nos deixou num bom hotel e falou que recomendava. Nos convidou para ir ate a casa dele em algum dos dias que estivéssemos por ali.

Chegada em Lamu

Chegada em Lamu

No hotel colocamos a negociação/choradeira para funcionar. Depois de espremer no preço, pediram para ligar para o dono para ver se era possível. Não e que o tal do aleãao que era o dono!!!

A chegada em Lamu e impressionante, cidade mais medieval que a Stone Town de Zanzibar. Alias, tentam comparar as duas ilhas que não tem nada a ver. Lamu e meio parada no tempo, sem carros, pequena, não tao turística , [praticamente sem praias também]. Cultura kiswahili borbulhando. Tem 25000 abitantes e 500 jegues, que são o transporte local. A primeira caminhada, já com o entardecer mostrou que não seria difícil se apaixonar por aquele lugar. Construções antigas, portas talhadas, pessoas andando de jegues nas ruas super estreitas, todas aquelas mulheres com seus véus negros e os homens mascando miraa e conversando. Fácil de entender porque era um patrimônio da Unesco.

Mediaval...

Medieval…

Pela rua

Pela rua

Mercado

Mercado

Ficamos alguns dias, mas eu poderia ter ficado semanas para explorar todo o arquipélago. Algumas ilhas mais distantes pareciam super interessantes. Todas as ilhas estão muito próximas do continente, e se estendem ate a divisa com a Somália.

Um dia na praia...

Um dia na praia…

Um dos dias fomos ate a vila e praia de Shela. Falavam que era até mais medieval que Lamu. Mentira!! (mais um furo do Lonely Planet e de seus seguidores…) Até podia ser no passado, mas hoje quase tudo foi derrubado. No lugar, ricos e famosos construíram casas se baseando na arquitetura local, mas muito estranho e artificial. Alguns deles: os donos da Olimpics, os da Peugeot, o príncipe de Mônaco, modelos e mafiosos italianos. O pessoal gostou, mas eu fiquei decepcionado. A praia também não tinha nada de mais. Fica o ponto alto para o momento que estávamos conversando na areia e passaram alguns Dromedários. O restaurante que almoçamos também tava delicioso (que novidade, todos os restaurantes são muito bons!!).

"de quem e este jegue..."

“de quem e este jegue…”

Sai da freente!!!

Sai da frente!!!

Em Lamu existem 2 museus (alem de outros menores), passeios de barco, dentre outras coisas,  no entanto o mais gostoso mesmo era caminhar sem rumo, só olhando o dia a dia deles. Lugar magico mesmo. Talvez um dia ainda tenha todas aquelas lojas e estrutura da Stone Town de Zanzibar, mas hoje ainda e bem isolada, ainda bem!

Porta

Porta

Um dia recebemos um telefonema do alemão, para irmos na sua casa. Uma bela casa, provavelmente uma das maiores da ilha. Fomos la bater papo, quando descobrimos que se tratava de um bilionário. Mostrou (de forma não muito humilde) folders de diversos empreendimentos, contou que era dono de Hotéis, campos de golf, cavalos de corrida, agencias de moda, cervejarias, Spas, condomínios… ha, ele não bebia porque voava o seu próprio avião quando estava na Europa. Fora as horas que parecia que era um professor de Deus, o papo foi legal, e passou por assuntos diversos e chegou ate a religião, telepatia, energia…

Porta estilo Lamu

Porta estilo Lamu

Tiveram varias “figuras” que fizeram parte da nossa hospedagem em Lamu. Um deles era o Charlie. O cara e um “doente”. Com uma voz de locutor, toda hora que nos via abria um sorriso e corria para arranjar uma flor para a Bibi e para minha mãe. Derrubou minha mochila no mar na nossa chegada, e um verdadeiro “chupeta”. Aquelas lendas urbanas, sabe?!

Masha, Eu e o "Doente" do Charlie

Masha, Eu e o “Doente” do Charlie

Já o Masha, nosso guia, historiador, amigo, RP do Hotel… Um cara que trabalha 16 horas por dia, sete dias por semana, e ta sempre com um sorriso na cara, super simpático. Mora numa casa junto com os outros funcionários do hotel, só vê a família a cada  60, 90 dias, e e uma pessoa super feliz. Aquelas lições de vida mesmo. Felicidade realmente e um estado de espirito.

"IAV, e nois ae..."

“IAV, e nois ae…”

Foi difícil deixar Lamu para trás. Olhávamos a pequena cidade quando atravessávamos o canal para a pista de pouso e já batia um gostoso saudosismo. A Bibi já em lagrimas, me fez ter certeza que apesar das reclamações que ela faz as vezes, ela esta no lugar certo, e muito feliz com todas as experiencias que esta tendo.

Saudades..!

Saudades..!

Voamos para Nairóbi, popularmente chamada de Nairobery. Comparam muito Nairóbi com Joanesburgo, pois e o centro econômico do leste da Africa, alem de ser uma grande cidade. Achei uma injustiça o que fazem com a cidade, pois mesmo não tendo tantas atracões, e uma cidade legal. Caminhamos pelo centro, e longe de termos qualquer problema. A cidade pareceu surpreendente limpa e moderna em algumas regiões. Claro que tem todos os tipos de bairros, e níveis de limpeza, mas isto acontece em qualquer grande cidade.

Tivemos que nos despedir da Mãe e do Clau. Nossa, muito difícil. Impressionante como com o passar dos anos nossos pais se tornam amigos e também grandes companheiros. Eles voaram para o Brasil, via Africa do Sul, e nos seguimos para Uganda…

Em terra de cego

Algumas fronteiras na África são distantes entre si, e e o caso do Malawi e Moçambique, onde existe alguns KM de ” Terra de ninguém”.  Para percorrer estes km fomos na garupa de bicicletas, com nossas mochilas, apostando corrida. Muito divertido. Os Alemães iam subir o Malawi por terra (depois de ter descido de barco),  mas quando me conheceram viram uma oportunidade de viajar comigo, por falar português. Viajar no norte do Moçambique já não é fácil  sem saber a língua fica tudo ainda mais difícil  O Moçambique e praticamente dividido em dois países  O sul e mais ” moderno” com muita influencia da Africa do Sul. Muitos sul-africanos tem negócios lá, casa de veraneio nas bonitas praias. Lá que ficam as industrias e tem uma relativa boa estrutura. Já o norte ( e ate dividido fisicamente pelo rio Zanbezi) e selvagem, isolado.  Em toda a minha estadia, não tomei banho nem um dia com água encanada. Só de balde! Transporte? Carona, Caçamba de caminhão e poucas ” lotações  sempre bem cedo, saindo entre 3:30 e 4 da manha. A expectativa era muito grande, primeiro pais estrangeiro que visito podendo falar português.

Ainda antes da fronteira encontramos um casal, Todd- Americano, e Eva- Espanhola, super legais,  que seguiram viagem com a gente. Apos uma pequena conexão em Mandimba seguimos para Cuamba. Poucas horas de viagem e o pneu furou, e não tinha estepe. Ficamos um tempo perto de umas casas, num lugar super isolado, ate arrumarem o pneu. Neste lugar elogiaram meu português  e queriam saber onde aprendi. hahaha Comedia. Conversando com um senhor que trabalha no Correio Moçambicano  perguntei sobre um boné da ” Vale” que ele usava. Contou que estavam investindo muito no Moçambique  e que ele ganhou um premio do correio e foi para o Brasil. Perguntei se tinha ido para o Rio, e ele me respondeu que não, que tinha ido para Curitiba. Mundo pequeno!!!! Foi até no Bar do Alemão no Largo da Ordem!!!! Seguimos viagem e algumas horas depois estourou o pneu, desta vez sem conserto. Como ja estava meio tarde, não passou mais ninguém na estrada, e tivemos que dormir por ali. Eu, Graham, Todd e Eva tínhamos barracas, mas o restante das pessoas tiveram que se abrigar num barracão de pau a pique que deveria ser um mercado. Comemos batata doce, unica comida disponível  No outro dia cedo já passou uma caminhonete e seguimos para Cuamba. Cidade no meio do nada, pequena, com um certo charme, ruas largas e algumas casas com arquitetura portuguesa. Parecia abandonada no tempo. Tomamos um bom “mata-bixo” (cafe da manha) e arrumamos uma pousada. Achei que depois de tanto tempo dormiria numa cama, mas para dividir custos acabei ficando no chão mesmo (a pousada era bem ruinzinha, e acho que o saco de dormir era melhor que a cama). O banho era de balde, mas aqueciam um recipiente com uma fogueira, então o banho era quente!

Estrada...

Estrada…

Banho de balde, mas agua quente.

Banho de balde, mas água quente.

Compramos algumas coisas num mercado de rua, e comemos por lá mesmo. Um prato de arroz, feijão e carne, na feira custava menos de meio dólar  Tinham me falado que o Moçambique era meio caro, mas depende aonde vc vai. Se bem que os preços das pousadas eram bem caros em relação a qualidade oferecida. As 5 saia o “Comboio” (trem) sentido Nampula.

Colocam até um ou outro carro nos vagões  de tao ruim que são as estradas. Pegamos uma cabine para nos 6, com 2 triliches.  O ” Comboio” e lento, mas passa por paisagens exuberantes. Vilas remotas, com dezenas de vendedores de tudo, galinha viva, assada, mandioca, bolos, frutas… O comboio quebrou, e esperamos algumas horas ate vir uma outra locomotiva. Passamos por lindas montanhas, e deu vontade de parar numa das pequenas vilas e explorar a região  Pena que ainda existam tantas minas terrestres, herdadas dos tantos anos de ” Guerra civil”, que terminou a 15 anos. Guerra Civil entre parenteses, pois a Renamo, apoiada pelos EUA e Africa do sul, era uma guerrilha mercenária, que atuava em diversos países.

Comboio quebrado

Comboio quebrado

Vendedores

Vendedores

Chegamos em Nampula ja de noite. Ao procurar um hotel, encontramos com 4 oficiais do exercito moçambicano, devidamente armados. Sabia que teríamos problemas, e rapidamente andei na direção deles e simpaticamente pedi informações  Enquanto falava com um deles, outro já foi recolhendo os passaportes, falando que teríamos que acompanha-los e blablabla. A corrupção da policia moçambicana e famosa. Depois de eu contar algumas historias tristes, que tínhamos sido roubados, que não tínhamos nem cartão de credito, acabamos sendo liberados. Ficamos num hotel, mas novamente dividimos um quarto e continuei sem dormir em cama.

Aha-Uhu, Moz e nosso!!

Aha-Uhu, Moz e nosso!!

ta em casa!

ta em casa!

Nampula é uma cidade bonita, relativamente “moderna”, não tem cara de vila. Mas quando descobri que e a terceira maior cidade do Moçambique  descobri a dificuldade que o norte do pais passa. Pegamos um” Machimbombo” (ônibus) para Ilha de Moçambique  com direito a ver camelos darem um corridão em policiais. Na viagem conheci um simpático casal de portugueses  que estão morando em Maputo (capital) e estavam de ferias. Conversamos todo o longo trajeto, e me segurei pra não contar nenhuma piada de português…hehe

Não acampamos propriamente na ilha, mas sim de frente para esta, que tinha uma praia mais bonita. Para a ilha, era só caminhar pela estreita ponte, curtindo todo o visual. A Ilha e um museu a céu aberto. Patrimônio da Unesco, já foi a capital dos territórios portugueses na africa. Devido as frequentes guerras com os Árabes  imponentes fortificações foram construídas.  Posteriormente, estes fortes foram utilizados para aprisionar os escravos, antes de serem levados da África e mais recente como prisão  na época da independência e da guerra civil. Para construir os fortes, utilizaram pedras da própria ilha, o que fez com que uma parte seja muito mais baixa, como se fosse um buraco mesmo.

Ilha de Mocambique

Ilha de Moçambique

Mais Ilha de Moz

As ruas são super estreitas, e e uma pena que as construções estejam em péssimo estado de conservação  salvo algumas exceções  Os locais reclamam que devido o isolamento não recebem muitos turistas, e os que vem, ficam pouco tempo, não deixando muito dinheiro. O potencial do lugar e incrível, mas tem muito ainda a ser feito.

A Ilha já não tem muitas praias, e as que tem, são usadas como banheiro pelos locais. Uma pena. Ate vi alguns mais higiênicos andando com suas pás para enterrar as necessidades… Hilário!!

Ilha de Moz

Camping que ficamos

Perto do camping tinha uma pequena vila, onde descobrimos um mercado noturno. Comemos frutos do mar, batata doce, mandioca, salgados  e pães, tudo por menos de 1 us$. Os locais riam muito, pois eramos brancos e estávamos comendo com a mão  sentados no chão  e eu falava ate português. Muitos vinham conversar e ficamos um bom tempo la.Tínhamos que fazer uma conexão em Namialo, para pegar o Machimbombo que saia cedo de Nampula para Pemba. O problema era que as lotações param a cada km, e provavelmente não chegaríamos a tempo. Decidimos alugar um caminhão só para gente, e para reduzir custos, acertamos que só pararíamos quando quiséssemos  e o dinheiro seria para abater o que pagamos. Deu certo, chegamos a tempo, pagando um preço razoável. Seguimos para Pemba, importante cidade portuária da região norte.  Da cidade pegamos carona ate um cruzamento e outra com um motorista de van da Universidade Católica ate a praia de Wimbe. Inacreditavelmente não tivemos que pagar, coisa incomum aqui. A bonita praia de Wimbe já tem alguns Resorts, mas ficamos mais no canto sul, onde e mais isolado e calmo.

Wimbe

Cuidado para não ficar encalhado no Malawi

Quando estava indo para o Malawi escutava muita gente falando para tomar cuidado para não ficar ” encalhado” la. Logo entendi porque. O Malawi é carinhosamente apelidado de ” coração caloroso da Africa” (odeio estas traduções) e faz jus ao apelido.

É um país pobre, muito pobre. Um dos mais pobres da Africa, e consequentemente do mundo. Sofreu uma das ditaduras mais longas, do então ” presidente ” Banda. Um cara que proibiu mulheres de usar mini saias e calças compridas. Os homens foram proibidos de ter cabelos compridos, dentre outras coisas. A censura era muito grande em vários aspectos, mas mesmo assim, o Papa e a Margaret Thacher visitaram o país e não falaram nada contra este sistema, muito pelo contrario.  Hoje os tempos são outros e houve uma inversão de valores daquela época. O clima é super amistoso e existem rastafaris por todos os lados.

Vindo da fronteira da Zâmbia, arranjamos transporte ate uma pequena cidade  e de lá, junto com meia duzia de zambianos, acertamos com um ônibus para nos levar ate Lilongwe. Ao entrar no velho ônibus estilo escola americana peguei no sono rapidamente. Acordei não muito tempo depois, e nem havia percebido que algumas jovens haviam entrado em alguma parada no caminho. O dia estava amanhecendo e elas cantavam musicas locais, estilo coral. Eu meio confuso pela falta de sono, com o dia nascendo e aquela musica maravilhosa, que durou as próximas horas. Entendi claramente aquela expressao: ” De chorar!”

A entrada em Lilongwe parecia um pós guerra. Muitas pilhas de lixo sendo queimadas, naquela parte antiga da cidade, com uma nevoa,  que apesar de ser crista, possui algumas torres de mesquitas que se destacam ao céu. A estação de ônibus é hilaria. Uma bagunça, nem parece uma capital. Só passamos no caixa eletrônico e já pegamos um ônibus para o Lago Malawi.

rodo

O lago Malawi é o terceiro maior da Africa é o sétimo maior do mundo. Tentaram apelidar de lago calendário, mas não pegou. São 365 milhas de comprimento (dias no ano), por 52 milhas de largura (semanas no ano) e 12 rios que desembocam nele (meses no ano) e e o sétimo maior lago do mundo (dias da semana). Água transparente, no maior clima de praia.

Senga Bay foi nosso primeiro destino, pegamos ônibus + caçamba de caminhonete para chegar la. Acampamos de frente para o lago. Lugar muito tranquilo, bonito e não tinham outros estrangeiros, o que deu um charme ao lugar. O lago era lindo, mas foi o povo que chamou a atenção neste lugar. Todos paravam, conversavam, te levavam para cima e para baixo. Ninguem te pede dinheiro ou algo assim. Te levam para os lugares porque querem companhia, praticar o inglês, receber bem as pessoas.  É difícil de acreditar, pois a região é muito pobre. No início estranhei, pois as vilas de pescadores pareciam favelinhas, mas adorei andar pelas ruelas, me perder sem me preocupar. Um dia compramos algumas coisas no mercado de rua, alugamos uma canoa, e remamos ate uma ilha relativamente próxima para fazer um piquenique lá. Em pouco tempo ja tinhamos muitos amigos, e as criancas nos adoravam. Vinham, andavam de mãos dadas, brincavam. Algumas pequenas choravam ao nos ver. Os Muzungus (homem branco) sao assustadores para elas. Tinha um figura, bêbado conhecido, que é nascido no Moçambique. Ele adorou falar portugues comigo, e falava bem alto que nos dois eramos da mesma tribo. Descobri que na região que ele morava, na província do Niassa, ele era orador, encarregado de fazer os anúncios oficiais. Encontrei ele outras vezes e sempre me diverti. Arrumei um restaurante local que tinha arroz e feijão, e comi quase todas as refeiçoes lá. A proprietaria ficou suuuper feliz, e eu tambem. Comida boa pelo menos 4 vezes mais barata que no camping.  Numa noite tinham algumas casas passando filmes de DVD. Num era musical, no outro era Duro de Matar 2. Incrível!! Esta era minha piada favorita quando morava em Sengés, que os lançamentos na locadora eram Titanic e Duro de matar, e aqui era realidade!!!

Cores...

Cores…

Amigos

Amigos

Um dois, feijao com arros...

Um dois, feijao com arroz…

Costurando o Ziper da Barraca e comendo ovo

Costurando o Ziper da Barraca e comendo ovo

Decidimos ir para Nikata Bay, mais ao norte. A diversão começava.  Uma caçamba de pick up ate Salina (com um freezer novamente), mini ônibus, mais uma caçamba de caminhão e outro microonibus. Numa das viagens tinha um senhor, todo alinhado, de terno e gravata, com um galo na sacola. Pena que este (e muitos outros) momentos não da para tirar foto, pois quebra totalmente o clima, eles te veem com outros olhos.

Difícil de acreditar que não estávamos no litoral. Total clima de praia. O proprio lago formava uma baía que parecia um mar azul esverdeado. Existem alguns morros e chales pendurados entre estes e o lago. Muita gente do mundo inteiro, encalhados no Malawi. Viajantes que chegaram para alguns dias, e acabaram ficando semanas, ou meses. Aqui encontramos alguns insistentes vendedores de artesanato, o que não estávamos acostumados. No final das contas ate fizemos bons negocios com roupas velhas. Nunca pensei que uma camiseta desbotada do Che seria tao disputada. Tem um rasta figura que alem de vender bonitas pinturas, tem um “restaurante”. Na verdade são algumas cadeiras, mesa, num puxadinho atras da barraquinha dele, tudo com um super visual, tochas e velas. Ficamos encalhados ali por uns dias também, nadando, pegando sol,tomando cerveja barata, comendo peixe, de bobeira esperando o barco que ia para o sul. Um dia preparei uma caipirinha, com cachaça mesmo (não, não é brasileira), e fez o maior sucesso. Acabaram tomando 2 litros, no sistema “tubão”, passando de um para o outro. O cara do bar, que lembrava o saudoso Musum, ficou emocionado (era aniversario de 55 anos dele). Um dos dias Fizemos um mergulho bacana. Parecia um aquario com muitos peixinhos coloridos. Um chamou atenção. Quando se sente ameaçado, coloca todos os filhotes na boca para proteger.

Nikata Bay

Nikata Bay

Mercado de rua

Mercado de rua

Vida dura!!!

Vida dura!!!

Rastaman

Rastaman

On a shoestring

Não fui muito original na minha passagem pela Zâmbia. Assim como a maioria, apenas passei por este país, nao explorando muito. A Zâmbia, diferente dos últimos lugares que estive, é um país muito urbano, não possuindo muitas cidades/vilas na região rural.

Da fronteira fomos direto para Livingstone, lado da Zâmbia da Victoria Falls. Cidade que vem crescendo muito, por causa do caos economico do Zimbabue, que antes recebia a maior parte dos turistas. Sempre ouvi falar muito daqui, e imaginava que a infra-estrutura seria melhor. Ficamos no simpatico Jollyboys Backpackers. Nao vou colocar fotos, mas segue o site: www.backpackzambia.com e deem uma olhada.

A quantidade de agua das quedas estava bem acima do normal, criando uma nevoa, nao dando para ver o final da cachoeira. Para chegar aos pontos de melhor vista, só se encharcando, portanto sem fotos (mas encharcado!!). Muitos turistas europeus e muitos jovens mochilando (alguns esquecendo por que vieram e ficam só bebendo na piscina.

Vic Falls

Vic Falls

Que tal um mergulho?

Que tal um mergulho?

Ponte Zambia x Zimbabue

Ponte Zambia x Zimbabue

Quando estávamos saindo para Lusaka, a Landy quebrou novamente. Ja estava claro para mim que era hora de partir. Acabava a etapa de viajar de carro e iniciava o Shoestring. A Landy foi excelente, nos levou a lugares que poucos carros 4 x4 chegariam, exploramos a Africa mesmo. Mas agora tinha que partir. Peguei um ônibus para Lusaka, e o Grahan e Tomas também partiram, mas com planos diferentes.

Eu tinha que ficar em Lusaka até conseguir o visto para o Malawi, e o Grahan também ficou para pegar o do Moçambique. O Tomas seguiu direto pro Malawi onde entraria com o passaporte italiano. Como chegamos num final de semana, o centro da cidade estava bem diferente, calmo. Foi bom para nos acostumarmos com o lugar. Domingo andamos muito, e descobrimos que teria um jogo da “suburbana”, Lusaka CC X Chipata. Fomos lá e nos divertimos muito. Eramos a atracão local. Ao tirar algumas fotos e fazer videos perguntaram se eu era olheiro.

Lusaka CC x Chipata

Lusaka CC x Chipata

A cidade não tem nada de especial, alguns marcados interessantes, mas o povo da Zâmbia como um todo dá um show a parte. São muuuito simpáticos. Chama atenção mesmo depois de ter passado pela Namíbia e Botsuana, onde eram muito legais também.

Na segunda feira, assim que a embaixada do Malawi abriu, la estava eu tentando pegar um visto. Uma senhora nem um pouco simpática me pediu varias cópias de documentos, e foi uma correria. Falou que demoraria uns 5 dias e já estava pensando em ir direto pro Moçambique. Sei que no final das contas acabou dando tudo certo, e depois de muita conversa consegui para a hora do almoço, arrancando até um sorriso da antipática senhora.

Em algum lugar em Lusaka

Em algum lugar em Lusaka

Deu tempo de comer num delicioso restaurante indiano e correr para a rodoviária onde pegaria um ônibus até a fronteira. Ônibus lotado, com direito a passageiro carregando freezer, alem de varias caixas no corredor (algumas com pessoas sentadas em cima). Na metade da viagem paramos numa vila que tinha uma feira de rua. Já estava escuro e tudo era iluminado com velas e tochas. Muitos peixes fritos e frutas diferentes. O Grahan foi no banheiro e o ônibus partiu. Eu corri e subi no ônibus em movimento. Só consegui convencer o motorista a parar uns 3 km depois. Mas deu tudo certo.

Chegamos de madrugada em Chipata. Íamos dormir no ônibus ate de manhã, mas arranjamos um jeito de ir ate a fronteira (alguns km dali). Já estávamos procurando lugar para acampar quando percebemos que a fronteira era 24 horas e não até as 18 como o guia dizia. Seguimos para o Malawi de madrugada mesmo.

Botsuana

A Botsuana é um país com uma população ainda menor que a da Namíbia  País que possui um sistema educacional, de saúde, econômico e político super desenvolvido, de dar inveja a qualquer outro país na Africa (além das ótimas carnes!!). O deserto do Kalahari toma boa parte do território, enquanto o Okavango delta é a principal atração ao norte. Entre 15 e 20 anos atrás, a Botsuana vem desenvolvendo um turismo exclusivo, de baixo impacto. Tem funcionado super bem e a procura é muito grande, apesar dos altíssimos preços. Um Lodge custa no minimo 700, 800 USD por dia para duas pessoas. Os mais refinados passam de 5000 USD por dia (com direito a safári aéreo!). Sendo assim, são muito poucas opções para quem não está disposto a gastar todo este dinheiro. Para nós, que carregamos tudo que precisamos, não é um problema, e é possível se virar bem, a custos bem baixos. Para manter o baixo impacto, mesmo com pessoas que viajam como nós, restringem o numero de acampamentos dentro dos parques para Camp sites. Excelente, ótimo acampar sem vizinhos. Ah, e parecem ter escutado as minhas reclamações dos campings nos grandes parques. Os daqui são super simples, sem estrutura e sem muros ou cercas, deixando os animais passarem livremente, inclusive no acampamento. A Botsuana é um pais com a vida selvagem super bem conservada. Aqui precisa se preocupar mais em não ser atacado por um leão ou pisoteado por um elefante do que ser assaltado. Só se tem acesso aos parques com 4×4, e se pode ate reservar algumas rotas, onde só passa um carro por dia.

Ao cruzar a pequena fronteira, que parecia um portão de fazenda, seguimos por pequenas e arenosas estradas. Mudamos um pouco nossa rota para passar por uma vila de Bushman. Estes não vivem conforme todas as tradições antigas (caçadores nômades , mas são relativamente isolados. A recepção foi super boa, e no inicio estranhamos o fato de pegarem nas nossas mãos e nos levarem para passear de mãos dadas. Era dia de festa, tinha musica e muitos estavam bêbados  Descobrimos que o time de futebol do exército da fronteira estava lá, para um jogo. Curtimos muito esta parada, dia de celebridade. Descobrimos que o caminho que estávamos indo estava intransitável, mesmo para 4 x 4, e voltamos para o plano original. No caminho a porta traseira de Landy se abriu sem que percebêssemos  dentre algumas coisas, caiu minha “day pack” com dinheiro, cartões  fotos, etc. Rodamos uns 10 km ate percebermos que tinha caído. Ao dar meia volta acabou o dísel e tivemos que pegar do galão de reserva. Neste meio tempo só passou só uma caminhonete no sentido contrário. Ao voltarmos, estava tudo lá, jogado no meio da estrada. Ufa!!

San people

San people

Maun

Maior cidade da região  onde muitos organizam seus safáris  Ficamos um tempo aqui para descansar mesmo, alem de lavar roupas e organizar o equipamento. As ultimas semanas tinham sido de muita correria. Ficamos no Old Bridge Backpackers. Lugar com um bom bar/restaurante, de frente para o rio, com almofadas e sofás espalhados, onde ficamos largados escutando jazz e lounge. De noite todas as mesas com velas, num super astral. Tinha ate uma piscina, pois no rio as vezes aparece um crocodilo ou um hipopótamo.

Old Bridge Backpackers

Old Bridge Backpackers

Moremi

Imaginem um parque onde:

–  3 vezes tivemos que parar o carro e ficar em silêncio, pois estávamos cercados por manadas de elefantes (mais de 50 elefantes cada!!)

– Corremos de um hipopótamo quando estávamos vendo o por de sol e este não gostou. No caminho no camping cruzamos com Antílopes correndo em outra direção  mas nem nos importamos e desviamos uma cobra Puff Adder (se não morrer com a picada, perde a perna) pouco antes da barraca.

– Acordamos de noite com rugidos de leões e depois com hienas.

– De manha tivemos o acampamento invadido primeiro por pequenos macacos, depois por Babuínos  que “tocaram” os macacos de lá e tomaram posse ate do carro.

Tudo isto em 24hs.

Que e que manda neste acampamento?

Quem é que manda neste acampamento?

Pathfinder

Puff Adder

Elephant Xing

Elephant Xing

Os 40 km que separam o Moremi do Chobe não são nem um pouco menos selvagens. Muito pelo contrario. Avistamos muito mais animais nesta região que nos parques. Quando estávamos fazendo um lanche numa sombra, apareceu um elefante que veio se aproximando com cara de que não gostou, e saímos um disparada. Acampamos pouco antes da entrada do parque Chobe, e pegamos muita lenha para fazer fogo suficiente para a noite toda. Criamos a linha da vida, que era a linha da luz. Onde estava escuro representava perigo. Pouco antes de dormir, subimos na Landy com holofotes  e vimos uma hiena a menos de 10 metros das barracas, só de olho. Pouco depois um hipopótamo passou por ali também.  De noite mais rugidos de leões  e uma hiena curiosa veio cheirar a barraca. Eu tive até pesadelo com tanto barulho a noite.

Africa...

Africa…

Que bela cagada!! (havaianas numero 43!!)

Que bela cagada!! (havaianas numero 43!!)

Alguem sabe qual e o lado da frente e o de tras do formigueiro?

Entrando no Chobe não muito longe dali, avistamos 7 leoas, que provavelmente foram as responsáveis pela barulheira da noite anterior. No parque do Chobe além de fazer mais safári  subimos uma pequena montanha, que e raridade na Botsuana, que é praticamente toda plana. Lá existem algumas pinturas rupestres muito antigas.

A noite em volta da fogueira, escutamos um barulho de animal a poucos metros de nós. Todos correram para o carro, e eu fiquei parado por segundos com uma cadeira de praia na mão para me defender (haha) até correr para o carro. Quando passam 3 Honey Badgers. Pequenos animais (pouco maior que um gamba), que são valentes, mas não atacam, só se defendem. Caímos na risada.

Arte

Arte

Okavango Delta

Okavango Delta

Mais Okavango

Mais Okavango

Leoas

Leoas

Restante do trajeto foi 4×4, nao passando de 25, 30 km por hora, ate chegar numa estrada asfaltada de ótima qualidade e seguirmos para Kasane, já quase fronteira com a Zâmbia. Em Kasane eles não tem muitos cachorros vira lata, mas no lugar tem Javalis largados na rua.

Seguindo para o ferry para a Zâmbia pude perceber que a Off Road Trip tinha terminado. Toda a natureza e isolamento seria trocado por caminhões, ônibus carros, gente, muita gente e diversas cores.