O vale Kalash e o (quase) encontro com os Talibans.

Ninguém sabe ao certo de onde vem o povo Kalash. Uns falam que são descendentes do Alexandre o Grande e de seus soldados, devido a sua aparência “europeia”. Na verdade sempre habitaram os vales do Afeganistão e Paquistão  Toda região ate a India e abitada pelos hindo-europeus, portanto de mesma origem. Os olhos azuis sao muito mais comuns pelo sul da asia do que se imagina.

Todo mundo sabe muito bem de onde surgiram os Talibans. Estudantes de escolas islâmicas  que foram treinados e equipados pelos EUA para atacar a URSS, que na época tinha invadido o Afeganistão  A guerra fria acabou, os Talibas tomaram o poder, mas nao eram mais interessantes para os EUA. Fizeram alianças com a Al Queda, e se tornaram o inimigo numero um do ocidente.

Acordamos cedo para pegar o ônibus Natco. Era confortável (para os padrões paquistaneses), e cada um tinha sua poltrona. A viagem prometia ser longa, e acabou demorando mais que o planejado. Muitas paradas para registro do passaporte, e ate uma rapida parada para almoçar  Nos surpreendemos  pois estávamos em pleno Ramadan e tinham muitos muçulmanos ismailis (que não jejuam) e também xiitas, que em viagens longas quebram o jejum, adicionando dias a mais no Ramadan ao seu final. Apenas os sunitas seguem rigorosamente as quatro semanas.

Aquela paisagem fantástica que estávamos acostumados continuava, com um destaque para o passe Shandur. Chegamos em Mastuj já tarde, e foi só buscar um lugar para dormir e capotar. O Koich veio com a gente, e mais um outro japonês que ele encontrou também veio junto.

Madrugamos novamente e fomos ate a rua principal procurar um jipe que fosse ate Chitral. Conseguimos o banco da frente, mas nao foi menos sofrido. Logo entendemos porque os ônibus não vão a partir dali. Algumas partes da “estrada” era praticamente off road. Barrancos de barro, trechos super estreitos entre pedras e precipícios e por ai vai. Chegamos em Chitral e estava muito quente.

A cidade e bem empoeirada, cheia de gente e as buzinas pareciam ecoar na nossa cabeça  Depois de arranjar um lugar para ficar, fomos fazer o registro na policia local. Super simpáticos  ficamos conversando e vendo as estatísticas das pessoas que visitaram o município nos últimos 10 anos. Foram menos de 400 pessoas, sendo que 3 brasileiros. Nos explicaram que só poderíamos ir ate o vale Kalash com escolta, devido a proximidade do Afeganistão  Estrangeiro e tratado que nem rei por aqui, pois eles não podem correr o risco que alguma coisa aconteça e piore ainda mais a reputação do pais. Eu sou contrario as escoltas, pois acredito que viajando sozinho não se chama atenção  já com uma escolta, caso exista um problema, ele sera grande. Os únicos dois casos de problemas nos últimos 10 anos foram com estrangeiros que trabalhavam em ONGs, e moravam na região durante anos.

Encontramos um casal de franceses que havíamos conhecido em Karimabad, e eles reclamaram bastante da escolta. Mas eles não eram parâmetro  pois tinham uma interação com as pessoas meio conturbada, e pensavam de uma maneira bem unilateral, pareciam que tinham começado a viajar ontem. Demos mais uma volta pela cidade, e com o final da tarde chegando, as barraquinhas de comida ficaram lotadas. Chitral parecia um formigueiro! Estávamos quebrados de tanta viagem, e fomos descançar e bater papo numa ótima varanda.

Centro de Chitran no final da tarde

Ao acordarmos, na frente da nossa porta ja estavam os dois policiais que nos escoltariam. Super simpáticos  sorridentes, mais não falavam inglês  Eram meio novatos, e não pareciam poder nos ajudar muito, mas de qualquer forma, encaramos como uma forma de interação  Caminhamos ate o local onde pegaríamos transporte, e desta vez sob vários olhares das pessoas. Eu estava certo, sozinhos eramos bem mais invisíveis na multidão  Nada de ônibus  e no terreno baldio estava o Koich, o outro japonês e mais dois policiais aguardando acharar mais pessoas para fechar um transporte.

O Vale Kalash na verdade são três pequenos vales. Escolhemos ficar no ultimo deles, Rumbur, mais isolado e tipico. Nos outros ja tem muito kalash que se converteu para o islamismo, e a vila cresceu muito, perdendo suas caracteristicas proprias. Umas tres horas depois estávamos no vale escolhido. Pequeno, bonito, com casas agrupadas em diversas partes das montanhas. Ficamos na casa de uma família Kalash, o que ja foi facilitando para aprender sobre seus costumes e tradições.

Um fato curioso e que todas as mulheres “impuras” tem que ficar numa casa especifica, ate estarem puras. Impura significa menstruada, e quando vai ter filhos. Perguntei o porque e ri muito com a resposta. Segundo nosso anfitrião, as mulheres quando entram no período  ficam estressadas, nervosas e causam problemas na família  Uma casa só para elas e a solução  Ele ainda complementou que neste período  elas também não tem muito “uso” hahah. Os homens todos concordaram que uma casa desta poderia ser introduzida em outros lugares com grande sucesso!!!!

Os franceses tinham comentado que a escolta ficava grudada o tempo todo, mas não foi bem assim. Estavam todos descansando e aproveitei para sair com um dos filhos do casal. Andamos pela vila, conheci o improvisado campo de criket, mas não pudemos jogar por falta de bola. Fui na casa de um primo deles que tinha casado na noite anterior. Conheci algumas pessoas e descobri que e muito comum meninas casarem com 13 ou 14 anos. Andei praticamente a vila toda, passei pela parte muçulmana  e fiz o controle de documentos sozinho. Depois de horas vi um dos soldados da nossa escolta num posto de controle no topo de uma montanha. Só abanei e ele tranquilamente abanou de volta. O lugar e único  isolado do mundo, com características bem peculiares. O lugar era tao calmo, que horas pareciam dias. Novamente tínhamos uma varanda, com vista para a parte sul do vale, onde fazíamos nossas refeições.

Caminhando pela vila

Parte da vila Rumbur

Os outros dias, como saímos todos juntos, acabamos não escapando da escolta. Os Kalashs ficavam revoltados com a escolta, e tinham razão  Fomos na escola, e as crianças tinham que ficar olhando para soldados com metralhadoras enquanto interagiam conosco. No inicio estavam tímidas  mas como só tinha um professor para quatro salas, tomamos conta de uma delas. Incentivamos e logo elas estavam cantando, fizemos a maior bagunça. Depois das musicas tipicas, os meninos nos acompanharam em gritos de Brasil, Brasil; Pakistan, Pakistan e e claro, de Coxa, Coxa!!

Escolta e crianca nao combinam!

Caminhamos entre as casas, fomos convidados para tomar chá  e bater papo. Muitos Kalashs são bem tímidos  mas outros adoram uma foto e interagir. Caminhando pela vila, muitas vezes acharam que eu era paquistanês  por causa da roupa tipica. Rimos muito com isto. Apesar da vila ser pequena, ela é espalhada, então podíamos dividir as caminhadas por regiões.

Fomos no topo de uma das vilas, lugar sagrado para eles, onde tem uma ótima vista, inclusive do Afeganistão  que fica a dois dias de caminhada. Crianças vieram interagir, e outras pessoas contar sobre a tradição do povo Kalash (que e politeísta . Sei que acabamos em outra casa, e quando vi já tinham colocado toda a roupa tradicional na Bibi. Nos ofereceram bastante vinho, bebida bem comum por aqui, o que e bem atípico para o Paquistão, onde e proibido bebida alcoólica.

Se tem uva tem vinho…

Bibi Kalash

Uma noite acordamos com a pousada tremendo. Saímos do quarto e vimos que foi um curto, mas intenso terremoto. Voltamos e um tempo depois tremeu novamente. Dias depois vimos que chegou a 5.4 graus, e com epicentro não longe dali. Foi um susto, mas não foi o único.

Na manha seguinte eu e o Jonny queríamos ir para Bumburet, a principal vila. O Jonny queria mandar noticias e eu visitar o pequeno museu que conta das tradições locais. Foi aquela dificuldade para arranjar transporte, já que nenhum carro passava. Já pensava em ir a pé, ou substituir o programa por alguma parte da vila nas montanhas aos arredores, quando vi um clima de tensão entre os soldados da nossa escolta. Eles conversavam entre si e pareciam não saber muito bem o que fazer. Vieram me explicar que Talibans atacaram um posto de fronteira do Paquistão  matando dezenas de soldados. Outras dezenas de Talibans também foram mortos. Tudo isto a 60 km de onde estávamos  Tínhamos que evacuar a área o mais rápido possível, pois ali não teríamos proteção se comparado com Chitral, a cidade ao lado que chegamos, que contava com uma forca militar que esmagaria os talibans em um minuto. Mas já tínhamos perdido um bom tempo buscando transporte sem sucesso, e agora não seria diferente. Tentamos mais um pouco e seguimos a pé mesmo, com os soldados nos escoltando. Depois de um tempo apareceu uma caminhonete, e pegamos carona. Estávamos nas intermináveis curvas com precipício  quando de trás de uma curva cega, vem um senhor correndo e gritando. O pessoal da caçamba traduziu para nos, mas a Bibi e Jonny estavam na boleia, e não sabiam o que estava acontecendo. Logo depois seguiram três explosões. Os dois quase morreram de medo, achando que os talibans estavam ali na frente!!! Na verdade estavam só dinamitando umas pedras para aumentar a pista. Cômico, mas acho que eles se borraram…

Taliban?

Cacadores de Taliban!!!

Chegando em Chitral, fomos na policia entender sobre a segurança  Nos tranquilizaram, e foi algo bem pontual na fronteira. O exercito era o alvo. Muitos paquistaneses nos contavam historias que não era o Taliban e sim a OTAN. Segundo eles a OTAN quer sempre culpar o Taliban para justificar uma invasão  Mesmo com a garantia dos policiais de que a estrada era segura, fomos dar uma olhada nos voos. Não são voos comerciais, e sim um pequeno avião do correio, mas vendem espaço se sobrar acentos. Eu não estava muito satisfeito com a decisão do grupo, mas ate que seria uma boa experiencia voar entre as montanhas. No final das contas o escritório estava fechado, e acabamos indo de ônibus mesmo. Os soldados já estavam nossos amigos, e apesar de em Chitral andarmos sozinhos, depois do incidente eles nos acompanharam ate o ônibus de manha. Sabíamos que era uma viagem longa, mas não imaginávamos o que vinha pela frente…

No inicio foi tudo igual, aquela paisagem fantástica  e ate uma estrada relativamente boa. Depois a estrada piorou, iniciamos uma subida sem parar ate o passe Lawari. A temperatura caiu, e o friozinho foi bem vindo. A paisagem ia mudando e logo fomos interceptados por uma caminhonete.  Soldados entraram no ônibus  e achamos que era só mais um controle. Desta vez não pediram nossos passaportes e sim os documentos de todos os passageiros que nos acompanhavam. Nos explicaram que estávamos entrando no município de Dir e que nos escoltariam a partir dali.

Onibus escoltado

furando fila!

La fomos nos com uma escolta, na frente do ônibus  Iniciei um papo com o motorista, que não estava gostando nada da situação  A escolta não estava deixando ninguém entrar no ônibus  o que daria um grande prejuízo  Passamos por vilas, muitas delas cinematográficas  Mulheres de burcas azuis, mercados movimentadíssimos  e ate um engarrafamento de carros e animais misturados. Para meu desespero e vergonha, nossa escolta ate ligou a sirene. Agora sim poderíamos ser um alvo. O motorista virou para mim e disse. “Ali do outro lado moram muitos talibans”. Eu sabia que passaríamos bem perto da fronteira com o Afeganistão  e concordei, falando: “Ah, do outro lado das montanhas já e o Afeganistão ” Ele disse: “ não, do outro lado do rio.” Era um rio pequeno, praticamente seco, cheio de pontes, e comecei a odiar ainda mais a sirene. O motorista comentou que todo mundo sabe, mas ninguém consegue controlar. Imaginei que deve ser uma situação parecida com o trafego na favelas do Brasil. Ele continuou com um discurso pro-taliban. Afirmou que a explosão da mesquita que ocorrera semanas antes nunca seria ação do Taliban, pois estes eram religiosos, e não atacariam uma mesquita, numa sexta-feira, em pleno mês sagrado do Ramadan. No passado ate guerras eram interrompidas neste período  portanto mesmo os paquistaneses que adoram uma teoria da conspiração (tipo que o Bin Laden ja morreu ha quatro anos), mostra que tem alguma coisa estranha.

Mudávamos de distrito, e as escoltas mudavam. Iniciou uma serie de revezamentos, foram sete no total. Nos aproximávamos de uma caminhonete parada, nossa escolta parava, e a nova entrava na frente do ônibus  Os passageiros estavam se divertindo, se achando super importantes. Um deles falou ao Joao e Marco que foi uma das viagens mais legais que ele já fez haha. Quando cruzamos cidades maiores, ganhamos algum tempo escapando do congestionamento. E assim seguimos  adiantar horas d viagem, com paradas so para rezar, ja que comer não era possível por causa do jejum. Comíamos nossos mantimentos discretamente, e ninguém reclamou.

Chegamos perto da moderna auto estrada e nossa escolta parou. Só abanamos e seguimos pela estrada de três pistas cada lado, de dar inveja as estradas brasileiras. Com o por do sol paramos para a oração e desjejum. O motorista e os passageiros estenderam um tapete em frente ao ônibus  comeram frutas e sucos e rezaram. Algumas filas de carro pararam atras fazendo o mesmo. Todos riam do dia que passou e nos ofereciam insistentemente comida. Chegamos tarde em Rawalpindi, pagamos um pouco mais para diminuir o prejuízo do motorista e fomos buscar um lugar para descansar!

fim do Jejum

O Vale de Hunza, o Pequeno-Tibet e o maior paredão do mundo!!

Karimabad e o mais próximo de um destino turístico no norte do Paquistão  e e fácil entender porque. A vila tem uma super vista para gigantescas montanhas (com destaque para Rakaposhi), ótimas caminhadas, uma forte cultura do hospitaleiro povo Hunza, deliciosa comida, e ainda muita historia.

A região tem muitos hotéis  mas quase todos vazios. Todos reclamaram muito que depois do 11/09 o turismo no Paquistão despencou. Os hotéis baratos (2 usd por pessoa) não estavam lotados, mas tinha bastante mochileiros. Encontramos algumas pessoas que estavam no ônibus que veio da China, como o excêntrico  figura rara, tcheco de 72 anos (e que já viajou para 155 países!!!), alem do nosso amigo japonês Koich, que encontramos pela terceira vez desde o Quirguistão  Como ficamos alguns dias, fizemos novas amizades, encontramos couchsurfer e nos sentimos em casa!

Já que estávamos bem no meio da montanha, tudo era subida ou descida. Não demoramos muito para visitar o antigo forte-palácio da região. Fica no topo da vila, e ficou ativo durante 800 anos, ate que com a chegada da KKH, caíram as monarquias. Os antigos reis receberam títulos simbólicos, mas ate hoje são idolatrados por muitas pessoas. Muita gente não se sente paquistanes por aqui, e sim hunzo. O forte-palácio e muito bonito, e com influencias tibetanas claras. Fácil de associar sua fachada com o palácio Potala de Lhasa. Isto ocorreu porque um príncipe de Hunza se casou com uma princesa de Skardu, região hoje a leste do Paquistão  e que antes fazia parte do império tibetano.

Hunza Fort

Em outras vilas vizinhas existem ainda outros palácios menores, e do outro lado do vale, atravessando o rio, ficava outro reinado, o rival Nagir, oponente de tantas guerras. Verão e época de diversas frutas, mas a especialidade da região são as ameixas amarelas. Misturam na comida, secam, fazem diversos pratos. Aproveitamos para nos abastecer destas frutas para fazer uma das caminhadas mais longas que encaramos na região. Subimos ate o Ultar Meadow, uma pastagem verde la no topo da montanha, atravessando cachoeira, penhascos e muita subida com pedra solta. Já estávamos relativamente alto, portanto num ar rarefeito. O Jonny teve que mostrar bastante superação  parecia um filme, mas encarou ate o fim. O visual inacreditável, o caminho desafiador, mas valeu cada uma das 7 horas. Teve gente que descobriu que tem medo de altura ao caminhar pelas “passarelas” na beira do abismo…haha

passarelas

unico caminho

no topo de Ultar Meadow

Tempo mudou rapido

A Bibi aproveitou para ler, na cama de chá especialmente virada para as montanhas. Passamos bastante tempo largados ali também  e as refeições com todo mundo junto era um momento a parte. Nosso prato favorito era o Chiken Karay, que intercalávamos com outros pratos para não enjoar.

esta vista custa dois dolares!

Numa de nossas caminhadas o Marco fez um amigo, que deu uma roupa de muçulmano para ele. Já estávamos pensando em comprar, mas como o Ramadan aqui é mega relax, nada de lenço na cabeça para a Bibi, dava ate para sair de bermuda, estávamos adiando. Esta parte de Hunza e de maioria Ismailis também, mas nem todo o vale e assim. Nos horários de reza, e principalmente no horário da ultima (ainda bem de madrugada), e primeira refeições (ao por de sol), as mesquitas cantavam alto, e de forma bem longa. Paralisávamos olhando para o horizonte como se estivéssemos hipnotizados, era de arrepiar!!

Um dia decidimos descer montanha ate a vila de Ganish, na beira da KKH. E uma cidadezinha mega antiga, com casas tradicionais, mesquitas todas trabalhadas em madeira e um lago como “praça” principal. Alguns antigos caravansarais ainda estão la, e a madeira onde os cavalos (ou camelos) eram amarrados continua ali, gasta de tanto ser usada. Fiquei pensando se o Ibn Batuta ou o Marco Polo amarraram seus cavalos ali. Existe um interessante sistema de refrigeração para alimentos, utilizando água gelada da montanha canalizada. Foi o primeiro lugar onde mulheres chamaram a atencao da Bibi por causa da roupa. Ali eles eram sunitas, e o mês sagrado do Ramadan deveria ser respeitado.

Caravansarai em Ganish

Em um outro dia, em vez de descermos, resolvemos acompanhar os canais, andando horizontalmente pela montanha. Passamos por casas de pedra, crianças jogando criket com pá, trabalhadoras no campo com roupas suuper coloridas. Muitas pessoas paravam para conversar, nos convidavam para entrar. Era final de tarde, e o lugar tinha uma magia no ar. A Bibi virou e disse: “sera que não poderíamos vir morar aqui, ou pelo menos passar uns meses?” Eu respondi com um ar de vitorioso: “ue, você não tinha medo de vir para o Paquistão? Não era um lugar perigoso?” Voltamos já estava escuro, andando pelas pequenas vilas e seus simpáticos moradores.

interacao nas vilas

Hunza faces

Chegou o dia de partir, mas como nos que comandamos, resolvemos ficar um dia extra, só aproveitando o lugar. Conversando com o Koich, decidimos fazer parte da viagem juntos, já que nos demos bem e nos encontrávamos toda hora mesmo.

De Karimabad fomos para Aliabad e de la para Gilgit, maior cidade da região norte do Paquistão  Gilgit funciona como uma capital, alem de ser barulhenta, movimentada e empoeirada. Ah, também havíamos descido bastante, portanto estava beem quente.

mais caminhões decorados pelo caminho

Comprei meu novo modelito, e eu com barba já estava passando por paquistanes. Gilgit ja e bem maior, principalmente comparado com as vilas que passamos, mas também não dava para ser chamada de cidade grande. Ainda e um mundo a parte do Paquistao. O esporte favorito no norte do pais e o polo. Mas não e um polo de playboy não, e um polo vale-tudo, onde a porrada come solta. Os campos de polo passaram a ser referencia nos mapas das cidades maiores que passamos ainda na região norte. A bravura não esta só nos esportes. No topo da montanha uma homenagem aos Gilgit Scouts. Formados pelos ingleses, foram os heróis da resistência e luta contra os indianos na disputa da Kashimira. Mesmo em menor numero, conseguiram garantir 30% da Kashimira para o Paquistão  mas este assunto eu comento mais para a frente.

Nos arredores de Gilgit ja tem muitas ruínas budistas, mas a maioria dos sítios budistas estão perto de Skardu, no estado de Baltistan, que significa Pequeno-Tibet. Na verdade o budismo chegou na China, e até mesmo no Tibet, passando pelo norte do Paquistão  Na região passa o sagrado rio Indus. A Viagem ate Skardu foi bela (como sempre), perigosa devido os desfiladeiros, mas especialmente dolorosa pelo micro-ônibus lotado e horas de duração.

Alem dos lugares de interesse de Skardu, a cidade seria ponto de partida para os Deosais Plains. Juntos com o Koich poderíamos alugar um jipe só para nos, já que não existe transporte publico para la. Depois de muitas discussões (saudáveis) com outros viajantes durante o jantar e uma noite bem dormida, estávamos prontos para negociarmos o transporte. Logo arranjamos um jipe e fomos para o mercado comprar comida para os próximos dias. A Bibi e o Jony compravam frutas enquanto eu fui cercado por locais, onde tivemos altas conversas. A maioria da região e de muçulmanos shiitas, e quando contei que tinha ido a Mashaad e falei sobre os Imams foram ao delírio. Não acreditavam como eu podia saber a historia da religião deles. Foi muito divertido!

paquistaneses em Skardu

Andamos pelas ruas caóticas  descolamos as barracas e sacos de dormir e estávamos prontos para partir. Nosso motorista colocou sua musica favorita, que repetia “Ali, Ali, Ali…” e cantamos empolgados. Mal sabíamos que ele ia repetir a musica umas 50 vezes, ate enjoarmos. Passamos por lago, mais postos de controle e subíamos sem parar. De repente, parecia ser mais um passe, aonde depois de uma subida viria uma descida, tudo mudou. Chegamos nos Deossais, estávamos a 4 mil metros de altitude, mas em vez de um descida, um planalto! Andamos por pequenas trilhas, atravessamos rios ate chegar em um rio com uma ponte suspensa. Era o lugar onde acamparíamos.

Infelizmente estavam construindo uma ponte de concreto ao lado, o que fazia o lugar perder um pouco do estilo. Sem contar que estava cheio de acampamentos dos operários  Mas de qualquer maneira o lugar era super calmo, bonito, e quando veio a noite, um céu espetacular!!!

A quatro mil metros de altitude a temperatura despencou rapidamente. Tínhamos sacos de dormir bons, mas as barracas emprestadas eram furadas, e tivemos que colocar grampos de roupa e fita para fechar os buracos. Quando chegou a hora de partir o jipe não funcionou. Tivemos que esperar mais algumas horas, ate a temperatura subir o suficiente. Se Deosai já estava bonito, depois de passarmos por mais rios, e outros lagos ainda mais bonitos, iniciamos uma descida com um suuper visual. Passamos por vilas e mais vilas. Estávamos sem mapa, mas nosso motorista foi pedindo informação e conseguiu chegar onde queríamos, Tarashin.

 

Estávamos muito na duvida se vinhamos para cá ou se íamos para os Fary Meadows. Ambos sao na base do pico Nanga Parbat, o oitavo maior do mundo. No Fary M., face norte, alem de alugar outro jipe, teríamos que caminhar três horas ate o local onde dormiríamos  Diziam ser mais bonito, ou pelo menos mais verde. A maioria das pessoas vão para la. Mas a face sul, a Rupal face, tinha um apelo maior (literalmente). Era o maior paredão de um campo base ate o cume, com mais de 4500 metros.

Não nos arrependemos. A vila tinha só duas pousadas, sem energia elétrica e claro. Já tinha um baita paredão bem de frente para os nossos quartos, mas sabíamos que não era o cume que estávamos avistando. Teríamos que contornar a montanha. Acordamos cedo, e logo estávamos atravessando nosso primeiro glacial, rumo a vila de Rupal. Só um amontoado de casas, muitas plantações e mulheres com roupas coloridas. As mulheres não conversavam conosco, nem deixavam tirar fotos. Já os homens eram super simpáticos, nos convidavam para chá, e teve um Sr. que ate colheu umas verdura para nós.

Rupal Faces

O Sr que colheu verduras para nos

A caminhada apesar de longa, não era difícil, pois era quase totalmente no plano. A Bibi nos acompanhou desta vez e adorou. Teve toda esta questão cultural antes de chegarmos ao acampamento base. O paredão nem parecia tao alto, mas tínhamos perdido a referencia. Tentando calcular com proporções e analisando melhor, vimos que grandes construções eram migalhas ao lado da montanha. Fizemos piquenique olhando aquela pequena pastagem com yakes, escutando os estalos seguidos de avalanche. Ainda sob o efeito da perda de perspectiva, decidi andar sozinho ate um glacial. Parecia perto, mas demorou um bom tempo. As flores, a neve branca e o barulho da montanha davam uma sensação fenomenal. Logo vi que poucos metros dali tinha outro glacial, que escorria da montanha e passava bem atras de onde estava o pessoal.

Nanga Parbat!

Na volta, passando pelas vilas, a Bibi ficou um pouco mais para trás  para ver se melhorava a interação com as mulheres. Deu certo!! Foi cercada, perguntavam mil coisas, cantaram, pediram para ela cantar. Eu tentei tirar fotos de longe, mas era um momento para ser curtido, não fotografado. Depois de muita insistência para ficar, ela partiu. Crianças foram seguindo ela ate nos encontrarmos. O entardecer ja chegava, e paramos no glacial para pegar gelo. Pratica comum. As pessoas vem com uma sacola, limpam a parte de cima do gelo, quebram pedaços para levar para casa. Quem precisa de geladeira?

so para mulheres

aprendendo a levitar

Depois de 13 horas estávamos de volta, tomando uma coca gelada com gelo do glacial. Durante a noite não dormimos, fomos desligados! Recuperados, estávamos prontos para seguir viagem. Lá estávamos nos, cedo para pegar o jipe comunitário ate Astor.

com nosso amigo Koich

Caminho pelo vale de Astor e muito bonito e chegando lá tivemos uma surpresa. Sempre estavam sendo super honestos a respeito dos preços, não tínhamos nem que nos preocupar. Desta vez o motorista resolveu cobrar o famoso “preço para turista” (primeira e unica vez no Paquistão, 10 vezes o combinado). Acabei com ele! Iniciei com um “vc vai cobrar mas caro de nos por sermos estrangeiros? Este não foi o preço combinado  então e roubo. Vc vai nos roubar em pleno mês sagrado do Ramadan???” Nisso ja juntou varias pessoas, todos dando opiniões  Terminei apontando para o céu e dizendo “ Alah esta vendo. Será que somos diferentes de vc ou somos todos iguais?” A multidão que tinha se formado me apoiava e pressionou ate o motorista ceder todo envergonhado.

Mais um ônibus  desta vez bom, ate com ar condicionado (ok, não funcionava direito) e voltamos para Gilgit, onde encontramos amigos suíços que não víamos desde o Uzbequistão.

Seguir pela KKH ou sair do caminho novamente? Tínhamos uma decisão a tomar.

KARAKORAM HIGHWAY (KKH)

Karakoram Highway e um daqueles lugares que merecem ser escritos com letras maiúsculas  São 1200 km, ligando Kashgar ate quase Islamabad. O inicio da construção da estrada começou no final dos anos 60, mas a estrada só ficou pronta 20 anos depois. Pronta? Na verdade ela nunca vai ficar completamente pronta. Assim como na transamazônica  a natureza busca recuperar o território perdido, e se não fizer grandes manutenções anuais, a estrada desaparece.

A Karakoran passa entre algumas das maiores cadeias de montanha do mundo. Montanhas de 7 mil metros tem por todos os lados e com mais de 8 mil, não são raras. Foram construídas mais de uma centena de pontes, e a obra custou a vida de outras centenas de pessoas. A estrada só fica aberta pouco mais de quatro meses por ano. Devido a sua altitude, grande parte dos passes ficam totalmente cobertos de neve. No verão não existe garantia de poder viajar por ela dentro de um horário programado. Os deslizamentos de pedra são muito comuns, e numa estrada entre as montanhas e penhascos, não existe uma segunda alternativa…

KKH

Após avistarmos a primeira bandeira do Paquistão  no passe Khunjerab, a quase 5 mil metros de altitude, iniciou uma descida espetacular em zigue-zague. Nem dava para notar que tínhamos entrado na mão-inglesa, pois a estreita pista (teoricamente de duas mãos) era ocupada completamente pelo ônibus  Para fazer as curvas, não foram poucas vezes que tiveram que dar a re. Ao longo do caminho, alguns trabalhadores tentando recuperar a estrada, mas com picaretas e pás… Parecia obvio quem seria o vencedor da batalha homem x natureza. Algumas vezes tivemos que parar o ônibus para retirar pedras que rolaram no meio da pista. Para viajar por aqui, deve-se esquecer o numero de km que se vai percorrer. A contagem deve ser em horas, não em Km. Mas em plena Karakoram, eu não tinha nenhuma pressa em chegar! Passávamos por montanhas incríveis, penhascos assustadores, e por dezenas de glaciais.

Glaciais na beira da estrada

tinha uma pedra no meio do caminho…

Já estávamos enturmados no ônibus. Um senhor de Peshawar (carinhosamente apelidado por nos de Osama) me adotou, e ficamos conversando um tempão  Me convidou para ir a sua casa, deu o telefone e pediu para tirarmos fotos juntos. Numa parada na entrada de um parque nacional, aproveitamos para esticar um pouco as pernas, e o motorista para trocar o pneu furado. Chegamos na pequena, mas movimentada, Sost. Já viajávamos há muitas horas no Paquistão  mas só agora a imigração seria feita. Oficiais mega simpáticos  tiramos nossos vistos no meio de muito bate papo e declarações de “ Sejam bem vindos ao Paquistão”.

Jonny no meio da confusão de quem não pagou o 

ônibus

Eu, “osama” e amigos

A cidadezinha em si não tem nada de mais. Só a rua principal, com hotéis simples e restaurantes. Cidade de fronteira, né. Mas foi nosso primeiro contato com os caminhões do Paquistão  São todos decorados, tunados, muito estilosos!! Procuramos um hotel por ali, mas descobrimos que tinha uma parte antiga da cidade, ha poucos quilômetros da onde estávamos  Não pensamos duas vezes antes de fugir do barulho. Lugar simples, mas com uma vista sensacional!! Um casal de espanhóis nos acompanhou. Acabei nem comentando, mas no nosso ônibus tinha cerca de 10 estrangeiros. No caminho para Sost velha conhecemos um Sr. Tcheco (que era uma figura) que também foi junto com agente.

Vista de Sost velha

Quem quer viajar pela KKH tem que acordar cedo, ou se não, arcar com os custos de um transporte particular, comprando todos os lugares. Depois de uma longa viagem não acordamos cedo o suficiente, mas como não eramos poucos, conseguimos arranjar um transporte ate nosso próximo destino, Passu.

Passu e outra vila cortada pela KKH. Para chegar ate la, mais montanhas, pontes, precipícios  glaciais. Nosso hotel ficava bem de frente para montanhas pontiagudas. Queríamos sair para fazer umas caminhadas curtas pela região  mas o tempo fechou e tivemos que ficar no hotel mesmo. Restaurante bom, o pessoal comeu, e aprovou, carne de yak pela primeira vez. Eu já tinha comido no Tibet, e sabia o que esperar. Alguns paquistaneses e uma inglesa estavam no mesmo hotel, e ficamos conversando bastante, trocando informações e pegando dicas. Não sabíamos se o tempo ia melhorar, então acabamos seguindo com eles mais para leste, nos afastando da KKH. Há poucos km de Passu um posto de controle, onde tivemos que deixar todos nossos dados num livro. Rotina que foi muito comum pelo Paquistão. Trocava de município, novo registro era feito.

A estrada ate Shimshal tem só 50 km, mas demorou 18 anos para ficar pronta. Tiveram que cortar a rocha das montanhas para poder passar um jipe. Algumas horas de viagem, por curvas e precipícios de dar um frio na espinha. Alguns dos glaciais que passamos tinham mais de 60 km de comprimento! Muita poeira, e outros glaciais ficavam totalmente negros. Atravessamos pontes suspensas, rios, e chegamos na vila, que parecia um verdadeiro oásis no meio das montanhas.

estradas para Shimshal

Toda a região norte do Paquistão era completamente isolada antes da construcão da KKH. Claro que existiam caminhos antigos, onde os viajantes passavam de camelo, burro e cavalo, mas eram viagens muito longas. Era o braco da rota da seda que ligava a India. Em toda esta regiao existiam diversos reinados independentes, ate 40 anos atras. E possível verificar as diferenças ate hoje. Língua  etnia, costumes e tradição mudam de um vale para outro. Shimshal e toda de pedra. Os muros para proteger as plantações de verão dos animais estao fortes e firmes há não sei quanto tempo. E uma viagem no tempo. O povo e Gojal, muito simpóticos, descendentes de Tajiks.

Gojal faces

Ficamos numa casa tradicional de um Sr muito gente boa. Nesta região eles são muçulmanos ismailis (uma ramificação dos Shiitas), e não jejuam no Ramadan. Pedimos logo um prato tipico. Veio uma gororoba que não foi muito bem aceita. O tiozinho ficou meio assim com quem não comeu, e virou meu melhor amigo depois de eu limpar três pratos. Depois, nas outras refeições fui sempre o primeiro a ser servido.

Caminhamos pela vila, subimos em pequenas montanhas entre o bem feito processo de irrigação  para ter uma vista melhor do lugar. Fantástico  A noite caiu, e num lugar sem energia elétrica não preciso nem descrever como estava o céu, né?!

Shimshal

Muita conversa, mais informações  historia, comida (as próximas foram apreciadas por todos), caminhadas e estávamos madrugando para pegar o transporte de volta para Sost. O jipe de comunidade sai lotado, e nos enfiaram no meio. Horas chacoalhando, esmagados, com descida somente para atravessar rios gelados, quase arrebentaram com os joelhos dos Sopranas.

Ventava muito em Sost, e cancelamos a caminhada entre os dois grandes glaciais da região  Mas como eles não eram longe, são na beira da estrada, almoçamos na frente de um deles. Depois nos dividimos, Jonny e Bibi voltaram para o hotel, e eu e o Marco decidimos enfrentar o tempo ruim, e caminhar ate a ponte suspensa. Não e muito longe, mas o vento era forte, e a probabilidade de chover grande. Contornamos montanhas, por caminhos bem estreitos, quase sempre ao lado do rio (muitos metros acima, e claro). Já nos questionávamos se estávamos no caminho certo quando vimos alguma coisa. Parecia só uma corda indo de um lado ao outro do rio, mas alguém atravessava, com comida para os animais nas costas, então tínhamos certeza que estávamos perto.

Passu

A ponte foi carinhosamente apelidada de “ponte do Indiana Jones”. Existia um espaçamento bem considerável entre uma tabua e outra, e balançava muuuito. Ficamos nos divertindo um bom tempo, atravessando de um lado ao outro, parados no meio sem as mãos, tirando fotos, ate que a chuva veio. Chuva fina, quase não atrapalhou. Voltamos tranquilos, vendo as montanhas por outro ângulo, descobrindo novos glaciais. Fizemos uma parada na vila para pegar informação sobre o transporte e tivemos noticia sobre uma greve. Há dois anos houve um grande deslizamento, praticamente uma montanha desabou bloqueando o rio, e formando um grande lago, interrompendo a KKH. O governo não tem tomado atitudes sobre o caso. Muitas pessoas perderam suas casas, e milhares ficaram isoladas. Houve um protesto violento (ok, não tanto quanto o de Londres), mas queimaram um ou outro prédio publico e duas pessoas morreram. Depois do episodio a policia fugiu e os barcos pararam de funcionar no lago, unica ligação até o outro lado da KKH.

Fizemos diversas “ reuniões”, e decidimos que deveríamos atravessar o lago assim que pudéssemos  mesmo que para isto tivéssemos que pular o Lago Borit e a vila de Gulmit. Não poderíamos correr o risco de ficar isolados em Passu, mas também não poderíamos seguir caso os protestos continuassem. Era esperar para ver.

Ao acordar deixamos as mochilas prontas, e ficamos só esperando a informação chegar. Estávamos na beira da estrada, então seria fácil de ver o movimento caso estivesse liberado. Recebemos informação de que liberou, depois outra dizendo que não. Mudamos os planos umas cinco vezes, ate que um carro veio do sentido contrario. Tinham acabado de passar, e confirmaram que os protestos acabaram. Era a informação que precisávamos  de alguém que esteve por la. Os transportes passavam lotados, e quando digo lotados, ‘e com algumas pessoas no teto. Encontramos um amigo nosso que nos levou ate o barco por um preço local.

La chegando tinha uma família que estava fretando um barco,  fomos juntos navegando entre as montanhas. Pena que o tempo estava fechado. Dava para ver que a agua era transparente, e se tivesse sol estaria tudo azul. Um Sr. foi apontando onde estavam as vilas, hoje submersas, e listando o numero de casas e vidas que foram perdidas. Muito triste, e fácil de entender os protestos pelo descaso do governo.

parte onda a KKH foi interrompida pelo lago

Depois de um bom tempo, chegamos a terra firme, no exato lugar onde o rio foi bloqueado. Pegamos um jipe, que mesmo com 4×4 parecia não vencer as ladeiras de barro na beira dos precipícios  Preciso descrever como era a estrada a partir dali? Logo chegamos no Vale Hunza. Não ficamos na beira da estrada desta vez, mas bem para cima, com uma super vista, em Karimabab.

Xinjiang nao e China!

Kashgaria sempre fez parte da Asia Central. Seu povo e língua são parentes dos seus vizinhos, não tendo nenhuma ligação com a China. Ha uns 60 anos atras a região foi anexada pelos chineses, mais ou menos na mesma época que a China invadiu o Tibet. Mais recentemente o governo passou a criar incentivos para que os chineses se mudassem para la e abrissem negócios (o mesmo que foi feito com o Tibet), visando assim acabar com a identidade do povo de Kashgar, os Uygurs. Urunqui, a capital da região  teve toda sua cidade velha destruida. Dezenas de mesquitas foram demolidas, mas os Uygures nao aceitaram esta invasão tao facilmente. Enquanto os chineses queriam seu vasto território desértico, mas cheio de petróleo  eles só queriam sua identidade, e vida tranquila que sempre tiveram.

Chegando na imigração chinesa novamente problemas com meu passaporte velho (sem chipe e foto 5×7 tosca), e para terminar, queriam olhar minhas fotos na maquina e por fim abriram meu computador. Ainda não sei se acharam que eu era jornalista ou terrorista. Ao sair da fronteira, negociamos um carro que levava trocentos galoes e mercadorias. Ao comprar agua agradeci em mandarim, para a revolta (com toda a razão !) do dono do estabelecimento. Eu sabia da questão dos Uygurs x Chineses, mas como arrisquei uns comprimentos em mandarim na imigração  acabei me confundindo. A estrada, para nossa surpresa, nao era nem um pouco boa. Para ajudar o nosso motorista começou a dar aquelas pescadas. Tentei puxar papo para ele não dormir, mas ele ano aguentou, encostou a caminhonete e deitou na direção  Eu me ofereci para dirigir e ele aceitou na hora, indo para o banco traseiro roncar. Dirigi não mais de uma hora e o pneu furou. Depois de trocarmos o pneu, o motorista voltou para o comando. A estrada era longa, e apesar de bonita, nem se comparava com a etapa final do Quirguistão  Os últimos quilômetros foram beem cansativos, e depois de algumas paradas, chegamos a uma autopista, e logo a ex- pequena cidade Kashgar.

Todos ficaram muito contentes com o hotel, que era bom, barato e super bem localizado. Outra coisa que foi suuper bem vinda foi a comida!! Nossa, que delicia. Estávamos precisando mudar o cardápio depois da Asia Central!! O pessoal só levou um baita susto com a pimenta, que achávamos que era tomate ao ver o prato.

Estávamos a uma quadra da cidade velha e na nossa primeira caminhada, aquela boa surpresa, lojas de antiguidade, temperos, frutas, alem de cobras e lagartos secos para vender dando todo um clima. Os uygurs super simpáticos  puxavam papo e logo chegamos na praça onde tem a antiga mesquita Kha. Logo percebemos uma movimentação de exercito e tropa de choque, que nos assustou um pouco. Depois entendemos a situação, e ate nos acostumamos com as tropas e carros camuflados.

Mesquita Kha

algumas coisas estranhas

acho que nao viram a placa

Tínhamos alguns dias ate o final de semana, quando teria o famoso mercado de domingo e o de animais. Kashgar ‘e uma cidade comercial a muuito tempo, uma das principais da rota da seda. Aqui a rota se dividia, e seguia mais a leste para Xiang ou para o sul, sentido India. Rodamos a cidade velha varias vezes. Final de tarde ficava caótica  cheia de barraquinhas de comida. Muitas comidas boas, e outras bem diferentes. Mas tudo por uns poucos trocados. Como ‘e Ramadan, as pessoas estavam loucas para pegar comida e fazer sua refeição assim que o sol se por. Muiitas opções de comida, entre fornos fazendo pão na hora e carnes penduradas sem nenhuma refrigeração. Sweet caos!!

Ramadan

Parte da cidade velha esta caindo aos pedaços  e parte esta totalmente reconstruída (não reformada). Existem cidades em que toda a cidade velha foi colocada ao chão pelos chineses. Visitamos a parte leste da cidade velha, ainda residencial. Muitas casas tradicionais, corredores estreitos, mas se olhássemos para cima já enxergávamos ruas e prédios modernos ao lado. A forca da China esta chegando com tudo. Poucos locais tradicionais se mantem em pé, mas felizmente mantiveram alguns deles, como a bonita tumba do Abakh Hoja.

cidade velha

velho x novo

A cultura Uygur esta diminuindo cada vez mais, apesar da resistência deles. Eles se recusam a aprender Mandarim, e se rebelam como podem. A dois anos atras teve um inicio de revolução  mas que foi duramente esmagado pelos chineses. Muitas perseguições, execuções e mesquitas implodidas.

Interessante como a mídia reage a estes novos protestos que aconteceram poucos dias antes de chegarmos. A maioria das agencia de noticias colocava os Uygurs como extremistas islâmicos  treinados no Paquistão e Afeganistão  Não estou defendendo a forma que estao protestando, pois houveram mortes e queimaram estabelecimentos, mas sua causa ‘e nobre. Não e fácil conversar com um vendedor na rua e ver seus olhos se encherem de lagrimas ao falar sobre o que sua vida se transformou depois da ocupação chinesa. A China esta colonizando e fazendo as mesmas coisas que os países europeus fizeram nos últimos seculos. Os países ocidentais dizem “amem” para a China por diversos motivos. Pela potencia econômica que e, que empresta dinheiro para o pais mais rico do mundo quando este entra em crise, e para combater o Islamismo, como se este fosse inimigo do ocidente. Vendo tanto exercito, detectores de metal sendo colocados nas portas da mesquita, e áreas sendo isoladas, claro que tentamos encontrar o maior numero de informações  Da vontade de rir ao ver o que esta acontecendo e o que a mídia fala. Me surpreendi ao ver uma matéria no Brasil não tendenciosa como as outras. (Clique aqui)

Uygur observando movimentação das tropas de choque

mendigos olhando o noticiário na praca

O gigantesco mercado de domingo e um caos. Tem de tudo, mas acabamos não achando coisas que tínhamos visto durante a semana. Nos divertimos negociando, e nos arredores do mercado, numa região não tao turísticas  juntou uma pequena multidão para ver a Bibi barganhando uma camisa-vestido,davam opinião na cor, estilo, preço, estava demais.

Mulheres uygures no marcado de domingo

Pegamos um táxi ate o mercado de animais, mas acabaram nos deixando no lugar errado. Pegamos um trator de volta. Isto, um trator. Kashgar pode estar se modernizando, mas ainda e muuito comum ver pessoas andando de trator nas avenidas, de carroça e de burros. Muitas vezes na contramão  sem causar nenhuma estranheza. Chegamos no mercado de animais na metade do dia, e estava quente, muito quente. Já na entrada um caminhão saindo com Yaques (aqueles bois peludos dos Himalaias) se debatendo dentro de caminhões  Pessoas colocando ovelhas no porta malas ou amarrando na sua moto. Uns levavam no colo, outros davam chutes nos bichos. Vacas, cavalos, cabras, ovelhas, camelos, yaques, tudo num patio empoeirado, mas bota empoeirado nisto. O lugar parecia congelado no tempo. As pessoas, deitadas na sombra e sem tomar água por causa do Ramadam eram uma atração a parte. Só não imaginávamos demorar tanto para pegar um transporte dali. Ficamos um tempão buscando carona, táxi  carroça ou ate um trator. Tudo passava lotado, mas depois de muita insistência deu tudo certo.

Sopranas no taxi

mercado de animais

Tomamos nossas ultimas cervejinhas, pois sabíamos que teríamos semanas de seca pela frente. Organizamos um transporte e ja cedo pegamos estrada rumo ao sul. Não demorou muito para recebermos a noticia que não poderíamos passar de um check point sem autorização  Demos meia volta com menos de uma hora de viagem. Nova informação chegou que poderíamos passar, se falássemos que estávamos indo direto para o Paquistão  sem dormir em território chines. Comemoramos e seguimos em frente. Não demorou muito para a Karakoran Highway mostrar a sua cara. O asfalto foi terminando, apesar de muitos operários e maquinas na beira da pista, e as montanhas foram ficando cada vez mais impressionantes.

ainda com asfalto

Ao chegarmos no lago Kara Kul, já sabíamos que iriamos passar a noite la, mesmo contra a vontade das autoridades chinesas, que nestas alturas nem tinham mais controle sobre nos. Procuramos yurts ao norte do lago, e achamos uma família muito simpática  Eram Kyrgs, mesmo sua família nunca tendo tido nenhum contato com o Quirguistao. Kyrg ‘e etnia, não nacionalidade! Para nossa surpresa nosso amigo japones Koich, que conhecemos no Quirguistao, tambem estava acampando la. Camelos na beira do lago e montanhas com mais de 7 mil metros davam o clima. Yurt nada turístico  dormimos todos juntos, e acordamos cedo com nosso anfitrião rezando e comendo antes do sol nascer (lembram que e ramadan?). Aproveitamos e saímos cedo, por paisagens tao fantásticas quando no dia anterior. Chegamos em Tashkurgan, terra de Tagics e fomos direto ate a imigração  onde aguardamos o único ônibus diário por um bom tempo. Fizemos todos os procedimentos de saída do pais, embarcamos no ônibus acompanhados por soldados chineses, que viajaram com a gente por mais algumas horas, teoricamente passando por terra de ninguém  mas que esqueceram de avisar os pastores e seus yaques. Os soldados chineses desceram do ônibus e estávamos no Khunjerab pass, a quase 5 mil metros de altitude. Avistamos a primeira bandeira paquistanesa, mas ainda levaria algumas horas (e centenas de curvas) ate chegarmos na imigração do pais.

pela janela

Quirguistão ou Uzbequistão?

Os soviéticos conseguiram fazer uma bagunça nas fronteiras de seus países  Existem territórios descontínuos dentro de outros países  Verdadeiras ilhas de um pais dentro do outro. Existem regiões do Uzbequistão e Tajiquistão dentro do Quirguistão  Sem contar que no sul do Quirguistão  existe uma maioria Uzbek. Claro que isto não terminaria bem. Confrontos ocorrem com uma certa frequência  No ano passado, logo após a revolução  centenas de pessoas morreram em um destes conflitos. Nossa viagem agora era pela parte oeste do pais, seguindo para o sul. Nos mantivemos no Quirguistão, mas culturalmente parecia estarmos no Uzbequistão.

Os irmãos da Bibi chegaram cedo, vindo de Istambul  Tínhamos agilizado um taxi para buscar eles e nos encontramos no hotel. Foi aquela festa. Conversamos um pouco e dormimos, mas acordando cedo, para eles poderem entrar no horário local.

Sabíamos que a viagem iria proporcionar momentos difíceis  que eles não estão acostumados. O primeiro dia foi bem tranquilo, fazendo poucas coisas, e com comida não tao exótica  O João sentiu mais o jetlag, mas o Marco já topou umas caminhadas mais longas pela cidade. Fomos também no museu, ver uns painéis soviéticos além de muitas fotos da revolução do ano passado. Impressionante ver a cidade tao calma em chamas e sangue no ano passado.

propaganda URSS anti-USA

Tínhamos ficado amigos de umas pessoas de um cafe, e fomos la novamente para apresentar meus cunhados. Acabou tendo mais cerveja que cafe, mas a interação foi bem legal. Quando chegou a hora de pegarmos estrada, fomos num taxi mega antigo, mas reformado, ate o lugar onde saiam os taxis comunitários  Negociamos, e depois de acharmos que tínhamos nos dado bem, tivemos que esperar um tempão, nos trocaram de carro, esperamos ainda mais. Nos colocaram numa minivan, foram levar um passageiro em casa buscar as malas, e acabamos perdendo bastante tempo. Foi um alivio pegar a estrada.

Tudo ficou bem quando o visual começou a aparecer. Iniciamos por um vale, subimos, subimos, ate nem sentirmos mais o calor. Pelo contrario, tivemos ate que nos agasalhar. Passamos por tuneis, vimos intermináveis montanhas, e as horas foram passando. O problema e que a viagem era longa, e tinha chão pela frente. Paramos para comer, mas sem perder muito tempo. Outras paradas eram só para pegar água ou tirar foto.

estrada

Rodeamos um belíssimo lago azul, e depois acompanhamos um rio da mesma cor, que depois vimos ter sido represado. Depois de descer de mais um passe de 3500 mts, o clima foi ficando mais desértico  Estávamos ao lado da fronteira do Uzbequistão  onde seria uma continuação do Fergana Valley.

LagoRio

Saímos da estrada principal (que liga as três maiores cidades do pais) e fomos sentido Arslanbob, pequena vila ao lado de uma imensa floresta de nozes. Chegando la gostamos de cara. Um lugar cheio de vida, bem tradicional. Ficamos numa casa que tinha um deck com vista para a floresta, e tinha uma porção de Uzbks, de uma outra cidade do Quirguistão, hospedados la.

Tiramos um dia só para conhecer o lugar, conversar com os nossos amigos, e aproveitar a vista do deck, tomando muito chá e comendo frutas. Mais de 90% da vila e Uzbek, e dos bem tradicionais. Todos vestidos a caráter  com seus chapéus e botas, e mulheres com lenços na cabeça e vestidos. Mercado de rua, e muitas carnes penduradas mostravam que a refrigeração não era muito comum por aqui.

vista das refeições

Nesta região não utilizam muito os yurts, então resolvemos acampar. Saímos todos a cavalo, parecia uma expedição  Ainda passamos numa cachoeira de 80 mts, antes de iniciar uma forte subida. Todo o trajeto era fantástico  desde saída da cidade ate os pequenos barracos improvisados ao longo da montanha. Na hora do almoço tivemos a grata surpresa de que nosso cozinheiro sabia muito bem o que fazia. Comemos muito bem antes de descansarmos um pouco e seguirmos viagem montanha acima. Nuvens apareceram (esta ficando comum, não !) no topo da maior montanha (4500 mts), quando chegamos num jailoo. Ainda demos uma cavalgada para tentar fugir da chuva. E deu certo, tinha uma casa de pau a pique que parecia estar estrategicamente colocada para nos. Deu tempo de entrarmos para logo iniciar a tempestade. Mas do mesmo jeito que vem, vai, e logo o tempo limpou novamente. Armamos as barracas ali mesmo, pois o lugar era perfeito

tempestade

protegidos

O pessoal ficou conversando com o guia e o cozinheiro, enquanto eu brincava com umas crianças que moravam ali perto. Ainda decidi subir uma montanha ao lado, com companhia das crianças  La em cima tinha a vista da floresta de nozes de um lado, e o jailoo com a maior montanha do outro.

Aproveitamos o lugar, comemos bem, vimos ate uma briga de cavalos. Veio outra tempestade, passou, e depois de uma noite razoável de sono, estávamos levantando acampamento.

Montanha abaixo entramos na floresta de nozes. As guerras de nozes foram inevitáveis  e o Marco sofreu um pouco, pois um piazinho acabava me abastecendo de munição, enquanto ele tinha que pegar das arvores.

Almoçamos na floresta, e depois de um tempo pelas trilhas, iniciamos uma subida novamente. Passamos por vários trabalhadores rurais, muitos deles mulheres. Alias as mulheres da região constroem casas, cortam mato, cortam comida para os animais, alem de cuidar da casa é claro.

Chegamos a um lugar com uma super vista, e a guerra de nozes acabou, até porque os caminhos ficaram estreitos, e tava ficando perigoso.

Voltamos a vila, e ficamos na mesma casa. O banheiro não era nem um pouco acolhedor, mas o nosso deck compensava. Quase teve briga por um banho quente. Nos divertiamos pois pediamos uma comida e vinha outra, a comunicacao era bem complicada, mas tudo dava certo no final.

De Arselambob pegamos estrada para Jalalabad, passado por varias carroças de burricos, e um visual bem parado no tempo. Esticamos ate Osh, segunda maior cidade do Quirguistão.

Osh não tem muitas atracões  Tem um mercado super movimentado, com Kirgs, Uzbeks, Tajiks dentre outros povos. Eram incontáveis o numero de pessoas com olhos claros, sejam elas com cara de asia central ou mais orientais.

O parque da cidade, que fica ao longo do rio, e muito legal. Cheio de gente, com brinquedos antiquerrimos, casas de chá e pessoas cantando em pequenos karaokes. Uns jogavam xadrez  enquanto outros surravam o boneco “bob” para ver quem batia mais forte. Fomos algumas vezes no Cafe Califórnia  pois o pessoal tava querendo comida ocidental. Ficava bem ao lado do prédio principal da universidade.Arranjamos transporte para atravessar a fronteira com a China, e apesar do calor subimos a montanha sagrada da cidade, o Salomon Throne.

Aproveitamos o mercado para nos abastecer de frutas e comida e cedo pegamos a estrada ate Sary Tash. A viagem foi bem mais tranquila que imaginávamos  e ainda mais bonita. Paramos só numa vila no caminho, e ao avistar uma cordilheira, com belíssimas montanhas (de mais de 7 mil metros), sabíamos que tínhamos chegado. Ficamos numa casa simples, e aproveitamos para andar pelo pasto, com aquele visual incansável ao fundo. Brincamos com crianças  nos comunicamos como podíamos  Comemos bem, caminhamos um pouco mais, e sentimos cansaço por causa da altitude.

No outro dia saímos cedo, pois sabíamos que teríamos alguns desafios pela frente. Paisagens incríveis ate chegar ate o primeiro check point. Outros controles ate a imigração propriamente dita. De la não podíamos seguir de carro. Com passaportes carimbados, nos dividimos e pegamos carona em caminhões.  Não demorou muito ate surgir uma imensa fila, não tendo outra possibilidade a não ser ir a pe. Mais um controle, mais caminhada, agora com subida, ate chegar num controle chines. Não entendiam o que falávamos  nem nossa nacionalidade. Mesmo com o visto olhavam numa lista de países e finalmente apontamos Brasil. Poucas dezenas de metros depois, outro controle, agora com revista de mochilas. Tudo certo, pegamos mais um caminhão para rodar os 7 km ate a imigração propriamente dita. Tudo indicava que tínhamos chegado na China, mas será que era China mesmo?