Sandinista!

A Nicarágua é um dos países que mais vezes foi invadido pelos EUA. É também um dos poucos países onde os EUA admitem que perderam uma guerra. Uma das primeiras invasões foi pelo Mercenário americano Willian Walker. Com a proibição da escravidão nos EUA, ali a prática poderia ser rentável. Com a corrida do ouro, muito americanos navegavam pelo rio San Juan até o lago Nicarágua, atravessavam os poucos quilômetros de terra até o porto, onde pegavam um navio até a Califórnia. Era muito mais rápido, fácil e menos perigoso que atravessar os EUA por terra. Primeiramente ali pensaram em construir um canal transoceânico, mas depois de verem a atividade dos vulcões ao redor, acabaram transferindo para o Panamá.

A figura histórica mais importante do país é o Augusto C. Sandino, guerrilheiro nacionalista que lutou contra as interversões americanas e ditaduras instaladas. Acabou sendo assassinado após ter assinado um tratado de paz, pelo então ditador Somoza. A dinastia Somoza dominou o país com mãos de ferro por décadas e possuíam mais da metade das terras da Nicarágua. Como se o fantasma do Sandino tivesse voltado para prestar conta com os Somozas, surge a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Em épocas de guerra fria, não era mais uma guerrilha somente nacionalista, mas também comunista (quem negaria o apoio da URSS tendo um inimigo em comum?). Para o povo sofrido com tantos anos de ditadura isto pouco importava, queriam era mudanças. Estudantes e camponeses aderiram a luta da FSLN, e finalmente acabaram com a ditadura. Parecia tudo terminado, mas o então presidente americano Reagan, decide apoiar a antiga guarda nacional do Samoza, e cria os “Contras”. Uma brutal guerra civil por mais quase dez anos, até que  assinam uma tratado de paz. Finalmente uma democracia. A FSLN perde a eleição, e existe uma sequencia de governos extremamente corruptos. Uma coalizão da FSLN com o ex-lider dos Contra assume o poder anos mais tarde, mas a corrupção não muda.

Toda a instabilidade do passado e dificuldades do presente, fez com que o turismo não tenha se desenvolvido tanto na Nicarágua. Com isto a região nos pareceu muito mais autentica, povo simpático e cultura melhor preservada. Mas tudo isto tende a mudar, o NY Times recomendou o país como um dos destinos para ser visitado em 2013: (Clique aqui).

Na movimentada fronteira de Peñas Blancas, pagamos a taxa de 13 usd (não precisa de visto, mas tem que pagar esta taxa) e pegamos um táxi junto com duas holandesas. De ônibus teríamos que fazer algumas conexões, seguir ao norte até Rivas para depois voltar. Fui batendo papo com o motorista que era muito gente boa, e os preços também eram bem convidativos. Não demoramos muito para chegar a San Juan del Sur, um balneário movimentado para o padrão das praias nicaraguenses, com sua praia em forma de ferradura e diversos barcos ancorados. Os preços eram menos da metade que os da Costa Rica.

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Por do sol em San Juan del Sur

Por do sol em San Juan del Sur

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De lá aproveitamos para visitar as outras praias da região. Para chegar na Playa Hermoza, não existe transporte publico, mas algumas vezes ao dia sai um caminhão pau-de-arara para levar o pessoal. Depois de trafegar por estradas de terra e passar por diversos portões de fazenda, chega-se à praia. Longa, boa para o surf, com petras para quebrar a monotonia do horizonte. Somente uma pequena pousada e um restaurantezinho.  Água gelada do pacifico para refrescar os sol que estava fortíssimo, e ainda tivemos a surpresa de ver pequenas tartarugas dando seus primeiros passos sentido ao mar.

Tartaruga

Tartaruga

Já a praia de Maderas já é mais da “galera”. Pequena, boas ondas, musica e publico jovem. A Bibi acabou fazendo aulas de surf e nos divertimos bastante. Ela surfando e eu vendo ela levar uns tombos!rs Ficamos amigos de umas norueguesas que também estavam fazendo aula de surf, e acabamos saindo em San Juan para comemorar o aniversário de uma delas. A balada é pesada por ali. Toca algumas musicas tradicionais e internacionais, mas o foco mesmo é o regatone. Antes de sair demos uma passada no desfile da miss Nicaragua, que estava acontecendo em um palco montado na praia. Super simples, mas tava divertido de ver, principalmente pela reação do publico.

Bibi surfando

Bibi surfando

Mas apesar da vida noturna movimentada, de dia o lugar parecia uma pequena vila. Ficamos numa pequena pousada bem gostosa e aproveitamos bastante a região. No mercado tinha uma seleção de frutas diferentes para experimentar, mas nem por isto abandonei os galo-pinto (feijão com arroz) feito com tanto carinho pela dona da pousada para o café da manhã.

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As distâncias enganam um pouco por aqui, em quilometragem tudo é perto, mas em tempo de viagem demorado. Pegamos um ônibus (estilo “onibus-galinha”, antigos ônibus escolares dos EUA) até Rivas, outro até o pequeno porto, de onde pegamos um barco. Carregaram o barco com tudo que era possível, e fomos no topo, para curtir o visual. O lago é gigante, se perde no horizonte, mas a ilha de Ometepe, em forma de oito, com seus dois vulcões se destaca.

Vulcão Concepcion

Vulcão Concepcion

Com o vento o lago estava agitado, balançou bastante, mas não demorou tanto assim para chegarmos no porto de Moygalpa. Deu tempo de se esticar um pouco, comer alguma coisa e pegar o último ultra-lotado ônibus até Santa Cruz, do outro lado da ilha. De lá ainda queríamos ir até a pequena vila de Balque, região bem rural. Não tinha mais transporte e seria uma longa caminhada. Fomos andando para ver se encontrávamos algum outro lugar para ficar quando passou um furgão antigo. Conseguimos pegar carona, e por sorte, eles estavam indo para a mesma fazenda que nós. Um casal de americanos que estava viajando com dois cachorros, pretendendo ir dos EUA até a argentina. O dia tinha se passado, mas deu tempo de ver o por de sol da varanda da antiga casa da fazenda de café, com o lago e vulcões para dar o clima.

Vista da varanda

Vista da varanda

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A ilha proporciona diversas atividades. A mais óbvia é subir um dos vulcões, claro. Existem cachoeiras, gravuras rupestres, trilhas e o próprio lago. Um dia alugamos uma scooter para dar uma circulada mais longe, mas outros dias a própria bicicleta quebrou o galho. Nosso quarto na fazenda de café parecia um galpão onde tinham colocado uma cama. De manhã bem cedo já acordávamos com os barulhos dos pássaros e dos macacos que gritavam nas arvores ali ao lado.

em algum lugar da ilha

em algum lugar da ilha

Antes de ir embora decidimos ficar na praia de Santo Domingo, de onde seria mais fácil para pegar transporte. Fomos tomar banho nas piscinas naturais , rodamos, curtimos o visual do lago com bois tomando água e se banhando com o vulcão ao fundo e no final do dia fui caminhar pelo Sendero Peña Inculta. Já na chegada um grupo de macacos me recepcionou. Foram me acompanhando não de muito longe. Ao caminhar no meio do mato se espera silencio, mas não ali. Com a chegada do final de tarde, pássaros cantavam alto, macacos berravam, arvores chacoalhavam com o vento, dentre diversos outros sons que eu não conseguia identificar. Sentei, fechei os olhos e fiquei curtindo o lugar.

animais tomando agua e vulcão Madero ao fundo

animais tomando água e vulcão Madero ao fundo

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Tem varias coisas para se fazer na ilha Ometepe, mas o mais legal é o lugar em si, o clima rural da região, a simpatia do povo, as fazendas de café e seus casarões com os vulcões ao fundo. O tempo passa devagar por ali. Existe um barco que atravessa o lago Nicarágua de ponta a ponta, onde poderíamos ir diretamente para a cidade de Granada. Mas como ele só passa duas vezes por semana, tivemos que pegar um barco para Rivas e de lá uma ônibus “escolar” para Granada, uma das cidades mais antigas de toda a América.

De volta a escola?

De volta a escola?

Ps- “Sandinista!” também é o nome de um disco (ou seriam três?) de uma das maiores bandas de todos os tempos, The Clash.

Costa Rica, um ótimo lugar para ser turista.

Já faz mais de 60 anos que a Costa Rica não tem exército próprio. Cerca de 20% do território são parques nacionais e áreas protegidas.  Os cardápios são bilíngues em muitos restaurantes. Muitos falam inglês  e outros tantos tentam ou gostariam de falar, pois falam espanhol com sotaque americano. Possuem moeda própria, o Colon, mas o USD é aceito em diversos lugares, sendo possível até sacar no caixa eletrônico.  É um país lindo, onde se pode ir do atlântico até o pacifico em algumas horas. Cheio de praias bonitas, florestas, vida selvagem e vulcões. Um destino com turismo bem desenvolvido. Não é em qualquer lugar do mundo que se pode parar um carro, comprar uma galinha para jogar para crocodilos em baixo da ponte. Fácil de viajar, recebem milhares de turistas em busca dos “animais exóticos”  ou do turismo de aventura. Cheio de coisas para fazer, mas nem tantas para se viver.

Da fronteira com o Panamá, é um pulo até Puerto Viejo de Talamanca. Toda região do caribe costa-riquense se difere bastante do restante do país. Tem uma influencia negra muito forte. Claro que tiveram os escravos que trabalhavam nas plantações de café, mas o numero aumentou consideravelmente no final do seculo 19, com a chegada de trabalhadores jamaicanos, contratados para construir a estrada de ferro. O clima é total relax, pessoal gente boa, num clima de praia-surf-reggae.

Primeiro ficamos numa pousada mais afastada, com varanda com vista para o mato, onde dava para ver bicho-preguiça nas arvores. A negociação foi meio no estilo “pague quanto estiver a fim” coisa que não aconteceu em outros lugares do país. Depois ficamos mais perto do centrinho, onde alugávamos bicicleta para passear e ir para as praias. Punta Uva, uma boa pedalada ao sul foi uma das que mais gostamos para pegar praia. Playa Grande e Punta Manzanillo também é muito bonito. Ao norte da Playa negra (areia vulcânica ) tem o parque nacional Cahuita. Já a praia de Cocles era onde se concentravam a maior parte dos jovens.  Tinha bastante onda, e aproveitei para surfar. As praias daqui, apesar de ser no caribe, tem aquele aspecto mais selvagem, com vegetação fechada, água limpa mas não azul-caribe. Eu acho mais bonito, menos monótono, e passar por bandos de macacos ou escutar seus barulhos enquanto está indo para praia não tem preço.

Praia

Praia

Bibi por ai

Bibi por ai

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Punta uva

Praia Punta uva

É um lugar turístico-rustico, com algumas pousadas melhores e restaurantezinhos para turista. Existem também os Sodas, restaurantes de comida local, que servem o famoso PF. Aqui são chamados de “Casados”, arroz, feijão, salada, banana verde frita e uma carne.  Passamos uns dias de férias pela região, curtindo o que os costa-riquenses chamam de “Pura Vida”.

Canto da praia de Cocles

Canto da praia de Cocles

O lugar tem várias baladas, mas estávamos mais no espírito de acordar cedo para curtir o dia. Só uma noite que saímos no bar Salsa Brava, que fica bem em frente a famosa onda com este mesmo nome. Um luau cheio de rastas, onde era difícil imaginar que não estávamos na Jamaica. Foi muito divertido!

Depois de explorar a região, seguimos para a capital, San José, que uma família de argentinos brincava: “Sim, é legal, tem o palácio do governo, a catedral, a praça, o teatro… como qualquer outra cidade…” Realmente, em geral, as capitais na América central não são muito interessantes.

Tínhamos a dúvida se iriamos para Montezuma, na península Nicoya, já no pacífico. Como havíamos tirado umas “ferias” na costa do caribe, resolvemos pular esta. Na nossa lista também estava o parque nacional Corcovado, muito bem recomendado,que fica perto da fronteira com o Panamá, mas do lado pacífico. Como estávamos indo para o norte, por uma questão logística, achamos melhor ir direto para Santa Elena/Monteverde. Cidadezinha nas montanhas, com vista para o pacífico, e cercada por florestas tropicais. Muito vento, que trás a umidade do caribe que se condensa pela altitude. Não chegava a chover muito, mas a nebrina passando muitas vezes chegava a molhar. O vento era fortíssimo e muitas vezes nos acordou a noite, parecendo que  a pousada ia levantar vôo.

vista

vista

A região proporciona caminhadas e diversos “brinquedos para adultos” no melhor estilo aventura. Fizemos a tirolesa, com diversos cabos, alguns com mais de 120 metros de comprimento. Primeiro entre as arvores e depois por cima delas. A Bibi encarou bem, e cada vez tem menos medos. Se bem que ela dispensou o “balanço do Tarzan”, que é uma queda livre…hehe

Tirolesa

Tirolesa

Santa Elena

Santa Elena

O Monteverde Cloud Foreste tem diversas trilhas, pontes suspensas, ótimo lugar para caminhadas. Floresta muito bonita, com arvores impressionantes. Conseguimos pegar uma carona na volta, o que nos evitou de ter que esperar o ônibus que só passa de tempos em tempos.

Monteverde CF

Monteverde CF

A cidadezinha de Santa Elena é toda voltada para o turismo, o que torna difícil ter experiências mais autenticas. Mas foi muito interessante ver uma missa lá, com a igrejinha lotada e cheio de pessoas cantando musicas em espanhol. Ao lado da pequena igreja tinha uma lanchonete onde tomamos suco de abacaxi com água de arroz e de canela com aguá de arroz.

Cantantes

Cantantes

De Santa Elena pegamos um transporte até o lago Arenal, um barco, e outro transporte até La Fortuna. Do lago já dava para avistar o vulcão arenal, com o topo encoberto por nuvens, maior atração da região. O turismo se desenvolveu por ali pois era possível ver erupções e explosões de lava até não tanto tempo atrás. Mas o vulcão deu uma acalmada. Região com diversas opções de hotéis e restaurantes, dezenas de “agências de turismo” tentando te vender todo o tipo de “esporte de aventura”. Mais um lugar onde se pode ter uma boa experiencia turística, fazer coisas, mas  nada autentico.

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Laguna Arenal

Laguna Arenal

Teve um dia que alugamos bicicletas e fomos montanha acima até uma cachoeira. Como tudo por aqui, tem que pagar para entrar, e não é barato. Alias, Costa Rica não é nem um pouco barata. A cachoeira é muito bonita, queda alta, cercada de vegetação. Tomamos banho gelado, mas o mais legal aconteceu por acaso. Nós estávamos andando pela trilha, quando ouvimos um barulho, como se fosse um grito, e ago caiu de uma arvore na nossa frente. Era uma cobra, que acabava de pegar um sapo na nossa frente. O sapo berrava, enquanto a cobra se firmava e logo saiu para fora da trilha com o ele esperneando.  Ia escrever que vimos uma cobra comendo uma perereca, mas achei que poderiam interpretar de forma errada…rs

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Cachoeira

Cachoeira

Vulcão Arenal visto de La Fortuna

Vulcão Arenal visto de La Fortuna

No nosso caminho até a Nicarágua, pela Ruta Nacional 4, passaríamos perto do Rio Celeste, em outro parque nacional. Um lindo rio azul, em um parque com vulcão. Acabamos optando por não ir. Achamos que o tempo poderia ser gasto de uma maneira melhor em um lugar mais autentico.  Pode ser somente um estado de espirito, mas apesar da beleza do país, a Costa Rica não tinha nos cativado.

Estrada rural

zona rural

Depois de diversas paradas em pequenas cidades, chegamos na principal estrada da América Central (Panamericana HWY), que corta o continente de norte a sul, já perto da movimentada fronteira de Peñas Blancas. Depois disto foi só atravessar a fronteira, e se apaixonar pela Nicarágua!

Panamá, muito mais que um canal.

Não adianta, quando se fala do Panamá, a primeira coisa que vem na cabeça é o famoso Canal do Panamá, que liga o oceano atlântico ou pacífico. Construído no final do seculo 19, acabou ficando pronto só em 1914. Fans de grandes obras de engenharia podem discordar, mas ao chegar na Cidade do Panamá, não teve uma pessoa que visitou o canal que estava empolgada com o que viu. O conjunto da obra e sua importância é muito mais interessante do que o que se vê. O Panamá tem muito mais para oferecer.

Chegando no Panamá, fomos direto para Casco Viejo, a parte antiga da cidade. Uma das poucas partes da cidade que tem ainda tem certa autenticidade. Quando pesquisei sobre a Cidade do Panamá, li muito sobre mini-Dubai, Mini-Miami e outras comparações. Realmente existem prédios super modernos no centro, tem muito dinheiro rolando, mas a desigualdade é grande, basta passar por bairros como El Chorrillo, para ver que ainda tem muita pobreza.

O Casco Viejo esta sendo revitalizado. Como o palácio do presidente (Palacio de las Garzas) fica por ali, a região é fortemente policiada. Alguns prédios históricos reformados, e muitos caindo aos pedaços, não tem meio termo. A Bibi gostou bastante da região, eu não posso dizer que me encantei, mas com certeza melhor que a parte moderna da cidade, onde só é “mais uma cidade”.

Igreja no Casco Viejo com o coreto da praça

Igreja no Casco Viejo com o coreto da praça

Parte moderna da Cidade do Panamá

Parte moderna da Cidade do Panamá

Bem próximo de Casco Viejo, está o mercado de peixe, melhor lugar que mais gostei da Cidade do Panamá. Não muito diferente de tantos outros mercados de peixe, mas com diversas barraquinhas vendendo vários tipos de ceviche com preços de 1 a 3 USD. No Panamá, utiliza-se o USD, mas as moedas são de Balboa (moeda de dólar também são aceitas). Mas voltando as comidas, as barraquinhas ficam cheias de panamenhos, comendo, escutando musica e tomando cerveja. Não se assuste se um vendedor ambulante te oferecer ovos de tartaruga. Eles são muito apreciados por aqui. Muito temperados e apimentados, tem uma consistência estranha. Você tem que rasgar a casca, que é mole e sugar a gema e a clara. Vai se sentir um lagarto!

Ovos de tartaruga

Ovos de tartaruga

Nosso maior interesse no Panamá era o arquipélago de San Blas, na região autônoma de Kuna (Guna) Yala. Até poucos anos atrás, para chegar lá só de avião ou encarando um longo dia de viagem por estradas enlamaçadas. Agora com o asfalto, está tudo bem mais fácil. Não existe transporte público até lá, então você vai ter que entrar em contato com uma das diversas agencias para se esquematizar. É possível acertar só o transporte ou fazer um pacote completo.

Acabamos fechando com a Lam Tours. Passaram para nos pegar bem cedo, mas fomos levados para um escritório superlotado de turistas e me deu um desespero. Alta temporada, tava cheio de gente, todos tentando escolher a ilha que ficariam, querendo fazer festa. Achei que não teria sossego e me deu um grande mau humor. Será que não teria tranquilidade? Mas uma enrolação para fazer compras no mercado, levamos muitos galões de água, já que pretendíamos ficar alguns dias por lá.

Estrada bonita, com mata fechada ao lado, cheia de curvas e sobe e desce. O estilo montanha russa faz com que a viagem, apesar de não tão distante, demore umas quatro horas. Um posto de controle mostrava que estávamos entrando na comarca de Kuna Yala. Como é uma região autônoma  a partir dali o que vale são as leis indígenas. Um pouco mais para frente um rápido controle de passaportes e logo chegamos no local onde saem os barcos. São 365 ilhas, mas nem todas são habitadas. As mais próximas do continente têm vilas, mas muitas outras são habitadas somente por uma ou duas famílias.

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Nós tínhamos arranjado tudo para ficar na ilha Diablo. Apenas uma parada para abastecer em uma ilha-vila e seguimos viagem pelas águas transparentes do caribe. Ficamos muito contentes com nossa ilha, muito bonita e calma. O problema é que era uma das com menos infraestrutura, a Bibi chegou a pensar que não ficaríamos tanto tempo quanto queríamos, mas logo entrou no esquema. Se inicialmente não acertar direto com o “dono”da ilha, uma dica é de falar que vai ficar somente um ou dois dias, depois estender a sua estada. Nós fizemos isto e conseguimos o preço de camping para ficar em uma cabana que tinha até cama, um luxo! hehe “Pousada” literalmente pé na areia, já que não tem piso, desce da cama pisando na areia. Fica a poucos metros do mar azul cristalino, com uma rede na frente.

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Para dar uma volta na ilha não demoram muitos minutos, inclusive o banheiro ficava lá do outro lado. Tinha uma cabana de palha mais próxima onde tomávamos banho. Tinha um buraco com água doce onde pegávamos água com uma jarra para encher o balde.

A ilha ao lado, numa distancia onde era possível nadar, tinha um barco afundado, somente com a proa para for a. No caminho também tem uns corais com seus devidos peixinhos. Na ilha tinham poucas pessoas, e logo ficamos muito amigos, principalmente dos hermanos argentinos, muito gente boa! Altos bate papo no final de tarde. Pessoas vinham e iam, e nós fomos ficando. Um dia chegou um barco cheio de gente, e a ilha ficou lotada. Não foi só o clima que mudou, mas a qualidade da comida. Para quem tinha comido lagosta, ficar só no peixinho foi triste. rs

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O barco da ilha saia todos os dias para passeios, algumas vezes ilhas próximas e outras mais longe. Lugares para fazer snorkling, ou somente para curtir uma outra praia. Algumas enseadas estava lotadas com barcos a vela, alguns inclusive com bandeiras brasileiras.

Antes de ir embora teria que ter um grand finale. Um festival estava para acontecer, onde iriam dar o nome para duas jovens Kuna. Fomos em uma das ilhas principais, já mais perto do continente (utilizam o continente para agricultura), nada de praias bonitas. Barreiras com pedras para evitar que a água avance, e uma casa ao lado da outra, um super aproveitamento do espaço. Corredores entre as casas de madeira, conhecemos a ilha com a tradução de um holandês que casou com uma local.

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O festival acontece em um galpão central, que estava muito cheio. As mulheres, assim como nas ilhas pequenas, estavam com suas roupas típicas. Já os homens vestiam roupas comuns. Toda uma cerimonia  com homens para um lado e mulheres para o outro. Um senta e levanta, com chefes Kuna levando podes de Chincha (bebida local feita de cana de açúcar destilada e café) para frente e para trás, oferecendo para as pessoas alinhadas lateralmente. Eles também fumavam charutos de palha e baforavam a fumaça na cada de todos, inclusive de nós. Uma festa que dura cinco dias e se bebe muito. Algumas vezes passavam distribuindo presentes, que não tem nada de tradicional, pacotes com bala e cigarros.

Caminhando pela ilha pedi para tirar uma foto de uma senhora, ela levantou o dedo indicador, e eu disse, sim, só uma foto. Tirei a foto e ela falou, um dólar. Problemas de comunicação! Eles não são muito chegados em fotos, e isto já virou um comércio.

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Infelizmente fomos embora antes da musica começar, não sem antes aprender a história dos Kuna e sua relação com os EUA durante a construção do canal, o que posteriormente ajudou a conquista da autonomia da região. Chamou a atenção a quantidade de lixo plastico, como já havíamos observado em outras regiões onde o tradicional tem contato com a industrialização de uma maneira brusca. Uma pena.

Volta para a Cidade do Panamá, onde descansaríamos e depois de tantos dias tomamos um banho em um chuveiro! Saímos com nossos amigos argentinos e como estávamos com tempo sobrando, demos uma passada no Canal do Panamá. Mas foi somente um pit-stop para recarregar as energias e seguir viagem. Depois de uma noite bem dormida e um dia tranquilo, pegamos um ônibus noturno até a cidade de Almirante e depois um barco para Bocas del Toro. Estávamos na dúvida se íamos para lá ou não. É uma ilha conhecida pelo surf e pelas festas, achávamos que poderia estar cheia demais. Sabe que até que não estava. As festas rolavam madrugada a dentro, mas para quem estava em outro ritmo não chegava a atrapalhar. Só faltava ter uma bandeira da argentina proclamando território deles. Incrível a quantidade de argentinos que encontramos nesta viagem, em todos os países. Pelo menos uns 50 argentinos pera cada brasileiro.

Bocas del Toro tem mais um clima selvagem, com mangues ao redor, mato. O primeiro lugar que fomos foi para a praia das estrelas, ainda na ilha Colon. Ônibus até Bocas del Drago e uma gostosa caminhada pela areia, contornando a ilha. Mas ao chegar lá tinha uma farofada, isopores, churrasquinho, barulho… Não tínhamos nos dado conta que era domingo, e tava meio piscinão de Ramos.

Também não demos muita sorte com o tempo lá, tirando o primeiro dia de sol, os outros estavam nublados e com bastante chuva.

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Logo na frente da ilha Colon, na ilha Bastimentos tem a praia Red Frog, local onde pode se hospedar ou simplesmente fazer um passeio. Com sorte vai ver estes sapos vermelhos. Se não conseguir ver, terão crianças te oferecendo para tirar fotos por uns trocados. Uma boa pedida para comer ou beber algo é o Bibi’s on the beach, na ilha Carenero, onde também tem um ótimos Surf. Acabamos não indo para Cayos Zapattilas, já que seu estilo é mais parecido como de San Blás.

Como para ir para as outras ilhas, para surfar ou qualquer programa tem que ir de taxi-barco, com chuva, não adiantava insistir muito e resolvemos seguir viagem. A fronteira de Saxiola, não esta muito longe. É possível pegar o barco de volta para o continente e fazer algumas conexões de ônibus ou acertar com um transfer/minivan direto. A pequena fronteira não é muito movimentada, e depois de atravessar a pé a antiga ponte com trilhos de trem, chegamos na Costa Rica.

Atravessando a ponte para a Costa Rica (carregando a mochila da Bibi também!)

Atravessando a ponte para a Costa Rica (carregando a mochila da Bibi também!)

Cuba: Céu ou Inferno?

As pessoas gostam de fantasiar  e Cuba virou uma assunto onde as idéias e vontades das pessoas são transferidas para o país. Claro que a mídia tem sua culpa, seja ela a Carta Capital ou a Folha de São Paulo. Querem tornar a ilha em um lugar perfeito ou em um lugar terrível, quando na verdade está em algum lugar no meio disto, nada fantasioso, bem real.

Até ai tudo bem, tão querendo vender o seu peixe, mas triste é ver que as pessoas compram o pacote, e não perdem tempo para raciocinar, pensar sobre o assunto.

Vejo muitas discussões onde a “classe média alta ” brasileira, aqueles ricos que tem salários para ser elite em qualquer lugar do mundo dizem: “Se Cuba é bom, se mude para lá”.

Pode ter certeza que para milhões de pessoas Cuba daria uma condição de vida muito melhor do que elas tem. Tudo é uma questão de parâmetro  Milhões de pessoas no mundo tem salário parecidos com os cubanos, mas não tem nenhum auxilio, educação, saúde, cultura, moradia ou até a livreta para uma semana de comida. Isto não torna a vida lá menos difícil.

Os EUA queriam ser donos de Cuba, tentaram colonizar, comprar, invadir, instalaram ditadura, fizeram atentados mas não conseguiram. Existem duas levas de imigrantes cubanos nos EUA. Os que saíram na Revolução, e os que foram saindo depois,  por questões econômicas  Os contra revolucionários  só voltariam para Cuba com outro governo/sistema. Mas o sonho da imensa maioria de cubanos que vivem no exterior, é de se aposentar com salários em dólar e voltar a viver em Cuba ,mesmo da forma que está. Encontramos diversos cubanos que moram no exterior de férias na ilha, curtindo e viajando com a família, loucos para chegar a hora de voltar.

Se as taxas de analfabetismo, mortalidade infantil e expectativa de vida dão inveja a qualquer outro país das Américas, ficando somente atrás do Canada, os comunistas não podem se vangloriar disto. O cubano tem que se virar para sobreviver, conseguir dinheiro, empreender, receber dinheiro do exterior. Só com o sistema do governo isto não seria nem perto de possível. Existe um senso comunitário, onde todos se ajudam, mas também existe um capitalismo forte, onde para cada pequeno serviço ganha-se um dinheirinho. Isto se chama “lucro”. Agora com as empresas privadas, direito não só de ter, mas de se vender as propriedades, Cuba vai se afastando rapidamente do que sobrava do comunismo. Vai se tornando apenas Cuba, sem os preconceitos criados de quem é a favor ou contra algo.

O poder é centralizado, e isto nunca é bom, mesmo se tiver o apoio da maioria, pois a minoria vai se sentir oprimida e um país deve ser para todos. Os fantasmas da Guerra Fria devem ser esquecidos, e a liberdade de expressão é algo básico em qualquer sociedade. A violação dos direitos humanos não são aceitáveis nem em período de guerra, portanto as ameaças a Cuba não são nenhuma desculpa.

As disputas sobre o tema “Cuba” São muito chatas, vide a blogueira Yoani Sanches. Perguntei sobre ela diversas vezes em Cuba, e só faltavam falar: Yoani quem? Ela não representa quase nada em Cuba, nem para o bem nem para o mal, enquanto aqui ela se torna heroína ou vilã.

Não é em uma curta viagem que se vai entender Cuba, tão pouco morando lá. Vale a mesma verdade que me falaram sobre o Oriente Médio, o certo e o errado não está dividido por uma linha fina, mas por uma longa faixa, e Cuba está nesta faixa.

A  resposta para a pergunta do titulo é óbvia, nem céu nem inferno, simplesmente terra, com todas suas qualidades e imperfeições.

 

Para pesquisar:

* Com poucas publicações em português, vale a pena ler sobre René Gonzales e cia (Cuban Five).  Antes de ir para Cuba tinha lido somente um livro a respeito “Os últimos soldados da guerra fria”, mas lá tem diversos livros e até museu.

* De uma maneira geral, pessoas ligadas ao turismo de luxo falam mal do sistema para que se comovam e deem uma gorjeta maior.

* De uma maneira geral, pessoas ligadas ás casas particulares e paladares conseguem uma licença por terem bons contatos, e não querem perder esta oportunidade. Tendem a falar bem do governo.

* Se tem curiosidade sobre a Yoni Sanchez, leiam a entrevista que o professor da Sorbone-França, Salim Lamrani fez com ela.

* Outros grupos de oposição cubana: Damas de Branco, Oswaldo Paya (morto ano passado) e o MCL, Oscar Elias Bicet…

* Grupos terroristas anti-castro em Miami: Omega 7, Brothers to the Rescue , Alpha 66…

* Vale pesquisar diretamente os dados da ONU, Unicef, Organização internacional de direitos humanos…

 

Cuba, o país das contradições.

Antes de ir para Cuba tentei pesquisar várias informações sobre o país, através da internet e guias de viagem, conversas com viajantes que já tinham ido para lá, com um brasileiro estudante de medicina que mora em Havana e, cubanos. Queria fazer uma viagem autentica, mas logo desisti. Cuba é extremamente turística  e o fato de não existir Casas Particulares em todas as cidades te impede de sair da rota turística, que é bem delimitada.

Havana

Havana

Por outro lado, Cuba “acontece” em todos os lugares, e o melhor do país não pode ser recomendado ou planejado, aparece ao acaso, entre as atrações turísticas  Acabei limitando o tempo na ilha com medo dos custos, mas me arrependi. Para quem não fica indo de atração turística em atração turística a ilha não é cara. Com menos de duas semanas, resolvemos nos limitar em Havana e a província de Pinar del Rio, deixando o centro e leste do país para outra viagem.

Chegamos somente de madrugada, havíamos reservado uma Casa Particular na Rua Industria, Centro Havana. Poucas indicações do local, acabamos acordando os vizinhos antes da dona da casa: Sra Gudelia. Ela com seu roupão, cabelo desarrumado e cara amassada de sono, disse que acabou dando nosso quarto para duas russas, portanto estava lotado e fechou a porta na minha cara. Olhei para a cara da Bibi quase que não acreditando e toquei a campainha novamente. Falei que eu não teria problema em dormir na rua, ou ali mesmo no saguão do prédio, mas que estava com minha esposa, tinha reserva e blablabla. Acho que ela acordou nesse meio tempo, e nos convidou para entrar. Pediu para sentarmos e disse que resolveria a situação. Saiu de roupão tocando em todas as casas particulares que conhecia para ver se tinha lugar para nós,  mas em vão. Logo após o Natal, altíssima temporada, tudo estava lotado. A Bibi já queria buscar um hotel, mas concordou quando falei para dormir no sofá.  Eu esperei sentado se teria uma solução, mas já imaginava que o sofá cama seria a melhor saída  Quando a Sra Gudélia voltou sem achar lugar para nós, preparamos o sofá cama, e a Bibi, para desespero da Gudélia,  ainda decidiu que iria tomar banho. Eu já me acomodei na parte do sofá que estava inclinada pelo menos uns vinte graus e capotei.

Uma das coisas que estava na minha lista para conhecer em Cuba era a Santeria, religião afro-americana que tem um parentesco com o Candomblé. Grande foi minha surpresa ao acordar com diversos rostos, potes e bonecos ao lado de onde eu estava dormindo! Uma coisa a menos para eu ter que sair procurando. Já no café da manhã, enquanto a Gudélia se desculpava pela noite anterior (que não nos cobrou, é claro) eu já a bombardeava com perguntas sobre a Santeria, prática que ela era adepta e conhecia muito bem.

Santeria

Santeria

Os copos de água são espíritos.

Os copos de água são espíritos.

Resumindo a história, tudo estava lotado, e acabamos ficando no quarto dela, que foi dormir no quarto do filho. Uma senhora muito simpática, que logo nos sentimos muito próximos. Saímos para caminhar por Havana Vieja, com seus prédios históricos reformados e ruas lotadas. Se Cuba choca muitos estrangeiros num primeiro momento, não pudemos dizer que o mesmo aconteceu com a gente. Realmente tudo é uma questão de parâmetro.  Depois de ter viajado para tantos países pouco desenvolvidos, Havana não se destacava no quesito pobreza. O que mais chamava a atenção eram os carros antigos e construções, dando aquela sensação de viagem no tempo.

Ficamos quase uma semana em Havana. Aproveitamos  bem o lugar. Adotamos o ônibus  bom e barato, como forma de transporte e uma vez ou outra pegávamos os táxis coletivos junto com outros cubanos. Conversamos com muitos em restaurantes, ônibus ou até mesmo na rua. Um simples pedido de informação se transformava em longas conversas, que até sentávamos para não cansar. E assim fomos perguntando a opinião das pessoas sobre o regime, as mudanças, as idéias, sonhos…

Praça de Revolução

Praça de Revolução

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Alteramos as atrações mais óbvias com longas caminhadas, deixando que o acaso nos apresentasse a Ilha. Até ônibus errado pegamos! Pena não ter conseguido ir nos treinamentos de Boxe. Levam o esporte a sério aqui, com uma população vinte vezes menor que a do Brasil, o quadro de medalhas é de dar inveja.

Consegui ver os centros organopônicos – plantações de hortaliças. Não aqueles em cima dos prédios, mas muito interessante uma cidade do tamanho de havana quase conseguir se abastecer de hortaliças produzidas localmente.

Véspera de ano novo, Centro Havana estava inacreditável. A movimentação das pessoas, carrinhos de mão onde transportavam porcos amarrados, toda a preparação da ceia, comércio lotado e caixas e mais caixas de cerveja e rum. Tínhamos combinado de pegar uma balada com o pessoal do Couchsurfing, mas a Bibi se assustou quando um vizinho nosso disse que o lugar era baixo nível, que nós iriamos nos estressar.

Iemanjá também é muito adorada pela Santeria. Na virada do ano, as pessoas jogam água pela janela. Baldes de água  não só na rua como em quem passa. Muito divertido. Fizemos uma ceia com a Gudélia e um vizinho órfão, que ela meio que adotou.

O único ponto baixo de Havana foi que tivemos nossa câmera roubada de dentro do quarto. Não só pela máquina em si, mas por todas as fotos. Inspirado no livro do Banksy, tinha tirado várias fotos das pinturas revolucionárias nos muros e outdoors da cidade, sem falar nas fotos dos carros, construções e pessoas. Bem, como diz a mãe de um amigo meu, só acontece com quem viaja. Tenho quase certeza que foi o filho da Gudélia. Pior ainda é saber que ele não precisa. A mãe, com a casa particular, onde aluga três quartos a 20-25 CUC cada, o Irmão vende roupas e ganha cerca de 300 CUC/mês, e o pai mora no exterior e manda dinheiro para eles. Só descobrimos quando estávamos de saída para Viñales, em Pinar Del Rio. Sabíamos que perderíamos o dia na Delegacia, e acabamos deixando para a volta, caso não aparecesse.

Pinar del Rio é a província mais a oeste de Cuba, região rural onde se planta grande parte do tabaco cubano. Viñales é uma cidadezinha bem gostosa, no meio de uma paisagem de montanhas maravilhosa. É bastante turística, pelo menos umas 300 casas particulares, mas é uma ótima base para explorar a região. Passeios voltados para o turista são caros, alugar cavalos ou até mesmo bicicletas, mas a região vale a pena. Exploramos fazendas, conversamos com camponeses e fumamos charuto, é claro. As fazendas são muito bacanas, auto-suficientes  todas planejadas, com suas hortas, arvores frutíferas (flores também são plantadas para atraírem os insetos), criação de animais, além do tabaco, é claro. Mas o produtor de carne de vaca não pode consumir nem um quilo sequer do seu produto, e tem que avisar se uma vaca morrer. Carne de gado é consumida somente por enfermos, velhos e crianças. Pode parecer indignante, mas se pensarmos que das milhões de crianças que morrem de fome, nenhuma esta em Cuba, mostra que é somente mais uma contradição.

Viñales

Viñales

vista

vista

Fomos a um show de musica a noite na praça na frente da igreja, cheio de gente, cubanos e turistas. Nada de musica cubana e sim hip-hop e ragatone. Mesmo nas pequenas cidades existem as Casas da Cultura, com atrações a preços acessíveis para os cubanos. Alias os cubanos são muito ligados a Cultura. Sempre prestigiam a musica e arte em geral. Fora de Havana não vi muitos, mas na capital existem incontáveis cinemas e teatros.

Andando de bicicleta, conhecemos um camponês que tinha uma caverna na sua propriedade. A tal caverna 8. Existem algumas cavernas na região que já tem iluminação, toda estruturada. Esta foi uma caminhada para chegar, e lá dentro só na tocha feita com uma garrafa e querosene. Tínhamos uma lanterna que nos possibilitou tomar banho no rio subterrâneo alem de seguir dentro da água até diversos salões. Os medos da Bibi estão ficando pela estrada!

Mesmo sabendo das maravilhosas praias de Cuba, eu não tinha vontade de conhecer. Achava que existiam coisas mais interessantes para fazer. Mas como não estou viajando sozinho, atendi o pedido da Bibi e fomos para Cayo Jutias. Praia maravilhosa, mar lindo, apenas com um restaurante. Nada daqueles resorts, mas não mudei minha opinião sobre as prioridades. Para mim o que mais valeu foi a conversa com o motorista, que trabalhou anos como engenheiro, antes de virar motorista. Se dizia ultra-capitalista, que faria qualquer trabalho para ganhar dinheiro. Isto não mudava seu sentimento nacionalista e até admiração pelo Fidel. Admiração pela revolução e liderança, não pelo comunismo. Não conhecemos nenhuma pessoa que disse que na época do Batista (antigo ditador) era melhor. Um país que da uma educação de qualidade, porem não cria meios para aplicar o conhecimento produzido.

Praias lindas, mas cultura mais interessante

Praias lindas, mas cultura mais interessante

De uma madeira geral, os mais velhos, que lutaram a Revolução, disseram que muitas vidas foram perdidas para simplesmente abandonar a causa. Os “um pouco” mais novos, lutaram a guerra de Angola, e também tem um sentimento forte com o país. Os camponeses, grandes apoiadores da Revolução, e beneficiados direto pela reforma agrária, de uma maneira geral apoiam bastante o regime, mas fazem suas críticas. Já os jovens são bem mais contestadores, não pelo sistema, mas pelas suas privações. Muitos acreditam nas mudanças, só acham que elas são muito lentas.

O sistema eleitoral, com os “delegados”, é uma espécie de parlamentarismo. Ninguém precisa estar ligado ao partido comunista para se candidatar. As eleições são bem democráticas, mas por outro lado, vai ter uma centralização total em cima dos Castros. Vai entender…

Região Rural

Região Rural

Nos despedimos dos carros de bois, das fazendas estruturadas e autossuficientes  daquele clima tranquilo e das montanhas para voltar para Havana. Depois do ocorrido, não nos hospedamos na casa da Gudélia novamente, mesmo sabendo que ela não tinha nada a ver com a história.

Caldo de cana, 8 centavos de Real

Caldo de cana, 8 centavos de Real, Pão com tomate, 24 centevos, Pão com salsicha, 40 centavos

Sabíamos que uma ida a delegacia nos tomaria grande parte do dia, mas resolvemos encarar. Mesmo sabendo que dificilmente recuperaríamos nossa câmera. Assim fizemos nossa parte, e ainda tivemos outra experiencia cultural. Foram cerca de sete horas gastas com a policia, desde a nossa apresentação e identificação, passando pelo longo interrogatório, feito por uma policial de mini saia curtíssima (eu nem tinha notado, a Bibi que comentou!). Toda a burocracia, relatos do dia a dia desde que chegamos, identificação de fotografias até a visita na casa da Gudélia, acompanhado de investigadores no seu Lada branco.

Os CDRs (Comitê de defesa da Revolução) podem ser o seu melhor amigo ou pior inimigo. É como se a cada numero X de quadras tivesse um síndico, e as pessoas se reunissem para tomar conta do bairro. A ideia é excelente, e dizem que funcionava muito bem até os anos 80. Mas hoje, com tantos problemas, ninguém da conta de resolver brigas de vizinhos, buracos na rua, dentre outros problemas do dia a dia. Imagine os problemas maiores. Todos se conhecem, e a fofoca corre solta. Portanto não é difícil descobrir as coisas que acontecem. Cerca de 80% dos cubanos estão inscritos nos CDRs. Encontramos inclusive cubanos contra o comunismo inscritos. Eles alegavam que a revolução era popular, e não comunista. Que se quisessem mudar algo, precisavam participar. Falavam que as mudanças estavam acontecendo, mas que tudo demorava pelo menos uns vinte anos para ser atendido…

Para o nosso ultimo dia ainda tínhamos uma visita a fazer. Uma professora, que da aula de história na Universidade de Havana há 40 anos. A filha dela mora em Paris, e é amiga de uma grande amiga da minha mãe. Fomos até sua casa no bairro de Santo Soares onde vive com seu neto. Fechamos com chave de ouro. Pudemos discutir todas nossas impressões e idéias com ela. Esclarecer situações e aprender muitas coisas. Ela não é cubana, mas mora em Cuba ha mais de 40 anos, pois casou com um cubano. Tem duas filhas morando na Europa, seu marido mora no México, mas ela se recusa a sair. Ama o país, e disse que em nenhum lugar no mundo valorizam um professor como em Cuba. Não achem que é uma comunista, muito pelo contrário. Não poupou duras criticas dentre os muitos elogios que fez ao país. Mesmo com a ótima qualidade de ensino, a infraestrutura é péssima, e falta até papel. Seria como agravar a situação dos problemas das Universidades Federais brasileiras varias vezes.

Enquanto jantávamos, um amigo do neto, colega de universidade, chegou com uma mochila cheia de eletrônicos. Ele tem passaporte espanhol e viaja para os EUA para trazer eletrônicos e fazer um dinheiro extra. Disse que vende tudo com muita facilidade.

Nossa anfitriã nos confidenciou que estava com câncer. Disse que recebeu tratamento de qualidade durante um bom tempo, mas que devido ao embargo, não existem peças de reposição para os aparelhos. Chegou a fazer alguns tratamentos em Paris, mas não quer abandonar sua vida em Havana.

Casa em Havana

Trocamos presentes, e ela nos deu uma cópia do ótimo filme “Habanastation”. Quando estávamos saindo ela nos disse uma frase que caiu como uma luva sobre a nossa impressão da ilha: “Cuba é o país das contradições”.