A Costa do Mosquito

O filme “A Costa do Mosquito” estreou na metade dos anos oitenta. Tinha como elenco Harrison Ford, chegou a ter indicação para o Globo de Ouro, e mesmo assim caiu no esquecimento. Hoje não se encontra um DVD do filme. A história original do livro “A Costa do Mosquito” do Paul Teuroux (que escreveu “O safári da estrela negra”, dentre outros ótimos livros de viagens) pode ser encontrado facilmente. Na história, o personagem principal, Allie Fox, tenta fugir do consumo e sedentarismo dos EUA, se mudando para a Costa do Mosquito, onde pretende criar uma sociedade perfeita, auto sustentável e longe dos vícios. Mas no final, tudo se arruína, devido a diversos problemas. A Cosa do Mosquito tem este nome não por causa dos insetos, mas por causa dos seus habitantes, os índios Misquitos. Ela engloba todo o sul da costa atlântica de Honduras e quase toda a costa atlântica da Nicarágua. Não reconhece fronteiras. Seus diferentes povos, línguas e costumes tem mais a ver entre si do que com o resto dos respectivos países. Foi colônia britânica durante muito tempo, além das línguas indígenas, falam inglês (na verdade um creole) e não espanhol. Não é incomum que se refiram ao resto dos nicaraguenses como “espanhóis”. Se Allie Fox, personagem do livro/filme fracassou na sua busca, eu não poderia dizer o mesmo, tendo encontrado o lugar mais interessante da América Central, pelo menos até agora.

Devido a obras na estrada, ao sairmos de Ometepe/Rivas, tivemos que passar em Masaya antes de ir para Granada. Masaya é famosa pelo seu artesanato, vulcão (com mesmo nome da cidade), mas principalmente pela bela cratera de vulcão com um lago dentro, chamado Apoyo. Existem algumas pousadas na região, mas nosso destino era Granada, somente uns 15 Km dali.

Cidade gostosa, com diversas pousadas e restaurantes, arquitetura colonial por todos os lados, além de belas igrejas e museus interessantes. O calor estava fortíssimo, então procurávamos fugir do sol nos horários de pico e passear cedo e final de tarde. Se a comida da Nicarágua já vinha nos agradando, encontramos nesta estilosa cidade um excelente custo-benefício.

Catedral de Granada

Catedral de Granada

Antiga ferroviária

Antiga ferroviária

Deuses de pedra dos antigos abitantes da região

Deuses de pedra dos antigos habitantes da região

De Granada uma rápida passada em Manágua, onde pegamos um ônibus para Santo Tomé, cidadezinha pouco depois de Juigalpa (para que possam encontrar no mapa), já a caminho da Costa do Mosquito. O estilo do ônibus  carregado até com camas no bagageiro, superlotado até mesmo nos corredores, davam todo um estilo para a viagem. Dezenas de vendedores subiam e desciam nas incontáveis paradas, vendiam remédio, escovas, música, chocolate além de diversos tipos de comidinhas. Uma espécie de queijo qualho, servido num saco plástico junto com um caldinho, era um dos mais populares e decidimos acompanhar o pessoal. Na hora da fome mesmo, sacolinhas com pedaços de frango, repolho e banana verde frita estavam a disposição. Sobremesa manga verde com sal e pimenta, dente outras diversas possibilidades.

ônibus parecido com o nosso

ônibus parecido com o nosso

Região meio velho oeste, bem estilo country. Pequenas lojas vendendo selas para cavalo feitas artesanalmente, e muitos chapéus. Minha parada foi relativamente rápida, somente para deixar a Bibi no monastério que ela ficaria nos próximos dias, numa pequena cidade nas montanhas, há uns quarenta minutos dali. Horas depois eu estaria em outro ônibus  interagindo com o pessoal, sentido El Rama, ponto final da estrada. Cheguei já de noite, e fui me informar sobre os horários dos barcos. Os lentos barcos de carga, saem somente algumas vezes por semana. O rapaz do “porto” disse que eu teria que pegar uma “panga”, uma canoa motorizada. Tinha visto diversas opções de pousadas, todas muito simples. Aproveitei para pedir uma indicação de lugar para ficar. Ele falou que o lugar que estava era barato e limpo, bem o que eu precisava. Pertinho do trapiche, me facilitaria na manha seguinte quando teria que madrugar. A rua era toda esburacada e com poças d’água. Ao lado corria um pequeno esgoto a céu aberto. Cheguei no hotel pensando que não ficaria, mas os quartos eram bem limpos, lençóis novíssimos, e o preço inferior a três dólares. Resolvi ficar, larguei a mochila e fui procurar um lugar para comer. Cidadezinha escura, meio decadente, mas com um certo charme. Barraquinhas de comida na rua principal, e quando eu me aproximei de uma delas para ver o que tinha para comer, um soldado com sua turma me cumprimenta e pergunta da onde sou. Na hora pensei, ferrou, já me preparei para uma longa negociação e corrupção. Mas eu havia me enganado, e acabamos conversando um bom tempo, quis até me pagar cerveja. Cachorros esqueléticos deitados no meio da rua, mal se levantavam para pegar os ossos que jogávamos nas suas direções, davam um clima de fim do mundo para aquela noite úmida. Logo inicia um vento forte e trovoadas, me despeço dos meus amigos e me recolho no pequeno quarto. Uma chuva fortíssima inicia. As telhas eram de metal e faziam um barulho ensurdecedor. Achei que não conseguiria dormir, mas depois das longas horas de viagem desconfortável e da cervejinha, capotei.

Rua escuras de El Rama

Rua escuras de El Rama

Hotel mais barato da viagem, menos de 3 USD

Hotel mais barato da viagem, menos de 3 USD

Acordei com o despertador, os galos ainda nem começavam a cantar. Tomei um banho frio e fui com minha lanterna procurar um lugar para tomar um café. Encontrei uma banca de nicaraguense/americano com quem fiquei conversando enquanto tomava e comia algo. Na hora de pegar a “panga” fiquei feliz ao ver que era um pequeno barco de alumínio  e não uma canoa motorizada, afinal seriam algumas horas, acompanhando as curvas do Rio Escondido, até chegar em Bluefilds.

O trajeto é muito bonito, mas não confortável. O rio vai se abrindo até se tornar uma lagoa, onde está Bluefilds. A cidade-porto é o centro da região, e pode ser avistada de longe, com uma igreja morava se destacando. Labirinto de ruelas perto do deck até chegar na rua principal. Além de muitos jamaicanos que migraram para cá, muitos escravos fugiram de países vizinhos no passado e encontraram  proteção nesta região isolada. O clima de reggae, alegria do povo, pessoas falando creole (um dialeto de inglês  falado muito rápido) dão um charme pra o lugar. Mas nem tudo são flores, muito pelo contrário. O fato de ser uma cidade portuária  muita prostituição, violência e trafego de drogas. Alias um dos grandes corredores de drogas para chegar no México/EUA.

Bluefilds

Bluefilds

Alguma pessoas vem até aqui para pegar um barco até Corn Island, ilhas paradisíacas da Nicarágua, mas a maioria prefere voar de Manágua  o que encurta a viagem em alguns dias. Apesar de ser um paraíso, minha intenção não era de ir para Corn Island, mesmo com o navio cargueiro saindo para lá no dia seguinte. Se a Bibi tivesse comigo este provavelmente seria nosso destino, bem casal, mas sozinho buscava algo mais cultural.

Peguei uma “panga” até uma pequena cidade, Lagoa das Perolas, uns 50 km ao norte dali. Viagem também muito bonita, por canais que se formam paralelos ao mar. Uma rápida parada numa vila até chegarmos num pequeno pier, onde pessoas esperavam encomendas. Uma cidadezinha astral, com duas ruas paralelas e meia duzia de hospedarias. Lugar gostoso, logo me acostumei com os “Gude-gude” ( good day, good day), “haia” (hey you) dentre as poucas coisas que conseguia identificar do creole. Curtir a região com calma, até juntar pessoas para dividir um barco para ir até Pearl keys, conjunto de ilhotas ao longo da costa norte dali.

Igreja morava

Igreja morava

Vista da Lagoa das Perolas

Vista da Lagoa das Perolas

Conheci um casal de espanhóis( na verdade catalães) que az trabalhos voluntários ali perto (na verdade umas 10 horas de barco ao sul), e fomos juntos até as vilas Misquitias de Ratipura e Awas, onde tomamos banho na lagoa, e curtimos o lugar.

Garoto creole em Awas

Garoto creole em Awas

Me surpreendeu que logo chegaram outros estrangeiros na pousada e assim pudemos alugar um barco. O dia amanheceu cinzento, não parecendo que o programa daria certo. Como a maioria tinha pouco tempo, encaramos mesmo assim. Fomos pela lagoa, passando por pequenos barcos a vela, até chegar no outro lado da lagoa, onde tem passagem para o mar. Um posto do exercito nos surprendeu, onde fizeram até controle de passaporte. Depois foi só lutar contra o vento e ondas, seguindo ao norte. No momento que nos afastamos do continente o tempo abriu e o mar acalmou. As primeira ilhotas começaram a aparecer. Algumas minusculas, outras habitadas por pequenas famílias, outras com construções abandonadas. minha ideia era de dormir nas ilhas, mas sem transporte regular, poderia ficar dias ali antes que um pescador passasse sentido Lagoa das Perolas, então achei melhor não ariscar.

Ilhas paradisíacas, algumas já tiveram estrutura para o turismo, mas existe uma grande disputa para saber quem são os donos das ilhas. As ilhas ao norte são todas habitadas por Misquitos, mas as ao sul dependem de “caseiros” para cuidar. Aproveitamos a praia, mergulhamos e tomamos água de coco, retiradas dos muitos coqueiros que tem por ali. Pique-nique no almoço e mais praia em outras ilhas. Aproveitei para conversar bastante com o Mr Taylor, nosso barqueiro, muito gente fina. Outras pessoas bastante bacanas no nosso grupo também. O tempo mudou bruscamente e uma tempestade iniciou. Nos protegemos na pequena barraca de lona e outros foram para o mar mesmo. Parecia que duraria para sempre, quando meia hora depois o céu limpou. Tempo imprevisível por aqui.

Pearl Keys

Pearl Keys

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Precisa de legenda?

Precisa de legenda?

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Banheiro

Banheiro

Depois da tempestade

Depois da tempestade

Tempo muda rápido

Tempo muda rápido

Na volta tivemos que improvisar velas para aproveitar o vento, pois a gasolina estava acabando. no final deu tudo certo, e chegamos a salvo na Lagoa das Perolas. Quase todos do grupo se foram, mas eu queria explorar mais a região. Um pouco mais ao sul está Haulover, vila de pescadores misquitos e creoles. Batendo papo com uma senhora ela me apontou para baixo de uma casa. De longe parecia que tinha vários sacos de cimento, mas quando me aproximei vi que eram tartarugas. São pescadores de tartarugas, tem até licença para isto. Apesar de pescarem para a subsistência, com barcos e técnicas rudimentares, da pena dos bichinhos. Para a carne não estragar, eles mantem os animais vivos, de casco para baixo, com a nadadeira amarradas, e vão matando de acordo com a necessidade.

Mais de 15 tartarugas gigantes

Mais de 15 tartarugas gigantes

A vila de Cacabila fica uns 50 km ao norte, onde existem misquitos bem mais tradicionais. Mesmo assim utilizam pequenos barcos, onde a vela é feita de lona plastica. Mais para cima está Orinoco, onde o povo é Garifuna. Cada um dos povos tem língua  musicas dentre outros aspectos culturais.

Habitação local das comunidades ribeirinhas

Habitação local das comunidades ribeirinhas

Embarcações utilizadas no local

Embarcações utilizadas no local

Detalhe para as velas de lona plastica

Detalhe para as velas de lona plastica

Depois de uns dias na Lagoa das Perolas já conhecia bastante gente. De dia alternava entre os poucos restaurantes, e acabei experimentando o prato tipico da região, tartaruga. Fazem caldo até com a carne que fica no casco, aproveitando tudo de suas pescas. De noite não tinham muitas opções para jantar, portanto fui todas as vezes no mesmo bar/restaurante, onde depois da janta tomava uma cerveja e escutava um reggae com os rastafaris. Alias, em terra de velhos rastafaris, os jovens revoltados são do hip-hop. Eles se reuniam na quadra de basquete, perto da igreja Moravia da cidade.

Preparando o prato típico da região

Preparando o prato típico da região

Aproveitando toda a carne

Aproveitando toda a carne

Chegava a hora de eu ir buscar a Bibi no monastério. Para evitar todas as conexões e longas horas de barco, resolvi encarar a pequena estrada que anteriormente eu nem sabia que existia. Um ônibus por dia parte antes do sol nascer, e viaja a manhã toda para percorrer uma distância não muito longa até El Rama. Não eram oito e meia da manhã quando paramos numa das pequenas vilas que cruzamos. Um “restaurante” servia arroz, feijão, frango… para o café da manhã. Como o dia seria longo, não pensei duas vezes antes de pedir um prato fundo para mim.

Parada para abastecer

Parada para abastecer

Meus três novos amigos pastores nicaraguenses-americanos e salvadorenho-americano tentaram me convencer  a me tornar missionários da igreja deles na África. No início levei na boa, mas depois encheram o saco. Acho que eles também não gostaram muito das minhas contestações diretas sobre coisas que falavam, muito menos de eu defender Judeus e Muçulmanos. Pelo menos a viagem passou rápido. Em El Rama, eles já desacostumados com transportes duros por morarem nos EUA, resolveram seguir de taxi. Eu me despedi da Costa do Mosquito, saltando no primeiro ônibus que vi. Paguei uns trocados (o ônibus custa menos de um dólar por hora de viagem)  e ao contrário de outras viagens, não conversei com ninguém. Mesmo assim a viagem foi tranquila. Horas mais tarde eu chegava em Santo Tomé, para buscar a Bibi. Trazia comigo um grande sorriso estampado no rosto.

Sandinista!

A Nicarágua é um dos países que mais vezes foi invadido pelos EUA. É também um dos poucos países onde os EUA admitem que perderam uma guerra. Uma das primeiras invasões foi pelo Mercenário americano Willian Walker. Com a proibição da escravidão nos EUA, ali a prática poderia ser rentável. Com a corrida do ouro, muito americanos navegavam pelo rio San Juan até o lago Nicarágua, atravessavam os poucos quilômetros de terra até o porto, onde pegavam um navio até a Califórnia. Era muito mais rápido, fácil e menos perigoso que atravessar os EUA por terra. Primeiramente ali pensaram em construir um canal transoceânico, mas depois de verem a atividade dos vulcões ao redor, acabaram transferindo para o Panamá.

A figura histórica mais importante do país é o Augusto C. Sandino, guerrilheiro nacionalista que lutou contra as interversões americanas e ditaduras instaladas. Acabou sendo assassinado após ter assinado um tratado de paz, pelo então ditador Somoza. A dinastia Somoza dominou o país com mãos de ferro por décadas e possuíam mais da metade das terras da Nicarágua. Como se o fantasma do Sandino tivesse voltado para prestar conta com os Somozas, surge a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). Em épocas de guerra fria, não era mais uma guerrilha somente nacionalista, mas também comunista (quem negaria o apoio da URSS tendo um inimigo em comum?). Para o povo sofrido com tantos anos de ditadura isto pouco importava, queriam era mudanças. Estudantes e camponeses aderiram a luta da FSLN, e finalmente acabaram com a ditadura. Parecia tudo terminado, mas o então presidente americano Reagan, decide apoiar a antiga guarda nacional do Samoza, e cria os “Contras”. Uma brutal guerra civil por mais quase dez anos, até que  assinam uma tratado de paz. Finalmente uma democracia. A FSLN perde a eleição, e existe uma sequencia de governos extremamente corruptos. Uma coalizão da FSLN com o ex-lider dos Contra assume o poder anos mais tarde, mas a corrupção não muda.

Toda a instabilidade do passado e dificuldades do presente, fez com que o turismo não tenha se desenvolvido tanto na Nicarágua. Com isto a região nos pareceu muito mais autentica, povo simpático e cultura melhor preservada. Mas tudo isto tende a mudar, o NY Times recomendou o país como um dos destinos para ser visitado em 2013: (Clique aqui).

Na movimentada fronteira de Peñas Blancas, pagamos a taxa de 13 usd (não precisa de visto, mas tem que pagar esta taxa) e pegamos um táxi junto com duas holandesas. De ônibus teríamos que fazer algumas conexões, seguir ao norte até Rivas para depois voltar. Fui batendo papo com o motorista que era muito gente boa, e os preços também eram bem convidativos. Não demoramos muito para chegar a San Juan del Sur, um balneário movimentado para o padrão das praias nicaraguenses, com sua praia em forma de ferradura e diversos barcos ancorados. Os preços eram menos da metade que os da Costa Rica.

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Por do sol em San Juan del Sur

Por do sol em San Juan del Sur

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De lá aproveitamos para visitar as outras praias da região. Para chegar na Playa Hermoza, não existe transporte publico, mas algumas vezes ao dia sai um caminhão pau-de-arara para levar o pessoal. Depois de trafegar por estradas de terra e passar por diversos portões de fazenda, chega-se à praia. Longa, boa para o surf, com petras para quebrar a monotonia do horizonte. Somente uma pequena pousada e um restaurantezinho.  Água gelada do pacifico para refrescar os sol que estava fortíssimo, e ainda tivemos a surpresa de ver pequenas tartarugas dando seus primeiros passos sentido ao mar.

Tartaruga

Tartaruga

Já a praia de Maderas já é mais da “galera”. Pequena, boas ondas, musica e publico jovem. A Bibi acabou fazendo aulas de surf e nos divertimos bastante. Ela surfando e eu vendo ela levar uns tombos!rs Ficamos amigos de umas norueguesas que também estavam fazendo aula de surf, e acabamos saindo em San Juan para comemorar o aniversário de uma delas. A balada é pesada por ali. Toca algumas musicas tradicionais e internacionais, mas o foco mesmo é o regatone. Antes de sair demos uma passada no desfile da miss Nicaragua, que estava acontecendo em um palco montado na praia. Super simples, mas tava divertido de ver, principalmente pela reação do publico.

Bibi surfando

Bibi surfando

Mas apesar da vida noturna movimentada, de dia o lugar parecia uma pequena vila. Ficamos numa pequena pousada bem gostosa e aproveitamos bastante a região. No mercado tinha uma seleção de frutas diferentes para experimentar, mas nem por isto abandonei os galo-pinto (feijão com arroz) feito com tanto carinho pela dona da pousada para o café da manhã.

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As distâncias enganam um pouco por aqui, em quilometragem tudo é perto, mas em tempo de viagem demorado. Pegamos um ônibus (estilo “onibus-galinha”, antigos ônibus escolares dos EUA) até Rivas, outro até o pequeno porto, de onde pegamos um barco. Carregaram o barco com tudo que era possível, e fomos no topo, para curtir o visual. O lago é gigante, se perde no horizonte, mas a ilha de Ometepe, em forma de oito, com seus dois vulcões se destaca.

Vulcão Concepcion

Vulcão Concepcion

Com o vento o lago estava agitado, balançou bastante, mas não demorou tanto assim para chegarmos no porto de Moygalpa. Deu tempo de se esticar um pouco, comer alguma coisa e pegar o último ultra-lotado ônibus até Santa Cruz, do outro lado da ilha. De lá ainda queríamos ir até a pequena vila de Balque, região bem rural. Não tinha mais transporte e seria uma longa caminhada. Fomos andando para ver se encontrávamos algum outro lugar para ficar quando passou um furgão antigo. Conseguimos pegar carona, e por sorte, eles estavam indo para a mesma fazenda que nós. Um casal de americanos que estava viajando com dois cachorros, pretendendo ir dos EUA até a argentina. O dia tinha se passado, mas deu tempo de ver o por de sol da varanda da antiga casa da fazenda de café, com o lago e vulcões para dar o clima.

Vista da varanda

Vista da varanda

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A ilha proporciona diversas atividades. A mais óbvia é subir um dos vulcões, claro. Existem cachoeiras, gravuras rupestres, trilhas e o próprio lago. Um dia alugamos uma scooter para dar uma circulada mais longe, mas outros dias a própria bicicleta quebrou o galho. Nosso quarto na fazenda de café parecia um galpão onde tinham colocado uma cama. De manhã bem cedo já acordávamos com os barulhos dos pássaros e dos macacos que gritavam nas arvores ali ao lado.

em algum lugar da ilha

em algum lugar da ilha

Antes de ir embora decidimos ficar na praia de Santo Domingo, de onde seria mais fácil para pegar transporte. Fomos tomar banho nas piscinas naturais , rodamos, curtimos o visual do lago com bois tomando água e se banhando com o vulcão ao fundo e no final do dia fui caminhar pelo Sendero Peña Inculta. Já na chegada um grupo de macacos me recepcionou. Foram me acompanhando não de muito longe. Ao caminhar no meio do mato se espera silencio, mas não ali. Com a chegada do final de tarde, pássaros cantavam alto, macacos berravam, arvores chacoalhavam com o vento, dentre diversos outros sons que eu não conseguia identificar. Sentei, fechei os olhos e fiquei curtindo o lugar.

animais tomando agua e vulcão Madero ao fundo

animais tomando água e vulcão Madero ao fundo

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Tem varias coisas para se fazer na ilha Ometepe, mas o mais legal é o lugar em si, o clima rural da região, a simpatia do povo, as fazendas de café e seus casarões com os vulcões ao fundo. O tempo passa devagar por ali. Existe um barco que atravessa o lago Nicarágua de ponta a ponta, onde poderíamos ir diretamente para a cidade de Granada. Mas como ele só passa duas vezes por semana, tivemos que pegar um barco para Rivas e de lá uma ônibus “escolar” para Granada, uma das cidades mais antigas de toda a América.

De volta a escola?

De volta a escola?

Ps- “Sandinista!” também é o nome de um disco (ou seriam três?) de uma das maiores bandas de todos os tempos, The Clash.

Costa Rica, um ótimo lugar para ser turista.

Já faz mais de 60 anos que a Costa Rica não tem exército próprio. Cerca de 20% do território são parques nacionais e áreas protegidas.  Os cardápios são bilíngues em muitos restaurantes. Muitos falam inglês  e outros tantos tentam ou gostariam de falar, pois falam espanhol com sotaque americano. Possuem moeda própria, o Colon, mas o USD é aceito em diversos lugares, sendo possível até sacar no caixa eletrônico.  É um país lindo, onde se pode ir do atlântico até o pacifico em algumas horas. Cheio de praias bonitas, florestas, vida selvagem e vulcões. Um destino com turismo bem desenvolvido. Não é em qualquer lugar do mundo que se pode parar um carro, comprar uma galinha para jogar para crocodilos em baixo da ponte. Fácil de viajar, recebem milhares de turistas em busca dos “animais exóticos”  ou do turismo de aventura. Cheio de coisas para fazer, mas nem tantas para se viver.

Da fronteira com o Panamá, é um pulo até Puerto Viejo de Talamanca. Toda região do caribe costa-riquense se difere bastante do restante do país. Tem uma influencia negra muito forte. Claro que tiveram os escravos que trabalhavam nas plantações de café, mas o numero aumentou consideravelmente no final do seculo 19, com a chegada de trabalhadores jamaicanos, contratados para construir a estrada de ferro. O clima é total relax, pessoal gente boa, num clima de praia-surf-reggae.

Primeiro ficamos numa pousada mais afastada, com varanda com vista para o mato, onde dava para ver bicho-preguiça nas arvores. A negociação foi meio no estilo “pague quanto estiver a fim” coisa que não aconteceu em outros lugares do país. Depois ficamos mais perto do centrinho, onde alugávamos bicicleta para passear e ir para as praias. Punta Uva, uma boa pedalada ao sul foi uma das que mais gostamos para pegar praia. Playa Grande e Punta Manzanillo também é muito bonito. Ao norte da Playa negra (areia vulcânica ) tem o parque nacional Cahuita. Já a praia de Cocles era onde se concentravam a maior parte dos jovens.  Tinha bastante onda, e aproveitei para surfar. As praias daqui, apesar de ser no caribe, tem aquele aspecto mais selvagem, com vegetação fechada, água limpa mas não azul-caribe. Eu acho mais bonito, menos monótono, e passar por bandos de macacos ou escutar seus barulhos enquanto está indo para praia não tem preço.

Praia

Praia

Bibi por ai

Bibi por ai

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Punta uva

Praia Punta uva

É um lugar turístico-rustico, com algumas pousadas melhores e restaurantezinhos para turista. Existem também os Sodas, restaurantes de comida local, que servem o famoso PF. Aqui são chamados de “Casados”, arroz, feijão, salada, banana verde frita e uma carne.  Passamos uns dias de férias pela região, curtindo o que os costa-riquenses chamam de “Pura Vida”.

Canto da praia de Cocles

Canto da praia de Cocles

O lugar tem várias baladas, mas estávamos mais no espírito de acordar cedo para curtir o dia. Só uma noite que saímos no bar Salsa Brava, que fica bem em frente a famosa onda com este mesmo nome. Um luau cheio de rastas, onde era difícil imaginar que não estávamos na Jamaica. Foi muito divertido!

Depois de explorar a região, seguimos para a capital, San José, que uma família de argentinos brincava: “Sim, é legal, tem o palácio do governo, a catedral, a praça, o teatro… como qualquer outra cidade…” Realmente, em geral, as capitais na América central não são muito interessantes.

Tínhamos a dúvida se iriamos para Montezuma, na península Nicoya, já no pacífico. Como havíamos tirado umas “ferias” na costa do caribe, resolvemos pular esta. Na nossa lista também estava o parque nacional Corcovado, muito bem recomendado,que fica perto da fronteira com o Panamá, mas do lado pacífico. Como estávamos indo para o norte, por uma questão logística, achamos melhor ir direto para Santa Elena/Monteverde. Cidadezinha nas montanhas, com vista para o pacífico, e cercada por florestas tropicais. Muito vento, que trás a umidade do caribe que se condensa pela altitude. Não chegava a chover muito, mas a nebrina passando muitas vezes chegava a molhar. O vento era fortíssimo e muitas vezes nos acordou a noite, parecendo que  a pousada ia levantar vôo.

vista

vista

A região proporciona caminhadas e diversos “brinquedos para adultos” no melhor estilo aventura. Fizemos a tirolesa, com diversos cabos, alguns com mais de 120 metros de comprimento. Primeiro entre as arvores e depois por cima delas. A Bibi encarou bem, e cada vez tem menos medos. Se bem que ela dispensou o “balanço do Tarzan”, que é uma queda livre…hehe

Tirolesa

Tirolesa

Santa Elena

Santa Elena

O Monteverde Cloud Foreste tem diversas trilhas, pontes suspensas, ótimo lugar para caminhadas. Floresta muito bonita, com arvores impressionantes. Conseguimos pegar uma carona na volta, o que nos evitou de ter que esperar o ônibus que só passa de tempos em tempos.

Monteverde CF

Monteverde CF

A cidadezinha de Santa Elena é toda voltada para o turismo, o que torna difícil ter experiências mais autenticas. Mas foi muito interessante ver uma missa lá, com a igrejinha lotada e cheio de pessoas cantando musicas em espanhol. Ao lado da pequena igreja tinha uma lanchonete onde tomamos suco de abacaxi com água de arroz e de canela com aguá de arroz.

Cantantes

Cantantes

De Santa Elena pegamos um transporte até o lago Arenal, um barco, e outro transporte até La Fortuna. Do lago já dava para avistar o vulcão arenal, com o topo encoberto por nuvens, maior atração da região. O turismo se desenvolveu por ali pois era possível ver erupções e explosões de lava até não tanto tempo atrás. Mas o vulcão deu uma acalmada. Região com diversas opções de hotéis e restaurantes, dezenas de “agências de turismo” tentando te vender todo o tipo de “esporte de aventura”. Mais um lugar onde se pode ter uma boa experiencia turística, fazer coisas, mas  nada autentico.

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Laguna Arenal

Laguna Arenal

Teve um dia que alugamos bicicletas e fomos montanha acima até uma cachoeira. Como tudo por aqui, tem que pagar para entrar, e não é barato. Alias, Costa Rica não é nem um pouco barata. A cachoeira é muito bonita, queda alta, cercada de vegetação. Tomamos banho gelado, mas o mais legal aconteceu por acaso. Nós estávamos andando pela trilha, quando ouvimos um barulho, como se fosse um grito, e ago caiu de uma arvore na nossa frente. Era uma cobra, que acabava de pegar um sapo na nossa frente. O sapo berrava, enquanto a cobra se firmava e logo saiu para fora da trilha com o ele esperneando.  Ia escrever que vimos uma cobra comendo uma perereca, mas achei que poderiam interpretar de forma errada…rs

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Cachoeira

Cachoeira

Vulcão Arenal visto de La Fortuna

Vulcão Arenal visto de La Fortuna

No nosso caminho até a Nicarágua, pela Ruta Nacional 4, passaríamos perto do Rio Celeste, em outro parque nacional. Um lindo rio azul, em um parque com vulcão. Acabamos optando por não ir. Achamos que o tempo poderia ser gasto de uma maneira melhor em um lugar mais autentico.  Pode ser somente um estado de espirito, mas apesar da beleza do país, a Costa Rica não tinha nos cativado.

Estrada rural

zona rural

Depois de diversas paradas em pequenas cidades, chegamos na principal estrada da América Central (Panamericana HWY), que corta o continente de norte a sul, já perto da movimentada fronteira de Peñas Blancas. Depois disto foi só atravessar a fronteira, e se apaixonar pela Nicarágua!

Panamá, muito mais que um canal.

Não adianta, quando se fala do Panamá, a primeira coisa que vem na cabeça é o famoso Canal do Panamá, que liga o oceano atlântico ou pacífico. Construído no final do seculo 19, acabou ficando pronto só em 1914. Fans de grandes obras de engenharia podem discordar, mas ao chegar na Cidade do Panamá, não teve uma pessoa que visitou o canal que estava empolgada com o que viu. O conjunto da obra e sua importância é muito mais interessante do que o que se vê. O Panamá tem muito mais para oferecer.

Chegando no Panamá, fomos direto para Casco Viejo, a parte antiga da cidade. Uma das poucas partes da cidade que tem ainda tem certa autenticidade. Quando pesquisei sobre a Cidade do Panamá, li muito sobre mini-Dubai, Mini-Miami e outras comparações. Realmente existem prédios super modernos no centro, tem muito dinheiro rolando, mas a desigualdade é grande, basta passar por bairros como El Chorrillo, para ver que ainda tem muita pobreza.

O Casco Viejo esta sendo revitalizado. Como o palácio do presidente (Palacio de las Garzas) fica por ali, a região é fortemente policiada. Alguns prédios históricos reformados, e muitos caindo aos pedaços, não tem meio termo. A Bibi gostou bastante da região, eu não posso dizer que me encantei, mas com certeza melhor que a parte moderna da cidade, onde só é “mais uma cidade”.

Igreja no Casco Viejo com o coreto da praça

Igreja no Casco Viejo com o coreto da praça

Parte moderna da Cidade do Panamá

Parte moderna da Cidade do Panamá

Bem próximo de Casco Viejo, está o mercado de peixe, melhor lugar que mais gostei da Cidade do Panamá. Não muito diferente de tantos outros mercados de peixe, mas com diversas barraquinhas vendendo vários tipos de ceviche com preços de 1 a 3 USD. No Panamá, utiliza-se o USD, mas as moedas são de Balboa (moeda de dólar também são aceitas). Mas voltando as comidas, as barraquinhas ficam cheias de panamenhos, comendo, escutando musica e tomando cerveja. Não se assuste se um vendedor ambulante te oferecer ovos de tartaruga. Eles são muito apreciados por aqui. Muito temperados e apimentados, tem uma consistência estranha. Você tem que rasgar a casca, que é mole e sugar a gema e a clara. Vai se sentir um lagarto!

Ovos de tartaruga

Ovos de tartaruga

Nosso maior interesse no Panamá era o arquipélago de San Blas, na região autônoma de Kuna (Guna) Yala. Até poucos anos atrás, para chegar lá só de avião ou encarando um longo dia de viagem por estradas enlamaçadas. Agora com o asfalto, está tudo bem mais fácil. Não existe transporte público até lá, então você vai ter que entrar em contato com uma das diversas agencias para se esquematizar. É possível acertar só o transporte ou fazer um pacote completo.

Acabamos fechando com a Lam Tours. Passaram para nos pegar bem cedo, mas fomos levados para um escritório superlotado de turistas e me deu um desespero. Alta temporada, tava cheio de gente, todos tentando escolher a ilha que ficariam, querendo fazer festa. Achei que não teria sossego e me deu um grande mau humor. Será que não teria tranquilidade? Mas uma enrolação para fazer compras no mercado, levamos muitos galões de água, já que pretendíamos ficar alguns dias por lá.

Estrada bonita, com mata fechada ao lado, cheia de curvas e sobe e desce. O estilo montanha russa faz com que a viagem, apesar de não tão distante, demore umas quatro horas. Um posto de controle mostrava que estávamos entrando na comarca de Kuna Yala. Como é uma região autônoma  a partir dali o que vale são as leis indígenas. Um pouco mais para frente um rápido controle de passaportes e logo chegamos no local onde saem os barcos. São 365 ilhas, mas nem todas são habitadas. As mais próximas do continente têm vilas, mas muitas outras são habitadas somente por uma ou duas famílias.

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Nós tínhamos arranjado tudo para ficar na ilha Diablo. Apenas uma parada para abastecer em uma ilha-vila e seguimos viagem pelas águas transparentes do caribe. Ficamos muito contentes com nossa ilha, muito bonita e calma. O problema é que era uma das com menos infraestrutura, a Bibi chegou a pensar que não ficaríamos tanto tempo quanto queríamos, mas logo entrou no esquema. Se inicialmente não acertar direto com o “dono”da ilha, uma dica é de falar que vai ficar somente um ou dois dias, depois estender a sua estada. Nós fizemos isto e conseguimos o preço de camping para ficar em uma cabana que tinha até cama, um luxo! hehe “Pousada” literalmente pé na areia, já que não tem piso, desce da cama pisando na areia. Fica a poucos metros do mar azul cristalino, com uma rede na frente.

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Para dar uma volta na ilha não demoram muitos minutos, inclusive o banheiro ficava lá do outro lado. Tinha uma cabana de palha mais próxima onde tomávamos banho. Tinha um buraco com água doce onde pegávamos água com uma jarra para encher o balde.

A ilha ao lado, numa distancia onde era possível nadar, tinha um barco afundado, somente com a proa para for a. No caminho também tem uns corais com seus devidos peixinhos. Na ilha tinham poucas pessoas, e logo ficamos muito amigos, principalmente dos hermanos argentinos, muito gente boa! Altos bate papo no final de tarde. Pessoas vinham e iam, e nós fomos ficando. Um dia chegou um barco cheio de gente, e a ilha ficou lotada. Não foi só o clima que mudou, mas a qualidade da comida. Para quem tinha comido lagosta, ficar só no peixinho foi triste. rs

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O barco da ilha saia todos os dias para passeios, algumas vezes ilhas próximas e outras mais longe. Lugares para fazer snorkling, ou somente para curtir uma outra praia. Algumas enseadas estava lotadas com barcos a vela, alguns inclusive com bandeiras brasileiras.

Antes de ir embora teria que ter um grand finale. Um festival estava para acontecer, onde iriam dar o nome para duas jovens Kuna. Fomos em uma das ilhas principais, já mais perto do continente (utilizam o continente para agricultura), nada de praias bonitas. Barreiras com pedras para evitar que a água avance, e uma casa ao lado da outra, um super aproveitamento do espaço. Corredores entre as casas de madeira, conhecemos a ilha com a tradução de um holandês que casou com uma local.

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O festival acontece em um galpão central, que estava muito cheio. As mulheres, assim como nas ilhas pequenas, estavam com suas roupas típicas. Já os homens vestiam roupas comuns. Toda uma cerimonia  com homens para um lado e mulheres para o outro. Um senta e levanta, com chefes Kuna levando podes de Chincha (bebida local feita de cana de açúcar destilada e café) para frente e para trás, oferecendo para as pessoas alinhadas lateralmente. Eles também fumavam charutos de palha e baforavam a fumaça na cada de todos, inclusive de nós. Uma festa que dura cinco dias e se bebe muito. Algumas vezes passavam distribuindo presentes, que não tem nada de tradicional, pacotes com bala e cigarros.

Caminhando pela ilha pedi para tirar uma foto de uma senhora, ela levantou o dedo indicador, e eu disse, sim, só uma foto. Tirei a foto e ela falou, um dólar. Problemas de comunicação! Eles não são muito chegados em fotos, e isto já virou um comércio.

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Infelizmente fomos embora antes da musica começar, não sem antes aprender a história dos Kuna e sua relação com os EUA durante a construção do canal, o que posteriormente ajudou a conquista da autonomia da região. Chamou a atenção a quantidade de lixo plastico, como já havíamos observado em outras regiões onde o tradicional tem contato com a industrialização de uma maneira brusca. Uma pena.

Volta para a Cidade do Panamá, onde descansaríamos e depois de tantos dias tomamos um banho em um chuveiro! Saímos com nossos amigos argentinos e como estávamos com tempo sobrando, demos uma passada no Canal do Panamá. Mas foi somente um pit-stop para recarregar as energias e seguir viagem. Depois de uma noite bem dormida e um dia tranquilo, pegamos um ônibus noturno até a cidade de Almirante e depois um barco para Bocas del Toro. Estávamos na dúvida se íamos para lá ou não. É uma ilha conhecida pelo surf e pelas festas, achávamos que poderia estar cheia demais. Sabe que até que não estava. As festas rolavam madrugada a dentro, mas para quem estava em outro ritmo não chegava a atrapalhar. Só faltava ter uma bandeira da argentina proclamando território deles. Incrível a quantidade de argentinos que encontramos nesta viagem, em todos os países. Pelo menos uns 50 argentinos pera cada brasileiro.

Bocas del Toro tem mais um clima selvagem, com mangues ao redor, mato. O primeiro lugar que fomos foi para a praia das estrelas, ainda na ilha Colon. Ônibus até Bocas del Drago e uma gostosa caminhada pela areia, contornando a ilha. Mas ao chegar lá tinha uma farofada, isopores, churrasquinho, barulho… Não tínhamos nos dado conta que era domingo, e tava meio piscinão de Ramos.

Também não demos muita sorte com o tempo lá, tirando o primeiro dia de sol, os outros estavam nublados e com bastante chuva.

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Logo na frente da ilha Colon, na ilha Bastimentos tem a praia Red Frog, local onde pode se hospedar ou simplesmente fazer um passeio. Com sorte vai ver estes sapos vermelhos. Se não conseguir ver, terão crianças te oferecendo para tirar fotos por uns trocados. Uma boa pedida para comer ou beber algo é o Bibi’s on the beach, na ilha Carenero, onde também tem um ótimos Surf. Acabamos não indo para Cayos Zapattilas, já que seu estilo é mais parecido como de San Blás.

Como para ir para as outras ilhas, para surfar ou qualquer programa tem que ir de taxi-barco, com chuva, não adiantava insistir muito e resolvemos seguir viagem. A fronteira de Saxiola, não esta muito longe. É possível pegar o barco de volta para o continente e fazer algumas conexões de ônibus ou acertar com um transfer/minivan direto. A pequena fronteira não é muito movimentada, e depois de atravessar a pé a antiga ponte com trilhos de trem, chegamos na Costa Rica.

Atravessando a ponte para a Costa Rica (carregando a mochila da Bibi também!)

Atravessando a ponte para a Costa Rica (carregando a mochila da Bibi também!)

Cuba: Céu ou Inferno?

As pessoas gostam de fantasiar  e Cuba virou uma assunto onde as idéias e vontades das pessoas são transferidas para o país. Claro que a mídia tem sua culpa, seja ela a Carta Capital ou a Folha de São Paulo. Querem tornar a ilha em um lugar perfeito ou em um lugar terrível, quando na verdade está em algum lugar no meio disto, nada fantasioso, bem real.

Até ai tudo bem, tão querendo vender o seu peixe, mas triste é ver que as pessoas compram o pacote, e não perdem tempo para raciocinar, pensar sobre o assunto.

Vejo muitas discussões onde a “classe média alta ” brasileira, aqueles ricos que tem salários para ser elite em qualquer lugar do mundo dizem: “Se Cuba é bom, se mude para lá”.

Pode ter certeza que para milhões de pessoas Cuba daria uma condição de vida muito melhor do que elas tem. Tudo é uma questão de parâmetro  Milhões de pessoas no mundo tem salário parecidos com os cubanos, mas não tem nenhum auxilio, educação, saúde, cultura, moradia ou até a livreta para uma semana de comida. Isto não torna a vida lá menos difícil.

Os EUA queriam ser donos de Cuba, tentaram colonizar, comprar, invadir, instalaram ditadura, fizeram atentados mas não conseguiram. Existem duas levas de imigrantes cubanos nos EUA. Os que saíram na Revolução, e os que foram saindo depois,  por questões econômicas  Os contra revolucionários  só voltariam para Cuba com outro governo/sistema. Mas o sonho da imensa maioria de cubanos que vivem no exterior, é de se aposentar com salários em dólar e voltar a viver em Cuba ,mesmo da forma que está. Encontramos diversos cubanos que moram no exterior de férias na ilha, curtindo e viajando com a família, loucos para chegar a hora de voltar.

Se as taxas de analfabetismo, mortalidade infantil e expectativa de vida dão inveja a qualquer outro país das Américas, ficando somente atrás do Canada, os comunistas não podem se vangloriar disto. O cubano tem que se virar para sobreviver, conseguir dinheiro, empreender, receber dinheiro do exterior. Só com o sistema do governo isto não seria nem perto de possível. Existe um senso comunitário, onde todos se ajudam, mas também existe um capitalismo forte, onde para cada pequeno serviço ganha-se um dinheirinho. Isto se chama “lucro”. Agora com as empresas privadas, direito não só de ter, mas de se vender as propriedades, Cuba vai se afastando rapidamente do que sobrava do comunismo. Vai se tornando apenas Cuba, sem os preconceitos criados de quem é a favor ou contra algo.

O poder é centralizado, e isto nunca é bom, mesmo se tiver o apoio da maioria, pois a minoria vai se sentir oprimida e um país deve ser para todos. Os fantasmas da Guerra Fria devem ser esquecidos, e a liberdade de expressão é algo básico em qualquer sociedade. A violação dos direitos humanos não são aceitáveis nem em período de guerra, portanto as ameaças a Cuba não são nenhuma desculpa.

As disputas sobre o tema “Cuba” São muito chatas, vide a blogueira Yoani Sanches. Perguntei sobre ela diversas vezes em Cuba, e só faltavam falar: Yoani quem? Ela não representa quase nada em Cuba, nem para o bem nem para o mal, enquanto aqui ela se torna heroína ou vilã.

Não é em uma curta viagem que se vai entender Cuba, tão pouco morando lá. Vale a mesma verdade que me falaram sobre o Oriente Médio, o certo e o errado não está dividido por uma linha fina, mas por uma longa faixa, e Cuba está nesta faixa.

A  resposta para a pergunta do titulo é óbvia, nem céu nem inferno, simplesmente terra, com todas suas qualidades e imperfeições.

 

Para pesquisar:

* Com poucas publicações em português, vale a pena ler sobre René Gonzales e cia (Cuban Five).  Antes de ir para Cuba tinha lido somente um livro a respeito “Os últimos soldados da guerra fria”, mas lá tem diversos livros e até museu.

* De uma maneira geral, pessoas ligadas ao turismo de luxo falam mal do sistema para que se comovam e deem uma gorjeta maior.

* De uma maneira geral, pessoas ligadas ás casas particulares e paladares conseguem uma licença por terem bons contatos, e não querem perder esta oportunidade. Tendem a falar bem do governo.

* Se tem curiosidade sobre a Yoni Sanchez, leiam a entrevista que o professor da Sorbone-França, Salim Lamrani fez com ela.

* Outros grupos de oposição cubana: Damas de Branco, Oswaldo Paya (morto ano passado) e o MCL, Oscar Elias Bicet…

* Grupos terroristas anti-castro em Miami: Omega 7, Brothers to the Rescue , Alpha 66…

* Vale pesquisar diretamente os dados da ONU, Unicef, Organização internacional de direitos humanos…