O sul do Marrocos e o Sahara Ocidental

“The fact that few people go there is one of the most compelling reasons for travelling to a place.” -Paul Theroux

Para alguns o sul do Marrocos e o Sahara Ocidental são a mesma coisa, mas não é o que mais de 80 países acham. Mas a história se repete, e é mais um dos “países que não existem” (Lembram da Somalilândia?).

Países que apóiam o direito dos Sarauís de se governarem

O Saaara Ocidental foi colônia espanhola, enquanto o Marrocos era francesa, até meados da década de 7o. Desde os anos 60 as nações unidas já tinha indicado para a Espanha abandonar o território. Mas foi através de um grupo chamado de Polisario, que guerreava pela independência, que a Espanha acabou abandonando o território.  Mas a sonhada República Democrática Árabe Sarauí não seria formada tão facilmente. O Marrocos invadiu o norte e a Mauritânia o sul, ambos tentando anexar o território.

O Marrocos utilizou de uma tática proibida pelas Nações Unidas, de utilizar civis para assentamentos e tomar posse de um território (Israel também adotou esta tática em assentamentos na Palestina). A “Marcha verde” foi orquestrada e 350 mil marroquinos rumaram ao sul para tomar conta do território. O exército do Marrocos tentava tomar todo o território, mas o Polisario (com apoio da Argélia) se defendia bravamente. Com a desistência da Mauritânia, e a construção de um muro (lembram do muro construído na Palestina?), tudo passou a mudar.

O Marrocos construiu o Bern, um muro de quase 3 mil quilômentros de comprimento, com defesas, minas terrestres e equipamentos de segurança. Depois disto o Polisario teve dificuldades de guerrear, e a grande parte da população original do Saaara Ocidental passou a viver em campos de refugiados no meio do deserto. Marrocos passou então a controlar com linha dura a região, e criar incentivos para que marroquinos se mudassem para lá (Lembram dos isentivos para chineses irem para Xinjiang?). Violou os direitos humanos de diversas formas, jogando até bombas Napalm nos campos de refugiados (lembram dos ataques químicos no Curdistão?).

A ONU determinou que um plebiscito fosse feito, mas teoricamente só quem estava no local antes da Marcha Verde poderia votar (Lembram do plebiscito da Caxemira?). Porém, isto seria muito difícil de determinar hoje, já houveram casamentos entre os dois povos e o problema parece ser cada vez mais difícil de resolver. O Marrocos se alinha cada vez mais com o Ocidente, e ganha mais força política. Todo mundo sabe que está errado, mas nada é feito para resolver.

Ainda em território marroquino, fomos descendo o Anti Atlas e vendo o deserto do Saaara se aproximar. A temperatura obviamente aumentava rapidamente. Muitos oásis até chegarmos numa cidadezinha chamada Tata. A pequena cidade, era o máximo. Toda num tom rosa alaranjado, com as janelas pintadas de azul. Ninguém nas ruas, quase uma cidade fantasma. Arranjamos um hotel bem gostoso e fomos procurar um lugar para comer. Poucas pessoas se aventuravam no sol forte, que ja passava dos 40 graus. Praticamente todo o comércio estava fechado, mas encontramos um restaurante que tinha um resto de frango grelhado e o rapaz se propôs a fazer um Tajine (comida típica do Marrocos, feita numa panela de barro).  A Bibi foi se proteger na sombra do hotel, e eu fui reconhecer o lugar, descobrir onde poderíamos pegar um ônibus, que hora ou que dia, e quem sabe encontrar algum lugar para comprar frutas.

Tata – tudo fechado com o calor. Detalhe para as cores.

Nunca é tempo perdido, consegui interagir bastante, mas a cidade começa a ganhar vida somente a partir das sete da noite. As oito já tem um movimento considerável, comercio aberto, feiras, e as nove, com o por do sol, é que tudo acontece. Tudo fica mega movimentado, fomos comer, tomar sucos e chá. O chá no Marrocos tem folhas de menta que ocupam mais da metade do copo. As mulheres da região usam saris super coloridos. É uma cidadezinha que teoricamente se pode conhecer em 5 minutos, mas para ser aproveitada tem que ser vivida, observar as pessoa e as mudanças de movimento com os horários.

A simpática praça é chamada de Marcha Verde, em homenagem ao movimento de ocupação.

Toda esta região do anti atlas tem lugares muito interessantes, vilas pequenas, oásis, e sentimos falta de um carro para poder explorar melhor. Passamos pela simpática cidadezinha de Akka, e tinhamos a idéia de parar em Amboudi, mas acabamos indo direto para Goulimine. Depois de muito calor e uma longa viagem Bibi queria ficar ali, mas eu sabia que o lugar já tinha deixado de ser uma pequena cidade faz tempo, e como teria uma estrada boa a partir de agora, pegamos um taxi comunitário até Tan Tan, já bem próxima ao Sahara Ocidental. Tan Tan não é uma cidade bonita, mas tem um ar especial,  estilo e até um charme próprio.  Toda branca e azul, com uma avenida principal larga, gostamos de perambular por lá, tomar chá enquanto a vida passava em nossa frente. A presença militar aumentava visivelmente, inclusive com grandes bases militares. Rimos muito com uma placa no hotel que dizia “Restauration” e apontava para o restaurante. haha

Tan-Tan

Esperando o ônibus, a Bibi se sentiu meio enjoada depois do almoço, e fomos procurar uma farmácia para ela tomar um Eno. Estava fechada, e ao pedir informação, nos colocaram num carro, rodaram uma duzia de farmácias (fechadas) antes de nos levar de volta para a rodoviária. Bem que nos falavam que quanto mais para o sul, mais legais e hospitaleiros os marroquinos ficam.

Seguimos sentido sul, onde a Europa estaria atrás de nós, e se fossemos em frente chegaríamos na Cidade do Cabo  (viagem que ainda quero fazer), mas numa encruzilhada em “T”, viramos sentido deserto. A estrada foi diminuindo, a paisagem foi ficando monotonica. Por muito tempo o céu azul, e a linha do horizonte  eram as únicas coisas que dava para ver. Alguns rebanhos de camelos, ou até caminhões transportando camelos nos chamavam a atenção. Postos de controle pegavam nossos dados do passaporte e nos perguntavam a profissão, quase que esperando que falássemos: jornalistas. A maior parte do deserto do Sahara não é de areia como muitos imaginam, é um deserto de pedra.

Atravessando o deserto do Saara, o sol estava quente…

Não eramos os únicos indo para o Saara Ocidental!

De repente aparace mais vegetação e pequenos oásis. Estavamos chegando em Es-Smara, antigo oasis e parada obrigatória de diversas rotas comerciais que cruzavam o deserto do Sahara. Atravessamos grandes bases militares marroquinas até chegarmos num pátio que era a rodoviaria. Tinhamos a indicação de um hotel descente, já que provavelmente os outros seriam de péssima qualidade. Definitivamente não é um lugar preparado para o turismo.

Os Sarauí são primos dos Tuaregs e usam toda uma vestimenta azul, com turbante negro. Em Tan Tan, e até outras regiões mais para o norte, no sul do marrocos, já tinha observado que aumentava consideravelmente os homens de azul. Me decepcionai um pouco por não ser todo mundo assim aqui. Acho que tinha criado uma expectativa em cima disto. Com o tempo fomos entendendo melhor as coisas. Teve jogo de futebol do Marrocos, e vimos que parte da população torcia para eles. Eram os marroquinos verdes, nos contava  um amigo Sarauí. Sem muito o que fazer no horario de sol no meio do deserto, os cafes ficavam lotados para que pudessem ver os jogos da Eurocopa. Só homens, então a Bibi preferia a leitura na sombra do hotel. Ela tambem não gostou quando fomos perseguidos por crianças (de uns 10 anos) com varas na mão nos azucrinando, e de um senhor que nos chamou simpaticamente, mas só queria nos mostrar os artezanatos na “lojinha” dele.

Sarauí

Dia a dia de Es-Smara

Fui ver o que sobrou da pequena cidade velha e da antiga mesquita, e encontrei algumas mulheres fazendo um piquenique com seus filhos. Interagi com a molecada, fui convidado para um chá, mas se recusaram a tirar uma foto. Existe uma outra parte de Smara que tem uma mesquita antiga que está sendo reformada, mas assim como Tata, o mais interessante de ir para lá não é para ver as coisas, mas aproveitar e entender o lugar.

Cidade velha

Paz

Foram menos horas de caminhadas e mais horas sentado num café olhando o que acontecia ao redor. A presença militar, carros blindados com grades nas janelas, e principalmente barulho de helicóptero a noite incomodavam a Bibi, e acabei desistindo de ir para Laayune, maior cidade da região, lá perto da costa. Tinha bons contatos lá, que renderiam ótimas conversas, mas a interação seria por internet  mesmo.

Bases militares por todos os lados

Não tínhamos comprado as passagens de onibus com antecedência, e quando aparecemos lá para embarcar estava lotado. O jeito era esperar chegar pessoas para um taxi comunitário. Fiquei aprendendo a jogar Sig, um jogo de palitinhos coloridos, que quem tira “vaca”, “Cabra”(…) ganha, e quem tira burro perde.

Foi uma longa viagem pelo deserto, de volta para Tan Tan e depois para Goulimine, para só depois descansar na praia.

Ps- Já que falei de Tuaregs e “países que não existem”, em 2012 os tuaregs conseguiram a independência do Azawad, no norte de Mali.

As Cidades Imperiais e o High Atlas

Interessante como que se desenvolveu a escolha da nossa viagem.  Minha irmã ia casar nas terras de Robing Hood, no interior da Inglaterra (aliás, um dos dois melhores casamentos que já fui, o outro foi o dela no Brasil). Aí pensamos, já que vamos para lá, vamos aproveitar para viajar. Primeira coisa que veio veio na cabeça foi uma viagem rápida pela Escócia e Irlanda do norte. Mas pelo mesmo valor poderia fazer uma mais longa para República Tcheca, Polônia e Ucrânia.  Já dando uma olhada no roteiro descubro que teria Eurocopa na Polônia e Ucrânia. Como estaria tudo a maior bagunça, caro e lotado, tínhamos que pensar em algum outro lugar.

Olhando as passagens de baixo custo, vi que um voos para o Marrocos estavam bem baratos, e lá poderíamos viajar até por mais tempo. Uma viagem de uma semana acabou se transformando em três, isto sem contar os dias que passamos na Inglaterra, mas que não vão virar post desta vez.

Depois de um voo não muito longo, chegamos a Casablanca, a cidade mais moderna do Marrocos. Não tínhamos muitos interesses lá, então do aeroporto já pegamos um trem para a estação central, e de lá outro para Fes. Compramos lugar da segunda classe, e passamos o maior calor. Não sabíamos que tínhamos direito as cabines com ar condicionado. No nosso vagão tinha um casal de estudantes americanos, que iriam fazer intercambio para aprender árabe. Eles nunca tinham saído dos EUA, e era muito legal de ver a reação deles para tudo, uma mistura de encantamento e receio.

Havíamos escutado coisas muito ruins de como os marroquinos tratavam os turistas, mas chegamos sem preconceito, para tirar as nossas próprias conclusões. Na estação e durante a viagem várias pessoas se aproximaram para conversar. Algumas para ajudar, outras para oferecer hotel de um parente no final da conversa, e algumas por simples curiosidade.

Na chegada em Fes, passamos batido por uma dezena de taxistas que nos ofereciam transporte para a Medina (Fes El-Bali) e fomos comer num restaurante do outro lado da rua. Comemos e já batemos um papo com o garçom para entender como que tudo funcionava por ali. Pegamos um taxi até um dos portoes da cidade murada e fomos em busca de algum lugar para ficar. A cada passo se aproximava alguem disposto a ajudar (em troca de uma comissão), mas falavamos que ja tinhamos reserva e iam nos deixando. Na verdade contrariamos todas a dicas de guias de que é dificil de chegar lá sem hotel reservado, mas foi tranquilo, e depois de dar uma olhada e comparar uns tres lugares achamos um Riad para ficarmos. Pessoal super gente boa, o patio interno não era daqueles gigantescos, mas era todo decorado.

Ruas Fes

Já rodamos bastante o mundo árabe e muçulmano, passamos por dezenas de cidades muradas e medievais. Neste sentido Fes não era uma grande novidade, mas o que impressionou foi o tamanho da cidade murada de Fez. É gigantesca, talvez a maior de todas que ja fomos. Labirintos intermináveis, e muita vida. Metada da população de Fes vive na cidade velha, onde não passam carros. Pelas ruas estreitas todo mundo a pé, para transportar alguma coisa só burricos e pequenos carrinhos de puxar.

A arquitetura tambem se diferencia do que tinhamos visto, o estilo das portas, e o uso de madeira. Infelizmente no Marrocos não se pode entrar na maioria das mesquitas. Isso gerou algumas discussões saudáveis, pois eles estavam contrariando a palavra do profeta Maomé, e eu fazia questão de lembrar-los disto. Perto das mesquitas tinham muitos senegaleses, com suas vestimentas todas originais. Eles estavam em peregrinação, já que um grande santo muçulmano da região do Senegal está enterrado ali.

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Em Fes tem muito artesanato. Existem regiões que trabalham só com madeira, outras com um barulho ensurdecedor de pessoas trabalhando/martelando cobre. Tem a parte das roupas e dos incensos naturais. Mas Fes é conhecida pelos trabalhos em couro, trabalhados de forma manual da mesma maneira há centenas de anos. São os famosos Tanneries, onde tingem o couro de diversos tipos de animais com tintas feitas de óleos, gorduras e até urina de vaca e cocô de pombo. Os artesões prometem que você pode visitar de graça, mas se depois de olhar a loja deles não comprar nada, são bem agressivos. Aliás, tivemos problema um dia quando procuravamos um restaurante. Estavamos indo num indicado, e um cara acabou literalmente apontando outro. Quando estavamos saindo do restaurante estava lá ele nos esperando para ganhar um dinheiro por ter nos apontado. Acabei batendo boca depois dele ficar me xingando. Ficamos de cara, morrendo de raiva!

Tanneries

Depois de algumas refeições descobrimos que é possível barganhar até o preço do cardápio! Conhecemos um músico australiano, Dale, que nos acompanhou em algumas das nossas andanças pela cidade. Foi ver conosco o visual da cidade em cima do morro, com toda a vista para a cidade velha e a incrível chamada das mesquitas, e explorar o Mellah, antigo bairro judeu. Nos perdemos pelos corredores, fomos numa antiga sinagoga, e só depois fomos descobrir que nosso amigo era judeu. Mesmo existindo até hoje judeus marroquinos, ele tinha um certo receio. Interessante que as Mellahs estão espalhadas por todo o país. Estão geralmente próximas dos palácios (pois os sultões davam proteção a eles) mas tambem existem em pequenas vilas. Há milhares de anos, quando os judeus foram expulsos da palestina, alguns vieram parar aqui, mas o grande fluxo de judeus para o Marrocos se deu a bem menos tempo, foi quando estes foram expulsos do então reino cristão da Espanha.

Sinagoga

Nos despedimos do Dale depois de um longo almoço com direito a muitas risadas e discussões com um garçom sobre o que era Haram na vida (pecados), e pegamos um trem para Marrakesh. Mais algumas horas de viagem, desta vez em uma cabine climatizada.

Ficamos num hotel mais simples para compensar o preço do Riad de Fez, e acabou não sendo uma boa escolha. Não procuramos muito pois seria uma rapida passagem pela cidade, pois gastaríamos mais tempo no final da viagem, pois teriamos que voltar para lá para pegar o vôo. De qualquer maneira, era bem pertinho da praça Djemaa El- Fna, o coração da cidade velha.

Tudo bem que Marrakesh é um nome enigmático, mas muito do que se carrega com o nome é referente a esta praça. Num primeiro momento pode parecer turístico, mas acredite, não foi montado para você. Esta praça está ali há seculos, era um grande centro comercial e parada das caravanas que vinham da Africa Sub Saariana. O barulho das flautas dos encantadores de cobras, os acrobatas, contadores de histórias, feiticeiros, curandeiros, músicos, barracas de comida, mulheres fazendo hena, até os homens com macacos fazem parte deste lugar desde sempre. Claro que muitas coisas mudaram, e no meio de tudo isto tem pescaria de garrafas pet, shows de rua, minigolf e brinquedinhos chineses fluorecentes voando pelo céu. Mas é uma atmosfera muito legal, mesmo que os músicos parem de tocar com muita frequência para recolher moedas e que macacos pulem no teu ombro mesmo que você não queira tirar fotos.

Praça Djemma El-Fna começando a encher

De Marrakesh pegamos um “grand taxi” (taxi comunitário) até Asni e seguimos para Imlil já no topo do High Atlas. Se engana quem acha que o Marrocos é feito só de desertos. Existem algumas cadeias de montanha (com muita neve no inverno) e, na região onde estávamos a maior montanha passava dos quatro mil metros de altitude.

Foi uma delícia. Aquele clima de montanha que adoramos, quando a estrada termina e é preciso caminhar para chegar até as vilas. Fizemos treking e passamos por diversas vilas berberes. Vilas  pelas montanhas, onde algumas famílias oferecem quartos para você dormir.  Um super visual, com regioes verdes ao longo dos córregos que escorrem do desgelo, só poluido pelas antenas parabólicas existentes nas mais distantes das vilas. Mas a vida continua tendo um outro ritmo por lá.

Vilas Berberes

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Os Berberes são os habitantes originais do marrocos, pelo menos era quem estava lá antes da chegada dos árabes. Não se sabe bem certo a origem deles, uns dizem que são descendentes dos fenícios, que dominaram a região há milhares de anos, mas quem sabe não são uma evolução direta dos fósseis dos homo erectus de 200 mil anos encontrados no Marrocos. Eles são bem integrados com os árabes, existem um sentimento de unidade nacional, se sentem marroquinos, pelo menos para cima do Anti-Atlas.

Jebel Toubkal – Ponto mais alto do Marrocos, 4167 metros

Nosso roteiro pelo Marrocos não era dos mais convencionais. Deixamos de lado alguns lugares turísticos mega explorados para buscar outros mais autenticos. Teriamos que atravessar a cadeia de montanhas pelo passe Tizi n Test, passando por estradas incríveis, fazendo uma combinação de grand taxi e onibus pela rota Ijokak e Ouland Berhil para chegar em mais uma cidade imperial, Taroudant.

Pela estrada

Taroudant é chamada de pequena Marrakesh, pela cor avermelhada e suas muralhas e kasbah (forte). Cidade que teve pouca influencia dos franceses, e a população tinha todo um estilo próprio. Ficamos num Riad muito legal, que a Bibi se realizou pois tinha uma fonte no patio (ela sempre reclamava que os que ficamos antes não eram Riads de verdade pois não tinham fonte).

Me culpava por ter deixado a cidadezinha de Taliouline, centro da produção de assafrão do país para traz. Mas tínhamos mudado o nosso roteiro por uma questão de logística e tempo (a Bibi queria incluir um pouco mais de praia na nossa viagem). Então partimos para mais uma viagem pelas montanhas, agora atravessando o Anti Atlas,  cadeia de montanhas que isola o sul do Marrocos. A pequena cidade de Igherm já nos mostrava que estavámos saindo da rota mais viajada e não preciso nem comentar o visual que é sair das intermináveis curvas e chegar no Saara, passando por pequenos oásis e vilas.

Novos projetos, mais palestras e novas viagens, é claro!

Esta última semana está sendo bem movimentada. Tive um final de semana prolongado em Vitória, para o primeiro encontro da Equipe Africa Full HD, projeto que depois darei mais detalhes.

Ontem a Bibi foi até São Paulo dar uma palestra na Kraft Foods. Hoje tem nova palestra, agora na Kraft de Curitiba.

Com esta correria toda, quase deu para esquecer que estamos indo para o casamento da minha irmã em Londres quinta-feira, e que depois temos mais uma viagem pela frente!

Um pouco das palestras que foram dadas: Unicuritiba, GPA + Mercado e Kraft Foods.

Ocidente x Oriente

Kraft Foods

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Novos Olhares

pelestra UniCuritiba

Mais de 200 pessoas compareceram

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A caixa, os vasos chineses e os temperos.

Algumas vezes, quando não tínhamos como mandar por alguém, enviávamos pacotes para o Brasil via marítima. O pessoal sempre se assustava, nos alertava que poderia demorar até seis meses, mas não tínhamos pressa (além de ser muuito mais barato). Pacotes chegaram da Índia e do Irã.

Quando estávamos em Xinjiang, a Bibi cismou que queria comprar uns vasos chineses. Não lembro se contei no blog, mas ficamos cuidando da loja do tiozinho enquanto ele providenciava uma caixa. Depois de pelo menos meia hora ele voltou com uma caixa metálica, com alça e tudo, onde pudemos colocar os vasos. Tínhamos que sair cedo para o lago KaraKul e não tivemos como despachar pelo correio. Lá fomos nós com nossas mochilas e a tal maletinha de metal por toda a Karakoram Highway do Paquistão. Os irmãos da Bibi, que nesta época estavam com a gente, poderiam levar para o Brasil, mas como acabamos enviando outras coisas,  não tinha mais espaço para a tal maletinha.

A caixa metálica era motivo de piada. Falávamos que estava cheia de dinheiro, e um amigo Tcheco dizia que era para dizermos que era o coração do Bin Ladem. Encontramos com uns franceses que tinham conhecido o nosso amigo Tcheco. O Tcheco tinha contado para eles de uns brasileiros que viajavam com uma caixa metálica suspeita!! haha Já tínhamos virado lenda urbana!

Chegando em Gilguit, finalmente despachamos a caixa (junto com alguns temperos), imaginando que deveria demorar os 4 a 6 meses tradicionais. Já de volta ao Brasil, tentamos rastrear com o código que tínhamos, mas nada de saber onde estava a maldita encomenda. Depois de um tempo, apelamos para amigos paquistaneses, que foram no correio, mas não tiveram nenhuma novidade. Eles diziam, “Inshallah vai chegar!!”

Era a primeira encomenda que não chegava, como os simples cartões postais do Iraque e Uzbequistão também nunca chegaram, já havíamos perdido as esperanças, quando esta semana, OITO meses depois chegaram os vasos e os temperos, tudo devidamente dentro da tão famosa caixa!!

O coração do Bin não veio!

Para comemorar, hoje teve comida paquistanesa!!! Hum, alguém quer a receita?

 

Hum!

O pequeno país dos grandes vulcões

Aos matemáticos de plantão, segue a lógica de que no Equador estão as montanhas mais próximas do sol. Quem tiver alguma opinião contrária é só argumentar.
“Let x = polar radius =  6357 km.  Equatorial radius  = 6378 km =  6357 + 21 km
Assume also that bulge of earth surface (sea level) increases evenly between poles and the equator.
 
Everest:   36 degr N  and 8.85 km above sea level
                sea level radius =  x +  21( 90 – 36 degr.)/ 90degr = x + 12.6 
                Thus from earth’s centre   x + 12.6 + 8.85  =  x +  21.45 km
 
Chimborazo:  1.5 degr S and 6.3 km above sea level
sea level radius = x + 21(90 – 1.5 degr)/ 90 degr =  x + 20.7 
Thus from earth’s centre   x + 20.7 + 6.3    =  x +  27.00 km
 
Thus even at the first Chimborazo refugio at 4.8 km, you were already  x + 25.5 km

from the centre of the earth and 4 km further into space compared to standing on the summit of Everest !!!

Bem, de Latacunga peguei um ônibus lotado  até a pequena Zumbahua, passando por diversas vilas e bonitas paisagens. Assim que saímos do perímetro urbano, pedi para o ônibus parar e subi no teto, onde muitas vezes ficam as bagagens. Não existe melhor lugar para curtir o visual! Lá em cima estava o Pierre, um frances que faria um trajeto parecido com o meu (o chamado Quilotoa-loop). No entanto ele ia direto até Quilotoa, enquanto eu desci em Zumbahua para seguir a pé por vilas e um canion. Minha esperança era de ser convidado para ficar em alguma casa, o que não aconteceu então acabei indo (a pé) até Quilotoa.

Dentro do onibus

Em cima do onibus

Paisagens

A caminho de Quilotoa, agora a pé

O lugar é uma pequena vila, com algumas pousadas, mas praticamente nenhuma infraestrutura. A poucos metros dali fica uma das mais impressionantes atrações do Equador, a Lagoa Quilotoa, um vulcão extinto com um grande lago dentro. Lugar fantástico!! Algumas pessoas pegam um taxi de Latacunga, vem ver a lagoa e voltam, mas desta maneira perdem o grande encanto do lugar. É possível descer até o lago, tomar banho, ou dar a volta completa na cratera, que demora de 4 a 5 horas. Na pousada (8 usd incluindo 3 refeições) reencontrei o Pierre, além de fazer outras amizades, Nir, Janna, Nayra, que se tornariam ótimas companhia de viagem. Durante o jantar diversos assuntos, mas eu fui massacrado ao defender muçulmanos e falar da tranqüilidade que foi viajar em terras islâmicas. Bem, era um francês ateu, um israelense, uma libanesa cristã, uma espanhola e duas americanas. O ponto de vista deles era super unilateral, e sem conhecimento de causa (somente informação que vem na tv). Dias depois conheci um Italiano que viajava um monte, e deu risada quando eu contei da discussão. Ele disse que era perda de tempo falar com ocidentais, por mais legais que fossem, a respeito deste assunto, caso eles mesmos não tivessem  tido a experiência. Me conformei um pouco mais, pois na hora da discussão, tremi de raiva, não por causa da ignorância, mas por não me deixarem argumentar.

Lagoa Quilotoa

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A princípio queria viajar sozinho, seria mais fácil de interagir com as comunidades locais, mas o grupo se formou meio sem querer, e não seria uma má idéia ter alguém para se perder junto comigo…

Depois de ter ido novamente até a parte mais alta da cratera, nos encontramos todos e pegamos a trilha que levaria até Chugchilan. Umas 5 horas para caminhar os pouco mais de 10 km até a cidadezinha. Primeiro pela cratera, depois subindo e descendo montanhas e atravessando um grande canion e pequenas vilas.

Nir, Pierre, Janna, Nayra e eu

Na chegada em Chunchilan uma grande surpresa, uma ótima pousada, com um clima super acolhedor. Encontramos outras pessoas que estavam fazendo o caminho contrario e aproveitamos para trocar dicas. O grupo foi se unindo e estava bem divertido, todo mundo fazendo piadas.

As escolas daqui são trilíngues, ensinam espanhol, inglês e quechua, a língua nativa. Nestas vilas em geral o quechua é a primeira língua, e não tem como não pensar no assassinato cultural que o português fez no Brasil, já que quase todas as outras línguas hoje são secundárias e estão desaparecendo.

Nova caminhada, desta vez até Islivi. Mais uns 12 km, atravessando canions, montanhas e bonitas paisagens. No caminho tinha uma pequena interação, mas na maioria das vezes não passava dos “Holla, holla”. Não acho certo comparar lugares, mas caso tivesse no Paquistão ou Irã, não tenho duvidas que teriam oferecido lugares para dormir, algo para comer/beber, ou simplesmente bater um papo. Na pousada onde ficamos, estava trabalhando uma guria de Wisconsim, estado americano onde morei em 93. Muito estranho!

Usamos o mapa para não seguir o caminho marcado

Para irmos até Saquisili tínhamos somente duas opções. O ônibus das 3 da manha, ou o caminhão de leite das 9. Como queríamos chegar para o mercado de animais, madrugamos mesmo. No teto do ônibus já tinham ovelhas e porcos. O marcado inicia cedo, e as pessoas vem de todos os cantos para vender e comprar seus animais. Chegamos na área dos porcos, onde tinha um barulho ensurdecedor de porcos gigantescos gritando. A área das vacas e ovelhas estava mais calma, mas o que nos interessava mesmo eram as Lhamas. Sem contar nas pessoas, com seus costumes e trajes típicos.

Mercado de animais

Trajes típicos

As meninas seguiram viagem, pois iam para Baños, e eu Nir e Pierre ficamos para ver o mercado de artesanato e para comer alguma coisa.Não muito tempo depois seguimos para Latacunga, onde nos despedimos do Pierre, que foi para Quito, onde tinha um casamento. Eu não tinha planos muito fixos sobre o que eu iria fazer nos próximos dias, e não foi difícil do Nir me convencer a escalar o vulcão Cotopaxi.

Chegando na pousada onde ele tinha deixado sua mochila grande, encontramos a Janna e Nayra que acabaram mudando os planos delas também, aceitando o desafio do vulcão. Logo um Inglês e um argentino também se juntariam a nós. Por falar em argentino, é incrível como eles estão com o país quebrado, moeda desvalorizada, e viajam por todos os cantos da América do Sul. Não encontrei NENHUM brasileiro! Não sei se os brasileiros estão trocando de carro ou indo pra Miami…

No primeiro dia emprestamos todo o equipamento e subimos até o acampamento base. Lá demos pequenas caminhadas e testamos os grampões de caminhar no gelo e equipamentos. Bate papo (encontrei aquele italiano que mencionei aqui), sopa quente e dormir pouco depois que o sol se põe, para levantar umas onze da noite, para sair perto da meia noite.

Antes da saída já tivemos nosso primeiro desfalque. O Nir, que me convenceu a subir, passou mal e nem saiu do acampamento base. Tínhamos todos jantado juntos um dia antes, e parece que tinha algo errado com a comida. Pelo caminho outros foram desistindo, não sei se pela altitude ou pelo problema da comida. A uma certa altura, o grupo já estava bem dividido, e eu e a Nayra, que é guia de aventura nas Ilhas Canárias, fomos nos destacando na frente junto com um guia. Não dava para ver muito longe, só até o alcance das nossas lanternas, mas sabíamos que se estávamos amarrados um nos outros era porque deveria ter alguns precipícios por ali. Eu tinha uma forte dor de cabeça, e depois uma forte dor de barriga, mas fui controlando a respiração e superando. A Nayra ia forte na frente. Tínhamos a recomendação que deveríamos chegar até a rocha negra até as 7 da manha, pois a partir dali seria mais uma hora até o cume, e teríamos que voltar no máximo às 8, quando o sol do equador começaria a derreter o gelo, tornando tudo mais perigoso.

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Chegamos na tal rocha antes das 5, então tínhamos 3 horas para fazer o que normalmente se faz em uma. Acontece que a Nayra começou a passar muito mal, e quando faltavam menos de 200 metros ela não conseguia mais seguir em frente. Eu queria ir sozinho, mas o guia disse que não seria possível. Disse também que se deixássemos ela lá para buscar na volta poderia ser perigoso, já que ela estava bem mal, e inclusive com diarréia. Já que tínhamos passado dos 5700 metros, pelo menos esperamos mais algum tempo até o sol nascer para curtir o visual. Na volta pudemos observar as geleiras, os precipícios e paredões que escalamos. Como o fato de não ver as vezes torna as coisas mais fáceis! Na volta eu ia na frente, e os dois atrás. Estava caminhando e escutei um ruído, derrepende o gelo embaixo do meu pé rachou, e minha perna inteira caiu num buraco, aquelas galerias, grotas de gelo. Uma verdadeira caverna. Levei um baita susto, mas por sorte estava com meu machado de gelo bem preso, e nem foi preciso usar a corda.

Quase lá

Cheguei no acampamento base desiludido, tão perto dos 5897 metros mas sem poder chegar lá. Mas na verdade valeu o passeio, o visual e a superação. Meu ego não é tão grande assim para eu precisar desta conquista. Fica a lição maior, que nem tudo depende de nós, e na caminhada não estamos sozinhos. Poderia ter sido o contrário, e eu não gostaria de ter sido abandonado. Sempre achei um absurdo ao ler sobre montanhistas que passavam sobre cadáveres sem se comover só para atingir um cume, e colecionar mais um numero.

Boa parte do pessoal já tinha voltado para Latacunga, e nós também fomos. Tava arrebentado pela noite não dormida e por toda caminhada naquela altitude. Tomei um banho e ia seguir para Quito, onde um Couchsurfer me esperava, mas depois de irmos almoçar, o pessoal me convenceu de que eu precisava mesmo era dormir. Foi um dia revezado entre dormir, ver filme e bater papo. Só de perna para o ar.

Mas o dia da minha volta se aproximava, e fui para Quito bem cedo, antes do café da manhã ou de poder me despedir do pessoal. Chegando na rodoviária de Quito, peguei o “ligeirinho”deles (que custa 25 centavos) e fui até a casa dos Csers. Eles já estavam de saída, e eu decidi ir com eles. Fomos pra lá de Otavalo (onde tem um mercado ultra turístico) numa cachoeira.

Cpuchsurfing

Quito é uma cidade cheia de arquitetura colonial, igrejas por todos os lados. Não explorei muito a cidade, mas fui jantar no bairro badalado  El Mariscal.

Depois de viajar pelo Equador pude comprovar a facilidade que é viajar por aqui, e porque dos gringos gostarem tanto. É muito fácil, pra mim até um pouco fácil demais, faltou friozinho na barriga. E sobre os preços, um ônibus comum em Quito (não o estilo metrô) custa 5 centavos de dollar. A economia pode ser dolarizada, mas se utilizam muito as moedas (muitas destas made in Equador).

Então se você esta pensando em trocar de carro, ou ir fazer compras em Miami, pode ter certeza que uma viagem para o Equador vai ser migalha.

refeição completa, incluindo bebida