Atras da cortina de ferro

A minha geração talvez tenha sido a ultima a aprender conceitos de primeiro mundo, comunismo e terceiro mundo no ginásio. Hoje os países são desenvolvidos ou em desenvolvimento. A maior parte dos países que passamos seriam considerados de “terceiro mundo” naquela época. Entrando pelo Leste Europeu, estaríamos experimentando algo diferente (ok passamos por países comunistas e ex-comunistas antes), mas seria o grande exemplo do “segundo mundo”. E, mas chegamos uns 20 anos mais tarde. A Bulgária já faz parte da União Europeia, mostrando que muitas mudanças já aconteceram por ali. Sim, muitas mudanças ocorreram, mas ainda e muito diferente da Europa Ocidental. A imigração e feita no trem, com oficiais com lap top, e nem precisa se preocupar com corrupção ou visto, mas sabe aquelas velhinhas que ficavam esperando o pessoal chegar na estacão de trem para oferecer um quarto baratinho? Pois e, elas ainda estão por ali, e por 5 euros se consegue uma cama num quarto particular. Foi assim nossa chegada em Plovdiv. Se a principio a arquitetura e a população em geral dava uma cara mais de Europa, com o tempo observamos que o desenvolvimento da Bulgária deixava um pouco a desejar, e questionei os critérios da UE, pois a Turquia parecia ser bem mais desenvolvida, pelo menos aparentemente. E um dos países com a maior quantidade de ciganos da Europa, e vivem como uma minoria. Plovdiv e uma cidade universitária, a segunda maior cidade da Bulgária. Possui uma bela cidade antiga no topo das colinas, e um calcadão com restaurantes e cafés onde e fácil se perder no tempo. A senhora que nos hospedou lavou algumas roupas, costurou, enquanto curtimos restaurantes, cafés, sorvetes a preços mais baratos que no Brasil.

Plovdiv

Já em Sofia resolvemos fazer couchsurfing. O Stefan foi nos buscar na rodoviária e nos levou na casa da Gerie, amiga dele onde ficaríamos. Ela esta reformando o apartamento para transformar num B&B, e esta quase pronto. Fica naqueles blocos de apartamento bem no estilo comunista. Para o centro da cidade são poucas estacoes no velho trem, que já tem um leitor digital de cartões, mas o furador antigo dos bilhetes de papel ainda funciona. No centro as largas avenidas arborizadas se transformaram. Hoje alem dos trens muita gente anda de bicicleta, a pé, e ainda tem espaço para cafés e restaurantes ate chegar na calcada. Mc Donalds, lojas e muito consumismo se misturam aos grandes e esquisitos prédios da era comunista. A cidade estava relativamente vazia, pois no verão muitos vão para as praias do Mar Negro. Cheio estavam os parques e praças, com o pessoal bebendo cerveja de dois litros e meio em garrafas plasticas, e foi assim que terminamos o nosso primeiro dia, depois de muitas andanças. Se em alguns lugares da Africa uma coca-cola era mais barata que água mineral, aqui a cerveja era mais barata que refrigerante! A Bulgária já foi um reino de grande importância. Na época que a Europa estava praticamente dividida entre Impérios Romano e Bizantino ela já estava la, firme e forte. Existem diversas igrejas ortodoxas, algumas muito impressionantes (são independentes, não ligada aos gregos ortodoxos). A cidade e relativamente pequena, aconchegante, e outras vezes nos vimos em praças e parques escutando musica ao vivo.

Em conversa com o nosso anfitrião, decidimos não ir no famoso monastério Rila pois, devido as férias, estaria muito cheio de gente. Optamos por ir de carro ate as montanhas dos Bálcãs, e conhecer vilas e estradas do interior, alem de monastérios menores. Paramos para tomar banho de rio, comer comidas tipicas, e no bonito monastério dos Sete Altares a Bibi já queria ficar para passar a noite. Mas acabamos indo até o monastério de São Jorge, que fica no topo de uma montanha, com uma vista muito legal. O monge que cuida de la e meio maluco, mas nos tratou bem, apesar de ter nos acordado no meio da noite com suas cantorias, depois de tanto vinho. O monastério e do seculo 13, muito bonito, com seus telhados de pedra. A vista do nosso quarto dava direto para as montanhas verdes. Alias, como vimos verde na Bulgária. Entrou uma frente fria durante a noite, mas não impediu que fosse fazer trilha ate uma caverna que não fica muito longe. O lugar e cheio de historias e lendas, e um túnel de alguns quilômetros liga o monastério ate a vila que fica lá em baixo nos pés da montanha. Quando voltamos para Sofia, não tínhamos nosso plano do próximo destino muito certo, mas sabíamos que teríamos que decidir isto num dos parques da cidade, comendo as mega fatias de pizza que eles tem.

Monastério Ortodoxo

Carona ate a Macedônia, ônibus pela rota sul perto da Grécia, uma parada no monastério de Rila, as opções eram muitas. O Stefan gosta de viajar, já veio do Japão ate a Europa de carro (com uma maquina de lavar no porta malas!), e quando viu que o preço do ônibus daria para ele dirigir ate a Macedônia (o carro dele e a gás), se ofereceu para nos levar, e a Garie topou na hora em ir junto. Somente poucos metros antes da bifurcação da estrada e que decidimos qual o caminho que seguiríamos. Optamos por ir para Skopje, capital da Macedônia, para ir em alguns lugares no norte do pais, mesmo parte da estrada não sendo tao bonita quanto a outra. A principal estrada entre os dois países, de pista simples e sem acostamento, fez esquecer que estávamos na Europa. Entrando na Macedônia, com campos verdes, pastores de ovelhas com montanhas ao fundo (do outro lado, a 20km, fica Kosovo), e carros Yugo, foi possível imaginar como era a Iugoslávia. Mais para a frente veio uma “auto estrada” com pedágio, mas que não nos cobraram por não termos a moeda local. A Macedônia é um país novo. Por mais que queiram que associemos a Macedônia dos tempos Bíblicos, ou do Alexandre o Grande, ela não e bem esta. Aquela Macedônia podia englobar todas estas terras, mas politicamente era a Grécia, e por isto os Gregos não ficaram nem um pouco felizes com a criação da Macedônia após se separarem da Iugoslávia. Tínhamos ouvido falar mal de Skopje, e não sei se e porque a expectativa era baixa, mas acabamos gostando. O centro e estranho, com um calcadão de pedestres, prédios comunistas misturados com cafés e um prédio moderno coberto com neon azul. A frente a ponte de pedra que leva para o forte e o antigo mercado Otomano, onde hoje fica a minoria Albanesa da Macedônia. Alias, a Madre Teresa de Calcuta não e de Calcuta, mas de Skopje (na verdade e nascida em Kosovo). Não era tao tarde, mas as ruas estreitas estavam vazias e restaurantes e lojas fechadas. Acho que no verão o pessoal não gosta muito de cidade. Como nos também preferimos lugares menores, já cedo fomos para o Lago Mataka, que não fica muito longe dali. E um lago formado por uma pequena hidroelétrica. No inicio tem bastante concreto, mas passando a represa o rio e transparente, refletindo as montanhas e todo o verde que tem ao redor. A trilha e beirando a rocha cortada, e tem ate cordas em alguns pontos para ajudar. Caminhamos bastante e aproveitamos o lugar, conhecemos a antiga Igreja ortodoxa de St Andre, com pinturas muito bacanas em todas as paredes. Para o almoço fomos ate outro monastério, com bonitos jardins, aos pés das montanhas.

Yugo!

Skopje

Lago Mataka

O Stefan e a Gerie tinham que votar para a Bulgária, mas resolveram nos levar ate Tetovo, lugar onde teoricamente só passaríamos o dia. Quando falei de uma mesquita pintada resolveram ir dar uma olhada rapidinho, adiando um pouco o retorno. A mesquita e pequena, arquitetonicamente nada de mais, mas num lugar bonito, ao lado de uma praça com um riacho e toda pintada. Por fora ela já chama atenção, mas por dentro que ela se diferencia mesmo das outras. Muuito bonita, toda enfeitada, nunca foi repintada, pois como não acendem velas, a pintura se preserva muito melhor. Na parte da frente uma grande estrela de Davi mostra que o simbolo não era de exclusividade Judaica antes (ate a bandeira do Marrocos tinha uma estrela de Davi, mas foi alterada depois da criação do estado de Israel). Estávamos para nos despedir deles mas com a informação que o Tekke, Monastério Sufista, não era longe dali, então foram juntos. O guardião nos explicava a historia do lugar e não batia muito com as informações que eu tinha. A Bibi já me cobrava por ser um lugar destruído por conflitos, em pedaços, quando achamos o casarão onde ficam os muçulmanos sufis da ordem dos Bektaishis. Conhecemos um pouco sobre eles e ficamos sabendo que o Baba, líder espiritual deles iria nos receber. Resumindo a historia, o papo se prolongou, fomos convidados para jantar e dormir la. O Stefan e Gerie não tiveram como recusar e só pegaram estrada no dia seguinte. A ordem dos Bektaishis surgiu no Irã, se desenvolveu na Turquia (também são Dervishes como os que vimos la, mas com outros princípios), e hoje tem seu centro mundial na Albânia. Tetova fica na Macedônia, mas a maioria esmagadora da população e albanesa. Aqui as fronteiras étnicas não obedecem as fronteiras politicas, e por isto existem tantas guerras nesta região. O Baba Mondi que nos acolheu, e o segundo da ordem na hierarquia mundial. No local também vive um Dervishe e um “candidato a Dervishe”, o qual era chamado de candidato. Pare se entrar na ordem tem que levar vários “nãos” antes. Eles aceitam qualquer religião, e mesmo sendo muçulmanos não seguem muitas regras digamos “tradicionais” dos seus companheiros de religião. Consideram uma taca de vinho como alimento, e as rezas no meio do dia são dispensadas, pois acreditam no trabalho duro. Ficamos chocados com a recepção que tivemos. Pensavam em tudo para nos agradar, e acabamos ficando mais uns dias por ali, já estando nos sentindo em casa. Não podíamos pensar em pagar nada, de transporte ate o lanchinho da noite que foram buscar quando a Bibi comentou que estava com fome. Mesmo sendo misticos, grande parte das conversas eram no plano pratico e direto, muito direto. Final dos dias estávamos exaustos de tanta informação. Chegamos ali meio que por acaso, e foi muito especial. Não vou me prolongar muito, mas o assunto daria para escrever um post especifico.

Mesquita toda pintada

Novos amigos, os Bektaishis

O Tekke

A Macedônia e um país bem pequeno, mas algumas viagens podem demorar (relativo as pequenas distancias) por causa das montanhas e condicoes das estradas. Os ônibus com horários infrequentes também atrasam um pouco, somado com o pouco inglês que se fala na região, se tem alguns desafios por ali. Pegamos um ônibus para Struga e depois um minibus para Ohrid, pois tínhamos perdido o ônibus direto. Ao chegar,depois de ter dado uma volta completa no centro o motorista só nos olhou com uma cara “vocês não vão descer?”. Foi a unica coisa que entendemos vindo do motorista. Pulamos do minibus e logo achamos um lugar barato para ficar. Ohrid fica na beira de um lago, com uma cidade velha tombada pela Unesco. Imaginávamos um lugar calmo (não sei porque) mas ao chegarmos la em alta temporada estava muito, mas muito movimentado. Festivais, Djs, muita coisa programada para os próximos dias. O lago cercado com montanhas e muito bonito, mas inicialmente ficamos um pouco decepcionados com o lugar, muita calcada, camelos e turistas. Pegamos uma praia, não menos movimentada, e com musica alta e muvuca. Nosso sentimento do lugar só começou a mudar quando fomos para a cidade velha. Suas pequenas ruas, igrejas que não acabam, e um forte no topo da montanha. Achamos uma pousada simpaticíssima mas não tinha lugar, então só tomamos um chá. Com aquela vista decidimos que teríamos que nos mudar para aquela região para aproveitar melhor. Acabamos num quarto quitinete na casa de um motorista de ambulância aposentado e de sua esposa. Tomamos um café com eles e conversamos longamente sobre os (bons segundo ele) tempos de Iugoslávia. Foram muito simpáticos. Depois de alguns dias em Ohrid já estávamos prontos para pegar a estrada novamente. A Albânia estava ali do lado, e não viajaríamos sozinhos!

Ainda bem que tem placa bilíngue!!

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6 comentários em “Atras da cortina de ferro

    • Valeu Mike!! Deu tudo super certo, ja passamos pela Albania e chegamos em Montenegro ontem!!

      Final de viagem, marcamos a passagem!!

      Abracao!

  1. Quanta informação legal, quantas conversas! Adorei a foto da mesquita. A mãe contou um pouco desta aventura de vocês na Albania hoje. Deve ter sido super interessante. Vocês estão com uma cara ótima nas fotos. Ontem foi a festinha do Pedro, foi muito legal. Vieram muitas crianças e eles se divertiram muito: jogaram futebol, pularam, cairam na lama. Os meninos e as meninas estão começando a se desentender. Acabou toda a comida da festa!
    O Pedro estava MUITO feliz.

    Saudades de voces! beijos

    • Que legal, achei o maximo o comentario dele do final da festa!!
      Estamos em Sarajevo, e e muuito legal!!

      Beijos e boa sorte no lancamento do livro na Fnac!!

  2. Gui super experiencia nesta regiao que esta uma delicia ler…e que agradavel esta hospedagem recheada de história e cultura,intercambio real, com direito a Baba e tudo…hem?
    saudades bjs

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