O Haiti “turístico”?!

No domingo, o transito de Porto Príncipe não era o mesmo. As ruas estavam vazias, sem congestionamento. Filas só nas igrejas, onde pessoas se amontoavam do lado de fora para escutar a missa. A informação que tínhamos é de que a viagem da capital, Porto Príncipe, até Cap-Hatien, segunda maior cidade, duraria cerca de 5 horas, trafegando pela C-1, principal estrada do país. Saímos cedo para o dia render, ainda bem! No posto de gasolina passageiros se amontoavam em velhos ônibus. Algumas vans na esquina oposta ofereciam o mesmo destino. Não iriam até Cap-Hatien, mas chegam perto, diziam. Poucos quilômetros de moto completariam o trajeto. Pagamos os sete dólares e resolvemos encarar, já que nossa chegada em PaP também foi na periferia. Fomos viajando por terras devastadas e entendemos da onde vinha lenha para todo o carvão consumido para cozinhar. Depois de um tempo a pequena estrada foi se estreitando até parecer uma simples rua. Não estávamos na estrada principal do país e sim na C-3. Sei que num momento chegamos a uma pequena cidade e atravessamos um cemitério. Acho que não erra uma grande rota!haha Não muito depois a van parou, ponto final, ainda bem longe de onde queríamos chegar. Já estávamos amigos do Pascal, uma passageiro gente boa que nos ajudou a comunicar. Por aqui só se fala creole.

Cacamba

Cacamba

CARRO QUEBRADO

Carro quebrou pela primeira vez

Poderíamos ir até Cap-Hatian do moto, mas a estrada era sem asfalto dali para a frente e ainda estava longe.  Resolvemos pegar motos só até a próxima cidade, não tão longe dali. Numa moto fui eu, o motorista e o nosso novo amigo e em outra o Marcelo e outro motorista. Incrível como mesmo com a pobreza do país a região rural é bem mais estável. Não que a vida seja fácil, mas pelo menos tem terra para plantar, melhores condições de higiene, dentre outras coisas. Uma vida humilde, mas que não choca. A urbanização e aglomerações com certeza geram grandes problemas, isto e fácil de observar em diversos pa’ises .

interior

interior

Cercas vivas com roupas estendidas para secar, carros de boi, aquele ritmo de vida lento. Poucos quilômetros para frente chegamos até uma pequena cidade onde tinha uma caminhonete com varias pessoas na caçamba. Nos juntamos a eles e fomos atravessando rios onde pessoas lavavam roupa, motos e usavam como banheiro numa distancia de poucos metros. O carro quebrou, quebrou novamente, e chegamos a Saint Raphael. Devíamos ter acompanhado nosso amigo, que optou por pagar por uma moto. A caminhonete parecia mais segura, mas quase não chegamos. Alguns quilômetros mais para frente quebrou de vez. Ficamos interagindo com a criançada curiosa que sempre aparece nestas horas. Estávamos levando na esportiva, mas nos preocupava o fato de termos progredido poucos quilômetros nas ultimas horas. Ainda tínhamos um longo caminho pela frente e quem sabe não completaríamos o trajeto naquele dia. O povo era simpático e sabia que alguém iria nos oferecer abrigo, então no final das contas até que seria uma boa experiência.

Passou outra caminhonete e tentamos pegar. O motorista da nossa ficou revoltado, queriam que pagássemos a passagem inteira, mesmo tendo viajado poucos km. O Marcelo discutiu um pouco com ele, mas tudo se acalmou depois que fiz umas brincadeiras. No sentido contrario passa uma caminhonete moderna, baixam o vidro e era um missionário, com seus filhos adolescentes arrumados no banco de trás. Perguntam se estava tudo ok, e  quando viram que estávamos somente viajando por ali arregalaram os olhos.  Não estávamos tão longe, mas segundo as novas informações, a viagem demoraria mais algumas horas. A estrada de terra era lenta. Decidimos pagar o nosso passe. Negociei de só um pagar já que não tínhamos rodado quase nada. Vimos que não era uma pratica só com estrangeiros. Os locais que nos acompanharam na nova caminhonete também foram cobrados e alguns revoltados discutiram bastante. Horas depois voltávamos para o asfalto e chegamos em Cap-Hatien. Na parada estava muito movimentado, mas ao andar pelas ruas tudo estava deserto por ser domingo. Demos uma olhada em 2 hotéis, caros e pulgueiros e fomos tomar algo para pensar melhor. Para quem estava viajando desde cedo, não faria diferença pegar mais uma moto até o outro lado da montanha e mais um barco até a vila de Labadie. Ficamos amigos do barqueiro que nos levou numa pousada, que era bonita, com praia particular, mas cara e sem vida. Explicamos o que queríamos e fomos levados até a vila de pescadores, numa enseada linda, onde conseguimos um quarto por 10 usd, num bar-karaoque. Ainda deu tempo de mergulhar aquele mar azul e ficar ali até escurecer, mesmo com a chegada da chuva!

Tudo acontecia na pequena praça na frente de onde estávamos. A noite pratos de arroz, feijão e peixe eram servidos por 1 usd. Cerveja gelada, salgados e doces também eram fáceis de conseguir. Uma noite fomos convidados para jantar, tendo como cardápio os mesmos pratos vendidos na rua. Ficamos muito contentes com a hospitalidade. O pessoal batendo papo e o ritmo do dia a dia não mudava muito. Todos se encontrando, crianças indo para escola todas arrumadas, com um borbulho maior quando chagavam os pequenos barcos de pesca. Algumas praias muito bonitas no final de pequenas tilhas. Não muito longe dali tem uma praia particular da Royan Cribean, e um dia parou um navio gigantesco. Pensamos que poderiam invadir a “nossa praia”, mas o máximo que fizeram foi se aproximar da vila com um barco e fazer um safari fotográfico com lentes tele objetivas.

Indo para a escola

Indo para a escola

Personalidade

Personalidade

Jet skis e barcos levavam o pessoal para algumas ilhas, tudo exclusivo. Se é melhor para nós, que com isto tivemos paz, o mesmo não acontece com a população local, que deixa de receber uma receita. Nos falaram que pagam para o governo 10USD por turista, mas não acredito que este dinheiro seja aplicado localmente. De qualquer maneira a vida ali é bem diferente de Porto Príncipe. Condição de vida digna e um estilo de vida parecido com tantos outros lugares que vivem da pesca.

O banho de caneca não nos incomodava, mas a musica alta tarde da noite não era muito agradável. De qualquer forma a luz caia com frequência, então nunca chegou a atrapalhar totalmente a nossas noites de sono.

Nos despedimos desta vila gostosa e das praias e voltamos para Cap-Hatien. Arrumamos um hotel e fomos pegar um Tap-Tap até Milot. Ali esta Sans Souci, ruínas de um antigo palácio. Num sol forte, seguimos uns sete quilômetros montanha acima, até chegar na Henri´s Citatele. Chegamos cansados e molhados de suor por nao parar em nenhum momento. Para nos era só um passeio, mas fomos conversando com crianças que faziam este trajeto todos os dias para ir para a aula. O forte foi uma grata surpresa. Patrimônio da Unesco, muito bem preservado, todo rodeado por montanhas com uma super vista. Maravilhoso!!

Palacio Sans Soiusi

Palacio Sans Soiuci

Canhões e munição dava todo um estilo para o local. Novos centros de visitante sendo construídos mostram que sabem o potencial turístico do lugar, que é incrível!

Henri's Citatele

Henri’s Citatele

Patrimonio da Unesco

Patrimonio da Unesco

Fomos encarar a ladeira abaixo quando nos ofereceram carona. Fomos surpreendidos quando descobrimos que iriam  até Cap_Hatian, e com isto ganhamos um bom tempo. Com mais tempo exploramos bastante o mercado local. Na verdade o mercado já começa com uma grande feira de rua algumas quadas dali. O mercado coberto contrastava com a “calma” de Cap-Hatien ( calma comparado com Porto Príncipe). As manifestações de voodoo não eram tão presentes, apesar de estarem em algumas barraquinhas. Comidas, roupas, mas tudo muito desorganizado e caótico. Uma água suja no chão me fazia lembrar que o meu tênis tinha furado, e o cheiro de peixe e carne sem refrigeração  nos fazia temer sobre nossa alimentação. Temer mais ou menos, pois no dia seguinte lá estávamos nós tomando um suco com gelo que nos ofereceram no ônibus que ia para a Republica Dominicana. Uma coisa que ficou faltando fazer no Haiti foi assistir as brigas de galo, paixão nacional.

Cap Hatien

Cap Hatien

Cap Hatien

Cap Hatien

Na Republica Dominicana aquele contraste. Longe de ser um país rico, mas com um fluxo intenso de turismo, tudo é preparado para estes. Fizemos nossa base no norte do país, Sossua, Cabarete e região. Ficamos numa pousada gostosa, com café da manha e jantar inclusos, com bom preço. Aproveitei para surfar e bater papo com estrangeiros. Mas nossas cabeças ainda estavam no Haiti. Algumas pessoas tinham morado/trabalhado lá, então foi legal discutir nossas impressões com eles.

A antiga pequena vila de Cabarete já virou um polo turístico, impulsionados pelos vendos do wind e kite-surf. Não e uma praia só de resorts como Punta Cana, mas muitos já estão sendo construídos. Muitos condomínios de casas, todas para estrangeiros, que tem diversos voos para aeroportos da região. A noite baladas descoladas com musica internacional, cheias de prostitutas. No final de semana achamos um karaokê onde o pessoal jogava sinuca, dominó e cantava muito mal. Talvez o único lugar que não tinham prostitutas, ou pelo menos não estavam trabalhando. Tomamos umas como despedida e no dia seguinte fomos até Santo domingo, onde pegaríamos o voo de volta para o Brasil. Ainda deu tempo de dar mais uma caminhada e jantar. Fomos com bastante antecedência para o aeroporto, então a blitz do exercito, que queria um dinheiro para não nos enrolar muito, não nos assustou.

Santo Domingo

Santo Domingo

No voo de volta, sentado durante toda a madrugada numa poltrona que não reclinava, pensava como eu era uma pessoa de sorte.

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4 comentários em “O Haiti “turístico”?!

    • Obrigado Diego!
      Apesar das dificuldades locais, muito legal mesmo! Fui muito bem recebido, por isto devemos receber bem nossos irmãos haitianos que vem para o Brasil! Por um mundo sem fronteiras!!

      Abraço

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