Togo, despedida do Oeste da África

Confesso que não tinha grandes expectativas do Togo. Desde o inicio da programação da viagem, não imaginava explorar o interior, só os pouco menos de 60 quilômetros de costa deste pequeno país. Foi muito bom, pude conhecer com calma e digerir as experiencias tão intensas que tive até ali. Nestas horas, sem grandes planos, acabamos nos surpreendendo, e curtindo momentos simples, aqueles que não podem ser planejados.

As fronteiras pouco importam nesta região, onde povos são separados por linhas imaginarias. Grande parte do “Togo histórico” se é que se pode falar desta maneira, acabou fazendo parte de Ghana. Apesar de ter sido um protetorado alemão (1884) durante um período, pouco resta desta época e a língua colonial mais falada é o francês, já que a França assumiu o controle da região após a primeira guerra.

Minha primeira parada foi em Aného, pertinho da fronteira com o Benim, onde buscava a herança cultural dos escravos que voltaram do Brasil para lá. Assim como os Tabom (Ghana) e Agudás (Benim), também tiveram escravos libertos que se fixaram no Togo, e a cidade era apontada como um grande centro cultural deles. Pouco sobrou da antiga cidade protetorado alemão, no máximo uma ou outra construção colonial, a maioria bem decadente. Havia ouvido falar que até a cor das pessoas seria um pouco mais clara, devido ao “abrasileiramento”. Grande besteira. Quem já viajou pela África sabe que os tons de negro são infinitos e impossíveis de se classificar. Verdade é que não existe uma raça negra, nem fenótipa nem genótipa. Existe uma herança (multi) cultural africana, e só isto. A eugenia tentou em vão criar diferenças e padrões, mas sempre fracassou. Estudos mostram uma variabilidade genética maior entre os próprios grupos de indivíduos do que fora deles. Raça não existe, fato.

O povo Ewe, predominante na região, é amenista e crente nas praticas do Vudum. Muito rico culturalmente, colorido e bastante musical, fez minha estada na região ter sido muito agradável, apesar de não ter passado por grandes atrações.

Lago Togo

Lago Togo, com a histórica Togoville ao fundo

Acabei usando a capital, Lomé, como base, e as curtas distancias facilitaram bastante para eu explorar a região. Um curto táxi comunitário e eu estava em Agbodrafo, a antiga “Porto Seguro” na época dos portugueses. Lá tem um pequeno forte escravocrata, mas meu interesse maior era no sentido oposto ao litoral. Poucos quilômetros dali, por estradas de terra, cheguei no Lac Togo. Parecia a forma mais fácil de chegar até a histórica Togoville, mas não sem muita negociação. Canoas partiam sentido a pequena vila, todas carregadas com os mais diversos produtos, desde saco de alimentos até motocicletas. Mas pareciam não querer levar estrangeiros, pelo menos não pelo preço dos locais. Me passaram o preço que um grande hotel ali perto cobra, para um barco particular. Me surpreendi um pouco, pois no ultimo mês estava viajando por diversos países e nunca tentaram me enganar no preço do transporte. Nada de me revoltar, com um sorriso no rosto, apertos de mãos longos, piadas e abraços consegui derrubar o preço, mas não consegui pagar o justo. Com o turismo, existe uma certa crença que os mais ricos tem que dar dinheiro para os mais pobres. Não que esteja completamente errado, mas eu viajando de forma simples que estava, acabava me sentindo um pouco excluído. De qualquer forma, depois de bastante negociação, acabei cedendo e pensando que estava contribuindo um pouco com a região.

Togoville

Togoville

Redes de pesca no Lago Togo

Redes de pesca no Lago Togo

Pescadores

Pescadores

Pescadores recolhiam as redes, canoas navegavam lentamente quando pude avistar ao longe a torre da igreja. No meio de tantas capelas de Vudum se destaca uma grande catedral, que marca o lugar onde dizem que a virgem Maria apareceu nos anos 70.

Uma cidadezinha calma, com pescadores deitados na beira do lago, alguns comerciantes expondo mercadorias e uma ou outra pessoa na rua. A lotérica era o lugar mais movimentado e um bar/ restaurante o mais barulhento, apesar de poucos clientes. Crianças brincavam de bicicleta, jogavam bola e corriam com rodas. Uma ou outra gritava “Yovo” (homem branco) para mim e saia correndo dando risada.

Passei pela Mansão real, pela Catedral, capelas de vudum e pelo “Memorial”onde foi assinado o tratado com os alemães. Apesar do apelo turístico da região, não pareciam se importar muito com minha presença por ali. Fiz alguns amigos no pequeno mercado de rua e consegui um motorista para me levar de moto até Vogan, uma cidadezinha a alguns quilômetros dali, onde tem um grande mercado nas sextas-feiras. Não havia planejado, mas estava com sorte!

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No caminho, aquele clima rural, cenário de interior. Rápida parada para abastecer, num lugar que vendiam gasolina em garrafas de vidro de um litro. Notei quando nos aproximávamos de Vogan pela quantidade de mulheres com seus cestos na cabeça, e roupas coloridas, voltando das compras.

Abastecendo

Abastecendo

Movimento

Movimento em dia de mercado

É um grande mercado, onde se vende de tudo. Roupas, comidas, animais alem de qualquer coisa que possa precisar no dia a dia. Fora comida, e talvez um tecido ou outro, nada que eu quisesse comprar, mas ótimo lugar para observar as pessoas e o dia a dia. Um pouco de voyeurismo eu confesso. Para aliviar o calor, nada melhor que uma água de coco, que custava 70 CFA, algo em torno de 0,10 Eur.

Vogan

Vogan

Vogan

Vogan

Cores

Cores

Para sair de um grande mercado destes claro que só num carro superlotado. Fui no banco da frente dividindo com uma “Mama”. O carro quebrou, furou pneu, mas nada que eu não estivesse esperando, nem demorou tento assim para eu voltar para Lomé.

Estava hospedado num hotel na região de China Town, atras do palácio presidencial. Os quartos eram bem ruinzinhos, mas tinha um restaurante popular entre os expatriados, onde tinha até banda alguns dias a noite. Para comer eu preferia caminhar umas quadras dali, onde ficavam os restaurante libaneses, bem mais baratos. As comidas de rua sempre estava a disposição também!

Catedral Lomá

Catedral Lomé

A praia, alem de suja, é um local considerado perigoso, portanto eu apenas passava (não aproveitava), a caminho do hotel. Caminhei bastante pelo centro, explorei vários cantinhos do Grand Marché e o mercado de artesanatos. Mas eu estava mesmo sonhando em conhecer o Mercado Akodessewa, conhecido como “Marché des Féticheurs”, o Mercado da Feitiçaria. Como fica mais afastado é só parar uma das motos e acertar o preço. Acabei tendo sorte e um cara bem bacana me levou. Em vez de somente me deixar lá acabou me acompanhando e ficou meu amigo. Ele estava desempregado e tinha tempo livre. Aproveitava para aprender um pouco de inglês, mas ainda estava bem no inicio. Rodamos um pouco pelo mercado antes de achar a seção de feitiçarias. Dentre mantimentos e animais vivos, um pequeno gato me chamou a atenção. É para comer eu perguntei um pouco sem jeito. Claro espondeu a vendedora, com cara de “para que mais seria”. Todo mundo já comeu “filé miau”, mas ir comprar assim é um pouco estranho.

Filé Miau

Filé Miau

A seção de feitiçaria foi um pouco decepcionante, pelo menos para quem tem um espírito de viajante independente. Já na entrada tem uma placa onde mostra o preço da entrada e o valor que você precisa pagar para tirar fotos. O lugar não foi montado para o turista, ele está lá e vendem mercadorias para todo o Oeste da África, só aproveitaram a possibilidade para ganhar um extra. Você pode ter um tour onde vão te explicar a utilização de cada produto, tirar duvidas e até ter uma consulta. Tudo isto no meio de crânios de macacos, cascos de tartarugas, dentes, asas de morcego, garras de diversos animais e por aí vai.

Feitiçaria

Feitiçaria

Vudum

Vudum

Compras

Compras

Loja

Loja

Vale a pena, mas não deixa de ser um daqueles famosos pega-turista. Com certeza é possível ter experiencias bem mais autenticas com o Vudum em outros lugares, mas talvez as fotos não fiquem tão boas como ali.

Consultas

Consultas

Mercado Feitiçaria

Mercado Feitiçaria

Alguma encomenda?

Alguma encomenda?

Lomé é pequena para uma capital e muito fácil de se orientar. Dali eu iria até Accra, Ghana, para pegar o voo para o Brasil. Interessante que a fronteira Togo-Ghana fica nos limites da cidade, muito perto do centro. Minha estadia por  ali foi um período nostálgico, onde eu tive um certo tempo livre. Tomando cerveja ou comendo num restaurante eu ficava relembrando esta incrível viagem pelo Oeste da Africa.  Ernest Hemingway não poderia estar mais certo quando disse:

“Não me lembro de uma manhã na África em que eu acordei e não estivesse feliz”

As cores e dores do Benim

O Benim é um pequeno país no Oeste da África que possui laços fortíssimos com o Brasil. Durante alguns seculos o então reinado de Dahomey controlou a região, participando no riquíssimo comercio de ouro. Com a descoberta do “Novo Mundo”, o trafico de escravos aumentou consideravelmente, e  foi muito lucrativo durante seculos. Um brasileiro de Salvador, filho de um português com uma escrava, foi amado e odiado na região. Em certo momento da história, Francisco Felix de Souza, fez um pacto de sangue com o rei de Dahomey e conseguiu praticamente exclusividade no mercado de escravos. Foi responsável pelo terrível ato de financiar a captura e enviar milhares de escravos para o Brasil. Conflitantemente com esta pratica, passou a ser uma pessoa munto respeitada pelos escravos que voltaram do Brasil para o Benim depois de livres. Eles tinham adquirido uma cultura brasileira/portuguesa, então o Francisco Felix de Souza não deixava de ser uma referencia e um bom contato na terra estranha que um dia foi lar de seus antepassados.

Se alguns poucos escravos trouxeram cultura quando voltavam para o Benim, o mesmo aconteceu quando milhares foram levados para a America (12 milhões de toda a África).  Em toda esta região do Oeste da África existe um culto muito forte aos antepassados, lendas, lugares sagrados e entidades, as quais chamam de Vudum (Espíritos). Ao ser “exportado” acabou sofrendo pequenas adaptações mas continua sendo a base do Voodoo no Haiti, da Santeria em Cuba e Umbanda e Candomblé no Brasil.

Eu atravessei a fronteira Niger-Benim de motocicleta. Já passava das duas horas da tarde e os oficiais pareciam entediados. Algumas mulheres assumiram o controle e inspecionaram meu passaporte. Não encontravam o numero de serie do visto que buscavam,  aproveitaram para brincar comigo e se ofereceram para ver se eu não queria leva-las para o Brasil. Depois de algumas rizadas, dados da minha viagem anotados, fui liberado. Um senhor veio correndo me oferecer transporte. “Ultimo lugar, vamos sair agora!”. Seria bom demais para ser verdade, pois os transportes normalmente partem cedo. Eu tinha a ambição de no máximo chegar até Parakou naquele dia, metade do caminho até a costa. Mas não, ele dizia que os outros lugares já estavam tomados e eu poderia seguir até a capital, Porto Novo, ou Cotonou, centro econômico. Dei uma sondada no preço, para ver se estavam me cobrando o valor correto(sempre cobraram o valor correto no Oeste da Africa) e fui procurar o meu lugar. Era um carro pequeno, mas com duas fileiras de bancos atrás. Iria o motorista e outras dez pessoas. Eu fiquei feliz quando me deram o lugar ao lado do motorista, dividindo com só mais um passageiro, eu na janela. Não demorei muito para perceber que não era o mais confortável. Para cabermos, tive que ficar com a janela aberta o tempo todo, com o braço para fora, quase debruçado,  para sobrar um pouco de espaço. Quando começou a chover eu tentei fechar a janela mas fui repreendido. O espaço era mais valorizado, mesmo que ficássemos molhados.

12 pessoas? Só com a janela aberta ;)

11 pessoas? Só com a janela aberta ;)

Se não mentiram no preço, mentiram no tempo da viagem que acabou sendo muito, mas muito mais demorada que o esperado. Chegamos em Parakou já tarde da noite. Uma longa parada para jantar, carregar o topo do carro com tudo quanto é mercadoria possível. Aproveitei para conversar com os outros passageiros. Todos Nigerinos, que estavam indo tentar a sorte no Benim. Alguns trabalhariam no porto, outros tinham sido contratados para levar carros de volta para o Niger. Na feira noturna, enquanto comíamos começou a tocar uma musica de Guiné-Bissau. Era creole, mas tinham muitas palavras em português e eu comecei a cantarolar. Todos ficaram impressionados como eu conhecia uma musica de Guiná-Bissau (eu não conhecia) e queriam saber se eu já tinha morado lá. Eu brincava que tinha nascido lá e nos divertimos bastante.

Já era tarde, eu cheguei a cogitar a ideia de buscar um hotel, mas o acordado era  percorrer o trajeto todo, portanto não me devolveriam parte do valor da passagem. Antes de viajar, no meu plano original, de Parakou eu iria para o noroeste do país, para explorar a região de Natitingou, onde está a tribo Tata-Somba, com suas casas de barro em formatos tipicos, patrimônio da Unesco. No entanto, eu havia prolongado minha estadia no Niger quando decidi  ir até Agadez, então estava com o itinerário um pouco mais apertado. Fica para a próxima! Apesar do cansaço, eu ganharia um pouco de tempo por viajar a noite, apesar de perder a paisagem. Decidi seguir viagem mesmo.

Foi uma viagem dura, não dormi quase nada. Na entrada de cada vilarejo tinha uma corda ou um bambu com um latão na ponta trancando a estrada. O motorista pagava um pedágio e arrastavam lentamente o latão para passarmos. A cena se repetiu dezenas de vezes. Mas algumas paradas para trocar mercadorias, fazer entregas e já amanhecia quando chegamos em Porto Novo. Eu queria conhecer a capital, mesmo não tendo grandes atrativos, diziam ser bonita por estar espalhada por colinas na beira do lago Nokoué. Mas a chuva não parecia que ia parar, então me contentei em admirar as decadentes casas coloniais francesas e a pacata cidade despertar pela janela do carro superlotado. Dali até Cotonou é um pulo, são cidades praticamente interligadas. Tomei um bom café da manhã, e me despedi dos meus companheiros de viagem. Cotonou é uma cidade barulhenta, suja e perigosa, não é o tipo de lugar que se pode dar bobeira. Dali eu queria ir até Ganvie, uma grande vila só de casas sobre palafitas. Foi a forma que a população encontrou para fugir dos traficantes de escravos. Mas o problema é que com aquela chuva forte não seria uma experiencia nada agradável, pois a unica forma de chegar lá é de canoa.

Não tive outra opção a não ser pegar um táxi coletivo até a histórica Ouidah, patrimônio da Unesco. Foi a decisão certa. Fica a apenas 40 quilômetros de Cotonou mas um mundo a parte. Cara de cidade do interior, vida calma e cultura fortíssima, pois ali é o centro do Vudun. Depois que já estava instalado no hotel a chuva até parou! O nome da cidade Ouidah, vem do português, “Ajuda”. A região tem muitas coisas interessantes. No forte português São João Batista,  hoje funciona um museu, e tem até placa escrito em português.

Forte São João

Forte São João Baptista de Ajudá

Placa em inglês, francês e português

Placa em inglês, francês e português

Forte

Forte

Herança portuguesa

Herança portuguesa

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Existe uma floresta sagrada, onde dizem que um chefe Kpasse se transformou em uma arvore para fugir dos inimigos. Lá também  estão diversas estatuas de entidades do Vudun e da para aprender bastante e sentir o clima do lugar. Mas se quiser só passear pela cidade já vai avistar bandeiras, santuários e oferendas do Vudun, pois estão por todos os cantos.

Floresta Sagrada Benim

Floresta Sagrada

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Templo Vudun

Templo Vudun

Explorando Ouidah

Explorando Ouidah

Locais de culto espalhados pela por Ouidah

Locais de culto espalhados por Ouidah

Um dos locais mais famosos da cidade é o “Templo da Serpente”. Um lugar sagrado  onde cultuavam as cobras mas hoje se transformou mais em um “Tourist-Trap”, o famoso pega turista. Tudo bem que é legal você conhecer um templo com dezenas de cobras, no maior estilo Indiana Jones, mas o pessoal vai estar mesmo é querendo colocar uma cobra no teu pescoço para ganhar uns trocados.

Indiana Jones ou "pega turista"?

Indiana Jones ou “pega turista”?

Já que que a foto "está no preço", fica de recordação

Já que que a foto “está no preço”, fica de recordação

Não muito longe dali fica a Casa do Brasil, que é interessante, apesar de bem pobrezinha. Dentre diferentes objetos existem placas com as listas das famílias de escravos que ao ficarem livres voltaram do Brasil para o Benim, os chamados Agudás. Seus descendentes vivem até hoje lá, e incorporaram varias palavras  portuguesas em seu vocabulário.

Casa Brasil Benin

Casa Brasil

Agudas, famílias de escravos livres

Agudas, famílias de escravos livres

Em frente à imponente basílica de Ouidah tem um pequeno museu de Voodoo com esculturas de diversos lugares do mundo. Me diverti vendo futebol no final de tarde e tomando cerveja barata a noite.

Basílica Ouidah

Basílica Ouidah

Iemanja!

Iemanjá! Muitas entidades tem os mesmos nomes utilizados no Brasil

Escultura em uma arvore no centro de Ouidah

Escultura em uma arvore no centro de Ouidah

Futebol em um final de tarde

Futebol em um final de tarde

Os lugares mais marcantes da região ficam nos arredores da cidade, poucos quilômetros do centro. É possível percorrer a “Rota dos Escravos”, caminho que os escravos faziam da cidade até a praia onde embarcavam para as Américas. São uns 4 quilômetros de caminhada,  onde se pode aprender muito, alem de refletir como o absurdo da escravidão poderia ser legalizada. Tem uma arvore onde eram obrigados a dar varias voltas para esquecerem suas origens. Na beira da praia um portal que funciona como memorial, o “Ponto do não retorno”, com figuras bem marcantes desenhadas. É um clima muito pesado, difícil não pensar nas atrocidades cometidas ali. Mas um memorial serve para isto, para nunca esquecerem do que se passou ali.

Rota dos escravos

Rota dos escravos

Ponto do não retorno

Ponto do não retorno

Alguns hotéis e uma praia agradável, mas sem a “vida” da cidade. Sempre é possível encontrar um pequeno restaurante local para comer uma comidinha caseira e bater papo. O futebol também rolava por ali com frequência. Deixei para curtir praia no meu próximo destino, Grand Popo, já bem pertinho da fronteira com o Togo.

Pescadores

Pescadores em Grand Popo

Mulheres esperando os pescadores

Mulheres esperando os pescadores em Grand Popo

Grand Popo também fica pertinho. O litoral do Benim é minusculo, então é bem fácil de se locomover. Sobrou pouco deste antigo porto  de escravos. A maior parte das casas coloniais foi derrubada pelo mar, e o que sustenta o lugar é uma base naval, a pesca e o turismo. Diversas pousadas onde o pessoal fica de bobeira depois de longas viagens pelo Oste da Africa. Muitos expatriados utilizam apraia para descansar do dia a dia também. Mas isto não significa que estava cheio do turistas. Vi só uma meia duzia, mas existem muitas pousadas sendo construídas, então parece ser um negocio promissor.

Praia

Praia e cores

Pescadores

Pescadores

Pescadores

Vila de pescadores ganeses

Praia

Praia

Um lugar colorido. Mar verde, praias douradas e roupas e redes de pesca de diversas cores. Peixe e cerveja muito baratos se não comer nas pousadas. Eu sempre ia fuçando para encontrar novos lugares. A maior parte dos pescadores da região são de Ghana, e atravessam todo o litoral de Togo para tentar a sorte no Benim. Alguns tem licença para a pesca em trazem toda a família, outros vem ilegal. Ficavam muito felizes quando eu oferecia para as mulheres deles cozinharem para mim, um trocado extra no orçamento.

Dei uma recarregada na energia nos dias que fiquei ali. Descansei, tomei banho de mar, escrevi e li bastante e interagi como pude, já que não consigo ficar muito parado. Logo eu estava na beira da estrada, pronto para pegar uma moto e percorrer os poucos quilômetros até a fronteira com o Togo.

Todos estão de passagem pelo Níger?

Níger não é um país estampado nos cartazes da agencias de turismo. Muitas pessoas se confundiriam perguntando, “Não é para Nigéria que você vai?”. Outros tantos não saberiam definira a nacionalidade de quem nasce no Niger (Nigerino). Um dos países mais pobres da Africa, frequentemente está em ultimo lugar nas listas de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de todo o mundo. O que eu fui fazer lá? Me surpreender!

Eu viajava numa das principais estradas do país, rumo a capital, Niamey, mas parecia que me dirigia sentido ao interior. Um estrada muito simples e de má qualidade, pouquíssimas cidades, que na verdade eram uma ou outra vila, mesmo eu estando numa das regiões mais populas do país.

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Quando atravessamos o Rio Niger, entrando na capital, os quatro Fulas (uma das etnias locais), altos e magros, não esconderam a alegria. Falavam sem parar e gritavam para o motorista orientações de onde queriam descer. Eles dividiam o ultimo assento do ônibus comigo, o que mais sacolejou durante a viagem. Todos os outros passageiros viravam para ver o que diziam. Eles estavam voltando de uma temporada de trabalho em Freetown, Serra Leoa. Não sabiam dizer ao certo quantos meses estavam fora. O bastante um comentou, mais de meio ano afirmou o outro- sem comunicação com a família. Grande parte da população do Niger esta na região rural e vive de subsistência. As poucas dezenas de dólares que conseguiram guardar mensalmente faria grande diferença no dia a dia de seus parentes. Antes de descer um deles me desejou boa sorte na minha jornada. Minha vontade era de dizer, fique com a sorte, você precisa mais dela do que eu. Mas ele saiu com seus amigos feliz da vida, e ficou abanando quando eu dei uma espiada pela janela lacrada por causa do ar condicionada que já não vencia o calor lá de fora.

Alguns quilômetros adiante, já dentro da cidade, o ônibus parou na “moderna” estação. Não existe o sintema de rodoviária na maioria dos países da África, cada companhia tem seu terreno. Muitas vezes parece um terreno baldio, cheio de lixo e empoeirado. Eu havia embarcado num destes em Ouagadougou, Burkina Faso, que era exclusivo da Sonef. Em Niamey, sede da empresa, eles tinham dois terminais grandes, murados, bem estruturados para os padrões locais.

Grande mesquita de Niamey

Grande mesquita de Niamey

No meu plano inicial, eu passaria uns dias na capital e seguiria ao sul, onde faria uma ou outra parada antes de chegar ao Benim. Mas uma semente havia sido plantada, meses antes, em um bate papo informal em Florianópolis. Meu amigo, Edson Walker, grande viajante que já esteve no Niger ficou empolgado com meus planos de viagem. Primeira coisa que perguntou é se eu iria para a histórica Agadez. Não que eu não tivesse cogitado, mas não parecia fazer muito sentido eu me aventurar quase mil quilômetros sentido ao Saara para depois retornar. Cheguei a estudar uma ida até o Chade para voltar de avião, mas teria que passar por cidades na fronteira da Nigéria onde tiveram recentes atentados do Boko Haram. Estava descartado este trajeto.

Eu tentei colher o máximo de informações possível, entender como estava a situação. O wikitravel dizia que qualquer viajante que tentasse chegar a Agadez seria mandado de volta no primeiro ônibus no sentido contrario, o que poderia demorar 24 horas. Eu fiquei sabendo de um cara que tinha feito o trajeto poucos meses antes, e disse que tudo estava ok. As pessoas em Niamey não sabiam informar direito, era tão longe, uma realidade tão diferente da delas. Teve rebelião dos Tuaregues, as coisas estão agitadas nos últimos anos por lá, um jovem me disse, quando tomava um café (ultimas décadas na verdade!). Outro recomendou eu entrar em contato com a policia ou exercito. Mais fácil foi eu perguntar no guichê onde vendem passagem para lá, afinal de contas, com ônibus diários, sabiam exatamente como estava a região. Um rapaz entusiasta me encorajou. Está bem tranquilo, só não vá mais ao norte. O pessoal não sabe o que fala… A proibição de estrangeiros caiu em Janeiro, pode ir tranquilo. A falta de informação é cruel, mas a sua confiança me contagiou e comprei um bilhete. O ônibus partiria as quatro da manhã. Sai para perambular pela cidade. Haviam me recomendado o museu nacional, um dos mais completos do Oeste da Africa, mas com pouco tempo eu preferi curtir a cidade como um todo. Fui na imponente mesquita principal, financiada pelo Kadafi, onde diversos jovens jogavam bola nos seus arredores. Futebol é um dos esportes mais populares do Niger, talvez só superado pela “Luta Tradicional”. Eu havia me informado onde tinha um ginásio da luta local e fui la para conferir se estavam treinando. Infelizmente lá só acontecem as competições. Gostaria de ter visto um ou outro combate, mas não tinha nenhum agendado. É uma especie de Wrestling, onde vence quem derruba seu oponente com os dois ombros no chão. Nada de tatame, tudo num piso empoeirado, acompanhado de musica e rituais tradicionais. Dei uma olhada nos mercados, no Rio Niger, onde as pessoas lavam a roupa mesmo no centro da cidade. Queria procurar pelos famosos morcegos da região e ninguém entendia direito quando eu perguntava por informações. Mas quando escureceu eu entendi porque, eles estavam por todos os lados, sobrevoando a cidade e dando seus rasantes. Com o anoitecer eu, com minha mochila, sabia que seria uma presa fácil. Não para os morcegos, mas para algum oportunista que me visse dando mole.

Peguei um táxi coletivo para a estação de ônibus e fui comer alguma coisa no pequeno mercado improvisado ali na frente. Os preços dos hotéis são muito caros na capital do Niger, não valeria a pena para poucas horas. Descansaria na rodoviária mesmo.

Dormindo na estação de ônibus de Niamey

Dormindo na estação de ônibus de Niamey

Comprei um baguete e quatro espetinhos de bode (100 CFA/0,15EUR cada) e me sentei num banco. Um rapaz puxou papo em inglês. Aparentava ter uns vinte poucos anos (depois descobri que tinha quase trinta), e falava inglês relativamente bem. Era de Burkina Faso, mas não morava lá fazia tempo. Estava sempre se mudando atras de trabalho. O ultimo foi no porto em Benim, se orgulhava de ter mandado um bom dinheiro para casa. No inicio fiquei meio atento, na defensiva, mas depois baixei a guarda. Ele me elogiou: “você é gente boa, me aproximo de muitos brancos que nem querem conversar”… “Depois de um tempo de conversa ele peguntou: “Onde você mora mesmo? Brasil? Tem trabalho bom lá? Se me levar para o teu país posso trabalhar em qualquer coisa…”. Ele dizia que estava indo para a Argélia ou Líbia. Dizia ter empregos bons lá. Eu brincava perguntava se ele ia mesmo para lá ou se daria uma esticadinha até a Europa. Ele negava, dizia ser muito perigoso, “Minha família depende de mim!”afirmava.

Ele passou uns dias sem dinheiro, e até enviarem para ele completar a viagem, ficou vivendo na rodoviária. Me mostrou o salão de espera, três andares onde as pessoas descansavam em esteiras,o banheiro e chuveiros. “Precisa tomar banho depois de alguns dias, te da força”, afirmava. Na sala de espera, o primeiro nível era para as mulheres e os outros dois para os homens. Ao contrario dos ouros países que passei nesta viagem(e os que iria também) a maioria esmagadora da população do Niger é Muçulmana.

Garanti minha esteira e dei uma esticada. Achei que iria dormir, mas tinham muitas pessoas querendo conversar. Muitos curiosos apareceram e meu novo amigo servia de interprete. Queriam saber da minha vida e eu da deles. Eramos todos viajantes, mas cada um com um proposito diferente. A impressão que fiquei é que todo mundo que encontrei no Niger estava em transito. Já sobrecarregado de informação e de duras histórias de vida, cochilei. Uma hora antes da saída do ônibus um funcionário acordava todo mundo, puxava as esteiras e tocava uma musiquinha irritante enquanto iluminava a todos com sua lanterna. Me despedi de algumas pessoas, mas muitos outros seguiriam comigo, no mesmo ônibus, rumo a Agadez.

Aproveitei as primeiras horas para dormir, ou pelo menos descansar. Ainda escuro, e sem a influencia do sol forte, o ar condicionado ainda funcionava. Vesti até uma jaqueta corta vento e um lenço no pescoço. As estrada era ok, mas o ônibus lotado tinha pouco espaço para as pernas. Na primeira parada para controle de passaportes fiquei tenso. O oficial subiu no ônibus e olhou o passaporte e identidade de todos. Ficou procurando meu visto e de onde eu era. Perguntou para onde eu ia e me devolveu o passaporte sorridente. “Bon Voyage!”. Mas nem todos tiveram a minha sorte. Muitos tiveram que descer e entrar em uma tenda improvisada. O motorista esperou, impaciente mas esperou, muitas pessoas serem extorquidas em cada uma das paradas do exercito. Em duas delas me mandaram descer. Fui na tenda, somente verificaram o passaporte, anotaram uns dados e me liberaram. Outra pessoas me perguntavam o quanto eu tinha pago, e se surpreendiam quando falava que nada. Nem todos tinham a mesma sorte, e muitas pessoas iam deixando suas economias pelo caminho.

Paisagens gravadas na minha memória

Paisagens gravadas na minha memória

Interior do Niger

Interior do Niger

Niger

O interior sempre é mais interessante que as cidades

Niger

Povoados no meio do Niger

Numa das paradas, tentando entender a situação, um senhor saiu em defesa dos oficiais. “Eles pagam dinheiro para serem liberados porque os documentos não estão em ordem. O meu está e eu nunca tive que pagara nada…”. No ponto de vista dele os policiais estavam sendo generosos em deixar o pessoal seguir viagem, era apenas uma troca de favores.

Por falar em troca de favores, numa parada mais longa decidi comprar um pedaço de frango e batatas fritas. Meu amigo estava comigo e não conseguiria comer com ele olhando. Comprei o mesmo para ele. Em todas as outras paradas ele vinha com alguma coisa para mim, fosse uma laranja, um saquinho de água ou qualquer coisa que fosse comer. Vontade de dizer, fique para você, guarde, não precisa. Mas não, na África a reciprocidade é muito forte. Você ajuda e é ajudado, você sorri e faz amigos. É uma lei natural, ninguém sobrevive sozinho, um depende do outro e todos sabem disto.

Tuaregues ficam mais comuns no interior

Tuaregues ficam mais comuns perto do deserto

Churrasquinho sempre presente

Churrasquinho sempre presente

A estrada foi se deteriorando e logo era mais fácil trafegar pela areia que pelos buracos. Vez ou outra dava para avistar um caminhão tombado na beira da estrada. Paisagem monótona, só mudava quando passávamos por algum vilarejo ou por pastores. Alias era minha alegria quando dávamos uma parada um pouco mais longa. Olhar as diferentes casas, pessoas, estilos, parecia um sonho.

Parte boa da estrada

Parte boa da estrada

Já havia passado das onze da noite ( tínhamos saído as 4 da manhã) quando teve um controle “pente fino”. Olharam todo o bagageiro do ônibus e analisaram minunciosamente os documentos. Eu havia sido surpreendido positivamente por cada sorriso e gesto acolhedor de cada oficial que encontrei no Niger, mas eu ainda parecia não acreditar. Seria tudo tão fácil? Neste ultimo controle disseram que ficariam com meu passaporte. Eu disse que não podia me separar dele mas insistiram. É para o registro, esta tudo bem. Amanha de manhã você pode buscar na delegacia, fique tranquilo. Procedimento normal. Já estava tão exausto que concordei. Poucos quilômetros adiante entramos em Agadez.

Pequei uma moto e fui até um hotel que haviam me indicado. Passamos por ruas estreita, casas feitas de barro, num verdadeiro labirinto desta cicade do seculo 11. O hotel, bem decadente, aparentava ter tido seus dias de gloria, mas estava em pedaços. Pedi o quarto mais barato e capotei.

Quarto simples e caro

Quarto simples e caro

Acordei assustado, com o despertador estridente. Havia dormido profundamente, e acordei com a sensação de que tinha perdido a hora. O ventilador não vencia o calor. Ainda era cedo, mas o sol já estava mostrando quem mandava naquela região. Fui tomar um banho e me deu uma tristeza. Fazia tempo que alguém não passava uma água por ali, de tão imundo que estava o lugar. Falei um um funcionário que regava umas poucas plantas no jardim interno do hotel. Pedia informação sobre como chegar à delegacia de polícia. Ele chamou o irmão do dono do estabelecimento, o jovem Mohamed. Com carra de sono, ele pediu cinco minutos e disse que me acompanharia. Lavou o rosto e enrolou um cigarro de maconha. Me contou da época que o hotel era frequentado por turistas europeus. Mostrou fotos de caminhonetes que atravessavam o Saara até chegar em Agadez na época que seu pai era vivo. Era um ótimo negocio, dizia (ele nem tinha nascido). Um italiano construiu este hotel. Mas depois da rebelião dos Tuaregues, somente nigerianos se hospedam aqui.

Peguntou se eu queria ir de táxi, mas como fiquei sabendo que era próximo, resolvi ir a pé mesmo. Ele me olhou com uma cara de “então tá”, e logo percebi porque. Sol fortíssimo, poucas sombras, mas foi bom para ir me localizando na cidade. Ele parou para comprar um perfume importado. Muito bom, dizia, oferecendo para eu cheirar. Muito dinheiro em Agadez, uma cidade muito rica. Algumas quadras depois chegamos a uma especie de quartel, onde indicaram o local onde deveríamos ir. Alguns soldados batiam papo numa varanda e pediram para eu esperar. Esperamos, esperamos e o Mohamed cansou. Vamos comer algo, depois voltamos, ele dizia. Eu estava aflito por estar sem meu passaporte e disse que esperaria por ali. Ele saiu voltaria depois para me buscar. Um bom tempo passou, não sei ao certo quanto, pois estava sem relógio. Mas foi tenso, demorado psicologicamente. Os soldados me convidaram para sentar, mas eu fiquei encostado numa pilastra, de onde conseguia ver a rua e me distrair um pouco.

De uma hora para outra chega um carro relativamente rápido, levantando poeira do chão de terra. Todos se levantam e batem continência. Era o oficial da noite anterior. Ele bate nas minhas costas e diz para eu acompanha-lo para uma sala. Um outro soldado vem junto e fecha a porta. Será que cairia numa armadilha? Onde estaria meu passaporte? Já tinha passado por tantos controles e parecia que eu ainda não acreditava que tudo fluiria tão bem. Ele apenas registrou meus dados, anotou onde eu estava hospedado e quantos dias ficaria por ali. Me proibiu de passar do limite norte da cidade. Aqui você está seguro, mas tem muitos problemas por lá. Infelizmente não seria desta vez que eu conheceria as Montanhas Air, que ficam no meio do deserto e tem o tamanho de uma Suíça. Tampouco o famoso Tenere. A maioria das vilas e acampamentos tuaregues também estavam off-limit para estrangeiros, somente com uma autorização especial, transporte, guia e escolta armada, fora do meu orçamento e bom senso.

Fiquei batendo papo, me serviram chá, e o Mohamed apareceu. Sinalizei que tudo estava ok e fomos caminhar pela cidade. A cidade é toda plana, com construções térreas e uma ou outra de dois andares. O minarete da antiga mesquita tem apenas 27 metros mas pode ser visto de longe. Caminhamos pela cidade antiga, mercados e fomos conhecer o interior da mesquita.

Minarete da mesquita se destacando na cidade

Minarete da mesquita se destacando na cidade

Mesquita toda de barro

Mesquita toda de barro

Mesquita de Agadez, cidade patrimônio da Unesco

Mesquita de Agadez, cidade patrimônio da Unesco

Quando o sol estava insuportável paramos num restaurante para comer e bater papo. Pronto para descansar, o Mohamed me convidou para voltar para o hotel. Ele ligava para amigos que iriam fugir do calor no seu quarto com ar condicionado. Beberam cerveja e fumaram, enquanto cantavam ao som de violão e batuques, musicas de “Azawad” (liberdade). Acompanhei um pouco para não fazer desfeita, mas depois parti sozinho para explorar mais a cidade antiga.

Cidade velha da Agadez

Cidade velha da Agadez

Futebol em um final de tarde na cidade velha de Agadez

Futebol em um final de tarde na cidade velha de Agadez

Mercados Agadez

Mercados Agadez

Alguns vendedores insistiam para eu entrar em suas lojas. Belos artesanatos e a famosa “Cruz de Agadez” eram os primeiros itens a serem oferecidos. Um grupo de mulheres entravam cantando em frente ao Palácio do Sultão. Parecia que teria uma grande festa. O Sultão de Agadez é uma figura importante, como que um governo paralelo. Mostra um pouco da importância que a cidade já exerceu (1449 já era um sultanato), quando estava numa das principais rotas de conexão entre a África e a Europa. Rivalizava com Timbuktu, e sua imponência ainda pode ser observada na arquitetura entre as ruas empoeiradas.

Palácio do Sultão de Agadez

Palácio do Sultão de Agadez

Quando o Mohamed não estava com seus amigos ou com prostitutas nigerianas, ele saia para dar umas voltas comigo. Me levou para diversos lugares de moto, sempre sem me cobrar nada (também me deu presentes antes de ir embora). Parecia orgulhoso de mostrar a região, alem de me mostrar para seus amigos. Eu não deixava de ser um troféu, sei lá porque. Fomos no mercado de animais, uma das paradas indispensáveis para quem esta vindo ou voltando para o deserto. Tuaregues negociavam cabras e mantimentos. Cordas e camelos eram vendidos na parte sul do terreno, no meio de muito lixo e poças de água.

Com meu amigo Mohamed

Com meu amigo Mohamed

Mercado de animais de Agades

Mercado de animais de Agadez

Mercado

Mercado

Um jovem dromedário lutava com seus donos para não ser carregado, mas não teve jeito, torceram seu rabo, seguraram sua mandíbula e patas e derrubaram. Nos arredores era fácil de ver dromedários sendo puxados por tuaregues com vestimentas tipicas e espadas. Uma verdadeira viagem no tempo!

Tuaregue

Tuaregue com sua espada

Dromedarios

Dromedários

Tuaregue

Roupa da moda!

Se preparando para o deserto

Se preparando para o deserto

A curta temporada de chuva tinha sido mais forte que o esperado. Tijolos de barro que estavam prontos para serem utilizados pareciam estar derretidos. Nos subúrbios, algumas vezes pude observar caminhonetes lotadas. Eram os traficantes de pessoas que levariam diversos sonhadores para a Líbia, para quem sabe chegar até a Europa. Meus amigos da noite em Niamey provavelmente estavam entre eles. Era final de Julho e e nem sabia que a crise da imigração na Europa estaria para se agravar. A histórica rota comercial transaariana estava mais viva do que nunca, mas agora o comercio mais lucrativo era de pessoas. Enganasse quem pensa que não existem estrangeiros em Agadez. Não tem mochileiros ou turistas, mas existem representantes de todos os povos da África sub-saariana, prontos para encarar uma longa viagem pelo Saara. Não são os amantes de off-road que um dia se deliciavam por estas terras. São pessoas que acham que passar por bandidos, guerrilhas e Al-Qaeda são problemas pequenos da vida quando comparado ao seu dia a dia. Ficar sem comer também não é novidade para ninguém por ali.

Tijolos de barro, "derretidos" pela chuva

Tijolos de barro, “derretidos” pela chuva

Viagens longas são reflexivas e demorou um pouco para digerir tudo que eu havia visto e vivido. A raiva do mundo se transformava em esperança quando eu fui adotado por um grupo de tuaregues que me entupiram de comida e de perguntas durante a longa viagem de volta para Niamey. Foi só eu elogiar (por educação) uma barra gordurosa de queijo de cabra que quase fui obrigado a comer um quilo dela. Pouquíssimos postos de controle na volta, mas nem por isto a viagem foi mais curta. Passando perto da fronteira da Nigéria, eu sabia que meu próximo destino estava por ali. Mas não podia arriscar descer na escuridão num vilarejo onde sabidamente não existiam hotéis. Fui até Niamey, onde dormi novamente da estação de ônibus. Exausto não me enturmei muito,  cobri a cabeça para ter um tempo só para mim. Queria dormir, mas o queijo de cabra fez efeito, justamente na rodoviária! Temia pela sequencia da viagem, mas nada que não fosse controlado.

Meu plano era pouco antes do amanhecer pegar um táxi coletivo até a estação dos microonibus que vão para o sul. Acabei descobrindo que poderia pegar um o ônibus de longa distancia que passaria por Kouré, caso estivesse sobrando lugar. Dei sorte e embarquei, ainda de madrugada, no único lugar disponível!

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O motorista teve que me acordar para eu descer na beira da estrada. Nenhum sinal de vilarejo, apenas duas barracas de madeira onde vendem comida, e um posto de contole da polícia. Tomei um café e fui tentando entender o lugar. Kouré é o nome da região, tem um ou outro vilarejo ali perto e sua fama vem das girafas que vivem soltas por ali. Alguns dos ultimos rebanhos de girafas selvagens do Oeste da Africa. O sol ainda não havia nascido e eu já tinha encontrado algumas pessoas que poderiam me ajudar. Paguei uma pequena taxa num centro de informações e fui procurar os bichinhos. Você pode ir de carro, de moto ou a pé, depende um pouco da sorte para encontrar. Mas a primeira família não estava longe, e pude ficar o tempo que quis caminhando entre elas. No inicio você se empolga, quer filmar, tirar fotos, mas a parte mais legal é quando você relaxa, apenas curte. Caminhar atrás delas e se surpreende quando são elas que te seguem!! Ficar no meio das girafas até enjoar é uma atividade privilegiada. Olhar elas se alimentando, cuidando uma da outra e até galopando com estilo deixa qualquer um satisfeito.

Girafas de Kouré

Girafas de Kouré. Eram 50 na década de 80, mas já chegam a 170 hoje.

Girafa

Girafa

Filhote

Filhote

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Dei uma olhada nas vilas da região e fui tentar pegar carona para a fronteira com o Benim. Carona na África normalmente significa pagar por um lugar em um transporte. Todos os carros que passavam estava completamente lotados. A fronteira do Benim e Nigéria não estavam tão longe, e quem ia para lá tentava dividir os custos ou ganhar um dinheiro extra. O jeito foi ter paciência e quebrar a viagem em entapas. Primeiro um transporte até Dosso, relativamente próximo dali . Até que não foi tão ruim, tendo em vista que a pequena cidade já foi de importância histórica (grande reinado) e possui um Chefe Tradicional com seu próprio palácio (Djermakoye).

Cicatrizes, a identidade da cada povo

Cicatrizes, a identidade da cada povo

Dali para frente foi numa van lotada, com mulheres com roupas coloridas e cicatrizes no rosto. Homens com seus chapéus tradicionais, carregando galinhas em sacolas e bodes amarrados no bagageiro. Paisagens bucólicas deixavam para trás este país que foi a grande surpresa desta viagem pelo Oeste da Africa. Uma moto por mais alguns quilômetros até a fronteira com o Benim, e o que não foi surpresa foi o tratamento da imigração na saída do Niger. O senhor com cara sofrida me perguntou onde eu gostaria que ele carimbasse no passaporte. Apontei com o dedo um espaço livre para não usar uma pagina nova. Agradeci a hospitalidade, contei como havia me surpreendido com o país. Ganhei um sorriso, um abraço e segui viagem.

Burkina Faso – Terra de Homens Honrados

No final do seculo 19 os franceses conquistaram a região onde estava o império Mossi. Chamaram de Alto Volta, uma referencia à parte superior ao Rio Volta (nomeado Volta pelos portugueses que utilizavam o rio para voltar das suas incursões ao interior). Sob administração francesa, o território do Alto Volta foi dividido e anexado diversas vezes com outras colonias da Africa Ocidental Francesa. A administração sempre foi comandada em seus vizinhos, seja Costa do Marfim, Sudão Frances (Mali) ou Niger. Após a segunda guerra, os milhares de africanos que ajudaram os europeus a derrotar o nazismo (muitas vezes na linha de frente), almejavam a prometida independência. Ela só aconteceu na década de 60. Infelizmente o sonho de liberdade não melhorou a situação do país, que adquiria dividas, estava mergulhado na pobreza e governantes tiranos se revezavam entre um golpe de estado e outro.

A história parecia mudar quando surgiu um jovem revolucionário, Thomas Sankara. Um dos maiores lideres africanos que já existiu. Um grande idealista, que iniciou uma serie de reformas e também mudou o nome colonial de Alto Volta para “Burkina Faso”, que significa significa “Terra de Homens honrados” nas línguas Mole e Dioula. As poucas famílias privilegiadas e até mesmo a França, que lucrava com o sistema instaurado desde a colônia não gostaram das novas ideias e das mudanças. Sankara foi assassinado em outubro de 1987. Ele costumava dizer que “Se pode matar um revolucionário, mas não se pode matar ideias”. Vinte e sete anos depois da sua morte, uma onda de protestos tomou Burkina Faso, e derrubou o Ditador Compaoré, que estava no poder desde o assassinato de Sankara. Muitos analistas acharam que poderia surgir uma “Primavera africana”, pois muitos jovens saíram às ruas para protestar contra ditadores e tiranos. Em muitos países foram reprimidos brutalmente, mas em Burkina Faso, com cartazes de “Estou aqui”(Referencia ao Thomas Sankara) conseguiram uma nova eleição, programada para Outubro de 2015. Com a instabilidade politica, os turistas (que normalmente não são poucos) acharam melhor esperar o resultado das eleições, e eu pude desfrutar este belo país só para mim.

Na pequena e empoeirada fronteira de Hamale, fui recepcionado por oficiais da imigração muito simpáticos, “Bon arrive! Ça va bien?”, frases que escutei em todos os controles de passaporte junto com “Benvindo à Burkina Faso”. Eu estava entrando nos países francofônicos da minha viagem, e a comunicação passava a ser um pouco mais lenta agora. Apareceu um cara oferecendo para fazer cambio. Nos meus cálculos rápidos a taxa oferecida era próxima da metade da oficial. Fui enrolando, conversando e olhando se encontrava outro lugar, mas não pareciam ter muitas opções para trocar dinheiro. Fui fazendo amizade, criando laços. Não tinha muitos Cedi (Moeda de Ghana) para trocar, mas fiz minha proposta. Dava um deságio de uns 8% da taxa oficial. Falei que sabia que ele precisava ganhar algum dinheiro, mas que eu não poderia ser explorado… Ele aceitou e me ajudou a encontrar transporte para seguir viagem. Novamente não tinham varias opções, somente um furgão que carregava mercadorias. Não aceitei de cara, sondei o preço com outros dos passageiros antes de comprar meu bilhete. O motorista dizia que só ia terminar de carregar e já sairia, mas eu sabia que não seria bem assim, por outro lado não tinha outra alternativa. Aguardamos por mais de uma hora. Ainda não era nem a metade da manhã, mas os transportes saem cedo por ali. Desta fronteira eu tinha duas opções, seguir para Ouagadougou (a capital) ou Bobo-Dioulasso (segunda maior cidade). Fui para Bobo, primeiro numa pequena estrada (com alguns controles de passaporte) e depois pela principal estrada do país, uma pista simples, sem acostamento, que corta Burkina Faso de leste a oeste.

Aguardando o transporte

Aguardando mais passageiros

Bobo-Dioulasso, chamada carinhosamente de Bobo, é uma cidade histórica, muito agradável e com algumas atrações bem interessantes. Fui chegando meio sem planos, e da parada do furgão pedi para o mototáxi me deixar na mesquita antiga, bem no centro da cidade. Com a cidade velha ao lado, e a mesquita a frente, esqueci das longas horas de viagem e fui correndo achar um hotel próximo. Não precisei caminhar duas quadras para achar um hotel simples, num preço razoável. A moeda em Burkina Faso é o CFA (Comunidade Financeira da Africa), aceita em nove países. É uma moeda “Forte” pois seu cambio flutua com o Euro (inclusive a França garante o CFA), mas o cambio é de 656 CFA para 1 Eur. Quando se busca qualidade, vai pagar o mesmo ou mais caro que na Europa, mas se viver como locais, pode conseguir verdadeiras pechinchas, principalmente quanto à alimentação.

Mesquita Velha

Mesquita Velha

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Perambulando pela parte histórica da cidade, fui cercado por guias oferecendo seus serviços. Com a queda do turismo, muitos ficaram ociosos. Para entender melhor, solicitei se alguém falava inglês. Com uma rápida ligação, chegou um nigeriano que me acompanhou pelos pontos de maior interesse. A cidade antiga, as tradições, história e todo o dia a dia naquelas casas de barro me encantaram. A Mesquita velha, com arquitetura sudanesa- parece um porco espinho- vai mudando de acordo com a intensidade da luz. Entrei, bati papo com o pessoal, subi no terraço, fiquei amigo do guardador de sapatos e até dei um livro meu de presente para ele. O grande mercado, assim como a estação ferroviária, apesar de construções novas, também tem arquitetura sudanesa, o que da um charme para a cidade. Uma cidade acolhedora, até mesmo os guias (que são chatos) batem papo depois de saber que você já contratou um guia para conhecer a parte histórica- e portanto não vai contrata-los. A boa localização do hotel foi essencial para explorar a cidade, perambular sem destino, de dia e de noite, sempre me sentindo muito seguro.

Cervejaria artezanal

Cervejaria artezanal

Casa mais antiga

Casa mais antiga, seculo XI

Ruas da cidade velha

Ruas da cidade velha

Portão do mercado central

Portão do mercado central

Me deliciei ao ver taturanas serem fritas no óleo. Filas de pessoas se formavam para garantir a sua porção. Eu pedi um sanduíche, mas depois de aprovado, solicitei uma porção extra para ficar petiscando enquanto via a vida passar.

O restaurante

O restaurante

O prato

O prato

Matando a fome!

Matando a fome!

Alem das vans superlotadas e dos furgões, existem ônibus de linha entre as principais cidades. Custam um pouco mais caro (ainda assim baratos), mas saem em horários marcados e são bem confortáveis. Fui de ônibus até Banfora, já perto da fronteira de Costa do Marfim e Mali. Um ótimo lugar para passar uns dias, cheio de atividades nos arredores. Tem tudo para ser um ponto de encontro de mochileiros que viajam pela região. Alias, encontrei um casal franco-mexicano viajando com sua filha de 3 anos, o que pode dar esperanças a todos os pais que gostaram da descrição de Burkina-Faso. Da para viajar com filho pequeno para lá sim!

O hotel que eu peguei era um pouco decadente e de higiene duvidosa, não foi das melhores escolhas. Fiquei um pouco irritado com a hospedagem pela primeira vez. Por sorte o quarto era somente para dormir, devido a tantas atividades na natureza. Você pode alugar uma scooter para explorar a região. Como quase todas estavam caindo aos pedaços, e eu estava sozinho, resolvi pagar o equivalente 2 euros a mais para alguém me acompanhar em cada passeio. Alem da segurança caso a moto quebrasse no meio do nada ( alguns lugares fica a 50 km de distancia) eu teria alguém para conversar.

Toda a paisagem rural da região é incrível, com suas casas tradicionais por todos os lados. Uma das poucas partes verdes de Burkina Faso, já que ao norte está o Sahel, sertão que beira o Saara.

Uma das poucas regiões verdes do país

Uma das poucas regiões verdes do país

Casas Tradicionais

Casas Tradicionais

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Meu primeiro destino foram os Les Pics de Sindou, formações rochosas com mais de 50 metros de altura e 3 km de comprimento, esculpidas pela erosão. Caminhar no meio dos paredões e depois escalar para curtir a vista foi incrível! Nestas alturas meu guia já tinha virado meu grande amigo e não queria nem cobrar para os outros passeios que eu queria fazer.

Pics de Sindou

Les Pics de Sindou

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Perto da bela vila de Tengréla, tem o lago de Tengréla, gostoso para relaxar e ver uns hipopótamos. Mas não se pode entrar na água, pois alem dos hipopótamos, dizem ter esquistosomose. Para se refrescar, o bom mesmo é ir na Chutes de Karfiguela. Novas vilas e curta caminhada até as pequenas quedas de água. Mesmo estando no inicio da temporada de chuvas, o volume de água estava muito baixo. Se não estavam tão bonitas devido a falta de água, estavam muito relaxantes!! Não muito longe das quedas d’água, atravessando grandes plantações de cana de açúcar, estão os Domes de Febedougou. Outras formações rochosas que se destacam no horizonte plano de Burkina Faso. Se em Sindou o melhor é andar entre as rochas, em Febedougou o mais legal é caminhar no topo curtindo o visual das arvores no meio das rochas. Fenomenal!

Domes de Febedougou!

Domes de Febedougou!

Caminhada no final da tarde

Caminhada no final da tarde

Cachoeira de Karfiguela

Cachoeira de Karfiguela

Banfora em si não é tão legal. Por estar próxima da fronteira é uma cidade de passagem, apesar de pequena, movimentada, com mercados improvisados. Vende-se de tudo, cabos velhos de computador, calculadoras estragadas, lampadas e roupas usadas. Ao contrario de Ghana, a mendigancia é comum em Burkina Faso, e crianças passeiam com pequenas latas para ganhar alguns trocados. Um restaurante chamado Mac Donalds é um dos melhores da cidade. Não é dos mais baratos, mas muito melhor que os da cadeia americana.

Mc Burkina

Mc Donald Burkina

De Banfora eu tinha que ir para o país Gorunsi, no sul de Burkina Faso, ao longo da principal fronteira com Ghana. Parecia que eu simplesmente poderia trafegar por estradas secundarias rumo ao leste, mas não existia transporte publico para lá. Mesmo com transporte próprio poderia levar dias, devido as condições das estradas. Não tive outra alternativa a não ser pegar a principal estrada do país (construída pelos americanos) e passar novamente por Bobo, seguir viagem até Ouagadougou onde faria nova conexão, desta vez até Pô.

Quando viajava com microonibus os controles de passaporte eram frequentes, já com ônibus eles nunca aconteceram. Pô é a porta de saída para Ghana, uma cidade importante na história recente de Burkina Faso, já que a revolução do país iniciou ali, assim como o golpe de estado que matou Thomas Sankara. De noite eu não me prorroguei muito no churrasquinho de bode e na cerveja para acordar cedo. Eu pretendia pegar o transporte publico até Tiébélé, que fica uns 30 e poucos quilômetros dali. Como sempre o transporte sai cedo, então lá estava eu preparado antes do sol nascer. Achei uma van que diziam que iria para lá, mas não tinha nenhum outro passageiro. Tentei pegar carona, mas o pessoal ia somente até as vilas nos arredores de Pô. Tomando um café e conversando com um mecânico que arrumava seu caminhão ao lado da barraquinha onde eu estava, ele ficou sabendo dos meus planos e conseguiu uma moto para me levar lá. Menos da metade do preço que me ofereceram na noite anterior. Aceitei e seguimos por paisagens rurais muito bonitas, arvores baobás cheias de folhas, muitas delas alinhadas ao longo da estrada.

Baobas ao longo da estrada

Baobas ao longo da estrada

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Em muitas vilas pude observar reuniões que agrupavam um grande numero de pessoas. Fiquei sabendo que estavam discutindo sobre as eleições que aconteciam dentro de alguns meses. Paisagem rural, mulheres com seus potes na cabeça, carroças e pessoas carpindo. O trajeto acabou demorando mais que eu imaginava, devido a condição da estrada, mas foi muito agradável. Chegando em Tiébélé fui direto na casa do Chefe do povo Gorunsi. Parece um condomínio, um aglomerado de casas de barro interligadas e com um muro ao redor. A arquitetura das casas é bem diferente das casas tradicionais que eu tinha visto em outras regiões de Burkina Faso, mas o que chamava mais a atenção eram as pinturas. Todo o muro era pintado, assim como as casas. Todas as pinturas tem um significado, contam lendas e costumes, alem de expressar a arte do povo. Neste aglomerado de casas moram mais de 130 pessoas, alem de diversos animais. Eles estavam trabalhando nas plantações, portanto o lugar estava calmo. Incrível aprender sobre o povo, e a funcionalidade das casas. Pude aprender um pouco sobre como funciona a segurança do lugar alem de algumas crenças e lendas. Belas pinturas e casas de barro precisam ser reconstruídas depois de algumas temporadas de chuvas. Claro que da trabalho, mas isto não deixa a técnica e a tradição morrer. No caminho procurava parar em pequenas vilas só para sentir como que eram. Podia ser para pedir informação ou para comer bolinhos fritos, uma espécie de sonho sem recheio.Sempre fui muito bem recepcionado.

Casa do chefe Gorunsi

Casa do chefe Gorunsi

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Já de volta a Pô, caminhando aleatoriamente eu encontrei uma igreja que estava lotada por ser domingo. Na saída todo aquele colorido e uma feira se formou de forma espontânea. Perdi um bom tempo alí só observando as pessoas, experimentando comidas e frutas até o horário do meu ônibus de volta para Ouaga (Todos chamam a capital,Ouagadougou, assim).

Mercado Pô

Mercado Pô

Saíporaí!

Saíporaí!

É uma viagem relativamente curta, poucas horas de viagem por uma estrada ok. Uma cidade toda espalhada, plana, com pouquíssimas construções com mais de 2 andares. Se é difícil imaginar que ali foi a capital do Império Mossi, mais incrível é que até hoje reis Mossi (uma das etnias do mosaico que é Burkina Faso) ainda tem autoridade e respeito de muitos. A cidade é uma grande vila, bem diferente de outras metrópoles africanas que conheci. Não encontrei jovens americanizados, de boné e camisetas de cantores de rap, tão comuns em cidades grandes do Leste da África. São poucas atrações, talvez a Catedral, toda feita de barro, a Mesquita principal e o discreto tumulo de Sankara. Sempre vale a pena passar pelo mercado central, movimentadíssimo. Até mesmo fora do Palácio Mogho Naba não se pode tirar fotos. Curti a cidade, fiz caminhadas, aproveitei os cafés e confeitarias (uma boa herança francesa) mas minha passagem por Ouaga tinha um propósito: Tirar o visto Entente. Este visto da direito a entrada em diversos países do Oeste da África e era imprescindível para eu seguir viagem. Chegando no escritório da imigração, para desespero meu escutei um “Não é possível”. Me desesperei internamente mas não perdi a postura. Tentei entender oque estava acontecendo. Seria a tentativa de corrupção? Tinha verificado as informações sobre os vistos com outros viajantes pela internet e parecia ok, se bem que não eram informações tão atuais. Para resumir a história, para me concederem um visto entente tive que tirar um novo visto de Burkina Faso, desta vez com múltiplas entradas e com 3 meses de validade. Um gasto que não estava previsto, uns 90 USD, de qualquer forma ainda mais barato ( e mais rápido) que se eu fosse tirar os 3 vistos que faltavam para completar a minha viagem (Mesmo com os 25000CFA do Entente).

A cultura dos cafés franceses pode se observada nas confeitarias espalhadas pela cidade

A cultura dos cafés franceses pode se observada nas confeitarias espalhadas pela cidade

O visto demoraria 3 dias para ficar pronto. Pedi um documento oficial, carimbado, comprovando que meu passaporte estava lá, e segui para o norte do país, Shahel a dentro. Sahel em árabe significa “Bordadura”, “Limite”, que nada mais é que o entorno do Deserto do Saara. Alias, para quem não sabe, Sahara em Arabe significa deserto.

Toda esta região do norte de Burkina Faso é muito interessante. Durante décadas cidades como Gorom-Gorom estiveram na rota turística dos viajantes do país. Hoje devido a problemas no Mali, pouco mais ao norte, a região não é recomendada pelos governos ocidentais. Para minha sorte, a pequena cidade de Bani, pouco antes de Dori, ainda esta em área segura. Quando eu programava a viagem pelo Oeste da África, o Eder do blog Quatro Cantos do Mundo se animou em viajar junto comigo (infelizmente acabou cancelando). Ele me deu a dica deste local que até então eu não tinha lido. Uma pequena vila, com casas de barro, carroças puxadas por burricos e mulheres com tecido colorido. Se só isto já tornaria o lugar interessante, ainda tem sete mesquitas que junto com a montanha, formam um homem rezando. As etnias mudam rapidamente quando se viaja pelo país, mas grande parte deles falam francês ou Jula, uma linha comercial que se desenvolveu nesta parte do Oeste da Africa.

Apesar de não ser tão longe, não foi tão simples assim chegar em Bani. Poucos ônibus, uma estrada lenta e tivemos alguns problemas. Dois pneus estouraram e passamos por uma tempestade na qual o motorista não conseguia enxergar nada. Primeiro tempestade de areia e depois muita água.

Imprevistos sempre acontecem!

Imprevistos sempre acontecem!

Apesar de estar viajando durante a temporada de chuva, foi o único dia que choveu durante o dia. Tiveram outros poucos dias em Ouaga que dava uma pancada no final de tarde, mas coisa rápida. Em Bani é possível alugar pequenas casas tradicionais, super simples, mas por bons preços, cerca de 3 Eur.

"Hotel" em Bani

“Hotel” em Bani

É um lugar muito especial. Pelas ruelas passam pastores com suas cabras, mulheres separam grãos utilizando o vento, e crianças brincam com rodas de bicicleta ou jogando bola. Em cima da colina as antigas mesquitas, muitas delas em péssimo estado de conservação. Mais embaixo a grande Mesquita, onde ocorrem as orações de sexta-feira. Imponente, toda de barro, com um grande minarete e arquitetura tipica. Fachada toda decorada, um espetáculo! Dentro os tapetes são feitos de peles de animais.

Mesquita toda de barro

Mesquita toda de barro

Fachada da mesquita principal

Fachada da mesquita principal

Mulher separando os grãos

Mulher separando os grãos

Ruas de Bani

Ruas de Bani

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Uma pena que as crianças em geral ficam pedindo presentes, resultado de turistas irresponsáveis que querem muito mais aliviar a sua consciência do que realmente ajudar.

Para voltar para Ouaga basta sinalizar um dos ônibus na beira da estrada. Os de longa distancia, que vem do Mali, normalmente estão lotados, mas não foi tão demorado para um parar.

Em Ouaga, depois de pegar o Visto Entente, deu para dar mais uma circulada. Fui conhecer a parte “Moderna”da cidade, resultado do projeto Zaca. Ainda na década de 80 iniciaram a construção de prédios comerciais de 3 andares na Avenida Kwame Nkrumah, onde seria o centro comercial. Bancos, hotéis e lojas ficariam ali, para dar uma boa impressão a quem chegasse do aeroporto, que fica logo ao lado. Pouco foi concluído. É diferente do restante da cidade, que basicamente tem um ou dois andares, mas não apresenta nada de mais.

Região comercial de Ouaga

Região comercial de Ouaga, parte rica da cidade

Ruas esburacadas e cidade espalhada

Ruas esburacadas e cidade espalhada

 

As fortes chuvas do final de tarde alagavam as ruas esburacadas, mas no dia seguinte já estava tudo seco. Meu hotel tinha um jardim no patio interno, onde seria agradável descansar se não fosse a quantidade de mosquitos e o alto preço das comidas e cerveja. Era um hotel econômico, um bom preço para uma capital (12 Eur para duas pessoas), mas se eu andasse uma quadra conseguia uma refeição por oito vezes o valor do hotel! Tirando a refeição que fiz no Mc Donalds de Banfora, acho que não gastei mais que 2 Eur em nenhuma refeição em Burkina Faso ( Normalmente 1 ou 1,5 mas cheguei a pagar 0,5 Eur num prato de comida). E não eram refeições ruins não. Senhoras com seus panelões servindo comida fresca em barraquinhas improvisadas. Peixe, frango e bode eram oferecidos com diversos acompanhamentos. Outra coisa barata é a água. Água mineral em garrafa é cara, mas eles vendem saquinhos lacrados de 500 ml que custa menos de 4 centavos de Euro! Com a vantagem de sempre estar gelada (ou perto disto). A desvantagem é a questão ecológica, já que provavelmente os saquinhos vão acabar parando no meio da rua. De sobremesa sempre comprava deliciosas mangas (grandes e doces!), que custavam 100 CFA (0,15 EUR). O pessoal adorava ver eu me misturando com eles nas horas das refeições, e sempre era um bom motivo para puxarem papo.

Adorei o país, e foi com tristeza que peguei um ônibus ainda de madrugada, que iria para Fada-Ngourma e de lá seguiria para a fronteira com o Niger. A estrada foi piorando cada vez mais. Eram poucos veículos, mas sempre superlotados. Dezenas de pessoas nas caçambas de caminhão, alem de motos , caixas e animais que pareciam ser difícil de se equilibrarem nas pilhas no topo dos furgões.

Controle de passaporte na saída de Burkina Faso, e as vilas que já estavam escassas desapareceram completamente. Era a terra de ninguém, por onde viajaríamos por vários quilômetros até a entrada de um novo país, Níger!

A Costa do Ouro e o Império Ashanti.

Ghana foi uma das primeiras colonias africanas a conquistar independência, em 1957. A Costa do Ouro se juntou com o antigo Império Ashanti e outros dois protetorados para formar o novo país. Historicamente não faz muito sentido, são povos e línguas completamente diferentes, mas como país “moderno” até que funcionou. Os primeiros europeus que chegaram na Costa do Ouro foram os portugueses, seguidos por dinamarqueses, holandeses e britânicos. As influencias de todos eles são fáceis de observar na arquitetura e no nome dos diversos fortes espalhados pela costa, de onde levavam escravos, marfim, pimenta e ouro, é claro.

Os guias de viagem apresentam o país como “Africa para iniciantes”, uma descrição bem precisa. É um país muito fácil de viajar, relativamente barato, riquíssimo culturalmente, seguro, e onde o inglês é língua oficial. Não por acaso muitos jovens ocidentais escolhem a região ara fazer trabalhos voluntários.

Eu cheguei na capital do país, Acra, depois de uma longa viagem via Joanesburgo (bom preço pela SAA). Era domingo, e tive uma impressão um pouco distorcida da cidade. Perto do aeroporto diversos casarões das embaixadas, avenidas largas e sem transito, com pouquíssimas pessoas na rua. Uma tranquilidade. Como voltaria para Acra, fui direto para um hotel que fica num subúrbio, perto dos transportes para a costa oeste do país. Ao lado anel viário que contorna a cidade uma grande favela, com casebres de madeira e telhado de metal. Apesar do tamanho do bairro, tudo também estava calmo. Fui descobrir que era uma favela com maioria dos povos do norte de Ghana, que são Muçulmanos (no sul são Amenistas e Cristãos). Estava bem no meio do feriado do final do Ramadã, Eid All-Fitr e todos deveriam estar em suas casas.

Cheguei no hostel, e claro que o preço era melhor do que se tivesse reservado antes. São poucos lugares no mundo que vale a pena reservar pela internet. Foi o melhor hotel de toda a viagem, o único com água quente e café da manhã e um dos poucos com wi-fi. A maior parte dos outros hotéis que fiquei não tem nem endereço na internet, porem são mais baratos.

Claro que a capital de um país populoso como Ghana não poderia ser tão tranquila. Depois de viajar pelo Oeste da Africa voltei para Acra para pegar o voo de volta para o Brasil, e encontrei uma cidade toda colorida, pulsante, cheia pessoas nas ruas.

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Mas no subúrbio onde eu estava não deu para perceber isto. Saí cedo, mas mesmo nos grandes pátios de transporte, apesar de movimentados, não estavam cheios. Devia ser por causa do feriado. O ônibus que queria não passou, então eu decidi pegar um “Tro-Tro”(lotação) até uma outra região de onde saem os Tro-Tros para as diversas cidades da costa.

Vendedor de marmitas em um Tro-Tro

Vendedor de marmitas em um Tro-Tro

Foi uma “climatização”. Eu era um dos primeiros passageiros, e eles só saem quando lotam. Numa viagem terrestre pela África não se pode ter pressa, tem que deixar as coisas acontecerem. Um alto-falante ficava repetindo o destino da van, e o cobrador insistia para as pessoas entrarem, mesmo que quisessem ir para outro destino. Dezenas de vendedores ambulantes, vendendo de tudo. Mas nada insistentes, não estavam vendendo nada para turistas. Vendiam roupa, marmita, água, escova de dente, perfume, qualquer coisa que alguém pudesse querer comprar. E o comercio informal funcionava, pois todos pediam para ver, avaliavam o produto, as vezes compravam. Um vendedor de espelhos fez sucesso no Tro-Tro que eu estava e vendeu diversas unidades. Todos os produtos são carregados na cabeça, independente da quantidade e tamanho.

Fiquei conversando com o pessoal, aprendendo sobre o lugar, cultura e observando atento o dia a dia dali. Quando esbocei um cansaço o lotação saiu.

Diversas obras de viadutos e estradas apontavam placas da construtura Queiroz Galvão, e na saída de Acra, uma placa de amizade de Ghana e Brasil, comemorando a parceria entre os dois países.

Uma estrada simples mas sem muito movimento leva até Cape Coast, antiga capital da Costa do Ouro e importante atração turística. Lá se encontram o imponente castelo Cape Coast e Elmina. Elmina vem de El Mina, antigo forte português São João da Mina. Existem dezenas de fortes e castelos espalhados por toda a costa de Ghana, muitos deles patrimônio da Unesco. Estes são dois dos mais famosos, mas outros são mais recompensadores. Como eu não sou muito destes lugares preparados para o turista, segui para Takoradi, onde peguei outro tro-tro para Agona Junction e um táxi coletivo por estrada de terra até a vila de pescadores de Dixcove. Uma pequena rua levava até a bela baía em forma de ferradura. Incontáveis barcos de pescas com suas bandeiras tremulando devido ao forte vento davam um clima para o lugar. As pessoas (assim como em toda Ghana) eram muito simpáticas. Difícil passar por alguém que não perguntasse, “Tudo bem”, “Fez boa viagem” ou “Bem vindo”. Não eram invasivos, mas sempre muito educadas. No meio daquela vila de pescadores, fervendo de gente, para cima e para baixo com frutos do mar, não foi difícil avistar o Forte Inglês “Metal Cross”, se destacando na colina esquerda. Parecia fechado mas um rapaz logo se dispôs a abrir e me contar a história do lugar por alguns trocados.

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Aquele forte vazio, quase fantasmagórico trazia a lembrança de todo o trafico de escravos que aconteceu na região, e que seria lembrado em diversos lugares desta viagem.

A calma e abandono do lugar contrastava com a vida e energia da vila de Dixcove. Em uma vila de pescadores nunca é difícil achar algo para comer. Foi rápido para achar um dos meus pratos preferidos, lula. Era numa barraquinha de rua, não tinha acompanhamentos. Perguntei se era seca ao sol, mas era frita. Não pensei duas vezes. Pegava a lula inteira e ia arrancando os pedaços dos tentáculos com os dentes. Uma delicia!!

Vista panoramiza de Akwiida

Vista panoramiza de Dixcove

Barcos de pesca em Akwiida

Barcos de pesca em Dixcove

Prato de Lula

Prato de Lula

Em Dixcove não existem hotéis para ficar, então tinha que escolher entre duas alternativas. O balneário de Busua, que tem diversas pousadas em uma praia maravilhosa, ou a vila de Akwiida, que tem uma ou outra pousada em praias perto. Como a ideia não era descansar, claro que optei por Akwiida e a praia de Ezile Bay logo ao lado.

Outro táxi coletivo (tem que voltar para Agona Junction) para mais uns 20 km de estrada esburacada que passa no meio de seringais utilizados para a extração de borracha, e cheguei em Akwiida. Rapida caminhada por uma região rural até Ezile Bay.

Ezile Bay é uma praia particular, com diversos chales simples na beira da do mar. Um pequeno restaurante e uma super vista. O tempo não estava ajudando muito e eu era o único hospede do lugar. Preço bom, em torno de 5 USD para um quarto coletivo, mas que fiquei sozinho.

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A dona da pousada mora na Europa, mas os três funcionários estão sempre atentos para qualquer hospede que apareça. Um vai e vem de pessoas não deixa o lugar ficar parado, afinal a vila é ali ao lado. Dividi meu tempo entre conversas com os funcionários, tomando banho de mar, brincando com as crianças, fazendo caminhadas e explorando a parte velha de Akwiida.

Ponte movimentada

Ponte movimentada

Ponte na parte velha da vila

Ponte na parte velha da vila

Akwiida

Akwiida

Uma pequena vila mas com um dia a dia muito ativo. Quem vive de pesca tem que estar trabalhando duro todo o dia para garantir o seu sustento. Este seria um ótimo lugar para terminar a viagem e descansar um pouco, mas devido a logística e aos vistos, tinha que começar por aqui.

Quando chegou o dia de partir, comi bem numa pequena feirinha antes de encaram um dos primeiros Tro-tro da manhã. Tinha uma longa estrada pela frente. Akwiida-Angora Junktion-Takoradi. Em Takoradi me recomendaram não pegar um Tro-Tro e sim um Ford, pois iria mais rapido. Eu achein que o tal “Ford”seria uma carro e não uma van. Na verdade muda só a marca do veiculo.

A medida que ia avançando em direção ao norte do país, o clima se tornava mais tropical. Regiões de florestas começaram a aparecer e caminhões carregando grandes toras faziam parte do senário. Nosso motorista era hábil em pagar propina,  assim que a policia parava o “Ford” ele discretamente deixava uns trocados com o oficial e era liberado após um rápido aperto de mão.

A chegada em Kumasi, a segunda maior cidade do país, foi cansativa. Quilômetros de congestionamento, filas que não paravam. Vontade de descer e seguir a pé, mas eu tinha que chegar no centro pois nem sabia onde iria me hospedar. Não foi difícil de achar um lugar bom e barato, alem de bem localizado. Incrível como me senti em casa rapidamente em Ghana. Sai para explorar o gigantesco mercado central, andei para cima e para baixo, inclusive a noite, sempre me sentindo bastante seguro. Comi muito “Comi” e “Fufu”, uma espécie de polenta pegajosa que comem junto com molho de peixe. É o mesmo que o “Ugali” tão comum no Leste da Africa.

Kumasi é a antiga capital do Império Ashanti, que dominou toda a região central de Ghana. Era um dos grandes fornecedores de escravos para os europeus e tiveram diversas batalhas até serem conquistados pelos ingleses.

Arredores do mercado central

Arredores do mercado central

Até hoje o rei Asante, “Asantehene” tem bastante influencia e um poder politico paralelo. Ele é bastante admirado pelo povo Akan que abita a região. É possível visitar seu palácio, o Manhyia Palace, onde tem um museu para conhecer um pouco mais da história do reinado.

Kumasi também é a cidade natal do Ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Descobri que por ali dão os nomes de acordo com o dia que a criança nasceu. Todos os meninos que nasceram em uma sexta-feira são chamados de “Kofi”! Se fosse no sábado seria “Kwame”.

Além da costa, algumas das regiões mais procuradas pelos turistas em Ghana ficam nos arredores de Kumasi, além do grande lago artificial Volta. Existem bons parques nacionais como o Mole, mais meu próximo destino era o extremo noroeste do país, já bem perto da divisa com a Costa do Marfim e Burkina Faso.

Só consegui um ônibus convencional, que saia “perto das 4 da manhã”, quando lotasse. Fui cedo para garantir o meu lugar. Não estava muito feliz por não ter encontrado nenhum ônibus um pouco melhor, mas logo me convenci de que era a melhor forma de viajar. Não pelo conforto, mas pela experiencia que tive. As pessoas que pegavam o ônibus, eram muito simples e tradicionais, todas com cicatrizes no rosto. As cicatrizes funcionam como uma especie de identidade para os povos de diversas regiões. Já tinha observado isto em um ou outro lugar em viagens que fiz no passado, mas nunca em tanta intensidade. Algumas tinham um risco longo que vinha desde o final do olho até perto da boca, outras três ou quatro riscos como se fossem um bigode de gato, outras uma pequena marca na bochecha. Era como se fosse uma exposição da vida real. Daria para fazer um ensaio fotográfico para um livro tamanha a variedade. Cheguei a pedir para tirar uma foto de um senhor que eu conversava em uma das paradas. Ele negou gentilmente, e logo se afastou, mudou a forma de conversar comigo. Não adianta, a maquina fotográfica atrapalha muito em viagens deste tipo. Tem que curtir o momento, gravar na memoria, caso contrario vai perder completamente o clima.

Ônibus convencional. As pessoas fogem das fotografias.

Ônibus convencional. As pessoas fogem das fotografias.

Muitas horas de viagem e a paisagem começou a mudar novamente. De floresta passou a ficar mais árido, tipo um sertão. Eu parecia uma criança quando avistei a primeira mesquita com arquitetura sudanesa, tão comum nesta região.

Cheguei em Wa e estranhei que o povo não era tão simpático e atencioso como no restante do país. Consegui encontrar um lugar para ficar, mas as pessoas não sorriam tanto. Tinha aquele clima de cidade de fronteira, meio terra de ninguém. Explorei a pequena cidade, a antiga mesquita que já está caindo aos pedaços no meio de casebres, mas o ponto alto foi o Palácio do Wana, chefe do povo Wala. Consegui conversar com o filho do Wana, mas ele disse que seu pai estava muito ocupado, que precisaria marcar uma audiência com bastante tempo de antecedência para ser atendido. Fiquei curtindo o palácio, todo feito de barro com uma arquitetura tipica. Brinquei com crianças e quando estava jantando um jovem com uniforme escolar se aproximou pedindo dinheiro. Foi a primeira pessoa que me pediu dinheiro em toda Ghana. Ele falou que era para comer, mas o cheiro de álcool era fortíssimo no seu halito. Eu tinha tempo e resolvi incomodar. Eu dizia: “Se vc quiser sentar e comer eu pago, mas para bebida não. E continuei: “Conheço pessoas que perderam tudo que tinham por causa da bebida…blá bla blá”. Ele me olhou assustado e mudou de assunto rapidamente: “O que é tecnologia para você?” Eu mereço, isto que dá ficar conversando com bêbado!

Palácio Wana

Palácio Wana

Antiga mesquita de Wa

Antiga mesquita de Wa

Je suis Ghana!

Apesar de já estar “próximo” da fronteira, isto não mudou o fato de eu ter que madrugar para pegar um Tro-tro antes do sol nascer. As estradas são péssimas neste cantinho abandonado do país, e os carros quebram. O nosso quebrou, arrumaram, quebrou novamente, transferiram para outro. Muitas pessoas iam para a mesma fronteira. Depois de tantos acontecimentos e viagem intensa você acaba ficando amigo de todo mundo. Estranhei que ninguém ia na direção da imigração quando chegamos na pequena Hamale. Ficamos por aqui diziam. Eu sabia que atravessariam a fronteira, mas muitos fariam de forma ilegal.

Caminhei até a imigração onde novos oficiais estavam sendo treinados. Oficiais mais experientes ajudavam no procedimento. Olhando o visto de múltiplas entradas o rapaz que me atendeu disse: “Volte logo, você é sempre bem vindo!” E assim caminhei pela estreita faixa de terra de ninguém até a imigração de Burkina Faso.