Burkina Faso – Terra de Homens Honrados

No final do seculo 19 os franceses conquistaram a região onde estava o império Mossi. Chamaram de Alto Volta, uma referencia à parte superior ao Rio Volta (nomeado Volta pelos portugueses que utilizavam o rio para voltar das suas incursões ao interior). Sob administração francesa, o território do Alto Volta foi dividido e anexado diversas vezes com outras colonias da Africa Ocidental Francesa. A administração sempre foi comandada em seus vizinhos, seja Costa do Marfim, Sudão Frances (Mali) ou Niger. Após a segunda guerra, os milhares de africanos que ajudaram os europeus a derrotar o nazismo (muitas vezes na linha de frente), almejavam a prometida independência. Ela só aconteceu na década de 60. Infelizmente o sonho de liberdade não melhorou a situação do país, que adquiria dividas, estava mergulhado na pobreza e governantes tiranos se revezavam entre um golpe de estado e outro.

A história parecia mudar quando surgiu um jovem revolucionário, Thomas Sankara. Um dos maiores lideres africanos que já existiu. Um grande idealista, que iniciou uma serie de reformas e também mudou o nome colonial de Alto Volta para “Burkina Faso”, que significa significa “Terra de Homens honrados” nas línguas Mole e Dioula. As poucas famílias privilegiadas e até mesmo a França, que lucrava com o sistema instaurado desde a colônia não gostaram das novas ideias e das mudanças. Sankara foi assassinado em outubro de 1987. Ele costumava dizer que “Se pode matar um revolucionário, mas não se pode matar ideias”. Vinte e sete anos depois da sua morte, uma onda de protestos tomou Burkina Faso, e derrubou o Ditador Compaoré, que estava no poder desde o assassinato de Sankara. Muitos analistas acharam que poderia surgir uma “Primavera africana”, pois muitos jovens saíram às ruas para protestar contra ditadores e tiranos. Em muitos países foram reprimidos brutalmente, mas em Burkina Faso, com cartazes de “Estou aqui”(Referencia ao Thomas Sankara) conseguiram uma nova eleição, programada para Outubro de 2015. Com a instabilidade politica, os turistas (que normalmente não são poucos) acharam melhor esperar o resultado das eleições, e eu pude desfrutar este belo país só para mim.

Na pequena e empoeirada fronteira de Hamale, fui recepcionado por oficiais da imigração muito simpáticos, “Bon arrive! Ça va bien?”, frases que escutei em todos os controles de passaporte junto com “Benvindo à Burkina Faso”. Eu estava entrando nos países francofônicos da minha viagem, e a comunicação passava a ser um pouco mais lenta agora. Apareceu um cara oferecendo para fazer cambio. Nos meus cálculos rápidos a taxa oferecida era próxima da metade da oficial. Fui enrolando, conversando e olhando se encontrava outro lugar, mas não pareciam ter muitas opções para trocar dinheiro. Fui fazendo amizade, criando laços. Não tinha muitos Cedi (Moeda de Ghana) para trocar, mas fiz minha proposta. Dava um deságio de uns 8% da taxa oficial. Falei que sabia que ele precisava ganhar algum dinheiro, mas que eu não poderia ser explorado… Ele aceitou e me ajudou a encontrar transporte para seguir viagem. Novamente não tinham varias opções, somente um furgão que carregava mercadorias. Não aceitei de cara, sondei o preço com outros dos passageiros antes de comprar meu bilhete. O motorista dizia que só ia terminar de carregar e já sairia, mas eu sabia que não seria bem assim, por outro lado não tinha outra alternativa. Aguardamos por mais de uma hora. Ainda não era nem a metade da manhã, mas os transportes saem cedo por ali. Desta fronteira eu tinha duas opções, seguir para Ouagadougou (a capital) ou Bobo-Dioulasso (segunda maior cidade). Fui para Bobo, primeiro numa pequena estrada (com alguns controles de passaporte) e depois pela principal estrada do país, uma pista simples, sem acostamento, que corta Burkina Faso de leste a oeste.

Aguardando o transporte

Aguardando mais passageiros

Bobo-Dioulasso, chamada carinhosamente de Bobo, é uma cidade histórica, muito agradável e com algumas atrações bem interessantes. Fui chegando meio sem planos, e da parada do furgão pedi para o mototáxi me deixar na mesquita antiga, bem no centro da cidade. Com a cidade velha ao lado, e a mesquita a frente, esqueci das longas horas de viagem e fui correndo achar um hotel próximo. Não precisei caminhar duas quadras para achar um hotel simples, num preço razoável. A moeda em Burkina Faso é o CFA (Comunidade Financeira da Africa), aceita em nove países. É uma moeda “Forte” pois seu cambio flutua com o Euro (inclusive a França garante o CFA), mas o cambio é de 656 CFA para 1 Eur. Quando se busca qualidade, vai pagar o mesmo ou mais caro que na Europa, mas se viver como locais, pode conseguir verdadeiras pechinchas, principalmente quanto à alimentação.

Mesquita Velha

Mesquita Velha

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Perambulando pela parte histórica da cidade, fui cercado por guias oferecendo seus serviços. Com a queda do turismo, muitos ficaram ociosos. Para entender melhor, solicitei se alguém falava inglês. Com uma rápida ligação, chegou um nigeriano que me acompanhou pelos pontos de maior interesse. A cidade antiga, as tradições, história e todo o dia a dia naquelas casas de barro me encantaram. A Mesquita velha, com arquitetura sudanesa- parece um porco espinho- vai mudando de acordo com a intensidade da luz. Entrei, bati papo com o pessoal, subi no terraço, fiquei amigo do guardador de sapatos e até dei um livro meu de presente para ele. O grande mercado, assim como a estação ferroviária, apesar de construções novas, também tem arquitetura sudanesa, o que da um charme para a cidade. Uma cidade acolhedora, até mesmo os guias (que são chatos) batem papo depois de saber que você já contratou um guia para conhecer a parte histórica- e portanto não vai contrata-los. A boa localização do hotel foi essencial para explorar a cidade, perambular sem destino, de dia e de noite, sempre me sentindo muito seguro.

Cervejaria artezanal

Cervejaria artezanal

Casa mais antiga

Casa mais antiga, seculo XI

Ruas da cidade velha

Ruas da cidade velha

Portão do mercado central

Portão do mercado central

Me deliciei ao ver taturanas serem fritas no óleo. Filas de pessoas se formavam para garantir a sua porção. Eu pedi um sanduíche, mas depois de aprovado, solicitei uma porção extra para ficar petiscando enquanto via a vida passar.

O restaurante

O restaurante

O prato

O prato

Matando a fome!

Matando a fome!

Alem das vans superlotadas e dos furgões, existem ônibus de linha entre as principais cidades. Custam um pouco mais caro (ainda assim baratos), mas saem em horários marcados e são bem confortáveis. Fui de ônibus até Banfora, já perto da fronteira de Costa do Marfim e Mali. Um ótimo lugar para passar uns dias, cheio de atividades nos arredores. Tem tudo para ser um ponto de encontro de mochileiros que viajam pela região. Alias, encontrei um casal franco-mexicano viajando com sua filha de 3 anos, o que pode dar esperanças a todos os pais que gostaram da descrição de Burkina-Faso. Da para viajar com filho pequeno para lá sim!

O hotel que eu peguei era um pouco decadente e de higiene duvidosa, não foi das melhores escolhas. Fiquei um pouco irritado com a hospedagem pela primeira vez. Por sorte o quarto era somente para dormir, devido a tantas atividades na natureza. Você pode alugar uma scooter para explorar a região. Como quase todas estavam caindo aos pedaços, e eu estava sozinho, resolvi pagar o equivalente 2 euros a mais para alguém me acompanhar em cada passeio. Alem da segurança caso a moto quebrasse no meio do nada ( alguns lugares fica a 50 km de distancia) eu teria alguém para conversar.

Toda a paisagem rural da região é incrível, com suas casas tradicionais por todos os lados. Uma das poucas partes verdes de Burkina Faso, já que ao norte está o Sahel, sertão que beira o Saara.

Uma das poucas regiões verdes do país

Uma das poucas regiões verdes do país

Casas Tradicionais

Casas Tradicionais

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Meu primeiro destino foram os Les Pics de Sindou, formações rochosas com mais de 50 metros de altura e 3 km de comprimento, esculpidas pela erosão. Caminhar no meio dos paredões e depois escalar para curtir a vista foi incrível! Nestas alturas meu guia já tinha virado meu grande amigo e não queria nem cobrar para os outros passeios que eu queria fazer.

Pics de Sindou

Les Pics de Sindou

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Perto da bela vila de Tengréla, tem o lago de Tengréla, gostoso para relaxar e ver uns hipopótamos. Mas não se pode entrar na água, pois alem dos hipopótamos, dizem ter esquistosomose. Para se refrescar, o bom mesmo é ir na Chutes de Karfiguela. Novas vilas e curta caminhada até as pequenas quedas de água. Mesmo estando no inicio da temporada de chuvas, o volume de água estava muito baixo. Se não estavam tão bonitas devido a falta de água, estavam muito relaxantes!! Não muito longe das quedas d’água, atravessando grandes plantações de cana de açúcar, estão os Domes de Febedougou. Outras formações rochosas que se destacam no horizonte plano de Burkina Faso. Se em Sindou o melhor é andar entre as rochas, em Febedougou o mais legal é caminhar no topo curtindo o visual das arvores no meio das rochas. Fenomenal!

Domes de Febedougou!

Domes de Febedougou!

Caminhada no final da tarde

Caminhada no final da tarde

Cachoeira de Karfiguela

Cachoeira de Karfiguela

Banfora em si não é tão legal. Por estar próxima da fronteira é uma cidade de passagem, apesar de pequena, movimentada, com mercados improvisados. Vende-se de tudo, cabos velhos de computador, calculadoras estragadas, lampadas e roupas usadas. Ao contrario de Ghana, a mendigancia é comum em Burkina Faso, e crianças passeiam com pequenas latas para ganhar alguns trocados. Um restaurante chamado Mac Donalds é um dos melhores da cidade. Não é dos mais baratos, mas muito melhor que os da cadeia americana.

Mc Burkina

Mc Donald Burkina

De Banfora eu tinha que ir para o país Gorunsi, no sul de Burkina Faso, ao longo da principal fronteira com Ghana. Parecia que eu simplesmente poderia trafegar por estradas secundarias rumo ao leste, mas não existia transporte publico para lá. Mesmo com transporte próprio poderia levar dias, devido as condições das estradas. Não tive outra alternativa a não ser pegar a principal estrada do país (construída pelos americanos) e passar novamente por Bobo, seguir viagem até Ouagadougou onde faria nova conexão, desta vez até Pô.

Quando viajava com microonibus os controles de passaporte eram frequentes, já com ônibus eles nunca aconteceram. Pô é a porta de saída para Ghana, uma cidade importante na história recente de Burkina Faso, já que a revolução do país iniciou ali, assim como o golpe de estado que matou Thomas Sankara. De noite eu não me prorroguei muito no churrasquinho de bode e na cerveja para acordar cedo. Eu pretendia pegar o transporte publico até Tiébélé, que fica uns 30 e poucos quilômetros dali. Como sempre o transporte sai cedo, então lá estava eu preparado antes do sol nascer. Achei uma van que diziam que iria para lá, mas não tinha nenhum outro passageiro. Tentei pegar carona, mas o pessoal ia somente até as vilas nos arredores de Pô. Tomando um café e conversando com um mecânico que arrumava seu caminhão ao lado da barraquinha onde eu estava, ele ficou sabendo dos meus planos e conseguiu uma moto para me levar lá. Menos da metade do preço que me ofereceram na noite anterior. Aceitei e seguimos por paisagens rurais muito bonitas, arvores baobás cheias de folhas, muitas delas alinhadas ao longo da estrada.

Baobas ao longo da estrada

Baobas ao longo da estrada

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Em muitas vilas pude observar reuniões que agrupavam um grande numero de pessoas. Fiquei sabendo que estavam discutindo sobre as eleições que aconteciam dentro de alguns meses. Paisagem rural, mulheres com seus potes na cabeça, carroças e pessoas carpindo. O trajeto acabou demorando mais que eu imaginava, devido a condição da estrada, mas foi muito agradável. Chegando em Tiébélé fui direto na casa do Chefe do povo Gorunsi. Parece um condomínio, um aglomerado de casas de barro interligadas e com um muro ao redor. A arquitetura das casas é bem diferente das casas tradicionais que eu tinha visto em outras regiões de Burkina Faso, mas o que chamava mais a atenção eram as pinturas. Todo o muro era pintado, assim como as casas. Todas as pinturas tem um significado, contam lendas e costumes, alem de expressar a arte do povo. Neste aglomerado de casas moram mais de 130 pessoas, alem de diversos animais. Eles estavam trabalhando nas plantações, portanto o lugar estava calmo. Incrível aprender sobre o povo, e a funcionalidade das casas. Pude aprender um pouco sobre como funciona a segurança do lugar alem de algumas crenças e lendas. Belas pinturas e casas de barro precisam ser reconstruídas depois de algumas temporadas de chuvas. Claro que da trabalho, mas isto não deixa a técnica e a tradição morrer. No caminho procurava parar em pequenas vilas só para sentir como que eram. Podia ser para pedir informação ou para comer bolinhos fritos, uma espécie de sonho sem recheio.Sempre fui muito bem recepcionado.

Casa do chefe Gorunsi

Casa do chefe Gorunsi

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Já de volta a Pô, caminhando aleatoriamente eu encontrei uma igreja que estava lotada por ser domingo. Na saída todo aquele colorido e uma feira se formou de forma espontânea. Perdi um bom tempo alí só observando as pessoas, experimentando comidas e frutas até o horário do meu ônibus de volta para Ouaga (Todos chamam a capital,Ouagadougou, assim).

Mercado Pô

Mercado Pô

Saíporaí!

Saíporaí!

É uma viagem relativamente curta, poucas horas de viagem por uma estrada ok. Uma cidade toda espalhada, plana, com pouquíssimas construções com mais de 2 andares. Se é difícil imaginar que ali foi a capital do Império Mossi, mais incrível é que até hoje reis Mossi (uma das etnias do mosaico que é Burkina Faso) ainda tem autoridade e respeito de muitos. A cidade é uma grande vila, bem diferente de outras metrópoles africanas que conheci. Não encontrei jovens americanizados, de boné e camisetas de cantores de rap, tão comuns em cidades grandes do Leste da África. São poucas atrações, talvez a Catedral, toda feita de barro, a Mesquita principal e o discreto tumulo de Sankara. Sempre vale a pena passar pelo mercado central, movimentadíssimo. Até mesmo fora do Palácio Mogho Naba não se pode tirar fotos. Curti a cidade, fiz caminhadas, aproveitei os cafés e confeitarias (uma boa herança francesa) mas minha passagem por Ouaga tinha um propósito: Tirar o visto Entente. Este visto da direito a entrada em diversos países do Oeste da África e era imprescindível para eu seguir viagem. Chegando no escritório da imigração, para desespero meu escutei um “Não é possível”. Me desesperei internamente mas não perdi a postura. Tentei entender oque estava acontecendo. Seria a tentativa de corrupção? Tinha verificado as informações sobre os vistos com outros viajantes pela internet e parecia ok, se bem que não eram informações tão atuais. Para resumir a história, para me concederem um visto entente tive que tirar um novo visto de Burkina Faso, desta vez com múltiplas entradas e com 3 meses de validade. Um gasto que não estava previsto, uns 90 USD, de qualquer forma ainda mais barato ( e mais rápido) que se eu fosse tirar os 3 vistos que faltavam para completar a minha viagem (Mesmo com os 25000CFA do Entente).

A cultura dos cafés franceses pode se observada nas confeitarias espalhadas pela cidade

A cultura dos cafés franceses pode se observada nas confeitarias espalhadas pela cidade

O visto demoraria 3 dias para ficar pronto. Pedi um documento oficial, carimbado, comprovando que meu passaporte estava lá, e segui para o norte do país, Shahel a dentro. Sahel em árabe significa “Bordadura”, “Limite”, que nada mais é que o entorno do Deserto do Saara. Alias, para quem não sabe, Sahara em Arabe significa deserto.

Toda esta região do norte de Burkina Faso é muito interessante. Durante décadas cidades como Gorom-Gorom estiveram na rota turística dos viajantes do país. Hoje devido a problemas no Mali, pouco mais ao norte, a região não é recomendada pelos governos ocidentais. Para minha sorte, a pequena cidade de Bani, pouco antes de Dori, ainda esta em área segura. Quando eu programava a viagem pelo Oeste da África, o Eder do blog Quatro Cantos do Mundo se animou em viajar junto comigo (infelizmente acabou cancelando). Ele me deu a dica deste local que até então eu não tinha lido. Uma pequena vila, com casas de barro, carroças puxadas por burricos e mulheres com tecido colorido. Se só isto já tornaria o lugar interessante, ainda tem sete mesquitas que junto com a montanha, formam um homem rezando. As etnias mudam rapidamente quando se viaja pelo país, mas grande parte deles falam francês ou Jula, uma linha comercial que se desenvolveu nesta parte do Oeste da Africa.

Apesar de não ser tão longe, não foi tão simples assim chegar em Bani. Poucos ônibus, uma estrada lenta e tivemos alguns problemas. Dois pneus estouraram e passamos por uma tempestade na qual o motorista não conseguia enxergar nada. Primeiro tempestade de areia e depois muita água.

Imprevistos sempre acontecem!

Imprevistos sempre acontecem!

Apesar de estar viajando durante a temporada de chuva, foi o único dia que choveu durante o dia. Tiveram outros poucos dias em Ouaga que dava uma pancada no final de tarde, mas coisa rápida. Em Bani é possível alugar pequenas casas tradicionais, super simples, mas por bons preços, cerca de 3 Eur.

"Hotel" em Bani

“Hotel” em Bani

É um lugar muito especial. Pelas ruelas passam pastores com suas cabras, mulheres separam grãos utilizando o vento, e crianças brincam com rodas de bicicleta ou jogando bola. Em cima da colina as antigas mesquitas, muitas delas em péssimo estado de conservação. Mais embaixo a grande Mesquita, onde ocorrem as orações de sexta-feira. Imponente, toda de barro, com um grande minarete e arquitetura tipica. Fachada toda decorada, um espetáculo! Dentro os tapetes são feitos de peles de animais.

Mesquita toda de barro

Mesquita toda de barro

Fachada da mesquita principal

Fachada da mesquita principal

Mulher separando os grãos

Mulher separando os grãos

Ruas de Bani

Ruas de Bani

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Uma pena que as crianças em geral ficam pedindo presentes, resultado de turistas irresponsáveis que querem muito mais aliviar a sua consciência do que realmente ajudar.

Para voltar para Ouaga basta sinalizar um dos ônibus na beira da estrada. Os de longa distancia, que vem do Mali, normalmente estão lotados, mas não foi tão demorado para um parar.

Em Ouaga, depois de pegar o Visto Entente, deu para dar mais uma circulada. Fui conhecer a parte “Moderna”da cidade, resultado do projeto Zaca. Ainda na década de 80 iniciaram a construção de prédios comerciais de 3 andares na Avenida Kwame Nkrumah, onde seria o centro comercial. Bancos, hotéis e lojas ficariam ali, para dar uma boa impressão a quem chegasse do aeroporto, que fica logo ao lado. Pouco foi concluído. É diferente do restante da cidade, que basicamente tem um ou dois andares, mas não apresenta nada de mais.

Região comercial de Ouaga

Região comercial de Ouaga, parte rica da cidade

Ruas esburacadas e cidade espalhada

Ruas esburacadas e cidade espalhada

 

As fortes chuvas do final de tarde alagavam as ruas esburacadas, mas no dia seguinte já estava tudo seco. Meu hotel tinha um jardim no patio interno, onde seria agradável descansar se não fosse a quantidade de mosquitos e o alto preço das comidas e cerveja. Era um hotel econômico, um bom preço para uma capital (12 Eur para duas pessoas), mas se eu andasse uma quadra conseguia uma refeição por oito vezes o valor do hotel! Tirando a refeição que fiz no Mc Donalds de Banfora, acho que não gastei mais que 2 Eur em nenhuma refeição em Burkina Faso ( Normalmente 1 ou 1,5 mas cheguei a pagar 0,5 Eur num prato de comida). E não eram refeições ruins não. Senhoras com seus panelões servindo comida fresca em barraquinhas improvisadas. Peixe, frango e bode eram oferecidos com diversos acompanhamentos. Outra coisa barata é a água. Água mineral em garrafa é cara, mas eles vendem saquinhos lacrados de 500 ml que custa menos de 4 centavos de Euro! Com a vantagem de sempre estar gelada (ou perto disto). A desvantagem é a questão ecológica, já que provavelmente os saquinhos vão acabar parando no meio da rua. De sobremesa sempre comprava deliciosas mangas (grandes e doces!), que custavam 100 CFA (0,15 EUR). O pessoal adorava ver eu me misturando com eles nas horas das refeições, e sempre era um bom motivo para puxarem papo.

Adorei o país, e foi com tristeza que peguei um ônibus ainda de madrugada, que iria para Fada-Ngourma e de lá seguiria para a fronteira com o Niger. A estrada foi piorando cada vez mais. Eram poucos veículos, mas sempre superlotados. Dezenas de pessoas nas caçambas de caminhão, alem de motos , caixas e animais que pareciam ser difícil de se equilibrarem nas pilhas no topo dos furgões.

Controle de passaporte na saída de Burkina Faso, e as vilas que já estavam escassas desapareceram completamente. Era a terra de ninguém, por onde viajaríamos por vários quilômetros até a entrada de um novo país, Níger!

A Costa do Ouro e o Império Ashanti.

Ghana foi uma das primeiras colonias africanas a conquistar independência, em 1957. A Costa do Ouro se juntou com o antigo Império Ashanti e outros dois protetorados para formar o novo país. Historicamente não faz muito sentido, são povos e línguas completamente diferentes, mas como país “moderno” até que funcionou. Os primeiros europeus que chegaram na Costa do Ouro foram os portugueses, seguidos por dinamarqueses, holandeses e britânicos. As influencias de todos eles são fáceis de observar na arquitetura e no nome dos diversos fortes espalhados pela costa, de onde levavam escravos, marfim, pimenta e ouro, é claro.

Os guias de viagem apresentam o país como “Africa para iniciantes”, uma descrição bem precisa. É um país muito fácil de viajar, relativamente barato, riquíssimo culturalmente, seguro, e onde o inglês é língua oficial. Não por acaso muitos jovens ocidentais escolhem a região ara fazer trabalhos voluntários.

Eu cheguei na capital do país, Acra, depois de uma longa viagem via Joanesburgo (bom preço pela SAA). Era domingo, e tive uma impressão um pouco distorcida da cidade. Perto do aeroporto diversos casarões das embaixadas, avenidas largas e sem transito, com pouquíssimas pessoas na rua. Uma tranquilidade. Como voltaria para Acra, fui direto para um hotel que fica num subúrbio, perto dos transportes para a costa oeste do país. Ao lado anel viário que contorna a cidade uma grande favela, com casebres de madeira e telhado de metal. Apesar do tamanho do bairro, tudo também estava calmo. Fui descobrir que era uma favela com maioria dos povos do norte de Ghana, que são Muçulmanos (no sul são Amenistas e Cristãos). Estava bem no meio do feriado do final do Ramadã, Eid All-Fitr e todos deveriam estar em suas casas.

Cheguei no hostel, e claro que o preço era melhor do que se tivesse reservado antes. São poucos lugares no mundo que vale a pena reservar pela internet. Foi o melhor hotel de toda a viagem, o único com água quente e café da manhã e um dos poucos com wi-fi. A maior parte dos outros hotéis que fiquei não tem nem endereço na internet, porem são mais baratos.

Claro que a capital de um país populoso como Ghana não poderia ser tão tranquila. Depois de viajar pelo Oeste da Africa voltei para Acra para pegar o voo de volta para o Brasil, e encontrei uma cidade toda colorida, pulsante, cheia pessoas nas ruas.

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Mas no subúrbio onde eu estava não deu para perceber isto. Saí cedo, mas mesmo nos grandes pátios de transporte, apesar de movimentados, não estavam cheios. Devia ser por causa do feriado. O ônibus que queria não passou, então eu decidi pegar um “Tro-Tro”(lotação) até uma outra região de onde saem os Tro-Tros para as diversas cidades da costa.

Vendedor de marmitas em um Tro-Tro

Vendedor de marmitas em um Tro-Tro

Foi uma “climatização”. Eu era um dos primeiros passageiros, e eles só saem quando lotam. Numa viagem terrestre pela África não se pode ter pressa, tem que deixar as coisas acontecerem. Um alto-falante ficava repetindo o destino da van, e o cobrador insistia para as pessoas entrarem, mesmo que quisessem ir para outro destino. Dezenas de vendedores ambulantes, vendendo de tudo. Mas nada insistentes, não estavam vendendo nada para turistas. Vendiam roupa, marmita, água, escova de dente, perfume, qualquer coisa que alguém pudesse querer comprar. E o comercio informal funcionava, pois todos pediam para ver, avaliavam o produto, as vezes compravam. Um vendedor de espelhos fez sucesso no Tro-Tro que eu estava e vendeu diversas unidades. Todos os produtos são carregados na cabeça, independente da quantidade e tamanho.

Fiquei conversando com o pessoal, aprendendo sobre o lugar, cultura e observando atento o dia a dia dali. Quando esbocei um cansaço o lotação saiu.

Diversas obras de viadutos e estradas apontavam placas da construtura Queiroz Galvão, e na saída de Acra, uma placa de amizade de Ghana e Brasil, comemorando a parceria entre os dois países.

Uma estrada simples mas sem muito movimento leva até Cape Coast, antiga capital da Costa do Ouro e importante atração turística. Lá se encontram o imponente castelo Cape Coast e Elmina. Elmina vem de El Mina, antigo forte português São João da Mina. Existem dezenas de fortes e castelos espalhados por toda a costa de Ghana, muitos deles patrimônio da Unesco. Estes são dois dos mais famosos, mas outros são mais recompensadores. Como eu não sou muito destes lugares preparados para o turista, segui para Takoradi, onde peguei outro tro-tro para Agona Junction e um táxi coletivo por estrada de terra até a vila de pescadores de Dixcove. Uma pequena rua levava até a bela baía em forma de ferradura. Incontáveis barcos de pescas com suas bandeiras tremulando devido ao forte vento davam um clima para o lugar. As pessoas (assim como em toda Ghana) eram muito simpáticas. Difícil passar por alguém que não perguntasse, “Tudo bem”, “Fez boa viagem” ou “Bem vindo”. Não eram invasivos, mas sempre muito educadas. No meio daquela vila de pescadores, fervendo de gente, para cima e para baixo com frutos do mar, não foi difícil avistar o Forte Inglês “Metal Cross”, se destacando na colina esquerda. Parecia fechado mas um rapaz logo se dispôs a abrir e me contar a história do lugar por alguns trocados.

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Aquele forte vazio, quase fantasmagórico trazia a lembrança de todo o trafico de escravos que aconteceu na região, e que seria lembrado em diversos lugares desta viagem.

A calma e abandono do lugar contrastava com a vida e energia da vila de Dixcove. Em uma vila de pescadores nunca é difícil achar algo para comer. Foi rápido para achar um dos meus pratos preferidos, lula. Era numa barraquinha de rua, não tinha acompanhamentos. Perguntei se era seca ao sol, mas era frita. Não pensei duas vezes. Pegava a lula inteira e ia arrancando os pedaços dos tentáculos com os dentes. Uma delicia!!

Vista panoramiza de Akwiida

Vista panoramiza de Dixcove

Barcos de pesca em Akwiida

Barcos de pesca em Dixcove

Prato de Lula

Prato de Lula

Em Dixcove não existem hotéis para ficar, então tinha que escolher entre duas alternativas. O balneário de Busua, que tem diversas pousadas em uma praia maravilhosa, ou a vila de Akwiida, que tem uma ou outra pousada em praias perto. Como a ideia não era descansar, claro que optei por Akwiida e a praia de Ezile Bay logo ao lado.

Outro táxi coletivo (tem que voltar para Agona Junction) para mais uns 20 km de estrada esburacada que passa no meio de seringais utilizados para a extração de borracha, e cheguei em Akwiida. Rapida caminhada por uma região rural até Ezile Bay.

Ezile Bay é uma praia particular, com diversos chales simples na beira da do mar. Um pequeno restaurante e uma super vista. O tempo não estava ajudando muito e eu era o único hospede do lugar. Preço bom, em torno de 5 USD para um quarto coletivo, mas que fiquei sozinho.

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A dona da pousada mora na Europa, mas os três funcionários estão sempre atentos para qualquer hospede que apareça. Um vai e vem de pessoas não deixa o lugar ficar parado, afinal a vila é ali ao lado. Dividi meu tempo entre conversas com os funcionários, tomando banho de mar, brincando com as crianças, fazendo caminhadas e explorando a parte velha de Akwiida.

Ponte movimentada

Ponte movimentada

Ponte na parte velha da vila

Ponte na parte velha da vila

Akwiida

Akwiida

Uma pequena vila mas com um dia a dia muito ativo. Quem vive de pesca tem que estar trabalhando duro todo o dia para garantir o seu sustento. Este seria um ótimo lugar para terminar a viagem e descansar um pouco, mas devido a logística e aos vistos, tinha que começar por aqui.

Quando chegou o dia de partir, comi bem numa pequena feirinha antes de encaram um dos primeiros Tro-tro da manhã. Tinha uma longa estrada pela frente. Akwiida-Angora Junktion-Takoradi. Em Takoradi me recomendaram não pegar um Tro-Tro e sim um Ford, pois iria mais rapido. Eu achein que o tal “Ford”seria uma carro e não uma van. Na verdade muda só a marca do veiculo.

A medida que ia avançando em direção ao norte do país, o clima se tornava mais tropical. Regiões de florestas começaram a aparecer e caminhões carregando grandes toras faziam parte do senário. Nosso motorista era hábil em pagar propina,  assim que a policia parava o “Ford” ele discretamente deixava uns trocados com o oficial e era liberado após um rápido aperto de mão.

A chegada em Kumasi, a segunda maior cidade do país, foi cansativa. Quilômetros de congestionamento, filas que não paravam. Vontade de descer e seguir a pé, mas eu tinha que chegar no centro pois nem sabia onde iria me hospedar. Não foi difícil de achar um lugar bom e barato, alem de bem localizado. Incrível como me senti em casa rapidamente em Ghana. Sai para explorar o gigantesco mercado central, andei para cima e para baixo, inclusive a noite, sempre me sentindo bastante seguro. Comi muito “Comi” e “Fufu”, uma espécie de polenta pegajosa que comem junto com molho de peixe. É o mesmo que o “Ugali” tão comum no Leste da Africa.

Kumasi é a antiga capital do Império Ashanti, que dominou toda a região central de Ghana. Era um dos grandes fornecedores de escravos para os europeus e tiveram diversas batalhas até serem conquistados pelos ingleses.

Arredores do mercado central

Arredores do mercado central

Até hoje o rei Asante, “Asantehene” tem bastante influencia e um poder politico paralelo. Ele é bastante admirado pelo povo Akan que abita a região. É possível visitar seu palácio, o Manhyia Palace, onde tem um museu para conhecer um pouco mais da história do reinado.

Kumasi também é a cidade natal do Ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Descobri que por ali dão os nomes de acordo com o dia que a criança nasceu. Todos os meninos que nasceram em uma sexta-feira são chamados de “Kofi”! Se fosse no sábado seria “Kwame”.

Além da costa, algumas das regiões mais procuradas pelos turistas em Ghana ficam nos arredores de Kumasi, além do grande lago artificial Volta. Existem bons parques nacionais como o Mole, mais meu próximo destino era o extremo noroeste do país, já bem perto da divisa com a Costa do Marfim e Burkina Faso.

Só consegui um ônibus convencional, que saia “perto das 4 da manhã”, quando lotasse. Fui cedo para garantir o meu lugar. Não estava muito feliz por não ter encontrado nenhum ônibus um pouco melhor, mas logo me convenci de que era a melhor forma de viajar. Não pelo conforto, mas pela experiencia que tive. As pessoas que pegavam o ônibus, eram muito simples e tradicionais, todas com cicatrizes no rosto. As cicatrizes funcionam como uma especie de identidade para os povos de diversas regiões. Já tinha observado isto em um ou outro lugar em viagens que fiz no passado, mas nunca em tanta intensidade. Algumas tinham um risco longo que vinha desde o final do olho até perto da boca, outras três ou quatro riscos como se fossem um bigode de gato, outras uma pequena marca na bochecha. Era como se fosse uma exposição da vida real. Daria para fazer um ensaio fotográfico para um livro tamanha a variedade. Cheguei a pedir para tirar uma foto de um senhor que eu conversava em uma das paradas. Ele negou gentilmente, e logo se afastou, mudou a forma de conversar comigo. Não adianta, a maquina fotográfica atrapalha muito em viagens deste tipo. Tem que curtir o momento, gravar na memoria, caso contrario vai perder completamente o clima.

Ônibus convencional. As pessoas fogem das fotografias.

Ônibus convencional. As pessoas fogem das fotografias.

Muitas horas de viagem e a paisagem começou a mudar novamente. De floresta passou a ficar mais árido, tipo um sertão. Eu parecia uma criança quando avistei a primeira mesquita com arquitetura sudanesa, tão comum nesta região.

Cheguei em Wa e estranhei que o povo não era tão simpático e atencioso como no restante do país. Consegui encontrar um lugar para ficar, mas as pessoas não sorriam tanto. Tinha aquele clima de cidade de fronteira, meio terra de ninguém. Explorei a pequena cidade, a antiga mesquita que já está caindo aos pedaços no meio de casebres, mas o ponto alto foi o Palácio do Wana, chefe do povo Wala. Consegui conversar com o filho do Wana, mas ele disse que seu pai estava muito ocupado, que precisaria marcar uma audiência com bastante tempo de antecedência para ser atendido. Fiquei curtindo o palácio, todo feito de barro com uma arquitetura tipica. Brinquei com crianças e quando estava jantando um jovem com uniforme escolar se aproximou pedindo dinheiro. Foi a primeira pessoa que me pediu dinheiro em toda Ghana. Ele falou que era para comer, mas o cheiro de álcool era fortíssimo no seu halito. Eu tinha tempo e resolvi incomodar. Eu dizia: “Se vc quiser sentar e comer eu pago, mas para bebida não. E continuei: “Conheço pessoas que perderam tudo que tinham por causa da bebida…blá bla blá”. Ele me olhou assustado e mudou de assunto rapidamente: “O que é tecnologia para você?” Eu mereço, isto que dá ficar conversando com bêbado!

Palácio Wana

Palácio Wana

Antiga mesquita de Wa

Antiga mesquita de Wa

Je suis Ghana!

Apesar de já estar “próximo” da fronteira, isto não mudou o fato de eu ter que madrugar para pegar um Tro-tro antes do sol nascer. As estradas são péssimas neste cantinho abandonado do país, e os carros quebram. O nosso quebrou, arrumaram, quebrou novamente, transferiram para outro. Muitas pessoas iam para a mesma fronteira. Depois de tantos acontecimentos e viagem intensa você acaba ficando amigo de todo mundo. Estranhei que ninguém ia na direção da imigração quando chegamos na pequena Hamale. Ficamos por aqui diziam. Eu sabia que atravessariam a fronteira, mas muitos fariam de forma ilegal.

Caminhei até a imigração onde novos oficiais estavam sendo treinados. Oficiais mais experientes ajudavam no procedimento. Olhando o visto de múltiplas entradas o rapaz que me atendeu disse: “Volte logo, você é sempre bem vindo!” E assim caminhei pela estreita faixa de terra de ninguém até a imigração de Burkina Faso.

Destinos Invisíveis: Fora da rota turística

A Indústria do Turismo movimenta cerca de um trilhão de dólares anuais. Alguns países recebem mais de 80 milhões de turistas estrangeiros todos os anos. Não necessariamente estes são os lugares mais interessantes do mundo, são apenas mais conhecidos devido a diversos fatores, como proximidade, facilidade, estabilidade política e até mesmo divulgação feita pela mídia. Existem incontáveis lugares interessantíssimos, mas que não estão estampados nos cartazes das agencias de turismo. Esta viagem pretende mostrar um pouco das curiosidades, pontos turísticos e cultura de “Destinos Invisíveis” para a Indústria turística.

#DestinosInvisíveis

#DestinosInvisíveis

Ano passado fiz vendas de livros diretamente pelo blog, através de depósito em conta bancaria. Desta vez, para facilitar quem quer apoiar este projeto (e comprar livros!), resolvi montar um Crowdfunding (financiamento coletivo), que possui diversas formas de pagamento.

Quem quiser colaborar, ganhar livros e ler aqui no blog sobre Niger. Burkina-Faso, Benin, Togo e Ghana é só clicar em  http://www.kickante.com.br/campanhas/destinos-invisiveisfora-da-rota-turistica

Quem já tem o livro pode comprar para dar de presente, viu ;)

Deve mudar, mas este é o roteiro

Deve mudar, mas este é o roteiro

E ai, vamos para o Oeste da África?!

Que país é este?! – Índice dos países com reconhecimento limitado

São 193 os Estados Membros da ONU, porem existem outras nações “de facto” independentes mas com reconhecimento limitado. Alguns são bem acessíveis para viajar, outros nem tanto. Sempre importante lembrar que países onde o Brasil não tem relações diplomáticas você não tem assistência nenhuma em caso de dificuldades.

1- República da Transnístria

Lenin

Lenin

Reconhecimento: 3 estados não membros da ONU

Capital: Tiraspol

Moeda: Rublo da Transnístria

Visto: Emitido na fronteira, necessita de registro caso fique mais de 12 horas

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

2- Kosovo

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Ponte de pedra com a mesquita ao fundo

Reconhecimento: 109 estados membros da ONU

Capital: Pristina

Moeda: Euro

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

3- República da Abecásia

Novi Afon

Novi Afon

Reconhecimento: 4 Estados da ONU e 3 não membros

Capital: Sukhumi

Moeda: Rublo e Aspar da Abecásia (não muito utilizado)

Visto: Autorização de entrada pode ser solicitada por e-mail, visto necessário para a saída emitido no Ministério das Relações Exteriores

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

4- Chipre do Norte

Porto

Porto Girne

Reconhecimento: 1 estado membro da ONU

Capital: Nicósia

Moeda: Lira turca, Euro e Libra esterlina

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

5- República de Nagorno-Karabakh

Mesquita

Mesquita em Agdam

Reconhecimento: 3 estados não membros da ONU

Capital: Stepanakert

Moeda: Dram armênio

Visto: Emitido no Ministério das relações exteriores e necessário para sair do país (para entrar não precisa)

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

6- República da Somalilândia

Memorial de guerra

Memorial de guerra

Reconhecimento: Sem reconhecimento internacional

Capital: Hargesia

Moeda: Shilling da Somalilândia

Visto: Emitido na fronteira ou com antecedência em uma das ” Embaixadas”

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

7- Palestina

Free Palestine

Free Palestine

Reconhecimento: 138 estados membros da ONU

Capital: Jerusalem Oriental (ocupada), Hebron (provisória)

Moeda: Shekel

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

8- Saara Ocidental (República Árabe Sarauí)

Bases militares por todos os lados

Bases militares por todos os lados

Reconhecimento: 84 estados membros da ONU

Capital:  Laayoune (ocupada), Bir Lehlou (provisória)

Moeda: Dirham

Visto: Brasileiros não precisam

Relato: (Clique aqui)

Vídeo:

9- República da Ossétia do Sul

RSO- República da Ossétia do Sul

RSO- República da Ossétia do Sul

Reconhecimento: 4 estados da ONU e 3 não membros

Capital: Tskhinval

Moeda: Rublo

Visto: Autorização de entrada pode ser solicitada por e-mail com um mês de antecedência, visto necessário para a saída emitido no Ministério das Relações Exteriores

Relato: Devido a uma queda de barreira na estrada não pude visitar

Dos países “de facto” independentes ainda tem Taiwan, reconhecido somente por 21 estados membros da ONU, mas que eu ainda não visitei.

Existem muitas outras regiões que já foram ou gostariam de ser independentes, mas hoje fazem parte de outros países, portanto não sendo “de facto” independentes. Algumas foram transformadas em regiões autônomas (ou semi-autônomas) e Repúblicas, outras mantém governo no exílio.

Algumas destas regiões por onde eu já viajei:

Tibet

Relato: (Clique aqui)

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Curdistão

Relato: (Clique aqui)

no centro da cidade

Citatel de Erbil

República da Chechênia

Relato: (Clique aqui)

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República de Karakalpak

Relato: (Clique aqui)

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República da Ossétia do Norte

Relato: (Clique aqui)

Dargavs

Dargavs

Caxemira

Relato: (clique aqui)

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Xinjiang (Turquestão Oriental)

Relato: (Clique aqui)

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República da Inguchétia

Relato: (Clique aqui)

Torres Inguches

Torres Inguches

"O fato de que poucas pessoas vão,
é uma das razões mais fortes para viajar para um lugar"
- Paul Theroux

Pelas montanhas de Nagorno-Karabakh

Alguns conflitos entre a Armênia e Azerbaijão na disputa pelo Nagorno-Karabakh quase adiaram minha ida para lá. Um helicóptero derrubado, atiradores fazendo suas vitimas e campos de refugiados completando 20 anos… A região é mais um daqueles conflitos congelados. Historicamente o Nagorno-Karabakh – também chamada de Alto Karabakh em português – já teve autonomia, mas culturalmente é muito ligada à Armênia. Geograficamente para quase todo o mundo  faz parte do Azerbaijão, que dominava a região desde o final da primeira guerra mundial (dizem ter ligações étnicas com o povo original da região, mas isto é outra história). Já tiveram azeris morando lá (como minorias), mas desde a guerra de independência, quase todos foram expulsos ou mortos.

Um pouco de estudo e vimos que se não nos aproximássemos da “linha de frente”, divisa com o Azerbaijão, não teríamos problemas. Se é para explorar, resolvemos fazer bem feito. Nada de entrar pela “popular” rota Goris-Stepanakert. Usamos um caminho vindo do norte, atravessando o passe Sotk, por uma nova estrada que atravessa as montanhas. Nagorno significa “montanha” em Russo, Kara “Negro” em turco e Bakh “jardim”em persa, então com certeza valeria a pena o visual da “montanha do jardim negro”.

Nova estrada pelo Passe Sostk

Nova estrada pelo Passe Sostk

Nagorno-Karabakh

Nagorno-Karabakh

Desde o inicio já percebemos a influencia que a Armênia exerce na região. É como se fosse uma província armênia, idioma, placas, povo. Talvez tenha faltado um pouco o contato com karabakhs separatistas para ter uma ideia mais geral (com azeris já tínhamos conversado). Nem mesmo controle de imigração tivemos para entrar no país por esta estrada. Contornamos belas montanhas, seguimos pequenos riachos e uma hora ou outra aparecia um amontoado de casas. Tanques abandonados na beira da estrada e pequenos memoriais lembravam um pouco da guerra não tão distante.

Memoriais na beira da estrada

Memoriais na beira da estrada

Mas foi em Dadivank que fizemos nossa primeira parada mais longa. Um monastério incrível, construído entre os séculos 9 e 13, perdido no meio das montanhas! Foi fundado pelo Santo Dadi, que está sepultado na igreja principal. Existe um lento trabalho de restauração, mas parece meio abandonado. De qualquer maneira foi uma grata surpresa.

Primeira vista de Dadivank

Primeira vista de Dadivank

Monastério

Monastério

Mais estrada de terra, viajando por regiões remotas do norte do Nagorno-Karabakh (provincia de Shahumian). Já estávamos “quebrados” da viagem quando chegamos em Vank, uma das grandes atrações de NK. Lá que está o monastério Gandzasar (significa tesouro da montanha), um dos mais sagrados do país. Encontramos inclusive outros turistas estrangeiros por lá. A igreja principal é em homenagem ao São João Batista e possui algumas figuras talhadas na pedra.

Gandzasar

Gandzasar

No passado um morador local tentou a sorte na Russia e se deu bem. Quer dizer, mais ou menos. Enriqueceu muito, mandou dinheiro para a região, construiu um hotel bizarro, mas acabou sendo preso por se envolver na Mafia russa. Não preciso nem falar que por aqui ele é herói né?! Alem do hotel, restaurante e quase um “parque temático” ele ajudou na infraestrutura local. É possível de se observar novamente as marcas da guerra. Um longo muro coberto com as placas dos carros azeris é exposto com orgulho. Estes sinais aparecem em todos os lugares.

Placas dos carros azeris exibidas como troféus

Placas dos carros azeris exibidas como troféus

Algumas das bizarrisses do mafioso Karabakh-Russo

Algumas das bizarrices do mafioso Karabakh-Russo

Já bem mais perto de Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh, cabos aéreos ligam uma montanha a outra para impedir que aviões voem abaixo do radar. Mas o clima não é tenso, pelo menos não na capital. Uma cidade pequena, ruas arborizadas, praças floridas com wi-fi gratuito e cheia de pessoas.

A capital Stepanakert

A capital, Stepanakert

Chegada em Stepanakert

Chegada em Stepanakert

Depois de passar no Ministério de Relações exteriores para nos registrarmos e pegarmos o visto, pudemos caminhar tranquilamente e até tomar uma cerveja curtindo o entardecer de Stepanakert. Nosso motorista, Arman, é um franco-armênio, mas não conseguimos achar muito de francês nele. Tinha ideias bem radicais, quase fascistas eu diria. Tenho certeza que ele não gostou muito de algumas perguntas provocativas que fiz, mas bem ou mal acabava respondendo.

Ministério das relações exteriores

Reconhecido por poucos, mas é um país! Ou não?!

Florida

Flores e o palácio presidencial

Acabamos indo dormir na casa dele em Shushi, poucos quilômetros dali. Shushi já foi uma grande cidade, mas foi destruída na guerra. Lá era o centro da cultura azeri no Nagorno-Karabakh, portanto a sua população reduziu drasticamente. Algumas atrações como o antigo forte, igrejas e até uma mesquita valem a visita.

O apartamento do Arman é em um bloco soviético, estava meio que caindo aos pedaços, mas ele via como uma grande oportunidade. Tinha outros apartamentos e pretendia reformar para turistas. Morava com sua mulher a a pequena filha, que era um terror. Maltratou um gato da hora que chegamos até irmos embora, uma verdadeira peste! Dava pena. Ao contrario do gato, fomos bem tratados e alimentados. Um bom jantar regado a vinho era o que precisávamos para fechar o longo dia.

Jantar em Shushi

Jantar em Shushi

Vista do nosso quarto em Shushi

Vista do nosso quarto em Shushi

Mas nossas aventuras não tinham terminado. Logo cedo tentamos convencer o Armen a nos levar até Agdam. Não foi nem uma discussão longa, ele dizia Não, Não e Não. Impossível! Agdam é uma cidade fantasma, totalmente devastada e saqueada. Fica bem próxima da fronteira, na linha de combate, portanto proibida para estrangeiros. Ele alegava se nos pegassem ele poderia se complicar. Tentamos montar um plano B e falamos com um taxista. Ele aceitou nos levar, mas no inicio do caminho já começou com as regras: não pararia, não poderíamos baixar a janelas e não poderíamos tirar fotos. Regras demais para nosso gosto! Pedimos para nos deixar no patio dos transportes em Stepanakert mesmo. Lá fui negociar com o motorista do Lada mais velho que encontrei. Com certeza ele gostaria de fazer uma corrida mais longa. E eu estava certo! A comunicação não foi muito fácil, mas já ofereci um preço justo e fechamos negocio. Saindo de Stepanakert passamos por mais tanques abandonados, uma ou outra base militar e não demorou muito até nosso motorista nos avisar que estávamos em Agdam. Serio? Não tinha nada, só uns montes de pedra. Ele entrou no meio da “cidade” e existiam poucos vestígios das construções. Uma cidade de mais de 100 mil habitantes foi colocada abaixo. Saquearam as ruínas e retiraram tudo que poderia ser aproveitado em outro lugar. Sobrou pouco até mesmo do parque de diversões. Passamos por um ou outro posto de controle mas não nos pararam. A hora de maior adrenalina foi quando a nosso pedido ele nos levou até a antiga mesquita. Está destruída, mas os dois minaretes (Torres da mesquita) se mantem em pé, e podem ser visto de longe. Uma base militar fica logo atrás, portanto ele me vetou quando na empolgação pedi para descer. Eu queria escalar o minarete, mas realmente talvez não fosse uma boa ideia.

Mesquita

Mesquita de Agdam, uma das poucas construções em pé

Adgan, a cidade fantasma

Adgan, a cidade fantasma

De volta a Stepanakert, paramos novamente no monumento Papik Talik, e demos mais uma passeada pelo centro. Mais uma rápida passagem por Sushi e pegamos a estrada para a Armênia. Um zigue-zague pelas belas montanhas, novas discussões com nosso motorista radical, e chegamos no controle de imigração, onde entregamos nosso registro e fomos liberados.

Papik-

Papik-Talik, uma homenagem aos povos ancestrais das montanhas de NK

Stepanakert

Stepanakert

Stepanakert

Stepanakert

Propaganda por todos os lados

Propaganda por todos os lados

Registro

Registro

Depois de voltar para o Brasil, publiquei algumas fotos do Nagorno-Karabakh na internet. Não demorou muito para eu fazer parte de uma “lista negra”de pessoas que viajaram para lá. Oficialmente o Azerbaijão proíbe visitar a região que não controla. A fronteira que utilizamos é considerada ilegal. Seria a mesma coisa que entrar na Abecásia via Russia e a Geórgia ficasse sabendo. Uma pena, espero que não atrapalhe futuras visitas para lá, pois gostaria de conhecer o enclave Nakhchivan, que fica entre Armênia e Turquia.

Marcado

Na lista negra!