Paraíso desconhecido

Socotra e uma ilha que geograficamente, ou “tecnicamente”,  está na África, pois esta perto da Somália (250 km), mas politicamente pertence a Asia, ou oriente médio  pois pertence ao Iêmen. Separada e isolada do resto do mundo a milhões de anos, possui uma paisagem unica, alem de uma grande quantidade de especies endêmicas. Já foi chamada de Galápagos do Oriente, mas eu odeio comparações. Patrimônio da Unesco, mas pouco conhecida e visitada. Ainda bem…

Cuidado para nao se perder...

Saímos de Sanaa de madrugada, pois o voo era as 6 da manhã. Tava ate um friozinho. Nada comparado com Curitiba, mas para a região e frio. Sanaa esta no alto das montanhas, então a temperatura aqui e amena. Pegamos o voo com rápida escala em Al-Mukalla.   Depois de mais uma hora de voo estávamos sobrevoando a Ilha de Socotra, com varias montanhas, e aquela água azul transparente (oceano indico e f…).

To chegando

Não existe transporte publico na ilha, e de carona da para ir só para uma ou outra vila. Tínhamos alugado um carro com motorista ja de Sanaa para otimizar o nosso tempo. Ao lado da pista de pouso vários canhões e tanques apontando para o mar. Fiquei pensando quem invadiria aqui. Fomos para a “capital” Hadubo, que não fica muito longe dali. No trajeto ja deu para ver que as estradas eram muito boas, e a costa de tirar o folego. A cidade decepcionou. Super sem graça  não vale a pena perder tempo lá. Passamos rápido para comprar frutas e água e pegamos estrada. Como tava muito quente não demorou muito para fazermos a primeira parada, para dar um merecido mergulho na praia de Deleatia. Ficamos um tempo la, e só saímos quando estávamos satisfeitos. Nada de relógio por aqui…

Primeiro mergulho

Mais um pouco de estradas bem conservadas e tivemos que pegar uma trilha montanha acima, só possível com 4×4. Buraqueira, chacoalha, e a paisagem de montanha começou a aparecer, assim como uma bela vista. Vimos as primeiras Arvores “Dragon Blood”, tipicas da região. Elas tem este nome pois sua resina e vermelha. Esta e uma das especies que só é encontrada em Socotra.

SOCOTRA!!!!

Chegamos num “camping” super simples, praticamente sem estrutura. Sentamos em esteras na sombra para fazermos nossa primeira refeição  Eu que esperava um peixe, ou uma comida tipica fui surpreendido por arroz, feijão (enlatado) e Atum. Pra piorar não era aquele precinho camarada de Sanaa (1 USD por refeição). Pelo menos a quantidade era boa…hehe

Demos uma descansada e saímos para caminhar. Sabíamos que não tínhamos tempo para fazer uma trilha mais longa, e resolvemos seguir o vale, pois não teríamos dificuldade de achar o caminho de volta. Formações rochosas muito interessantes, e mais arvores diferentes. Muitas ” Desert roses”, infelizmente não floridas. Arvores “gordinhas” que lembram uma Baobab. Alguns poços com água  e um pequeno riacho, que a certa altura formou uma especie de Oasis, com palmeiras e vegetação mais densa. Logo chegamos a uma super paisagem. Um paredão de pedra, o final do canion, e aquela vista para a praia, la em baixo. Olhando para trás era montanha para todos os lados. Eu e o Guru sentamos separados. Ficamos um bom tempo em silencio, só contemplando a paisagem, e agradecendo a Deus por estar ali. O tempo foi passando, e nem eu nem ele nos mexíamos  Só resolvemos voltar quando já estava bem escuro, já com estrelas brilhando. Voltamos com calma, devagar pelo vale, tentando achar o caminho de volta, que não foi muito difícil. No nosso acampamento tinha uma Tcheca e um Alemão. Ela trabalha na ONU em Sanna, e ele veio visita-la. Ficamos conversando, tomando chá sob aquele céu estrelado, onde a Via Lactea estava tão visível que parecia que ia cair em cima da gente. Ela contou da burocracia que e trabalhar no Yemen, e de todas as dificuldades que tem para desenvolver projetos. Contou que todo dia usa burca. No inicio tentou não usar, mas recebia muitos olhares quando tava sozinha, muitas vezes faziam comentários em árabe  e chegaram até a jogar pedras numa região mais isolada. Mais fácil se adequar a cultura local.

Encosta

Ao lado do camping

Da para perder um tempo aqui ou nao?

Dormimos cedo, pois sem luz não tem como prolongar muito. Tava sentindo falta de acampar, ainda mais com um super visual daqueles. De noite ficou estranhamente úmido, e o orvalho cobriu a barraca. Qualquer coisa encostada na lona ficou bem molhada. De manhã tem que acordar com o sol, que e bem cedo. Mais um longo chá   boas conversas e arrumamos as coisas. A mochila foi com o carro, que nos encontraria la em baixo, perto da praia Wadi Shifa, no final da trilha pelo vale.

Desert Rose, pena nao estar florida

Fomos caminhando devagar, sem pressa nenhuma, parando curtindo o lugar. Quando começou a descida brusca tínhamos que achar o melhor caminho, e já no plano estávamos espremidos entre cercas e o rio. Tentávamos acompanhar o pequeno rio pelas laterais, mas muitas vezes as cercas e palmeiras não deixavam. Íamos pulando pelas pedras, dando um jeito. Caminhada muito boa, e quando estávamos chegando muitas crianças saíram correndo, fugindo de nós. Resmungamos algumas poucas palavras em árabe  provavelmente pronunciadas todas errado e elas começaram a aparecer de novo, falando Bye, bye…

Caminhada

Queríamos mergulhar ali na frente, mas o motorista falou que não nos arrependeríamos de esperar. Foi difícil, vendo aquele mar do nosso lado, água transparente com golfinhos a uns 30 metros da praia. La chegamos em Dehameri, praia inteira so para nos. Tinham “barracas de praia” com almofadas e esteiras, que fizeram a gente abandonar as barracas tradicionais para ficar ali. Fomos mergulhar e felizmente a água estava refrescante. Fizemos snorkling  ali perto, e surpreendeu muito. Muitas especies de corais, peixes de todos os tamanhos e cores, gigantescos cardumes apareciam de vez em quando e uma arraia de mais de um metro de diâmetro parou bem perto de onde eu estava. Boa visibilidade, melhor que muito scubadiving. Final de tarde os morros vermelhos logo a frente iam mudando de cor, e a brisa refrescava o calor que tava. Subi no morro e fiquei ate escurecer novamente, só curtindo o lugar.

Praia de Dehameri

Vista

Vista lateral do meu "quarto"

Voltando comemos arroz, molho de batata e 2 peixes beem servidos. Como o Guru e vegetariano ficou tudo para mim. Com o lampião deu para ler um pouco antes de dormir, e as estrelas iluminavam as frestas do teto de palha. O dia começa cedo, e por isto passa devagar, ainda bem. Deu para caminhar, mergulhar, curtir o lugar o quanto quisemos até partir. Desta vez rodamos um pouco mais, quase sempre pelo bom asfalto. Fomos até Diksen, outro canion, muito bonito. Como tivemos problemas com as datas dos voos, nao pudemos fazer caminhadas ali, mas ficamos um bom tempo curtindo o lugar. Mais estrada, desta vez sobe e desce pelas montanhas e beirando a praia, ate chegar no vilarejo de Galancia. As vilas aqui não tem muito charme, amontoados de pedra, tudo seco, desértico  Passamos por mais canhões e tanques antigos perto da praia, ate chegar no topo de um morro, com vista para duas praias. De um lado uma com um paredão, uma lagoa natural transparente feita pela maré, e um mar espetacular. Praia deserta, que pegaríamos um caminho contornando uns morros para chegar. A praia de Ditwah é espetacular, fantástica, e novamente so para nós. Aqueles lugares que você não sabe o que faz primeiro, tipo criança perdida no meio dos brinquedos que acabou de ganhar no natal.

Canion

Uma das praias de Galancia

Tanques antigos

O lugar mais obvio para o primeiro mergulho era na lagoa, ali na nossa frente. O problema e que andávamos e não ficava fundo, no máximo meio metro. Vi uma arraia, outra, de repente tava contando mais de 10. Num certo momento tinham perto de 20, 5o em volta da gente. Ficamos bem mais cautelosos para andar, para não pisar no ferrão de uma delas. Sorte que a água era transparente. Uma pequena faixa de areia e estávamos no mar. Para mergulhar tínhamos que praticamente desviar das centenas de siris de areia que tinham. Eles constroem tantos tuneis que o pé vai afundando na areia a medida que se anda. A vista do mar não era menos impressionante, com tantas montanhas, lagoa, dunas…

Esta praia e minha!!

Em protesto a extorsão no preço da comida fomos até a vila para comer. Achamos um pequeno restaurante, único lugar aberto, onde passava um filme indiano antigo e tinha uma boa audiência  Comemos, tentamos interagir apesar da dificuldade da língua e demos muita risada. De volta a praia dormimos nas almofadas, dispensando as barracas  novamente.

De manhã não recebemos chá, que sempre é oferecido com bastante frequência, acho que não gostaram que não jantamos ali. Consegui pegar água quente, e sempre carrego chá e cafe, então tava tudo bem. Mais caminhadas, banho de mar, tudo beeem devagar, curtindo o lugar, e parecia que sobrava tempo. Que lugar!!

Lado Sul

Lado Norte

Nem vou colocar todas as praias, mas olha a agua.

Só tínhamos que nos preocupar com o voo que era as 16 hs. Indo para o aeroporto, demos carona para algumas pessoas. Um senhor já de idade, que acompanhou nosso motorista na parada para rezar, e um estudante, que tentava falar inglês mas só entendiamos algumas palavras soltas.

O voo atrasou um pouco, e acabamos conhecendo um funcionário do aeroporto que vinha dar as noticias para nos. Tivemos longas discussoes se vinho era ou não prejudicial para a saúde e porque os muçulmanos podiam mascar Qat (na Arabia Saudita é proibido)  e não podem tomar vinho. Bem gente boa.

Socotra e daqueles lugares mágicos, únicos. Fora as boas estradas não tem nenhuma estrutura para turismo. Existem poucos simples hotéis em Hadubo, mas nem uma pousada, por mais simples que seja nas áreas de interesse. Talvez Socotra não seja para todo mundo, mas foi feita sob medida para mim!

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14 comentários em “Paraíso desconhecido

  1. Oi Gui, tudo bem?
    Que lugares singulares vc andou…e compreendo quando vc diz: “Talvez Socotra nao seja para todo mundo, mas foi feita sob medida para mim.”
    Tem lugares que nos abraçam de forma a nos sentirmos parte dele, integrados na sua energia…
    Cuide bem de vc e logo, logo da Bibi..
    Bjs de toda nossa familia

  2. Gui parece a Meia Praia, o lugar mais lindo do mundo, onde se pesca em frente do mar, onde se caminha até a Santinha.hehe

    Olha falando a verdade, nunca vi nada táo lindo como nestas fotos q vc registrou, por Deus é sem comentários,só no silencio!
    Aproveite e se cuide bem
    abraço

  3. Esse lugar foi o mais foda até agora. O que são as plantas, o mar? Até o tanque é sensacional! Areia branquiiiinha! Achei o máximo!

    E agora, com a Bibi, vcs estão aonde?

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